O umbral da desordem mundial (III)

(Continuação do artigo publicado na edição de 9 de Julho)

Os segredos ocultos nas sombras levantinas devem ser decifrados lendo a sua trama original como um grande tapete persa tecido pelo avesso, o ghali, na designação farsi adoptada pelo turco. Viremolo para estudar os nós que desenham a sua estrutura profunda ao longo da modernidade, começando pela rivalidade entre o império otomano, Estado Grande da Casa de Osman, governante durante séculos da Palestina hoje ocupada por Israel e as dinastias iranianas contemporâneas, dos Safávidas aos Cajar, com a posterior e irregular dinastia Pahlavi. Rivalidade permanente, abalada em 1948 pelo surgimento do Estado israelita, nave alienígena caída sobre terras sagradas de outra maneira. A ordem do dia em Jerusalém é combater hoje o Irão para preparar a derrota da Turquia amanhã.

É também uma forma de elaborar o luto pela eventual perda do Inimigo perfeito que é a República Islâmica. Considerada ameaça existencial pelas elites porque, até à ascensão de Ancara como pivô neo-imperial, não existiam outros adversários capazes de encarnar Amalec, o Mal absoluto da tradição bíblica. O paradoxo da guerra israelita é que está a combater o único adversário capaz de manter unidas as suas tribos cada vez mais heterogéneas. Assim, vencer significaria perder. Tragédia remediável erguendo a Turquia ao para-sultanismo de Recep Tayyip Erdoğan como novo Satã. O qual, por sua vez, eleva o Estado israelita à condição de demónio guiado pelo “novo Hitler”, que “se Deus quiser pagará o preço” dos seus massacres. Enquanto conta que os “nazis” de Jerusalém reduzam o poder iraniano.

Se realmente o Senhor afundar Israel, a única potência a dominar o Médio Oriente será a Turquia. Na fórmula do ex-primeiro-ministro e aspirante a sucessor de Netanyahu, Naftali Bennett: “A Turquia é o novo Irão”. Ancara encara a agressão israelo-americana contra Teerão como ameaça vital. Antes de mais, devido ao risco de migração em massa caso o Irão seja devastado. A República Islâmica funciona para a Turquia como uma esponja destinada a protege-la da entrada de multidões vindas do sul (Iraque) e do leste (Afeganistão). A tal ponto que o Estado profundo turco (Derin Devlet), império dentro do império de matriz kemalista, planeia penetrar, se necessário, nas ruínas do império iraniano para estabelecer ali uma zona tampão onde internar os potenciais refugiados. O barco está sobrelotado. A Turquia acolhe o maior número de refugiados do mundo, quase dois milhões e meio, 90 por cento dos quais sírios. O que aconteceria se chegassem os 3,8 milhões de afegãos que ainda vagueiam em território persa? Sem falar do possível avanço de curdos iranianos incitados pelos serviços americanos e israelitas contra o regime dos Pasdaran. E sem excluir que o colapso da complexa composição étnica iraniana antigo projecto da inteligência britânica empurre também os azeris da Pérsia para a Turquia, que, para não entrar em contradição com o seu panturanismo, teria de os acolher em nome da afinidade étnica.

A fricção turco-israelita vai muito além da emergência migratória e do impacto da guerra sobre a frágil economia turca, cuja inflação voltou a acelerar, levando o Banco Central a ponderar sacrificar parte das reservas de ouro para sustentar a lira. A estratégia do caos patrocinada por Netanyahu visa desestruturar, juntamente com o corredor imperial persa, a esfera de influência de Ancara, o chamado Mundo Turco, centrado no Médio Oriente, nos estreitos oceânicos, na Ásia centro-ocidental e nos Balcãs. Uma reinvenção ampliada do império otomano, pelo qual o Estado israelita se sentiria cercado e sufocado. A entrada dos turcos em Damasco ontem, e talvez em Gaza amanhã, coloca Jerusalém pela primeira vez frente a frente com uma grande potência adversária. O risco de guerra turco-israelita, especialmente na Síria penetrada por ambos, é real. As ligações de Erdoğan com o Paquistão e a Arábia Saudita levam Netanyahu a evocar um arco sunita radical potencialmente mais perigoso do que o xiita, entre Bagdade e Beirute, quebrado pela queda do regime sírio.

Neste contexto, Jerusalém persegue três objectivos. Primeiro, separar a Turquia dos Estados Unidos. Segundo, alimentar os conflitos regionais para manter sob pressão os antigos dominadores da Palestina. Terceiro, construir um sistema de alianças de duplo corte, anti-persa e anti-turco. Aqui, o Estado israelita tempera a sua visão apocalíptica com uma estratégia positiva ainda por definir que é uma cintura de contenção do imperialismo turco sunita e do enfraquecido crescente iraniano xiita. Netanyahu chama-lhe “Hexágono”. Na sua mente, a moldura externa do Grande Israel em construção. Inclui Grécia e Chipre onde a direcção anti-turca é explícita além de vários países do Médio Oriente, da Ásia e de África, entre os quais os Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Quénia. No centro deste esquema está a “aliança de ferro” com a Índia. Grande potência emergente, liderada pelo islamófobo Narendra Modi, recebido em Março por Netanyahu com excessos de honra. Duas potências tecnológicas com ampla cooperação militar, ambas interessadas em desenvolver circuitos comerciais alternativos às rotas chinesas para ligar Ásia e Europa através da Península Arábica e do Mediterrâneo, com eventual ligação ao norte adriático. Israel fornece a tecnologia, a Índia a escala económica e o mercado.

Israel e Índia cultivam a memória das afinidades entre sionismo e Hindutva, cujo ideólogo, Vinayak Damodar Savarkar, escreveu em 1923 “Se o sonho sionista se realizasse e se a Palestina se tornasse um Estado judeu alegrar-nos-íamos quase tanto quanto os nossos amigos judeus.” Hoje, a fusão entre para-democracia, radicalismo religioso e supremacismo étnico, marca de ambos, projecta uma imagem coerente deste alinhamento nada surpreendente. Com a diferença de que, enquanto Israel trata Bharat nome próprio da Índia de Modi, rejeição da designação britânica como aliado estratégico, em Nova Deli a palavra “aliança” é tabu. Em nome da astúcia transaccional de um colosso que não quer prender-se a nenhuma carruagem.

Da relação com os Estados Unidos e com a NATO restam sobretudo as bases militares que a União Europeia coloca à sua disposição, ainda que acompanhadas de reservas crescentes como se viu quando, no final de Março, vários Estados membros recusaram autorizar a escala de bombardeiros americanos em território europeu. Esse gesto, discreto mas significativo, revela um início de reavaliação do papel estratégico dessas infraestruturas, tradicionalmente entendidas como penhor transatlântico da segurança europeia. A guerra em curso demonstra, porém, que acolher meios militares americanos no próprio território pode transformá-los em alvos directos. É o caso, por exemplo, dos mísseis iranianos Khorramshahr4, cujo alcance é suficiente para atingir o espaço europeu.

Precisamente quando termina o fim da história e tudo nos convoca à responsabilidade por nós próprios, mergulhamos numa Grande Metáfora que substitui a realidade desagradável. O dever ser vendido como ser. Na retórica pública, suficientemente transversal, projectamos este universo imaginário com prodigalidade de fantasia. O hino: “A nossa pátria é o mundo inteiro”, cantado pelos anarquistas europeus refugiados na América no final do século XIX. A fé é a ONU como embrião de um governo mundial, com o diapasão do Conselho de Segurança a afinar todas as dissonâncias. O paradigma é a União Europeia, Super-Estado moralizador perante o qual recitamos os trabalhos de casa. Tudo sob o mágico guarda-chuva americano.

Detidos 28 cidadãos estrangeiros em Díli suspeitos de actividade ilegal ‘online’

A Polícia Científica de Investigação Criminal (PCIC) de Timor-Leste deteve ontem, em Díli, 28 estrangeiros, a maioria dos quais chineses, por suspeita de actividade ilegal de jogo ‘online’ e burla informática.

“A operação, realizada em conjunto com o Serviço Nacional de Inteligência Estratégica começou às 02h00 e permitiu identificar e deter os 28 suspeitos, indiciados por desenvolverem actividades num centro de burla informática e jogo ‘online’ na referida área da cidade de Díli”, pode ler-se num comunicado divulgado à imprensa.

No comunicado, a PCIC explica que os cidadãos chineses suspeitos de praticarem jogo ilícito em Timor-Leste já têm um “historial de envolvimento em actividades semelhantes no Myanmar, Camboja e Laos”.

“A operação da madrugada de hoje (ontem) insere-se no âmbito da investigação e dos esforços contínuos da PCIC no combate a redes de crime organizado transnacional suspeita de desenvolver atividades de burla informática e jogo ilegal ‘online’ em território nacional”, acrescenta-se no comunicado.

As autoridades policiais de Timor-Leste detiveram nas últimas semanas mais de 300 pessoas, na sua maioria cidadãos da China, do Camboja e da Indonésia, por suspeitas de envolvimento em actividades ilegais ‘online’, sobretudo relacionadas com jogo ilegal e fraude.

 

Más influências

Em Setembro do ano passado, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) alertou para o aumento da presença de redes criminosas em Oecusse, o enclave timorense situado em território indonésio, na ilha de Timor. Segundo o UNODC, investigações recentes demonstram que a região começou a ser influenciada por actividades criminosas organizadas.

Na sequência desse alerta público, o Governo de Timor-Leste decidiu cancelar todas as licenças anteriormente concedidas para operações de jogos e apostas ‘online’, bem como suspender a atribuição de novas licenças, devido aos riscos para a segurança e a estabilidade social.

Segundo o UNODC, quando redes criminosas digitais se instalam numa determinada região, “essa região torna-se frequentemente um centro de fraude cibernética, bem como de tráfico de droga e de seres humanos”.

 

ONU | Conselho de Segurança prolonga exigência de relatórios sobre ataques Huthis

O Conselho de Segurança da ONU renovou terça-feira, por mais seis meses, a resolução que exige relatórios mensais do secretário-geral sobre os ataques dos rebeldes Huthis no mar Vermelho.

A resolução, redigida pelos Estados Unidos e pela Grécia, foi aprovada com 13 votos favoráveis dos 15 Estados-membros do Conselho, com a abstenção da China e da Rússia. A representação russa argumentou que os rebeldes xiitas do Iémen não realizaram nenhum ataque a embarcações no mar Vermelho nos últimos meses.

A Organização Marítima Internacional (OMI) indicou, num comunicado de 06 de julho, que os riscos de segurança no mar Vermelho e no golfo de Aden têm aumentado, com “24 tentativas e incidentes consumados de pirataria e roubo armado contra navios na região” ao longo dos últimos três meses.

Além disso, em 05 de Julho, a organização de segurança marítima britânica United Kingdom Maritime Trade Operations relatou um ataque a um navio cargueiro por “agressores armados desconhecidos” ocorrido a 30 milhas náuticas [cerca de 55 quilómetros] da costa de Hodeidah, controlada pelos Huthis. Nenhum grupo reivindicou a autoria do ataque.

Depois da votação, o embaixador norte-americano junto da ONU considerou cristalino que os Huthis “são acólitos de Teerão” e “estudaram o manual da Guarda Revolucionária Islâmica”.

“Quando o Irão rapta civis, os Huthis também o fazem. Quando o Irão se esconde atrás de escudos humanos, os Huthis também o fazem. Quando o Irão ataca as infraestruturas civis do outro lado do golfo, os Huthis fazem o mesmo. Quando o Irão grita ‘Morte a Israel’ e ‘Morte à América’, os Huthis repetem palavra por palavra”, defendeu Mike Waltz.

“Então, se o Irão está disposto a ameaçar o estreito de Ormuz, quanto tempo levará até que os Huthis decidam mais uma vez espelhar os seus mentores, os seus ídolos em Teerão, e tentar fechar o mar Vermelho?”, questionou.

Waltz recordou ainda que foi aprovada uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que impôs um embargo de armas, proibindo o fornecimento, a venda ou a transferência de armamento e componentes para os Huthis, incluindo tecnologia e artigos de dupla utilização que alimentam os programas de mísseis, drones e vigilância dos rebeldes.

Troca de acusações

O diplomata norte-americano acusou então empresas e entidades na China de violarem essa resolução e de sofrerem “poucas consequências”, o que gerou indignação do lado de Pequim e um novo momento de tensão no Conselho de Segurança.

Os representantes norte-americano e chinês entraram numa troca de palavras, acusando-se mutuamente de responsabilidade pela crise no Médio Oriente.

“As acusações feitas pelo representante dos EUA contra a China são completamente infundadas. A China opõe-se firmemente e rejeita categoricamente estes ataques. A China cumpre e implementa rigorosamente as resoluções do Conselho e mantém uma postura cautelosa e responsável em relação à exportação de artigos militares e de dupla utilização”, garantiu o representante de Pequim.

Contudo, Mike Waltz alegou que estava apenas a citar dados do Mecanismo de Verificação e Inspeção da ONU, nos quais é indicado que mais de 70 por cento dos artigos de dupla utilização proibidos ou restritos apreendidos entre Janeiro de 2025 e Abril de 2026 tiveram origem na China.

O diplomata chinês pediu a palavra novamente para afirmar que a “conclusão aparente é que os EUA têm uma responsabilidade incontestável sobre a situação actual no Iémen e no mar Vermelho”.

“São os EUA que estão a obstruir os esforços deste Conselho para pôr fim às hostilidades e que permitem o prolongamento da crise em Gaza e a expansão das tensões (…). E no meio das negociações entre os EUA e o Irão, os EUA lançaram grandes ataques contra o Irão, mergulhando mais uma vez a situação da região num precipício perigoso”, acrescentou Pequim.

A votação ocorreu num momento em que o reinício das hostilidades entre Irão e EUA levanta novamente questões sobre a possibilidade de os Huthis retornarem ao conflito.

O Irão negou repetidamente que esteja a armar os Huthis, apesar das conclusões reiteradas de peritos da ONU e de governos ocidentais que associam Teerão a envios de armas e apoio militar ao grupo xiita iemenita.

Teatro | Peça para bebés é mote para apresentação de produções locais

A peça de teatro para bebés “O Bosque das Maravilhas”, que será apresentada entre 5 e 10 de Agosto, serve de inspiração para um encontro entre produtores e profissionais de teatro e artes performativas das regiões vizinhas e de Macau para explorar oportunidades de colaboração

 

O Instituto Cultural (IC) lançou um convite a representantes de “entidades de produção teatral, teatros e festivais de artes performativas para crianças do Interior da China e regiões vizinhas a deslocarem-se a Macau” para uma “Sessão de Apresentação de Programa Local”. A ideia é promover obras originais do sector das artes performativas de Macau e explorar oportunidades de colaboração.

A sessão está marcada para o dia 8 de Agosto, pelas 16h30, no Centro Cultural de Macau. A data coincide com a apresentação da peça de teatro para bebés “O Bosque das Maravilhas”, que subirá ao palco do Estúdio I do Centro Cultural de Macau entre 5 e 10 de Agosto.

A peça, que foi a quarta obra encomendada no âmbito do projecto “Comissionamento de Produções de Artes Performativas 2024-2026”, é um dos destaques da edição deste ano do Festival Internacional de Artes para Crianças de Macau.

“O Bosque das Maravilhas” foi criado pela prolífica produtora local Chan Si Kei, pela percussionista e compositora Yukie Lai, em colaboração com o director musical luxemburguês Jean Bermes e a coreógrafa austríaca Ela Baumann, e marca a continuação da peça apresentada no ano passado “O Bosque dos Sonhos”.

“A peça apresenta movimentos de dança ao ritmo de instrumentos artesanais e encantadoras instalações sonoras reveladas numa fascinante paisagem tridimensional. Através da improvisação e interacção física, a peça envolve a visão, audição e o tacto dos bebés, permitindo-lhes descobrir o pulsar da natureza através da brincadeira”, descreve o IC.

O espectáculo tem a duração aproximada de 45 minutos e destina-se a bebés entre 8 e 18 meses.

“O Bosque das Maravilhas” irá tomar conta do Estúdio I do Centro Cultural de Macau com três sessões diárias nos dias 5 a 10 de Agostos, às 11h, 15h e 17h.

Passos a seguir

Para participar na “Sessão de Apresentação de Programa Local” basta descarregar o formulário de inscrição do portal do IC e entregar o pedido até às 17h do dia 3 de Agosto. Os lugares são limitados e serão atribuídos por ordem de inscrição.

As inscrições estão abertas a associações ou companhias ligadas às artes performativas, legalmente registadas em Macau, ou a portadores de BIR com mais de 18 anos de idade.

A sessão será conduzida principalmente em mandarim, sem interpretação, e cada apresentação terá a duração máxima de 5 minutos.

Camião betoneira perde controlo e embate em talude na Taipa Grande

Ao final da tarde de terça-feira, por volta das 18h, um camião betoneira deslizou por uma encosta em direcção à Rotunda do Aeroporto e embateu nas barreiras que separavam a encosta da via pública. O acidente deu-se no estaleiro da Ligação Sul do Túnel da Colina da Taipa Grande e não provocou muitos danos, além do susto de ver um camião desgovernado quase galgar as barreiras de protecção e embater nos veículos que circulavam na rotunda. O impacto foi grande e alguns destroços da barreira de cimento foram projectados para a estrada, atingindo dois automóveis.

Os bombeiros revelaram que dois passageiros de um dos veículos atingidos apanharam um grande susto e acabaram por sofrer ferimentos ligeiros, como escoriações. Apesar de não levantarem preocupações de maior, acabaram por ser encaminhados de ambulância para o Centro Médico da Taipa do Hospital Kiang Wu.

Além do Corpo de Bombeiros, também o Corpo de Polícia de Segurança Pública enviou agentes ao local para apurar o que se passou. Segundo informação da polícia, citada pelo jornal Ou Mun, o camião deslizou cerca de 100 metros até colidir com as barreiras que protegem a estrada. Não foi determinado se o veículo pesado não teria o travão de mão accionado, ou se este falhou.

Como é habitual, o incidente foi captado e partilhado em vídeo nas redes sociais, onde se pode ver o impacto e a parte da frente do camião assente nas barreiras, com mais de metade da cabine do condutor suspensa no ar. Também é possível ver que as barreiras de cimento foram partidas ao ponto de ficarem expostas a barras de aço do interior.

Alto e pára o baile

Na sequência do acidente, a Direcção dos Serviços de Obras Públicas (DSOP) emitiu um comunicado relevando ter ordenado a suspensão total de obras no estaleiro em questão e enviado ao local agentes para acompanhar o caso. A entidade pública ordenou a vedação do local onde se deu o acidente e a limpeza dos destroços resultantes do embate que ocupavam a via pública.

A DSOP indicou na terça-feira à noite que iria realizar uma investigação exaustiva sobre a causa do acidente e se forem detectadas violações às normas de segurança e saúde no trabalho, estas serão tratadas com a devida seriedade, em conformidade com a lei.

Turismo | Sector acha insuficiente quatro guias a falar português

Apenas quatro de um universo de quase dois mil guias turísticos registados em Macau até ao final de 2025 sabem falar português, um número considerado insuficiente pelo sector. A precariedade da profissão é um dos entraves à entrada de novos guias que falem português

A Direcção dos Serviços de Turismo (DST) indicou ao Jornal Tribuna de Macau (JTM) que a RAEM contava, no final do ano passado, com um total de 1.851 titulares de Cartão de Guia Turístico, com apenas quatro a dominar a língua portuguesa. O número manteve-se inalterado nos últimos quatro anos, reforçou aquele departamento.

A China estabeleceu Macau como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003 e, graças a esse posicionamento, continuou a DST, o número de turistas oriundos destas geografias poderá retomar a trajetória de crescimento. Nesse sentido, os guias turísticos terão “certas vantagens”, concretizou.

Os visitantes de Portugal e do Brasil – o departamento de estatística do território não especifica os números das entradas de outros países de língua portuguesa – têm vindo a aumentar gradualmente desde a pandemia da covid-19, embora ainda não tenham alcançado os valores de 2019, de acordo com dados consultados pela Lusa.

Em 2025, entraram no território 14.331 portugueses e 12.258 brasileiros, números ligeiramente atrás dos registados em 2019 – 15.967 e 12.770, respectivamente.

E a DST prevê desafios para este scetor. “Quando o volume total de turistas for inferior ao das línguas dominantes, as receitas flutuarão bastante entre as épocas altas e baixas”, notou a direcção, referindo que disponibiliza desde 2016 cursos gratuitos para diferentes línguas para os profissionais do turismo.

Cidade internacional

Ao JTM, a União dos Guias Turísticos lembrou que não há falta de falantes de português em Macau, mas a própria profissão de guia carece de garantias básicas, como salário-base ou seguro de saúde. E guias de línguas minoritárias “agora não conseguem sustentar a vida quotidiana com o volume actual de trabalho”, reflectiu Nelson Hoi, diretor desta associação.

Sobre os quatro profissionais que falam português, Hoi considerou um número insuficiente para responder à procura. “Há muitos países de língua portuguesa e, com o desenvolvimento da economia e a melhoria das condições de vida, o número de turistas oriundos dessas nações tem vindo a aumentar”, disse ao JTM.

Hoi lembrou ainda que estes profissionais “são maioritariamente de idade avançada” e que, quando se reformarem, a oferta vai cessar. Por isso, pediu ao Governo para definir um plano e medidas para atrair as camadas jovens para este sector.

Aperfeiçoamento contínuo | Detectado mais um suspeito em caso de burla

Foram identificados mais suspeitos no caso de burla numa instituição de ensino para obter subsídios do Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo revelado no início de Junho. No mês passado, o Comissariado contra a Corrupção (CCAC) dava conta das suspeitas que recaíam sobre um responsável da instituição e 13 residentes de Macau. Agora, foi identificado mais um responsável da instituição e os residentes que terão passado por formandos são já mais de 40, segundo a informação revelada ontem pelo CCAC.

A investigação encontrou ainda indícios de que a burla ao programa público terá um valor superior a 200 mil patacas.

Os dois responsáveis pagaram recompensas pecuniárias, num valor equivalente a metade das propinas totais, como contrapartida para aliciar mais de 40 indivíduos a inscreverem-se em cursos. Alguns “formandos” usaram bilhetes de identidades de familiares, sem consentimento, para se inscreverem nos cursos e receberem a recompensa.

Os dois suspeitos da instituição e os mais de 40 residentes são suspeitos dos crimes de burla, uso de documento de identificação alheio e falsificação informática. O caso foi encaminhado para o Ministério Público.

Junkets | Mantido limite máximo de 50 promotores de jogo

Apesar do tecto indicado, na prática o número de junkets licenciados é de 29, mas U Io Hung, líder da Associação Profissional de Promotores de Jogo de Macau, afirma que estão activos menos de 20 promotores de jogo

O Governo manteve para 2027 o limite máximo de licenças para promotores de jogo em 50, de acordo com a informação da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), citada pelo portal GGRAsia. A opção da secretária para a Economia e Finanças, Ng Wai Hah, representa uma aposta na continuidade, uma vez que o tecto do número de junkets autorizados não sofreu alterações nos três anos anteriores.

O número de promotores de jogo com que cada concessionária está autorizada a colaborar foi igualmente mantido, um cenário que também não apresentou alterações nos três anos anteriores a 2027.

Segundo os limites de parcerias com junkets por concessionária, Sands China e SJM Holdings estão autorizadas a colaborar com um máximo de 12 junkets, cada uma. Por sua vez, a MGM China e a Melco Resorts & Entertainment podem, cada uma, pode trabalhar com até oito promotores de jogo. A Galaxy e a Wynn Macau são as concessionárias com menor número de potenciais parcerias, com um limite, para cada uma, de cinco colaborações com promotores de jogo.

Apesar da manutenção destes tectos, os números permitidos devem permanecer muito superiores à procura do mercado. É esta a visão de U Io Hung, líder da Associação Profissional de Promotores de Jogo de Macau.

Ao portal GGRAsia, U explicou que os promotores de jogo encontram-se actualmente “marginalizados” no mercado, devido à concorrência das concessionárias, que preferem angariar os seus clientes directamente.

Concorrência difícil

O dirigente da associação considerou que o número máximo de 50 está também desfasado da realidade, porque, apesar de até 7 de Julho haver 29 promotores de jogo licenciados em Macau, o número efectivamente activo é mais baixo, sendo mesmo “inferior a 20”.

U revelou também que o negócio dos junkets em Macau continua a sofrer “o forte impacto” das angariações directas de clientes VIP por parte das concessionárias de jogo. Esses esforços de marketing VIP directo incluem o jogo por referência, que envolve tipicamente a introdução de um cliente a um recinto de jogo por parte de outro cliente, explicou o junket veterano.

Os junkets também sofrem com o facto de terem de pagar mais impostos: “Os operadores de casinos estão a oferecer o mesmo tipo de serviço VIP directamente aos clientes. No entanto, os junkets de Macau continuam a suportar o imposto de 5 por cento”, apontou U Io Hung. “Assim, há menos margem para oferecermos comissões ou descontos [aos clientes] que sejam tão competitivos como o serviço VIP directo dos operadores”, acrescentou.

Actualmente, as comissões pagas pelos casinos aos promotores são alvo de uma retenção na fonte de 5 por cento.

Até 31 de Dezembro de 2022, os junkets estavam isentos deste pagamento de forma parcial ou total, dependendo da forma como eram feitos os pagamentos. Desde 2023, com a mais recente reforma legislativa do jogo, as isenções deixaram de estar previstas.

Sobre o futuro da indústria do jogo, U Io Hung afirmou não esperar grandes alterações no cenário actual do mercado, a não ser que haja novas alterações legislativas.

Habitação pública | Aberto concurso para arrendar 25 lojas com “desconto”

O Instituto de Habitação abriu concurso público para arrendar 25 lojas em edifícios de habitação pública, cinco na Zona A dos Novos Aterros. Devido ao “actual ambiente de negócios”, os preços de base estão abaixo dos praticados no mercado, além de os primeiros três meses serem isentos de renda

O Instituto de Habitação (IH) abriu ontem o concurso público para o arrendamento de 25 espaços comerciais em edifícios de habitação pública na Zona A dos Novos Aterros, Mong Há, Ilha Verde, Fai Chi Kei, Taipa e Seac Pai Van. O prazo para apresentação das candidaturas termina às 17h30 de 21 de Agosto.

O IH salienta que, tendo em conta o actual ambiente de negócios, e para reforçar a competitividade no mercado dos espaços comerciais de habitação pública, “o preço base do concurso é relativamente mais baixo que o praticado pelo mercado” e foram concedidos benefícios de isenção de renda nos primeiros três meses.

O preço base do concurso varia entre 3 mil e 45 mil patacas, com as áreas úteis das lojas a variarem entre 18,50 e 562,32 metros quadrados.

Este é o segundo concurso público para arrendamento de 25 espaços comerciais em prédios de habitação pública realizado este ano. As lojas situam-se em 11 prédios.

Na Habitação Social de Mong Há – Edifício Mong Tak estão em concurso cinco lojas, duas no Edifício do Bairro da Ilha Verde, um espaço comercial no Edifício Cheng I, duas lojas Habitação Social do Fai Chi Kei (uma no Edifício Fai Tat e outra no Tamagnini Barbosa).

Na Taipa, no Edifício do Lago existe uma loja para arrendar, enquanto nos complexos de habitação social de Seac Pai Van há oito lojas para arrendar, duas no Edifício Lok Kuan e seis no Edifício Ip Heng.

Regras do jogo

O IH destaca os cinco espaços comerciais para arrendar na Zona A dos Novos Aterros (três no Edifício Tong Seng, um no Edifício Tong Chong e um no Edifício Tong Kai). Este é o terceiro conjunto de cinco espaços comerciais na Zona A, “incluindo uma clínica e uma padaria, a fim de aperfeiçoar as instalações comerciais e os apoios à vida quotidiana dos residentes na zona.”

As autoridades indicam que os espaços estão destinados “à actividade comercial geral”, entre locais de venda de comidas e bebidas com ou sem fogão. Os espaços comerciais estão abertos, entre as 09h e as 14h, à visita de interessados até ao dia 27 de Julho.

O acto público de licitação verbal terá lugar a 8 de Setembro, às 10h30 e às 15h30, na Delegação das Ilhas do IH. Os espaços são adjudicados aos concorrentes que ofereçam a renda de valor mais elevado no mesmo dia. O valor de cada lance é de 500 patacas ou do seu múltiplo. O IH irá ainda realizar uma sessão de esclarecimentos sobre as regras da licitação a 2 de Setembro.

Futebol | Novos estatutos com China no nome e sem versão portuguesa

Com os novos estatutos, a língua portuguesa deixa de ser um meio de comunicação da AFM, e as alterações já se fazem sentir na divulgação com uma versão apenas em chinês. A AFM passa também a considerar que tem como dever obrigar os clubes a manter a neutralidade política

 

Associação Geral de Futebol de Macau-China. É este o novo nome da Associação de Futebol de Macau, de acordo com os novos estatutos que foram divulgados, ontem, no Boletim Oficial (BO).

Com esta modificação, Macau segue o exemplo de Hong Kong, que logo em 2023 alterou o nome de Associação de Futebol de Hong Kong para Associação de Futebol de Hong Kong, China.

Esta é apenas uma das várias alterações dos estatutos, que passam a contar com 69 artigos, um conteúdo mais detalhado em aspectos como a regulação das transferências entre clubes, receitas da associação, entre outros.

Para quem apenas domina o português, os novos estatutos representam uma perda de direitos, porque oficializam a relegação da língua portuguesa para segundo plano, numa situação de igualdade com o inglês. “A língua oficial da Associação Geral de Futebol de Macau-China é a língua chinesa, devendo todos os documentos e textos emitidos pela Associação ser redigidos nesta língua”, consta no artigo 8.º. “Os documentos apresentados à Associação podem ser redigidos em chinês, português ou inglês. Sempre que os documentos incluam a língua chinesa, esta prevalecerá em caso de divergência”, é acrescentado.

Este ponto contrasta com o que foi definido em 2011 no mesmo artigo: “As línguas oficiais da AFM são a língua Chinesa e a língua Portuguesa, devendo os documentos oficiais ser redigidos nessas línguas, no caso de existir alguma divergência na interpretação dos documentos a versão Chinesa prevalecerá”, era indicado. “A Língua Oficial usada na Assembleia Geral deve ser uma das línguas oficiais de Macau, com preferência para a língua Chinesa”, era acrescentado.

Esta alteração já produziu efeitos, com os novos estatutos a serem apenas publicados no BO em chinês, quando até agora tinham sido sempre publicados em ambas as línguas.

 

Neutralidade política

Com os novos estatutos, a Associação de Futebol passa ainda a entrar em campos políticos dos quais até agora tinha optado por se manter distante. Nesta área, os estatutos são mais semelhantes ao que se verifica em Portugal, com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e em Espanha, com a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), mas com diferenças políticas.

Segundo o artigo 3.º, a “Associação Geral de Futebol de Macau-China compromete-se a respeitar todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos e envidará esforços para promover a protecção de tais direitos”. Este artigo é semelhante ao artigo 3.º da Federação Portuguesa de Futebol: “A FPF respeita e promove a protecção dos direitos humanos”. Por sua vez, a RFEF apenas se compromete a promover “valores humanitários” no futebol e actividades relacionadas.

Outra questão abordada nos estatutos, é a neutralidade política. Os estatutos de 2011 indicavam que a AFM era “neutra em relação a assuntos políticos e questões da RAEM”. Este ponto é mantido, mas a AFM agora arroga-se o direito de levar a neutralidade para os clubes-membros: “A Associação mantém-se neutra em matéria política e religiosa, assegurando que os seus membros também mantenham essa neutralidade”, é apontado.

Com esta alteração, a AFM afasta-se do modelo espanhol, uma vez que a RFEF no artigo 1.º dos seus estatutos, tem uma alínea igual à dos estatutos de 2011. Já a FPF não aborda directamente a necessidade de manter a neutralidade política, apenas proíbe a discriminação com base em convicções.

Do oficial prussiano

Na intrepidez das guerras interrogamo-nos para sabermos das suas movimentações, só que a guerra é um exercício que está em mutação constante, a guerra é sempre intermitente e nenhum tratado de paz é garante de vida longa. A paz na terra deve-se sempre aos homens de boa vontade que são muitas vezes aqueles que a movimentam: um velho adágio nos diz isso mesmo «para fazeres a paz, prepara a guerra»

D.H. Lawrence deu a este enunciado um romântico e inexpugnável processo marcial que requer análise entre servo e senhor, uma componente hierárquica cuja erotização nunca anda longe do instinto guerreiro e nos consegue blindar numa dimensão quase supersticiosa. Estamos a falar de seres com testosterona, composições que estão na génese humana da guerra, do sangue e da matança, hierarquias onde toda a História se plasmou.

A compreensão do mundo passa pelo conhecimento da guerra quer queiramos quer não, e é mor saber que nada do nosso ser histórico a pode esquecer ou contornar. A esquerda moderna só perdeu a guerra por ter entendido que a ideologia, as causas fracturantes e os movimentos “woke” eram mais importantes que uma musculada preservação do estado social. Ao se esvaziar politicamente encontrou os velhos monstros intactos e agora bastante mais bravios por causa de épocas de descaso. A presente atitude missionária colidiu com a barbárie que ronca, não porque tivessem vindo de um outro mundo, mas porque o atavismo cavernoso esteve em guarda e nunca quis saber do progresso para nada. As suas leis são simples, as barricadas ferozes, que a antiga riqueza lhes veio da carne e dos ossos que tragam ainda como agentes eternos das cavernas. A noção social não lhes diz nada, são tribais, orgânicos, possantes, competitivos, com o córtex central atrofiado e vaidades de grupo do tempo em que apanhavam ouro do fundo da terra à dentada.

O autor dá-nos a saber: é preciso anular muitos pequenos tiranos – resultado de uma grande soma de parcelas- para a anulação do tirano máximo, capaz de exercer-se no espaço de uma nação, em todo o mundo. Foi um grande aviso, uma anunciação certeira do que viria pouco mais tarde a acontecer quando da sua permanência na Alemanha, onde esse exercício permanente que as sociedades devem fazer parece sempre gorado pela fragilidade burguesa que se submete, atraiçoando assim toda a esperança de renovação. Tais erupções são sempre acompanhadas por aquilo a que hoje designamos por masculinidade tóxica, que tudo isto nos fala de um drama bem mais profundo de representação «O Führer mandava para a morte os seus homens mais belos. Era a única forma de possuí-los a todos» Há muito para entender nesta neurótica manifestação filtrada «o celibato faz luxurioso o sexo dos sacerdotes, pervertido, enlouquecido, e deles nascem as Inquisições». Nenhuma riqueza do mundo, nenhuma consciência socializante pode ser incorporada neste corpo de desejo que forjou as suas leis até ao delírio prazeroso da crueldade.

 

A «felicidade na servidão» pode ainda ser comparável à «alegria no trabalho» e toda esta instrumalizante manobra vem de reinos antigos que não servem já o novo propósito andrógino e de transformação laboral. Esse pântano secou, e com ele foram cargas de servos encantados e senhores em solidão profunda somente interrompida pelos músculos jovens dos combatentes.

É!- A guerra é o Diabo. Ela não se mantém igual na longa caminhada histórica, sendo ferozmente adaptável, seguindo caminhos que toda esta estirpe guerreira já desconhece, não valendo a pena alongar bandeiras da paz que todos temos as nossas guerras por fazer que vão no leito dos rios abrindo caminhos que nunca observamos por inépcia numa velha estruturaparalisante de funestos encantamentos.

Muitos destes oficiais prussianos quando a derrota se lhes avizinhava, colocavam as suas luvas, esgrimiam as suas espadas, fardavam a rigor e iam para o campo de batalha com adversários de tecnologia avançada dando-se à morte como último ritual. Estes, D.H. Laurence não menciona, talvez porque fossem muito poucos.

Estas composições e artefactos armilares que por aqui andam devem por isso ser considerados sórdida serventia, um jugo extemporâneo, pois que algo de muito mais portentoso está por vir. O sémen, o sangue, e o território que enaltecem, é um fermento azedo de práticas ancestrais diluídas no lodo das suas perversões.

As tribos do futebol são bonitas e podem em seu treinamento e projeção unir Nações, e um dia quando tudo nos faltar, que sejam elas a tomar a dianteira para a estratégia defensiva das multidões. Só que a guerra agora é outra, e tanto faz que estrategas, blindados, competentes, sagazes, recrudescentes, misseis ou drones avancem, que perante o enunciado do crescente tecnológico, vamos todos perder.

 

A guerra do futuro não gostará das nossas guerras – nós parecemos não gostarmos uns dos outros – Que todos temos guerras injustas. « O Homem que morreu» do mesmo autor.

Banguecoque | Maioria das vítimas de incêndio em bar presa em WC

A maioria das 27 vítimas mortais do incêndio que deflagrou num bar com música ao vivo em Banguecoque foi encontrada encurralada em casas de banho sem janelas, onde terão procurado escapar às chamas, anunciaram as autoridades.

O fogo no bar Rong Beer Na Ladprao – o mais mortífero na cidade em 17 anos – deflagrou na noite de domingo, na zona norte da capital tailandesa, com os bombeiros a demorarem meia hora a controlá-lo.

Segundo responsáveis municipais, 25 pessoas permanecem hospitalizadas em estado crítico. O governador de Banguecoque, Chadchart Sittipunt, afirmou que a maioria das mortes resultou da inalação de fumo.

Na segunda-feira, o local estava isolado com dezenas de peritos forenses que procuravam pistas sobre a origem do incêndio.

As janelas viradas para a rua estavam destruídas e os passeios cobertos de destroços, incluindo televisores, colunas e uma guitarra elétrica carbonizados.

Jornalistas da Associated Press observaram garrafas de cerveja intactas sobre mesas queimadas através dos vidros partidos.

O bar, que se apresenta como cervejaria, dizia poder receber até 600 clientes. Não se sabe quantas pessoas estavam presentes na noite de domingo.

O centro de emergência Erawan indicou que 73 pessoas ficaram feridas, com pelo menos 27 mortos confirmados.

O chefe da Polícia da Tailândia, Kittharath Punpetch, disse que a maioria dos mortos foi encontrada em casas de banho sem janelas, junto a uma saída traseira, onde terão procurado refúgio.

Essa saída não foi utilizada, e estaria possivelmente bloqueada por uma mesa de venda de doces, com outra saída, perto da cozinha, talvez bloqueada por prateleiras e cacifos. Havia sinais de que algumas portas de emergência poderiam estar trancadas.

 

Investigação em curso

Os investigadores concentraram-se no tecto acima do palco, onde foram encontrados materiais decorativos. A polícia vai analisar se foram usados elementos inflamáveis e como estavam instalados os cabos eléctricos.

O primeiro-ministro, Anutin Charnvirakul, disse que um músico relatou ter visto fumo sair de um disjuntor antes de a energia falhar, seguido de uma explosão e da rápida propagação de fumo espesso.

Vídeos nas redes sociais mostram pessoas a fugir enquanto as chamas saíam do edifício de um andar e o fumo negro subia ao céu.

Em comunicado publicado na rede social Facebook, o bar fez um pedido de desculpas e apresentou condolências, garantindo estar a cooperar com as autoridades. O proprietário ficou gravemente ferido e está nos cuidados intensivos.

Familiares reuniram-se no Instituto de Medicina Forense de Banguecoque para identificar os corpos, com Keo Oudone Poungpany, de 24 anos, a reconhecer o irmão mais novo, ambos trabalhadores migrantes do Laos empregados no bar.

Poungpany disse que estava numa casa de banho exterior quando o fogo começou e descreveu o caos ao regressar: “O calor era insuportável, não consegui voltar a entrar. Agora só quero levar o corpo do meu irmão para casa, para os meus pais”.

Em 2022, um incêndio num bar de música no leste da Tailândia matou 14 pessoas.

Mais de uma década antes, em 2009, 67 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas num fogo durante a celebração de Ano Novo no clube Santika, em Banguecoque, aparentemente provocado por fogo de artifício no interior.

Físico quântico chinês recebe maior distinção da ONU para as ciências básicas

O físico quântico chinês Pan Jianwei tornou-se o primeiro cientista chinês a receber o Prémio Internacional Mendeleev para as Ciências Básicas, a mais alta distinção das Nações Unidas nesta área, anunciou a UNESCO.

Pan foi distinguido pela terceira edição do Prémio Internacional UNESCO – Rússia Mendeleev para as Ciências Básicas, atribuído anualmente a dois cientistas cujas descobertas e inovações tenham contribuído para avanços transformadores na ciência fundamental.

Segundo um comunicado divulgado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), o investigador foi reconhecido pelas suas “contribuições pioneiras para as comunicações quânticas seguras em grande escala e para a computação quântica escalável”.

Professor de Física na Universidade de Ciência e Tecnologia da China (USTC), Pan partilha o prémio deste ano com o químico Sergei Sheiko, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, distinguido pelos seus trabalhos na área da física dos polímeros.

A UNESCO destacou que a equipa liderada por Pan desenvolveu o satélite quântico Micius, lançado em 2016, que tornou possível a distribuição de chaves quânticas e a teleportação quântica ao longo de milhares de quilómetros.

A organização acrescentou que os trabalhos do cientista chinês permitiram demonstrar a chamada “vantagem quântica” na computação, aproximando a criação de uma rede global de comunicações quânticas.

Pan lidera igualmente a equipa responsável pelo Jiuzhang 4.0, o mais recente computador quântico fotónico desenvolvido na China.

 

Redes do amanhã

Em Maio, os investigadores anunciaram que o sistema fez um cálculo em 25 microssegundos que o El Capitan – actualmente o supercomputador mais potente do mundo – demoraria 10⁴² anos a completar.

No ano passado, a tecnologia de comunicação quântica desenvolvida pela equipa foi utilizada para estabelecer uma ligação segura de distribuição de chaves quânticas entre a China e a África do Sul, considerada um passo importante para futuras comunicações intercontinentais altamente seguras.

Pan revelou também que a equipa está a desenvolver o primeiro satélite de comunicações quânticas em órbita alta, cujo lançamento está previsto para o próximo ano e que deverá permitir a criação de redes quânticas globais mais eficientes.

Em comunicado, a USTC afirmou que a distinção “evidencia a posição de liderança internacional da China nos domínios de ponta da comunicação e da computação quânticas” e sublinhou que Pan é o primeiro cientista chinês a receber este prémio.

A Delegação Permanente da Federação Russa junto da UNESCO considerou que o trabalho de Pan constitui “um exemplo brilhante da ligação entre investigação científica fundamental e inovação tecnológica em grande escala”.

Além desta distinção, Pan foi também anunciado este mês como vencedor do Prémio de Electrónica Quântica da IEEE Photonics Society, atribuído pelo Instituto de Engenheiros Electrotécnicos e Electrónicos (IEEE), a maior organização técnica profissional do mundo.

A IEEE distinguiu o cientista pelo seu “trabalho pioneiro em fontes de fotões únicos e computação quântica óptica”.

Economia | Exportados mais de um milhão de automóveis em Junho

A China exportou pela primeira vez mais de um milhão de automóveis num único mês, em Junho, consolidando a liderança mundial no sector e aumentando a pressão comercial sobre parceiros comerciais como a União Europeia.

Segundo dados divulgados ontem pela Administração-Geral das Alfândegas da China, o país exportou 1,06 milhões de automóveis em Junho, mais 71,2 por cento do que no mesmo mês do ano passado.

Ao ritmo actual, a China deverá ultrapassar os 10 milhões de veículos exportados este ano, acima dos 7,1 milhões registados em 2025 e mais do dobro dos 4,9 milhões de 2023.

O desempenho das exportações automóveis contribuiu para um aumento global de 27 por cento das exportações chinesas em Junho, acima dos 19,4 por cento observados em Maio, enquanto as importações cresceram 36 por cento.

O excedente comercial da China atingiu 576 mil milhões de dólares no primeiro semestre, embora tenha recuado 4,7 por cento face ao mesmo período do ano passado.

O vice-director do Gabinete Nacional de Estatísticas, Wang Jun, atribuiu o crescimento das exportações de veículos eléctricos à transição mundial para uma economia de baixo carbono, afirmando que esta está a impulsionar a procura pelos “produtos verdes” chineses.

Além dos automóveis eléctricos, as exportações de baterias de lítio e de turbinas eólicas cresceram, respectivamente, 37,6 por cento e 35,6 por cento no primeiro semestre.

Em sentido contrário, as exportações de terras raras diminuíram 34 por cento em Junho, face ao mesmo mês do ano passado, e 6,4 por cento no conjunto do semestre, depois de Pequim ter reforçado os controlos à exportação destes minerais estratégicos, essenciais para diversas indústrias de alta tecnologia.

As importações foram impulsionadas sobretudo pela procura de semicondutores. A China importou 53,7 mil milhões de circuitos integrados em Junho, mais 6,8 por cento do que um ano antes, elevando o crescimento acumulado no semestre para 8,1 por cento.

 

Mudança de direcção

A aceleração das exportações automóveis ocorre num contexto de abrandamento das vendas no mercado interno, após o fim parcial dos incentivos à compra de veículos eléctricos e à quebra da procura por automóveis com motor de combustão.

A redução da procura doméstica levou fabricantes chineses e estrangeiros instalados no país a direccionarem uma parte crescente da produção para os mercados externos, uma estratégia que motivou a imposição de tarifas adicionais por parte da União Europeia sobre veículos eléctricos fabricados na China.

As autoridades chinesas rejeitam as acusações de que o sector beneficia de subsídios desleais, defendendo que a competitividade da indústria resulta da inovação tecnológica e das economias de escala.

 

No topo da lista

Entre os principais fabricantes, a fabricante BYD vendeu 175 mil veículos no estrangeiro em Junho, mais 95 por cento do que no mesmo mês do ano anterior, enquanto as vendas internacionais representaram um recorde de 43 por cento da produção da empresa.

A Geely exportou pela primeira vez mais de 100 mil veículos num único mês, ao vender 102.874 unidades no exterior, um aumento homólogo de 157 por cento.

Já a Chery, exportou 191.062 automóveis em Junho, mais 80 por cento do que há um ano, estabelecendo pelo quarto mês consecutivo um novo máximo mensal entre os fabricantes chineses.

FRC | Conferência abre hoje discussão sobre densidade urbana de Macau

A densidade urbana estará no foco da conferência que a Fundação Rui Cunha (FRC) acolhe hoje, a partir das 18h30. “How High can we go? Exploring the history of Macao’s urban density (1557) 1987-2024 (2049)” é o nome do evento que conta com os conhecimentos e experiências da académica Paula Morais, e a moderação de José Sales Marques.

Paula Morais lecciona Design Urbano e Planeamento na Bartlett School of Planning, da University College London. Os seus interesses de investigação incidem sobre áreas tão diversas como o design, planeamento e antropologia, com foco na urbanização e na transformação nos contextos União Europeia – China. A oradora fez investigação na London School of Economics para o Projecto EU-FP7 URBACHINA sobre urbanização sustentável, e foi responsável por vários projectos na qualidade de arquitecta.

Para hoje, as questões levantadas pela hiper-densidade urbana e o caso de estudo que é Macau serão o foco da conferência.

Em comunicado, a FRC contextualiza a sessão, referindo que “é hoje reconhecido que futuros sustentáveis são liderados pelas cidades, que são concebidas para serem socialmente inclusivas, melhor integradas e conectadas, e espacialmente compactas”. Compactidade e diversidade são referidos como indicadores essenciais da sustentabilidade social e espacial.

É também indicado pela organização do evento que a densificação tem sido considerada a solução chave contra o consumo de espaço e para alcançar uma forma de cidade mais sustentável. Esta visão começou a ser adoptada a partir da década de 1990 como uma estratégia principal de planeamento.

“No entanto, a solução não é tão simples como parece e os compromissos de densidade podem ser os problemas urbanos de amanhã”, refere a FRC como mote para a sessão do final desta tarde.

 

Espaço 1999

Até 2021, a RAEM era o local mais denso do planeta, com 20.806 pessoas por quilómetro quadrado. O território é definido por um ambiente urbano de baixa a média altura numa pequena área de 33,3 quilómetros quadrados (península e ilhas). “Em suma, Macau é extremamente compacta e com uma fronteira territorial fixa, pelo que continua a expandir-se por um processo de aterros. Além disso, é demograficamente hiper-diversa. Isto faz de Macau um “case study” único sobre a forma e densidade urbana quer na República Popular da China, quer em geral”, refere a FRC.

“Até à transferência da Administração para a China em 1999, a transformação urbana ocorreu sob um sistema de planeamento ‘laissez-faire’, suportado por uma economia política etno-poderosa dividida. Desde então, Macau está a ser redesenhada e redimensionada para integrar a Região do Delta do Rio das Pérolas até 2049 sob a fórmula ‘Um País, Dois Sistemas’”. Face a esta evolução, a organização da conferência indica que é imperativo discutir quão sustentável poderá ser o futuro de Macau, à medida que a densidade continua a aumentar, e saber até onde se pode ir.

Respostas para questões desta densidade serão dadas hoje ao final da tarde na FRC.

Supermercados | Snacks coreanos retirados após alerta irlandês

As autoridades anunciaram ontem a retirada de vários snacks instantâneos sul-coreanos da marca Yopokki dos supermercados do território, após a Autoridade de Segurança Alimentar da Irlanda alertar para potenciais riscos para a saúde destes produtos. O organismo responsável por garantir a segurança alimentar na Irlanda anunciou que os lotes de dez produtos da Yopokki, “estão a ser recolhidos devido a uma possível deterioração”.

Num comunicado, o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) indicou que tomou conhecimento do anúncio de que produtos da Yopokki, “incluindo bolinhas de arroz e massa instantânea com bolinhas de arroz em copo, podem estar sob risco de deterioração”, anunciado que “a retirada dos produtos está em andamento localmente”. Notando que continua a acompanhar o caso, o IAM “apelou ao sector que se tiver os produtos relevantes em estoques, para interromper o seu fornecimento e venda”.

Foram afectados lotes de produtos como o Yopokki Ricecake Cup Cheese flavour; Yopokki Ricecake Cup Sweet & Spicy flavour; e Yopokki Ricecake Cup Jjajang entre outros.

O IAM apelou ainda os consumidores para suspenderem o consumo destes produtos “que tenham sido adquiridos através de compras ‘online’, compras através de intermediários ou outros canais”.

Hepatite | Testes anónimos e gratuitos nos Três Candeeiros

Durante o ano passado, uma campanha dos Serviços de Saúde para controlar e prevenir a hepatite B levou à despistagem da doença, através de testes antigéno, a mais de 19 mil pessoas, e à detecção de mais de 1.300 casoas positivos confirmados, o que representa uma taxa de infecção de aproximadamente 6,8 por cento. Os números foram avançados ontem numa conferência de imprensa dos Serviços de Saúde, em antecipação do Dia Mundial da Hepatite, instituído pela Organização Mundial de Saúde, que se assinala no dia 28 de Julho.

Os Serviços de Saúde indicaram que estão a acompanhar actualmente cerca de 23 mil doentes com hepatite B, e que até ao mês passado, as servilços de consultas de hepatologia dos centros de saúde tinham atendido 2.866 doentes.

A partir deste fim-de-semana, as autoridades vão dar início a uma série de actividades para assinalar o Dia Mundial da Hepatite. No sábado, entre as 14h e as 18h vão estar a funcionar várias “estações pop-up” nos bairros residenciais da península e ilhas, montadas em colaboração com associações locais. Além de jogos, será divulgada à população informação sobre a prevenção e o tratamento da hepatite B.

Além disso, no dia 25 de Julho, no Centro de Actividades da Rotunda de Carlos da Maia, entre as 14h e as 17h, serão prestados serviços gratuitos de testes rápidos e anónimos ao antígeno de superfície da hepatite B.

 

A diferença que faz

As autoridades de saúde começaram no mês passado a providenciar gratuitamente testes ao antígeno de superfície da hepatite B a indivíduos a partir dos 40 anos de idade, diminuindo a idade mínima anteriormente estabelecida em 50 anos.

Entre 2010 e 2023, o sistema de registos médicos dos Serviços de Saúde identificava 26.759 casos positivos de hepatite B entre residentes. A estrutura etária das infecções é predominantemente composta por indivíduos com 50 anos ou mais, representando aproximadamente 70 por cento do total de casos positivos.

Ainda não existe uma cura total para a hepatite B, que continua a ser uma doença crónica, cuja progressão pode ser controlada eficazmente pela toma de medicamentos antivirais. Estes doentes crónicos normalmente não apresentam sintomas óbvios. Porém, a hepatite B pode danificar de forma progressiva o fígado e aumentar a possibilidade de o doente sofrer de complicações graves, como cirrose hepática e cancro hepático.

Cooperação | Académico diz que CPLP não se afirma junto da China

“A China não conhece a CPLP”, resumiu Luís Bernardino, professor da Universidade Autónoma de Lisboa e coronel de infantaria na reserva do Exército Português, que recentemente participou em duas conferências em Pequim, na Universidade de Estudos Internacionais de Pequim e na Embaixada de Portugal, sobre os 30 anos da organização, que se assinalam na sexta-feira.

“Uma coisa que não se conhece também não se sabe como pode tirar vantagem dessa relação”, acrescentou. Para Luís Bernardino, a organização “nunca se soube posicionar em relação ao Oriente” e continua afastada dos principais mecanismos criados por Pequim para aprofundar a cooperação com os países de língua portuguesa.

“O Fórum de Macau não é a CPLP. É um instrumento da China para facilitar a cooperação com os países lusófonos e vai continuar a crescer. A CPLP está fora desta jogada, por enquanto”, considerou.

Para Bernardino, essa realidade traduz a forma como Pequim privilegia uma abordagem simultaneamente bilateral e multilateral, estratégia que descreve como “cooperação ‘bimultilateral’”. “A China relaciona-se bilateralmente com cada país, mas cria também fóruns multilaterais que reforçam essa cooperação. É uma abordagem pragmática que mais nenhuma grande potência desenvolveu em África”, defendeu.

 

Adaptação das espécies

O especialista em Segurança e Defesa em África sublinhou que a relação da China com os países lusófonos está longe de ser uniforme. Enquanto com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) Pequim privilegia o financiamento de infra-estruturas, o comércio, o desenvolvimento e, cada vez mais, a cooperação na área da defesa, com o Brasil a relação assume uma dimensão geopolítica distinta, impulsionada pelo bloco de economias emergentes BRICS e pela cooperação entre países do chamado Sul Global.

“A China adapta a sua estratégia aos interesses que tem em cada região. Não existe uma abordagem única para todos os países da CPLP”, explicou.

No caso de Timor-Leste, Luís Bernardino considerou que a crescente importância estratégica do país no Indo-Pacífico deverá reforçar o interesse chinês, tanto pela posição geográfica como pela futura integração plena na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). “A China olha para Timor-Leste como um parceiro estratégico no Indo-Pacífico, pela sua posição nas rotas marítimas e pela crescente relevância regional”, afirmou.

 

Maior visibilidade

O investigador considerou ainda que a rivalidade estratégica entre a China e o Ocidente levou Pequim a reforçar a presença junto dos países lusófonos, sobretudo em África, onde a cooperação se expandiu para áreas como a segurança, a tecnologia e a defesa. “A cooperação deixou de ser apenas económica. A defesa tornou-se um dos pilares centrais da relação da China com praticamente todos os PALOP”, sustentou.

Essa evolução acompanha a transformação da presença chinesa em África, inicialmente centrada no apoio político aos movimentos de independência e, mais tarde, no financiamento de infraestruturas e acesso a matérias-primas.

Hoje, segundo Luís Bernardino, a estratégia inclui também formação militar, venda de equipamento, construção e modernização de portos e uma presença naval cada vez mais frequente no continente africano. “A China faz aquilo que uma potência global tem de fazer. É uma potência económica, mas sabe que também precisa de afirmar uma dimensão militar”, afirmou.

Apesar da crescente influência chinesa, Bernardino considerou que os países lusófonos, em particular os africanos, ainda não conseguiram retirar todo o partido dessa relação. “Há uma dependência crescente, sobretudo financeira. Os países têm de aprender a negociar melhor com a China e transformar esta cooperação numa verdadeira parceria estratégica, sem criar dependências excessivas”, defendeu.

O especialista considerou, por isso, que o maior desafio da CPLP, três décadas após a sua criação, passa por aumentar a sua visibilidade internacional e afirmar-se como interlocutor relevante junto de parceiros estratégicos como a China.

“A CPLP é aquilo que os Estados-membros querem que ela seja. Se os próprios países não a valorizarem nos fóruns internacionais em que participam, dificilmente outros actores globais o farão”, disse.

Hengqin | IAS vai aumentar apoio às famílias

O Instituto de Acção Social (IAS) organizou uma reunião com representantes de associações estabelecidas em Hengqin, e prometeu introduzir mais serviços de apoio familiar na Ilha da Montanha. Segundo um comunicado divulgado ontem, a chefe do Departamento de Serviços Familiares e Comunitários do IAS, Lei Lai Peng, indicou que o plano educativo da vida familiar em Hengqin será reforçado. Estes planos incluem apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade, apoio à comunicação entre familiares, gestão e divisão de tarefas domésticas, técnicas para procurar um equilíbrio entre emprego e família. É também fornecida assistência para ajudar a lidar com relações intergeracionais, para incrementar conhecimentos tecnológicos e proteger crianças. Olhando para os próximos seis meses, as equipas das associações em Hengqin vão organizar visitas às instituições dos serviços sociais, geridas pelo Governo conjunto da zona de cooperação, relacionadas com questões familiares de bem-estar da população.

 

Guangdong | Ex-governador e ex-líder de Henqgin expulso do PCC

A agência Xinhua anunciou ontem a expulsão de Ma Xingrui, ex-governador da província de Guangdong, do Partido Comunista da China (PCC) na sequência de uma investigação da Comissão Central de Inspecção Disciplinar, autorizada pelo Comité Central do PCC.

Como é hábito nestes casos, foi revelado que Ma Xingui “perdeu os seus ideais, convicções e orientações políticas, traiu o propósito e a missão original do PCC, violou gravemente a disciplina e as regras políticas”, negligenciou a supervisão e gestão de graves violações da disciplina e da lei, assim como de crimes, cometidos por colaboradores seus.

Importa salientar que Ma Xingui presidiu, em conjunto com o então líder do Governo da RAEM, Ho Iat Seng, à Comissão de Gestão da Zona de Cooperação Aprofundada de Hengqin, que funciona como uma espécie de Executivo da Ilha da Montanha.

Ma é acusado de procurar benefícios para terceiros na selecção e nomeação de quadros e ao arranjar empregos para terceiros, de aceitar presentes e dinheiro em violação dos regulamentos, ao ajudar familiares a adquirir habitações a preços reduzidos ou a utilizarem o seu cargo para obterem lucros avultados. Casos que a Comissão Central de Inspecção Disciplinar categoriza como “corrupção familiar de grande escala”.

 

Perda de ideais

O ex-governador da província vizinha é também acusado de “beneficiar terceiros em operações comerciais, adjudicação de projectos e promoções, e aceitando ilegalmente avultadas quantias de dinheiro e bens, quer por conta própria, quer em conluio com familiares e pessoas especificamente ligadas a si”. Como é habitual nestes casos, não são identificadas as pessoas que terão concedidos as “avultadas quantias de dinheiro e bens”.

Além da expulsão do PCC, Ma Xingrui foi destituído de todos os cargos públicos que exercia, incluindo enquanto delegado na Assembleia Popular Nacional, os bens “obtidos ilegalmente” foram confiscados e o caso foi remetido para o Ministério Público. Frequentemente, estes processos terminam com a condenação a pena de morte, que passa a suspensa e acaba por ser comutada para prisão perpétua.

Ma é o terceiro membro do Politburo do PCC, composto por 24 membros, seleccionado durante as Duas Sessões de 2022 a ser alvo de procedimentos disciplinares.

Ma Xingrui participou em várias reuniões de trabalho com o Executivo da RAEM para cooperação no combate à pandemia, para o desenvolvimento de Hengqin, mas também em matérias económicas, fronteiriças e, inclusive recebeu Ho Iat Seng durante um périplo do Executivo de Macau por cidades da província vizinha.

Iao Hon | Efectuada inspecção a instalações eléctricas em edifícios degradados

Seguindo a série de reuniões de segurança, após as “importantes instruções do Presidente Xi Jinping” em matérias de segurança, prevenção de cheias e resposta a desastres naturais, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam presidiu a uma reunião onde o ponto fundamental da agenda foi a segurança urbana e a promoção da manutenção e renovação de edifícios.

Segundo um comunicado do Governo emitido ontem, Raymond Tam referiu que o Governo irá criar uma base de dados de edifícios degradados e apostar na renovação urbana tendo em conta a recente revisão do regime de subsídios para a manutenção de edifícios.

Raymond Tam exigiu também a realização de inspecções conjuntas à segurança estrutural e eléctrica de edifícios nos bairros mais antigos, para identificar potenciais riscos de segurança, reduzir riscos de acidentes e proteger a segurança pública.

As primeiras inspecções às redes eléctricas tiveram como foco os sete edifícios do bloco de habitação pública do Iao Hon, com inspecções técnicas à segurança estrutural, incluindo as paredes exteriores do edifício, as lajes das áreas comuns e as escadas.

A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental, em colaboração com a CEM, fez uma vistoria “exaustiva” do funcionamento e manutenção das instalações eléctricas públicas do edifício, verificando a existência de fios envelhecidos e danificados, fugas de corrente e a possibilidade de ocorrência de curto-circuitos e sobrecargas.

Habitação | Leong Hong Sai quer mais medidas para reparar edifícios

Depois do aumento do limite do Fundo de Reparação Predial e da alteração do seu âmbito, o deputado Leong Hong Sai elogiou a revisão, mas espera que o Governo lance mais medidas.

Em declarações ao jornal Exmoo, o deputado dos Moradores deu como exemplo um caso em que são necessárias obras de manutenção nas paredes exteriores do prédio. Como este tipo de intervenção pode custar mais de um milhão de patacas, o alívio do fundo público é insuficiente. As dificuldades são maiores nos edifícios antigos, que normalmente têm poucos apartamentos, aumentando os custos da reparação para cada proprietário.

Outra questão levantada, é a necessidade de concordância de 25 por cento dos proprietários para pode accionar o fundo comum de reserva do condomínio. Leong Hong Sai apontou a dificuldade em avançar com despesas, uma vez que o nível de participação nas assembleias de condomínio é sempre demasiado baixo para obter votos suficientes.

Porém, a falta de administração, ou de empresas de gestão, é o maior obstáculo que os proprietários enfrentam para pedir o apoio do Fundo de Reparação Predial. Assim sendo, Leong Hong Sai sugeriu ao Governo a cooperação com associações, como aquela em que o deputado é vice-presidente, para apoiar no estabelecimento de administrações de condomínio, e a simplificação dos processos de pedido de subsídios para reparação predial.

Cheias | Chan quer prevenção de acordo com “importantes instruções” de Xi

O secretário para a Segurança, Chan Tsz King, presidiu na segunda-feira a uma reunião no Centro de Operações de Protecção Civil que serviu para analisar a eficácia das operações de protecção civil, identificar riscos de segurança, avançar com medidas de prevenção de catástrofes e resposta a emergências durante a época das cheias.

O fio condutor para os trabalhos a desenvolver serão “as importantes instruções do Presidente Xi Jinping em matéria de prevenção de inundações e socorro em caso de catástrofes”, apontou o secretário. Chan referiu também a necessidade de cumprir as exigências do Chefe do Executivo no que toca ao reforço da segurança global de Macau, da salvaguarda da harmonia e a tranquilidade de Macau, bem como a segurança da vida e dos bens dos residentes.

O secretário apontou a necessidade de firmeza ideológica em áreas como prevenção e resposta a catástrofes naturais, segurança contra incêndios, e protecção da ordem pública e das infra-estruturas críticas. Assim sendo, Chan Tsz King exigiu aos líderes e supervisores que reforcem a educação e a formação ideológicas para consolidar, desde a origem, o sentido de responsabilidade e dedicação do pessoal, estabelecer valores profissionais correctos e fortalecer os alicerces ideológicos da equipa de gestão da segurança de Macau.

 

Trocado por miúdos

Em termos práticos, o secretário apelou a todos os departamentos da administração para acelerarem a preparação para prevenção de catástrofes, optimizando planos de contingência e a consolidação do stock de materiais, tendo em conta o início da época de tufões.

O secretário para a Segurança destacou também a importância de exigir responsabilidade empresarial e reforçar a supervisão para prevenir riscos que resultem do envelhecimento de edifícios, a atenção para a gestão de materiais perigosos em períodos de altas temperaturas, assim como para a segurança em eventos de grande escala e feriados. Foi também referida a importância de proteger edifícios históricos.

O governante salientou ainda que a segurança das zonas turísticas tem um impacto directo na imagem da cidade de Macau, e que é fundamental “prevenir rigorosamente os furtos, assaltos e incidentes extremos e repentinos”. Para tal, Chan pediu planos de mobilização do pessoal da linha da frente e de resposta a emergências mais robustos, para garantir a segurança de residentes e visitantes e manter a imagem de Macau como uma cidade segura, habitável e acolhedora para os turistas.

Mais vale ser do que parecer

Todos os anos, a época de exames decorre entre Maio e Julho. Quer seja no ensino privado quer seja no público, trata-se do período em que os estudantes têm oportunidade de demonstrar os seus conhecimentos. Devido às diferenças de aptidões, capacidade de trabalho e antecedentes familiares dos alunos, os resultados que cada um obtém variam entre si. Independentemente disso, as notas têm um peso determinante nesta fase da vida de um estudante.

Se um aluno tiver notas excelentes, pode continuar os estudos sem qualquer problema e o mercado de trabalho dá-lhe prioridade; Alunos com alto desempenho têm uma vantagem inicial. Os alunos com notas baixas precisam de decidir se repetem o ano ou abandonam a escola para procurar trabalho e seguir outro caminho. Qualquer destas possibilidades é válida.

No entanto, o futuro dos estudantes que obtêm boas notas fazendo “batota” é uma questão completamente diferente.

Quando navegamos na internet, não é difícil perceber que, com o crescimento da inteligência artificial (IA) nos últimos anos, as ferramentas que permitem defraudar os exames estão a tornar-se cada vez mais sofisticadas. Os smartglasses e os smartwatches tornaram-se uma das ferramentas mais comuns para este fim. Com os smartglasses, os alunos, se baixarem a cabeça, passam as perguntas para a IA que lhes responde de imediato, permitindo-lhes copiar facilmente as respostas para as folhas de exame e conseguir notas elevadas. Defraudar com os smartwatches funciona basicamente da mesma forma. Um outro método de “batota” mais tradicional é as cábulas. As informações mais importantes são escritas em pedaços de papel que os alunos escondem nos bolsos e depois são consultados e os conteúdos são copiados quando necessário. Comparadas com os smartglasses e os smartwatches, as cábulas ficam muito mais baratas.

Embora os professores apanhem alguns alunos a copiar, na verdade enfrentam várias limitações para manter a seriedade e a justiça nos exames. Uma das maiores dificuldades é a recolha de provas. Quando usam estes dispositivos, os alunos costumam ligar o ecrã, mas um simples toque de botão bloqueia-o instantaneamente, tornando-o preto. Devido a preocupações de privacidade, os professores não podem obrigar os alunos a voltar a ligar os ecrãs. Sem poder aceder-lhes, os professores não têm provas suficientes de que o aluno tenha copiado durante o exame. Embora a maioria das regras estipule que não se pode trazer dispositivos electrónicos para a sala de exame, a medida tem uma eficácia limitada. Isto porque levar um dispositivo electrónico para a sala de exame não é o mesmo que usá-lo. Os alunos podem argumentar que foi involuntário, que se esqueceram de o deixar lá fora e que por isso o trouxeram para a sala de exame. Se não o usarem, não há fraude.

A situação das cábulas é ainda mais complicada. Se um professor perceber que um estudante está a usar uma cábula e não lha conseguir tirar de imediato, o faltoso pode pô-la na boca e engoli-la, eliminando assim a prova do delito. A única coisa que o professor pode fazer é lançar um suspiro de desespero.

As escolas não são tribunais. Ao lidar com estas questões, os professores muitas vezes têm de passar muito tempo a explicar as regras aos alunos. Como as regras lhes são desfavoráveis, têm dificuldades em aceitá-las. Se os pais apoiarem os filhos e considerarem que as regras da escola são irrazoáveis, a regra que proíbe dispositivos electrónicos na sala de exame dificilmente funcionará como pretendido.

“Batoteiro” é um estudante que usa meios ilegais para obter melhores notas. Na essência, este método ilegal demonstra uma vontade de não olhar a meios para alcançar bons resultados, reflectindo a falta de carácter do batoteiro; e as consequências são graves. Se adoecesse, pediria a um médico que fez batota no exame para o tratar? Se precisasse de um advogado para o defender em tribunal, contrataria alguém que copiou nos exames? As respostas são evidentes.

Os estudantes que copiam nos exames são pouco íntegros e tendem a desenvolver uma mentalidade oportunista, o que prejudica a sua conduta pessoal a longo prazo. Devem parar imediatamente estes comportamentos e arrepender-se completamente. Talvez as suas notas não sejam hoje as ideais, mas com os valores certos, podem certamente encontrar uum outro caminho. Bao Zheng (包拯), o famoso juiz da China antiga, não foi um erudito de topo, mas graças aos seus próprios esforços tornou-se um juiz de renome (包青天). Han Yu (韓愈), um dos Oito Grandes Mestres das Dinastias Tang e Song (唐宋八大家), não era um grande estudioso, mas o seu talento literário era reconhecido em todo o país. Pu Songling (蒲松齡), um escritor da Dinastia Qing (清代), reprovou várias vezes nos exames imperiais, mas graças aos seus próprios esforços, escreveu com sucesso o romance clássico e intemporal “Contos Estranhos de um Estúdio Chinês” (聊齋誌異). Estes indivíduos, embora não fossem estudiosos de grande gabarito, alcançaram vidas plenas e fama generalizada ao traçarem os seus próprios caminhos.

A sociedade valoriza muito as notas, a competição feroz pelo ensino superior e um padrão único de avaliação agravam a necessidade de os alunos copiarem nos exames. Estes factores não podem ser resolvidos apenas pelas escolas. Além disso, inúmeras lacunas na monitorização dos exames levam alguns estudantes a subestimar as consequências da fraude e a ignorar as questões morais subjacentes. Estes problemas exigem o esforço conjunto da sociedade, dos pais, das escolas e dos alunos para serem resolvidos.

A sociedade actual é muito mais complexa do que as sociedades antigas, oferecendo aos estudantes mais opções. Em vez de se focarem nas notas dos exames, os alunos devem explorar várias vias. Antes de decidirem um caminho, os estudantes devem experimentar coisas diferentes e não deixar que um único exame determine o seu sucesso. Com os valores certos, há sempre caminhos para trilhar, e cada aluno acabará por encontrar o seu. Esta é a via ideal, muito preferível a tirar boas notas porque se fez batota nos exames e também tornará a vida mais gratificante.