Almas gémeas

O sol de Inverno lisboeta parece ter a particularidade de trazer à superfície conversas improváveis em lugares improváveis. Ou então é a força deste azul, não sei. No meu caso, esses diálogos parecem vir ter comigo, alheios, fresquinhos e prontos a usar nestas funções. O cronista que vive dos dias, amigos, é um bisbilhoteiro credenciado, um agente discreto com licença para escutar.

E então uma vez mais aconteceu: ao passar por uma paragem de autocarro retive migalhas preciosas de uma troca de palavras entre duas raparigas que aparentavam pouco mais de vinte anos. Disse uma delas (e cito de memória, não exijam demasiado, leitores): “X. está tão contente com o Y, não está?”, ao que a outra moça respondeu: “Pois está. São duas almas gémeas!”. Foi aqui que parei. Em primeiro lugar algo surpreendido pela expressão “almas gémeas” ainda ser utilizada no quotidiano e logo por duas jovens; e depois também ainda como sinónimo de perfeição espiritual e entendimento amoroso.

Sim, adivinharam: o suave rabugento de serviço a estas teclas considera que a expressão “almas gémeas”, tal como é correntemente utilizada – na verdade não conheço outras utilizações… – é sobrevalorizada. Caminhem comigo, leitores: quem diabo quer uma alma em tudo igual à nossa? Eu não, garanto. O que faz um interlocutor ser interessante em todas as áreas – intelectuais, de amizade ou amorosas – não é o reflexo mas o complemento. A possibilidade de nós que nos escapou, possibilidade essa que é infinita mas que é rara de encontrar. Dito assim isto pode parecer a velha teoria de Lacan, personagem que não me é grato, que afirma que o que nós pensamos que somos existe apenas em função do outro. Não: somos antes de que haja outro olhar. Somos formados, concedo, por milhares de olhares, actos e palavras que com sorte nos vão atravessando a vida. Mas existe algo – e aqui chamemos-lhe alma com alguma propriedade e mistério – que faz com que rejeitemos ou aceitemos o que nos vai sendo proposto.

A ideia de ser igual ao outro para o entender é para mim tão ridícula como perigosa. Preciso de referências, gostos e valores básicos comuns, certamente; mas é na diferença que se medra, sob pena de vivermos num perpétuo espelho deformado. No amor e ainda mais na amizade, o que nos conforta e refastela não é apenas o que nos é familiar mas sim o que nos provoca e por vezes faz doer.

Quando alguém me diz que encontrou a sua “alma gémea” lamento-o. Remete-me logo para o mito do doppelganger e mais exactamente para o conto de Borges O Outro, em que o velho Borges encontra o jovem Borges. E isso, garanto, não é pacífico. A ter algum parentesco, que a alma do outro não seja gémea. Um primo afastado, uma amante perdida, um filho que não conhecíamos. Só assim vale a pena abrir a porta do que somos e deixar entrar com medos mas gratidão.

17 Nov 2021

A RELÍQUIA, DE EÇA DE QUEIRÓS – 6 (de 8)

No primeiro motivo «geral» apontado ao capítulo 3 na economia geral do romance, e podendo se ver A Relíquia como uma tremenda crítica à religião católica, é mostrar-nos a origem do equívoco do cristianismo. Equívoco, porque no centro da crença cristã está a ressurreição de Cristo e, neste capítulo, através de um sonho ao passado da paixão de Cristo, Eça mostra-nos que Jesus não estava morto quando o descem da cruz (vejam-se páginas 217-220). Jesus estava desmaiado e dado como morto, devido a preparos das mulheres essénias, e antes de morrer recobra um pouco a consciência proferindo algumas palavras. Mas acaba mesmo por morrer e, nos dias seguintes, quando o corpo desaparece, Maria Madalena corre a cidade promovendo a sua ressurreição.

O segundo motivo geral é literariamente brilhante e indissociável do terceiro: através de um artifício literário comum à literatura do romantismo – a transposição temporal através do sonho – Eça amplifica o realismo, ao mesmo tempo que fica explícito o sentido de «peculiarmente espiritual», tal como aparece no início do romance. A amplificação do realismo é a exposição do mal radical do humano, tal como Kant nos mostra em A Religião nos Limites da Simples Razão. E este «peculiarmente espiritual» quer dizer-nos que o relato tenta recolocar o humano no sentido do espiritual, além ou aquém da religião, através de um questionamento da origem do cristianismo. Também aqui, no sentido da religião, e não apenas no sentido do mal radical, Eça se aproxima de Kant.

Regressemos então a Kant e ao seu A Religião nos Limites da Simples Razão, porque aquilo que configura o horizonte de Eça de Queirós pode ser respondido tendo em atenção este livro de Kant. Para Kant, as religiões dividem-se em dois grupos: «religião da petição de favor (do simples culto), e religião moral, i. e. religião da boa conduta de vida.» (57) Nas primeiras, o humano bajula o seu Deus para que lhe dê aquilo que precisa. No fundo, aquilo que Kant escreve: «[…] que Deus pode fazer um homem melhor sem que ele próprio tenha de fazer algo mais a não ser suplicar-lhe […].» (57) Isto que, segundo Kant, não se aplica à religião cristã, visto que esta é uma religião moral, aplica-se em Eça de Queirós ao catolicismo, tal como era praticado em Portugal. Ao longo de toda A Relíquia, Eça nos mostra esta relação de bajulação do católico com o seu Deus, através dos santos, das promessas e da superstição. O que está em causa para Kant é que uma religião em que o crente bajula o seu deus não é uma religião que instigue o crente a ser melhor ou a percorrer o caminho do bem, contrariamente àquilo a que o filósofo chama religião moral, que instiga o crente a ser melhor do que é. À página 172 do seu livro, Kant escreve: «Adopto, em primeiro lugar, a proposição seguinte como um princípio que não necessita de demonstração: tudo o que o homem, além de uma boa conduta, imagina poder ainda fazer para se tornar agradável a Deus é simples ilusão religiosa e pseudo-serviço de Deus.» (172)

Para Eça de Queirós, embora por outras palavras, o que está em causa é o mesmo: a hipocrisia do catolicismo, não apenas nas atitudes dos crentes, como sejam o caso da titi, mas também da dos padres, a começar pelo avô de Teodorico e a acabar no padre Negrão. O catolicismo não nos torna melhores. Mais: não exige sequer que sejamos melhores, apenas que aparentemos sê-lo. E ser melhor aos olhos da sociedade. No fundo, o mesmo que acontece em O Primo Basílio e que podemos chamar hermenêutica de cálculo da acção. A saber, há que interpretar a cidade onde estamos, ver o que se esconde sob o manto da aparência e medir, calcular as acções que devemos praticar, de modo a não sermos castigados, nem por nós mesmos, nem pelas convenções sociais da aparência. Exemplarmente mostrado em A Relíquia, não apenas através do aperfeiçoamento da mentira levada a cabo por Teodorico, ou do exemplo final do padre Negrão, mas também através do comportamento da titi. Pois a despeito de toda a sua devoção, a D. Patrocínio estava longe de ser boa ou de ao longo da vida caminhar no sentido de ser melhor aos olhos de Deus. Assim, este capítulo onírico da genealogia do cristianismo, liga-se por inteiro àquilo que é o catolicismo em si mesmo para Eça de Queirós: uma completa mentira. No final desse sonho, vemos que Jesus não ressuscita e que o desaparecimento do corpo é anunciado pela cidade por Maria Madalena, promovendo a ilusão da ressurreição.

Mas aquilo que importava a Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão, além de tentar mostrar uma religião racional, era também um levantamento da natureza humana na sua relação com a moral. Por outras palavras: apurar de que modo nos dirigimos para o bem ou nos deixamos cair no mal. Na verdade, o ponto de partida é o mal. Leiam-se as palavras com que Kant começa o primeiro dos seus quatro textos que compõem o livro: «Que o mundo está mal é uma queixa tão antiga como a História […]. No entanto, todos fazem começar o mundo pelo bem: pela Idade de Ouro, pela vida no paraíso, ou por uma vida ainda mais afortunada, em comunidade com seres celestes. Mas depressa deixam essa ventura esvanecer-se como um sonho; […]» O que está em causa no início deste texto é precisamente a natureza má do humano, a sua raiz. Ou seja, o humano é mau por natureza e bom por razão. Deixamo-nos inclinar para um ou para outro dos pratos da balança dependendo do uso que fazemos da nossa liberdade. E que melhor momento para mostrar esta realidade do que a aurora de Cristo? Cristo é um momento inaugural na História. E Eça, através do recurso ao sonho, mostra-nos como na génese da «Nova História» se encontra já o mal. O mal sempre existiu e o cristianismo (catolicismo) não faz com que o humano lute contra ele, apenas cria uma mentira que devemos aceitar através de uma hermenêutica do cálculo da acção.

Assim, e para regressarmos a Teodorico Raposo, estas cem páginas do seu livro, apresentadas como um sonho, não é apenas o testemunho do calvário de Cristo e do ambiente que o envolvia, é a constatação que o mal é maior que o bem, que o mal é muito antigo e que, mesmo no momento mais importante da História, pelo menos para os cristãos, o mal era o ar que se respirava. Teodorico Raposo mostra-nos que aquele momento em Jerusalém, que levou à condenação de Jesus e à sua morte, é a evidência de que não há bem no mundo. Uma metáfora do mal. E o bem aparece como a ilusão que queremos que exista, a despeito de não existir. O bem é aquilo que temos de conquistar através das nossas escolhas, do exercício da liberdade.

É também aqui que nos surge o sentido do título do livro e daquilo que Eça de Queirós nos pretende mostrar: o bem é uma relíquia. O que é uma relíquia? Veja-se o que nos diz o professor Topsius, através das palavras de Teodorico Raposo, no livro do escritor Eça de Queirós: «As relíquias, D. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Pode dizer à titi que foi a mesma [a coroa de espinhos que Teodorico levava e a que Jesus tinha aquando do Calvário].» (228) Traduzindo as palavras de Topsius para a linguagem de Eça de Queirós, com alguma liberdade poética: o bem não vale pela sua autenticidade, mas pela fé que inspira. Traduzindo ainda as palavras de Topsius, agora para a linguagem de Teodorico Raposo: o bem não vale pela autenticidade, mas pelo que a fé que os outros têm nele me possa beneficiar. Assim, o sonho de Teodorico, o seu regresso ao passado, ao tempo da paixão de Cristo, para além da amplificação da crítica ao catolicismo, que é todo o livro, tem um triplo sentido específico (estrito), isto é, um triplo sentido que pertence apenas a este capítulo: 1) mostrar que o mal sempre existiu, desde tempos imemoriais; 2) mostrar que o bem é uma relíquia; 3) produzir uma distorção narrativa que faça o leitor pensar em todo o romance. Pois provavelmente sem esta distorção narrativa o leitor não se detinha a pensar no que é que o autor pretende no fundo com toda a narrativa da vida de Teodorico Raposo. Pois A Relíquia não é um romance picaresco, ainda que dialogue com ele. Talvez sem este capítulo nos fosse mais difícil de entender isto.

Continua na próxima semana.

16 Nov 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 81 ao 90

81

Um ligeiro ruído despertou-a. Olhou para a porta. Percebeu quem se aproximava, antes dele entrar.
Benedito Augusto penetrou na sala. Aparentava estar bem disposto:
– Está muito bem instalada, menina Palha.
– Vou tentar. Tenho de viver.
– Eu sei. E por isso decidi vir visitá-la.
Sofia não disse que pressentira que ele surgiria, para vasculhar entre os despojos e as cinzas algo que fosse valioso. Ou seja, ela.
– Conheço-o, padre Benedito. Sei dos seus jogos. Duplos, triplos. Jogando às escondidas com Deus e com o Diabo, na mesma mesa. Não sei como ainda não perdeu.
– Há sempre um quando, não tenho dúvidas sobre isso. Mas, até lá…
Ela deu uma gargalhada. Depois disse:
– Somos ambos sobreviventes, não é verdade?
– É verdade. E estes tendem a unir forças.
– Sim, este é um tempo de tristeza. Mas também de esperança. Só que podemos partilhar muita coisa, menos…
– Menos o quê?
– O essencial.
– Não quero o seu corpo, menina Sofia. Posso tratá-la agora assim, não?
– Como preferir. Eu também não tenho o meu corpo à venda. Mas, aqui, ninguém pertence a ninguém. É bom que perceba isso, padre.
– Não se iluda. Não é isso que quero partilhar.
– O que quer é um quinhão dos negócios futuros.
– Sim. É mais ou menos isso. Mas tenho uma proposta que a vai seduzir. E eu sei que gosta da sedução…
Ela franziu as sobrancelhas:
– Qual?
– Uma percentagem do negócio da heroína.
– Não percebo. Esse é o negócio de Max Wolf.
– Ainda é. Mas não será. Neste momento o senhor Max Wolf deve estar a nadar para se salvar. Mas isso será difícil no meio do mar.
– Como?
– Foi o que me disseram. Os amigos de Fu Xian pensam que Wolf o traíu. E querem vingança.
Sofia olhou para Benedito. Subestimara o homem que, de vez em quando, vendia informações ao seu marido. Incluindo algumas sobre os movimentos do tenente Félix Amoroso e da chinesa Ding Ling.
– Resolvido esse assunto, sei quem é o representante dos senhores que dominam o negócio da heroína em Xangai.
As sombras do horizonte escureciam cada vez mais. E Sofia Palha sentia-se, naquele momento, incapaz de vislumbrar o futuro. Mas sabia que não lhe agradava.

(continua)

29 Set 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 71 ao 80

71

Esperou por Amoroso. Sabia que ele viria. Iria inquiri-la e tentar colocá-la contra a parede. Conhecia a táctica psicológica do torturador: dividir o mundo entre “nós” e “eles”. A crueldade desencadeada na vítima é sempre promovida por o torturador necessitar de acreditar que o seu mundo é justo. As vítimas merecem o que lhes está a acontecer, segundo eles. Era uma boa defesa. Mas o tenente Amoroso não era um santo, nem um justo. Olhou para o relógio de bolso de ouro de Joaquim Palha, que trouxera. Precisamos de relógios para nos lembrar que somos apenas mortais. Era verdade. Nós passamos pelo tempo. Os relógios ficam. Sentiu que o tenente estava atrasado. Finalmente ouviu um ruído. Eram passos. A criada estava a indicar o caminho a Amoroso. Escutou a porta a abrir-se, sem aviso. Através do espelho, viu um corpo a aproximar-se dela. Ele parou e ficou a olhar para as suas costas e para a sua face no espelho.
– Boa tarde, senhora Palha.
Seguiu-se um breve silêncio.
– Sabe o que me traz aqui.
– Boa tarde, tenente. Presumo que sim.
Ela não se virou e ele puxou uma cadeira para que ela pudesse ver a sua cara através do espelho.
– Escuso de lhe recordar que o seu marido morreu. Aparentemente, suicidou-se. Sabemos que Max Wolf fugiu. E também temos a certeza que ambos eram sócios com um chinês, Fu Xian, para colocar heroína à venda em Macau e Hong Kong. Isto para além do seu marido conspirar para que, se Macau fosse vendida à Alemanha, lucrar com isso, algo que é pouco patriótico. Resta-nos resolver duas coisas. Quem matou o seu amante, João Carlos Silva? E até que ponto estava a senhora ao corrente de tudo isto?
Sofia Palha levou um lenço aos olhos, como se uma lágrima traiçoeira ainda estivesse por ali.
– Meu caro tenente, aqui em Macau temos a nossa terra e o nosso mar. E a nossa energia. Acreditei demasiado nesta cidade. E nas suas pessoas. E, claro, no meu marido. Seguiu-o como se faz a uma luz que ilumina o nosso caminho. Nunca me questionei sobre a bondade das suas decisões.

72

– Isso não a impediu de cobiçar outros homens.
– Esta cidade é pequena. Há sempre rumores de infidelidades. Uns verdadeiros, outros falsos. O meu marido sempre teve conhecimento deles. E, olhando para a sua cara, o tenente também os ouviu. Só um é verdadeiro. E já me confrontou com isso. Sabe que tive uma relação com João Carlos Silva. Vivia um momento de fraqueza. De insegurança. Precisava de ter um ombro amigo onde pudesse descansar. Encontrei-o. Não o amava. Mas escutava-me e confortava-me. Nunca sentiu essa falta, tenente? Foi esse pecado que o meu marido não me perdoou.
– Foi Joaquim que matou João Carlos Silva?
– Eles tinham negócios, tenente. O meu marido sabia o que se passava no Governo através dele. O João Carlos era viciado no jogo. Devia muito. Mais do que ganhava. E queria ganhar mais. Houve um momento em que o Joaquim perdeu a cabeça. Eu ia para a cama com o João Carlos e isso fragilizava-o. E depois não estava disposto a dar mais dinheiro a ele. A chantagem e o ciúme levaram à sua morte.
– E como aconteceu isso?
– Suponho que o Joaquim contratou um chinês, um pirata qualquer, que o matou. Eu quase enlouqueci, mas sou resistente. Percebi, depois, que eu não era a culpada. Era o dinheiro. Joaquim estava disposto a fechar os olhos à minha relação com o João Carlos desde que terminasse. E tinha terminado quase duas semanas antes da sua morte.
Sofia Palha levantou-se, voltou-se e olhou fixamente para Amoroso. A sua face estava contraída, como se estivesse prestes a ser vencida pelo choro. Este levantou-se. Ela continuou, numa voz sumida:
– Eu não sabia quais eram as suas lealdades e os seus negócios. Mas sei que, mesmo jurando, não acredita em mim.
Aproximou-se do tenente até ficar a pouca distância dele. A sua voz era doce:
– Não acredita em mim, tenente?
Amoroso não respondeu. Sondou a face dela. Parecia sincera, mas algo não batia certo. Sofia Palha não poderia ser alheia a todas as conspirações cruzadas que tinham a impressão digital do falecido marido. Ela não poderia ser cega, surda e muda. A forma como ela o abordara no hotel Boa Vista provara isso. Sabia manipular os homens e as suas emoções e fragilidades. Mas não existiam provas contra ela.

73

– Veremos o que nos dirão as investigações em curso, senhora Palha. Tem mais algo para dizer?
– Tenho, senhor tenente. Preciso de fazer o meu luto. E saber o que irei fazer no futuro.
– O senhor Palha deve ter deixado um bom legado. Não terá problemas financeiros, por certo. Se estiver inocente de tudo isto…
Ela fez um ar de espanto, sentindo que duvidavam da sua honestidade. Uma lágrima escorreu pela sua face. Amoroso tentou manter-se frio. Ela parecia aguardar um abraço acolhedor. Mas ele não o fez. Não o podia fazer. Pensou apenas: este é o momento em que ambos fingimos que Sofia Palha não está a mentir.

19.

Parecer inofensivo é uma vantagem, disse Benedito Augusto. Os seus olhos estavam cansados, mas a voz estava tão viva como quando desaparecera, há quase duas semanas.
– Parecer inofensivo é rentável, porque as pessoas inclinam-se perante quem não parece ter armas para as ferir. Ocultar-se é uma delicadeza. Quem é inofensivo tem o dom de conseguir a escassez de reacções. Esconde-se perante o olhar de todos.
Falava como se nada se tivesse passado. Ou se quisesse esquivar-se a isso. A ausência era uma boa desculpa. O tenente Félix Amoroso vigiava-o com o seu olhar inquiridor. O padre regressara, segundo dizia, de Xangai. Acabara por não ir até Singapura, como tinha combinado com Fu Xian para cumprir um acordo secreto entre ambos. Mas, na cidade chinesa, mudara de ideias e regressara a Macau. Estavam numa taberna do Porto Interior, frequentada por marinheiros, piratas e batoteiros, como era habitual naqueles locais soturnos. O aspecto de Benedito confundia-se com o de muitos deles, com a sua cabaia negra muito suja, o cabelo desgrenhado e a barba por fazer. Dava-lhe um ar mais velho e duro. Amoroso não fazia parte daquele ambiente e era olhado com desconfiança. Não se sentia muito seguro ali. A sua mão direita estava junto da pistola, apenas por precaução. Porque Benedito era ali conhecido e respeitado. Talvez temido. Mesmo num mundo de homens que perderam a fé, um padre merece sempre algum respeito. Porque nos momentos mais terríveis, tem de se acreditar em algo. Nos deuses ou no Céu. Numa salvação qualquer.

74

– Porque é que decidiste regressar, Benedito?
– Senti que algo se passara. Às vezes antecipo os acontecimentos.
– Ou tens informações que te permitem tirar essas ilacções…
Benedito fez um esgar. Agarrou no copo de cerveja e levou-o à boca. Desviou a questão.
– Estava cheio de sede. A cerveja aqui é melhor.
Amoroso não se conteve:
– Qual é o teu jogo, Benedito?
Este mostrou-se espantado:
– O meu jogo? Conhece-me, meu caro tenente. Procuro sobreviver. E tenho sido leal consigo. Às vezes fico quieto para não espantar os demais.
– Espanta-me que saibas tanto sobre a vida de Sofia Palha e do João Carlos Silva. E tão pouco de outras coisas.
– Que outras coisas? Sei agora que a tua amiga Ding Ling montou uma cilada ao alemão e a Fu Xian. Sobre este fez-me um favor. Desapareceu um problema. Deixei de ter uma dívida para pagar.
– Sim, ele fazia chantagem sobre ti. Sobre as tuas aventuras amorosas. E talvez sobre outras coisas que eu não sei. Mas saberei em breve. Mas como soube Ding Ling da táctica de Max Wolf para assaltar o vapor?
Benedito encolheu os ombros e bebeu mais um pouco de cerveja. O tenente tamboriou os dedos da mão esquerda na pequena mesa de madeira suja que estava entre ambos.
– Saíste mesmo de Macau?
– Duvida disso?
– Duvido. Acho que foste tu que contaste os planos de Fu Xian e de Wolf a Ding Ling. Esta resolvia-te um problema.
Benedito deu uma gargalhada. Amoroso não esboçou sequer um sorriso.
– Meu caro tenente, estive em Xangai. E nem sequer conheço Ding Ling.
– Isso não sei. E também não precisas de conhecer Ding Ling para lhe fazeres chegar qualquer informação.
Benedito olhou fixamente para Amoroso. A sua voz endureceu:
– Meu caro tenente, ninguém é inocente aqui. Todos fugimos de algo. Sobretudo do nosso passado. É o que fazemos em Macau, não é verdade? Eu fugi do meu passado, mais escuro do que o que conto, é verdade. E o tenente, faz o quê? Fugiu do seu passado na guerra, no cemitério de França. E foge do seu passado recente, aqui mesmo, não é? Quer esquecer isso?

75

Amoroso sentiu um tremor. Mas Benedito continuou, ameaçador:
– Abriu a caixa dos fantasmas, tenente. Agora é tarde para a tapar. Recorda-se do que aconteceu o ano passado? O que se ia passando em Macau, com a agitação levava a cabo pelos agentes de um senhor da guerra de Cantão contra os portugueses? Onde se situaram então os apoiantes de Sun Yat-sen? Estavam no meio e arriscavam-se a ser trespassados. Que sucedeu então?
Amoroso engoliu em seco. Naquele momento desejou levantar-se e sair dai. Ou então, puxar a pistola e…
– Quer matar-me, tenente? Esteja à vontade. Mas até lá tem de ouvir e engolir o resto.
Fez uma pausa, antes de continuar:
– Eu sei o que se passou. No meio da confusão, em Junho do ano passado, aconteceu algo que quase passou despercebido. Entre mortos por causa da sublevação organizada por Wong Pik-wan, a soldo do general Ch’en Chiu Ming, também pereceram inocentes. E houve lugar a ajustes de contas. Mesmo que alguns fossem por causa do seu apoio aos que atraiçoavam Sun Yat-sen. Lembra-se tenente, de corpos encontrados em diversas casas de Macau? Uns nunca foram identificados. Presumia-se que eram piratas, ou elementos das tríades, ou infiltrados por cada uma das facções. Não interessavam para as autoridades portugueses. Mas houve um caso que me mereceu a atenção…
Parou propositadamente, suspendendo a respiração. Sondou a cara de Amoroso. Este estava calado, preso às palavras de Benedito. Os seus olhos pareciam blocos de gelo, que nem o calor dentro da taberna derretiam.
– Lembra-se tenente? Encontraram um casal dentro da sua casa. Mortos a tiro. Sabe quem eram, não sabe?
Amoroso acenou com a cabeça.
– Claro que se lembra de tudo. Apesar de estar profundamente apaixonado na altura. E de estar muito dependente do ópio. Nada de anormal em tudo isso. Mas voltemos às nossas comuns recordações. A polícia não deu relevância ao caso, porque estava mais preocupada em conseguir que a paz fosse restabelecida em Macau. Mas eu sei quem era esse casal. Ele chamava-se Huang Sen e ela Lu. Tinham bons negócios em Macau e Xangai. E odiavam Sun Yat-sen, por razões que desconheço.

76

Benedito continuou:
– Mera coincidência era, claro, eles serem os tios de Ding Ling. E de esta ter herdado tudo o que lhes pertencia. Incluindo o “Noite Tranquila” e as lorchas e juncos que traficam ópio para Macau. Eu fui ver. Mesmo assim fiquei de boca caada. Não hava armas para eles se defenderem. Mas tu disseste que tiveste de disparar em legitima defesa. Não te recordas do que disseste?
O olhar de Amoroso ia-se tornando cada vez mais incandescente. Mas continuou sem responder. Benedito insistiu:
– O que nos leva à questão mais importante. Quem os matou? Foi Ding Ling? Era rapariga para isso. Tem fibra. Gosto dela. Mas não foi. Foi o tenente. Matou-os para a proteger, acredito. Mas liquidou-os a sangue frio. Ele não tinha a arma na mão, pois não? Tenente, não julgo que, moralmente, esteja ao abrigo do Inferno.
– O que te leva a dizeres-me isso? Isso não é verdade.
– É. E o tenente sabe-o. E, curiosamente, todo o jogo se virou a seu favor. Tornou-se quase chefe da polícia secreta. Tudo parece uma comédia. Perguntas-me muitas vezes o que faço. Eu escondo-me nas sombras. E isso não é o que faz o tenente desde esse dia? Eu não quero iluminar esse mundo de trevas onde vives, Amoroso. Mas não te admito que atires coisas à minha cara. Elas fazem ricochete.
Suspirou, antes de dizer:
– É a ironia do destino. O tenente tenta esconder os seus próprios segredos, enquanto procura descobrir os dos outros.
Xeque-mate, costumava dizer-se numa partida de xadrez. Era assim que Amoroso se sentia. Derrotado. Benedito não parecia gozar a sua vitória, porque também ele era um derrotado pela vida. Ou parecia sê-lo. Mas ainda conseguia guardar uma última palavra, como se quisesse enterrar o punhal na terra:
– Eu compreendo-te melhor do que me entendes a mim, tenente. Eu sei que uma mulher fatal, como Ding Ling, é a que se vê uma vez e se recorda para sempre. E tu não a querias ver uma única vez na vida. E assim entregaste a tua vida nas suas mãos. Mesmo ficando as tuas cheias de sangue. Chama-se a isso uma coisa: amor.

77

Não era um momento fácil para Félix Amoroso. Mas Benedito não parecia querer tirar dividendos do que sabia.
– Sabes que não será necessário encontrares desculpas se ninguém te pedir que as dês. Podes continuar a falar e a disfarçar, sem dizer a verdade ou parte dela. Não te preocupes. Eu olho para o outro lado.
Era confortável, mas o tenente continuava sem perceber qual era o verdadeiro jogo de Benedito Augusto. Talvez nunca o viesse a saber. Ou só viesse a descobri-lo tarde demais.

20.

A tarde estava muito quente. E muito húmida. Não se levantara sequer uma ligeira brisa para acalmar os corpos e as almas. O governador Ricardo José Rodrigues trazia um leque para se abanar. É da minha mulher, desculpou-se. Mesmo à sombra a varanda do hotel Boa Vista não era o local mais convidativo para se estar a conversar. Mas era calmo e discreto aquela hora. Félix Amoroso sentia-se exausto, mesmo sem ter feito muito para o justificar. O empregado serviu-lhes duas limonadas frescas, que poderiam servir para arrefecer os corpos. O governador levou o copo aos lábios e depois virou a sua atenção para o tenente:
– Parece que estamos a chegar ao fim de um ciclo, meu caro. Os alemães foram afastados de cena. Os conspiradores morreram ou estão exangues. Lisboa tem, entretanto, outros assuntos políticos e militares que a animam. E que vão minando a República. Mas isso são outros temas que não são agora chamados para esta nossa pequena conversa. Sabe, ainda tenho dúvidas sobre quem matou João Carlos Silva, mas penso que dificilmente chegaremos a uma conclusão. Não lhe parece?
– Acho que sim, senhor governador. Não tenho certezas, ou provas, sobre se foi Joaquim Palha ou Max Wolf que o mandaram matar. Mas um está morto e não nos vai responder. E o outro está em fuga.
– Pensa que ele já estará em Xangai?
– Possivelmente conseguiu fugir para lá. Mas a sua situação não deve ser muito confortável. Alguém investiu muito dinheiro naquela heroína. E vai querer que Wolf lhe preste contas. Não deve ser fácil. Nem heroína, nem dinheiro. Nada numa mão. Nada na outra.
– As apostas são assim. Arrisca-se e pode-se ganhar ou perder. E ninguém gosta de perder.

78

O governador olhou para o horizonte. Talvez estivesse a pensar em algo que não era para ser partilhado.
– Sabe tenente, tenho a certeza que o futuro é como o xadrez quando é mal jogado. O xadrez não é um jogo de intuição. Tem a ver com a memória. Mas não deixa de ser curioso que todos o disfrutemos mais se for intuitivo, porque só assim acontecem coisas novas. Uma vez tive o prazer de conhecer um mestre xadrezista que esteve em Lisboa, um russo, e perguntei-lhe se era possível antecipar dez ou vinte movimentos. Ele espantou-se e disse que não fazia isso, apesar de todos nós pensarmos que é isso que fazem os profissionais. Ele disse-me que cada jogada era fruto do momento. Acho que é assim que também se constrói um país ou uma cidade: movendo algo ao sabor de uma intuição, de um momento. Preocupando-nos com o presente.
Amoroso acenou com a cabeça. Parecia-lhe uma meditação sensata.
– Vamos ter de estar com os olhos e os ouvidos atentos, tenente. E, nesse especial aspecto, conto consigo. Há muitos desafios que se nos colocam nos próximos tempos. Sabe, está a terminar o acordo que nos permite importar ópio da Índia. Sabe a dependência que temos das receitas de produção de ópio em Macau. Elas são muito importantes para a nossa saúde financeira. O certo é que têm vindo a decrescer nos últimos anos, até porque há muito contrabando. Algum vindo das colónias francesas. Como é evidente estamos de mãos atadas: por um lado precisamos do ópio e das suas receitas, por outro o ópio cria dependência, transformando muitas vezes os homens em vegetais. É uma questão moral. Assim, o que pesa mais na nossa balança?
O seu olhar era vivo e dirigiu-o na direcção de Amoroso. Também este tinha um dilema entre mãos. Era consumidor, embora de forma moderada. Por outro lado, uma das grandes fontes de rendimentos de Ding Ling era proveniente da venda do ópio, a maioria importado clandestinamente da Indochina francesa. O governador continuou:
– O certo é que, segundo as informações que tenho, as críticas na Sociedade das Nações à nossa posição é de crítica moral. Mesmo vinda de nações que, nas sombras, lucram com o negócio do ópio.

79

– Chegue à China e verá os lençóis de papoilas espalhados por tantos sítios. Irão cortar essas papoilas? É duvidoso. E os ingleses e os franceses vão deixar de fazer negócio nas sombras, tendo a Índia e a Indochina. Quem é que pagou a revolução industrial dos ingleses, meu caro tenente? O ópio vendido aos chineses.
Parou um momento, antes de prosseguir:
– A política também é isto. Hipocrisia. Mas temos de viver e sobreviver com isso. Que faremos então, tenente?
– Confesso que não sei, senhor governador.
– Não sabe ou não quer saber porque também é parte interessada?
Amoroso notou o sorriso irónico de Ricardo Rodrigues. Ele conhecia os seus dilemas.
– A propósito, como vai a sua amiga chinesa, tenente?
A frase era mortal. Mostrava que o governador estava atento. E já tinha fontes de informação próprias.
– Vai bem, senhor governador. Conseguiu vencer todas as adversidades, incluindo a morte de uma sua estimada colaboradora.
– Eu sei. Sinto muito. Dê-lhe as minhas condolências. Mas a vida continua, não é verdade? Tem de continuar.
Amoroso não respondeu. Depois voltou a beber um pouco da limonada. Já estava quente.
– Senhor governador, desculpe a pergunta, e a senhora Sofia Palha?
– Ainda tem suspeitas sobre o seu comportamento, tenente? Nunca se sabe, é verdade. Mas agora está calma. Era uma mulher que não se amedrontava perante gigantes ou moinhos de vento. Acho mesmo que era mesmo ela que soprava o vento, se o posso dizer.
– Compreendo-o. Tenho a mesma dúvida.
– Ela é como Portugal. Este é um país milenar e labiríntico, um país que tanto é novo como velho. Mas que ama a vida. Ela também. Se não houver provas contra ela, sossegará e renascerá. Aqui em Macau ou em Lisboa. Quais são os seus planos? Ela sempre usou conceitos abstractos para se esquivar à realidade. Fala de convivência, de concórdia e de diálogo da mesma forma que fazem muitos políticos desejosos de ter o poder concentrado nas suas mãos. O senhor Palha julgava dominá-la, mas pelo pouco que conheci de ambos, era ele o dominado.
– Não consta que ela alguma vez tenha feito reféns. Nem o senhor Palha, nem o senhor João Carlos Silva.

80

O governador deu uma pequena gargalhada.
– Ninguém, é verdade! Por isso penso que, no seu olhar inocente de viúva ainda jovem, se escondem muitos desejos. Não acredito que não mantenha ligações aos capitalistas chineses que dominam o monopólio dos jogos e que utilizam portugueses ou macaenses como máscara. Há muito dinheiro em jogo, do monopólio do fantan à da lotaria da Misericórdia. A senhora Palha, se mantiver o escritório do seu falecido marido a funcionar, poderá ser uma aliada preciosa para muitos destes negócios. E nós pouco podemos fazer. As receitas do jogo são para nós tão essenciais como o oxigénio.
– Estamos condenados a ver com um olho e a fechar o outro, não é senhor governador?
– São as leis da política e das finanças, meu caro tenente. E são elas que mandam em simples mortais como nós.

21.

Sofia Palha sentou-se na confortável cadeira que pertencera a um administrador da VOC e, depois, a Joaquim José Palha. Abanou-se com o leque e, olhando para o tecto, decidiu que uma das suas primeiras medidas seria colocar uma ventoinha. Era preciso fazer circular o ar. O calor, ali, tornava impossível utilizar o cérebro. Estava na altura de se considerar vítima de si própria e dos seus desejos. Agora os homens olhavam-na como se ela transportasse consigo o céu e o inferno, ou o amor e o ódio, ao mesmo tempo que arrastava para o abismo todos os que se aproximavam dela e do seu mundo. Mas eles não compreendiam nada. O que parecia emoção, na sua relação com os homens, era apenas tensão. Não amara Joaquim José ou João Carlos. Ou amara, à sua maneira, de forma desprendida. Sempre se considerara uma bailarina entre crocodilos. Iludia a fome deles com a sua graciosidade.
Agarrou na carta que recebera de Max Wolf. Ele sobrevivera e ainda vivia em Macau, ao contrário do que se supunha. Escondera-se entre os amigos de Fu Xian, naquela selva de juncos e lorchas que enchiam o Porto Interior. A cidade flutuante, alguém lhe chamara. Seria difícil descobri-lo ali. Mas não impossível. Ele dizia-lhe que precisava de dinheiro para regressar a Xangai, para recuperar o crédito junto dos que lhe tinham colocado a heroína nas mãos. Sofia Palha fechou o leque e bateu com ele, levemente, na face. O que deveria fazer?

(continua)

10 Set 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 61 ao 70

61

15.

Nas histórias chinesas de amor muitas vezes um ou ambos os amantes morrem ou nunca se juntam. Mesmo assim consideramos isso um final feliz, porque o que conta é a grande paixão que os uniu, algo que a sorte e o destino permitiram, disse calmamente Ding Ling, apesar dos seus olhos estarem estranhamente incandescentes. As suas mãos tremiam um pouco quando passaram pelo corpo deitado à sua frente. A bela Wei Zi ali estava imóvel. No cheongsam que vestia notava-se, à altura do coração, um orifício, sinal visível do punhal que rompera a sua pele e penetrara no coração. Bei Li estava de pé, com os olhos fechados, aparentando uma serenidade que não tinha naquele momento. O tenente Félix Amoroso sentiu um amargo na boca e a sua mão direita cerrou-se. O assassinato de Wei Zi acertara também no coração de Ding Ling. Não sabia como ela iria reagir. Quem a matara? Porquê? O choque emocional ia-se desvanecendo e Amoroso via surgir a visão mais lúcida do facto, mais fria, lógica e racional.
A sua própria vida também estava em jogo.

Wei Zi fora morta dentro da “Noite Tranquila” por um cliente que a acompanhara até aos lugares mais reservados. Ele saíra tranquilamente e, só depois, tinham dado com o corpo dela. O eficaz golpe, que a matara imediatamente, fora obra de um profissional. Era uma vingança. Para pagar o que ela descobrira. Para mostrar a Ding Ling que Max Wolf ou Fu Xian utilizariam todos os meios para espalhar o medo. Para a assustarem, porque sabiam que fora ela que incendiara o armazém onde tinham os seus pacotes de heroína. Perderam muito dinheiro. E a face. E homens como aqueles não tinham duas caras.

– Esta é uma terra em disputa. A partir de agora muita coisa pode acontecer.
As palavras de Ding Ling eram firmes.
– Eu sou boa para aqueles que são bons.

Mulheres como ela têm o poder da persuasão, pensou Amoroso. Os olhos dela estavam cravados nos seus. Ele não baixou os seus. Ela ficou com a convicção que esta não seria ma luta dela. Nem de Bei Li. Seria também dele.

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– Há um tempo para guardar o silêncio. E outro, bem diferente, para actuar. Mesmo o silêncio pode ser uma arma. Importa saber ver, quando mais ninguém o consegue. Isso é que nos traz a vitória. Wei Zi nunca esperou morrer de velha. Dormir com um olho aberto e saber que cada dia pode ser o último, era uma das condições para trabalhar comigo. Ela sabia-o. E não se importou. Os homens podiam atraiçoá-la por um punhado de patacas, os inimigos poderiam seguir os seus passos, mas ela seguiu sempre em frente. Mas não esperava que o seu fim fosse assim. Aqui, na minha própria casa. Com ela cercada de amigos.
Não há intocáveis, pensou Amoroso. Gota a gota enche-e um copo, até que ele transborda. Era o caso. A paciência desaparecera dos olhos de Dng Ling. Mas isso não queria dizer que ela iria deixar-se atraiçoar pelas emoções. Os seus inimigos tentavam-na, mas ela não cairia no seu jogo. Esperaria o momento certo. Ding Ling roçou o seu corpo pelo de Amoroso e começou a andar. Ele seguiu-a até a um local discreto de onde podia ver grande parte do “Noite Tranquila”. Nada parecia estar diferente mas, na realidade, tudo mudara.
– Sabes que a palavra Qing significa claridade ou pureza? E o certo é que aquele que foi o último reinado imperial andes da República nunca foi nada disso. É por isso que sigo Sun Yat-sen. Quero conhecer a pureza que há nas pessoas. Há quem diga que a morte é um mistério. Mas, na realidade, o que é verdadeiramente misterioso é a vida, não achas, querido tenente? Quem somos? O que fazemos aqui? A única certeza que temos é que morreremos. Como é que dizem os católicos? Pó eras, em pó te converterás?
Amoroso via homens a jogar, sem pensar no pó em que se tornariam. Via-os a beber, sem procurarem, no fundo do copo, uma resposta para as suas atitudes. Cobiçavam raparigas que cirandavam entre eles, sem terem remorsos. Ding Ling passou-lhe os dedos pelo pescoço e, depois, tocaram-lhe na orelha. Ficaram ali durante segundos, os suficientes para ele sentir um arrepio de desejo. Olhou-a e ela agarrou-lhe na mão e puxou-o.

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Caminharam os dois até ao pequeno quarto que ele tão bem conhecia. Aí, na escuridão quase completa, Ding Ling abriu o seu cheongsam e deixou-o cair. Ficou completamene nua e aproximou-se dele. Foi-o despindo e quando acabou de lhe tirar as roupas encostou-se a ele. Sentiu o desejo de Amoroso. Afastou-o e ficou a olhar para ele, até ue se deitou na cama e lhe fez sinal para que ele se colocasse em cma dela. Ding Ling entregou o seu corpo, vibrante, mas os seus olhos estavam molhados. O prazer misturava-se com a dor, num daqueles mometos em que a bondade e a maldade travam um duelo final. Naquele momento Amoroso percebeu que entre ele e ela não havia absolutamente nada, excepto a obstinada independência dela. O laço forjado no passado deve amarrar-nos mais do que um juramento, sussurrou ela. E ele tinha a certeza disso.

16.

O mundo está cheio de ciladas. Aprendemos a viver com elas e a utilizá-las. Sabe-nos bem, quando os outros caem nelas. Clamamos contra a injustiça, quando elas nos fazem tropeçar. Joaquim Palha sentia-se atraiçoado pelo destino. A estratégia fora cuidadosamente montada, desde há muitos anos. Tudo corria bem, dentro da ambiguidade onde se movia como um dançarino. Saber dançar como poucos ajudara-o no mundo dos negócios e da política. Conhecia os ritmos todos, os compassos de espera, a força de fazer bailar o seu par. Mas há sempre algo que não se controla. E isso só poderia ser devido a uma traição. Alguém o traíra, ele que estava habituado a enganar os outros. Não era justo, pensou Joaquim José Palha. Os dedos contorceram-se e as unhas, bem tratadas, cravaram-se na carne. Para doer. Para perceber que tudo o que estava a acontecer era real. Traídos. Joaquim Palha amaldiçoou o mundo por ser assim. Esqueceu-se, claro, de pensar que ele era construído por pessoas como ele. Max Wolf andava na sala, de um lado para o outro. A sua face estava vermelha e a respiração parecia indicar alguém que estava prestes a deixar sair os pulmões pela boca. Por fim, explodiu:
– Tem a noção real do que aconteceu?

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Os olhares dos dois cruzaram-se, como num duelo. Nenhum deu parte de fraco. No escritório de Palha fez-se um silêncio ensurdecedor. Este mudou de posição na cadeira, num esforço inútil pra ficar confortável depois de ouvir as notícias que Wolf lhe trouxera e que confirmavam os rumores que que se escutavam junto ao edifício do Leal Senado. Todo o castelo de cartas que tinham construído nos últimos meses desmoronava-se defronte dos seus olhos. Primeiro, tinham ficado sem a heroína, que se desintegrara em cinzas. Agora o assalto ao vapor correra mal. Tudo correra ao contrário do planeado. Quando Wolf lhe começou a dizer o que se passara, Palha arregalara os olhos, como se estivesse diante de um fantasma:
– Não pode ser!
Mas era. Wolf, fora de si, só abanava a cabeça e cerrou os lábios. Não havia muito a dizer. E o melhor era não tentar dizê-lo, apesar dos esforços de Palha para o fazer falar. Por fim, foi dizendo:
– O que sei foi que se fez o assalto ao vapor Sui-An, como estava planeado. Este partiu de Macau e dirigia-se a Hong Kong. Não era a primeira vez que os piratas o tomavam e roubavam o que havia de valor a bordo. A tripulação estava habituada as estes infortúnios e, para salvar a pele, deixava-se ficar tranquila. Mas, desta vez, como sabíamosmos, o barco levava algo especial: o cofre com dinheiro e ouro que tinha como destino o Hong Kong Shanghai Banking Corporation. Era uma verba considerável que alguns comrerciantes de Macau queriam transferir para Hong Kong e por isso a sua segurança revestiu-se de cuidados especiais. Iam vários guardas armados a vigiá-lo. Sabíamos tudo isso. Como estava planeado, as lorchas de Fu Xian surgiram de repente e cercaram o vapor. O funcionário do Banco Nacional Ultramarino, que seguia a bordo, estava confiante no poder de fogo dos seguranças, mas, para espanto deste, estes nada fizeram e os nossos homens ocuparam o navio.
– Até aí nada de novo. Era essa a nossa estratégia delineada com Fu Xian. Os homens da segurança tinham sido substituídos por fiéis nossos ou subornados. Mas o que é que sucedeu a seguir?


65

Wolf encolheu os ombros.
– Só há relatos contraditórios de alguns passageiros e do funcionário do BNU. Mas o que se percebe é que uma série de passageiros tiraram as armas que tinham escondidas na roupa e os seguranças que eram homens de Fu Xian viraram as suas espingardas e pistolas contra os piratas deste e cmeçaram a disparar. Mataram-nos todos. Não queriam testemunhas. Quem podia contar algo, morreu. A polícia portuguesa está no Porto Interior a ouvir os passageiros. Mas a maioria está confusa ou, então, cala-se. Quem lá está também é aquele teu amigo, o tenente Amoroso.
Palha não acusou a indirecta e questionou:
– Isso não faz qualquer sentido. E Fu Xian?
– Pelo que consegui saber também foi morto. Os piratas e os seguranças levaram o seu corpo para as lorchas deste, assim como o cofre, e desapareceram rumo a uma das ilhas que há por ali.
Palha perdera, naquele momento, a serenidade:
– Quem são estes homens? São de Ding Ling?
– Ninguém sabe. A polícia está a investigar. Mas é como te digo, deveriam ser. Ou de outra tríade. Sei lá. Quem sabe ou está morto ou desapareceu.
Palha rosnou:
– Deve ser uma vingança dela. Puxámos demasiado a corda. E matar a miúda chinesa também não ajudou. Mas foi ideia de Fu Xian. E não podíamos dizer que não. Foi demasiado sangue. Mas como é que ela conseguiu subornar os homens de Fu Xian? Em caso de sarilhos aqui é fácil subornar a polícia. Mas comprar os homens de Xian…
Tentou fazer um sorriso conspirativo, mas estava demasiado nervoso para isso. E tudo resultou num esgar rancoroso.
– E agora?
– Tenha calma, doutor Palha.
Este revolveu o corpo na cadeira. Wolf continuou:
– Eu vou voltar para Xangai. Preciso de falar com os meus sócios. Explicar-lhes o desapaecimento da heroína. E também não tenho dinheiro para lhes levar. Contava com os valores que estavam no cofre.
– E eu?
Max Wolf fez um olhar sórdido:
– Tu? Que achas? Não há-de faltar muito tempo para o teu querido tenente aparecer aí para te prender. Se ainda aqui estiveres. Essa, de resto, foi uma bela ideia tua. Suborná-lo…
– Ele parecia estar convencido.
– Parecia. Deve ter sabido o que planeávamos. E deve estar conluiado com aquela bruxa chinesa.

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Palha estava embaraçado. Wolf não confiava nele. Nunca confiara. Agora largava-o como caça, enquanto ele fugia. O alemão talvez tisse certezas. Daquelas que resolvia com uma pistola. Não lhe era conveniente confrontá-lo.
– A guerra é a guerra. Alguma vez combateu, doutor Palha?
– Eu? Nunca.
– Eu estive na guerra. Combati em França. Nas trincheiras. Escondia-me enquanto os obuses passavam por cima de mim ou explodiam ao meu lado. Vi morrer muita gente. Hoje não me faz confusão. Temos é de manter os olhos abertos e saber sobreviver. É isso que planeio fazer. Voltarei.
Palha franziu a testa.
– Desaparecer é a melhor opção. Vou deixá-lo, doutor Palha. Tenha um resto de bom dia.
Ao dizer isto, piscou um olho. E desapareceu. Palha ficou atónito. Tinha de tomar uma decisão rápida. O tempo corria depressa. Demasiado, para o seu gosto.

17.

O sol ainda não se tinha posto quando Félix Amoroso chegou ao “Noite Tranquila”. Li Bei esperava-o. Ele sabia porquê. Os seus espiões eram mais rápidos do que ele. A luz, à entrada, era melancólica, como se aquela fosse uma noite como as outras. Não era. Lutar e não ceder, era o que transmitiam os olhos dela por detrás do seu ar enigmático e doçura meditativa. Parecia ter o sorriso de uma estátua em jade de um Buda khmer que lhe tinham trazido da Indochina. E que ele guardava no seu quarto. Ela aproximou-se dele e disse:
– A vida é amoral. E é sempre violenta. Por vezes temos de atacar não apenas as forças do inimigo, mas a sua força moral. É aí que verdadeiramente vencemos.
Não esperava resposta. Fez-lhe sinal para que o seguisse até à sala onde estava Ding Ling. Também ali a luz era mortiça, e não deixava ver bem os contornos da face dela. Mas Amoroso não duvidava que a serenidade, a sensualidade e a sensação de dever cumprido se uniam no seu olhar. Ela aproximou-se e finalmente Amoroso conseguiu ter uma imagem mais nítida da cara dela. Nunca lhe parecera tão bela e radiante. Ele tocou-lhe, como se ela fosse irreal. Não era. Sentia o calor do corpo de Ding Ling, a milímetros do seu. Dela imanava uma força que o invadia e conquistava.
Ding Ling, naquele momento, era a civilização chinesa no seu esplendor: a harmonia pura. Tentou afastar a magia que o deixava inerte:

67

– Como boa deusa, a Fortuna, esteve do lado dos deuses.
– Esteve. Tal como nas melhores óperas de Cantão, as máscaras que usámos representaram diferentes emoções até atingirmos o nosso objectivo. Encenámos da melhor maneira a nobre arte da paciência e do engano. Quando julgavam vencer, os traidores foram vencidos. E com eles desmoronou-se o sonho de Max Wolf e dos alemães. Não há ouro e dinheiro para subornar, nem heroína para corromper. Os portugueses ficariam felizes se algum dia soubessem o que fizémos. Com a heroína Wolf teria conquistado o submundo de Macau e o poder ruiria sem disparar um tiro. Quem controla a escuridão, domina a luz que os outros julgam ser sua. Os alemães teriam Macau, mesmo que em Santa Sancha existisse uma bandeira portuguesa.
Ding Ling aproximou os seus lábios dos de Amoroso. Bei Li observava, muito perto. Os seus corpos pareciam sombras inertes, mas repletas de vida por dentro.
– Sem ti, querido tenente, não teríamos conseguido uma vitória justa. O inimigo não se teria distraído o suficiente. Não teria achado que, por matarem os que nos são queridos, quebraríamos como um tronco de madeira. Somos feitos de bambu. Vergamos. Não quebramos.
A voz de Bei Li não quebrou o encantamento:
– Muitas das histórias que terás escutado talvez tenham ofuscado as tuas ideias, tenente Amoroso. Agora que a luta terminou, não tens de ter receio de nenhuma de nós. Apesar de ela também ser a tua batalha. Era a escolha do nosso verdadeiro inimigo. Do teu verdadeiro inimigo.
O seus olhos fecharam-se, como se a ténue luz lhe ferisse a visão. Continuou:
– Tinham fraquezas. Os homens de Fu Xian sempre estiveram à venda. São mercenários, que escutavam promessas de riqueza. E, até agora, viam poucas recompensas. Não confiamos neles. E eles não confiam em ninguém. Só no dinheiro que lhes pagámos.
– Todos temos as nossas dúvidas, gentil Bei Li. Duvidamos de nós. Da justiça. Dos outros. Do bondade do mundo.
Bei Li sorriu. A sua missão agora tinha terminado. Disse apenas:
– Pensas em espiões, não é, querido tenente? Nós não precisamos de espiões, enquanto a verdadeira China existir. É melhor ter amigos.


68

Fechou os olhos e rodou o corpo, confundindo-se com a penumbra. Amoroso, que voltara a olhar para Ding Ling, não a ouviu sair da sala. Esta disse:
– Quem vem da escuridão tem mais resistência ao sofrimento. E nós voamos lado a lado. Não o esqueças.
– As deusas quebram promessas?
– Nunca o fiz e nunca o farei, seja por força do Bem ou do Mal. Sabes que a minha missão é ajudar Sun Yat-sen. Contra as potências que retalham a China. Contra os seus inimigos internos. Só isso. Estou serena. As sombras podem agora dançar à volta da alma de Zu Wei.
Os seus lábios tocaram os de Amoroso. As suas mãos percorreram o corpo deste. Muitos minutos depois, estavam juntos na cama. A luz deixava ver os bilhantes olhos dela e os lábios cerrados. Parecia estar prestes a chorar mas isso, claro, não aconteceu. Ele passou a mão pelas costas dela e foi descendo até encontrar o início das pernas. Mas Ding Ling agarrou-lhe na mão e levou-a até junto ao seu seio, não o deixando mexer-se. Ficaram assim a olhar um para o outro, pensando no que queriam fazer a seguir. Tudo ou nada? Troca os meus desejos pelos teus, parecia dizer ela. O desafio era intolerável e o seu corpo sabia. Afastou a mão e comprimiu o seu corpo contra o dele. O sol passava entre duas nuvens e mostrava o seu esplendor. Era uma metáfora queDing Ling muitas vezes partilhava com ele, quando, após um momento de tristeza e incerteza, a energia renascia e a tentação do sexo estava viva. Era o que estava a acontecer, enquanto os seus corpos chocavam e ambos murmuravam coisas que ninguém percebia. Naquele momento o rosto de Ding Ling era meigo e simples, como se não tivesse nada a esconder. E, no entanto, ambos sabiam o segredo que compartilhavam. E de que nunca mais tinham falado.

18.

Sofia Palha conhecia a versão mais tortuosa de Joaquim José. Se dissesse que mentira, não estava a mentir. Se dissesse que não mentira, estaria a mentir. Não importava agora. Os seus sonhos estavam comprometidos, pelo menos em Macau. Ela poderia dizer que não sabia de nada. O seu único ponto fraco era a relação com João Carlos da Silva. Tudo o resto eram suposições, teorias, imaginação. Não existiam provas. Enquanto se dirigia para o escritório do seu marido, arquitectava um plano.

69

Para Joaquim Palha a derrota de Fu Xian e de Max Wolf deixara-o num beco sem saída. Tinha agora a certeza que o tenente Amoroso fizera o jogo dos seus inimigos, o Governador e Ding Ling. Como conseguira ele ser tão dúplice? Max avisara-o para não confiar nele. E Sofia, que sabia ler os homens como ninguém, também. Mas ele confiara nas suas capacidades de persuasão, testadas durante anos em Macau com os melhores resultados. Sabia que nada contara a Félix Amoroso sobre o que planeavam fazer. Como teria ele descoberto?
O seu caminho estava agora bloqueado. A discussão com Max Wolf mostrara-lhe que lhe restava pouco espaço de manobra: ou o ódio dos governantes ou o desprezo dos seus opositores. Ou se fazia invisível ou seria erradicado. Que fazer? Fugir de Macau? Meios não lhe faltavam para fazer isso, mas seria era a vida que coroaria todos os seus sonhos? Poderia sobreviver a tudo mas não ao gozo dos seus antigos amigos, que se rapidamente tornariam inimigos. Poderia voltar a Portugal e recomeçar de novo. Mas as notícias chegariam a qualquer parte. Renegar o amor à pátria onde nascera e aliar-se a um alemão para conseguir benefícios contra os interesses de Portugal, quaisquer que estes fossem, não tinham forma de ser apagados. Os mexericos venceriam o que dissesse para se defender. Regressar a Portugal era impossível. Restava-lhe fugir para uma cidade qualquer da Ásia. Ou então tomar a decisão final.
Quando Sofia Palha chegou ao escritório de Joaquim este estava deitado de forma grotesca na cadeira. A pistola caíra para o chão. A cabeça tinha sofrido o impacto da bala que o matara. Nada a impressionava. Quando soube o que acontecera no vapor, Sofia sabia que se tinha despoletado o início de um caminho trágico. Não havia remédio. Ficara em casa e abrira uma garrafa de vinho tinto Periquita e fora bebendo e olhando pela janela, de onde se viam as águas calmas do mar. Assim esteve até ao momento em que recebeu a mensagem da secretária de Joaquim a dizer-lhe o que tinha acontecido. Foi como um relâmpago que interrompeu a sua letargia.

70

Tinha construído uma ficção de vida. Até aí pensava habitar num mundo ordenado, estável, que ela própria ajudara a construir com precisão matemática. Tinha um fim previsto. Os meios para lá chegar poderiam ser pouco morais, mas o poder ou o dinheiro nunca se tinham preocupado com pormenores dispensáveis. Todos, conhecidos, amigos, aliados, eram peões de um jogo mais vasto. A sua fria ambição permitira-lhe guiar as ideias e as acções de Joaquim José. Mas a tempestade regressara forte, como sempre acontecia em Macau. Devia ter antecipado possíveis acontecimentos futuros que pudessem fugir às suas rédeas. Só que era impossível suster o vento com as mãos e os furacões surgiam do nada, indomáveis. Em Macau deixavam sempre um rasto de destruição.
Vasculhou as gavetas da secretária de Joaquim, mas nada de incriminatório encontrou. Depois ordenou que informassem a polícia do que se passara e voltou a casa. Sentou-se defronte do espelho e vislumbrou-se demoradamente. Continuava bonita e atraente. Era ainda capaz de conquistar qualquer homem. Talvez o seu futuro não estivesse completamente traçado. Estranhamente não sentira nada perante o corpo de Joaquim. Reagira como se se tivesse libertado de um fardo. Agora só tinha a certeza que o mundo de amáveis monotonias tinha-se esfumado. Sentia isso, mas não chorava. Só quando o amor não existe é que se costuma sentir a sua ausência, pensou. Só lhe interessara, até aí, o luxo do domínio e do poder. Odiava o tenente Amoroso, o Governador e a sua mulher, Max e as suas promessas, a sinuosa chinesa Ding Ling. Odiava Macau. Suportara aquela cidade porque queria voltar a Lisboa como uma senhora rica e poderosa. Franziu a testa. Talvez ainda fosse possível. Afinal, para ela, o adversário de hoje poderia ser o correligionário de amanhã. O amigo de amanhã podia ser o inimigo de hoje. Seguiria o ritmo do vento, conforme soprassem as circunstâncias e as conveniências. Um dia Joaquim dissera-lhe que ela tinha menos luzes do que um barco pirata. Sorriu com o pensamento.

(continua)

20 Ago 2021

As Viagens de Gulliver – sexta parte

A despeito de haver momentos em que Swift parece afunilar a sua apresentação, isto é, parece reconduzir os habitantes de Laputa não à imagem de todos os humanos de um modo de ser de alguns humanos – como quando escreve «É verdade que muitas vezes notei esta característica nos matemáticos europeus» (154) ou «Ignoram completamente o que seja imaginação, fantasia e invenção, a ponto de não existirem no seu idioma que definam aquelas ideias.» (154) –, a verdade é que se trata de um mapeamento do humano nas suas diversas apresentações, não apenas no sentido ontológico, como na denúncia da curiosidade, da ambiguidade, do falatório, do esquecermo-nos de nós mesmos, mas também na fragmentação comportamental do humano, isto é, os humanos nos seus diversos afazeres e grupos. Nesta terceira parte, além de encetar esta apresentação do humano por dentro, isto é, do humano enquanto ser humano, quer em sentido ontológico quer em sentido comportamental, Swift prepara-nos também para a desmontagem da maior das nossas ilusões: a de que somos animais racionais. E ser esta a definição que nos distingue de todos os demais seres vivos. Para além de não ser verdade, Swift ironicamente ainda nos apresenta isto através de uma inversão completa do nosso ponto de vista, a saber, mostra que existem seres que são realmente racionais, contrariamente a nós, e que têm a forma de cavalo. Swift traça uma completa inversão no ponto de vista. Leia-se como termina o capítulo III desta quarta parte: «Disse-lhe [ao príncipe] ainda que, se a sorte me levasse de volta ao meu país, a fim de relatar as minhas viagens – como era minha intenção –, todos pensariam que eu dissera uma coisa que não existia; que eu inventara toda a história; e que, com todo o respeito que lhe devia, assim como à sua família e amigos, e sob a sua promessa de que não se ofenderia, os meus compatriotas dificilmente acreditariam na existência de um país em que um houyhnhnm fosse um ser superior e um yahoo uma besta.» (224-5)

Ao conduzir-nos por esta inversão, aquilo que Swift nos diz e mostra com muito rigor é uma diferença absoluta entre ser racional e ter razão. Nós temos razão como alguém tem um carro. Mas ter um carro, por um lado não faz dele um ser automóvel e, por outro, também não faz com que ele use sempre o carro. É assim com a razão. Se fôssemos realmente seres racionais nunca faríamos ou diríamos algo que contrariasse esse modo de ser, isto é, nunca sairíamos da razão. Mas não é isso que acontece com o humano. Nós somos muito mais parecidos com os yahoos, da quarta parte do livro, e com os habitantes de Laputa, da terceira parte, do que com aqueles cavalos racionais.

Comecemos por ver duas passagens. A primeira é quando Gulliver fala ao príncipe acerca da natureza das guerras, tão comuns no mundo de onde vem, e das suas atrocidades, lemos: «Mas quando uma criatura com pretensões a racional era capaz de tantas enormidades, assaltava-o o terror de que a corrupção desta faculdade [razão] fosse pior do que a própria brutalidade. Por conseguinte, deu-me a impressão de estar convencido de que, em vez de raciocínio, nós tínhamos somente qualquer qualidade apropriada para aumentar os nossos vícios naturais, assim como o reflexo dado por um rio de corrente agitada nos dá a imagem de um corpo disforme, não só de maiores dimensões como também profundamente alterado.» (234) A segunda passagem tem a ver com a incapacidade do príncipe em compreender as inúmeras doenças que causamos a nós mesmos. Leia-se: «Disse-lhe que nos alimentávamos de mil coisas que operavam de maneira contraditória, que comíamos quando não estávamos com fome, e bebíamos sem a menor provocação da sede, que nos sentávamos noites inteiras ingerindo licores fortes, tendo o estômago vazio, o que nos predispunha para a indolência, inflamava os nossos corpos e precipitava ou impedia a digestão.» (239)

O que está aqui em causa é a incapacidade de o humano ser coerente com a razão, isto é, de ser racional. A despeito de alguma coisa nos fazer mal, e nós sabermos disso, ou que nos possa vir a fazer mal, nós não a deixamos de fazer ou de ingerir. Ora, segundo o ponto de vista da razão isso é absurdo, uma contradição inaceitável. No fundo, estamos perante aquilo que era o projecto dos estóicos, em que o humano se propunha a agir em concordância com o que pensava. O estóico é aquilo que pensa. Ou seja, contrariamente à maioria das pessoas, o estóico sabe que o tabaco faz mal e não fuma, sabe que não se deve enganar os outros e não engana, sabe que não deve entregar-se às paixões e não se entrega. Para o estóico o conhecimento faz sentido, isto é, o conhecimento que tem do mundo e da mecânica do humano fá-lo agir em concordância com esse conhecimento. Ou seja, o estóico diz «assim devo agir e assim vou agir». Pensamento e vontade unem-se. É o que mais se aproxima de uma filosofia ética racional.

Evidentemente, também poderíamos falar dos epicuristas. Tanto epicurismo quanto estoicismo são filosofias de ascese. Mas estas filosofias ascéticas e racionais advinham, contudo, do conhecimento da mecânica da alma humana. Mais os epicuristas, evidentemente. Será com Kant, na sua Crítica da Razão Prática que a razão se torna um mandamento, isto é, um a priori transcendental, a priori do humano, e não uma consequência do conhecimento da mecânica da alma humana. Ou seja, do mesmo modo que para houyhnhnms ir contra a razão é uma auto-contradição, assim aparece em Kant. O filósofo que mais nos mostra o ponto de vista deste povo de cavalos é precisamente o filósofo alemão de Könisgberg. Aquilo que faz com que não sejamos auto-contraditórios é o que Kant chama imperativo categórico. O imperativo categórico exige que cada um de nós aja apenas segundo uma máxima que possa ser uma lei universal. Exercer uma acção contrária a uma máxima universal, isto é, a uma máxima que seja boa para todos, que não prejudique ninguém, conduz ao absurdo. O exemplo mais conhecido de Kant é também aquele que podemos encontrar ao longo de toda a quarta parte do livro de Swift. Pergunta Kant: «Poderia alguém mentir em seu benefício ou de um ente querido ou em favor de toda a humanidade sem cair em contradição?» A resposta é: «Não, pois a mentira não pode ser uma máxima universal.» O imperativo categórico em Kant é uma forma a priori, pura, independente do útil ou do prejudicial. É uma escolha voluntária racional, por finalidade e não por causalidade. A razão é a condição a priori da vontade. O humano enquanto ser racional que é não pode ir contra o imperativo categórico sem que deixe de ser racional. No fundo, Kant descreve o mundo dos houyhnhnms e não o nosso mundo, que é muito mais próximo dos laputaneanos e dos yahoos.

Veja-se esta célebre passagem de Swift: «Como estes nobres houyhnhnms são dotados pela Natureza de uma tendência geral para as virtudes, e não fazem a menor ideia do que seja o mal numa criatura racional, a sua máxima principal é o cultivo da razão, que deve governá-los inteiramente. Não obstante, a razão não constitui, entre eles, uma questão problemática, como entre nós, onde os homens podem arguir com plausibilidade ambos os lados de uma questão; entre eles a razão é uma convicção imediata, como deveria sempre ser quando não é deturpada, obscurecida ou descolorida pela paixão e pelo interesse. Lembro-me que tive a maior dificuldade de explicar ao meu amo o significado da palavra “opinião”, ou como é que um determinado ponto pode ser discutido, uma vez que a razão nos ensina a afirmar ou negar somente as coisas de que estamos absolutamente certos, e não nos é possível tomar quaisquer atitudes nas questões que ficam além dos nossos conhecimentos.» (252) Esta passagem mostra claramente esta distinção entre os seres racionais que são os houyhnhnms, tal como na filosofia prática de Kant, e nós. Por incrível que pareça, há uma passagem ainda mais pertinente e mais próxima da filosofia de Kant. Leia-se já no capítulo X: «[…] eles não concebem que uma criatura racional possa ser obrigada, mas sim aconselhada ou exortada, porque ninguém pode desobedecer à razão sem renunciar ao direito de ser considerado uma criatura racional.» (265) Ser racional e ter razão não só não são uma e a mesma coisa como estão a anos-luz de distância.

Ainda nesta senda, leia-se no início do capítulo VII: «Talvez o leitor se admire do retrato livre que me decidi a fazer da minha própria espécie junto de uma raça de mortais já predisposta a conceber a mais baixa opinião do género humano, dada a total identidade entre mim e os seus yahoos. Mas devo francamente confessar que as inúmeras virtudes daqueles excelentes quadrúpedes – colocados em posição oposta à das corrupções humanas – me tinham aberto de tal maneira os olhos e esclarecido o meu entendimento que principiei a analisar, sob uma luz muito diferente, as ações e paixões do homem, e a pensar que a honra daqueles que pertenciam à minha própria espécie não merecia muita defesa.» (243)

Quando parece que Swift não pode aumentar mais a parada, que por um lado não consegue arrasar mais o nosso ponto ilusório e, por outro, abrir-nos mais os olhos, de modo a vermos as coisas com uma luz muito diferente, como Gulliver escreve, eis que se dá uma aproximação gritante à Alegoria da Caverna de Platão. Que já vinha sendo anunciada, aqui e ali. Principalmente quando na quarta parte fica clara a oposição entre opinião e razão. Mas isto ficará para a próxima e última semana.

(Continua na próxima semana)

17 Ago 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 51 ao 60

51

Ouviu a voz de Benedito:
– Foi em Singapura que tive a oportunidade de ler, pela primeira vez, os livros de Homero, a “Odisseia” e a “Ilíada”. Identifiquei-me com Ulisses, não sei porquê. Talvez pelas duas fases da vida que ali são retratadas. Fazem sentido para mim. Sabes, quando penso nos espiões lembro-me de um episódio que é contado nesses livros. É uma lição de vida. Nele, Ulisses encontra um espião troiano, Dólon, que ia espiar os gregos. Convence-o que a sua vida pode ser poupada se cooperar e revelar tudo o que sabe sobre as tropas troianas. Quando as dá, Diomedes diz que tem de matar Dólon. Porque se o libertar ele regressará, ou para espiar os gregos ou para os combater. Dólon pede clemência, mas a espada de Diomedes mata-o.
Benedito susteve a respiração, antes de continuar:
– Que lição podemos tirar daqui, meu caro tenente? Não podemos confiar em ninguém. Nem nos que nos prometem o que quer que seja. E na espionagem há sempre a hipótese de não escaparmos com vida.
– Eu sei, padre. O fundamental de qualquer actividade clandestina é poder escapar ao olhar alheio. E eu isso não consegui fazer.
– Aprendi uma coisa com um agente meu. Um chinês do interior. Dizia-me ele que quando um espião deixa de saber qual o seu caminho no meio da escuridão, deve sentar-se, observar o céu e ver as estrelas entre as nuvens. Talvez seja agora uma boa lição. Para ti e para mim.
– Sim, essa talvez seja a melhor estratégia. E também, como me ensinou Ding Ling, converter-me no inimigo. Colocar-me no lugar de quem me pode fazer mal e sondar o seu coração e as suas razões. Preciso de conhecer as suas ambições e intenções. E então saberei quem me quis matar.
– Sim mas tens de ter muito cuidado. Eles estão dispostos a calar-te. Quando se caminha de noite por caminhos iluminados pela lua, deve utilizar-se as zonas de sombra.
Continuaram a falar, enquanto não muito longe dali, a batalha fora rápida. Bei Li desviou o olhar dos corpos estropiados por balas e facadas e que estavam caídos no chão. Eram quase todos homens de Fu Xian, mas este não se contava entre os mortos. Tinha conseguido fugir.

52

O edifício de pedra esverdeada estava conquistado. Ding Ling, com olhar decidido, passou com a mão pelos contentores de madeira que continham sacos de heroína. Os seus homens esperavam, ansiosamente, ordens. Por fim ela disse:
– Queimem tudo!
Eles assim fizeram. Os contentores foram-se transformando em fogueiras enormes. Saíram rapidamente do local. O fumo começou a sair pelas janelas e pela porta. Ding Ling olhou para o céu. A lua estava com uma luz poderosíssima. Era uma visão maravilhosa. Por momentos julgou ver a sua face reflectida naquele círculo que iluminava Macau e que, em conjunto com as chamas que agora saíam do prédio, lhe davam um aspecto demoníaco. Ding Ling disse, enquanto começava a caminhar:
– Nesta guerra a melhor arma é o medo que provocamos nos nossos inimigos.
Bei Li não disse nada, mas seguiu os passos de Ding Ling, como se fosse a sua sombra.

13.

A ventoinha rodava lentamente no tecto. Fazia um ruído estranho, o que poderia ser um sinal de que estava quase a deixar de funcionar. O governador Rodrigo Rodrigues, sentado no seu cadeirão, olhou para lá, enquanto soprava o fumo do cigarro para o ar. No seu olhar havia algo de resignado, como se finalmente percebesse que nem sempre era fácil mudar o que fosse em Macau. O Palácio do Governador, onde estava, era um local onde os silêncios, muitas vezes, diziam muito mais do que as frases e os sussurros se impunham às vozes mais audíveis.
– Com este calor é fácil perder o hábito de agir.
As palavras do governador soavam a indiferença, mas Félix Amoroso sabia que ele tinha muitas ideias para a cidade. Circulava em voz baixa no Grémio Militar, que estava a tentar colocar, pela primeira vez, representantes da comunidade chinesa local no Conselho do Governo, algo que não era do agrado das entidades mais conservadoras. Por outro lado tinha convidado o bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, a fazer parte do mesmo Conselho. Parecia uma forma de ele, um maçon, mostrar que a República era a casa de todos e de tentar gerir interesses contraditórios. Era como construir um castelo de cartas. Bastava um sopro mais forte e tudo caía.


53

Ainda assim, sabia a sua força, porque o poder estava formalmente concentrado nas mãos do Governador, representante de Lisboa. Mas, na prática, isso era um equívoco. O governador tinha sempre de gerir os interesses dos senhores locais mais influentes e, por isso, muitas vezes as suas ideias diluíam-se numa sopa sem sabor ou aroma. Na Taipa, era o comandante militar, que mandava em Amoroso, que fazia as suas próprias leis. Não que a sua força fosse muita. Recentemente o general Gomes da Costa tinha passado por Macau para ver como se encontrava a situação militar e partira desolado.
Em Macau tudo se sabia. Não era uma cidade muito grande para ser possível guardar segredos. Rodrigo Rodrigues insinuou:
– Nunca se deve tentar agradar a todos, porque no fundo estamos apenas a transferir para o futuro o verdadeiro duelo.
– Quem tem paciência acaba por vir a governar o mundo, senhor governador.
– Isso não sei. Mas tenho a convicção de que não estarei muito tempo em Macau.
Amoroso sondou a face do governador, mas esta manteve-se impassível e serena. Rodrigues tinha a virtude de saber esperar. E de não ter esperanças infundadas sobre o futuro. A voz do governador voltou a soar:
– Estou a pensar reforçar o patriotismo em Macau. Apelar aos sentimentos nacionais, mostrando o que nos une e não o que nos divide. Que acha da ideia, tenente?
– Parece-me boa. E como quer fazer isso?
– Penso que Luís de Camões diz muito às pessoas de Macau. E a Portugal. Foi o homem que serviu para juntar os portugueses em redor dos republicanos e contra a Monarquia, quando os ingleses nos humilharam com o Mapa Cor-de-Rosa. Os republicanos souberam recuperar Camões e “Os Lusíadas” para vincar o nosso patriotismo e fazer renascer o nosso sentido de honra. Estou a pensar instituir uma romagem à gruta de Camões no Dia de Portugal.
Amoroso acenou com a cabeça. Notara que, pouco depois de ter chegado a Macau, Rodrigo José Rodrigues deixara de andar fardado, apesar de ser miltar. Usava roupas civis. Dizia-se que era uma pessoa sociável, que gostava de se sentar debaixo de uma árvore quando estava calor e de ver os chineses mais velhos a jogar mahjong nas ruas. Às vezes, à noite, percorria as ruas da cidade, sem escolta.

54

O governador bateu com um dedo no tampo da mesa, quebrando o silêncio.
– Tem de ter cuidado, tenente. Penso que não seria o primeiro português a apaixonar-se por uma chinesa e por causa disso nunca mais regressar a casa.
– Porque diz isso?
– Sei que a menina Ding Ling é a sua, como direi, protectora? Se não fosse a sua acção, poderia ter perecido na tentativa de assassínio. Ou estou enganado?
– Não está, senhor governador. Como diz uma outra amiga minha chinesa, “como um pássaro no rio, como um peixe no ar, um estrangeiro é um homem com problemas na noite de Macau.”
O governador deu uma pequena gargalhada.
– E ela, com essa frase, também se refere aos portugueses?
– A alguns. Não a todos. Muitos portugueses conhecem Macau e amam esta cidade. É a sua casa. Tenho aprendido isso.
– Não duvido. A minha mulher está a encontrar muita inspiração aqui para a sua poesia. Quando me for embora será um problema.
Seguiu-se um novo silêncio, antes de Amoroso questionar:
– Como está a vida política em Lisboa?
– Um pântano, como sempre, segundo o que vou lendo no “Diário de Notícias”. Vão desaparecendo os melhores, como o Carlos da Maia, que foi aqui governador. Assassinados ou afastados. E nascem, como cogumelos venenosos, os arrivistas, os lambe-botas e os que desejam apenas o poder. É difícil respirar ali. Não tenho muitas saudades. Isto pode parecer um exílio, mas aprecio-o. As intrigas demoraram algum tempo a chegar aqui e a ter um efeito nefasto.
O tenente puxou de um cigarro e acendeu-o antes de responder:
– Parece evidente que Portugal não vai vender Macau à Alemanha. Os chineses também não gostariam da ideia, porque a primeira coisa que a Alemanha faria era pôr aqui uma base militar a sério. Já lhes basta terem de aguentar os interesses de franceses, ingleses e americanos em Xangai e noutras cidades.
– Também me parece o caso. Sabe, em Lisboa, passam a vida a discutir a questão das colónias. Sobre Macau, só se faz isso em momentos de fúria nacionalista. De resto ninguém olha para aqui. Nem, diga-se, para lado nenhum.

55

O governador continuou:
– Estive a reler o dossier que tenho sobre o assunto e já em 1896, foi muito comentado um boato sobre a cedência da Lapa à Alemanha pelo governo chinês. Um escândalo que durou dois ou três dias até as atenções se focarem na nova marca de charutos disponível na Havaneza. Mais tarde um deputado, Franco Frazão, quis delimitar o que achava que devia pertencer a Macau, e isso ia do forte do Passaleão às ilhas da Lapa e D. João e mesmo à de Hian-Chan. Queria aproveitar-se de um daqueles momentos em que a China foi submetida pelas potências ocidentais. Queria uma fatia do bolo. Depois discutiu-se o porto franco e a alfândega chinesa. Mais foguetes políticos. E ninguém apanhou as canas. Sabe como é. E há quem esteja sempre a dizer para vendermos esta fonte de problemas, tal como Timor ou Goa. Só se houver vantagens económicas para alguém é que se discute o assunto com um pouco de seriedade.
O tenente esticou as pernas. Sentia-se confortável, apesar da ligeira dor que ainda tinha no braço. E o governador estava numa daquelas tardes em que, sem compromissos, podia e queria falar. Porque, ao mesmo tempo, encaixava os seus pensamentos dispersos.
– E o governador, permita-me a pergunta, nunca teve ambições políticas?
Rodrigo Rodrigues sorriu e olhou para o tecto. Continuava fascinado pela ventoinha. Nela via a vida política portuguesa. Ia rodando, apesar do ruído incomodativo. Um dia cairia do tecto. Apontou para ela:
– Acha que um dia me pode cair na cabeça?
– Não sei. Isso poderia e deveria ser evitado.
– É como a vida política. Nunca se sabe se não nos pode acontecer o mesmo. Tive sonhos. E depois chegaram os pesadelos. Não sou propriamente amigo de Afonso Costa. Nem aliado. E ele, com a sua longa mão, que tudo toca, não esquece isso. Por isso afastei-me. E, confesso, acho que eles não se importaram muito com isso. Assim não têm de se preocupar comigo nem com o que faço. Sabe, Macau fica suficientemente longe do Terreiro do Paço e do Chiado.

56

– Sabe, tenente, quando alguém deseja mesmo ser imperador precisa de traçar um círculo no solo, fechado à sua volta, para que ninguém mais entre ali. Mais tarde deve fazer outro círculo concêntrico onde está a sua guarda pretoriana, um punhado de conselheiros que não lhe dêem conselhos e que cumpram a sua função de recipientes vazios onde vertem a sopa das suas próprias convicções. Soldados obedientes, que não leais, e só fiéis à luz que irradia sobre eles a partir da liderança. Outro círculo mais amplo se pode criar, com uma boa quantidade de súbditos complacentes, sem ânimo para questionar as coisas e que não tenham memória ou sequer confiem muito nela e que a reescrevam em função da versão preferida do imperador. Não ganham nada, ou muito pouco, mas lutam entre si para caminhar à sombra do seu senhor.
– E o governador não é assim.
– Desejo não ser assim. Tal como o tenente. Se assim não fosse porque é que o teriam enviado para Macau?
– Não sei mas um dia regressaremos a Portugal. O que faremos?
– Não sei. Portugal disse adeus ao passado.
Amoroso sorriu. Como se não fosse o passado a dizer-nos adeus a cada instante. Mas talvez o governador quisesse dizer outra coisa. Mais complexa e terrível. Talvez: Portugal disse adeus ao futuro.
– E Macau? Podemos mudar esta cidade, tenente?
– Eu penso que o governador acha que é possível tornal reais algumas ideias. Tem a convicção que esta cidade pode ser transformada, para ser lucrativa para todos e ser redimida aos olhos de Lisboa. Mas está a pensar fazê-lo só com os interesses locais e sem ter qualquer ajuda de Lisboa. Seria um milagre. Mas é possível para que algum dia, no futuro, alguém aqui acenda o seu cachimbo e conte aos filhos a história de um sucesso. De que ninguém estava à espera. E começarão a história com o nome de um homem com coragem. Seria um motivo de orgulho para si.
Rodrigo Rodrigues sorriu enquanto apreciava as palavras do tenente. Depois disse:
– Eu acho que temos uma oportunidade única para que os habitantes de Macau controlem o seu futuro. Talvez depois pudesse chegar a Lisboa, aos corredores onde se manobram as decisões, e mostrasse que em Portugal se poderia seguir o exemplo de Macau. Só que o futuro não são apenas palavras. É preciso fazer e não estarmos apenas a pensar na nossa sobrevivência política.

Rodrigo Rodrigues calou-se. E voltou a olhar para o tecto. A ventoinha continuava a fazer o seu estranho ruído. Mas não caíra.

57

14.

Quem diabo sou eu? Não sou padre, nem nunca fui. Não sou espião, apesar de o parecer. Gosto de mulheres, apesar de o esconder. O dinheiro seduz-me, mas finjo odiá-lo. Passei anos a esconder-me de todos, mesmo que eles me vejam. Por isso cada um tem a sua ideia sobre o que sou. E eu, quando me olho ao espelho, já não me reconheço. As dúvidas tropeçavam umas nas outras e Benedito Augusto sentia-se estranhamente perdido num mundo que entendia, nas suas complexidades e contradições. Mas talvez fosse por isso que tinha tantas dúvidas e receios. Nem o álcool ou as drogas conseguiam afogar esta sensação de estar numa terra de ninguém, num mar imenso sem ilhas à vista, sem um porto seguro onde sentisse firmeza por debaixo dos pés. Navegava à bolina, como sempre acontecera. E quando parecia ter tudo controlado, os alemães e os portugueses faziam ruir o seu castelo. Apetecia-lhe seguir para Singapura e desaparecer com Mariana da Conceição, uma malaia de remotas origens portuguesas e holandesas. Poupara quase o dinheiro suficiente para desaparecer nos confins da Ásia ou, talvez, em Zanzibar ou em Madagáscar. Longe do longo braço das tríades. Via-se numa cama de rede a olhar para o horizonte, junto a uma tabanca onde vendia álcool e sonhos aos perdidos da vida. Faltava-lhe o último golpe. Mas esse agora era perigoso.
Olhou à volta. Aquela hora da tarde a taberna estava estava quase vazia. O que era bom para conseguir estar atento aos seus pensamentos. Quando Félix Amoroso chegou ele folheava uns papéis encardidos. Repletos de manchas de vinho. Tocava-os com cuidado. Amoroso reparou no estanho fascínio com que o padre olhava para eles, como se fossem ouro reluzente.
– Que tens entre mãos, meu caro Benedito?
Este não levantou o olhar dos papéis.
– Há coisas que nos surgem por acaso. E que podem mudar uma vida.
– Um mapa do tesouro?
– É quase isso. Amanhã parto para Hong Kong. E depois para Singapura e para a Malásia. Tenho vários negócios a tratar lá.

58

– Para Fu Xian?
– Alguns. Ele sofreu uma derrota. Mas não morreu. Voltará mais forte, não tenhas dúvidas. Agora está desconfiado de todos. E o alemão quer a sua heroína. Ou o valor dela. Não sei o que poderá acontecer, pelo que o melhor é afastar-me uns tempos. Tenho uma boa desculpa. Fu Xian quer que eu lhe faça um serviço.
– Vais ver a tua amada?
Benedito levantou a cabeça e fulminou o tenente com o olhar:
– De que estás a falar?
– Da menina Mariana da Conceição. De Singapura, ou da Malásia. Não sei. Dizem-me apenas que é muito bela.
Benedito piscou os olhos. O seu rosto pareceu, de repente, ter mais linhas a marcá-lo. Perdeu alguma da flexibilidade que o caracterizava.
– Nada temas, Benedito. Sei que não acreditas em mim, mas eu prometo silêncio.
– Porque não acreditaria em ti?
– Porque as pessoas não têm fé.
Benedito fitou-o severamente. Como se tivesse sido ameaçado com uma faca.
– Eu tenho fé.
– Tens? Alguma vez tiveste?
– Sou jesuíta. Padre.
– Achas que, se acreditarmos em tudo o que dizes, ainda és padre e tens fé? Não irás para o inferno?
– Não estamos todos no inferno?
Amoroso fez um sorriso velado e misterioso.
– Estamos. Mas nem tudo tem de ser sofrimento e culpa. Benedito sussurrou:
– Estou cansado. Até demasiado cansado para responder a essa pergunta.
Esfregou os olhos antes de continuar:
– Tenho muitas notícias sobre João Carlos da Silva. A sua vida. Foi-me contada por alguém que passou por aqui, e no meio da bebida, foi-me abrindo as portas para conhecer um homem que parecia transparente. Que aparentava ser apenas um secretário do Governo e que tinha tido um desgosto de amor depois da mulher não se ter adaptado a Macau e ter rumado a Portugal.
– Quem te contou?
– Um homem de Macau. Que foi amigo do senhor Silva. E, sobretudo, seu credor.
– E então?
– Então, a vida do senhor Silva é mais complexa. Veio efectivamenre para aqui, casado com a senhora Gertrudes de Albuquerque. Uma católica muito piedosa, que passava a vida na Igreja. Os primeiros meses foram suportáveis, até que o senhor Silva começou a jogar e a perder. Com isso destruiu o património da mulher. Esta, incapaz de o conter, desapareceu.

59

A voz de Benedito transformou-se num sussurro:
– Diz-se que partir um barco, às escondidas, para Moçambique. Onde tinha família. Este homem que o conhecia diz-me que ela nunca chegou a Moçambique. E que as tentativas da família para saberem o que acontecera a Gertrudes tinham sempre esbarrado no silêncio das autoridades de Macau.
– Talvez a mão do senhor Silva estivesse por detrás desse silêncio…
– Talvez. Como talvez a senhora Gertrudes não tenha saído daqui viva. Não se sabe e talvez nunca se venha a saber. Mas o certo é que ele continuou a jogar. E a perder o que tinha e o que não tinha. Foi quando conheceu a família Palha. Sofia viu nele o que não encontrava no seu Joaquim. Ou, talvez, segundo este meu informador, que emprestou muito dinheiro a Silva com bons juros, porque queria saber os segredos da administração. Quem deve muito está susceptível de trocar as dívidas por informação. Segundo parece, Silva passou a ter dinheiro. Chegou mesmo o momento em que pagou as dívidas e os juros. E isso coincidiu com a chegada de Max Wolf a Macau. Não é difícil ver a conexão. Sofia, ou mesmo o senhor Palha, colocaram Silva e Max Wolf em contacto. As suas amigas chinesas devem saber mais sobre isso.
– O mundo é gerido pela fraqueza dos outros.
– Ou do próprio. As fraquezas às vezes conduzem a respostas muito fortes. E impensadas.
O tenente passou a mão pelo queixo, bebeu um pouco de cerveja, e disse:
– Esse teu amigo de bebida sabe quem matou o Silva?
– Ele não sabe. Mas desconfia. Ele era útil para o alemão. Este tinha-o na mão. Restam o Joaquim Palha ou a Sofia. Porquê, não sei, mas o Silva e a Sofia acabaram na cama. Não sei o que ela viu nele. Ou se foi uma simples forma de ela se vingar do marido. Este tem uma amante em Hong Kong. Vai lá muitas vezes em negócios…
Deu um gargalhada. Soou a cinismo puro.
– Estava há pouco a falar-me de fé, tenente? Que acha? O universo é o caos. Talvez um dia a ordem consiga emergir do caos e prevalecer. Talvez deixe a escuridão e traga a luz.
Escutou um ruído. Alguém arrastava uma cadeira para um dos cantos da taberna. Tinha uma boina preta e, sem dizer nada, sentou-se, começou a tocar uma guitarra portuguesa e ouviu-se a sua voz.

(continua)

8 Ago 2021

Fios invisíveis

Biblioteca, Grândola, sexta, 16 Julho

O Luís [Cardoso] lá foi contar ainda uma vez das mulheres da sua vida – a mãe que se desdobrou em mais mãe de onze além dos onze iniciais, a namorada que foi ao encontro das balas assassinas – afirmando assim e sem quebrar o mistério a força das vozes femininas no seu romance-poema, romance-rio. Omnipresentes, quase invisíveis, comme d’habitude. Acabo de saber que quem lhe lança a pergunta, em acto de apresentação, e há muito o lê daquele modo íntimo como só a tradução, a Catherine Dumas assinará recensão para a Colóquio Letras.

Dá-se a reunião bem acompanhada em dia quente, neste espaço novo, que contém rios no coração dos muros, por haver ali uma belamente desarrumada exposição da Ana [Jacinto Nunes], na qual se incluem as ilustrações que abrem aquela «sonata para uma neblina». Esquecendo as salas, exemplo de uma arquitectura fechada sobre si, ignorante de funções e destinos, ali se encontram dezenas de rostos em pose. Gosto do jornal que diz ao que se pode ir, sujando as mãos, com singeleza, sem contar em demasia. A pintura da Ana, para captar a vida, surge sempre irrequieta, como que inacabada, a caminho de outra coisa, o gesto do pincel em busca da forma exacta das suas personagens, esculpidas na cor e respectivos movimento e temperatura, mulheres e animais, abraçando-se, quebrando fronteiras, celebrando nevoeiros. Um jazz no qual o tecido pode ser instrumento. Invariavelmente, os rostos olham-nos, desafiam-nos para diálogo em fluxo, fonte brotando da fronte. Oiço dos vários quadrantes que só somos na mistura com o natural. Nasceste da cor e a ela voltarás. Aqui e ali, as peças de cerâmica sublinham isso mesmo pois abrigam raízes, fazendo nascer do barro cortinas de verde, bambus onde se escondem os ventos, outros verdes esguios que podem bem dar pássaros. «Entre nuvens e papiros», assim se chama a mostra e no nome se (des)arruma o assunto.

 

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 17 Julho

A propósito: a SOS Racismo lançou um «Dicionário da Invisibilidade» contendo, além de belos retratos do André [Carrilho], uns bons milhares de entradas, com proveniências e autorias diversas, para «abrir uma brecha para a discussão e alargamento de horizontes sobre a questão da invisibilidade». Podem discutir-se os critérios, talvez demasiado abrangentes, e em qualquer lista sobra (não digo) ou falta sempre alguém (aqui sim, Natália Correia, exemplo exemplar). De qualquer modo, fica apresentada uma multidão de ladrões de fogo, que nas várias áreas e geografias, se entregaram, se entregam a uma causa, alargando horizontes. Seiscentas e tal páginas que dão bom princípio de conversa. Gosto de encontrar, logo abaixo de Tina Modotti, uma entrada para o Maçarico (1960-2014), nome que vestia o Vitor Ribeiro de nascimento. Era, fica escrito, traficante de sonhos.

 

Paço da Rainha, Lisboa, terça, 27 Julho

No diário fingido, que o são todos, esfregam-se mãos cuspidas para decidir caminhos nesta «rua da estrada»: enfrentar os mortos que nos interrompem os dias ou fugir pelo não. Folgo em ter amigos entre os que escavam obituários nos jornais e entre os que possuem as chaves dos portões de cemitério. Acabaremos todos por sair impressos naquelas páginas, em certo sentido, uma folha vibrante do quotidiano, a outra lençol de amargura na bainha da cidade.

Assim de atraso levo meses, mas que fique escrito que não pode passar sem lágrima o Vasco, o Otelo [Saraiva de Carvalho], o [Roberto] Calasso e o Pedro Tamen, assim por junto e sem sentido. Começando pelo fim, o poeta que foi, sem deixar de o ser, tradutor, editor e até administrador, vai faltar-me como orquídea cuja morte não apagará a culpa. Deixar de regar, de puxar o sol, talvez de soletrar em direcção da suprema elegância merece castigo. Falhei por não o ler mais, apesar do inevitável. Ergo mão que nem pelo gesto atingirá o leitor dos mitos e assim. Calasso contém o movimento das rochas, também no lugar de boas vistas do editor. Celebrando sem parar o movimento líquido do pensamento que se ergue das linhas correndo para o mar. Levantar a mão não arranca raiz. E nisto me encontro no dizer em desenho do Vasco, que compunha corpos explodindo. Dizer pelo nariz é bufar e por aí vai o comentador de ideias despenteadas, a quererem deixar a invisibilidade. Vai onde? Vai de encontro. Lá longe, pá, ergue-se o Otelo. Eu que sou das margens, apesar dos geómetras-vigilantes de algibeira se enganarem nas medições míopes, vou directamente ancorar no destruidor das âncoras. O que nos aproxima de casa não impede o voo. Ele foi quem apontou, por momentos, maneira de fazer do cais uma nuvem. Ou melhor, disse apenas que, para lá do aparente, o impossível estava ali: tomai e comei. Os quatro que partiram agora ajudariam a explicar. Ou a perguntar, que não há melhor maneira. Apontador de mitos, um, a desfazer a lápis no minuto pelo outro, se fosse caso disso, enquanto aquele gizava a logística do golpe e o poeta consertava sapatos e a luz. «Por cave deserta/ entram hábitos e ruídos/ verdes montanhosos, cascata/ um rio de água de Verão.// Estou só eu e o martelo/ e a minha mão opressa/ ou estará não sei que mundo/ com a palavra ou sem ela?// E eis-me então adivinho/ dos mistérios que atravessam/ a janela onde perpassa/ a luz que mal me ilumina/ e é o sal do meu pão.»

 

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 31 Agosto

A Patrícia Mamona voando fecha de boa maneira este dia pontado de intensidades. Resolvi entrar em «Pústula», outro perturbador filme de filmes da Bárbara [Fonte], exposto na Galeria da Casa Molder. Pendurado na parede velha, que a Bárbara pinta com a câmara, dando a ver sucessivos nascimentos, na ligação com a figuração clássica, a da dor sobretudo e à volta do religioso, essa encenação do essencial. A artista desenvolve uma liturgia em torno da natureza, da natureza das coisas. Nos interstícios do que passa e do que fica, do que se fixa e do que mexe, no corpo, na paisagem, na mescla líquida de um e outra. Vem depois o peso e as maneiras de o vencer. O vento que contém os fios que erguem o volúvel, o insustentável. A mulher voa («paralítico» do filme, algures na página e a sair dela). Vai acontecendo o arfar denso da lentidão ao limite, que cose os fragmentos da quase narrativa. Cada livro contendo pinturas faz-se espaço do sagrado. São momentos duros, rasgados e agrestes, beleza em carne viva, imagens fortes que ecoam em nós, por muito tempo e nos vários tempos do desperto e do sonhado. A cada um importa voltar e revoltar, como missal para nos explicar as cicatrizes de cada dia, o tule que se faz fumo, um fio de sangue branco leitoso que se puxa das chagas, dos mamilos antes de correr pelo negro, desperdiçando alimento, talvez vida. A casa é ruína, lugar de repouso das próteses, arrumo das naturezas mortas, o deitado que pode ser morte, raiz, mas também antena procurando céus. As lágrimas que foram areia, são agora fitas, fitas que não escorrem, para sempre brilhando esvoaçantes. E depois, ainda prolongamento de si, um enxoval de vestidos-prisão, a banheira e a água feita roupagem. A vida é crosta na nossa pele. A terra, lá fora, enxovalha. Há que a sentir com o corpo todo. Só com o corpo todo se penetra neste fascinante trabalho de inquietações. Daqui ninguém sai vivo. Da mesma maneira.

4 Ago 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 40 ao 50

– E a tua protegida, Wei Zi, já soube algo do subordinado de Max Wolf?
Antes de responder Ding Ling foi em busca de um roupão de seda e vestiu-o.
– Ele sabe alguma coisa. Mas não sabe tudo. Se o soubesse teria dito a Wei Zi. A questão resume-se a uma: ópio ou heroína? É isso que separa Macau do senhor Wolf. Se ele introduzir aqui a heroína destrói o negócio de muita gente. Mas ele está disposto a isso, mesmo que tenha de destruir os seus opositores. Para isso promete riquezas sem fim a piratas e elementos das tríades. É assim que se cegam os homens sem princípios. É preciso fazê-los acreditar, não no presente, mas no futuro. Desviar a sua atenção para o que ele vos pode vir a dar. E não o que ele te dá agora. Assim conquistam-se os tolos. Poderá ser uma luta terrível.
– Acho que estávamos mesmo a necessitar de um beco sem saída.
– Querido tenente, o problema não está muitas vezes na infinita crueldade de alguém. Está mais na sua cordialidade. Talvez por isso o senhor Wolf tenha escolhido a estratégia errada. E é isso que o pode fazer perder a guerra que se adivinha.
Ding Ling não lhe contou que Wei Zi conseguira saber a estratégia de Wolf para conseguir dinheiro. Ele tinha a mesma intenção que ela: assaltar o barco que transportaria ouro e dinheiro de Macau para Hong Kong. Wei Zi soubera quando, como e onde ele atacaria. O tenente começou a vestir-se, sem deixar de olhar para ela. A voz da chinesa voltou a escutar-se:
– Recorda que uma cobra nunca se pode transformar num dragão. Houve um sábio na China que nos disse que um sábio que se dedica a pôr ordem no mundo deve saber de onde vem a desordem, e só assim poderá cumprir a sua missão.
– Quem disse isso?
– Um senhor chamado Mozi. Para ele era claro que a desordem tinha origem na falta de amor mútuo.
– É isso que separa as pessoas?
– Sempre o será, não te parece querido tenente?
– Para isso é necessário que elas saibam distinguir o sabor amargo do que é doce. E nem sempre o sabem.

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– Esse será sempre o eterno problema dos homens. Por isso, na história da China quem atacou bem sempre ganhou. Quem teve dúvidas, perdeu. A vida também é assim. Foi assim que me conquistaste o coração.
– A ti ninguém te conquista. Tu deixas-te conquistar.
– Às vezes tu não me compreendes. E eu não te compreendo. Há assim algo de comum entre nós.
Amoroso sorriu.
– Não podes cometer um erro sem aprender uma lição, adorável Ling.
– Já pareces um chinês a falar, querido tenente.
– Aprendi contigo.
– Talvez. Mas não esqueças que quem nada deve é sempre senhor do seu destino.
Amoroso sentiu que alguém estava na escuridão. Não se enganou. Bei Li aproximava-se. Trazia um vestido transparente que deixava visível todo o seu corpo. Aproximou-se de Ding Ling e os seus corpos tocaram-se, por momentos. Ambas ficaram a olhar para ele. Mas o tenente não reagiu e saiu.

11.

O Bazar guardava segredos que nunca revelaria. Quando a noite caía e os silêncios e a escuridão convidavam ainda mais ao sigilo, as suas ruas estreitas e becos sem saída escondiam ainda mais um mundo que não se regia pelas leis escritas nos centros do poder. Ainda não anoitecera, mas o Bazar recordava, a Félix Amoroso, Alfama. Talvez fosse isso que aproximasse os portugueses dos chineses, o seu gosto pelos labirintos de onde não sabiam sair. Caminhava calmamente, mas sentia que olhos invisíveis o seguiam. Voltou-se mas não viu ninguém. Era uma sensação estranha, mas sabia que alguém seguia a sua sombra. O tenente tinha consciência do seu erro. Não fora prudente e tornara-se um alvo. O calor impiedoso ofuscava o seu pensamento. Não tinha nenhum mapa do tesouro entre mãos, que pudesse ser cobiçado. Era apenas o senhor de suspeitas que ameaçavam alguém. Percebera que, ao alertar Sofia Palha e, eventualmente, Max Wolf, poderia estar a pôr em causa um grande negócio. E quem queria lucros não se importava de colocar alguns prejuízos alheios nas contas finais.

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Chegou à Rua do Matapau e escutou o som de diferentes pássaros, cantando o que parecia uma pequena ópera. Vinha de uma loja que conhecia, e onde há algum tempo adquirira um periquito. Parou por um momento para escutar a agradável disputa entre os pássaros, fechados em gaiolas. Depois passou por um pagode, de onde vinha um cheiro agradável do sândalo das oferendas queimadas. Lá dentro, sabia, um Buda observava os que ali vinham depositar as suas preces num altar. Entrou depois na rua das Estalagens. A actividade ainda era ruidosa e frenética. Chineses andavam de um lado para o outro, transportando mercadorias e produtos diversos. Muitos deles destinavam-se aos juncos do Porto Interior, que não ficava longe. Numa das lojas viu algumas pérolas, colares e braceletes. Pensou em comprar uma para Ding Ling. E assim fez. Adquiriu uma bracelete de jade, depois de ter regateado o preço. Pagou em patacas e dólares de Hong Kong.
Sentiu uma espécie de felicidade quando colocou a bracelete no bolso do casaco. No ar notava-se um odor de ópio que vinha de uma casa de chá. Muito perto estava a cozinha aberta para a rua assinalada pelo padre Benedito Augusto para o encontro entre os dois. Pediu um pouco de arroz com porco assado e um chá. O chinês ficou a vê-lo comer e beber e, depois, fez-lhe sinal para avançar até dentro do beco. Amoroso seguiu por um corredor muito estreito entre paredes esverdeadas da humidade até que chegou a uma porta que estava entreaberta. Entrou e, ao fundo, na semi-obsuridade, estava sentado um homem, com um cigarro que não estava aceso entre os lábios, e uma navalha na mão direita que ia retalhando um pedaço de madeira. Levantou a cabeça e fez um sorriso acolhedor. Benedito Augusto, de vez em quando, marcava encontros em locais que o tenente desconhecia, mas que faziam parte da cidade chinesa de Macau, o seu Bazar. Ali o padre movia-se como se estivesse em casa. E quem ele convidava entrava num labirinto de que não conhecia a saída. Era a sua forma de mostrar que controlava os movimentos e as informações. Amoroso não tinha dúvidas que ele criara uma rede de contactos muito rica e secreta.

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– Não sou um fantasma, tenente. Pode aproximar-se e ver que sou real. Se quiser tem aqui uma cadeira e uma cerveja para beber. Ou um cigarro, se quiser fumar.
Ao contrário do que dizia, Benedito gostava de se mostrar como um fantasma que governava as almas a partir do mundo subterrâneo. O universo que muitos não conheciam e outros não desejavam conhecer. Não era inocente esta escolha. No seu jogo, Benedito gostava de ser dono do baralho de cartas ou das das peças de mahjong. Ali não se estava num território neutro. Amoroso sentou-se e agarrou na garrafa de cerveja que o padre lhe estendeu. Bebeu um pouco e voltou a focar a atenção nele.
– Este mundo é curioso, não é tenente? Hipnotiza-nos. Vai mudar, não tenhamos dúvidas. Eu, por certo mudarei com ele. Mas ao contrário da sua amiga Ding Ling, não o quero mudar. Vou adaptar-me ao que me espera. E o tenente, que pretende fazer? Adaptar-se ou mudar o mundo?
– Eu já tentei mudar o mundo, meu caro Benedito. Mas sobre o futuro tenho apenas uma certeza: não conheço as respostas para a pergunta que me estás a fazer.
Benedito fez um sorriso e acendeu o cigarro. O seu rosto, por momentos, pareceu ficar rijo, como pedra.
– Realmente a minha pergunta era errada. E é inútil procurar respostas para questões como esta. Ninguém sabe que decisões tomará. Eu compreendo-o, tenente. Percebo como se sente. Não há muito tempo, eu também me sentia perdido. Sem amigos. Sem identidade. Achava que não havia vida para mim que fizesse sentido. Melhor, sentia que não havia via nenhuma. Depois houve um momento, em Singapura, em que descobri o meu espaço.
Fungou, antes de continuar:
– Não me pergunte o que aconteceu. Não lho vou dizer. Mas há sempre uma vida. Há sempre um futuro, se o quisermos construir. Mas há limites para o que sonhamos sozinhos. E se amamos alguém compreendemos melhor esses limites. Mas eu não sou como o tenente. Acho que há vida para lá do amor por uma mulher.
– Acha mesmo isso?
– Para percebermos essa dura realidade temos de ter informação. E termos bons espiões.

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Deu uma pequena risada. E tentou ver a reacção que as suas palavras despoletavam na cara de Amoroso. Este manteve-se silencioso.
– Esta conversa não nasceu do acaso, ou porque me apetecia vê-lo. Tenho uma uma informação útil para lhe dar. Fu Xing colocou ao serviço do alemão Max Wolf a sua rede de espiões e de marinheiros. O negócio de heroína parece-lhe ter futuro. Pelo que sei, Macau será apenas um entreposto discreto para Hong Kong. Ali é que pensam fazer dinheiro. Aqui têm já um depósito bem defendido. Max prometeu-lhe que este pode ser o início de outros negócios. Legais. E ele quer a minha colaboração.
Amoroso fez um sorriso cínico e olhou-o fixamente. Seria possível ler a alma do padre Benedito? As suas motivaçõs eram obscuras e a sua história também. O tenente tinha recebido um relatorio de um dos seus novos agentes, colocado em Singapura. E percebera que o homem que tinha defronte dele tinha outras vidas. Não eram cartas que utilizaria agora, porque o jogo era outro. Mas, no futuro, nunca se saberia. Até porque ele sabia demasiado sobre o tenente.
– E que vais fazer, Benedito?
– Não tenho como fugir à teia de Fu Xing. Ele sabe que caminhos trilho e onde me encontrar. É um inimigo que não desejo ter.
– Compreendo. Farás o seu jogo. E o meu. E, sobretudo, o teu. Será um equilíbrio difícil, senão impossível. Tu o saberás. A luz é só a outra face das trevas.
– Também tem de decidir de que lado do tabuleiro está, meu caro tenente. O senhor Palha e a mulher não lhe darão tréguas. E investigar a morte do senhor Silva não lhe traz amigos. Pelo contrário. Eles cercam-no. Já descobriu mais alguma coisa?
– Não. Mas há indícios.
– Cuidado, tenente.
Era uma despedida. Benedito acendeu outro cigarro e ficou a olhar para Amoroso, enquanto este caminhava para a saida. Cá fora, a noite conquistara o Bazar. A única luz que via era a de um candeeiro de petróleo, junto a um local onde alguém vendia comida. Ouviu vozes abafadas. Na sombra estavam homens, mulheres e crianças sentadas em pequenos bancos ou no chão a comer o que as pequenas taças que tinham na mão continham.

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Continuou a caminhar para sair do Bazar. Ouviu um sussurro à sua esquerda. E um estronho, seguido de um silvo. Sentiu um impacto forte no ombro esquerdo. Caíu com o embate. Levou a mão ao braço e depois retirou-a cheia e sangue. Procurou a sua pistola, mas antes de o conseguir fazer, levou um pontapé na mão direita. Olhou para cima. Viu o cano de uma pistola apontada a ele e, mais acima, o de um chinês que o olhava fixamente. Ouviu a sua voz:
– Zōi gīn!
Ia puxar o gatilho. Mas o som do tiro não saíu da sua pistola e o homem que estava defronte de si caíu. O seu sangue jorrou para cima do tenente. Espantado, viu o rosto de Li Bei e de outros dois chineses que empunhavam pistolas. Agarraram-no e puxaram-no. Do nada apareceu um riquexó para onde o transportaram. Percebeu que seguiam a caminho da Rua da Felicidade. Antes de chegarem à “Noite Tranquila” pararam numa casa sem luz à porta e levaram-no para dentro. Amoroso deitou-se numa cama e procurou tirar a sua pistola Luger do coldre. Não lhe servira para nada, porque o ataque fora rápido. Alguém começou a tratar-lhe da ferida.
– A bala entrou e saíu do seu braço esquerdo. Não vai haver problemas.
A voz de Li Bei era reconfortante. A do tenente, um murmúrio:
– Como sabiam que estava ali?
– Ding Ling estava preocupada consigo. Tem sido seguido, dia e noite, tenente. Para seu bem. Descanse um pouco. Depois levá-lo-ei até ela.
Passada quase uma hora, em que dormitou, Bei Li veio acordar o tenente. Depois levou-o até ao “Noite Tranqila”. Ding Ling esperava-o. Agarrou num copo com vodka e deu-lho.
– Bebe. Faz-te bem.
Ele assim fez. O olhar dela era preocupado, mas doce. Disse, com uma voz aveludada:
– Sabes, às vezes sonho que quando estamos na cama, colados um ao outro, há algo no meio. Uma pistola. Pergunto-me: será sempre uma pistola o que nos junta e nos separa?
Ding Ling atravessava a fronteira do silêncio que tinham jurado respeitar. Falava do passado e, também, do presente. Fora uma pistola que os juntara. Aquela Luger que agora não lhe servira para nada.
– Queres falar disso, querida Ling?
– Não. Mas penso nisso.
– Porque me mandaste seguir?
– Foi o que fiz de bem, não foi?
– Talvez. Neste momento estaria morto, por certo.

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Ela não respondeu. Ele fechou os olhos e depois procurou no bolso do casaco cheio de sangue e tirou uma bracelete de jade. Deu-a a Ding Ling:
– É para ti. Comprei-a antes do atentado.
Ela aceitou-a e retorquiu. Não simulou os seus sentimentos:
– Já não sabemos o que é a bondade. Ficamos surpreendidos quando nos confrontamos com ela. Obrigado.
Ele sorriu e depois disse:
– Imaginas quem foi? Só vejo três hipóteses. Max Wolf. Joaquim Palha. Sofia Palha.
– Eu riscaria o primeiro. Não lhe interessa problemas com as autoridades portuguesas. Os outros, sim. Podem ter tudo a perder com a tua interferência.
Amoroso levou a mão ao braço. A dor continuava lá, para o recordar dessa noite.
– Precisas descansar, querido tenente. Eu estarei aqui. Mas tens de dormir.
Ding Ling falou com doçura. O seu rosto enigmático estava agora exposto à luz que iluminava a sala. Amoroso sentiu-se protegido. Algo que não acontecia há muito tempo. Muitas horas depois, Félix Amoroso foi levado até a um riquexó por Bei Li. Esta, com voz cândida, disse-lhe:
– Tanto somos filhos do que queremos recordar como do que queremos esquecer. Mas é bom que o tenente não esqueça o que se passou.
– Não esquecerei.
– Faz bem, tenente. O problema não é a dor nem o amor. É sempre as desculpas que as pessoas dão para ficarem com o dinheiro. E sobre o que fazem para o ter. O resto, seja a violência, as traições ou a guerra não são os problemas principais. Só o dinheiro o é.
Amoroso concordou. A luz encadeava-o. Despediu-se e partiu. O caminho, cheio de solavancos, foi penoso. Quando chegou a casa deitou-se, relembrando as últimas horas. Depois foi lavar-se e mudar de roupa. Quando voltou à rua foi até ao Grémio Militar para almoçar. Comeu um bacalhau cozido com grão que lhe fez recordar uma velha tasca junto ao quartel do Carmo, em Lisboa. Cumprimentou colegas militares e depois saiu, procurando evitar o sol inclemente que queimava as ruas e os prédios de Macau. Sentia-se dorido mas mais determinado do que nunca.

49

12.

Às vezes as coisas são o que parecem. Para Ding Ling isso era óbvio. Sentiu a presença de Bei Li e o seu corpo ganhou vida. Olhou para a bracelete de jade verde que Amoroso lhe oferecera e colocou-a no pulso esquerdo. Era luz num mundo de escuridão, onde forças contrárias se opunham. Como num poema antigo chinês, sentia-se muitas vezes a dançar com a sua própria sombra. Mas, em momentos como aquele, parecia que a vida poderia ser um romance. A vida era sempre a história de um caminho e de um caminhante. A dela, sempre entre a força da água e a do fogo. Não sabia, nem podia renunciar, à missão a que se comprometera. Mas olhava para Amoroso ou para Bei Li e sentia que havia um espaço para a esperança.
Nas longas noites observava muitas vezes aqueles que no “Noite Tranquila” buscavam a fortuna e que estavam perdidos num mundo sem passado e sem futuro. Presos por fios num presente onde eram simples marionetas. Personagens de um jogo de sombras que não manipulavam. Eram refugiados do tempo, sobreviventes de um mundo que não tinha contemplações, muitas vezes fantasmas de si próprios, incapazes de ver o reflexo dos seus fracassos. Jogavam a vida numa noite. Viam-se ali, com dinheiro e com uma garrafa e uma mulher nas mãos, e julgavam-se eternos. E senhores de algo que nunca seria seu. Tal como aqueles que se viam ao espelho e imaginavam ser estadistas ou líderes. Mas então chegava o vento forte e destruía esse país de fantasia onde reinavam.
A quem é que interessava a verdade? A ninguém. Bei Li aproximou-se e passou-lhe a mão pelo pescoço e pelo cabelo. Arrepiou-se e Bei Li não deixou de notar isso.
– Os nossos homens estão prontos, Ling.
– Está na hora, não é? Pensas que temos a hipótese de sobreviver a tudo isto? Penso nas coisas que destruí para chegar a este momento.
– Que destruímos.
– Não me esqueço de ti, querida Bei Li. A confiança é uma coisa estranha. Quando te conheci percebi que haveria uma ligação indestrutível entre nós. Não me enganei.
– Nem eu.
– Sim, foi um prémio para ambas. Porque muitos vêem a vida como um tráfico. É certo que passamos a vida a fazê-lo. Traficamos tudo. Mercadorias, ideias, afectos, recordações, amizades. Alguns fazem-no por gosto. Outros, por necessidade. Outros ainda por obrigação. Nós traficamos confiança e lealdade. É uma coisa bela.

50

Bei Li nada disse mas o seu olhar mostrava o que sentia. Amor.
– Vamos?
O caminho até ao Porto Interior foi feito através das ruas mais escuras. Quando ali chegaram, Li Bei dirigiu-se aos homens e disse-lhes o que esperava deles. O ataque à casa dos seus inimigos teria de ser inesperado, rápido e fulminante.
Aquela hora Amoroso regressara ao refúgio de Benedito, aquele local escondido da rua dos Mercadores. Este, quando o tenente entrou, não se mostrou surpreendido.
– Já sabia que tinhas sobrevivido. Sentia o que poderia acontecer. Mas estava longe de imaginar que te tentariam matar aqui, no coração do Bazar.
– Talvez tenham tentado por ser aqui. Para a polícia seria o resultado de um assalto numa zona onde os portugueses não costumam vir à noite.
– Mas tu és militar. Tens uma missão secreta. Não acredito que o Governador não mandasse investigar o que te pudesse ter acontecido.
– Quem sabe?
Benedito não respondeu. Sentou-se para fumar um cigarro.
– Percebeste agora o perigo que corres. E que eu também me arrisco a correr. Quem sabia que estavas aqui, estava ciente de que vinhas ter comigo.
– Quem sabe que vives aqui?
– Fu Xing. Alguns dos meus contactos. Quem vive aqui perto. Eu espio. Mas também sei que posso ser espiado.
A sala onde estavam praticamente não tinha móveis. Três cadeiras, uma mesa onde estava uma lamparina que pouca luz dava e uma escrevaninha encostada a uma das paredes. A simplicidade perfeita. Se tivesse de fugir, Benedito pouco tinha para levar. Este disse:
– A luz garante a segurança na escuridão. Por isso gosto de me refugiar nas sombras. Mas não é suficiente. Especialmente neste mundo onde todos preferem evitar mostrar a cara. Meu caro tenente, estás a aprender uma arte muito difícil e arriscada. Ver sem ser visto, saber sem dar nada, ou quase nada, em troca, seduzir sem ser seduzido. Há quem tenha lido os mesmos livros.
Amoroso aconchegou-se na cadeira de bambu onde se sentara. O formigueiro gerado pela ferida no braço não ajudava à sua concentração. Sentia a falta de ópio para afastar as dores. As físicas e as da alma. Mas isso agora era secundário. Sentia que estava próximo do assassino de João Carlos da Silva. O atentado não fora por causa dos negócios de Max Wolf, estava convicto. (Continua)

23 Jul 2021

Não é nada pessoal, só não gosto de ti

Jane Edwards publicou o icónico «Não É Nada Pessoal, Só Não Gosto De Ti» em 2002 e nessa altura já era uma escritora conhecida, pelo menos nos EUA. Mas foi este romance que a transformou numa escritora de sucesso. E por sucesso entenda-se ser lida por muitos mais leitores do que aqueles que usualmente leem.

Quando o livro foi publicado, Jane Edwards tinha 44 anos. O romance é um romance escrito num estilo clássico, isto é, conta uma história. A história de Rebecca e Oliver. Uma jovem estudante de economia que transforma um engenheiro, homem 15 anos mais velho, num oxímoro, antes de o deixar. Leia-se: «Rebecca agiu como se ele fosse mulher e ela homem. Não chegou a penetrá-lo, é verdade, mas de resto, e ele sabe, fê-lo sentir-se mulher, fê-lo sentir-se como nunca se tinha sentido, fê-lo sentir que fazia amor, que fodia, que era fodido pela primeira vez na vida. E crescia algures nele uma vontade crescente de ser dela, uma vontade crescente de sofrer nas mãos dela, na boca dela, na vontade dela. Rebecca esticava a corda do prazer até ao máximo possível da sua tensão. Ele torcia-se, mordia-se, tremia… a cabeça rodava como se procurasse ar, como se lhe faltasse a respiração. Rebecca sorria e aumentava a dor da demora, a dor de não se ter o que se quer, embora se esteja a ter a esperança de ter. Ela fazia nascer oximoros nos poros do corpo do engenheiro. Rebecca transformou aquele homem em um oxímoro.»

À primeira vista, poderíamos ser levados a pensar num desses novos livros de erótica de segunda categoria, ainda que tenha sido publicado antes, mas a verdade é que o uso da linguagem em relação aos actos sexuais vão além da descrição. Como ela mesma disse numa entrevista à New Yorker: «Tentei usar a linguagem de modo a que o que acontecesse entre Rebecca e Oliver mostrasse a alma, mais do que o corpo ou os corpos.» E na verdade não me parece que ela esteja longe disso. Leia-se uma extensa passagem onde isso acontece: «O amor transformava-se numa enorme e contínua negação. Um enorme NÃO a envolver-lhes os corpos, os beijos, os gestos, os sons… Tudo era permitido. Rebecca permitia tudo, excepto acabar. Tudo era permitido excepto o que ele queria. Porque Oliver não sabia o que queria. E quem não sabe o que quer, não pode ter em suas mãos o poder de decisão. Depois os seios, breves, macios, como se a idade dela não fosse vinte e cinco anos, mas de uma ninfa, de uma musa à entrada da puberdade. As ancas com duas ligeiras curvas, duas vírgulas onde o seu corpo era uma pequena oração intercalada. A pele de seda das pernas, o interior das pernas, o interior do mundo, do início do mundo. E o sexo tão estreito, como uma vida humana no universo, que o medo de dor, em ambos, aflorou no rosto deles, nos olhos perdidos em que se viam, em que tentavam encontrar-se. O rabo dela, só por si era um poema, um hakai. Não teve como o engenheiro não se afogar de amor. E quantas vezes não encostava o seu rosto largo ao rosto estreito dela, suavemente, como um beija-flor junto a um girassol, apenas com a intenção de se salvar! E ela nunca gritava, não fazia sons exagerados, gemia como um passarinho assustado. As mãos dele desenhavam continuamente o corpo dela, de cima para baixo, de baixo para cima. Nascia dentro dele uma vontade de morrer nela.»

Quando mais tarde, Rebecca termina a relação com Oliver, que para ela sempre fora casual, ou como ela dizia «casual +», passamos a ver a vida do engenheiro. O tormento da falta que um corpo pode fazer na alma. Leia-se: «Os dias, as noites passavam arrastando cada vez mais o engenheiro para as memórias do corpo de Rebecca, do rosto de Rebecca. Da arte ímpar de Rebecca, na destruição de um corpo, na amplificação de um corpo. A luz, por detrás da cobertura cinzenta do céu, humedecia a cidade de Seattle. O engenheiro olhava a rua, esperava que as regras deixassem de existir e, de repente, fosse possível ver Rebecca lá em baixo, acenando e sorrindo. E as palavras trocadas, os gestos infligidos, a memória a fazer o seu trabalho de demolição de todas as paredes que ainda sustentavam o edifício da vontade do engenheiro. Revivia obsessivamente as últimas palavras de Rebecca, explicando a razão de acabar “não é nada pessoal, só não gosto de ti”. E, na verdade, gostar ou não gostar de alguém não tem nada de pessoal. É à revelia da nossa vontade. E não precisamos de enfatizar esse gostar. Por gostar podemos dizer simpatizar. Rebecca não simpatizava com Oliver, mas excitava-a a situação e o corpo dele.»

O que Jane Edwards nos mostra exemplarmente é que não sabemos como é que de repente no tronamos mais vulneráveis ao toque do outro, às palavras do outro, do que poderíamos imaginar. Ou como Edwards escreve: «De repente, sentimos como o humano é frágil, só, vulnerável como um vaso de porcelana da dinastia Ming. A vulnerabilidade abre as asas e passa a rondar-nos como abutres voando sobre a nossa carne, como se já estivesse petrificada. Oliver sempre se sentiu assim nas mãos e no corpo de Rebecca, mas agora sentia-se também assim em todas as horas do dia, como um cadáver que respira.»

Não é dos meus livros preferidos. A começar pelo facto de contar uma história, ao invés de transformar tudo em linguagem, em palavras, de transformar os acontecimentos em palavras. Mas reconheço o profundo conhecimento do desconhecido que habita a alma humana, quando duas peles se encontram para além do esperado. E de como isso não tem nada a ver com as pessoas envolvidas. Nada. Escreve Jane Edwards: «A nossa pele sabe algumas coisas acerca de nós muito mais do que a nossa alma.» E a escritora consegue ao longo do romance mostrar-nos isso e através de um uso quase cirúrgico da linguagem. Consegue, no fundo, mostrar-nos como todos nós não passamos de oxímoros de nós mesmos. Não apenas por uma entrega apaixonada ao desejo, mas pela nossa própria natureza de nos mantermos o que somos. De brinde, mostra-nos como gostar ou simpatizar com alguém não revela nada, nem de nós nem da outra pessoa, a não ser que qualquer coisa não encaixou. Apenas isso. E termino com mais uma passagem do livro de Jane Edwards: «Somos peças que encaixamos ou não encaixamos uns nos outros. Em todos os aspectos que comportam uma vida humana. Rebecca era inteligente para reconhecer isso. Reconheceu desde o início que encaixavam apenas no modo como viviam o sexo naquele momento das suas vidas. Oliver seria sempre uma fotografia antiga, como aquelas em que nos mostra numa tenda a acampar com as amigas. Mas uma pessoa inteligente não espera viver aí para sempre. Faltava a Oliver libertar-se da fotografia passada. Faltava a Oliver reconhecer que desde o início estavam condenados a serem uma fotografia de um fim de semana acampados na montanha. E isso não é mau. É uma metáfora da nossa vida.”

25 Mai 2021

O Jogo das Escondidas – 30 primeiros capítulos

Deve afirmar-se que o céu é, sem dúvida, corruptível.
Cristoforo Borri
Collecta Astronomica, 1631

 

Macau, 1923


I

Benedito Augusto naufragou duas vezes. E duas vezes sobreviveu. Por isso gosta de lembrar, a quem o escuta, que há uma velha lenda dos marinheiros que diz que, no terceiro naufrágio, se alcança a imortalidade. Apesar de acreditar que tal possa ser possível, nunca o tentou comprovar. Hoje prefere a terra ao mar, Macau em vez dos mares do sul da China. De resto, em Benedito Augusto nada é o que parece. Desde logo, esse não é o seu verdadeiro nome. O de nascimento, de que não há registo, ficou perdido em Lisboa. Desde que apareceu em Macau que é conhecido como padre Augusto, mas nada garante que, pelo caminho, desde que percorreu os mares e as terras da Ásia antes de chegar a Macau, não teve outros nomes e outras vidas.
O tenente Félix Amoroso sondou-o com o olhar, intrigado. De cabelo preto, com uma pequena barba onde já despontavam alguns cabelos brancos, o padre Augusto vestia uma cabaia de ganga escura. A sua face era morena, com grandes olheiras, que salientavam ainda mais uns olhos negros incandescentes. Era um mistério. Mas, mesmo assim, era o mais precioso agente do tenente. Falava cantonês, inglês, francês e, claro, português. Como pretenso padre, jesuíta segundo dizia, penetrava em lugares interditos a outros ocidentais. Ouvia atrás de portas que se fechavam a sete chaves quando outros as tentavam ultrapassar. Sabia perscrutar a alma dos outros como ninguém. Defendia-se, dizendo que sendo o Diabo a origem de todos os males, o seu objectivo era vencê-lo. O Diabo tentava todos os seres humanos. Por isso, saber o que cada um queria não era um pecado. Saber os segredos dos que queriam o Mal era uma acção ao serviço de Deus. Mesmo que pago pelo vil metal que corrompia os homens. Amoroso não sabia se a argumentação do padre era verdadeira ou falsa. Mas isso era, para já, indiferente. Ele era-lhe útil.
Benedito Augusto levou aos lábios o copo de cerveja que tinha à sua frente. Depois de, com evidente prazer, saciar a sede, disse, sorrindo:
– Não sou ninguém, meu caro tenente. Posso ser toda a gente. Gosto de ser invisível. Como um anjo disfarçado no reino das trevas.
– Ou um diabinho mascarado no mundo dos que se julgam anjos.
– Se isso o conforta…

II

Félix Amoroso gostava que Benedito Augusto continuasse a ser invisível. Olhou à volta. Estavam numa espécie de taberna tão escura que apenas se viam sombras recortadas pela luz mortiça de umas lâmpadas de óleo que não eram limpas há muito tempo. Ninguém se importava. Os que ali estavam queriam que as suas faces passassem despercebidas. Marinheiros com tatuagens, com sinais e rugas que eram fruto de passados impossíveis de descobrir, trabalhadores das docas, piratas. Homens que tinham tentado descobrir o paraíso e que tinham escorregado no seu caminho. Por desejo dos outros. Ou por culpa própria. A vida era um contínuo labirinto. E nem todos queriam descobrir a saída dele.

Ali, naquela pequeno local sem nome junto ao Porto Interior, desenhavam-se traições e conspirações. Marinheiros sôfregos de terra firme vinham gastar o dinheiro das suas aventuras legais ou ilegais. Ou procurar uma mulher, antes de voltarem ao mar. Mas todos falavam baixo. Um grupo de homens chineses estava sentado num recanto. As suas faces dificilmente eram visíveis. Na mesa que ocupavam, uma chama de uma vela movia-se com a sua respiração. Bebiam, enquanto pareciam esperar alguém. Também ali estavam alguns homens solitários, quase todos ocidentais, perdidos nos seus pensamentos e na vida.

Era de uma conspiração que Benedito Augusto queria falar ao tenente Amoroso. Escutara-a ali. Às vezes o tenente tinha a sensação que o padre Augusto tinha um tom ressentido. Muitas vezes sarcástico, mas outras vezes parecia alguém que se queria vingar. Dos outros, de si próprio, do que vira e do que algures fizera ou deixara por fazer. Como ele, sabia que não havia inocência no mundo. Como quase todos os portugueses, tinham, ao longo dos séculos, perdido demasiado tempo e energia a sobreviver. Ele próprio o sabia. Sobrevivera a La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial, antes de rumar a Macau. O tenente tinha um perfil esguio, quase duro, mas aparentava uma doçura e elegância no olhar e na sua forma de falar e sorrir. O seu bigode estava bem aparado. A cor morena ganhara contornos dourados por causa do sol. Apresentava sinais de fadiga e falta de horas de sono nos seus olhos amendoados. Apesar de habituado à linguagem das armas, movia as mãos com delicadeza.

III

Talvez por isso, quer Benedito Augusto, quer Félix Amoroso, embora parecessem vir de mundos diferentes, tinham tanto em comum. A sua semelhança aproximara-os. Ou um segredo, que, receosos, ambos partilhavam.
– Meu caro Amoroso. Eram dois homens. Um, chinês. O outro deveria ser europeu ou americano. Falavam inglês, mas o ocidental, apesar de ser loiro, era de outro país. Nunca o tinha visto. Conversavam em sussurro, num canto. Eu, por acaso, estava na mesa mais próxima, com um pirata que quer reformar-se. Eles falavam de Macau e da sua venda.
– Da venda de Macau?
– Sim, segundo o ocidental, Portugal vai vender Macau à Alemanha. É um segredo, mas isso vai realizar-se brevemente. Parecia preocupado em arranjar dinheiro para comprar a simpatia de quem era importante em Macau para que tudo corresse sem problemas aqui, depois do Governo de Lisboa anunciar a venda.
Amoroso franziu a testa. Nunca tinha ouvido nada sobre esse assunto.
– E não soubeste mais nada? De onde vinha o chinês?
– Ele costuma estar por aqui. Tem um barco. Acho que ou é pirata ou, então, faz contrabando. De arroz, de ópio, de seda. Mas deve dar-se bem com as autoridades e com as tríades, porque não parece ter receio de nada. É preciso que existam piratas para que se justifiquem gastos e custos de muita gente, da administração às empresas de seguros marítimos, não é verdade?
– Achas que isso é assim?
Benedito Augusto fez um esgar:
– Hoje é difícil ser puro e inocente.
– Como pretenso padre, deverias acreditar nisso.
– Sou padre. Formei-me num colégio jesuíta. Conheci a sua história. Aprendi muito com eles. Sabe como foi, já lhe contei, tenente. Tive de fugir de Portugal, quando chegou a República. Queriam enforcar os padres, como eu, nos candeeiros. Acabei por vir parar aqui. E o tenente, porque veio para Macau?
– Para descansar da guerra, meu caro padre. Dos pesadelos e dos fantasmas.
– E encontrou paz aqui?
– É mais fácil falar com os deuses aqui do que em Lisboa.
Félix Amoroso encolheu os ombros. Fungou:
– O que me dizes é muito vago. Que posso eu investigar com isso?
– Saber se há fumo no meio do fogo, não? Descobrir quem é o ocidental. Deve andar por aí. Quanto ao resto eu acabarei por saber.

IV

O tenente tirou um envelope do bolso e passou-o discretamente para as mãos de Benedito Augusto.
– Está aí tudo o que te é devido.
– Confio em si.
Colocou o envelope no interior da cabaia. E voltou a dar um gole na cerveja. Amoroso sentiu-se, por momentos, incomodado. O chão estava muito sujo. Tal como a mesa e os bancos onde estavam sentados. Este era um local de trânsito, entre o mar e terra firme. Os mais endinheirados, depois, deveriam ir para os bordéis, ou para casas de ópio e de jogo na Rua da Felicidade. Onde as portas, como o desejo, eram vermelhas.
Diziam que esta era a cidade dos pecados. Como se o resto do mundo fosse diferente. Era um porto onde alguns se escondiam do passado e outros se refugiavam das incertezas do mar. Sentiu-se esgotado, estranhamente desperto e sem sono. Lá fora, a cidade dormia tranquilamente. Ouviu a voz do padre Augusto:
– Em Macau não deveríamos olhar para o sol. Cega-nos com sonhos irrealizáveis.
A sua voz era calma e segura. Reconfortante, para quem não o conhecia nem poderia desconfiar dele. O tenente respondeu:
– Deus, às vezes, está ausente em parte incerta.
Era o que acontecia ali, onde apesar da presença das força de segurança portuguesas, as sociedades secretas controlavam as ruas e os becos.
– Deus deixa-nos ver. E decidir. De dia vemos o que os outros nos querem deixar ver. De noite podemos vislumbrar o que devemos ver. As sombras iluminam mais do que a luz.
Amoroso sorriu com as palavras do padre Augusto, um homem tão sombrio como a escuridão da noite. Sentia que ele queria destruir o mundo que conheciam, para que fosse possível construir, a partir das suas ruínas, um outro. Queria uma nova ordem que restabelecesse o equilíbrio entre o céu e o inferno. Como se tal fosse possível. Augusto voltou a falar:
– Talvez seja o momento de mudarmos tudo. Não podemos ver para lá do horizonte, mas sinto que algo se aproxima. E não é bom.
O tenente Amoroso pensou, por momentos, na chinesa Ding Ling. Ela poderia ser um futuro bom, se acreditasse que isso ainda era possível.

V

Por isso não escutou as palavras do padre Augusto, que soavam a despedida:
– Lembra-se do jogo das escondidas, tenente? Em crianças, contávamos até cem, com os olhos fechados, antes de podermos ir à procura dos que se tinham ido esconder. Trouxemos esse jogo de Portugal para Macau. E continuamos a jogá-lo aqui. Mas, às vezes, fechamos os olhos e não fazemos intenção de descobrir quem está escondido. E escondemo-nos tão bem que temos medo de voltar a aparecer.

2.

Os olhos de Ding Ling eram negros. Tão escuros como a cor do seu cabelo, comprido, mas enrolado e travado por agulhas vermelhas. O cheongsam branco, com dragões verdes nas mangas, que vestia, ajustava-se perfeitamente ao atraente corpo da chinesa. Nos dedos anelares cintilavam anéis de jade verde e de ouro com esmeraldas. Caminhou até junto do tenente Félix Amoroso, entre a nuvem de fumo que se movia muito devagar dentro da sala. A luz das lâmpadas de gás era ténue, mas mesmo assim era visível o brilho hipnótico dos seus olhos. Algo que Amoroso bem conhecia. A sua voz era aveludada e acolhedora:
– Deseja um chá, tenente?
– Se tal for possível.
Ding Ling aproximou-se de uma jovem chinesa, a quem fez o pedido. Esta retirou-se sem falar e sem olhar para o tenente.
– Os seus empregados são todos assim, silenciosos como gatos, menina Ling?
– Gosto do silêncio. Traz-me conforto e segurança.
Em grande parte da “Noite Tranquila”, na discreta casa de jogo e de ópio de Ding Ling, na Calçada das Verdades, quase não se escutava o ruído das conversas. Quem procurava a tranquilidade tinha de a procurar. Os seus clientes eram selectos. Tal como as cortesãs que ali se encontravam. E isso tinha um preço. “Porque tudo na vida tem um preço”, dizia, sem emoção visível, Ding Ling. Amoroso sentiu o odor do fumo do ópio que vinha do piso superior e que se misturava com o do tabaco. Ela fez sinal para subirem. Ele seguiu-a até a uma pequena sala, onde se sentaram junto a uma mesa de madeira de cerejeira.

VI

– Que te traz desta vez a esta humilde casa, tenente?
– Julgo que o sabe, menina Ding. A morte de João Carlos da Silva, um dos secretários do Governo, que apareceu morto esta manhã perto da porta deste estabelecimento.
– Um trágico acontecimento, tenente.
– Ele era um frequentador assíduo da “Noite Tranquila”, não era?
– É verdade, tenente. Esteve aqui ontem à noite, saíu daqui vivo, e foi encontrado morto na calçada, a uns metros daqui. Assassinado com golpes de faca. O meu funcionário chamou a polícia. Nada tenho a esconder das autoridades portuguesas. E todos temos a ganhar se tratarmos do assunto discretamente.
João Carlos da Silva, um secretário do gabinete do novo governador de Macau, Rodrigo José Rodrigues, que fora nomeado em Janeiro pelo Governo português. Silva, e residia há muitos anos em Macau, era conhecido pela sua paixão pelo jogo e pelas cortesãs que eram mestres na arte da sedução na casa dos prazeres de Ding Ling. Era um homem frágil e inseguro, segundo se dizia. Mas muito competente no trabalho. A mulher, depois de poucos meses em Macau, deixara-o e regressara a Lisboa. Levara a filha de ambos, ainda criança. Ele ficara e nunca mais conseguira criar uma família. E isso era um ponto fraco para quem estava no centro do poder.
Independentemente da investigação da polícia, Amoroso decidira ir até a um local que conhecia bem. Essa era a sua missão em Macau: ver o que os outros não viam e alertar o comandante militar da ilha da Taipa ou o Governador. Ouviu a voz de Ding Ling:
– O senhor Silva era um homem muito querido aqui. Um excelente cliente. Ninguém desejaria a sua morte.
Amoroso olhou para ela e sorriu. Ele próprio era um bom cliente daquele local.
– Claro.
Tentou manter alguma frieza, mas sabia as suas fraquezas quando estava perto de Ding Ling.
– Achas que a morte dele foi um mero azar do destino ou tem alguma implicação maior?
– O senhor Silva tinha uma posição sensível na administração portuguesa de Macau. Por isso todos os cenários são possíveis.
– E pensas que algum de nós poderá ter a ver com a sua morte?
– Querida Ling, tenho de fazer uma escolha entre ti e a razão da morte dele? Ou entre ti e a menina que estava, eventualmente, com ele?
– Não te peço tanto. Embora muitas vezes na vida tenhamos de fazer escolhas difíceis ou que nos parecem impossíveis.

VII

Amoroso sentiu o aroma do chá, que entretanto tinha sido colocado na mesa. Era reconfortante, aquela hora. Durante o dia poupava o corpo ao álcool. E a noite ainda não tinha chegado.
– Quem era a menina com que ele estava ontem à noite?
– Com a Li Bei. Sabes quem é. Temos estado lado a lado desde pequenas. Caminhámos juntas. Navegámos juntas. Matámos juntas. Partilhámos coisas que não imaginas. Dormi com ela durante anos.
O seu olhar denotou prazer ao dizer isso. Só para ver a reacção de surpresa do tenente.
– Ficarias admirado com as mudanças que uma cabeça pode sentir depois de passar uns dias na cama com ela. Vim de Xangai para aqui com ela. É como se fosse minha irmã.
Ding Ling, conscientemente, despertava-lhe o desejo. Ele nunca tinha estado na cama com Li Bei. E não sabia que elas tinham essa relação tão forte. Afinal não a conhecia tão bem como julgava. Amoroso tentou afastar da memória as suas noites com a chinesa.
– Diz-me, ninguém se aproximou do reservado do senhor Silva ontem à noite?
– A Li Bei tratou do seu conforto. Como sempre fez. Ele saiu daqui, antes do sol nascer. Ninguém ouviu nada, até se encontrar o corpo caído na rua. Mas diz-me, tenente Amoroso, porquê essa interesse? Desconfia de algo?
– O senhor Silva tinha informações que poucas pessoas têm em Macau. Temos um novo Governador. Esta morte não poderia ser mais inoportuna.
Ling Ding fechou os olhos. Disse apenas:
– É verdade.
Ela tinha, para além daquela casa de prazeres, uma frota de juncos e lorchas e um centro de distribuição no Porto Interior, onde guardava as mercadorias que vinham de várias cidades da Ásia. Herdara todo esse negócio do seu tio, em circunstâncias trágicas e que um ano antes fora muito falado em Macau. Desde então o negócio prosperara. Falava-se que os seus interesses se tinham alargado ao contrabando de ópio e que ela tinha agora ligações à tríade do Bando Verde. Tudo rumores sem confirmação. Mas Macau era uma cidade pequena. Reinava a inveja. E em locais assim os segredos nunca poderiam ser bem guardados. Quando a questionara sobre isso, ela respondera de forma impassível: “Uma cidade portuária precisa do comércio para sobreviver”. Nada poderia ser mais verdade.

VIII

Amoroso ouviu outra vez a voz dela:
– Quando cheguei a Macau só trazia duas coisas, a tristeza e a necessidade de encontrar uma via para voltar a reconciliar-me com a vida. Na verdade tudo é um pouco assim. Estamos preparados para seguir em frente. Vês isso quando contemplas a natureza. A força da vida é tremenda, é algo perfeitamente assombroso.
– Tu és uma força da natureza.
– Não seria sem a tua ajuda.
Ding Ling não precisava de dizer mais nada. O segredo que ambos compartilhavam não poderia ser dito em voz alta. Era uma história que não deveria ser confidenciada a outras almas. Talvez por isso Amoroso não conseguisse viver sem vir ter com ela. A vida seria diferente se não tivesse vontade de sentir os espinhos das rosas mais belas e misteriosas. Ela aproximou-se e roçou os lábios pelo pescoço de Félix Amoroso. Ficou assim durante algum tempo, antes de dizer:
– Que desejas mais, tenente?
Ele não conseguiu responder. O corpo quente de Ding Ling colara-se ao dele e aprisonara todos os seus movimentos e pensamentos. Ela colocou a sua mão na dele e puxou-o para uma pequena porta que estava escondida atrás de um biombo de laca, com fundo preto e imagens de uma batalha, colocado no canto da sala. Entraram num quarto muito pequeno, quase só ocupado por duas camas de pau preto, que dava para dois fumadores e por uma mesa comprida em cima dos quais estavam dois cachimbos de ópio e outros utensílios.
Ding Ling tirou-lhe as roupas e fez com que ele se deitasse numa das camas. Depois também tirou o seu vestido. Sentou-se junto a ele e, depois, soergueu-se para lhe beijar os lábios e, depois, todo o corpo. Muito devagarinho. Ele sentiu o corpo dela, fechou os olhos e abandonou-se. Mais tarde, o ópio trouxe-lhe o resto do repouso que tanto procurava. Só se levantou já os raios de sol irrompiam por Macau. Estava sozinho. A cama de Ding Ling estava vazia. Fora um sonho maravilhoso.

IX

3.

Somos o que não somos. Tal como as coisas não são o que parecem. O tenente Félix Amoroso sabia isso, porque a sua vida mais recente era o resultado desse enigma eterno. Mas não era isso que o incomodava agora, quando estava prestes a entrar no edifício da Avenida Almeida Ribeiro onde se situava o escritório de Joaquim José Palha, comerciante de vinhos e facilitador de negócios. Tinha outras aptidões muito elogiadas, como ser uma voz escutada junto de alguns dos mais importantes comerciantes da comunidade chinesa. Alguns deles dominavam o mundo do jogo. Palha era um homem ambicioso. Alguém tinha dito que o caminho até ao cimo conduz-nos mais para baixo, mas até agora ele tinha estado imune a esse destino. Amoroso subiu até ao primeiro andar, onde uma jovem secretária chinesa lhe abriu a porta da sala onde Palha o esperava.
Este estava sentado, atrás de uma grande mesa de madeira. Nas paredes viam-se prateleiras com livros diversos, muitos deles de Direito e de História. Palha parecia inquieto. Com a mão esquerda, brincava com uma ampulheta. Quando viu o tenente, colocou-a na mesa, e a areia fina que estava no compartimento superior começou a cair no inferior. Como que a mostrar que o tempo tinha começado a contar. Olhou para Amoroso com ar inquiridor. Disse, afavelmente:
– Bem-vido tenente Amoroso. Sente-se, por favor. Sei que, como eu, é um homem com o tempo contado. Por isso não o demorarei.
– Quando me pediu para vir aqui fiquei com dúvidas sobre o que desejava. Não frequentamos os mesmos círculos. Nem temos interesses coincidentes.
– Não estaria tão certo, tenente. Macau é uma cidade pequena. Todos se encontram. E todos dizem mal dos outros assim que estes viram as costas. Não é diferente em Portugal. Somos mestres na arte do fingimento e da inveja. Imagino que sabe isso. Mas estamos condenados a viver uns com os outros. E a garantir que Macau sobrevive. Por isso os nossos interesses acabam por ser mais ou menos comuns, não lhe parece?
Para além de comerciante, Palha era também membro do Leal Senado, eleito pelo Centro Republicano Eleitoral, grupo político criado há poucos anos. A política, em Macau, pouco ou nada tinha a ver com o que se passava em Lisboa. A capital de Portugal estava longe e o seu frágil braço apenas era visível nas decisões do Governador.

X

Lisboa não conhecia a realidade de Macau nem os interesses e necessidades de quem lá vivia. A cidade era um ponto pequeno e longínquo no mapa do Império português.
Palha era um homem poderoso. A sua voz era dominadora. Os seus olhos, frios e cintilantes, contrastavam com um sorriso terno mas firme, que sublinhavam as palavras. Tinha uma cerrada barba preta e vestia um fato de linho claro, de corte perfeito.
– Vou ser franco e directo consigo, tenente. Está em Macau desde quando? 1919, 1920?
– 1920. Desde há três anos.
– É verdade. Nada é já uma surpresa para si. Já percebeu que, de um momento para o outro, tudo o que construímos pode ruir. Lisboa não sabe e não percebe nada. Porque, para além da pequena política pacóvia onde se vai afogando, também está mais preocupada em sobreviver. Nada que admire um português. Somos todos náufragos em busca de uma bóia. E à espera de uma sereia.
Deu uma risada.
– Percebeu o que se passou neste último ano? A nossa situação é muito débil. Portugal já não é uma potência que imponha respeito.
Amoroso recordava-se. Macau estivera à beira do precipício. E ainda não estava salva. Não caíra porque a sua capacidade de sobrevivência era semelhante, ou mesmo superior, à de Portugal. Quando estava com um pé no abismo, um milagre, um acontecimento inesperado ou um homem providencial mudava o sentido do vento. Até ao início de 1923, Macau fora palco de uma sublevação sem precedentes. Que tivera a ver com a frustrada tentativa do general Ch’en Chiu Ming eliminar Sun Yat-sen. A agente de Ch’en, uma mulher irrascível chamada Wong Pik-wan, viera para Macau para incendiar os ânimos. Nessa altura as forças nacionalistas mais radicais proclamavam que a China deveria reaver rapidamente a soberania sobre os territórios ocupados pelas potências estrangeiras. Macau era um alvo fácil. Todos temiam um ataque à cidade, a partir da China continental. Fora mesmo, nesses meses, criado um Corpo de Voluntários da Defesa Civil. A confusão era total. O então governador, Henrique Correia da Silva, estava em Hong Kong, de regresso a Lisboa.

XI

Depois de um incidente na Rua da Felicidade, em finais de Maio de 1922, entre um soldado do contingente moçambicano e uma cantadeira, a indignação popular dirigida por Wong desembocara no Largo do Chip Seng, com os soldados portugueses cercados. As espingardas Mauser acabaram por fazer o resto – dezenas de manifestantes foram mortos. O próprio Sun Yat-sen, que sempre recebera o apoio dos republicanos em Macau, e por isso tinha o coração dividido, esteve prestes a apoiar os revoltosos depois do massacre. Mas uma tentativa de assassínio na sua própria sede de Governo, fez com que, na fuga de Cantão, Macau surgisse como uma boa alternativa de refúgio.
Poderia oferecer a paz que Macau necessitava. Negociações entre as autoridades portuguesas e os representantes de Sun tinham-se iniciado e fora mesmo oferecido ao fundador da República chinesa um empréstimo substancial para salvar as falidas finanças do Kuomitang. Alguém acabou por denunciar a tentativa de acordo em Hong Kong e isso foi o fim das ilusões. Mas as autoridades portuguesas tinham ganho tempo e a sublevação esmorecera. Wong ainda se movera na cidade flutuante de juncos do Porto Interior e no Bazar, mas, perdida a aposta, regressara a Cantão. Palha interrompeu as recordações de Amoroso.
– Por essa altura, tomou conta do seu novo posto, não foi tenente?
– Mais ou menos. O chefe da polícia secreta foi demitido por ser, no mínimo, conivente com as acções da senhora Wong. Mas eu não sou o novo chefe da polícia secreta.
– Eu sei. Mas é a sua sombra. Só responde perante o Governador e o chefe militar de Macau, não é verdade?
Amoroso não disse nada. Olhou para a ampulheta de Palha. A areia fina continuava a cair.
– E a senhora Wong, sabem dela?
– Sun Yat-sen retomou o controle de Cantão. Ela está em fuga. Não deve ter muito futuro.
Em 1923, Macau recuperara a normalidade. É certo que as tríades dominavam, como sempre, os negócios subterrâneos. Na cidade flutuante do Porto Interior ninguém conseguia impôr a lei. Os piratas cirandavam, à vontade, nas águas circundantes. Mas o jogo estava a regressar às regras não escritas e observadas por todos. Para sobreviver era preciso não ouvir, não ver e, sobretudo, não actuar. Havia uma aparência de sossego como há mais de um ano não existia.

XII

Palha acariciou os braços da firme cadeira de madeira, cerejeira segundo parecia, como se ela fizesse parte dele.
– Sabe de onde veio esta cadeira, tenente?
– Não imagino.
– Pertenceu a um director da VOC, a companhia das Índias holandesa e, depois, a um director da East India Company. Tem cerca de 150 anos. Sempre foi muito cuidada. Não é só confortável. É um símbolo de poder. Esta madeira influencia-nos na forma como exercemos as nossas acções. Temos de saber como nos sentamos nela, precem dizer-me os seus antigos proprietários. E eu esforço-me para merecer essa confiança.
O seu olhar era malicioso. Continuou:
– Temos um novo governador, o doutor Rodrigo Rodrigues. Ele vai precisar de homens que o ajudem a compreender o mundo em que vivemos. Homens como ele precisam de outros como o tenente. Para os protegerem do mundo. Acha que essa é a sua missão, tenente?
Palha parou um pouco. Virou a ampulheta, mostrando que tinha tempo. Continuou a falar:
– Eu acredito nesta cidade. E se há alguém capaz de a tornar melhor é você. Disse-me uma vez que a força de um homem vê-se no momento em que ele se confronta consigo próprio. Em que ouve vozes na sua cabeça, argumentando que está certo, porque alguém está errado. Saber a diferença, nesse momento, é o que faz um oficial. O que faz um homem. Sinto que sabe fazer essa escolha. A certa, é claro.
Olhou fixamente para o tenente. Este sabia o que Palha estava a querer dizer. Mais do que aconselhar o novo governador, queria que o convencesse das ideias do comerciante para o território.
– Eu sei que será o homem certo para essa missão. Como foi capaz de fazer tudo para proteger a sua amiga Ding Ling durante os tumultos do ano passado.
O seu olhar era amistoso, mas as palavras soavam como lâminas. E o tenente sentiu um arrepio na espinha. Porque sabia o que queria que ele recordasse. Palha chantageava-o com um fantasma que nunca iria repousar ou dormir. Uma ferida que nunca poderia cicatrizar.

XIII

4.

O silêncio convida-nos a reflectir. Nesses raros momentos escutam-se coisas que normalmente não se costuma ouvir. Os suspiros do vento, o chilrear dos pássaros, as batidas do coração. Sente-se a aproximação silenciosa dos gatos. “Tigre sentado, dragão escondido”, dizia-se na China. Eles, sem se moverem, passam despercebidos. Uma sábia lição de vida, pensou Ding Ling. O calor de início de tarde ajudava-a a apreciar essa ausência de ruído. Estava quase inerte, sentada na varanda do primeiro andar do “Noite Tranquila”. Bebia em pequenos goles um chá morno e usava um leque para criar uma pequena brisa. Por baixo, na rua, alguns corpos arrastavam-se silenciosamente, mais por necessidade do que por vontade.

Quase sem dar por isso recordou Cantão e uma das vezes que fora à ópera, com o seu pai. Tinham ido ver “Dai Loi Hwa” (“ A Filha do Imperador”), a história de uma jovem princesa, Changping, que é forçada a esconder-se num mosteiro para não ser presa pelo exército dos inimigos da sua família. Mas é traída por todos e não pode confiar em ninguém, até que encontra um homem leal e bravo, Zhou, a quem fora prometida em casamento. A tragédia está-lhes destinada. Cercados pelo poder que os oprime, na noite do seu casamento, ela vai provar o seu amor por ele. Juntos tomam veneno, e morrem, no jardim do palácio onde se conheceram. Nunca esquecera aquela história.

Como se ela fosse um fantasma que pesasse sobre toda a sua vida. Talvez fosse. Mas o seu destino era concluir uma missão. Só não sabia se terminaria em tragédia.

Antes da hora de almoço, estivera numa pequena casa, na Travessa dos Santos, onde uma facção do Bando Verde tinha a sua discreta sede macaense. Lá estavam Wang Du, Wu Fei e Yao Wong. E, claro, Li Bei. O assunto era sensível e deveria permanecer secreto até à acção. O Kuomitang de Sun Yat-sen, confrontado com uma permanente guerra na China, estava numa difícil situação financeira e Ding Ling poderia ajudar a resolver parte do problema.

Um dos seus agentes, funcionário do Banco Nacional Ultramarino, soubera que um importante valor em ouro e em moeda estrangeira de vários homens de negócios seria remetido, em breve, de Macau para a sede do Hong Kong and Shanghai Banking Corporation.

XIV

Iria num vapor, guardado por homens armados. Mas isso era algo que não era um problema impossível de tornear. As águas do delta do Rio das Pérolas e do Mar da China estavam repletas de juncos de piratas, ao serviço de todos os interesses. Não seria difícil a Wang Du, que tinha estreitos contactos com muitos deles, conseguir um grupo suficientemente forte para assaltar o barco que transportaria os valores. Restava saber quando e onde. O seu agente no BNU descobriria o segredo.
Os pensamentos de Ding Ling foram cortados pela voz de Li Bei:
– Desculpa interromper-te, irmã. Está lá fora um estrangeiro que diz querer falar contigo.
– Quem é?
– Diz chamar-se Maximilian Wolf e traz uma proposta que quer discutir contigo.
Ding Ling não estava com disposição para conversas que necessitavam de excessiva concentração. E estava farta de homens com propostas de negócios. Mas acabou por dizer:
– Diz para esperar por mim no escritório.
Li Bei retirou-se e, depois, Ding Ling caminhou até lá. Quando entrou deparou com um homem alto e loiro, de olhos azuis, que estava de pé com as mãos colocadas atrás das costas. Vestia um fato de linho azul e, assim que a viu, retirou o chapéu que usava. A voz era áspera, talvez fruto de anos de consumo excessivo de álcool de pouca qualidade.
– Menina Ding Ling, presumo…
– É verdade. E o senhor é Maximiliam Wolf…?
– Max, se desejar. Um humilde homem de negócios alemão sediado em Hong Kong e de visita a Macau.
Ding Ling sentou-se atrás de uma pequena secretária e fez sinal ao alemão para se sentar à sua frente. Ele assim fez. A voz da chinesa tinha um tom desconfiado:
– Diz que tem uma proposta para me fazer. Muitos o fazem, senhor Wolf. Que negócios tem, então, para me propôr? Tenho fornecedores dos melhores produtos que posso colocar à venda. Que posso não ter?
Max fez um sorriso malicioso. Cruzou as pernas, para ficar mais confortável.
– Não se importa que eu fume, menina Ding?
– Esteja à vontade.
Ele assim fez. Colocou um cigarros entre os lábios gretados e acendeu-o. Depois de apreciar o fumo a entrar nos pulmões, e de o expelir, disse:
– Eu não lhe venho vender produtos. Ou melhor, venho ajudá-la. Se o desejar, claro.

XV

Ding Ling semicerrou os olhos. Questionou-o:
– Ajudar-me? Eu não preciso de ajuda. Tenho vários negócios estáveis e rentáveis.
– Menina Ding, eu sei que é inteligente. Que prevê o futuro, antes de muitos outros. Admiro-a. Mas talvez não saiba o que se move para lá do horizonte e que poderá cair como uma bomba em Macau.
– Que facto é esse, senhor Wolf?
– Max, pode começar a chamar-me Max. Como sabe, há quem diga que a realidade deste local frágil é mais interessante do que o mito que se criou à sua volta. A cidade do pecado, dizem, sequiosos de um prazer imaginado servido por mulheres que ora são sereias, ora deusas. Enquanto jogam a vida e a riqueza que pilharam algures. Eu sei que os homens desta terra são duros. Não temem navios de piratas, nem os das potências coloniais. Não têm medo de armas. Não têm medo de espadas e punhais. Será que não há nada de que possam ter medo?
A voz de Max Wolf era pausada e agradável. Mas os seus olhos eram frios como punhais. Há muito que Ding Ling não sentia um arrepio na espinha como naquele momento. Ele continuou:
– Sabe, menina Ding, dentro de poucas semanas será anunciada a venda de Macau à Alemanha.
Ela estremeceu.
– Como sabe isso?
– Tenho as minhas fontes. Muito credíveis. Porque eu represento alguns interesses alemães nesta parte do mundo. Não do Governo alemão. Mas de empresas alemãs, que estão desejosas de avançar para aqui, a seguir a esse anúncio. Como imagina, os que defendem a presença portuguesa, ou os que têm ligações a eles, passarão a ter mais problemas para lucrarem com os seus negócios. Nova administração, interesses diferentes, se me é permitido dizer.
– E isso, o que tem a ver comigo?
Wolf bateu com as pontas dos dedos no tampo da mesa. Ding Ling não gostou do ruído.
– Tudo, é claro. Sei que é uma voz escutada em Macau. Tem amigos, bons, junto das comunidades chinesa e portuguesa. Amigos e clientes. Pode aliciá-los para que a presença alemã aqui não seja recebida com desconfiança ou, mesmo, com resistência. É certo que os militares alemães não são como os portugueses. Não são fracos e têm mais meios, em termos de armas e navios de guerra. Será muito mais difícil para quem quiser resistir às novas autoridades.

XVI

Antes que Ding Ling pudesse responder, Wolf continuou:
– Assim, menina Ding, se se aliar a mim, tem tudo a ganhar. Se se opôr, terá tudo a perder. Os seus amigos portugueses não terão nenhum poder. Fugirão, que nem ratos, como se costuma dizer, à primeira oportunidade. Para Goa. Para Lisboa. Para qualquer lugar. Os portugueses são filhos do mar.
Ding Ling pestajenou, nervosamente:
– Percebo o seu ponto de vista, embora não o partihe completamente. Mas, já agora, diga-me: e, se decidir ajudá-lo, que ganho efectivamente?
– Ganhará dinheiro e reputação. Posso resolver-lhe um problema que sei que a absorve. Precisa de dinheiro para financiar as actividades do Kuomitang. Eu posso ajudá-la nisso. Tenho acesso a fundos suficientes para que fique muito bem cotada junto de Sun Yat-sen. Com quem, diga-se, também queremos ter boas relações. Dinheiro não é uma questão para nós.
– Nós, quem?
– Para mim e para as pessoas que represento.
Há muito que Max acabara de fumar o seu cigarro. Acendeu outro.
– Não a quero apressar muito, menina Ding. Mas não tenho muito tempo. Preciso de resultados, de forma breve. Ou seja, necessito de uma resposta sua dentro de dois, três dias. Que lhe parece?
– Tenho de reflectir.
– Sim, eu sei como são os chineses. Jogam com o tempo. O problema é que, nós, os ocidentais, estamos sempre a olhar para o relógio. Espero pois uma resposta rápida. E, sendo assim, não a ocupo mais nem lhe tiro tempo para a sua profunda reflexão. Que sei que será a mais sensata.
Max fez um sorriso sarcástico. Levantou-se e colocou o chapéu na cabeça. O brilho dos seus olhos era mortal. Fez uma ligeira vénia e saíu.
Pouco depois, ainda Ding Ling estava de olhos fechados, a tentar pôr ordem nos seus pensamentos, Li Bei entrou.
– Diz, querida irmã.
– O alemão já saíu. Mas, recordei-me, já cá tinha estado.
Ding Ling franziu os olhos.
– Quando?
– Na noite em que o senhor Silva foi morto. Estiveram a conversar os dois, com ar pouco amigável, antes do senhor Silva ter ido ter comigo. Este estava muito nervoso. Fumou mais ópio do que o habitual.

XVII

5.

Da magnífica varanda do hotel Boa Vista, o tenente Félix Amoroso observava a Baía da Praia Grande, onde alguns juncos indolentes navegavam ao sabor das suaves ondas e do vento. Estava encostado a um dos pilares, imerso na vista, a fumar. Ali criava-se a errada sensação que o tempo não tinha fim. Mas, como aprendera com os chineses, o ciclo da vida era como a das estações. Não era um caminho contínuo rumo a um futuro que queríamos descobrir e, se possível, conquistar. Ouviu um ruído e isso fez com que caminhasse até encontrar um homem sentado num cadeirão a ler um jornal. Era o novo Governador de Macau, Rodrigo José Rodrigues. Aproximou-se dele e saudou-o:
– Boa tarde, senhor Governador. Não o tinha visto.
Este sorriu, salientando mais a sua face esguia. Tinha o cabelo e o bigode negros e usava uns óculos redondos onde se refugiavam uns olhos inquietos.
– Sente-se aqui, ao meu lado, tenente Amoroso. Estava a ler o “Diário de Notícias”, que aqui chega com largo atraso. Mas é uma boa forma de saber algumas coisas que vão acontecendo em Lisboa. E o tenente, não me diga que veio ver a sessão de poesia organizada pela minha mulher? Eu já lá estive, mas agora é a parte mais social, que dispenso.
– Sei que a senhora Rita Margarida Rodrigues é uma distinta poetisa.
– Há quem o afirme. Eu não serei o melhor juiz em causa própria. Mas, sinceramente, também penso o mesmo.
Falava pausadamente, como se meditasse cada palavra. Às vezes levava a mão aos óculos num gesto mecânico ou nervoso.
– Que bela vista, não é verdade, tenente Amoroso?
– É verdade, senhor governador. Presumo que daqui tem uma outra visão de Macau. Talvez um pouco diferente da que tem desde o Palácio de Santa Sancha.
Rodrigo Rodrigues fez um esgar:
– Do lugar do poder tem-se sempre um olhar diferente sobre o mundo. E que nem sempre é real. Perde-se, muitas vezes, o contacto com a poeira. É por isso que quem quer dirigir bem, tem de se rodear de pessoas competentes. E atentas. Eu dependo de homens como você.
Agarrou num copo de vinho branco que estava na mesa e levou-o à boca. Bebeu um pouco, antes de continuar:
– Desde que aqui estou já percebi que Macau vive longe de Lisboa. O relógio aqui marca horas diferentes das de Portugal. E lá decide-se sem se conhecer o que se faz aqui.

XVIII

Amoroso fungou. Aproveitou para para confrontar Rodrigo Rodrigues com as notícias que começavam a circular:
– Diz-se, senhor governador, que há quem em Lisboa defenda a venda de Macau. Para evitar despesas e chatices.
– Fala-se agora disso aqui? Essa é uma história muito antiga. Já vem do tempo da monarquia. O Oliveira Martins falou disso. O Eça de Queiroz também. Mas agora parece que ganhou nova alma para nos atormentar os dias e as noites em Macau. Pelo que li aqui no “Diário de Notícias” foi tema de um debate muito aceso entre um deputado, o senhor Jaime Leote do Rego e o ministro das Colónias, o senhor Domingos Leite Pereira. Tudo por causa de um artigo que saiu num jornal americano, que dizia que o Governo português estava em negociações com a Alemanha para a venda deste território. O Governo português desmentiu. Sabe o que disse o ministro? Está aqui!
Notava-se alguma irritação na sua voz. Agarrou no jornal e leu uma frase que sublinhara a tinta azul:
– Diz o ministro: “Portugal não está em condições de alienar seja o que for do seu património. Não o quer fazer e, nem o fará nunca, pois que não está em circunstâncias de alienar seja o que for dos seus territórios”. Se o ministro o diz, deve ser verdade.
– Pode não ser, senhor Governador. Disseram-me que há alemães que já estão a operar em Macau como se o negócio estivesse feito.
– Penso que não esteja. Mas, nunca se sabe. Portugal tem os cofres com aranhas e certificados de dívidas bolorentos lá dentro. E sabe como é: quem controla a dívida de um país, define as suas decisões. A nossa dívida não tem fim. Já nem se sabe quando começou. E o que resta para vender? As colónias…
Amoroso observou:
– Mas não há fumo sem fogo, não é verdade senhor Governador? A menos que saiba algo que não queira, ou não possa dizer, esse é um assunto que interessa a quem vive aqui. Seria muito diferente ter um governo alemão ou continuar com um português em Macau.

XIX

– Também penso assim, tenente. O que acha do assunto?
– Os alemães têm interesses coloniais. E os ingleses não têm já interesse nisto. Dominam Hong Kong e parte de Xangai. Têm a Índia. Os alemães sim, cobiçam um império. Conhece a cerveja Tsingtao, senhor Governador? Está à venda em Macau e a história começa aí. No final do século XIX as forças navais alemãs tomaram conta da Baía de Jiaozhou, de um porto que conhecemos como Tsingtao, como concessão colonial. Os alemães estabeleceram-se lá e construíram a sua pequena Baviera. E criaram mesmo essa cerveja, que lhes lembrava as suas raízes. Mas, no início da Primeira Guerra Mundial, os alemães foram afastados dali pelo Exército Imperial Japonês, aliado dos europeus e americanos na Ásia. Não surpreendeu que a cervejaria alemã passasse a ser japonesa. No ano passado foi acordado que o porto voltasse à posse da China, mas a situação ainda é confusa. Desde que perderam a concessão Berlim quer ter um entreposto comercial nesta zona. Macau era um pitéu para eles degustarem com salsichas.
O Governador deu uma risada e voltou a agarrar no jornal.
– Pelos vistos este foi um debate interessante, à nossa maneira, é claro. Veja o que o deputado Leote do Rego, verdadeiro herói republicano que muito prezo, disse sobre a notícia: “Esse jornal pode ser lido por 60 milhões. Tem 22 edições por dia. É um jornal importante, não há dúvida visto que os jornais se fizeram eco dele. Eu entendi que devia chamar a atenção de S. Excelência para o jornal, não para provocar um desmentido, porque não era preciso que das cadeiras do Poder se viesse dizer que o Governo não pensava em alienar qualquer porção do território português, mas se poder afirmar aqui que o coração português se tinha amargurado, como de facto se amargurou, com a notícia que veio nesse jornal. Essa afirmativa já foi feita por um estadista espanhol por outra forma. Que Portugal é igual à colónia inglesa de maior importância. E até já se foi mais longe, dizendo-se que uma grande nação tinha aqui encravada uma feitoria britânica”.

XX

Fez uma pausa, antes de continuar:
– E o deputado Agatão Lança aproveitou para trucidar a política externa portuguesa. Veja o que ele disse, sobre a nossa delegação em Washington: “O consulado é um quarto de hotel, onde habita o nosso representante e diz que Portugal é tão pequeno que cabe no seu bolso do colete”. E mais: “Os nossos interesses na América do Norte estão exactamente melhor defendidos na época do Verão, isto é, quando o nosso Ministro em Washington vai gozar as delícias do clima em outra terra, ficando a legação entregue ao nosso ministro do Brasil”. O futuro de Macau parece bem entregue, não?
– Que lhe posso dizer, senhor Governador, que já não saiba?
– Foi por isso que fugiu de Lisboa e se refugiou aqui, tenente?
– Foi um conjunto de razões. O aroma pouco agradável do panelão onde se misturam interesses pessoais e negócios foi outro.
– Compreendo. E os chineses, o que acharão?
– Para já estão em lutas internas. Como se provou até há pouos meses aqui. Mas não deverão achar piada a uma eventual venda. Ou correm connosco daqui, ou negococeiam com quem já estão habituados a viver.
– Isso não é apenas uma mentira que contamos a nós próprios?
– Os chineses e os portugueses criaram um clima de entendimento quase perfeito aqui. Excepto os mais radicais ou nacionalistas, há um equilibrio estável. Nem nós os incomodamos nos seus negócios. Nem eles nos chateiam.
– Já agora, aproveito para lhe colocar outra questão, tenente. Acha que a morte do senhor secretário João Carlos da Silva pode estar ligada a todas estas movimentações?
– Pode estar. Afinal, muitos podem estar interessados no que se decide em Lisboa ou Santa Sancha. Ter lá um ouvido atento dá jeito. Para já coloquei os meus melhores informadores em campo.
Rodrigo Rodrigues dobrou o jornal e fitou Amoroso:
– Parece-me bem. Convém estarmos atentos. Já agora, se não se importa, tenente, gostava de saber a sua opinião sobre um assunto.

XXI

O Governador prosseguiu:
– Estou a pensar em reforçar o sentimento nacional em Macau. Foram os republicanos que recuperaram o nosso maior poeta, Luís de Camões. Passaríamos a fazer, no dia de Portugal, uma romagem à gruta de Camões. Acho que isso é importante. Vivemos tempos de decadência. Como aqueles que Antero de Quental ou Guerra Junqueiro transportaram para linhas escritas em “Casas da decadência…” ou na “Pátria”. Ou que Viana da Mota sintetizou na sinfonia “A Pátria”. Como dizia Teixeira de Pascoaes: “neste momento Portugal é um mistério, é impossível a gente calcular o que virá a ser dele”. Honrar Camões é um sentimento de revolta republicana. Sabe, em 1880, por ocasião das comemorações em louvor de Camões, o “Diário de Notícias” distribuiu gratuitamente 30 mil exemplares de “Os Lusíadas”. Era a crise que fazia com que se procurassem respostas no passado. Esta crise pode fazer com que voltemos a acreditar no futuro de Portugal.
Amoroso respondeu apenas:
– Parece-me uma excelente ideia, senhor Governador.
Foram interrompidos pela chegada de duas mulheres. Rodrigo Rodrigues levantou-se e Amoroso fez o mesmo.
– Querida, já acabou?
Ela sorriu:
– Já sim, foi excelente.
– Quero apresentar-vos o tenente Félix Amoroso. Faz parte do departamento de informações de Macau. E esta é a minha mulher, dona Rita Magarida Rodrigues, e esta uma amiga que já aqui fez, a dona Sofia Ramos Palha, esposa do senhor Palha.
Amoroso olhou para esta, que, em contrapartida, não afastou seu o olhar, percorrendo o corpo do tenente. Não teria mais de 30 anos. Menos cerca de 20 do que o seu marido. Tinha a pele clara e o cabelo e olhos castanhos. O nariz arrebitado e os ohos pequenos denotavam alguém com uma curioidade latente. O Governador disse:
– Temos de ir, não é verdade, querida?
Ela fez um gesto com a cabeça, em sinal de concordância. Sofia Palha seguiu com eles. Mas não se coibiu de olhar para trás e voltar a mirar o tenente Amoroso.

XXII

Macau engana-nos, dizia Benedito Augusto com voz matreira. Parece que o sexo está sempre visível. Mas isso não é verdade. Nem sempre o vemos. Sabemos que ele está por ali, em todo o lado, sempre à espreita. Olhou para o tenente Félix Amoroso, tentando avaliar a sua reacção. Este parecia não notar que uma vaga parte destas afirmações também estavam dirigidas a ele. Benedito sussurrou:
– Há algo maligno nestas ruas. Uma coisa estranha, uma escuridão onde se movem sombras. Almas perdidas que não se querem salvar.
Ele falava do sexo. Insinuava também que João Carlos da Silva morrera por causa dele. Por excesso. Enquanto muitos outros continuavam a viver por causa dele. O tenente contornou o copo de cerveja com os dedos, antes de dizer:
– Nunca sentes desejo, Benedito?
– Sou mais forte do que ele.
– Mas o sexo tenta-te…
– A vida é um conjunto infinito de tentações. Saber escolher as que fazemos é a forma de concretizarmos a nossa vitória sobre elas.
Falando assim Benedito escondia o passado e, depois, esclarecia o presente:
– Sim, acho que o senhor Silva foi morto por causa do sexo. Não tem a ver com qualquer conspiração política que se desenvolve nas sombras desta cidade.
– Há uma conspiração?
– Que acha, tenente? É ingénuo? Sente-se no ar, entre os fortes aromas das comidas orientais e a conservadora cozinha portuguesa. A conspiração transpira, como os picantes mais fortes. Veremos o que acontece, mas alguém está à espera de ganhar, e muito, com o que se pode vir a passar.
Benedito Augusto e Félix Amoroso bebiam cerveja e comiam arroz com galinha numa taverna chinesa na Rua da Felicidade. Antes, o tenente tinha estado a jogar fan-tan com marinheiros chineses, até que o padre chegou e o afastou do vício. Dissera-lhe:
– O vício causa-nos alucinações e, depois, conduz-nos ao abismo.
– Tenho outros vícios piores, Benedito.
– Eu sei. Conheço-os.
– Mais do que eu desejaria.
– Sabe, tenente, não é por mal. Faz parte de mim e do que faço. Saber é poder. Mas diga-me, jogar não lhe faz desenvolver um sentimento de culpa?

XXIII

– Sentir-me-ia culpado se não jogasse. Meu caro Benedito, a vida é um jogo, todos o dizem. Um jogo viciado, com cartas marcadas, porque sabemos como acaba. Estes, pelo menos, são mais indecifráveis. Nunca sabemos se ganhamos ou perdemos. Mas sonhamos que é possível vencer. E só isso que importa.
Amoroso sorriu ao dizer estas palavras.
– Elucide-me, Benedito. Porque diz que João Carlos da Silva morreu por causa do amor, ou do sexo?
– Há algo que me intriga. Sabe, o alemão, que se chama Maximilian Wolf, esteve ontem à noite com Ding Ling.
– Esteve? Não sabia.
– Imagino que não. A sua querida amiga não lhe disse nada. Mas sabe como é. As mulheres têm sempre segredos. Não sei do que falaram, mas o que sei é que o senhor Silva e o alemão estiveram lá na noite em que ele foi assassinado. Discutiram. Um pirata que conheço viu-os. Não percebeu o que diziam. O alemão saíu e não voltou. E o Silva foi ter com Bei Li, a amiga de Ding Ling.
– Como sabes?
– Uma das raparigas de Ding Ling, Xiao Yi, contou isso ao pirata que me confidenciou isso. Ele oferece-lhe muitas prendas, depois de cada assalto. Diz que, um dia, a levará dali para casarem. Ela acredita e vai-lhe contando coisas que acontecem ali. É uma fonte que não se esgota. Tudo se sabe nas noites de sexo, álcool e ópio em Macau.
– Só que tudo aponta para que o alemão possa ter assassinado o Silva. Talvez este estivesse a espiar o Governo, para saber mais coisas sobre o que pensam os portugueses ou o que sabem sobre essa ideia de Macau poder ser vendida aos alemães.
– E o alemão voltava dois dias depois à cena do crime?
– Sim. Para vir ter com Ding Ling é porque há uma conexão. Mas, é sempre arriscado, regressar ao local de um crime.
– Tenente, vá por mim. Silva tinha fome de sexo. Desde que a mulher o deixou, vivia sozinho. Ia ali, à casa dos prazeres da menina Ding. Mas seria só isso?
O tenente acariciou o queixo. Nada era claro. Mas agora precisava de saber mais. Junto de Ding Ling. E encontrar o alemão.

XXIV

– A dúvida é a nossa vida, tenente. Nem sempre é fácil distinguir os verdadeiros sentimentos dos falsos. Porque tudo se compra e se vende. Num mundo em desordem moral todos estão dispostos a vender-se. Talvez até a sua amiga.
– Nem todos, padre.
– Acredita mesmo nisso, tenente? Pense em si.
Amoroso sentiu as palavras como um murro no estômago. Bebeu mais um gole de cerveja. Sentiu vontade de sair dali e entrar na “Noite Tranquila” para falar com Ding Ling. Confrontá-la com o que Benedito lhe dissera. Por momentos sentiu-se atraiçoado pela mulher que fnalmente conseguira acalmar os seus ânimos. Com sexo e ópio, Ding Ling domara a sua fúria. Sentira-se amado. Agora parecia outra vez um náufrago. Benedito abanou a cabeça:
– Não é caso para tanto, meu caro tenente. Não é preciso manter uma relação conflituosa com a realidade. Sabe que quanto maiores são as nossas debilidades, mais vastos costumam ser os nossos planos. A menina Ding sabe os seus pontos fracos. Como é que se diz? O seu calcanhar de Aquiles. E você sabe que ela sabe isso. Por isso aumenta as expectativas. Não o faça.
Amoroso não respondeu. Os seus olhos concentravam toda a sua fúria, mas o corpo ia deixando de estar tenso. Estava a acalmar-se, o que era a melhor solução. Falaria com Sing Ling depois, quando a tempestade se concentrasse toda dentro de uma garrafa. E a pudesse atirar para o mar, para que fosse apenas aberta noutras latitudes. Foi buscar mais duas cervejas.
– Tsingtao, meu caro Benedito. Para não nos esquecermos do que é importante. Continuo a achar que esse alemão nos levará até ao assassino do secretário Silva.
– Pode ser que tenha razão, tenente. É uma questão de paciência.
Amoroso olhou para Benedito Augusto. Sentiu-se desconfortável. O padre leu-lhe o pensamento. Sabia que quanto mais um homem te conta, mais perigoso te tornas para ele. E quanto mais perigoso és menos opções tens no futuro. Tinha que evitar que Amoroso pensasse que ele poderia ser seu inimigo.

XXV

Ding Ling aproximou-se de Félix Amoroso e beijou-o ao de leve. Os olhos de ambos cruzaram-se como se estivessem a preparar-se para um duelo. Estudavam-se, como numa dança de morte. A luz estava demasiado fraca para poderem escolher claramente qual o caminho a seguir. O ruído que se ouvia era de feridas que se tinham aberto e gritavam pela cicatrização. Mas, tal como depois da chuva que cai, leve mas interminável, era preciso que o sol secasse os mal entendidos. Ambos sabiam isso. Ding Ling sentou-se de pernas cruzadas numa cadeira de bambu, como sempre fazia antes de partir para a batalha. Disse:
– A cidade flutuante é a alma de Macau. Os portugueses, outrora senhores do mar, preferem hoje o chão sólido da terra, os portos aos barcos. Talvez por isso tivessem deixado de ser aventureiros.
Ding Ling fez um sorriso enigmático, depois de dizer tudo isto. Continuou:
– Tu ainda não sabes se preferes uma coisa ou a outra, querido tenente.
Os olhos negros da chinesa eram impenetráveis. Mas, por fim, os seus lábios abriram-se um pouco e isso fez com que a sua face se tornasse mais amigável e atraente. Ela, sedutora, ergueu-se da cadeira e olhou para os seus anéis antes de dizer:
– Há homens que preferem não saber a verdade.
– Eu não sou como esses homens que conheceste. Ou que conheces.
O tenente Félix Amoroso soava ríspido, mas era como um cubo de gelo prestes a derreter-se perante o primeiro sorriso da chinesa.
– Eu necessito de saber a verdade. Que acordo fizeste com Max Wolf?
O fumo que vinha do andar inferior do “Noite Tranquila” cruzou, por escassos momentos, o espaço entre ambos. Foi o suficiente para que Ding Ling ganhasse um pouco de tempo. Serenamente, respondeu:
– Prefiro ser jade, ainda que despedaçada, do que um tijolo, ainda que intacto. A minha integridade é espiritual. Sou leal a quem tenho de o ser. Não troco isso por interesses materiais, querido tenente.
O fumo ficou mais espesso. E ameaçou tornar-se sufocante. Amoroso inspirou fundo. Sentiu raiva contra si próprio e tentou recuperar o sangue frio:
– Que te propôs ele?

XXVI

Os olhos dela fecharam-se devido ao fumo. Pegou num leque que estava em cima da mesa e abanou-o. O fumo dispersou-se e Ding Ling agarrou numa garrafa de vodka russo e virou-se para Amoroso:
– Queres?
Face ao silêncio dele, ela encheu dois copos e, depois de lhe entregar um, levou o seu aos lábios e disse, sarcasticamente:
– Sem vodka, a que é que se resume a conversa entre as pessoas?
Riu-se e bebeu mais um gole. Nunca parecia ficar embriagada. Mantinha sempre a serenidade. Era a protagonista da paz onde não havia lugar para ela. Disse:
– Há gente sem alma e sem espírito. Tudo muda mas, na verdade, nada muda no mundo. Ele propôs-me uma coisa simples: aliciar gente importante para a sua causa em troca de vantagens materiais para mim e para o Kuomitang.
– E tu, que respondeste?
– Disse que ia pensar.
– E já o fizeste?
– Já o tinha feito antes da proposta. Não lhe respondi. Nem lhe responderei. Tudo nos separa. Não pode haver falsas tréguas entre nós. E os portugueses não são para aqui chamados, como sabes. Só me interessa o futuro da China.
O respeito de Ding Ling estava reservado para os raros homens e mulheres que se poderiam cruzar com ela na sua luta e que a poderiam derrotar. Nunca pediria tréguas, nem através do sexo. Amoroso sabia, por experiência própria, isso. As paixões dos homens sempre tinham sido armas forjadas em louvor das suas necessidades. Os dela não eram assim. Quanto a paixões reais talvez tivesse tido uma, ou dias. Talvez tivesse por Li Bei. Talvez tivesse por ele. O seu amor era outro. Se o Governo soubesse o que verdadeiramente a movia, que era incendiar o mundo, já a teriam silenciado. Mas ela era a senhora que oferecia o prazer a quem o desejava. Poucos poderiam desconfiar que ela não era água. Era fogo.
Ali, numa atmosfera de aromas chineses e de fumo de cigarros e de ópio, ela observava e tomava notas mentais sobre o que via. Para futuro uso. Às vezes parecia meditativa e deixava-se manietar por uma quase melancolia. Aí recorria ao corpo de Li Bei para pacificar a sua alma. Mas se Amoroso aparecesse numa dessas noites, ele seria a paz num conflito sem tréguas entre dois corpos. Talvez houvesse outro mistério qualquer por detrás dos seus olhos guerreiros.

XXVII

Qual era o seu passado? Desde a sua infância, Ding Ling tinha um estranho talento para o silêncio. Mesmo quando ria.
– Qual é o teu plano, doce Ling?
– A verdadeira informação tem um preço, querido tenente. Mostra-me, primeiro, qual é o teu verdadeiro objectivo.
– Isso também tem um preço.
– Não é difícil saber, querido tenente. Uma mulher consegue guardar silêncio. Os homens falam como tolos na primeira taverna que encontram.
Os olhos dela brilharam intensamente, antes dele dizer:
– O que é que tenho de te dar pelo teu silêncio, se te contar os meus segredos?
– Eu não digo nada.
– Eu também não direi o que seja sobre os teus.
– Enquanto me amares guardarás os meus segredos, eu sei. E eu sei que me amas por causa dos meus segredos.
Disse tudo isso numa voz doce, como se estivesse a contar uma história idílica muito antiga. E com um sorriso que faria com que alguém, menos apaixonado, perdesse o controle. Amoroso cortou o silêncio:
– Só preciso de paz.
– Não há paz onde há quem mande e quem obedeça. Onde não há liberdade e há necessidade de a obter. Estou comprometida numa guerra.
– Então eu confiarei em ti e nós sempre nos compreenderemos. Mas porque não continuas a dizer mentiras, se não há Inferno para ti, doce Ling?
– As mentiras são necessárias, porque as pessoas são tolas. Insensatas. Tu foste soldado. Agora és espião. Que vieste fazer para Macau? Contar baixas, remendar botas, escrever cartas de amor? É isso que os soldados fazem no meio de uma trégua. Em Macau sonhavas encontrar essa paz, essa pausa na tua vida entre o inocente e ingénuo que foste antes da guerra e o que és agora. Sobreviveste e começaste a pensar no que era importante para ti. Precisavas de paz. Cansaste-te. Vieste para Macau ser fiel a ti mesmo, mas ainda não deixaste de estar cansado.
– Por amor fazem-se coisas terriveis. Sabes algo sobre isso?
Os olhos dela tentaram esconder o que lhe ia na alma. Mas isso era impossível. Depois Ding Ling disse:
– Falas como alguém que viveu tudo e não tem medo de nada.
– Sobrevivi a uma guerra.
– Eu também. E estou no meio de outra.

XXVIII

– Responde-me, doce Ling: quem poderá escutar os cantos da sereia do alemão? Tu?
– Duvidas de mim?
Ding Ling respondia como se a ferida tivesse voltado a abrir-se. E a desconfiança tivesse regressado. A voz de Amoroso soou doce:
– Não, nunca o faria. Mas preciso de saber quem ele poderá aliciar.
– Eu também quero saber isso. Mas para isso é preciso começar por perceber o pensamento dos homens que aqui em Macau já se juntaram a ele. Poderá ser por medo do poder que diz ter. Ou medo dos canhões alemães. Mas pode não ter nada a ver com isso. E ser algo que desconhecemos.
– Ele move-se numa direcção que promete caos sem fim. Macau sempre foi um porto seguro para Sun Yat-sen. Poderá continuar a sê-lo no futuro. Com os alemães, apesar das promessas, nunca saberão. Nunca terão a certeza.
– Estás a defender Portugal e não os teus interesses.
– Às vezes não há diferença. Gosto de ser fiel a mim próprio.
– É isso que eu gosto em ti.
Ding Ling saíu por momentos da pequena sala e chamou Wei Zi, uma jovem chinesa que Amoroso conhecia há algum tempo. Era uma das favoritas da senhora que mandava no “Noite Tranquila”. Era pequena, de olhos amendoados e sedutores. Falavam em cantonês e Amoroso só percebeu algumas partes da conversa. Ding Ling dizia-lhe que era necessário saber tudo o que sabia um chinês que sabiam trabalhar para Max Wolf. Wei Zi ia acenando com a cabeça e, depois, virando-se para Amoroso disse com voz sedosa, num português arrastado:
– Ele vai contar-me tudo. Usarei todos os truques. Todos os prazeres que ele conhece. E os que desconhece.
O seu olhar era de uma inocência completa, como se o que dizia fosse algo insignificante. Sexo por informação.
Wei Zi fez uma vénia e saíu. Ding Ling disse então, virando-se para Amoroso:
– Ela vai contar-lhe a história de como teve de se esconder do tio, quando era ainda muito nova. Uma história que nunca contou a ninguém. E, depois, quando acordarem de manhã, vai confessar-lhe que ele é único. Diferente de todos os homens com quem se deitou. Ele estará vulnerável. Sabes, querido tenente, todas as derrotas do corpo dos homens começam na horizontal.

Amoroso sentiu uma vertigem. Muitas vezes queria ter uma visão impoluta da vida. Embora ele próprio não tivesse praticado sempre esse princípio. Bastava já ter frequentado muitas vezes a “Noite Tranquila” apenas pelo sexo. Mas custava-lhe usar certas tácticas. Doía. Olhou para Ding Ling. Esta fez um sorriso irónico e, depois, disse:
– Meu querido tenente, julguei que já sabias isto há muito tempo. Já não há Bem nem Mal.

XXIX

8.

Antes da primeira explosão, o céu estava límpido. As estrelas pareciam imóveis. O tenente Amoroso sentia uma pequena brisa fresca nas faces enquanto caminhava junto ao Porto Interior. Mas depois, numa fracção de segundo, tudo mudou. As estrelas focaram invisíveis e o aroma a queimado foi-se intensificando. Primeiro foi só uma explosão. Depois, muitas. O céu encheu-e de cores e as luzes ardiam em todas as direcções. O fogo de artifício iluminou os céus de Macau, de uma forma cada vez mais desordenada. Não era tempo de festividades. O tenente olhou para a zona de onde partiam os foguetes. Viu um clarão de fogo rente às casas. Estava junto à taverna onde se costumava encontrar com Benedito Augusto. Ouviu gritos e viu pessoas a correr, vindas das casas. O ruído tornou-se ensurdecedor. O tenente ficou ali, durante longos minutos, imóvel, a olhar para a cor do céu, até que apenas se passou a ver um clarão muito claro ao longe. O fogo deixara de tentar atingir a casa dos deuses celestiais.
Depois caminhou até à taverna. Sentou-se, pediu uma cerveja e esperou. Benedito, apressado, trouxe a notícia. A Fábrica de Panchões de Keng Cheng, que ficava no bairro de San Kiu, explodira. Apesar das tentativas para afastar estas fábricas das zonas residenciais, e de vários acidentes que tinham causado dezenas de mortes, só agora isso começava a ser feito, com a construção da primeira fábrica na ilha da Taipa. O fogo-de-artifício fazia parte da vida de Macau e dos chineses. E as fábricas de panchões tinham sempre trabalho. Eram fonte de riqueza. O fogo-de-artifício servira, desde tempos remotos, para afugentar inimigos na guerra ou para afastar a má sorte.

XXX

O vermelho e as faúlhas sempre foram bons presságios. E o fumo criava uma boa atmosfera, contava Benedito, que depois concluiu:
– Neste caso não foi. A explosão trouxe a má sorte a Keng Cheng. E à sua amiga, Ding Ling.
– O que é que têm eles a ver um com o outro?
– Tudo, meu caro tenente. A menina Ding e o senhor Keng jogam as cartas do Kuomitang e, diz-se, do Bando Verde. A explosão pode ter sido um acidente. É comum. Mas, neste momento, também pode não ter sido, não lhe parece?
Amoroso bebeu um gole da sua cerveja. Lembrou-se por momentos de um capitão, Álvaro Esteves, que conhecera na batalha de La Lys. Que ali morrera, como muitos outros. Era um homem que fora capaz de amar esse punhado de tempo a que chamamos vida. Cada dia, para ele, era uma forma de emoção, um tremor. Falavam, nas trincheiras, da nostalgia do campo, das dúvidas e do assombro que era a vida. “Sou um romântico”, dizia, com um esgar irónico. “Converto tudo em sentimentos”, concluia, enquanto cortava um pouco de chouriço para colocar no pão. Esperavam uma barragem de artilharia alemã. “Não sei como posso fazer uma descrição do que vi no mundo e do que o mundo fez comigo. A nossa vida está feita de muito pouco. Amar, gozar, sentir e celebrar os instantes, olhar várias vezes as paisagens e os pássaros para não esquecermos, e declinar até à velhice”, dizia, com a sensação que não chegaria a velho. Não chegou. O fogo-de-artifício assustara Amoroso. Lembrara-lhe esse amanhecer, quando o fogo de armas fora tão intenso que nada poderia sobreviver. Benedito Augusto olhou para ele e sentiu-o errático e triste. Disse:
– Quando temos dúvidas, a verdade é um bom início de conversa.
– O que seria das sociedades sem o uso da mentira?
– É verdade, o que seria de nós se não jogássemos com a mentira? Só isso nos permite evitar a derrota. Mas aqui só os fracassados irão ver os deuses. É por isso que gosto desta parte do mundo. Os anjos foram seduzidos pelo Diabo e caíram na terra. Ficaram aqui, corpos de carne e osso.
– Gosto de o ouvir padre. Tem a educação que eu nunca tive.
– E o tenente a vida que eu sempre desejei.

17 Mai 2021

Da desinquietação. Pág. 3

Erro de cálculo é calcular. De que se faz a vida se tudo se imaginar calculável, é uma pergunta a que não gosto de tentar responder. Nem num sussurro por medo de errar, também aí, o cálculo. Antes desdizer todas as previsões e assestar os olhos num pequeno momento de cada vez, de esperar que se somem momentos aos momentos e lançar todas as teias delicadas e sinceras de objectividade, de todas as fibras que constituem – sei lá – o sistema nervoso, o aparelho óptico, os volumes musculares que nos apetecem movimento, as tonalidades de voz, para além do olhar ou das cores. No fundo, bem no fundo nuclear e tectónico, de onde explodem rios de lava e de lágrimas – conforme – centrar. Aí, de onde tudo se retira e escolhe. Não que o tempo se fragmente em tempos precisos de agora antes e depois. Pelo contrário, no seu contínuo, plástico e permanente ser e devir, contém em cada ínfima parte, o de todo inalcançável infinito. É estranho. Num mergulho abrupto em profundidade de possibilidades. A passagem em velocidade da luz por um todo, pelo caminho mais longo. Ou, também como um intangível sulco que podemos saltar quase sem pensar ou deter o olhar. Uma simples ruga na pele do tempo. E atingir permanentemente de chofre o minuto seguinte, sempre em perda por essa é a inconsciência que escolhemos. Ou não. Parar sobre o abismo e nele mergulhar como se um pequeno desvio na naturalidade da perda, é talvez viver a lúcida e inundada possibilidade de, sem cálculos prévios, nos deixarmos surpreender entregando tudo.

Estará escrito no lugar que sempre erra. Que é da natureza e do erro errar o ver e ver o erro à distância do tempo. Estará escrito no passado. Estará escrito no tempo que foi verbo e ficou. Estará. Escrito que o amor é insolvente. Inóspito na forma. A nu. Em que estará onde pode estar. Quem escreveu a salvação diluiu em mágoa. Estará escrito. Mesmo assim. Onde estará escrito que o que quer que seja existe ou morre. E o tempo, o tempo dirá. Do verbo.

Se me sinto, como flor, como apetência de estação, de cerejeira, para quê roubar-me o resto dos dias da semana. Antes do vento. Flores e a efemeridade de tudo. Aprender a dar valor aos momentos de passagem. Porque tudo o é.
Mar e mar.

Mentindo, estar ali em espuma, frescor e sentir. Ou não. Estar mesmo em espuma e ondulante espraiar. Estar ali e não estar. Crescer em ínfimo estarrecer de não ser, ou de entender não estar. Ou de crescer sentir. E explodir. Ficar.

Quantos pedaços fazem sentir e ver e percorrer. Mas não colam ao que de flor florescer. Quantos e como definir, contar, apanhar e envolver. Quanto, esquecer. Quando amanhecer, anoitecer e fenecer. Quando acontecer. Quando. Quanto falta concluir desfrutar, acabar. Esquecer. E, todos os dias, voltar. A estar a concluir a enfrentar a estar. A ir, a voltar. A amar. Marés de mar.

Estrondo invernoso na maré viva. A vida é um desafio formidável. O apelo a um sentido lúdico ou lírico, dramático, sobretudo em tempos de guerra, quando, pequenos, em risco de apagamento. E só por dentro encontro paisagens aprazíveis. E aí estaciono em perspectiva. O plano que se estende do olhar é vasto e a calma que daí se evola, invade como uma sensação cálida em dias frios.

Ou outros dias. Aquela imagem desenhada à pressa no terraço de um bar de Marraquexe em fim de tarde. Por acaso não é Casablanca mas “play it again Sam”.

4 Mai 2021

Insularidade

Margarida N. Silveira nasceu na Ilha Terceira em 1968 e aí viveu até aos 17 anos, quando se mudou para a Califórnia com os pais. Já nos Estados Unidos, licenciou-se em Estudos hispânicos e portugueses. Em 2001 defendeu uma tese de doutoramento acerca de Jorge de Sena, com o título «Exílio». Em 2005 publica o primeiro romance «Férias de Nós», em 2009 o segundo romance «Ninguém, Tu», em 2014 «Aonde» e em 2019 «Um Dia». Os seus livros têm passado completamente despercebidos em Portugal, com excepção das ilhas dos Açores, onde a Margarida N. Silveira é considerada não apenas uma grande escritora, mas acima de tudo a voz principal do sentimento insular e de exílio que os açorianos vivem, especialmente aqueles que se sentem divididos entre os EUA e a sua terra natal.

O livro que mais me impressionou – embora não tenha lido os quatro romances da autora, apenas «Férias de Nós» e «Ninguém, Tu» – foi o primeiro romance. Leia-se à página 112: «O tempo passado na Praia da Vitória fazia-se sentir em nós [a narradora refere-se a ela e ao seu amante, um alemão que conheceu nas férias] como se não fosse da nossa vida que se tratava. Em mês e meio, Wolfgang regressaria a Munique e pouco depois ela voltaria a Santa Bárbara, Califórnia, para a normalidade da vida. O importante não é este sentimento, comum a todos aqueles que se apaixonam num intervalo das suas vidas, e que acontece desde a adolescência. O importante para mim é que pela primeira vez, desde que deixei a ilha para a América, sentia o lugar aonde nasci e cresci como uma terra de esperança, uma terra de sonho, de possibilidades infinitas, e não o lugar onde parecia ter-me partido em duas para sempre.» Margarida N. Silveira confunde propositadamente a narradora consigo mesmo, fazendo do seu primeiro romance uma espécie de confissão. Seja como for, a autora deixa bem vincado o sentimento de que quando se deixa a ilha nunca mais se é inteiro. E por isso mesmo: «Sair da ilha é ser condenada ao exílio de si mesma. Nunca mais se é quem se é ou quem se poderia ser. E este nosso fantasma irá assombrar-nos para sempre.»

A narradora-autora descreve a sua vida – desde que saiu da ilha – como uma espécie de claustrofobia: «Sinto falta de ar quando retorno à ilha, como se eu me tornasse irrespirável para mim mesma. Aquela que fui, e não consigo recuperar nem pela memória, e aquela que poderia ter sido se não tenho deixado a ilha, cercam-me de tal maneira que não tenho espaço para respirar.» Assim, a sua relação com Wolfgang, naquele período de férias de ambos, a meio do Atlântico, repõe uma normalidade no modo como vive a ilha. «A normalidade de quem está de férias, seja em que lugar for do mundo. Porque as férias são sempre férias de nós. Pois por mais que nos levemos na bagagem, como se costuma dizer, a verdade é que não a arrumamos nem desarrumamos como usualmente. E nem sequer olhamos a manhã com os mesmos olhos. Mas a ilha nunca me permitiu ter férias de mim. Vir à ilha sempre foi trabalho. Só Wolfgang conseguiu o milagre de me ver livre de mim. Sentimento que era amplificado por sentir que também ele não era ele. Estávamos de férias da vida, como sempre acontece numa intensa paixão por outrem.»
Independentemente deste sentimento de férias da vida, aquilo que perpassa ao longo de todo o romance é a ideia de exílio de si mesma que a narradora – nunca é dito o seu nome – passa para o leitor, devido a ter-se partido em duas, aos 16 anos. Propositadamente, Margarida N. Silveira adianta o relógio da realidade um ano, como se fizesse da sua vida uma espécie de «delay» em relação à narradora do livro. Regressando à ideia de exílio, que já vinha da sua tese de doutoramento, aquilo que mais impressiona o leitor é que o exílio não é referente a uma terra, a uma comunidade, a um país ou uma língua, mas a si mesma. É de si mesma que a narradora – suspeita-se que a autora também – se exila ou é condenada a isso, ao deixar a ilha.

Também eu escrevi num romance «mesmo quando se regressa nunca se regressa», embora em «Férias de Nós» o sentimento de impossibilidade de regresso seja muito mais profundo e ontológico do que em «O Mal». Porque não é à terra que nunca mais se regressa, mas a si mesmo. Margarida N. Silveira traça nesse seu romance um estranho e arrepiante paradoxo: se nos movermos partimo-nos em dois (ou três ou quatro); mas se não nos movermos conseguiremos ser nós? De outro modo: haverá nós sem nos partirmos? A existência comporta a unidade de si mesma? Talvez todos nós sejamos partidos e os insulares tenham uma consciência mais aguda da situação. E precisamente por isso, a este sentimento particular de exílio, que segundo a autora é muito comum nos Açores, ela chama insularidade: «A insularidade não é estar cercada de mar por todos os lados, é perder-me de mim mesma por todos os lados. E ainda que isso possa ser universal, é muito mais comum nas ilhas. Em especial nas ilhas dos Açores.» Ainda que Trás-Os-Montes possa ser uma ilha, cercada de terra por todos os lados. Ou, pelo menos, tenha sido décadas atrás, antes das novas estradas e auto-estradas.

Margarida N. Silveira continua por ser descoberta em Portugal continental, assim como tantas outras escritoras e escritores insulares.

4 Mai 2021

Farewell, My Dear

18/04/21

Completei hoje o segundo livro de poemas depois de Tristia. É curioso pensar que, antes do Valter o ter levado para a Porto editora este livro esteve em duas editoras renomadas, que não me deram sequer sinal de o terem lido.

Eu sentia, há anos, que depois deste volume pouco tinha a acrescentar na poesia. Não foi assim e fixei dois livros novos nestes últimos três meses, nos quais mudei absolutamente de processos e cheguei a uma simplicidade discursiva surpreendente em relação aos meus livros anteriores, como será patente na antologia Uma Ostra Questão, que sairá daqui a uns meses.

Estes dois livros abrem um novo veio, depurado (com alguns curto-circuitos), mas escorreram-me com uma facilidade que se por um lado me agrada por outro me parece maculada pela competência. Creio que a competência é inimiga da poesia e que a técnica não é suficiente.

Há um episódio curioso de Mallarmé. Um dia foi-lhe pedido um poema para ser recitado no casamento da filha de um amigo. Mallarmé cumpriu a encomenda. E felicita-o o amigo: “O poema é muito bonito e não é hermético, como te é habitual”. E responde o poeta: “Não tive tempo para o obscurecer”.

Sinto o mesmo: o desafio da poesia exige tempo, e não que cedamos “ao natural”. É preciso ser desconfiado, que lhe digamos que não. Só assim nos salvaguarda do aviso do René Char: pobre do poeta a quem a poesia não ensina o que ele não sabia de antemão.

“Como um esquife, morto de cansaço,/ o verso que me habilita à proporção.”, leio em Tristia, e fico espantado, só agora descubro a força da tensão que aqui se declara, é um dístico que como um pé-de-cabra abre uma poética, mas a proporção que nele se mete em movimento já está para além do apego aos géneros. Imaginar é-me preciso, mais do que a poesia.

Agora que tecnicamente faço o que quero, chegou como o Miró a hora de mudar de mão, de retomar a boa via de conduzir contra o trânsito. Continua a haver em mim uma criança que prefere assustar-se a confirmar-se.

Gosto dos dois livros que acabei, não é essa a questão. Mas depois deles já não me surpreenderia o que pudesse escrever, estaria a imitar-me, em modo de ronron. Eles estão no limite e funcionam muito bem; não lhes falta ritmo, sangue, humor, algum atrevimento, boas soluções, e mantêm uma vibrátil plasticidade verbal, mas detesto conhecer o terreno que piso.

Caos precisa-se, que as palavras cheguem ventiladas da esfera do indescernível, de lugares sem raízes, desorbitados, insusceptíveis de serem plintos para exercícios onde a medula estará para além de mudar-se o lugar das mobílias.

Cheguei ao brando conforto da “forma”, há agora que readquirir a potência do desequilíbrio.
Já estive quase dez anos sem escrever poesia, o jejum não me fez mal.

20/04/21

Reler Bandeira faz-nos sempre descobrir alguma coisa que nunca tínhamos visto antes, tão certo como os versos de Hafiz que o poeta recupera: “Amarei constante/ Aquela que não me quis”.

Desta vez, entrevi a poética, patente em Saudação a Murilo Mendes e em Nova Poética, a que o poeta foi fiel. O primeiro destes dois poemas fecha assim: «Saudemos o grande poeta/ Permanentemente em pânico/ E em flor.» ( – que aliás é uma variante dos versos de Dante: “o artista/ a quem, no hábito d’arte/treme a mão”).

O oximoro não só é exacto em relação ao Murilo como me parece definir o estro da poesia: dar flor no manto sacudido por um sismo de grau oito. No mesmo impulso bolçavam os samurais um haiku celebratório da vida durante o seu harakiri. Essa suspensão face ao desequilíbrio, seja o do interior, seja o do meio ambiente, resume o único tipo de “sageza” (intransmissível, que tem de se experimentar) a que o poeta pode aspirar.

Paralelamente, em Nova Poética, dum modo divertido, Bandeira prevê três géneros para a poesia: a do “poeta sórdido” (“Aquele em cujo poesia há a marca da vida”), a da “nódoa no brim” (um tecido forte de linho) – “O poema deve ser como a nódoa no brim:/ Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero” -, e o da “poesia é também orvalho” – com a ressalva que se segue: «Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem piedade.»

Paródia à parte, estes três géneros correspondem ao lírico (o orvalho), ao trágico (o brim), e ao dramático/realista (o poeta sórdido).

Porém, a lição que se tira do exercício da poesia em Bandeira é que não nos devemos ater a um género ou tema em exclusividade e antes planar no reconhecimento da topografia vária de todos os continentes. Por isso ele escreve em Arte de Amar: «(…) As almas são incomunicáveis/ Deixa o teu corpo estender-se com outro corpo./Porque os corpos se estendem mas as almas não.» sem temer contradizer-se depois, no poema Seio: «O teu seio que em minha mão/ Tive uma vez, que vez aquela!/ Sinto-o ainda, e ele é dentro dela/ O seio-idéia de Platão.» E assina rondós, ou redondilhas, ao mesmo tempo em que fazia poemas concretistas.

Esta liberdade, aliada à sua plena consciência da transitoriedade de tudo, levava-o a não se levar demasiado a sério (ainda que seja um poeta eminentemente sério) nem a deixar-se aprisionar por uma imagem, refém de si mesmo – capaz em páginas contíguas de ser cruel, amargo, cínico, terno, romântico, ou subversivo, e de de transmitir a lucidez da cal.

Tão diferente de alguns poetas que só querem ser um, o mesmo, de risca ao meio, mesmo que com vento. Daí que o velhinho e modernista Manuel Bandeira me seja dilecto e que a sua lição me faça abraçar um interregno.

29 Abr 2021

O design é uma poética do corpo  

Olhavas para o piso de baixo e vias as cadeiras brancas, branquíssimas, com aquele rasgo iluminado que a penumbra empresta à semi-escuridão. Haveria, a par da certeza íntima de partilha, a distância como modo de conformação. O fascínio nasceu-te, a pouco e pouco, a teia levitou nos alicerces do estético e muito mais perto da aventura literária do que se possa pensar. Percebeste que a poética em estado de bruto – mesmo se criada pelos jogos do design – é sempre um movimento em que as conotações bloqueiam outras conotações. A certa altura já não há denotação: apenas conotações que não conseguem multiplicar-se de modo a expressarem uma mensagem que fosse final. O que a conotação propõe, nestes casos, é simplesmente o adiar de todas as conotações. Uma poética em estado bruto, portanto. Os objectos de design dispõem-se, nesta óptica de simplicidade, a tentar atingir o que eles mesmo são. Um desejo que visa tão-só um desejo. E foi esta adulação criativa que te inundou paixões várias. Algumas verdadeiramente inesperadas.
 
Por exemplo, o candeeiro Sputnik de Marco Macura que, com a leveza da sua haste tripla, evoca os sonhos de superação da era moderna. Uma peça nada orgânica, embora sugira a ideia de corpo. Mas um corpo em plena evasão, como se desejasse escapar-se à matéria que a originou. Algumas peças dos ‘fifties’, de que a Sputnik é pura paródia, já haviam mostrado empatia com as morfologias do foguetão soviético. Foi o caso dos candeeiros Luminator de Pier Giacomo e Lívio Castiglioni de 1955. De qualquer modo, na tensão entre ‘pertença’ e ‘não pertença’ a um tempo, Sputnik joga toda a sua atracção na intemporalidade. 
 
Entre outros exemplos poéticos, lembras-te da poltrona Showtime do catalão Jaime Hayón, uma peça com cordas vocais e de concepção maleável (alimentada pelo teor almofadado e pelo ritmo das pregas a partir de uma pele em polietileno rotomoldado) ou do Antibodi de Patrícia Orquila que recusava ser chaise longue ou divã para se afirmar como um esteio de lazer à base de alegorias florais (a lã e o cabedal davam corpo às pétalas que dominavam o assento reversível). O Antibodi foi e é um objecto de que Freud teria fugido a sete pés. Para lucubrar sobre a psicanálise, bastaria a sua presença deslumbrante. Também não resististe ao banco Spun de Thomas Heatherwick, uma recriação da espiral da vida que acumulava a função de um inesperado cadeirão (dirias tratar-se de uma metáfora das utopias que ainda hoje subsistem, muitíssimo discretas, nas letras pequenas do dia-a-dia). 
 
Por fim, as laranjas que se querem tocadas como as estrelas. Corpo de casca e magma suave, as laranjas são personagens doces, lânguidas por natureza e foram baptizadas para fazer parte de uma gramática do júbilo. Tudo isto se respirava no candeeiro Flower-Pot-Orange de Verner Panton. A peça sugeria uma esfera, um aflorado de gomos e uma pressentida liquidez. Adivinhaste neste candeeiro um ponto de encontro e uma grelha de partida para poder pensar sem metas, sem objectivos, sem pressas. Uma laranja é um projecto de vida realmente. Tal como escreveu Ibn Sâra de Santarém (1043-1123), um poeta que traduziste do Árabe: “Com a sua beleza/ não permite aos olhos que vejam outra coisa:/ parece-me, às vezes, uma chama ardente/ e, outras vezes, o crepúsculo dourado”.
 
Sabias perfeitamente que o design somos nós próprios, revisitados. Percebeste a tempo que certas formas e acenos estéticos acasalam, na casa do design, com uma democracia quase intuitiva que todos partilhamos. É por isso que o design não é apenas uma espécie de revestimento dos objectos culturais. Ele é sobretudo a dança que percorre o modo com que nos olhamos ao espelho, numa sociedade em que o corpo já não é apenas um organismo. O corpo passou a projectar-se para muito longe de si mesmo. Dizes uma palavra em Singapura ao mesmo tempo que o ipad te dá ao dedo a simulação de uma viagem celeste. E, no entanto, continuas serenamente em Portugal sentado numa cadeira que não é apenas uma cadeira. O som da palavra, o dedo, a viagem e o objecto ambíguo onde te sentas são partes de um polvo lúdico que nada tem de orgânico. Trata-se antes de uma construção bem mais vasta de que fazes parte e em que interferes. 
 
O design cresce nesse tipo de territórios férteis onde nos revisitamos sempre que agimos. O design quase não necessita de reflexão, por isso mesmo: ele impõe-se ao declarar-se. É por isso que escolhes este site e não aquele, é por isso que escolhes esta camisola e não aquela, é por isso que escolhes esta palavra ou esta metáfora e não aquela (o design também se gera por dentro da literatura, é verdade). E o mais curioso é que a repetição criada pelo design não parece cansar, nem perturbar. Por vezes, cativa, hipnotiza e toca liturgicamente no fundo da alma. E porquê? Justamente, porque o design possibilita a repetição sem niilismo, ou seja: sem negatividade, sem fardo, sem peso. É essa a sua função primordial: permitir incessantemente, e sem limites, o fluxo do desejo.

29 Abr 2021

A invenção da alegria

Neste espaço em que escrevo sobre livros, embora não tenha contas feitas, talvez tenha trazido quase tantos ensaios quanto romances. E hoje é acerca de mais um ensaio que vou escrever, que me marcou muito quando o li, ainda quando vivia no Brasil. O livro chama-se «A Grande Invenção», do escritor dinamarquês Johannes Jungersen. Jungersen morreu em 1996, dois anos depois da publicação do livro, com 34 anos, num trágico acidente de carro.

Fez ontem, 26 de Abril, 25 anos. Infelizmente, Jungersen não deixou mais nenhum livro além de «A Grande Invenção», onde nos mostra, através de mais de duzentas páginas, como «[…] a grande invenção humana não foi a roda, a penicilina ou o foguetão que nos levou à lua, mas a alegria.»

No século XIX, Darwin escrevia que a capacidade de adaptação era a grande responsável pela sobrevivência das espécies e, concomitantemente, dos espécimes. E, segundo Jungersen, a alegria é indissociável da capacidade de adaptação. A capacidade de adaptação não se define apenas em relação ao clima, à alimentação, às contrariedades físicas, mas também em relação à capacidade de se ser alegre. Escreve, logo na página 17: «Sem alegria, ninguém sobrevive.» E, depois de várias páginas onde percorre várias doenças psicológicas, como a depressão, o transtorno de ansiedade e o transtorno obsessivo-compulsivo, ligando-as à falta de alegria – «[…] todas estas doenças têm como principal problema a incapacidade de produzir ou de encontrar alegria. É a falta de alegria que está na base do problema e que é comum a todos os distúrbios psicológicos mencionados antes. As diferentes expressões da doença é o modo como a pessoa reage a essa ausência de alegria.»

Mas o que é a alegria? Ou o que é que o autor dinamarquês entende por alegria, que acusa de ser a maior invenção humana? Leia-se as páginas 32-3:

«Em a Epístola aos Filipenses, Paulo escreve: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: Alegrai-vos!” A palavra alegria vem de um verbo grego “phyo”, que significa “produzir”, querendo com isso significar que quem é alegre é produtivo, fecundo. […] Independentemente de uma posição religiosa, o que está em causa é que a alegria, seja no Senhor ou no Universo, é fundamental. A alegria é criadora de vida. É a alegria que permite que possamos ver o futuro como um lugar que não nos é hostil, que nos permite ver adiante e aligeirar o medo.»

A alegria, enquanto invenção, não é apenas a criação de vida, mas a criação de sentido para a vida, porque «[…] alegria é uma disposição que nos afasta do peso de todos os fins. E todos os fins, quer seja o de uma relação amorosa, o de um projecto em que se está envolvido ou o da própria vida ou daqueles que amamos, são impeditivos de continuação. Viver com a visão do fim continua ou frequentemente impede que a vida avance. E a alegria é esse desbloqueador. Depois de ganharmos consciência, de sabermos que tudo tem um fim, era preciso um antídoto para que a vida não bloqueasse de vez. A alegria é esse antídoto, essa grande invenção, que permite que o ser humano continue, apesar da consciência.»

Jungersen faz também a distinção entre capacidade de criar alegria e capacidade de encontrar alegria. «Ambas são importantes, pois são elas que nos colocam nos eixos do futuro, de vermos a vida com sentido ou, pelo menos, de não vermos a vida sem sentido nenhum. Há, contudo, duas capacidades diferentes: capacidade de criar alegria e capacidade de encontrar alegria. A primeira é aquilo que podemos definir como capacidade de criação e a segunda a capacidade de encontrar as criações que promovem o bem-estar. […] em ambas, é fundamental a aceitação da alegria. Pois não é de todo certo que aquele que cria ou aquele que encontra alegria a aceite. Podemos criar e recusar essa alegria, recusar participar na própria dádiva de vida que foi criar. Assim como podemos encontrar a alegria a cada esquina e constantemente rejeitá-la. Por conseguinte, a despeito de se criar ou de se encontrar alegria, a capacidade de aceitá-la é determinante.»

No fundo, o que parece estar em causa neste livro é mostrar que, contrariamente à ideia generalizada de que a tristeza pode ser um grande propulsor de criação, é a alegria que produz, porque é ela que permite que continuemos a projectar futuro e a ter forças para continuar, apesar de todas as contrariedades. «O mundo, sem alegria, não seria uma tristeza; simplesmente não existia. Embora pudesse existir a natureza.»

Numa das suas entrevistas, aquando da publicação do livro, Johannes Jungersen diz que esta descoberta da alegria, como sendo a grande invenção humana, já há uns anos que vinha sendo pensada, «mas quando li “Água Viva” da escritora brasileira, Clarisse Lispector” tudo se organizou como se precisasse de ler essa passagem para ter coragem de escrever o livro. A passagem é esta: “Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida […]”. Foi como ver um sinal fora de mim de que tinha de escrever este livro. A alegria é aquilo que nos sustenta, que nos dá força. Mas não é algo que tenhamos herdado, foi algo que inventámos, assim como a posição erecta.»

Na Dinamarca, assinala-se os vinte e cinco anos da morte de Johannes Jungersen com uma edição conjunta do livro, de todas as entrevistas e de todos os artigos que escreveu para revistas e jornais. Por aqui, talvez fosse altura de termos uma tradução em português de Portugal de «A Grande Invenção», mesmo sem as entrevistas e os artigos publicados. Talvez hoje faça ainda mais sentido reflectirmos acerca da função ou da necessidade da alegria do que ao tempo da publicação do livro. Para Jungersen, a alegria é o factor responsável pela capacidade de adaptação à vida, às mudanças, à descida ao inferno, a todos os infernos, até mesmo ao da consciência mais cristalina.

26 Abr 2021

Doze haiku para Abril  

Haiku na cidade moderna.
Abril, doze sínteses. O olho tenta ver.
 
1.
o copo vazio 
dá sede
– viajante
 
2.
gentileza 
com pressa
– grosseria
 
 
3.
pesa demasiado 
na mochila
– o oráculo 
 
4.
o estrondo
não chega 
ao ouvido concentrado
 
4b
estrondo 
é silêncio 
– ouvido concentrado
 
5.
engenheiros desenham 
uma mulher nua
– pausa nos números
 
6.
os imortais 
inventam 
um jogo lento
 
7.
o ébrio acorda
– encontra sapatos
mas não os pés
 
8.
o comboio chega
à estação
– os corações partem
 
9.
estica os lábios 
e cala-se
– beijo
 
10.
mãos com vinho 
tocam 
na árvore verde-clara
 
11.
aprendeu a assobiar
para ter companhia 
do cavalo
 
12.
um cego 
encontra
um amigo

23 Abr 2021

Ginásio Mental

Li num artigo que a geração Z vai mais ao ginásio. Alcançar uma aparência física desejável beneficia a auto-estima e outra coisa que faz muito bem também é produzir mais likes no Instagram. Conseguir bons ângulos para posar em frente a um telemóvel. Possuir determinados objetos que fazem de nós seres civilizados. Alcançar objetivos que nos atribuam valor, mas, acima de tudo, que sejam visíveis. Passamos de um período a que Walter Benjamin definia como “o culto da arte” para “a arte exibicionista”. Em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica” ele vai mais longe, chegando mesmo a concluir que qualquer forma de exibição é necessariamente ideológica.

Distraidamente ideológica. Afinal, que tipo de pensamento político se consegue expor num post do twitter para além de ideologia pura e dura sem qualquer nuance? E esta personagem que criamos de nós mesmos, o que é que estamos exatamente a vender ao reproduzir mensagens simplificadas até ao tutano? É este o nosso novo produto artístico, nós mesmos, num post? Porque eu quando penso em arte penso no “Quadrado Negro” de Kazimir Malevich. É uma obra que é uma provocação. É pensar a arte enquanto ausência. Ponderar sobre esta nossa existência tão livre que pode até ser tanto que não é nada. Um quadrado negro. É este nível de reflexão que exige algo que está a cair em desuso – a concentração e a deliberação . Num sistema onde um artista tem que se adaptar à forma mais eficaz de produção massiva, perde uma grande parte da sua autoridade enquanto criador. Já não é a arte que nos absorve, nós absorvemos a arte. O artista já não se consegue impor com autoridade porque esse esforço de ir ter com a arte torna-se impraticável. A nossa condição num sistema sócio-político obcecado com a produção material não nos permite parar. Ler ou ir a uma galeria de arte é um ato isolado que requer concentração e disponibilidade mental para que as formulações de ideias tenham densidade. Contudo, se essas várias facetas da vida produtiva nos deixam demasiado ocupados para deixarmos de percepcionar a arte a um nível individual (a arte visual, o livro) e a consumimos passivamente a um nível colectivo como o é o cinema Blockbuster, mas também o é o Instagram e o YouTube, onde vamos enfiar esta coisa massiva que é a subjetividade da experiência humana? Sentir a chuva a cair na pele não é a mesma coisa que ver uma foto da chuva a cair e também não é o mesmo que ver um vídeo da chuva a cair. A chuva a cair na pele só se pode viver, não se pode exibir. Todo este bem-estar físico e bem-estar mental não passa exclusivamente por uma cultura do exibicionismo. Não encontro a autenticidade de alguém numa selfie.

Não compreendo em que altura deixamos de ser capazes de expressar a nossa mais profunda individualidade e começámos a criar, não como quem desafia, mas como quem devolve a todos a sua própria imagem. Ir ao ginásio faz bem mas não nos esqueçamos de treinar também os músculos da mente porque enquanto nos tornamos espectadores passivos de ideias, alguém está, certamente, muito ativo a criar todo o nosso pensamento por nós.

23 Abr 2021

Segundo acto – Cena 4

Os dois militares ficam em silêncio, nada mais há para dizer a propósito do assunto Os Panteras vs Os Pantufas. O Major volta a cruzar os pés em cima do tampo da secretária e reacende o seu canhão Cubano. O Capitão acende um cigarro. Os dois fumam em silêncio. Gonçalo continua a articular o seu discurso, inaudível, mexendo a boca, e só a boca, incessantemente. O Major olha-o, intrigado.

Major
[indicando Gonçalo]
E agora temos ali aquele peixe fora d’água… raios m’ partam! De onde é que ele apareceu?

Capitão
[suspira]
Está cá desde ontem… ninguém o viu entrar. Não se sabe como é que ele entrou.

Major
Mas ele… surgiu… apenas? Isto é uma base militar altamente secreta… Ou pensávamos nós que era! Está a dizer-me que aquele indivíduo, com roupas estranhas – será uma farda militar desconhecida? – passou despercebido por todos os portões e todas as portas, sem dar cavaco a ninguém e deitou-se aqui para dar à guelra?

Capitão
Meu Major, parece-me impossível que alguém possa chegar aqui sem ser identificado, pelo menos, em três pontos: o portão principal, o portão intermédio – antes de começarmos a descer aos pisos subterrâneos – e a porta azul, antes desta sala onde nos encontramos agora. E isto é num dia calmo… eu já cheguei a ser identificado sete vezes antes de aqui chegar.

Major
[interrompendo]
E muito bem!

Capitão
E muito bem, sim, meu Major!

Major
[rindo]
Ó homem, relaxe.

Capitão
[sorrindo, atrapalhado]
Sim, meu Major…

Major
O som do coro bem melado nada tinha de meloso…

Capitão
[confuso]
Perdão?

Major
[rindo]
O som do coro bem melado nada tinha de meloso.

Capitão
[a medo]
Não percebo.

Major
Pois não… Mas a culpa não é sua. [pausa] Nem minha…! O som do coro bem melado nada tinha de meloso… [pausa] Coisas minhas… Gosto de poesia, sabe. [pausa] Significa que o som do coro, o que quer que cantavam, fosse a letra ou a melodia, era doce, mas não era piegas… que era suave, mas não era insípido.

Capitão
Compreendo…

Major
[indica Gonçalo]
Bem pode ser isto o que aquele pobre peixe está para ali a borbulhar. O som do coro bem melado nada tinha de meloso…

Capitão
Já sabemos o que ele está a dizer, meu Major.

Major
[surpreendido]
Desde quando?

Capitão
[hesitante]
Desde hoje de manhã?

Major
E falava de quê?

Capitão
Balbuciava… sobre vícios. Fumar, roer as unhas… vícios de boca, dizia ele.

Major
[olha desconfiado para Gonçalo]
Vícios de boca… será algum código?

Capitão
[baralhado]
Código, meu Major…?

Major
[humilhado]
Sim, código, porra… sabe o que é um código?! A águia aterrou!? [pausa] A marreta está no ar?! Dêem-lhes música?!

Capitão
Sim, meu Major!

Major
E ENTÃO?!

Capitão
Não nos parece ser um código…

Major
[desconfiado]
E como é que souberam o que ele estava a dizer?

Capitão
Um dos oficiais tem um filho surdo-mudo e aprendeu leitura labial e língua gestual portuguesa…

Major
Língua quê!?

Capitão
Língua gestual portuguesa, meu Major.

Major
Certo… e sabe ler lábios?

Capitão
Sei, meu Ma… SABE, MEU MAJOR!

Major
Não grite!

Capitão
Perdão, meu Major!

Major
Mas, afinal, quem é que sabe ler os lábios e falar não-sei-quê Portuguesa… é você?!

Capitão
[inseguro]
Eh…

O Major levanta-se, pousa os punhos no tampo da secretária e continua a falar com o canhão Cubano entredentes.

Major
Sabe quem é que lê muito bem lábios?

Capitão
[apanicando]
Não, meu Major…

Major
[sorrindo, malicioso]
SÃO AS PUTAS E OS PANELEIROS!

O Major desata a rir alarvemente até se engasgar num pedacito de tabaco mais maroto que saiu do charuto em direcção ao seu goto. Tosse tanto que às tantas começa a ficar muito vermelho e a bater com os punhos no tampo da mesa. O Capitão aproxima-se para o auxiliar, preocupado, e dá-lhe uma pancada nas costas para o desengasgar. O Major responde com um socão no queixo do pobre coitado que veio em seu auxilio, deixando-o estendido no chão. O Major recompõe-se, bebendo água do seu cantil. Depois, despeja o resto da água na cara do Capitão. Este acorda em pânico, como se tivesse sido arrancado das portas do inferno. Levanta-se a custo e recompõe a farda.

Major
Mas o que é que ele estará a dizer agora?

Capitão
[assustado]
Ele fala… [pausa] É muito lento, demora duas a três horas para completar uma frase. É quase como se estivesse… [hesita]… como se estivesse…

Major
Desembuche!

Capitão
Como se estivesse desfasado…

Major
Desfasado?!

Capitão
Sim, meu Major?

Major
De quê?

Capitão
Dele mesmo, meu Major. [pausa] Tudo nele indica estar numa normalidade, perdoe-me a expressão. O discurso é lógico, embora irrelevante. Não há razão para acreditar que se trate de um código… os peritos assim o disseram. Não encontram um padrão reconhecível ou disfarçado, nada… Além de que não há ninguém para o ouvir, ou ler, neste caso, apenas o meu Major e eu.

Major
Certo… [pausa] Mas, afinal, quem é o oficial que sabe ler os lábios e a gestual-não sei-quê?

Capitão
[a medo]
Sou eu, meu Major.

Major
Já desconfiava! [pausa] Perdoe-me a insensibilidade de há pouco… das putas e não sei que mais… às vezes sou um porco.

22 Abr 2021

O tempo do desejo que também somos

Fora do crucial domínio da necessidade e da dupla obrigação-dever, esta última uma área de grande elasticidade e aberta à transgressão, o tempo que cada pessoa é ocupa-se de formas diversas que se entrelaçam (e que, na maior parte das vezes, se confundem como uma máscara em tudo igual a um rosto). Em primeiro lugar, através da chamada reprodução social (também conhecida por “habitus” ou “fluxos”); em segundo lugar, através de preenchimentos vários e, em terceiro lugar, através de desejos que, de modo auto-suficiente, têm o condão de se poder projectar e expandir na vida. 
 
No primeiro caso, uma pessoa inclui-se em práticas de conjunto com a ilusão de que se trata de uma decisão apenas sua (fluxos de consumo, fluxos de turismo, fluxos televisivos, fluxos da net, fluxos do corpo, fluxos de linguagens simplificadas, etc. etc.). Estas participações tornam uma pessoa operacional e com o ser aparentemente preenchido (no que poderia caracterizar-se por felicidade descentrada). 
 
O segundo caso decorre de situações em que a pessoa se debate consigo mesma (ou com uma forte disrupção de sentido do que é estar no mundo) e esse embate, por diversas razões, acaba por ser substituído por actividades que preenchem a disforia e a angústia. A pessoa passa a viver por dentro dessas actividades (que podem, ou não, coincidir com as dos fluxos), mesmo sem constatar que elas estão vez de outras, de cariz interior e adiadas sine die. 
 
O terceiro caso é o de uma pessoa que consegue, em consciência e em certas circunstâncias (trata-se de algo que é acatado, de início, como um regime provisório), demarcar-se dos estados de fluxos e também dos estados de preenchimentos. Nessa suspensão poderá então emergir a projecção autónoma de desejos que se podem virar para o outro (paixão, amor, etc.) como para um grande leque de ocupações e de tarefas específicas do mundo.
 
Perguntar o que é o desejo é quase o mesmo que perguntar o que pode uma pessoa ser. Avancemos devagar: o desejo não se coíbe ao corpo. O desejo precede e sucede o corpo, mas não o consuma. Pode saciá-lo e regressar logo ao que não o revela, pois o desejo jamais dá a perceber as figurações que o traduzem. O desejo é o móbil do gesto, mas não o gesto. O desejo passa entre as fissuras e as nódoas de todas as linguagens e só se pressente, tal como se prediz a atmosfera de um tornado. O desejo é uma segunda sombra que o corpo projecta no indefinido e, de modo nem sempre claro, em coisas e em seres particularmente definidos. Entender estes locais de definição é tentar conquistá-los. Conquistar aqui implica entrar na gravitação, por vezes hesitante, com que o desejo se dirige aos projectos e às metas em que se instalou. A hesitação é o posto de comando onde geralmente se cruzam desejos. Os espaços onde os humanos hesitam são vizinhos ou estão próximos das regiões onde o desejo incide em coisas e em seres definidos. 
 
O desejo estará sobretudo no volume da seta que perpassa os ares. Compreender a intensidade de uma vida é saber escutar o ar atravessado pelos muitos atritos do desejo que, no fundo, a elucidam.

22 Abr 2021

Um recomeço

Seria um dia como os outros neste pequeno café de bairro. Como muitos estabelecimentos semelhantes nesta cidade, é a sua decoração anónima o seu traço mais ostensivo, feita para deixar à superfície os rostos, benefícios e tarefas de quem o frequenta ou lá trabalha. As paredes estão preenchidas por avisos regulamentares ou proclamações de certezas gastronómicas encimadas pela frase “Hoje há”. O balcão é de alumínio com uma parte envidraçada, onde se encontram expostos os possíveis objectos de desejo de quem ali entre. Seria um dia como os outros, então. Mas não é.

Sentado num canto estratégico, lugar ideal para o caçador do quotidiano, observo. E o que vejo é o que faz a diferença: há movimento, sorrisos debaixo das máscaras, olhos ardentes. Há conversas sobrepostas que chegam a sufocar a vozearia do mundo que é debitada pela televisão. Olhando esta gente, olhando-me a mim, lembro de forma pouco modesta um verso que escrevi e que tive a sorte de o ouvir cantado: “Cada fim é um recomeço”. Porque é de recomeço que se estão a construir estas primeiras horas de liberdade relativa.

É um dia de regresso e Deus sabe como eu gosto de regressos. Cada cliente deste pequeno café de bairro é um Ulisses do dia a dia, cansado de uma longa viagem por mapas desconhecidos e territórios inseguros. Aportam a este lugar com histórias fantásticas para contar e preparados para outras que ainda nem começaram. Percebo. Sou um deles, quero ser um deles. O meu telefone volta à vida com planos de trabalho, convites vários para toda a espécie de reencontros. O pastel de nata que devoro tem o sabor da madalena de Proust.

E depois há outra coisa, um aroma doce e colectivo, ao mesmo tempo estranho e familiar: é o aroma da esperança. Instalado no meu discreto cantinho, reconheço essa sensação agridoce e, alimentado que fui a doses generosas de Séneca, recordo de imediato que é da esperança que nasce o medo.

Só que hoje não, hoje não. Por um dia que seja esconder as nuvens. Por um dia que seja fingir que acredito na esperança. Por um dia que seja, gritar mais alto do que o mundo me grita, do que a vida me berra. Por um dia que seja, poder ser Ulisses e, saindo para a luz, repetir baixinho e quase confiante o mantra possível: “Cada fim é um recomeço”.

21 Abr 2021

Mão Dita e por dizer

Horta Seca, Lisboa, quarta, 14 Abril

Abrimos as janelas de cada dia para nos queixarmos do tempo, assim ele nos fosse exterior. Portanto, tenho as minhas razões de queixa. Cada passo dado, cada gesto emitido, cada esforço, as ideias arrancadas pétala por pétala de uma flor por existir, tudo participa no coro de tragicomédia que traz à cena A Grande Avaliação. Sempre detestei exames, antes de perceber que passamos a vida na navalha da examinação. Talvez o momento e o movimento que atravessamos seja agravadamente mais de balanço por tanto conter de desequilíbrio.

Uma vez mais a pretexto de festival, no caso o 5L que se anuncia para Lisboa nos primeiros dias de Maio, depois da falsa partida de 2020, preparamos outros dois volumes da colecção Mão Dita. Nascida por lembrança e insistência do Luís [Carmelo], que acabou por criar a Nova Mimosa para dar resposta cabal às suas ânsias, pretendia ser versão portátil e laboratorial, ensaio súbito, recolha do volátil da voz alta, chamada para tema e trepidação. O grafismo, muito discutido com a Luísa Barreto sublinharia isso mesmo, com os dois pontos de arame e uma capa de intervenção plástica sem mancha de tipografia, sem guilhotinar as sobras que resultam da dobra dos cadernos.

Testámos logo limites com as 82 páginas do «Tratado», do Luís, que chegou a ser finalista do Prêmio Oceanos, com a erudita abordagem corsária dos grandes textos. «Nunca houve inveja do futuro/ na linguagem das aves […] Nunca houve passado/ na linguagem dos homens». O grande leitor enfrenta espelhos e fantasmas, desdobra paisagens e alinha as invenções. Fôlego assim talvez desminta as premissas, mas um laboratório pode ter correntes de ar…

Mais alinhado com as intenções, Felipe Benítez Reyes fez pequena antologia dos seus poemas que tinham partido ao encontro da sombra de Pessoa. A ela voltamos com a tradução para cabo-verdiano da Ode Marítima, pelo José Luiz Tavares – quem mais teria o atrevimento? –, ele que exilou o mar dos seus versos de ilhéu. «A, tudu kais é un sodadi di pedra!/ I óra ki naviu ta sai di kais/ I dirapenti ta odjadu ma abri un spasu/ Entri kais ku naviu/ Un angústia risenti, n ka sabe pamodi, ta toma na mi,/ Un nébua di sintimentu di tristeza». («Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!/ E quando o navio larga do cais/ E se repara de repente que se abriu um espaço/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,/ Uma névoa de sentimentos de tristeza».)

A dita colecção quis-se ainda hall de entrada. Faça favor, Liliana S. Ribeiro, com as perversas arrumações, da infância, da paixão, das varandas, dos objectos. Entre, Ana Freitas Reis, trazendo forte «Cordão» ligando a universo no qual as palavras possuem carne e portanto física, peso e alcance. Avance sem medos, João Rios, aquele que usa o sarcasmo para descascar os verdetes da História, sem deixar por isso de recolher das marés restos e sujidades do quotidiano. Foi o único a assinar dois títulos e em pleno lançamento do segundo apercebeu-se que havia datas redondas por celebrar. Apesar de faltar mesa às preparações onde nos temos encontrado permitiu com mais facilidade aquilatar da pujança do sopro. Está para mesmo depois do intervalo, esta singela celebração de mais um quarto de século a respigar. «nenhuma idade / é mais sólida/ que as ruínas da casa».

A esta listagem dos novos soma-se agora os velhos, amigo e poema, resgate também de edição perdida há décadas nos dentes da engrenagem. «As Portas de Santo Antão», do mano Luis [Manuel Gaspar], atira-nos para pedaço perdido da alma da minha cidade, bastando para tanto que nos atravessemos neste delírio de atenções, ao lugar, à palavra, às sobras, às ruínas. Seremos bailarinos, acrobatas, nadadores, trolhas, esfaimados e clientes mas sobretudo observadores. Seremos rima e cartaz e tudo e mais alguma coisa. Até Lisboa, a que nunca existiu a não ser entre nós. «Há milhões de criaturas,/ Homens, mulheres e petizes,/ Que dão saltos e pinotes/ E arrebitam os narizes// Numa algazarra medonha, / Procurando a direcção/ Que os leve sem demora/ Às Portas de Santo Antão.»

O Nuno Viegas [algures na página, uma hipótese de capa não escolhida, para não retirar surpresa e para acrescentar valor a este cantinho de licores], que põe humor nas cores, interpretou bem o caos criador. Junta-se a uma galeria que inclui as cores e interpretações de Pedro Proença, José Barrias, Pedro Pousada, Eugénia Mussa e Francisco Vidal.

Em 2018, no voluminho #01, guilhotinado por engano consuetudinário, a Inês [Fonseca Santos], senhora de várias madrugadas – que, aliás, foi assinalando durante o confinamento com leitura diária do céu que lhe assiste –, não se atreveu a vaticinar que acabaríamos todos em uma «Suite sem vista». Bom, suites para os mais bafejados, assoalhadas interiores para a maior parte. A rapariga aguarda que nem cerejeira o desabrochar violento da esperança. Anseia pela colheita, outra além da da solidão, da do tédio. Ia tocando o sangue e Deus, assim como teclas de instrumento. No corpo, como na cama, de olhos abertos. «A rapariga possuía metade da vida./ Estava demasiado velha para a fuga:// regulava a temperatura das palavras/ como quem copia com os dedos// o tom do coro da missa, em si menor.// A rapariga respirava fundo na suite sem vista, recordava:/ a vida inteira, cronométrica, a vida inteira //como quem copia com os dedos o ritmo / da pessoa errada.» A rapariga e nós com ela.

21 Abr 2021

Da desinquietação. Pág. 2

Levanto-me sempre com uma certa sensação de estranheza numa alvorada que raramente me vê. Mas que sempre se apresenta apaziguadora, quase como um parente compreensivo a quem inesperadamente se pode fazer uma visita sem aviso porque a recebe como a quem é sempre bem-vindo e da casa. E estranhamente grata por iniciar o dia mais cedo. A lisura da madrugada ainda silenciosa, quase a saber a eternidade como a da noite alta sem freio nem sono. Sobretudo se o dia vem luminoso e primaveril, parece prometer todas as possibilidades e instalar por dentro uma espécie de harmonia com as condições atmosféricas e o estado do tempo. Por contraste insinua-se na memória como fotograma perdido ou fora do lugar, uma manhã escura e chorosa qualquer, da infância. Os passos encharcados de uma chuva fria no interior das botas já gastas, e um desconforto que iria persistir por horas, no comboio, na escola, no intervalo e à volta. Como de uma pequena Winnie, sem alguém que diga um bom dia ventoso. Todos os dias arrancada à cama como se para nascer de novo e sem querer. Ainda me acontece muitas vezes. Mesmo porque a escola nunca me deixou.

Páginas aleatórias do caderno. Não porque o dia de hoje é o de hoje.

Tão diferentes do que se é. Abrindo uma página solta no tempo, num lugar qualquer da vida ou do planisfério, todo o arquivo da memória se dispõe a preencher um gesto mesmo se súbito. Mesmo se retirado de um impulso imprevisto e mesmo se, até, desconhecido do corpo que lhe deu forma e movimento. É nisso que cada momento de vida faz diferir um ser de uma página aleatória de um livro. Sem espaço virtual ou físico suficiente para que nela se registe toda a ausência e tudo o que é alheio ao momento que começa num ponto exacto do texto e termina deixando se necessário uma frase em suspenso para se desenvolver até ao seu fim na página seguinte. Muito numa página se tem implícito e remete para anteriores factos ou dúvidas. Mas nada se compara ao preenchimento permanente de uma memória que tudo reelabora e filtra e pesa em cada relance de olhar, em cada decisão ínfima que tomamos ou estamos prestes a tomar, em cada indecisão. Por isso somos contentores carregados e de uma forma de que dificilmente nos libertamos. De uma consistência que pode fazer-nos esquecer onde guardamos um objecto, mas nos leva em qualquer momento a encontrá-lo, porque sabemos onde o guardaríamos se fosse a primeira vez. Há uma estrutura de arrumação que nos faz gostar do que gostamos ou duvidar do que duvidamos. Conviver com um número determinado de paradoxos. Transportar como nossos, sempre os mesmos abismos.

No entanto, como uma roseira madura e enraizada, nem sempre damos o mesmo número de botões, ameaçamos amarelecer precocemente, por vezes, renascemos em folhas tenras inesperadamente e pode mesmo acontecer a secura definitiva. Sabe-se lá porque determinação genética ou exaustão climática. Ou ainda, depois desta, a surpresa de um rebento nascido a renovar o que parecia acabado, como em certas árvores abatidas.

Determinações ambientais surgem como ventanias agrestes a que nem sempre se resiste da mesma maneira. Nesses dias, como barcos. A que se deveria estar atento à orientação das velas para rumar persistentemente, mesmo à bolina, essa forma de aproveitar ventos contrários. E a relação entre forças, dita a capacidade de superação. A qualidade da pintura do casco, a frescura ou desgaste do pano, a conservação dos instrumentos ou a corrosão de ferragens com manchas de ferrugens estéticas mas imparáveis e destrutivas. A decisão certa a cada revés, a atenção que não descura um sinal. Um olhar atento aos pássaros ao colorido opaco e súbito das águas. No mar, as cores dizem tudo. O navegante olha ao longe. E em cada dia sabe que não há descanso. Mas nem todos os dias o encontram com a mesma força, a mesma coragem o mesmo olhar, ou mesmo, por estranho que pareça, com o mesmo saber. Há sempre uma margem de desconhecido em si e de si próprio.

Ocorre-me pensar que, por mais que se seja caracterizado por um clima temperado marítimo ou intensamente tropical, somos países de imprevisíveis momentos que até a nós nos espantam.
Abril ao olhar, já quase Abril. Mas qual, nesta incerteza?

20 Abr 2021

A personagem (continuação)

Começámos na semana passada a ver o livro de Victor Tafner, «A Máquina de Criar Horizontes», em que nos mostra uma personagem, Abib Justus, que é o próprio livro. Personagem que identifica a existência humana com o homem de negócios, e o próprio sentido da vida com a frase «O lucro é a realidade.»

Ao ter conhecimento de uma invenção de um amigo, o «descelular», conseguiu fazer com a mesma fosse aprovada em todo o estado do Paraná. Nesse estado, passou a ser obrigatório o uso do «descelular» em todos os veículos, e que a instalação dos mesmos – a não ser os veículos novos – fosse feita na sua rede de oficinas, espalhadas pelo estado. Mas isso não chegava para criar uma nova economia, que era o sonho de Abib Justus, levando-o então a convencer o amigo a criar um dipositivo que bloqueava o «descelular», sem que fosse perceptível pela polícia de trânsito. Assim, as mesmas oficinas que instalavam o «descelular», instalavam depois o seu antídoto, à revelia da lei, de modo a que as pessoas continuassem a conduzir os seus veículos e a falar ao celular. Mas foi a invenção e implementação da sua obrigatoriedade que deu visibilidade pública a Abib Justus, fazendo que aparecesse em todos os meios de comunicação social. E é precisamente em um dos programas televisivos mais vistos em todo o Brasil, e não apenas no estado do Paraná, que o nosso herói prepara o novo movimento: o de implementar a obrigatoriedade do «descelular» em todo o Brasil.

Leia-se essa passagem do livro: «Abib Justus responde assim a uma pergunta do apresentador acerca de uma possível interpretação ditatorial desta lei: // – Não podemos ser hipócritas! Ou bem que queremos que não se use o celular quando dirigimos, ou bem que não queremos mas fingimos querer, que é o que a lei nacional propõe, pois todos aqui sabem que ninguém cumpre a lei. Com o «descelular» torna-se impossível desrespeitar a lei… Olhe, vou dar-lhe mais um exemplo que deveríamos adotar: hoje a lei não permite que se ultrapasse uma velocidade máxima de 120 km/h, certo? Então porque permite que sejam vendidos carros que atingem 200 e 300 km/h? Deveríamos exigir que todos os carros não ultrapassassem os 120 km/h! Ou então jogue-se a lei no lixo. Carros com mais cilindrada deveriam ser vendidos para uso exclusivo em pistas de corrida, mais nada. // Como grande retórico que era, Abib Justus sabia que toda e qualquer polémica traria dividendos ao seu império, como ele próprio gostava de chamar em privado a este grupo financeiro. A questão de os carros serem vendidos como motores que não permitissem uma velocidade superior a 120 km/h fez furor por todo o Brasil. É impressionante ver como facilmente as pessoas se dividem acerca de coisas que desconhecem e das quais nunca sequer ouviram falar. Um pouco por todos os jornais e redes sociais a discussão rebentou. Dos carros com controlo de cilindrada até à proibição de venda de refrigerantes, que se sabe serem prejudiciais à saúde, ou de alimentos chamados de junk food, foi um salto. A esquerda, a direita, os ecologistas, os vegetarianos e os defensores dos direitos dos animais enchiam páginas e páginas online exigindo que o governo federal tomasse a posição do estado do Paraná, com a diferença de radicalizar a posição de controlo sobre o que nos faz bem, e cada qual com sua razão e interpretação, como é comum por aqui em matéria de política. Não demorou mais de um mês para haver manifestações em Brasília pressionando o governo a proibir a venda de refrigerantes, de bebidas alcoólicas, de “junk food” e até de carne animal. Havia já quem exigisse que Abib Justus tinha o dever de se candidatar à presidência do Brasil, em nome dos brasileiros que estão fartos de hipocrisia. É sabido que os tempos de crise são pródigos em forjar heróis e posturas radicais.»

Esta extensa passagem do livro parece-me necessária para mostrar claramente a dimensão da personagem Abib Justus e como ela acaba por ser a encarnação da própria retórica e corrupção do Brasil. Mas Abib não tinha ambições políticas. Tinha, isso sim, ambições de controlar a política do Brasil. E o passo estava dado. Como continua o narrador, Abib sabia que perante a pressão do povo, o governo iria ceder na obrigatoriedade nacional do uso do «descelular» em todos os veículos. Pois, como se pode ler à página 134: «Era impensável exigir que as fábricas de carros colocassem no mercado brasileiro veículos com limite de velocidade! Mas exigir que esses mesmos carros viessem todos instalados com descelular era bem mais fácil de concretizar. Este era pelo menos o raciocínio de Abib Justus, que não estava longe da verdade. Veja-se o que ele mesmo pensava, nesta fala que tem com o amigo: as pessoas estão aí, diante de nós esperando apenas para serem usadas! Elas são como cachorros, precisam de um chefe de matilha, que se imponha a eles e os conduza. O povo precisa de mão forte! Mas a mão forte, hoje, não é a mão que segura a arma contra o povo, é a mão que segura a ingenuidade e ignorância do povo, despejando nas TV e jornais uma ilusão de bem-estar, possível a todos, bastando para isso vontade e honestidade.

Esta é a arma! E é aqui que os políticos falham, mas eu não. Porque o povo desconfia de quem os quer governar, mesmo votando neles. Aquilo que estou fazendo não vai a votos, é conquistado na raça, no cabresto. Impomos a lei que nos convém, mostrando que, mais do que para nós, é para o bem do povo.»

Leia-se, quase cinquenta páginas adiante: «Em São Paulo criou-se a Associação “Descelularizar As Estradas”, que em menos de um ano tinha já uma representação significativa de apoiantes. E o grande orador na reunião em que comemoraram o primeiro ano de existência foi Abib Justus. Recebido em apoteose. E começou o seu discurso com: // – O mundo pertence-nos! O mundo é dos cidadãos e não de quem eles elegem. […] Primeiro descelularizamos o Brasil, depois desmotorizamos o país e por fim descorrupcionamos o território todo delimitado pelas fronteiras!»

Esta personagem, Abib Justus, criada em 2012, acaba por ser uma antecipação do Brasil actual. Não encarna o presidente em exercício, Abib Justus representa aquele ou aqueles que controlam o chefe de estado e a maioria dos políticos em Brasília. Leia-se mais uma passagem do que Abib Justus pensa: «Ganhar dinheiro é beleza pura. Mas inventar um mundo para tirar dinheiro do mundo existente é místico, aproxima-nos de Deus como mais nenhuma experiência humana. Estou a alargar o espírito.»

Abib Justus é a personagem mais perversa e, simultaneamente, a mais banal da literatura brasileira, porque encarna a triste história do seu país.

20 Abr 2021