Terceiro acto – Cena 2

Gonçalo continua absorto na sua nuvem de fumo, há qualquer coisa de mágico na forma como o fumo se espalha pela divisão, iluminado pelo luar que vem da janela. Os pássaros nocturnos vão picando o ponto na noite silenciosa que se adivinha lá fora. Ouve-se uma descarga do autoclismo, depois água a correr do lavatório. A porta do fundo abre-se, Valério entra, volta a fechá-la atrás de si e aproxima-se da mesa. Abre o frasco de tremoços e trá-lo consigo de volta ao seu lugar.

Gonçalo
Lavaste as mãos, fofa?

Valério
Claro, meu amor.

Gonçalo levanta-se e vai buscar duas tigelas a um dos armários por cima do balcão lava-loiça. Depois pega num dos pacotes de batata frita e regressa ao seu lugar. Abre o pacote e deita algumas para uma das tigelas. Valério já mastigou alguns tremoços e usa a outra tigela para as cascas.

Gonçalo
Foram jantar e…?

Valério
E… [longa pausa] Não sei exactamente quando é que foi, mas sei que foi cedo… que me esqueci de que estava a falar com uma mulher com metade da minha idade…

Gonçalo
[interrompendo]
Uma mulher. Muito bem!

Valério
[confuso]
O quê?

Gonçalo
Por isso é que te esqueceste da idade dela… olhas para ela como uma mulher.

Valério
Hmmm… pois. [pausa] Estava completamente babado a ouvi-la… no meu babete interior [ri-se]. Ela é inteligente… tem a voz aveludada… e cheira tão bem, valha-me Deus. [pausa] Mas depois lembrei-me de como fomos ali parar… e lembrei-me da idade dela… e comecei a gaguejar. [pausa] Acho que ela notou… e até achou piada. Entrámos no carro… ela queria ir dançar. Mais um lembrete: já não danço. É da idade. Ela pediu-me para tentarmos noutro dia… beijou-me. [pausa] Foi sair com umas amigas, deixei-a à porta de um bar… depois fui para casa.

Gonçalo
E porque é que estás com o ar mais deprimido do mundo?

Valério
É uma boa pergunta…
Gonçalo
Pois é.

Os dois ficam novamente em silêncio. Gonçalo acende dois cigarros ao mesmo tempo e dá um ao amigo. Agora contemplam a nuvem de fumo e os estranhos padrões mutáveis que ela vai formando. Valério volta a olhar para o texto de Gonçalo. Hesita antes de falar.

Valério
[indicando o texto]
Talvez o sentido mais alargado de que falava, essa coisa mais impenetrável e absoluta, já lá esteja… [pausa] Eu sou demasiado analítico… por isso é que me pedes para ler os teus textos. [pausa] Está lá alguma coisa… isso é certo. E pelo simples facto de não falares dela, torna-se quase palpável… Há uma força qualquer… não sei apontá-la, confesso. Mas pressentimo-la a cada frase. E não estou a falar deste texto em particular… falo da tua escrita em geral. [pausa] Às vezes parece totalmente superficial… irónica, muitas vezes sarcástica… mas… lá está… do nada pregas-nos uma rasteira e passamos a ver tudo com outros olhos… é interessante… muitas vezes essas rasteiras vêm tarde no texto, mas mesmo assim, quando acontece, revemos tudo num ápice, desde o início, com outros olhos… até ao ponto da rasteira… e percebemos que o que quer que nos tenha feito tropeçar já lá estava desde início… e era tão óbvio… mas estava muito bem disfarçado.

Valério volta a reler algumas passagens. Gonçalo termina o seu cigarro e acende outro com a beata do quase defunto. Depois serve-se de mais vinho.

Valério
O truque é… [interrompe-se] Não há truque, eu sei… da tua parte. Para quem lê, sim, pode passar por truque… mas isso não é mau… [indica o fumo dos cigarros] É como estas nuvens de fumo… há algo de fortuito nas formas… imperfeições, às vezes parecem inacabadas, outras parecem ter sido excessivamente elaboradas… mas aconteceram assim, formaram-se assim… e é precisamente nesta aleatoriedade que reside a beleza destas nuvens de fumo, não é?

Gonçalo
É… acho que sim.

Os dois ficam durante algum tempo a admirar as nuvens de fumo que se espalham novamente pelo tecto. O luar está ainda mais intenso.

Valério
Vais continuar?

Gonçalo
O Joãozinho Neo-Nazi?

Valério
Isso era um título com tomates!

Gonçalo
Também acho… [pausa] Vais vê-la outra vez?

Valério
Pois que não sei…

Gonçalo
Acho que devias…

Valério
Eu acho que não. [pausa] Ela vai querer dançar… eu vou querer ficar-me pelo jantar… Isso aguenta-se durante uns meses… e depois? Eu quero ler… quando muito ir ao cinema… e chega. E depois? [pausa] Às tantas ela farta-se, começa a dar-se conta dos anos que nos separam… gosta muito de estar comigo, mas… e eu não digo nada, deixo andar… e ficamos assim, durante algum tempo, até os ventos da paixão amainarem… [os dois desatam à gargalhada]. Que azeiteiro…!

Gonçalo
Até Os Ventos da Paixão Amainarem… o novo romance de Valério R…

Valério
Prefiro ir dançar!

Gonçalo
E achas que ela é como tu…? [ri-se] Que vai deixar andar até os ventos da paixão amainarem…?

Valério
É bem visto… Não sei. [pausa] Mas sei que não vou esperar que chegue até aí. E já percebi que ela quer dançar e sair… e vai querer que eu conheça os amigos e as amigas… Deus me livre e guarde!

Gonçalo
Se calhar ela sabe como és e não vai insistir.

Valério
Vai, vai… não tenho a mínima dúvida.

13 Mai 2021

Terceiro Acto – Cena 1

Gonçalo escreve à máquina, sentado na mesinha em frente à janela. Tem uma garrafa de vinho aberta e o candeeiro a petróleo aceso. A janela aberta por onde entra o luar e uma brisa nocturna. Gonçalo escreve com intensidade, a percussão das teclas é impiedosa. Batem à porta e Gonçalo assusta-se, como se acordasse de um pesadelo. Abre a porta a medo. É Valério, sorridente. Traz um saco de compras cheio e uma garrafa de vinho na mão. Ele avança para a mesinha, pousa a garrafa de vinho e tira mais quatro garrafas iguais do saco, para além de três pacotes de frutos secos, dois de batatas fritas e um grande frasco de tremoços. Valério repara no montinho de folhas dactilografadas, ao lado da máquina, e passa-lhes o polegar, avaliando a quantidade de texto produzida. Olha para Gonçalo e aquiesce com um trejeito de boca. Aponta para o montinho, como se perguntasse: “posso?” e Gonçalo aquiesce, também com um trejeitozito, como se respondesse “por quem sois!” Valério fecha a janela, pega no montinho e trá-lo até à sua cadeira de madeira onde se senta a ler. Gonçalo vai até à lareira, pega em duas pinhas e pousa-as lá dentro. Depois cobre-as com bastante caruma e acende-as. O lume leva o seu tempo a aparecer. Depois põe dois toros por cima do lume, não deixando que este se apague. Quando lhe parece que tudo corre pelo melhor, volta à mesa para abrir uma das garrafas de vinho. Pega no saca-rolhas…

Valério
[sem olhar para Gonçalo]
Abre já duas.

Gonçalo ri-se discretamente e faz o que o amigo lhe recomendou. Serve dois copos e trá-los para as cadeiras. Dá um dos copos a Valério e pousa a garrafa no chão. Olha para Valério.

Valério
[sem olhar para Gonçalo]
Não me pressiones. [agora fita Gonçalo] Se vais ficar a olhar para mim, paro já!

Gonçalo
Sim, senhor!

Gonçalo levanta-se a vai espreitar a lareira. Os toros ardem bem, nada a apontar. Gonçalo finge que mexe neles com a tenaz, aproveitando para olhar para Valério e adivinhar as reacções do amigo à leitura.

Valério
Pára!

Gonçalo volta aos seus toros ardentes, sem conseguir disfarçar uma gargalhada.

Valério
Ri-te, ri-te…!

Gonçalo vem sentar-se à mesa, olhando pela janela enquanto termina o vinho que tem no copo. Serve-se outra vez e tira a folha que está na máquina e põe-se a ler o que está escrito. Pega num pequeno lápis e vai tirando algumas notas. Quando acaba, vai até à porta do fundo, abre-a e sai de cena, fechando a porta atrás de si.
O tempo passa. Valério termina de ler e pousa as folhas na cadeira de Gonçalo. Serve-se de mais vinho da garrafa que está no chão e olha pensativo pela janela.
Gonçalo volta a entrar e vem sentar-se ao lado do amigo. Os dois ficam em silêncio durante bastante tempo.

Valério
[olhando a janela]
O Joãozinho Neo-Nazi…

Gonçalo
Hmm… [pausa] E…?

Valério
[medindo as palavras]
Estás no bom caminho… às vezes.

Gonçalo
[franzindo o sobrolho]
Às vezes…?

Valério
Calma… deixa-me pensar! [pausa] É interessante… mas fica sempre a sensação de que não acreditas no que estás a escrever e, às tantas, sabe-se lá porquê, boicotas-te… e boicotas a história. [pausa] Mas depois voltas a agarrar-nos… e isso até pode ser interessante… assim como está, digo eu… de boicote, recuperação… novo boicote, nova recuperação… é intrigante, não haja dúvida. As personagens são sólidas, apesar da pouca informação que nos dás delas… e isso é bom. Há mistério… há sensação de local… de sítio… embora estejam numa sala estéril… e isso também é bom. Mas quando estás a chegar às profundezas… a um significado mais alargado… a qualquer coisa mais impenetrável, mas mais absoluta, parece que tens medo… do escuro ou da falta de ar, não faço ideia… e voltas à superfície para nos pregares outra rasteira.

Gonçalo
O que é que queres dizer com…

Valério
[interrompendo]
Não sei! [pausa] Deixa-me pensar mais um bocadinho…

Gonçalo
Não se safa com uma segunda leitura?

Valério
[estranhando a pergunta]
Não se trata de safar. [pausa] É bom que na segunda leitura se mantenham as dúvidas e o mistério…

Valério saca do seu maço e oferece um cigarro a Gonçalo. Tira um para si e acende o isqueiro. Os dois ficam mais algum tempo em silêncio, saboreando os seus pregos fumantes.

Valério
[comprometido]
Fui sair com a minha aluna…
Gonçalo
[travesso]
É preciso chamar a polícia?

Valério
[sorrindo]
Para já, não.

Gonçalo
E como é que isso aconteceu?

Valério
[leva o seu tempo]
Foi…estranho.

Gonçalo
Estranho?

Valério
Sim… [pausa] Foi ela que me abordou… perguntou-me se eu a queria levar a jantar.

Gonçalo
Na faculdade?

Valério
Sim… à saída de uma aula.

Gonçalo
[sorrindo]
E tu, borraste-te todo nas calças…

Valério
Não… foi bastante natural, por acaso.

Gonçalo
Natural?

Valério
[rindo]
Sim, natural é uma palavra horrível… mas não me ocorre nenhuma melhor.

Gonçalo
Eu percebi… [pausa] E foram jantar?

Valério
Fomos, pois.

Valério levanta-se e vai até à porta do fundo, saindo de cena. Gonçalo fica sozinho, contemplando a nuvem de fumo que se espalha pelo tecto da sua cabana nas montanhas.

6 Mai 2021

Segundo acto – Cena 5

O Capitão aquiesce, enternecido. O Major já recuperou totalmente do engasgo de há pouco e volta a reacender o seu Cubano. Os dois ficam em silêncio durante algum tempo, olhando para Gonçalo que continua a balbuciar sem se fazer ouvir. Estão os três sozinhos nesta sala subterrânea de alta segurança.

Major
[indicando Gonçalo]
O que é que vamos fazer com aquele peixe-bolha?

Capitão
[hesitante]
Pois… estava à espera das ordens do meu Major?

Major
[surpreendido]
Qual Major?!

Capitão
Do senhor!

Major
Qual senhor?!

O Major desata a rir às gargalhadas, mas desta vez não se engasga. E ainda consegue baforar pelo meio. O Capitão está mais perdido que uma carta sem remetente numa saca de carteiro dos CTT.

Major
Ou o Capitão endurece a espinha, ou toda a gente o vai pisar como se fosse relva num parque municipal.

Capitão
[esforçando-se]
Sou da opinião de que o devemos deixar ali ficar. Ele há-de ter um plano. Se for inimigo, há-de ter ordens. Se foi um erro de cálculo, ele dará pelo erro e saberá melhor do que nós o que fazer. Se tem uma missão específica e não nos quer mal, não tardará a partilhar connosco o seu propósito.

Major
E nós, nada?

Capitão
[inseguro]
Não percebo…

Major
E nós, não fazemos nada?

Capitão
Propus que esperássemos, meu Major.

Major
[desagradado]
Eu percebi… acha que sou estúpido?

Capitão
[medroso]
Claro que não, meu Major!

Major
[irado]
E esperar é o quê, meu merdas?!

Capitão
Eh… neste caso é aguardar activamente…

Major
[explodindo]
Aguardar activamente é para os panilas e as putas!

Uma pequena poça de urina começa a formar-se ao lado da bota esquerda do Capitão. Ele sua por todos os poros e faz um grande esforço para não olhar para ela. O Major repara e resolve fingir que não se deu conta da fraqueza do seu subordinado.

Major
[acalmando]
Aguardar activamente…? Puta que o pariu mais as suas curiosidades semânticas!

Capitão
[aniquilado]
Perdão, meu Major.

Major
[apaziguador]
Acalme-se, vá… [pausa] É desesperante, sabe… de cada vez que temos oportunidade para ombrearmos com as maiores potências mundiais… acontece o mesmo. [pausa] Aguardamos… aguardar é um acto passivo, Capitão. Deveríamos esquartejar o corpo dessa gelatina humana que está para ali a borbulhar um discurso inaudível e aguardar que viessem reclamar o corpo ou a vingança… e deveríamos estar armados até aos dentes. E quando aqui chegassem, nem lhes daríamos tempo para dizer um boa tarde… descarregávamos o arsenal todo em cima deles, fossem homens, ratos ou bonequinhos verdes com antenas. Porque é assim que um povo orgulhoso e com eles no sítio faria… é assim que D. João II quereria que o fizéssemos. E também é assim que o nosso presidente do conselho de ministros quereria que o fizéssemos. Mas estamos condenados a esperar… e a aguardar activamente… que nem cadelas no cio.

Capitão
Quais são as suas ordens, meu Major?

Major
Ordens?

Capitão
Sim, meu Major?

Major
Em relação a…?

Capitão
Ao homem ali deitado.

Major
Pois…

Capitão
Então, parece-me que o melhor é mesmo aguardarmos activamente, meu Major.

Major
[corando de vergonha]
Como disse!?

Capitão
O meu Major ladra, ladra, ladra… diz que faz e acontece… faz-me lembrar um rafeiro que os meus avós tinham em Figueira de Castelo Rodrigo… quando estava preso ladrava até ficar rouco e saltava e esperneava… quando o soltavam, encolhia-se a um canto…

Major
[irado]
COMO TE ATREVES, LEGUME!?

Capitão
Eu mijei-me pelas pernas abaixo… sabemo-lo. Mas se o meu Major dissesse mata, eu matava. Se dissesse beija, eu beijava… mas o meu Major só fala do que nunca acontece e vive lá nas suas fantasias do quinto império bélico-lusitano… e tudo o que imagina mete picha, já reparou, meu Major? Ele é bazucas e espingardas e balas grandes e gordas… tudo picha. Como essa que tem na boca, agora… mas tomar uma decisão é que nada…

Major
[humilhado]
Meu cabrão, Hades apodrecer numa cela!

Capitão
Hades!? Como é que chegaste a Major, minha borboleta de cativeiro.

O Major engasga-se outra vez e é dominado por um violento ataque de tosse que o obriga a sentar-se na sua cadeira. Pousa as mãos abertas no tampo da secretária e espera que o ataque de tosse passe, mas não tira o charuto da boca. Este continua a fumegar entredentes. O Capitão tira uma faca de mato que tinha escondida nas costas.

Capitão
[possuído]
Die Welt braucht keine Feiglinge!

O Capitão avança para o Major, empunhado o facalhão. Espeta-o com toda a força nas costas da mão direita do Major. Este grita, sem deixar de morder o charuto, e com a mão esquerda abre uma gaveta e tira de lá um revólver. O Capitão agarra na mão esquerda do Major e torce-a até a arma estar apontada a ele. O Major, aplicando toda a sua força, solta a mão direita e levanta-a à altura da cara do Capitão, ainda com a faca espetada nas costas da mão e com a lâmina a sair pela palma ensanguentada, e espeta-a no olho esquerdo do Capitão. Este ainda tem tempo de disparar a arma e os miolos do Major explodem e pingam um pouco por todos os lados. O Capitão cai com as ventas no tampo da mesa, inanimado.

29 Abr 2021

Segundo acto – Cena 4

Os dois militares ficam em silêncio, nada mais há para dizer a propósito do assunto Os Panteras vs Os Pantufas. O Major volta a cruzar os pés em cima do tampo da secretária e reacende o seu canhão Cubano. O Capitão acende um cigarro. Os dois fumam em silêncio. Gonçalo continua a articular o seu discurso, inaudível, mexendo a boca, e só a boca, incessantemente. O Major olha-o, intrigado.

Major
[indicando Gonçalo]
E agora temos ali aquele peixe fora d’água… raios m’ partam! De onde é que ele apareceu?

Capitão
[suspira]
Está cá desde ontem… ninguém o viu entrar. Não se sabe como é que ele entrou.

Major
Mas ele… surgiu… apenas? Isto é uma base militar altamente secreta… Ou pensávamos nós que era! Está a dizer-me que aquele indivíduo, com roupas estranhas – será uma farda militar desconhecida? – passou despercebido por todos os portões e todas as portas, sem dar cavaco a ninguém e deitou-se aqui para dar à guelra?

Capitão
Meu Major, parece-me impossível que alguém possa chegar aqui sem ser identificado, pelo menos, em três pontos: o portão principal, o portão intermédio – antes de começarmos a descer aos pisos subterrâneos – e a porta azul, antes desta sala onde nos encontramos agora. E isto é num dia calmo… eu já cheguei a ser identificado sete vezes antes de aqui chegar.

Major
[interrompendo]
E muito bem!

Capitão
E muito bem, sim, meu Major!

Major
[rindo]
Ó homem, relaxe.

Capitão
[sorrindo, atrapalhado]
Sim, meu Major…

Major
O som do coro bem melado nada tinha de meloso…

Capitão
[confuso]
Perdão?

Major
[rindo]
O som do coro bem melado nada tinha de meloso.

Capitão
[a medo]
Não percebo.

Major
Pois não… Mas a culpa não é sua. [pausa] Nem minha…! O som do coro bem melado nada tinha de meloso… [pausa] Coisas minhas… Gosto de poesia, sabe. [pausa] Significa que o som do coro, o que quer que cantavam, fosse a letra ou a melodia, era doce, mas não era piegas… que era suave, mas não era insípido.

Capitão
Compreendo…

Major
[indica Gonçalo]
Bem pode ser isto o que aquele pobre peixe está para ali a borbulhar. O som do coro bem melado nada tinha de meloso…

Capitão
Já sabemos o que ele está a dizer, meu Major.

Major
[surpreendido]
Desde quando?

Capitão
[hesitante]
Desde hoje de manhã?

Major
E falava de quê?

Capitão
Balbuciava… sobre vícios. Fumar, roer as unhas… vícios de boca, dizia ele.

Major
[olha desconfiado para Gonçalo]
Vícios de boca… será algum código?

Capitão
[baralhado]
Código, meu Major…?

Major
[humilhado]
Sim, código, porra… sabe o que é um código?! A águia aterrou!? [pausa] A marreta está no ar?! Dêem-lhes música?!

Capitão
Sim, meu Major!

Major
E ENTÃO?!

Capitão
Não nos parece ser um código…

Major
[desconfiado]
E como é que souberam o que ele estava a dizer?

Capitão
Um dos oficiais tem um filho surdo-mudo e aprendeu leitura labial e língua gestual portuguesa…

Major
Língua quê!?

Capitão
Língua gestual portuguesa, meu Major.

Major
Certo… e sabe ler lábios?

Capitão
Sei, meu Ma… SABE, MEU MAJOR!

Major
Não grite!

Capitão
Perdão, meu Major!

Major
Mas, afinal, quem é que sabe ler os lábios e falar não-sei-quê Portuguesa… é você?!

Capitão
[inseguro]
Eh…

O Major levanta-se, pousa os punhos no tampo da secretária e continua a falar com o canhão Cubano entredentes.

Major
Sabe quem é que lê muito bem lábios?

Capitão
[apanicando]
Não, meu Major…

Major
[sorrindo, malicioso]
SÃO AS PUTAS E OS PANELEIROS!

O Major desata a rir alarvemente até se engasgar num pedacito de tabaco mais maroto que saiu do charuto em direcção ao seu goto. Tosse tanto que às tantas começa a ficar muito vermelho e a bater com os punhos no tampo da mesa. O Capitão aproxima-se para o auxiliar, preocupado, e dá-lhe uma pancada nas costas para o desengasgar. O Major responde com um socão no queixo do pobre coitado que veio em seu auxilio, deixando-o estendido no chão. O Major recompõe-se, bebendo água do seu cantil. Depois, despeja o resto da água na cara do Capitão. Este acorda em pânico, como se tivesse sido arrancado das portas do inferno. Levanta-se a custo e recompõe a farda.

Major
Mas o que é que ele estará a dizer agora?

Capitão
[assustado]
Ele fala… [pausa] É muito lento, demora duas a três horas para completar uma frase. É quase como se estivesse… [hesita]… como se estivesse…

Major
Desembuche!

Capitão
Como se estivesse desfasado…

Major
Desfasado?!

Capitão
Sim, meu Major?

Major
De quê?

Capitão
Dele mesmo, meu Major. [pausa] Tudo nele indica estar numa normalidade, perdoe-me a expressão. O discurso é lógico, embora irrelevante. Não há razão para acreditar que se trate de um código… os peritos assim o disseram. Não encontram um padrão reconhecível ou disfarçado, nada… Além de que não há ninguém para o ouvir, ou ler, neste caso, apenas o meu Major e eu.

Major
Certo… [pausa] Mas, afinal, quem é o oficial que sabe ler os lábios e a gestual-não sei-quê?

Capitão
[a medo]
Sou eu, meu Major.

Major
Já desconfiava! [pausa] Perdoe-me a insensibilidade de há pouco… das putas e não sei que mais… às vezes sou um porco.

22 Abr 2021

Segundo acto – Cena 3

Os militares terminam de desmantelar o esqueleto de metal que sustentava as paredes de plástico da estufa. O Capitão aguarda uma resposta, olhando ora para as colunas de som, ora para o microfone que tem na mão. O Major, sentado à secretária, com as pernas cruzadas em cima do tampo da mesa, dá uma grande passa no seu charuto-bazuca e lança uma nuvem de dúvida em direcção ao seu subordinado que não sabe muito bem se deve continuar a insistir na comunicação. Gonçalo continua deitado no chão sem se conseguir mexer.

Major
Die Pantoffeln?

Capitão
[pausa]
Sim…

O Major lança outra nuvem de fumo, empestando o ar com o cheiro a charuto. O Capitão sua por todos os poros.

Major
Sabe o que quer dizer?

Capitão
[amedrontado]
O quê..?

Major
Die Pantoffeln…

Capitão
[hesita]
Eh… Os pantufas…?

Major
Os?!

Capitão
As!

Major
[exalando mais fumo]
Será?

Capitão
[desistindo]
Pois…

Major
Pois… [pausa] No nosso continente travam-se batalhas atrás de batalhas… quiçá na guerra mais importante da humanidade… nem que seja pelo facto de ser a guerra que se trava agora… e as guerras de hoje são sempre mais importantes que as de ontem. [pausa] Concorda?

Capitão
[confuso]
Com que parte?

O Major olha-o, admirado, como se reparasse nele pela primeira vez. Levanta-se e desata a rir às gargalhadas, pousando os punhos no tampo da secretária. Ele é realmente um fumador muito experiente. Com a sua bazuca Cubana metida entredentes, exala o fumo da ao sabor da percussão do seu diafragma – AH AH AH AH AH AH AH – e não se engasga uma única vez.

Major
Como é que um merdoso como você chegou a Capitão?

Capitão
[envergonhado]
Eh… [pausa] O meu pai era militar… e o pai dele, também.

Major
O pai dele era seu avô?

Capitão
[confuso]
Sim…?

Major
[tirando o charuto da boca]
Ainda perguntas!? Olha que caralho… [pausa] Verticaliza-te, sua minhoca! Era avô ou não era avô?

Capitão
Era, meu Major.

Major
[duro]
O pai era militar… o avô era militar… [pausa] Continua…! Se te crescerem tomates, pode ser que te volte a tratar por você!

Capitão
[à beira das lágrimas]
O a… a… avô era mi… militar…

Major
Essa parte já tinha percebido, florzinha!

Capitão
[gaguejando]
E… e… e… eu… se… se… se-se-segui a ca-ca-ca-carreira…

Major
E lá na Maçonaria não te ensinaram a pa-pa-pa-partir pe-pe-pe-pe-pe-pedra? Ou foi tudo com favores?! [desata a rir às gargalhadas] Valha-me Deus… [pausa] Quiçá a guerra mais importante da humanidade, nem que seja pelo facto de ser a guerra que se trava agora, e as guerras de hoje são sempre mais importantes que as de ontem. [levanta a voz] Concorda ou não?!

Capitão
Concordo, meu Major!

Major
COM QUE PARTE?

Capitão
É A GUERRA MAIS IMPORTANTE DA HUMANIDADE! E AS GUERRAS DE HOJE SÃO SEMPRE MAIS IMPORTANTES QUE AS DE ONTEM!

Major
E ISSO NÃO É A MESMA COISA?!

Capitão
DEPENDE DA SUA DISPOSIÇÃO, MEU MAJOR! SE O QUE LHE APETECE É HUMILHAR-ME, O MEU MAJOR IRÁ SEMPRE CONTRADIZER-ME!

Major
[voltando a pôr o charuto entredentes]
EXPLIQUE-SE!

Capitão
SE EU DISSESSE QUE É A MESMA COISA, QUE DE ALGUMA MANEIRA ATÉ É, O MEU MAJOR, COM ESSA PIROCA DE TABACO NA BOCA, IRIA DIZER QUE NÃO ERA A MESMA COISA!

Major
PIROCA NA BOCA!?

Capitão
SIM, MEU MAJOR!

Major
AH, VALENTE! VAMOS LÁ PARAR DE GRITAR, QUE EU JÁ ESTOU A FICAR CANSADO DA VOZ!

Capitão
SIM, MEU MAJOR!

Major
Ó HOMEM, FALE MAIS BAIXO!

Capitão
Sim, meu Major!

O Major volta a sentar-se, extenuado. Tira um lenço do bolso do casaco altamente patenteado e limpa a testa suada, sem nunca tirar o charuto da boca. Gonçalo começa a mexer a boca, falando bastante, mas sem se ouvir um único som.

Major
[rouco]
Bem… dizia que a guerra mais importante da humanidade trava-se no nosso continente e… [tosse] E nós es… es… [ataque de tosse] … estamos fora da equação. [pausa] Que vergonha! [pausa] Fora da equação e ridi… ridi… [novo ataque de tosse] … ridicularizados por iniciativa própria.

O Capitão não parece compreender esta última afirmação do Major, mas não se atreve a interrompê-lo. O Major apercebe-se da dúvida do Capitão, mas antes de se explicar, escarra agressivamente para o seu lenço. Depois dobra-o e volta a guardá-lo no bolso. Gonçalo continua no seu monólogo mudo.

Major
Os Pantufas…? [esboça um sorriso amargo] Quando a guerra não é nossa e queremos meter-nos nela, o que é que devemos fazer? Oferecermo-nos para a frente de batalha! Para a frente! E o que fizemos nós? Prestamos assistência logística, quando muito… e escolhemos um nome fofinho… [sacode a cabeça, envergonhado] Os Pantufas…

Capitão
Tudo indica que a escolha do nome foi um erro, meu Major.

Major
Tudo nas Forças Armadas portuguesas é um erro, meu Capitão.

Capitão
Pois… este foi mais um.

Major
Qual foi o erro?

Capitão
Bom… parece que no dia da formalização do apoio secreto das Forças Armadas Portuguesas ao Führer, o único oficial que falava alemão estava ausente… baixa médica. Um outro, para fazer um brilharete, disse que sabia alemão… Se soubesse, seríamos hoje Os Panteras… ainda por cima é igual… [pausa] Ele enganou-se na página do dicionário… com as pressas… agora somos Os Pantufas.

15 Abr 2021

Segundo Acto – Cena 2

Gonçalo está sozinho na estufa. Continua deitado na mesma posição, sem se conseguir mexer. A mesma luz alaranjada ilumina continua a iluminar o interior da construção de plástico no palco. Uma nuvem de fumo branco começa a formar-se no tecto da estufa, espalhando-se lentamente por todo o espaço. Não há movimento no exterior, tudo escuro para lá das paredes. As luzes fluorescentes começam a tremular à medida que a nuvem de fumo fica cada vez mais densa. Uma das portas abre-se e entra uma MULHER trazendo na mão uma garrafa de espumante.

Atrás dela vem GONÇALO com duas flutes. Os dois sentam-se no chão de pernas cruzadas. Ela mexe a boca, como se articulasse um pequeno discurso com princípio meio e fim. Ao rematá-lo, os dois desatam às gargalhadas. Riem-se até às lágrimas, com os espasmos faciais a que têm direito, incluindo o sobe-e-desce dos ombros a acompanhar… mas não emitem qualquer som. Ela serve o espumante e pousa a garrafa. Os dois sorriem um para o outro e brindam, chocando os copos. Nada. Não há qualquer som. Não reparam no Gonçalo deitado a um canto da estufa.

Continuam a conversa e a risota insonoras. Os dois aparentam estar bem bebidos, estão cada vez mais próximos um do outro. As suas bocas estão prestes a tocar-se.

Gonçalo
[alarmado]
Podes olhar para mim?

Nenhum deles olha para o deitado. Não o ouviram. Acendem-se luzes de serviço para lá das paredes de plástico. Começa um vai-vem de silhuetas no exterior da estufa.

Gonçalo
Podem roer as minhas unhas? [pausa] Alguém…? [pausa] Eu não as sinto… nem me consigo mexer. Mas já lá vão umas horas sem as comer… A ansiedade, o batimento cardíaco acelerado, suores… às vezes…

A porta volta a abrir-se e entram quatro cientistas com os seus fatos de protecção integral, as máscaras, as toucas, as viseiras, as luvas e os óculos. Não vêem o Gonçalo deitado, nem o Gonçalo que está envolvido em acrobacias de natureza sexual com a mulher da garrafa de espumante.

Gonçalo
Mas eu estou aqui no chão sem me mexer, sem sentir o corpo, como se estivesse ausente dele… e tenho os circuitos neurais do cérebro totalmente dedicados à tentativa de consumar o acto de roer… quase que sinto as pequenas pontas das unhas que entretanto cresceram a raspar nos meus lábios…

Ao sinal de um dos cientistas, todos tiram o capuz do fato, as máscaras e os óculos. Um deles é Gonçalo, uma deles é a mulher do espumante. Os quatro perscrutam a estufa, enquanto inspiram profundamente, como se degustassem o ar aparentemente rarefeito daquele espaço de plástico.

Gonçalo
Deve ter uma qualquer relação com a sexualidade, esta coisa de querer sentir as unhas nos lábios antes de as roer… os preliminares da activação do sistema de recompensa…

O casal de acrobatas luxuriosos já se deslocou em direcção a uma parede, arrastando-se pelo chão, sem nunca desgrudar as bocas.

Gonçalo
As crises de abstinência… o vício de boca… meter os dedos, os cigarros… o gargalo de uma garrafa… Só queria que viessem aqui, que pegassem na minha mão e a metessem na minha boca. [pausa] Talvez ela caia mal a larguem… um de vocês podia segurá-la, enquanto eu satisfazia o meu vício. [pausa] Podem usar o meu cinto… põem-no à tiracolo e prendem-me o braço , como se estivesse engessado… apertam bem, para que a mão não saia da boca. Mas… também não podem apertar demais… ainda me engasgo com os meus próprios dedos…

O movimento de silhuetas no exterior da estufa é cada vez maior, os únicos sons audíveis são os que estão para lá das paredes de plástico que começam agora a serem rasgadas militares com fardas de outros tempos. Os plásticos das paredes duplas da estufa são arrancados com brutalidade. Nem o casal de minhocas concupiscentes que se arrasta em direcção do deitado, nem os quatro cientistas desmascarados reparam na destruição em curso.

Gonçalo
Já sei… apertam o suficiente para que a mão fique encostada aos lábios… e, de cada vez que eu quiser roer, abro a boca e, com a ajuda dos dentes e da língua, deixo entrar o dedo com a melhor unha do momento… Imaginem um tetraplégico com comichão no nariz e sem ninguém que o acuda… [pausa] … é assim que me sinto agora. Acho que até já me mijei… não sinto nada, mas cheira-me a urina já de algumas horas.

Já não há paredes de plástico, só a estrutura de metal que as sustentava e que já está a ser desmontada pelos diligentes militares. Para lá da estrutura de metal, no fundo do palco, está uma secretária com um gravador de bobinas com colunas de som e um grande microfone prateado. Dois militares de alta patente aproximam-se da secretária. O mais graduado senta-se à secretária, cruza as pernas em cima da mesa e acende um charuto. O outro, fica em pé, ao lado da mesa, e pega no microfone pela base e carrega no botão para falar.

Capitão
Die Pantoffeln nennen das Kehlsteinhaus… [pausa] Die Pantoffeln nennen das Kehlsteinhaus… [tempo] Hörst du?

8 Abr 2021

Segundo Acto – Cena 1

Estamos agora numa estufa com paredes de plástico bastante espessas. A luz branca e fria que inunda o espaço vem das lâmpadas fluorescentes no tecto. Gonçalo está deitado no chão, encostado a uma das paredes de plástico. Uma porta, também plastificada, abre-se e entram dois cientistas com fatos de protecção integral, máscaras, toucas, viseiras, luvas e óculos. Uma tem aparelhómetros de medição e a outra vai tomado notas num bloco de folhas bastante usado. Gonçalo abre os olhos e fixa-os nos três investigadores. Faz menção de se levantar, mas o corpo não corresponde. Os olhos mexem-se nas órbitas e os dedos das mãos dão sinal de querer reagir, nada mais. Elas não dão pela sua presença na estufa.

Gonçalo
Podem ajudar-me? [pausa] Olá…! Aqui…

Uma das cientistas vai indicando o valor das suas medições, mas o volume da sua voz, bem como a articulação, parecem vindos de outro tempo. Tudo lhe sai arrastado, entrecortado e com eco.

Cientista Medidora
[mexendo no aparelhómetro]
Es… tá… á… á… á… á a… a… gra… var… ar… ar… ar…?

A cientista do bloco de notas e uma caneta fala também do mesmo modo, com voz arrastada e ecoante, como se chegasse ali vinda de outro tempo. Tira um pequeno gravador do seu bolso, pendura-o ao pescoço e carrega no botão vermelho.

Cientista Anotadora
Sim… im… im… im… im… im.

Cientista Medidora
Pronto… onto… onto. [pausa] Então… ão… ão… ão… a temperatura… ura… ura… ura… vinte e três graus… ês graus… ês graus… ês graus. [pausa] Humidade… ade… ade… ade… normal… al… al… al. [desiludida] Tudo normal… al… al… al.

Cientista Anotadora
[escrevinhando no bloco]
Ao vigésimo… ésimo… ésimo… terceiro dia… eiro dia… eiro dia… eiro dia, tudo igual… gual… gual… gual. [pausa] Não há alterações… ções… ções… significativas… ivas… ivas…

Cientista Medidora
O cheiro… eiro… eiro… é igual… al… al… al.

Gonçalo já nem os dedos das mãos consegue mexer. Mas os olhos continuam nas cientistas que ainda não deram por ele ali deitado.

Gonçalo
Os meus amigos não são meus amigos… eles não sabem que não são meus amigos, acham até que são excelentes amigos. Acham que é um privilégio eu poder ser amigo deles… têm-se muito em conta. Têm em conta o dinheiro que têm… o poder que têm… mas não têm noção da vontade que têm de ver os outros subjugados à sua influência…

Cientista Anotadora
Paro de gravar… ar… ar.. ar?

Gonçalo
De gravar o quê?

Cientista Medidora
Podes parar… arar… arar.

Gonçalo
O que é que está a gravar? Estás a gravar a nossa conversa? [pausa] Estava a falar dos meus amigos… dos que se acham meus amigos, aliás… queres que eu me cale.

As duas cientistas sentam-se no chão, no meio da estufa. A anotadora continua preparada para escrever, seja o que for. A medidora pousa os aparelhómetros no chão e suspira profundamente.

Cientista Medidora
Quando é que se assume o falhanço… sume o falhanço… sume o falhanço?

Gonçalo
Na amizade? [pausa] Nunca…

Cientista Anotadora
[encolhe os ombros]
Quem é que o tem de assumir… de assumir… de assumir?

Gonçalo
Na amizade? [pausa] Quem se sente mal…

Cientista Medidora
Quem?!

Gonçalo
Neste caso, eu… Eu é que me estou a queixar.

Cientista Anotadora
Sim… im… im. Quem… em… em?! Quem lidera… era… era… era? A equipa… ipa… ipa? Todos… odos… odos?

Gonçalo
Quem lidera a amizade? [sorri] Sim, é uma boa pergunta… já me ocorreu.

Cientista Medidora
Todos… odos… odos… odos. [pausa] Convém que todos admitam… mitam… mitam… Mas quem lidera, era… era… tem de ter colhões para verbalizar o falhanço… balizar o falhanço… balizar o falhanço… balizar o falhanço.

Gonçalo
Balizar o falhanço… [ri-se] Sinto-me mal no meu grupo de conhecidos – já não posso dizer que sejam amigos – assumo-o sem vergonha. Mas não sinto vontade de verbalizar nada… não vale a pena, nada irá mudar. Afasto-me… é mais fácil.

Cientista Anotadora
Eu não vejo falhanço… falhanço… falhanço, para já… ara já… ara já.

Cientista Medidora
Não?

A anotadora abana a cabeça negativamente. Os seus olhos rasgados e cada vez mais fechados dão a entender que deve estar a sorrir por trás da máscara.

Cientista Anotadora
É pouco tempo, ainda… inda… inda.

Cientista Anotadora
[pouco convencida]
Talvez… ez… ez… ez.

Gonçalo
Não é nada pouco tempo. [pausa] Há muito tempo que é óbvio… para mim. Quando os vejo competir pela atenção… como se ainda houvesse atenção possível para dar… pelo menos da minha parte… já chega. É o que eu penso, já chega. Não quero mais… vou-me afastar…

As duas cientistas levantam-se e deixam-se ficar caladas, olhando para todos os lados da estufa. Menos para Gonçalo, que continua deitado no chão.

Gonçalo
[continuando]
Desisto…

Elas retomam as medições, desta vez sem falar. A medidora anda dois passos, carrega no botão de um dos aparelhómetros e mostra o resultado à colega que imediatamente o anota no seu precioso bloco.

Gonçalo
Desisto?!

As duas terminam as suas medições e saem da estufa. Fecham a porta de plástico e desligam as fluorescentes, ficando apenas uma luz de presença alaranjada.

Gonçalo
Olá…! [pausa] NÃO ME CONSIGO MEXER!

1 Abr 2021

Primeiro acto – Cena 7

Gonçalo vai até ao fogão buscar a cafeteira. Regressa ao seu lugar, enche as duas chávenas e pousa a cafeteira no chão.

Valério
Não precisas de ninguém para te destruir, graças a Deus.

Gonçalo
Não me estou a destruir.

Valério
[fazendo beicinho]
Estás um bocadinho…

Gonçalo
Um bocadinho, sim.

Valério
Pronto… [pausa] Tu és um sapo com cauda de escorpião.

Gonçalo
Um sapião…

Valério
Escorpiapo. [pausa] Aliás, és o escorpião às tuas próprias costas.

Gonçalo
… às costas de sapo.

Valério
Pois… Ainda nem a meio vais e já te estás a matar.

Gonçalo
Ela usou um telefone diferente.

Valério
A minha aluna?

Gonçalo
Sim.

Valério
Talvez… [pausa] Já estás a mudar de assunto.

Gonçalo
Vale mesmo a pena continuar no outro? [pausa] Quando reparou que se tinha enganado, apagou a mensagem.

Valério
É possível.

Gonçalo acende mais um cigarro e oferece um a Valério. Saboreiam a primeira baforada em silêncio.

Gonçalo
O que significa que ela tinha o teu número noutro telefone.

Valério
Quis que eu ficasse curioso… com um número desconhecido. [pausa] Se calhar, arrependeu-se e apagou a mensagem.

Gonçalo
Arrependeu-se?

Valério
De ter enviado de outro número.

Gonçalo
E o que é que fizeste?

Valério
Depois de ter descoberto o mesmo número no site de engate? [pausa] Mandei uma mensagem…

Gonçalo
Do teu telefone?

Valério
No site e no telefone.

Gonçalo
E…?

Valério
Fiquei a olhar para o telefone… durante algum tempo apareciam três pontinhos, que iam e vinham… mas não recebi nenhuma mensagem.

Gonçalo
E no site?

Valério
Nada.

Gonçalo
E voltaram a ver-se nas aulas?

Valério
Voltámos. Ela é bastante discreta… e continuou discreta.

Gonçalo
Hmm… [pausa] E se não era ela?

Valério
A do número desconhecido?

Gonçalo
Sim.

Valério
Era ela.

Gonçalo
Não gravaste o número.

Valério
Gravei, pois.

Gonçalo
Não. Tu disseste que quem quer que tenha enviado a mensagem apagou-a passado pouco tempo… e que viste depois um número no site que te pareceu o mesmo número da tal mensagem apagada.

Valério
Mas a pergunta era a mesma… o mesmo assunto, a mesma fotografia do quadro com as datas e horários…

Gonçalo
E?!

Valério
Só poderia ser de alguém da faculdade…

Gonçalo
[interrompendo]
Certo… mas não sabes se é realmente a mesma pessoa do site.

Valério
É, é!

Gonçalo
Não foi isso que disseste ainda há pouco.

Valério
O que é que eu disse ainda há pouco?

Gonçalo
Que a fotografia não era muito boa e que não dava para perceber bem como era a cara dela…

Valério
Mas era a cara dela… e era da faculdade. Da minha faculdade… a única da zona.

Gonçalo
E quantas alunas há na tua faculdade que possam encaixar naquele perfil?

Valério
[pausa]
Muitas…

Gonçalo
Pois…

Valério
Mas é muita coincidência.

Gonçalo
Muita ou pouca… não interessa. Querias que fosse ela, tinha piada ser ela… pronto.

Valério
E tu queres muito que não seja.

Gonçalo
[sorrindo]
Os factos não mentem.

Valério
É isso que fazes a ti próprio…

Gonçalo
Na escrita?

Valério
Também… tudo o que tem alguma piada, ou ameaça fugir do teu controlo, cortas. Nada sobrevive. Às tantas, tudo é deserto à tua volta… já nem voltas para trás, sabes lá de onde vieste… e desistes. Tornas a começar de novo, traças um caminho… tudo o que vai rebentando cortas, arrancas, queimas… seja erva daninha ou um rebento de uma árvore… vai tudo a eito… e quando te dás conta de que essas ervas e esses rebentos é que eram interessantes, já é tarde… dás-te conta que estás outra vez no deserto e não sabes como voltar para trás… nem te lembras onde começaste. E volta tudo ao mesmo.

Gonçalo
[pausa]
Já lhe tentaste ligar?

Valério
À minha aluna?

Gonçalo
Sim.
Valério
Mas tu ouviste o que eu acabei de dizer?!

Gonçalo
Ouvi, pois!

Valério
E então?

Gonçalo
Foi a única coisa de jeito que disseste a propósito da minha escrita…

Valério
Da falta dela, neste caso.

Gonçalo
Isso… eu pus em causa a tua fantasia, ficaste alterado e resolveste disparar com “é isso que fazes a ti próprio?”.

Valério
Não foi com má intenção.

Gonçalo
Eu sei que não… por isso é que eu te perguntei se já lhe tentaste telefonar. Quanto mais falarmos do assunto, mais acutilante te tornas.

Valério
[pausa]
E se eu telefonar e descobrir que não passa de um engano meu? Perco a acutilância e tu perdes um bom crítico.

Gonçalo
[sorrindo]
Mas a tua felicidade é mais importante do que a minha escrita, meu amigo.

Valério
Mentiroso.

Gonçalo
Pois sou. [pausa] Vais ligar?

Valério
Quando chegar a casa.

Gonçalo pega nas duas chávenas e na cafeteira leva-as para o lava-loiça. Valério acende outro cigarro e vai ter com o amigo. Encosta-se ao balcão. Gonçalo passa por água as chávenas e depois a cafeteira. A manhã já vai avançada, o dia promete muito sol.

Valério
Acho que já não durmo cá.

Gonçalo
Também já não há muito para dormir.

Valério
Pronto…

Valério vai até ao bengaleiro, tira o seu casaco e veste-o. Assegura-se que tem as chaves do carro no bolso. Bate continência ao amigo e sai, fechando a porta atrás de si. Gonçalo volta à sua cadeira e acende outro cigarro.

25 Mar 2021

Primeiro acto – Cena 6

Gonçalo vai até ao fogão. Abre a tampa da cafeteira e e espreita o conteúdo. Valério termina o seu vinho e pousa o copo no chão. Depois acende um cigarro.

Gonçalo
O melhor é dormires aqui.

Valério
Também acho.

Gonçalo
Porque é que ela terá apagado o número?

Valério
Pois… [pausa] Tu não deverias estar a escrever?

Gonçalo
Agora estou a fazer café.

Valério
E vais escrever depois?

Gonçalo
Do café?

Valério
Depois de eu me ir embora.

Gonçalo
Se não for muito tarde…

Valério
E se eu fosse agora embora?

A cafeteira começa a fumegar e a borbulhar. Gonçalo desliga o lume e tira duas canecas de um dos armários por cima do lava-loiças.

Valério
Por isso é que queres que eu fique?

Gonçalo traz o café consigo, senta-se na sua cadeira e passa uma das canecas a Valério.

Valério
Foi por isso que começaste a falar da história do “Neo-Nazi”? [pausa] Há quanto tempo estás sem conseguir escrever?

Gonçalo
[pausa]
Duas semanas.

Valério
E vieste para aqui há quanto tempo?

Gonçalo
Semana e meia…

Valério
Está a correr muito bem, então!

Gonçalo acende mais um cigarro. Valério prova o café e queima os lábios. Gonçalo pousa a sua caneca no chão e sorri.

Valério
[sorri]
É castigo. [pausa] Classifica o que estás a escrever… numa escala de um a dez.

Gonçalo
Numa escala de um a dez… mas com base no que eu tenho escrito ou no que eu acho que a obra será quando a acabar?

Valério
[trocista]
Mas achas que vais acabá-la? [pausa] Com base nas duas coisas. De zero a dez… vá!

Gonçalo
[pausa]
Não sei.

Valério
A tua cabeça foi aos números todos antes de responder esse não sei!

Valério pega na caneca e aproxima-a com cuidado dos lábios. Prova o café. Desta vez não se queima.

Valério
A ideia, dez! As primeiras vinte páginas, seis… as vinte seguintes, três… não, dois! [pausa] Não escrevas mais.

Gonçalo
Não?

Valério
Não. [pausa] Eu vou dormir aqui… vamos acordar tarde, comemos qualquer coisa… e vamos embora. Eu levo-te.

Gonçalo
Hmm…

Valério
Jantamos pelo caminho… Chegas a casa, arrumas a mala e pões a roupa a lavar… àquela hora já não vai dar para escrever. Mas podes ir para a secretária… ou para a mesa de jantar… onde quer que seja. Abres o computador e apagas o projecto, apagas a cópia e a cópia da cópia… tudo. Tens notas? Em cadernos?

Gonçalo
Tenho.

Valério
Pronto! Rasgas o caderno aos bocadinhos e sais de casa… dás um passeio… aproveitas para apanhar ar… vais até ao rio e deitas os bocadinhos à água… ficas a ver e choras um bocadinho. Arrependes-te, vês que os bocadinhos já desapareceram… corres de volta a casa, ligas o computador, tentas recuperar o que apagaste… nada. Desapareceu tudo. Gritas… “Meu Deus, sou tão estúpido!”… e pronto, está feito o luto.

Gonçalo
[rindo]
Que parvo!

Valério
Calma, ainda não acabei! [pausa] Depois, ligas para o teu editor, ou para a tua namorada, ou para quem quer que seja que te faça tremer… ou para mim, por exemplo. O que é que vais dizer?

Gonçalo
Nada.

Valério
Nada, não! “Não dá, não consigo mais… isto não é bom, sinto que estou a aldrabar toda a gente… desisto.” E a pessoa do outro lado vai dizer o quê, se já sabe que não gostas de ouvir nada?

Gonçalo
Nunca faria esse telefonema?

Valério
Não?

Gonçalo
A parte do “… isto não é bom, sinto que estou a aldrabar toda a gente…” é verdade. Para muitos que escrevem, não só para mim. [pausa] Mas, se eu fizesse isso tudo… esse enterro que descreveste… se eu tomasse essa decisão… ficava calado. [pausa] Não dizia nada a ninguém… continuava como se nada fosse.

Valério
Impossível!

Gonçalo
O quê?

Valério
Isso de passares incólume… como se nada fosse.

Gonçalo
Eu não disse isso! Continuava como se nada fosse… mas para os outros… “como vai a escrita?”… “bem”… “quando é que posso ler?”… “estou um bocado atrasado… ainda não sei.” [pausa] Hão de perguntar cada vez menos, até que, a dada altura… vão deixar de perguntar… ainda estou rodeado de pessoas que respeitam o silêncio… acho eu… “pronto, ele não quer falar do assunto… é lá com ele… deixemo-lo estar…” E acho que toda a gente vai saber… nessa altura… toda a gente vai compreender… ninguém me vai fazer passar pela humilhação de ter de reviver o episódio… “mas explica lá porque é que desististe…” [pausa] Não há nada para explicar… restará o consolo de ter tomado a decisão mais difícil… reconhecer que não escrevia suficientemente bem para continuar a escrever…

Valério
[trocista]
Mas ficará sempre uma pulguinha atrás da orelha…

Gonçalo
Isso é para evitar o suicídio… é um “eu até tinha jeito, mas a vida trocou-me as voltas”… Há gente a mais a escrever, a pintar, a filmar… há gente a mais em tudo. Qual é a probabilidade de eu ser medíocre naquilo que faço? É muito alta… Qual é a probabilidade de eu não ter noção da minha falta de talento… de zero a dez? É baixa… não sou estúpido. Qual é a probabilidade de o que quer que eu esteja a escrever agora ser melhor do que a maioria das coisas que estão no prelo? É altíssima…! [pausa] E eis a questão: Qual é a probabilidade de ser muito bom… o que quer que eu esteja a escrever agora?

18 Mar 2021

Primeiro acto – Cena 5

Desatam a rir com a declamação de Valério. Quando acalmam, acendem um cigarro e servem mais vinho. Dão-se conta dos primeiros raios de sol que entram pela janela. Valério espreita o relógio e a sua expressão muda.

Gonçalo
Tens de ir embora.

Valério
Não devia.

Gonçalo
Não?

Valério
Não…

Gonçalo
O que é que se passa?

Valério
[hesitante]
Troco mensagens com os meus alunos de faculdade…

Gonçalo
E…?

Valério
Temos um grupo… professor e alunos… fala-se de tudo e mais alguma coisa.

Gonçalo
Caramba, estás lento… desembucha!

Valério
Calma, deixa-me estruturar o discurso.

Gonçalo
Confessa… não penses muito.

Valério
Não vou confessar nada!

Gonçalo
[rindo]
Porque ainda não fizeste nada… mas andas com o pecado às voltas na cabeça, seu maroto!

Valério
Mas qual pecado?!

Gonçalo
É tão óbvio! Estávamos às gargalhadas… reparaste que o sol estava a nascer, olhaste para o relógio e ficaste nini.

Valério
Nini? O que é isso?

Gonçalo
Nini… abatido, melancólico. Os teus alunos não usam essa expressão, nini?

Valério
Mas o que é que isso tem que ver com pecado?

Gonçalo
Tem tudo. Tens alguém em casa à tua espera… e tu aqui, a estas horas… pecado! Que eu saiba não vives com ninguém, portanto… Tens trabalho atrasado e tu aqui, a cavaquear e a emborcar à grande… pecado.

Valério
Culpa, queres tu dizer.

Gonçalo
Neste caso é a mesma coisa. Andas a trocar mensagens com quem não deves… continua.

Valério
Não é bem assim.

Gonçalo
Só pode ser isso… ficaste nini. Perguntei porquê. Disseste “troco mensagens com os meus alunos”.

Valério
Mas foi um engano… eu troco mensagens no grupo, mas também troco mensagens em privado. E são eles que me mandam mensagens… a propósito de trabalhos, ou exames, ou o que for…

Gonçalo
E?

Valério
Calma! [pausa] E… eu escrevi no quadro da sala os nomes e os horários de apresentação de uns trabalhos quaisquer, tirei uma fotografia e enviei para o grupo… apaguei o quadro e fui-me embora. Ao fim da tarde começo a ser bombardeado com mensagens no grupo… enganei-me, pelos vistos… havia duas apresentações à mesma hora, num mesmo dia. “Enganei-me, peço desculpa, fulano ou fulana tal apresenta na aula seguinte e não no mesmo dia, se estiverem de acordo”, respondi. “Tudo ok”, responderam eles… passadas umas horas recebo uma mensagem de um número que não tinha gravado… a mesma fotografia, com a mesma pergunta “Não se terá enganado?”… não respondi, não conhecia o número. Mas fiquei curioso, voltei a espreitar a mensagem e quem a enviou já a tinha apagado.

Gonçalo
[rindo]
Estás a inventar!

Valério
Não estou!

Gonçalo
Para já, é uma seca! Uma sequência de factos insípidos… depois enviei isto, depois eles responderam aquilo, depois eu fiz não sei quê, depois eles fizeram não sei que mais… Ainda por cima, és monocórdico e deixas todas as frases suspensas… e tararará… e tararará… e tararará… não há paciência!

Valério
[levanta-se]
Bem, vou-me embora.

Gonçalo
Oh, vá lá…

Valério vai até ao lava-loiça e começa a lavar o seu copo.

Gonçalo
Agora vais tu fazer birra?

Valério aproveita para beber água, volta a lavar o copo e deixa-o a escorrer. Vai até ao bengaleiro e veste o casaco. Põe-se a revistar os bolsos.

Gonçalo
Acaba lá a história.

Valério
Não!

Valério continua à procura de qualquer coisa nos bolsos do casaco.

Gonçalo
Não podes conduzir assim.

Valério
Sem chave, não.

Gonçalo
Vá, sentas-te, não bebemos mais e daqui a pouco vais embora. [pausa] Começo já a fazer o café.

Gonçalo vai até ao fogão de ferro e pega na cafeteira. Valério torna a tirar o casaco e a pendurá-lo. Põe as mãos nos bolsos das calças, contrariado, e descobre a chave do carro num deles. Gonçalo desatarraxa a cafeteira e passa-a por água no lava-loiça. Valério volta a sentar-se.

Gonçalo
Continua…

Gonçalo põe o café, atarraxa a cafeteira e põe-na ao lume. Vem sentar-se ao lado do amigo.

Valério
Peço desde já desculpa pelo conteúdo e pela forma… [pausa] Atalhando… umas horas depois, estava eu num site de engate… já me tinha esquecido do assunto… Sabes que as procuras podem ser baseadas em proximidade, certo? Local de trabalho, casa…

Gonçalo
Sei, avô!

Valério
Pronto… nos critérios de busca, para além do género, idade, interesses… tenho o local de trabalho. Não pus a faculdade, pus a zona, como é óbvio.

Gonçalo
Porquê?

Valério
Porque não quero que saibam onde trabalho.

Gonçalo
E a profissão?

Valério
O que é que tem?

Gonçalo
Tens a profissão no teu perfil?

Valério
Tenho.

Gonçalo
Professor universitário?

Valério
Sim.

Gonçalo
Então, se és professor e trabalhas na zona tal…

Valério
[interrompendo]
É óbvio! Mas não está lá o nome da universidade, não me apetece, pronto. Continuando… às tantas aparece-me o perfil de uma mulher… jovem… a fotografia não era muito boa, não dava para perceber bem como era a cara dela… acho que deve ter posto aquela fotografia de propósito, para não ser reconhecida… era uma aluna universitária ali da zona e tinha o número de telefone. Quando vi o número, percebi que era o mesmo da mensagem que tinha recebido e que entretanto tinha sido apagada.

11 Mar 2021

Primeiro acto – Cena 4

Gonçalo levanta-se e vai até ao lava-loiças, pega num copo e bebe água da torneira. Na divisão ouve- se um copo cair ao chão e a desfazer-se em cacos.

Gonçalo
Parabéns!
Valério
[fora de cena]
Obrigado.

Valério abre a porta e quase que leva com o pano ensopado que Gonçalo lhe atira.
Valério
É um filme ou um livro?
Gonçalo
O quê?
Valério
“O Joãozinho Neo-Nazi vai à guerra”.

Valério volta a sair pela porta. Ouvimo-lo limpar os cacos de vidro. Gonçalo volta para a sua cadeira e serve-se de mais vinho, terminando mais uma garrafa.

Gonçalo
Estás a trocar tudo!
Valério
[fora de cena]
Peço desculpa, meu senhor. Você é tão prolífico que eu já não sei a quantas ando.

Valério sai com os cacos embrulhados no pano, fecha a porta com o pé e aproxima-se do caixote do lixo por baixo do balcão. Passa o pano por água e torce-o. Lava as mãos e regressa à sua cadeira.

Gonçalo
O neo-nazi é o que encontra uma máquina do tempo.
Valério
Pois é!
Gonçalo
O que vai à guerra, ainda não sei quem é.
Valério
Mas é um filme ou é um livro?
Gonçalo
Ainda não sei… é uma imagem… uma cena que me tem surgido algumas vezes… parece-me interessante. Mas é igual a milhares de outras.

Valério
Por ser igual a tantas outras, vais desistir? [pausa] E é igual em quê? Uma situação de guerra? O tal êxtase no meio de tiros e explosões?

Gonçalo
Não vou desistir! Partilhei uma ideia que me anda às voltas na cabeça… nem sei se a vou começar.
Valério
Acaba lá a história do neo-nazi e da máquina do tempo…
Gonçalo
Não gostas no cenário de guerra.

Valério dá-se conta de que o vinho acabou e lá vai ele à mesa abrir outra garrafa.
Valério
Já vais recomeçar!? Acabaste de dizer que é só uma ideia que te anda às voltas na cabeça… nem personagem tens.

Gonçalo
Está bem, mas eu partilhei-a… contei-ta para ouvir a tua reacção!!
Valério
E eu ouvi. e é uma boa ideia. E foi por isso que perguntei se era um filme ou um livro ou uma performance-instalação! Mas tanto pode ser o princípio, o meio ou o fim de alguma coisa… É ou não é verdade? Queres melhor terapeuta do que eu? Falas, falas… eu oiço-te, ajudo-te… mas há limites, caramba!

Gonçalo
Estás irritado porque o vinho está a acabar.
Valério
Não! Estou irritado porque tu esgotas a paciência de qualquer um com tanta insegurança. Quando o vinho acabar, vamos à garrafa de uísque que tens ali no chão, ao lado do caixote do lixo.

Valério regressa à sua cadeira com mais uma garrafa de vinho e volta a encher os dois copos., cambaleando durante a operação. Senta-se e acende um cigarro. Oferece um a Gonçalo e dá-lhe lume. Os dois dão uma longa baforada e ficam em silêncio durante algum tempo.

Valério
Porque é que puseste ali a garrafa?
Gonçalo
Para não a bebermos.
Valério
És tão atencioso…
Gonçalo
Ele está lá deitado… os outros andam de um lado para o outro com os aparelhómetros… usam todos máscara e viseira… é difícil ver-lhes a…

Valério
[interrompendo]
Isso na cena de guerra?
Gonçalo
Não…! Ai a minha vida.
Valério
Recomeças do nada…! Desculpa lá não ter tirado notas, meu anjo.

Gonçalo
Oh…!

Valério
“É difícil ver-lhes a cara…”, continua!
Gonçalo
Sim… e não é por estar de ressaca que ele não se consegue mexer.

Valério
Uau.

Gonçalo
Uau, o quê?
Valério
Porque é bom! Põe-nos logo a pensar… Estará fora do tempo, mas no mesmo espaço? Ou será ao contrário? Sente o corpo, não sente o corpo?

Gonçalo
Foste tu que escreveste a história?!
Valério
[rindo]
Se tivesse sido eu, teria sido publicada!

Valério desata a rir às gargalhadas quando se apercebe de que Gonçalo ficou ofendido com a brincadeira.

Valério
‘Çalinho, ‘çalinho…

Valério aproxima-se do amigo e dá-lhe um beijinho na bochecha e uma cotovelada no braço.
Valério
Vá lá, meu querido… continua.
Gonçalo
[contrariado]
Ele sente o corpo! [pausa] Mas sente-o à distância… não muita… sente o corpo a uns metros… e em movimento… e dá-se conta de que alguns dos cálculos e medições estão também a ser feitos por ele próprio… quer dizer, ele está deitado, não se mexe, mas os números e as leituras aparecem-lhe como se ele estivesse em movimento. [pausa] Vê o que se está passar do ponto de vista de quem está deitado a um canto, como ele próprio está, naquele momento… mas vê também do ponto de vista de quem se movimenta pela estufa, olhando de um lado para o outro, lendo os aparelhómetros e anotando os números… Apercebe-se de que um dos cientistas que entrou na estufa, todo equipado, com máscara, fato, viseira e mais um par de botas… é ele próprio… mas no dia anterior. [pausa] O ele deitado vê o ele em pé no dia anterior… O ele em pé não vê o ele deitado nesse mesmo dia…

Valério
Repete lá isso!
Gonçalo
O ele deitado… [hesita] … vê o ele em pé no dia anterior. [pausa] O ele em pé… não vê o ele deitado nesse mesmo dia.

Valério
Escreveste assim?
Gonçalo
Não me lembro… [pausa] Acho que não.

Valério
É bom.

Gonçalo
[rindo]
Então, acho que sim!
Valério
É bom, tendo em conta o contexto! A seco, parece poesia manhosa… [declama] O ele deitado… vê!… o ele em pé… no dia anterior… O ele em pé… não vê!… o ele deitado… nesse mesmo dia.

4 Mar 2021

Primeiro acto – Cena 3

Valério serve-se de mais vinho enquanto o amigo continua os seus afazeres na divisão dos fundos.

Valério
Um aluno consultor…

Valério desata a rir às gargalhadas, entornando vinho na camisa, nas calças e no chão. Pousa o copo no chão e vai buscar um pano ao balcão de madeira, perto do lava-loiças.

Gonçalo
[fora de cena]
O que é que disseste?

Valério
Nada!

Gonçalo
[ainda fora de cena]
Um aluno consultor!

Valério
Tens ouvidos de tísico!

Valério limpa a camisa e as calças com o pano molhado. Gonçalo regressa da divisão dos fundos e volta a sentar-se na sua cadeira.

Gonçalo
Sabes que eu tenho livros publicados?

Valério
E…?

Gonçalo
Nada…

Valério
Eu disse que ias fazer birra!

Valério regressa ao seu lugar e volta a servir-se de vinho.

Valério
E disseste que as paredes são densas e desfocam bastante quanto explicaste que ele não conseguia ver muito bem o que se passava do lado de fora da estufa. Por densas, querias dizer espessas, embora, neste caso, densas seja perfeitamente aceitável como sinónimo. Mas ajudaria mais falar em espessura, ou mesmo em grossura, para dar mais ênfase à desfocagem que aludiste. Mas é como te digo, a densidade, aqui, e tendo em conta de que se trata de um conto de ficção-científica… [sorri] fica muito bem.
Gonçalo
[irritado]
Se fica bem, porque é que estás a… ?

Valério
[interrompendo]
Porque tudo o que tu fazes, escreves, contas, estudas, ouves, lês… tudo, tem de ter a minha aprovação!

Gonçalo abre a boca, chocado. Ameaça rir, mas a facada que levou não o deixa.

Valério
Não faças esse ar, é assim que nós os dois funcionamos! Lês uma crítica má a um livro que adoraste, sentes-te inseguro, será que ando enganado? e lá vens tu então, já leste isto? e ficas à espera que eu te dê a minha opinião. Porque se eu gosto, deve ser bom! E andas dias a chatear-me… já leste? já leste?… Mas és incapaz de me dizer olha, gosto de um livro de que toda a gente anda a dizer mal, achas que tenho um gosto duvidoso? Alguma coisa deve ter acontecido, andas inseguro com alguma coisa… e eu sei o que
é! Essa história do conto de ficção científica rejeitado traz água no bico, contigo é sempre assim… ando às apalpadelas até perceber se é o interruptor ou se o raio que o parta… e tu sempre à frente, armado em sonso, a mudar o braille das paredes! E isto começou porque não me perguntaste o que é que eu achava da tua primeira descrição de há pouco, a do cenário de guerra… foi ou não foi? Interrompi com uma piadinha e tu começaste logo a roer-te todo por dentro… ai, ele não deve ter gostado! E o menino pôs-se à pesca, a ver se eu mordia… ’tadinho de mim.. olha, sabias que uma vez me recusaram um conto… E o que me estavas a contar, chapéu! Portanto, já são dois boicotes seguidos…

Gonçalo
Boicotes!?

Valério
Seguidinhos, meu amigo! Mas tudo bem, quem fica a perder és tu, não vais saber o que eu penso da tua ideia para o novo livro, nem vais saber o que eu penso do teu conto recusado…

Gonçalo
[irónico]
Porque és tu quem aprova as minhas obras antes do editor!

Valério
Basta eu torcer o nariz a uma vírgula e adeus… são mais três meses de molho a bateres com a cabeça nas paredes.

Gonçalo
[irritado]
Porque és tu quem aprova as…!

Valério
Tu é que fazes por isso! Vê lá se foste descrever o orgasmo de guerra ao teu editor… Ah, pois é! Tens medo das tuas ideias…

Gonçalo
Tenho o quê?!
Valério
Borras-te todo… [Valério põe-se a escrever furiosamente num teclado imaginário.] “Um neo-nazi entra num bar”… ai, meu Deus! Um Neo-Nazi, porquê? Porque é que ele entra num bar? Ainda há quem entre em bares? E como é que ele entra? Porquê num bar? Porque é que ele entra onde quer que seja? Porque não “Um Neo-Nazi entra…”? Não, se calhar é só “Um entra…”! Não, não, isto não dá! Vou desistir… vou deixar de escrever, a minha vida acabou!

Gonçalo
Mas o que é que tem o eu ter medo das minhas ideias com o bypass ao editor?

Valério
Porque me tens em grande consideração…? Porque achas que eu sou um tipo inteligente e carismático…?

Gonçalo
Espera! Primeiro, explica lá isso de eu ter medo das minhas ideias!

Valério
[rindo]
Ai, agora temos ordem de trabalhos… sim senhor, vamos lá! Ponto número um, medo das tuas ideias… precisas mesmo que eu explique melhor!

Gonçalo
Acho que percebo o que queres dizer…

Valério
Vês, já estás a fazer o mesmo…! Percebeste perfeitamente o que eu quero dizer, mas estás a arranjar uma maneira de sair por cima, como se sempre tivesse sido evidente para ti que toda a gente sabe que tens medo das tuas próprias ideias. [pausa] Faz-me a pergunta! Achas que tenho medo das minhas próprias ideias?

Gonçalo
Oh!

Valério
Acho… mas das ideias boas! Das que te tiram o tapete, como “O Joãozinho Neo-Nazi vai à escola e no meio de uma aula de história distrai-se e tem um orgasmo de guerra”… e ficas borrado, porque sabes que aquilo é radioactivo e vens logo a correr… para quem? Para mim… para o teu paizinho que te quer tão bem!

Agora é Valério quem se levanta e sai pela porta do fundo. Gonçalo fica a sós, com o seu copo de vinho e as suas ideias.

25 Fev 2021

Primeiro acto Cena 2

Valério dá mais uma longa baforada no seu cigarro. Gonçalo bebe o vinho todo que tem no copo e pousa-o no chão, ao lado da cadeira. Não se levanta.
Valério
Não ias mijar?
Gonçalo
Depois mudo a fralda.
Valério pega no copo de Gonçalo e serve-lhe mais vinho. Levanta-se e vai até à mesa para escolher outra garrafa. Só passados alguns segundos é que percebe que as garrafas são todas iguais. Tinto, mesma casta e mesmo ano.
Valério
Então e o conto?
Gonçalo
Sim… [pausa] Era uma história de ficção-científica. Valério
Hmmm…
Gonçalo
Era sobre um neo-nazi português que encontra uma máquina do tempo…
Valério interrompe abruptamente o desarrolhamento e desata a rir. Quase que deixa cair a garrafa.
Gonçalo
[rindo]
Pois…
Valério
Continua!
Termina de abrir a garrafa, pousa o saca-rolhas na mesa e regressa ao seu lugar. Enche o seu copo e pousa a garrafa no chão.
Gonçalo
[suspirando]
Encontra uma máquina do tempo… e como sempre sonhou com…
Valério
[interrompendo]
Onde é que ele encontra a máquina?
1
Gonçalo
Onde…? [pausa] Era um estudante, físico teórico… estava envolvido num projecto qualquer como consultor… num laboratório de física experimental.
Valério
Certo!
Gonçalo
E não era uma máquina tipo cabine telefónica…! Não era uma máquina, ponto! Era uma espécie de estufa… criada para reverter a entropia…
Valério
A entropia de quê?
Gonçalo
De quê, o quê?!
Valério
De um objecto, de um corpo celeste…?
Gonçalo
Não, não, de nada… [pausa] … do pó! Se um quarto estiver fechado durante uns anos… sem ninguém lá entrar… quando alguém o abrir, não estará exactamente na mesma.
Valério
Terá pó!
Gonçalo
Que é desorganização, a segunda lei da termodinâmica e tal…
Valério
Certo, continua!
Gonçalo
Ele fica fechado na estufa… não me perguntes porquê, não me lembro!… [pausa] Acho que tinha havido um beberete qualquer, a experiência foi um sucesso… ele foi com uma colega para a estufa, passaram lá um bocado, estavam bebidos – vês, já me estou a lembrar! – … ela vai-se embora e ele adormece lá dentro…
Pega no seu copo de vinho e bebe com avidez até o esvaziar. Valério volta a atestá-lo, aproveita e atesta também o seu.
Gonçalo
[continuando]
… acorda no dia seguinte… abre os olhos, não se consegue mexer… vê que há movimento fora da estufa… estranha o movimento, porque era suposto estarem todos de folga, a curar a ressaca… mas está toda a gente de bata, e luvas, e capacetes, tanto quanto ele pode ver… as paredes da estufa são densas e desfocam bastante… até que alguns entram na estufa para fazer umas medições quaisquer com uns aparelhómetros… [olha para o amigo] Eu tinha isto tudo bem pesquisado, agora não me lembro bem dos detalhes científicos…
2
Valério
Estou a ouvir…
Gonçalo
[acanhado]
… e… eles estão para lá a fazer as tais medições e cálculos e a trocarem informações… números complexos e tal… e não vêem que ele está deitado no chão, a um canto… andam de um lado para o outro…
Valério começa a rir e engasga-se com o fumo do cigarro que tinha acabado de puxar. Tem um ataque de tosse que se agudiza ainda mais com o riso.
Gonçalo
[contrariado]
Pronto… esquece!
Valério
[tossindo]
Desculpa… mas eu [tosse ainda mais]… eu estou a ouvir.
Gonçalo
[amuado]
Oh…!
Valério
[recuperando]
É que estás a contar uma história interessante… uma estufa, a reversão da entropia… um beberete, os dois que se foram comer lá para dentro… mas porquê um neo-nazi? [desata a rir] É que eu estou atento, mas estou sempre a pensar nisso… Porquê!… Um neo-nazi entra num bar… se começas assim, estás à espera que ele parta aquilo tudo!… ainda por cima português! Quê, tem as quinas tatuadas na testa?!.. Não estás é à espera que ele acenda um cachimbo e peça um whiskey de malte… [pausa] Pronto… desculpa.
Gonçalo
[irritado]
E se ele se sentar no balcão, acender um cachimbo e pedir um whiskey de malte…?
Valério
[rindo]
Porque é físico teórico? [pausa] Olha, agora vais fazer birra…
Gonçalo
Não vou nada! [pausa] Mas o que é que tem ele ser…?
Valério
[interrompendo]
À partida, nada… mas então é só um gajo que entra num bar… e que, por acaso, é neo-nazi! Se dizes “o Gandhi entra num bar”, imaginas logo o gajo pequenino, careca, óculozinhos redondos… e ficas à espera de quê?… de cenas à Gandhi!
3
Gonçalo
Cenas à Gandhi!? Mas, então…
Valério
[interrompendo]
Claro que podes começar com “quem-quer-que-seja entra num bar”, mas tens de contar com a expectativa da malta!… “Aquiles entra num bar”… Mas Aquiles porquê?… Está coxo?! É só um tipo vulgaríssimo a quem lhe deram o nome de um semi-deus?… Vou sempre pensar no nome e no porquê do nome e às tantas ele até pode estar a comer caracóis com os pés que eu vou estar sempre a pensar no mesmo…
Gonçalo
Pensas muito, tu…! [irrita-se] E eu não comecei a história assim, na altura! Não foi “um neo-nazi entra numa estufa do tempo”…
Valério
Então não foi por isso que ta recusaram! [desatam-se os dois a rir] Vá, continua… Gonçalo
Agora esperas…
Gonçalo levanta-se e vai direito à porta da direita alta. Entra e fecha a porta atrás de si, deixando Valério sozinho na pequena sala.
4

18 Fev 2021

Nada está perdido

PRIMEIRO ACTO CENA 1

Uma pequena sala escura com paredes empedradas e chão de madeira escura. Ao fundo, dois toros robustos ardem na lareira. Encostado à lareira, um fogão de ferro envelhecido com uma cafeteira ainda a fumegar; do lado oposto, um balcão de madeira com um lava-loiça de pedra onde alguns pratos jazem amontoados. À direita de cena, uma janela com as portadas abertas para uma noite escura. Nem árvores, nem estrelas. Encostada à janela, uma pequena mesa com uma máquina de escrever, algumas garrafas de vinho e um pequeno candeeiro a petróleo. Na esquerda alta, a porta da casa e o bengaleiro, de onde pendem dois casacos de neve e alguns cachecóis. Há alguns quadros pendurados nas paredes: algumas naturezas-mortas, um oficial exibindo as suas condecorações e uma aberração de circo, sem braços e sem pernas, equilibrando uma bola na ponta do seu grande nariz. Ao fundo, na direita alta, uma porta para quem se quiser aventurar para outras divisões. Há livros e jornais espalhados pelo chão da pequena divisão.

Gonçalo está sentado numa cadeira de madeira, ensimesmado, de costas para o fogo. Por cima dele, um lustre dourado e envelhecido com algumas velas acesas. Ao seu lado, estão três garrafas de vinho vazias, pousadas no chão. Valério está ao pé da mesa, abrindo outra garrafa com um saca- rolhas. As labaredas recortam as suas sombras intermitentes nas paredes.

Gonçalo

É mais como se fosse um sopro, agudo… mas às centenas. O calor que me rodeia é insuportável. [pausa] E estou sozinho…
Valério
Sozinho?
Gonçalo
Sim. [pausa] Quando penso nisso… é o que me parece, sim. Que estou sozinho. Só eu e o inimigo… não há ninguém do meu lado. Ou melhor, ninguém a meu lado… porque mesmo que haja, seja quem for… ninguém me poderá valer nessa altura… é cada um por si, cada um consigo próprio e o inimigo, que é comum a todos.
Valério
E o calor, vem de onde?
Gonçalo
Dos fogos… dos rebentamentos. A floresta arde, os morteiros continuam a silvar…
Valério
Ah, é numa floresta!
Gonçalo
[surpreso]
Sim.
1 of 3
Valério
Não tinhas referido.
Gonçalo
Hmmm… o sol está quase a pôr-se.
Valério
Ajuda a elevação.
Gonçalo
Sim.
Valério pousa o saca-rolhas na mesa e cheira o vinho pelo gargalo. Enche o seu copo e prova o vinho. Depois, vem sentar-se num velho cadeirão, ao lado de Gonçalo. Este bebe o resto que tem no copo e Valério enche-o com o novo néctar.
Valério
Os morteiros continuam a silvar…
Gonçalo
Sim.
Valério
E…?
Gonçalo
Eu encolho-me… no meio de uns arbustos. Tapo os ouvidos… [pausa] A mistura dos cheiros, o sangue queimado e o metal a ferver…[pausa] é…
Valério
Nauseabundo?
Gonçalo
Não… não diria tanto. É… [pausa] perturbador. Valério
Hmmm…
Gonçalo
E é precisamente nessa diferença que está a questão. [pausa] Se fosse nauseabundo, eu continuaria vergado, a vomitar o medo… mas o cheiro do metal ardente… [pausa]… impele-me…
Valério
A olhar para cima?
Gonçalo
Sim. [pausa] E é nesse momento que acontece… o relâmpago interior, fugaz…
Valério
O êxtase?
2 of 3
Gonçalo
O êxtase, sim. Os sentidos… o conflito dos cheiros, as balas que me sopram ao ouvido, os silvos dos morteiros… uma sobra gigante cobre-me… olho… e lá em cima, no céu alaranjado… um bombardeiro desaparece no meio das nuvens depois de largar a carga mortal… e algures entre o sol e as nuvens há uma… [sorri]… uma presença, uma paz… [pausa] Encho-me de felicidade… e nunca estive tão desprotegido como estou ali, naquele momento. E sou invencível.
Os dois amigos ficam em silêncio durante algum tempo, repisando aquele episódio nas suas cabeças e beberricando o vinho.
Valério
Isso parece um sonho molhado de um neo-nazi!
Os dois desatam a rir, Valério entorna o seu vinho.
Gonçalo
Du bist… du bist… du bist ein schwein!
Valério
Nein, nein, nein… ich bin ein untermenschen!
Gonçalo
Nein, nein, nein! Mein Gott… du bist ein arschloch!
Valério limpa o vinho que caiu em cima de alguns livros, passando a manga da camisola sobre eles, enquanto espreita os títulos. Depois da limpeza, dá-se conta da quantidade de livros espalhados pela pequena divisão.
Valério
Tens livros suficientes para ficares sozinho e nunca te sentires sozinho… [pausa] Isso é perigoso! Gonçalo
Hmmm…
Valério serve-se de vinho, repara que Gonçalo ainda tem o copo a meio e mesmo assim enche-o até quase transbordar.
Gonçalo
Falei-te do primeiro conto que escrevi? E que foi recusado por uma revista?
Valério
Ainda havia revistas a publicar contos e foste recusado? Fala-me disso!
Gonçalo
Primeiro vou mijar.
Ele não se levanta. Valério acende um cigarro e dá duas longas baforadas. Oferece o maço a Gonçalo. Este tira um cigarro e acende-o, dando uma longa baforada. Os dois em silêncio, recordistas em apneia de fumo.

11 Fev 2021