25 anos é muito tempo

Apresento ao público o meu blogue há muitos anos. Sei perfeitamente quanto é difícil manter diariamente notícias que interessem ao público leitor. A dificuldade na procura de informação credível e séria é uma luta que qualquer escrevinhador mantém consigo próprio. Possuir inspiração para titular, escrever e escolher fotografias resulta numa produção final que nunca pode agradar a gregos e troianos.

Uma vez, aqui na Guarda, onde resido, recebi um convite para escrever artigos para uma nova revista que iria ser criada no Fundão. Torci o nariz. No Fundão? Terra onde existe um dos melhores e mais históricos jornais portugueses? Logo pensei que essa revista não iria ter muito tempo de vida. E acertei em cheio. Escrevi três artigos para que ficassem a aguardar publicação. O proprietário da futura revista iniciou uma laboração com um ou outro jornalista, um gráfico, uma revisora e uma senhora que devia atender as chamadas para a redacção e gerir a publicidade que fosse contratada com a administração da publicação.

Bem, meus amigos, o que vos posso dizer é que na preparação do primeiro número, todos os que estavam empenhados na funcionalidade para produzir algo que informasse o público, começaram a ficar frustrados e impotentes por sentirem a dificuldade que seria apresentar um produto jornalístico apelativo. A revista nem teve o seu início…

Vem isto a propósito, de ter ficado surpreendido com a história do diário Hoje Macau.

Perguntei a mim mesmo como é que o Carlos Morais José e a sua equipa conseguiam manter diariamente um jornal com tanta diversidade de informação, com tanta divulgação da cultura chinesa, com tanta história da realidade que foi patenteada durante 500 anos em Macau, com a defesa de uma comunidade macaense que a administração portuguesa nunca soube acarinhar, com raríssimas contestações do que era publicado e com tanta qualidade gráfica, com notícias de grande interesse, com editoriais fulminantes, com colaboradores de um nível excelente, com páginas cheias de publicidade e com capas que estavam ao nível do meu jornal preferido, o Libération.

Bendita a hora em que fui surpreendido. O director do Hoje Macau leu na net o que escrevia no meu blogue e convidou-me para colaborador do seu jornal. Que honra, que satisfação, que desafio, que responsabilidade por ir pertencer a uma equipa de excelência no mundo do jornalismo em terras do Oriente. Obviamente que há cerca de cinco anos aceitei de imediato. A referida responsabilidade que senti fez com que interiorizasse algo que nunca tinha pensado: estar atento ao que se passava semanalmente em Portugal e poder saber escrever para os leitores de um jornal tão prestigiado.

Este mês, o Hoje Macau festejou os seus 25 anos de inserção no mundo do jornalismo com qualidade. 25 anos é muito tempo. Um quarto de século a apresentar novidades de Macau, da China, de Portugal e de todo o mundo. Que trabalho árduo de uma equipa que tem forçosamente de ser de enorme qualidade. Para essa equipa que produz o Hoje Macau sou obrigado, por consciência, a enviar-lhe os maiores encómios, especialmente ao Carlos Morais José, que decidiu encerrar um ciclo e passar a pasta da direcção do diário ao jornalista experiente e grande profissional, o João Luz.

Pela minha parte, se o novo responsável pelo jornal assim o decidir, será com muita dedicação que continuarei a colaborar nestas páginas. Mas acima de tudo, desejo sincera e solidariamente muitas felicidades aos seus mentores e muitos votos de que o Hoje Macau prossiga por mais um quarto de século. Macau, os macaenses, os chineses e todo o público leitor de língua portuguesa merecem e, certamente, desejam que o Hoje Macau possa continuar na senda do êxito. Bem hajam.

P. S. – Enviei ao director João Luz a fotografia que pudesse decorar esta crónica, porque foi a capa do jornal que mais me tocou e agradou. A manchete ‘Dá-me lume’ foi para mim ‘Dá-me força’, ‘Dá-me inspiração’, ‘Dá-me saúde’, ‘Dá-me amor pelos leitores de Macau’.

14 Set 2026

Voltar às aulas sem dinheiro

Mais um ano lectivo vai ter o seu início. Milhares de crianças vão experimentar pela primeira vez o que é ter um professor, o que é uma sala de aula, o que é uma turma, o que é brincar no recreio e ter a sensação de arranjar amigos novos ou sentir o que é bulling. Os liceus e universidades voltam a encher e a ter vida. Por vezes, uma vivência complicada, com professores em greve, com instalações onde chove no seu interior e a presença de “vendedores” de drogas.

Um novo ano lectivo pode ser um martírio para milhares de pais. Para os encarregados de educação que vivem com dificuldades e que recebem apenas o salário mínimo. A criança exige mais um lápis, mais uma mochila, mais um caderno, mais um conjunto de marcadores de cores diversas. É o sonho natural de quem vai frequentar uma escola pela primeira vez ou por mais um ano.

Os pais começam a fazer contas em função do que os filhos precisam de comprar. Os livros são o principal nas contas e muitas vezes podem passar do irmão mais velho para o mais novo. Depende, se o Ministério de Educação, sem consideração pelos mais desfavorecidos, não decide mudar todos os livros para determinado ano escolar. Muitos, são caríssimos para certas bolsas. Há pais, que ao deitarem-se, correm-lhes as lágrimas pela face. Adoram os filhos e não querem que lhes falte nada. Mas o dinheiro não chega para tudo. Começam a cortar na compra de roupa, de certos alimentos, de jantares em restaurantes. Tudo têm de conseguir para que os filhos cheguem à escola e o professor não os traumatize por não possuírem todo o material necessário. Cerca de 43 por cento das famílias portuguesas enfrentam dificuldades financeiras para suportar os custos do regresso às aulas, o que leva 79 por cento dos encarregados de educação a cortar noutras despesas do orçamento familiar.

Acontece que o início do ano lectivo custa em média quase 580 euros por estudante. As famílias sacrificam férias, refeições fora de casa e actividades de lazer para poderem pagar a escola. E uma parte significativa das famílias precisa de recorrer a ajudas de familiares e amigos ou reduzir certos gastos essenciais. Em muitas casas portuguesas, antes do início das aulas, decide-se pela reutilização de vários materiais, tais como, mochilas, estojos, réguas e calculadoras que passam de um ano para o outro. E mais de metade dos pais optam por comprar artigos recondicionados ou usados, apesar de os cadernos e lápis de marca branca reduzirem bastante a factura final.

A pressão financeira associada ao regresso às aulas leva quase oito em cada 10 famílias (79 por cento) a cortar noutras despesas. E isto, é justo? Estamos ou não perante um país pobre onde a maioria do povo sofre por vários motivos? Temos ou não um Governo que se preocupa que a economia do país se baseia na produção e não no turismo? Um Governo que deve concluir ou não que os seus governados são quatro milhões a viver ao nível da pobreza? Um Governo que estuda ou não que todas estas famílias que referimos mereciam um apoio estatal para inscrever os filhos numa escola? Não temos, infelizmente, uma governação que pense que estes estudantes são o futuro do país e nunca um futuro com aqueles que estão sentados nos gabinetes ministeriais a aumentar a sua riqueza, única preocupação da classe política.

As principais despesas associadas ao regresso às aulas concentram-se na compra de materiais (53 por cento), alimentação (46 por cento), roupa (39 por cento), mensalidades e propinas (33 por cento). A pressão sobre o orçamento é ainda agravada pelo peso das despesas fixas das famílias, com 55 por cento dos encarregados de educação a sublinharem que os custos da habitação têm um impacto moderado (36 por cento) a elevado (19 por cento) na disponibilidade para os gastos com a educação.

Regressar às aulas ou entrar pela primeira vez numa escola, nunca devia constituir um sofrimento para os progenitores da malta nova. As dificuldades financeiras para enfrentar algo que devia decorrer na maior normalidade, recordando os custos avultados na compra dos materiais, leva-nos a concluir que não se avista para a próxima década um caminho de progresso e de qualidade de vida para a maioria das famílias portuguesas. Uma situação destas, em que a precariedade existente na maior parte das casas portuguesas, tem forçosamente que envergonhar quem nos governa.

O ensino deve ser o fenómeno humano mais importante na vida de qualquer cidadão. É no ensino que está a escrita, a cultura, a história, a geografia, o desenho, a informática, a literatura, a antropologia e tanto conhecimento que se adquire ao longo dos anos em que se frequentam escolas, liceus e faculdades. Especialmente, a cultura é fundamental para um futuro advogado, arquitecto, engenheiro, professor, jornalista ou mesmo político.

Não admitir esta premissa é virar as costas ao progresso intelectual dos nossos jovens que iniciam uma vida escolar ou que regressam à carteira de uma sala de aula. Com pais sem dinheiro para os filhos estudarem com o mínimo de dignidade é a mesma coisa que fazermos uma festinha a um burro e pensarmos que o animal é muito inteligente…

P.S. – 25 anos é muito tempo. Parabéns, ao bom amigo Director Carlos Morais José e a toda a sua equipa, por mais um aniversário do ‘Hoje Macau’, o melhor jornal de língua portuguesa.

8 Set 2026

Há crimes todos os dias

Acabei de enviar uma missiva ao director nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP) perguntando-lhe se ele vive num barco no alto mar ou se trabalha no seu gabinete em Lisboa. Isto, porque a PSP difundiu um resultado sobre a criminalidade sublinhando que a mesma diminuiu no último ano. Não é essa a percepção do povo porque há crimes todos os dias.

E alguns, muito violentos e de cariz internacional. Os gangues proliferam em Portugal e, bem organizados, com conexão a outros países da Europa e da América Latina. Tráfico humano para exploração. Venda de armamento e de drogas. Carteiristas por todas as cidades. Assaltos a ourivesarias e casas de penhores, uma panóplia de crimes que na sua maioria obtém êxito e os criminosos conseguem fugir.

A semana passada foi pródiga em assaltos semelhantes ao que é normal no Brasil. Os novos ricos e exibicionistas de riqueza – muitos que levaram uma vida entrosada em actos ilícitos de corrupção – vão para as esplanadas dos cafés conversar com os amigos e exibem os relógios que valem mais de 100, 200 e até 300 mil euros. Ora, os gangues estudam esses exibicionistas, seguem-lhes o rasto e se os apanham parados num semáforo, apontam-lhes uma pistola e sacam o relógio de luxo e o que o novo rico mais possuir de valor.

Outros meliantes, sempre encapuzados, para que as câmaras de vídeo-vigilância não captem a sua identidade, estudam os hábitos de proprietários e de clientes de ourivesarias e casas de penhor, e com um carro roubado em Espanha ou em França, aproximam-se do local estudado e cá vai disto. Levam todos os valores em ouro, prata ou diamante.

O estudo dos gangues sobre as presas potenciais a atacar é de tal forma eficiente que o gangue consegue saber que um indivíduo vai com a sua mochila carregada de ouro no valor de cerca de 100 mil euros para depositar numa casa de penhores, como aconteceu em Lisboa no bairro de Alvalade, aproxima-se da pessoa e roubam-lhe a mochila e todo o ouro. Fogem em menos de um minuto e passados cinco minutos é o espectáculo ridículo: chegada de vários carros da PSP e de investigadores da PJ que se limitam a meter a viola no saco, porque provas nem vê-las.

O povo está preocupado. Os crimes aumentam diariamente. Na baixa lisboeta já os assaltos passam das marcas. Dezenas de indivíduos percorrem o Terreiro do Paço, a Rua Augusta e o Rossio a vender drogas falsas e se algum turista se nega a comprar poderá ir parar ao hospital baleado furtivamente ou esfaqueado. Nós próprios, quando estivemos uma semana e meia em Lisboa, fomos abordados na Rua Augusta por cerca de 10 fulanos que pretendiam vender droga. Os agentes policiais sabem bem o que sofrem devido à falta de meios e o seu director nacional devia preocupar-se em sensibilizar os intervenientes da Justiça que um agente policial quando dispara a sua arma não pode ser incriminado como um “criminoso negligente”.

Há muito, que as pessoas começaram a ficar preocupadas. Que o digam os vizinhos de jogadores de futebol que pertencem ao Benfica, Futebol Clube do Porto ou Sporting que têm assistido aos mais variados assaltos às suas casas e que ficam sem a totalidade dos valores que tinham em casa. Quase todos os casos não vieram a público, mas o país tomou conhecimento cabal do que aconteceu a dois jogadores do FC Porto.

E há casos muito mais graves que as autoridades policiais têm conseguido “abafar” do conhecimento público: carrinhas de transporte de dinheiro para as máquinas ATM ou de um banco para outro, que são assaltadas profissionalmente à bomba, sendo roubados milhões de euros e onde os assaltantes têm um avião a jacto privado, estacionado em Tires, de onde levantam voo para destino desconhecido.

A criminalidade está absolutamente associada à falta de segurança e não nos venham dizer que o país é seguro, porque não é verdade. Tivemos o exemplo de Albufeira, onde uma artéria repleta de turistas foi invadida por um carro a grande velocidade por um condutor embriagado e com carta de condução falsa. Na Rua da Oura ficaram prostrados no chão vários feridos e alguns estão hospitalizados em estado grave. Qual a razão da Rua da Oura, famosa já em vários países, pela quantidade diversificada de bares e discotecas, não estar completamente encerrada com barras de cimento ao trânsito rodoviário? Qual a razão de a mesma artéria não ser apenas de uso pedonal? Neste caso, já o presidente da Câmara Municipal, do Chega, não manda palpites de eficiência. Para o edil da extrema direita o mais importante é expulsar de Portugal os “bandidos” dos imigrantes. A criatura, no entanto, não explica quem é que depois trabalhava nos hotéis, restaurantes, bares, hospitais, construção civil e na agricultura.

Um conselho aos leitores de Macau que venham de férias a Portugal: não usem a mochila às costas, deve sempre estar pendurada junto ao peito, porque os assaltantes são peritos em abrir as mochilas e roubarem a carteira que normalmente é colocada na divisão mais exterior. É que em Portugal, o crime começou a compensar.

1 Set 2026

Vender o filho de seis anos

Ao fim de 290 semanas de estar em contacto com os amigos leitores do ‘Hoje Macau’ escrevendo sobre este Portugal, nunca esperei que chegasse um dia em que algo de imensamente chocante viesse a lume como um episódio verdadeiro e exclusivo nas páginas de um jornal. Aviso prévio: que todos os pais que tenham filhos menores não lhe caiam as lágrimas pela face, tal como nos aconteceu, ao lerem o que vos vou divulgar.

Passei uma semana em Lisboa, em casa de um casal de sobrinhos e ao ir tomar café com um vizinho de longa data, a dado momento, ele disse-me: “Você que tem um blogue e que divulga o que se passa no nosso país e no mundo, vou-lhe contar um caso do mais chocante que tive conhecimento na vida”. Fiquei ansioso e aguardei por ouvir o que me tinha para contar.

Aconteceu que um filho de um amigo do meu interlocutor, um jovem de 30 anos, que é acompanhante de luxo profissional e tem anúncio dos seus préstimos num site de gays, um dia, recebeu uma mensagem de uma criatura perguntando-lhe se estava interessado em ganhar 150 euros por hora, para se deslocar a sua casa a fim de ter sexo anal com o seu filho de seis anos de idade. O jovem ficou chocado e respondeu que apenas fazia serviços com maiores de 18 anos. Nunca imaginou tal desplante.

A partir desse momento, começou a trocar mensagens com a criatura deplorável na tentativa de obter o maior número de informação para poder tomar uma posição sobre o que para ele era um crime infame. Numa mensagem, o pai da criança afirmou que não havia problema nenhum porque o seu filho “já estava acostumado” a ter sexo anal e oral com ele (pai) e inacreditavelmente com outros homens que já lá tinham ido a casa para o efeito e que não se importavam de abusar sexualmente do filho porque eram bem pagos.

O acompanhante de luxo insistiu na recolha de mais informação e conseguiu que o pai da criança escrevesse o seu nome, a morada e até o andar do prédio onde residia. Mensagens escritas e de voz, fotografias do pai e da criança, ficaram totalmente registadas no telemóvel do acompanhante de luxo, o qual durante dois dias nem conseguiu dormir só de pensar que um pai vendia assiduamente o corpo de um filho com apenas seis anos.

Agora, que os amigos leitores ficaram certamente chocados e perplexos, adiantamos algo de ainda mais surpreendente. O acompanhante de luxo ligou para a esquadra da PSP do seu bairro e contou ao agente que o atendeu, tudo o que tinha acontecido. O agente policial perguntou se tinha provas do que acabara de afirmar. O acompanhante de luxo salientou que estava na disposição de se deslocar à esquadra policial a fim de se identificar pessoalmente, de mostrar todas as mensagens, gravações e fotos trocadas com o pai criminoso. O agente limitou-se a responder que iriam averiguar o assunto.

Como o acompanhante de luxo, entretanto, tinha fornecido o nome do pai criminoso e a morada, o agente policial acrescentou que mais tarde se se confirmasse o descrito que contactavam o acompanhante de luxo para se deslocar à esquadra e abrir-se um processo para que o pai criminoso fosse presente à Polícia Judiciária.

Passaram seis meses e o acompanhante de luxo estranhou que não tivesse sido contactado pelas autoridades policiais. Ligou para a esquadra e ao abordar novamente o assunto gravíssimo do que se tratava, responderam-lhe que seria melhor contactar com a Polícia Judiciária, sem que tivesse sido informado das diligências que a PSP tinha realizado.

O acompanhe de luxo salientou ao meu interlocutor, quando descreveu o que tinha acontecido, ter ficado com a sensação que na esquadra policial não teriam dado muita importância ao caso por, talvez, ser já habitual receberem queixas semelhantes e que o facto de não o terem contactado poderia estar ligado à investigação que se teria deparado com alguma personalidade “importante”.

Não, meus amigos, isto não pode acontecer. Violação sexual contínua de um menor de seis anos, incluindo pelo tarado do próprio pai. Uma autoridade policial que não notifica o denunciante para que se abra um processo criminal. Não se saber se o pai criminoso foi detido e presente ao tribunal. Se a criança continua a sofrer os abusos de crápulas que por 150 euros à hora se deslocam a casa do menor e o violam. Se na realidade, existirão tantos casos semelhantes. Estamos perante uma panóplia de interrogações, todas de cariz gravíssimo e que acontece na capital do nosso país.

A depravação sexual direccionada para o abuso de menores tem sido divulgada na comunicação social. Mas, nunca houve conhecimento público de que um pai, certamente com perturbação mental, vendesse o corpo do seu filho com seis anos. Chocante, perturbador e surpreendente quando um denunciante ainda não conseguiu que um bandido fosse incriminado.

P. S. – Contactámos uma associação de defesa de menores que nos prometeu ir entrar em ligação com o meu interlocutor, a fim de obter um depoimento do acompanhante de luxo.

24 Ago 2026

Eclipse e Popoi

Dois fenómenos invulgares aconteceram em Portugal e mobilizaram milhares de pessoas. O eclipse solar total não era visto em território português desde 17 de Abril de 1912. Desta vez, mobilizou milhares de pessoas, de todas as idades, para ver um fenómeno que só volta a acontecer em 2144. Os óculos especiais para ver o eclipse esgotaram.

Em Rio de Onor, Bragança, o Sol desapareceu por completo para gáudio de centenas de curiosos que se deslocaram ao local incluindo os maiores especialistas de astronomia. Houve palmas, gritos de alegria e a festa prolongou-se pela noite fora a fim de observar uma chuva de estrelas que ocupou todo o firmamento.

O eclipse solar total ocorre quando a Terra, a Lua e o Sol estão perfeitamente alinhados, e a Lua oculta completamente o disco solar por alguns momentos. Ao longo dos séculos, os chineses dedicaram esforços consideráveis à previsão de eclipses, sendo a astronomia uma actividade governamental durante a China Antiga. O papel do astrónomo era acompanhar os movimentos solares, lunares e planetários e explicar o seu significado simbólico ao Imperador no poder.

Segundo dados históricos, o registo mais antigo de um eclipse solar provém do tempo em que os astrónomos chineses realizaram estudos. As datas estimadas estariam entre 2165 e 1948 a.C., mas a data mais aceite será em 2137 a.C. No entanto, foi no século XIX que as primeiras expedições científicas foram organizadas para observar eclipses na Europa. O eclipse total de 28 de Julho de 1851 atraiu observadores para o norte do continente europeu e foi responsável pelas primeiras fotografias bem-sucedidas de uma coroa solar.

Portugal conta com vários astrónomos e astrofísicos de renome mundial que se distinguem em investigação de ponta, quer a trabalhar em instituições nacionais quer em importantes centros internacionais e missões espaciais globais.

Há que distinguir nomes tais como Rui Agostinho, professor na Universidade de Lisboa e figura central na divulgação científica e na gestão do Observatório Astronómico de Lisboa; David Sobral, astrofísico e professor na Universidade de Lancaster (Reino Unido), reconhecido internacionalmente pelos seus estudos em evolução de galáxias e cosmologia e Hugo Messias, investigador associado ao Observatório ALMA (Chile), que integrou a equipa internacional responsável pela primeira imagem de um buraco negro. Uma coisa é certa, nenhum dos milhões de pessoas que em Portugal e Espanha observaram o eclipse solar total da semana passada irá cá estar em 2144 quando o fenómeno se repetir.

Um outro fenómeno peculiar, que foi notícia a nível mundial e que ocorreu no Zoo de Vila Nova de Gaia, foi o nascimento do Popoi, um hipopótamo-pigmeu, cuja espécie encontra-se em extinção. Para os amantes da defesa das espécies animais foi uma alegria estonteante. Todas as televisões acorreram ao zoo para filmar o “bebé” Popoi.

Este nascimento foi muito raro e importante porque apenas cerca de um em cada dez filhotes desta espécie nasce macho. Estes hipopótamos-pigmeus, encontram-se em perigo de extinção e restam apenas cerca de 2000 a 2400 animais em todo o mundo. A sua origem vem das florestas e pântanos da África Ocidental como na Libéria. A sua diferença para um hipopótamo comum deriva de ser muito mais pequeno, pesa até 270 quilos (em vez de toneladas) e tem hábitos mais solitários e terrestres. As tratadoras do zoo de Gaia, que vivem uma alegria imensa, já começam a pensar no dia triste em que o Popoi irá para outro zoo internacional a fim de continuar a reprodução da espécie.

Na verdade, numa só semana Portugal foi falado em todo o mundo por estes dois fenómenos da natureza. Valha-nos o eclipse e o Popoi, porque ultimamente as notícias sobre a vida dos portugueses apenas se têm baseado em casos e casinhos políticos que deixam a imagem do país pelas ruas da amargura.

17 Ago 2026

Todos os dias morrem na estrada

Os condutores portugueses são considerados dos piores da Europa. As razões são múltiplas. Desde Janeiro, já morreram nas estradas portuguesas 300 pessoas. Os feridos são milhares. Estamos perante uma média de mais de uma pessoa que morre por dia nas estradas nacionais e autoestradas.

Este número é confrangedor porque os acidentes são diários e incluem motociclos. A GNR leva a cabo assiduamente campanhas de sensibilização e informação sobre o cumprimento do código da estrada. De nada servem essas campanhas. O mal tem início nas escolas de condução e nas mafias organizadas que conseguem vender licenças de condução sem que os condutores realizem exames. As escolas de condução, com excepção para a do Automóvel Clube de Portugal, limitam-se a levar os instruendos a percorrer as ruas onde já sabem que se vai realizar o exame.

Os futuros condutores tinham de aprender a controlar um carro a uma velocidade igual à que no futuro lhes é permitida. Numa auto-estrada a 120 km/h, em vias rápidas a 80 e a 100 km/h, em caso de problema repentino numa auto-estrada, 80 por cento dos condutores não sabem reduzir de 120 para 40 km/h manuseando competentemente a caixa de velocidades. E muito menos, não sabem que numa curva não se trava. A travagem é feita antes da curva e ao longo de uma curva tem de se manter uma aceleração controlada. Nada é ensinado em piso molhado. Os instruendos na sua maioria não sabem o que é um water planning e que, nesse caso, nem pensar pôr o pé no travão.

O que é que aprendem nas escolas de condução se depois aquilo a que assistimos é chocante. Raramente se vê um automobilista fazer pisca-pisca quando muda de faixa de rodagem ou vai virar à esquerda ou à direita. Constantemente observa-se um grande número de condutores a ultrapassar outro veículo onde na estrada encontra-se um risco contínuo, que proíbe terminantemente que seja pisado. Condutores que ultrapassam em lombas de estrada sem qualquer visão do que o trânsito contrário poderá trazer. Condutores que não fazem a mínima ideia de que nos semáforos o sinal amarelo é para abrandar e parar. O que vemos é centenas de condutores portugueses a passar o sinal vermelho.

A maioria dos condutores faz uma viagem e não se preocupa com a revisão do carro ou a calibragem dos pneus. Como é possível que seja concedida a carta de condução a um cidadão, sem que a entrega do documentos apenas seja concedida quando o futuro condutor apresentar o registo do carro que adquiriu e o respectivo seguro? Em muitas operações stop da GNR os militares detectam dezenas de condutores sem seguro obrigatório. E a falta de civismo leva muitos condutores a percorrer Portugal sem carta de condução.

Um outro aspecto que tem provocado dezenas de acidentes são os condutores que numa auto-estrada com três faixas de rodagem não respeitam o código e ao rolarem em velocidade reduzida serem obrigados a conduzir na faixa da direita. Não, antes pelo contrário, vão a 60 km/h na faixa do meio e a 80 km/h na faixa da esquerda. Mas, foi isto que aprenderam nas escolas de condução? Não acreditamos ou, então, os instrutores não mentalizaram os instruendos de que esse comportamento na estrada é grave e perigoso.

Por outro lado, temos agora incidentes graves nas ruas de Lisboa e Porto, porque a violência ao volante tem aumentado de uma maneira execrável. Condutores que apitam por tudo e nada. Ofendem o condutor da frente. Se se trata de uma mulher ao volante, o caso é indigno. Vociferam os impropérios mais rudes e insultam as condutoras com os palavrões mais graves. Esses, são os tais 80 por cento que nunca deviam ter tido carta de condução.

E mais: a tristeza de uma família que teve conhecimento que o seu idoso ou a sua criança foram atropelados numa passadeira de peões com a agravante de o condutor ter fugido. Há efectivamente razão para afirmar que em Portugal se conduz muito mal. E temos ainda a inconsciência de certos pais novos-ricos que ao menino de 21 anos oferecem um Ferrari e depois choram no velório porque o menino desfez o Ferrari contra uma árvore.

Não podemos deixar ainda de salientar o desrespeito da maioria dos condutores pelos ciclistas. O código da estrada obriga que a ultrapassagem a um ciclista seja efectuada com uma distância de 1,5 metros. Quase ninguém cumpre e os acidentes mortais de ciclistas têm sido uma constante lamentável.

Por seu turno, o maior “crime” que se verifica na condução automóvel actualmente são os condutores que vão ao volante a falar ao telemóvel ou a ler e a enviar mensagens. Essa distração tem provocado um número incalculável de acidentes.

As autoridades ligadas ao trânsito rodoviário têm a obrigação de mudar as regras com o intuito de diminuir o número de mortes nas estradas. Condutor que passa com o sinal vermelho; que não respeita uma passadeira de peões, atropela e foge; que ultrapassa numa estrada onde existe risco contínuo e os que rolam na faixa esquerda de uma auto-estrada a velocidade reduzida, a todos estes, tem de passar a ser-lhe retirada a carta de condução para sempre. Há mínimos exigíveis para se mudar o caos verificado nas nossas estradas e os agentes da Brigada de Trânsito não podem condescender em nada relativamente a condutores que apenas deviam andar de trotineta…

10 Ago 2026

Descontrolados

A palavra que mais se ouviu na semana passada foi “descontrolados”. Incêndios descontrolados por vários locais do país. O inferno das chamas e o sofrimento das populações é uma realidade anual assim que chega a época do calor. Bombeiros são aos milhares e não chegam para as encomendas. E Portugal tem bombeiros voluntários, o que não acontece em Espanha e França.

Imaginem se não tivéssemos esses soldados da paz que arriscam a vida somente por solidariedade. Existem as mais diversas instituições ligadas a catástrofes, mas as relacionadas com as nossas florestas andam o Outono, Inverno e Primavera a ver futebol. O que fazem para abrir caminhos na floresta? O que fazem para organizar a limpeza de terrenos? O que fazem para organizar o apoio logístico na época de incêndios? O que entende a Protecção Civil por meios adequados a facilitar o trabalho dos bombeiros e da GNR, nomeadamente no âmbito das telecomunicações?

O que se vê são hectares a serem dizimados por fogos completamente descontrolados. Muitos meios aéreos a não poderem actuar por falta de visibilidade. Casas a arder e pessoas desesperadas com uma mangueira ou um balde na mão como se isso fosse apagar chamas que chegam a atingir 10 metros de altura. Animais a morrer queimados. Plantações agrícolas que já foram. Bombeiros deitados no chão com uma sandes e uma garrafa de água oferecido por um morador. Estradas e autoestradas cortadas.

Um amigo nosso, com 83 anos, médico que cumpriu serviço militar numa das ex-colónias, vivia na sua bela quinta em Mirandela, uma pérola com mais de 300 anos que lhe ficou dos antepassados. A quinta tinha uma moradia maravilhosa, uma adega onde se produzia um vinho de excelência, um anexo onde se fabricava artesanalmente alheiras e outros enchidos, uma vinha excepcional, todas as árvores de fruto, oliveiras e um galinheiro com vários animais. O fogo chegou à quinta e os bombeiros não puderam passar. As chamas devoraram tudo. Ficou sem nada. Ligou-nos de casa de um irmão a contar o sucedido e a dizer que tinha morrido…

Os incêndios têm de ter um combate importante: a prisão por muitos anos de todos os pirómanos que são apanhados pelas autoridades e apresentados à justiça. O crime de fogo posto é hediondo e não merece qualquer perdão. As populações e as autoridades sabem que um incêndio que tem início às três horas da madrugada, com alguma humidade no ar, é um acto de mão criminosa.

A saga dos incêndios deixa milhares de portugueses em pânico, em dificuldades de alojamento e os mais idosos que são evacuados dos lares perdem alguns anos de vida que lhes restavam. A grande maioria dos incêndios registados em Portugal teve mão criminosa. É um facto real. O Governo tem de facilitar mais meios e melhor salário aos guardas florestais. Eles têm de trabalhar de noite e esse trabalho deve ser bem pago. Sem uma vigilância constante e profícua nunca mais terminará o flagelo dos fogos.

A lista de localidades atingidas pelos incêndios é quase inacreditável, mas o sofrimento das gentes esteve patente em Concelhos como Gouveia, Paredes, Torre de Moncorvo, Póvoa de Varzim, Vila Nova de Gaia, Porto de Mós, Chaves, Celorico da Beira, Penafiel, Pombal, Valpaços, Marinha Grande, Vouzela, Viseu, Pedrógão Grande, Ansião, Aveiro, Leiria, Guarda, Almeirim, Mirandela, Bragança, Vila Verde e tantos, tantos outros. É impressionante.

Que o Governo não cruze os braços e que o ministro da tutela deixe lá os atrelados e as piscinas e procure uma coordenação futura de modo a que o país não fique sem florestas e que não hajam mais portugueses a ficar apenas com as calças e as camisas…

3 Ago 2026

Não vou de férias

O primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou ao país que não iria de férias de Verão. Dando a entender que desejava dedicar-se aos problemas da governação de “corpo e alma”. Saiu-lhe o tiro pela culatra. O povinho como não é estúpido, e muito menos arrogante, percebeu logo a atitude do chefe do Executivo. Uma autêntica tentativa de limpar a sua imagem de governante máximo que, por três vezes, foi para as bancadas do Mundial de futebol no EUA, quando o país estava em estado de alerta a arder em vários locais e milhares de portugueses em pânico.

Ou quando foi divertir-se para o concerto musical NOS Alive estando milhares de alunos em apuros com a vergonhosa digitalização das provas de exames. Uma decisão de político chico-esperto. Em primeiro lugar, todo o funcionário tem direito a férias e Montenegro não é excepção. Segundo, os seus ministros estão a banhos nas praias do Algarve ou nas piscinas dos seus montes alentejanos.

Se Montenegro não goza férias no Verão a que tem direito poderá deduzir-se que em meio ano já gozou e descansou bastante com as viagens a Bruxelas, Itália, Grécia e aos EUA. O mais intrigante é que uma fonte do seu Gabinete afirmou que o patrão não iria gozar férias para “coordenar a actividade do Governo”. Só para rir. Se os ministros estão a banhos como é que Montenegro coordena o Governo? Ah, já fazemos uma ideia…

O primeiro-ministro tem imenso trabalho pela frente. Tem que pensar o que fará ao seu ministro da Educação que se lembrou de executar de um ano para o outro a digitalização das provas de exames, um facto que em Inglaterra demorou 15 anos e em França 10. Montenegro terá de reflectir como foi possível que alunos soubessem os resultados das suas provas à meia-noite e para muitos o resultado era absurdo: as pautas mostravam -3; Zero e suspenso. Reflectir como é que centenas de famílias tiveram de alterar todas as férias já marcadas e pagas, porque os alunos não sabiam os resultados, não sabiam se tinham de ir à segunda fase e quando é que se podiam inscrever no ensino universitário. Com a agravante de se terem visto agentes da PSP em funções de estivadores a carregar caixotes de papelão, quando as patrulhas escasseiam nas ruas.

Montenegro terá muito trabalho na secretária sobre o que se passa com a sua ministra da Saúde, que é a governante mais incompetente que deve ter aparecido desde o 25 de Abril de 1974. O chefe do Executivo tem de meditar sobre os portugueses que têm morrido por falta de socorro do INEM, por este instituto ter veículos de urgência médica avariados; pela quantidade de partos que têm acontecido em ambulâncias porque as mães têm as maternidades da zona onde residem encerradas; pelas imensas horas de espera em qualquer urgência hospitalar; pelas consultas que levam meses para serem atendidas e as cirurgias só ao fim de mais de um ano.

Montenegro tem de debruçar-se sobre o seu ministro das Infraestruturas. Pinto Luz fala, fala, diz que faz, inaugura o que estava planeado há anos, diz que volta a fazer, mas o aeroporto de Alcochete talvez lá para 2045, o TGV entre Lisboa e Badajoz deve ter sido um sonho do governante, o mesmo que anuncia uma terceira ponte e um túnel entre Lisboa e a Margem Sul.

Milhares de milhões de euros em causa, mas as reformas miseráveis de 300 euros continuam a granel. O mesmo ministro que agora está na baila porque, ao exercer o seu cargo anterior como vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, aprovou a venda de um terreno valiosíssimo na marginal por uma ninharia escandalosa, onde agora subiu a construção de um hotel Hilton e de mais dezenas de apartamentos…

Montenegro irá certamente à sexta-feira para Espinho e irá banhar-se nas águas do mar do norte, e à noite, irá visitar os seus amigos do casino Solverde. Regressa na segunda-feira a Lisboa para pensar como é que o seu amigo ministro da Administração Interna está metido num buraco sem fundo, enquanto foi director nacional da Polícia Judiciária.

O homem alegadamente concedeu mais de 10 ajustes directos de obras na PJ a um amigo empreiteiro e o mais grave é que deixou o empreiteiro levar um camião que a PJ tinha apreendido a uma rede mafiosa de tráfico de droga com material perigosamente inflamável. Luís Neves, de sua graça, ainda está nas bocas do povinho por na função de ministro ter dito ao seu amigo empreiteiro que lhe construísse uma piscina no monte alentejano e que realizasse mais umas obras em casas que a família detém. Tudo isto, sem nunca declarar o seu património.

Montenegro não pode deixar de meditar na derrota que a sua ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social obteve com o infame pacote laboral, do qual nem vale a pena falar, porque os desmandos dessa governante são tantos, que já se fala em pretender retirar aos reformados o subsídio de Natal.

Enfim, uma baralhada de casos graves que obviamente têm de levar Montenegro a anunciar que não vai para o Algarve de férias. E ainda poderá existir outra razão para Montenegro “suar” durante o mês de Agosto. Sabe-se lá, se não irá rebentar mais alguma “bomba” com um qualquer ministro e Montenegro tem de estar no seu posto para responder logo aos “malandros” dos jornalistas. Ou serão, das duas, uma? Ou Montenegro não vai de férias em Agosto porque sabe que no interior do PSD há quem lhe queira espetar a faca nas costas e que tem de ficar por Lisboa a controlar as conspirações ou o primeiro-ministro pensará numa já demorada remodelação ministerial?

Sabe que mais, senhor primeiro-ministro? O senhor não goza férias de Verão por uma qualquer conveniência política, mas milhares de portugueses não podem ter férias de Verão porque nem dinheiro têm para o bilhete do autocarro…

27 Jul 2026

No melhor pano cai a nódoa

Quando um homem português se põe a pensar pode ser assim: Dei por mim a pensar nos tempos de infância e adolescência. E até nos corredores do liceu e da faculdade onde fiz vários amigos. Nas brincadeiras de rua conheci o Zé, que mais tarde quando acabou a tropa optou por ser empreiteiro de obras públicas. Eu segui a minha vida e um dia fui para director da Polícia Judiciária. Um cargo levado dos trabalhos. Não foi nada fácil lidar com agentes, inspectores, directores de departamentos, procuradores e políticos. Os contactos e as pressões políticas são mais que muitas. A luta que se tem de travar com o segredo de justiça é constante e é quase impossível evitar fugas de informação. As mafias que reinam em Portugal são do mais diverso cariz e origem, especialmente as colombianas e brasileiras. O tráfico de seres humanos e de drogas ocupam grande parte do trabalho de todo o pessoal na polícia que investiga o crime. A pesquisa informática dos hackers criminosos e dos pedófilos é um trabalho minucioso e cansativo. Por vezes, existem casos que nos chocam profundamente porque envolvem pessoas que conhecemos. Outras vezes, o pessoal sente-se desgostoso porque andou meses ou anos a investigar um caso, conseguiu as provas, deteve os fulanos que supostamente cometeram crimes (de corrupção nem falar) e depois os juízes nas barras dos tribunais mandam-nos em liberdade ou com penas suspensas.

Ser director de uma Polícia Judiciária deve ser dos cargos mais incómodos e até perigosos. Vocês dirão que temos guarda-costas e que ganhamos bem. Certo. Mas, por vezes não compensa. As reivindicações do pessoal são imensas. E na maioria dos casos tem razão. Para comprar carros novos inventa-se dinheiro sei lá aonde. Para reparar uma delegacia que precisa de obras é um problema que leva um tempo quase infinito. Agora, por falar em obras. Quando em Bragança e em Beja me disseram que as delegacias estavam a cair de podre, que chovia no seu interior e que os inspectores queriam ir para uma greve de braços caídos, dei por mim a pensar que tinha de fazer alguma coisa rapidamente. Foi então, que me lembrei do meu amigo Zé, o empreiteiro de obras públicas que até tinha fama de bom profissional, apesar de já ter tido uns problemitas e, sendo meu amigo lá da terrinha, iria certamente cumprir a preceito as obras necessárias nas delegacias. Nunca tive melhor ideia. O Zé empreiteiro foi um ás e o pessoal ficou todo contente. E ele, igualmente satisfeito porque mamou dos trabalhos mais de dois milhões de euros do Estado.

Como a vida dá muitas voltas, um dia recebi um telefonema de um primeiro-ministro, que por sinal tinha um problema bicudo em investigação, mas que eu tudo fiz para o ir passando para as calendas. Esse chefe do Executivo veio convidar-me para ministro. Oh pá, isso é algo que não podes negar, pensei logo para mim próprio. E assim foi. Tomei posse como ministro, tendo a noção de que as críticas iriam surgir devido ao facto de uma pessoa passar da investigação judicial para mandar nas polícias. O trabalho ia de vento em popa e até em alguns círculos dizia-se que eu estava a ser o melhor ministro, passe a imodéstia.

Qual não foi o meu espanto, quando certa manhã, quando estava a fazer a barba, o meu filho entra aos gritos pela casa de banho: “Ó pai, que ganda merda, está aqui um jornal e um cabrão de um jornalista a arrasar-te! Diz em manchete que puseste o teu amigo Zé empreiteiro a fazer as obras das nossas casas e as piscinas no nosso monte do Alentejo sem pedires licença à Câmara Municipal… e que deste ao empreiteiro o camião que foi apreendido pela tua PJ no tráfico de droga… isto é uma ganda bronca e as televisões já estão todas a falar no assunto e a dizer que há conflito de interesses e que deves pedir a demissão!”. Fiquei atónito e apenas respondi: “Mas tu não tinhas ameaçado esse cabrão do jornalista?”. O meu filho, retorquiu: “Sim, pai! Até atravessei o carro à frente do carro do gajo e disse-lhe que se escrevesse alguma linha contra ti que o atirava ao mar!”.

Não tive outro remédio senão ir para as televisões tentar desculpar-me e dizer que mal conhecia o empreiteiro, que sobre as obras na PJ assinei de cruz, que iria mostrar todos os comprovativos de despesa e tudo o que fosse necessário para me limpar. Não consegui. As televisões e jornais não me largam e continuaram toda a semana a falar no assunto. Alguns até já dizem que recebi umas luvas do Zé empreiteiro para ele conseguir todas as obras nas delegacias e que lhe dei obras por ajuste directo. A coisa está preta para o meu lado, mas em Portugal o tempo é que conta. Estou convencido que a falta de água na Caparica e os incêndios acabarão por fazer esquecer este meu erro de escolher o Zé empreiteiro para as obras das minhas casas, porque à boa maneira do costume político português, pedir a demissão é que não me interessa nada. Foi só uma nódoa que caiu na minha toalha de mesa…

20 Jul 2026

ai, portugal, portugal

O nosso país pretende ser uma cidade, mas é uma aldeia. Pretende ser do primeiro, mas é do terceiro mundo. Com uma agravante: é um país ao Deus dará.

Os incêndios voltaram mais uma vez, mal chegou o calor. Com gravidade. Fogos que se iniciaram às três horas da madrugada. Obviamente pela mão de pirómanos que o tribunal se encarrega de enviar em liberdade. Com bombeiros feridos. Com casas queimadas. Com moradores sem dormir vários dias. Com o rendimento de uma horta, de um rebanho ou de uma vindima que desaparece de um dia para o outro. E ao Deus dará porque o primeiro-ministro ao mesmo tempo que o país estava em tragédia governava a partir de uma qualquer bancada de um estádio de futebol norte-americano.

Na Costa da Caparica os habitantes já desesperam há anos com a falta de água. A Câmara Municipal de Almada socialista está debaixo dos maiores protestos e revolta da população. As pessoas não têm água para beber, para tomar banho, para cozinhar. Os restaurantes fecham os WC e as portas devido à falta de água. As escolas e infantários encerram porque não há água. O centro de Saúde suspendeu as consultas e tratamentos médicos por falta de água. E isto, não é terceiro mundo? Para a presidente da Câmara de Almada parece que nada se passa no Concelho. Nem responde às várias associações de moradores, nem a certas perguntas pertinentes dos jornalistas. Sem dúvida, uma Câmara ao Deus dará. Pela falta de água a política já está em guerra. Para a edil almadense a culpa é do Governo. Para o Governo a culpa total é da presidente da Câmara de Almada. Esta discussão dá vómitos porque a solução do problema não existe de nenhuma das partes.

Em Viana do Castelo a decisão camarária brada aos céus. A edilidade decidiu que nas freguesias a luz eléctrica pública fosse desligada entre as 3:00 e as 5:00 horas. Aldeias totalmente às escuras. Os moradores estão revoltadíssimos. O perigo de assaltos é constante e a possibilidade de violência contra quem regressa do trabalho por turnos é uma possibilidade que amedronta quantos vivem essa situação. Ao estilo de terceiro mundo, a edilidade justifica esta medida absurda como a poupança de energia. Então, para que serviu a poluição das montanhas com os monstruosos geradores eólicos justificados que resultaria em energia “á farta” para todo o país. Geradores eólicos que daqui a 20 anos ficarão abandonados pela paisagem como lixo ao Deus dará. Não lembrava nem ao diabo cortar a electricidade pública a milhares de pessoas. Não é um fenómeno do Entroncamento… mas sim de Viana do Castelo.

Outro fenómeno triste, é o que se passa na Carris Metropolitana, uma marca que unifica os transportes públicos rodoviários da Área Metropolitana de Lisboa. Gerida pela empresa Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) que abrange 18 municípios. Esta TML também parece andar ao Deus dará quando coloca uma “miúda” de 28 anos sem qualquer experiência a conduzir um autocarro cheio com cerca de 30 vidas e que troca os pedais. Bem, os pedais de uma viatura automática. Apenas tem dois pedais. Um, para acelerar e outro para travar. E a motorista acelerou em vez de travar e foi matar duas pessoas e ferir cerca de 20, inocentes que estavam na paragem do autocarro a aguardar a ida para o trabalho. Se um veículo automático é conduzido desta forma, imaginamos o que serão estes tipos de motoristas a conduzir um carro manual com três pedais, embraiagem, travão e acelerador…

Mas a TML está a ser criticada por colocar na zona de Sintra, nas estradas estreitas de Colares, Praia Grande, Praia das Maças, Azenhas do Mar, Fontanelas e outras terras, autocarros enormes de 40 passageiros quando nunca transportaram mais de 10 utentes e que podiam colocar ao serviço apenas autocarros de dimensão menor. Esses autocarros da Carris Metropolitana rolam a velocidade excessiva, em estradas que em alguns locais não cabem dois carros ligeiros. Esses autocarros têm motoristas irresponsáveis e desumanos. Crianças que se encontrem na paragem e que fazem sinal para parar, os funcionários da TML limitam-se a não parar para poderem cumprir o horário. Vergonhoso e desumano, foi o que se passou numa paragem entre Colares e a Praia das Maças. Uma criança de 12 anos foi na sua pequena bicicleta para uma explicação escolar. No regresso a casa, um pneu da bicla furou. A criança foi para a paragem do autocarro da Carris Metropolitana e pediu ao motorista que a deixasse entrar com a sua bicla que furou um pneu, já que a sua casa era apenas em duas paragens à frente. O “simpático” motorista respondeu à criança: “Vai a pé!”.

Na Educação é que o país está mesmo ao Deus dará. O atraso nas correções dos exames tem promovido protestos por todo o lado de professores, alunos e seus pais. Pedem a demissão do ministro e os manifestantes afirmam que “a incompetência nesta área é total”.

Ao Deus dará continua a área da Saúde. Um cidadão dirigiu-se para o hospital de Portalegre e queixou-se de fortes dores no peito. A triagem entregou-lhe a pulseira verde (a de menos importância) e o homem passado um pouco de tempo morreu.

Tudo isto, revolta cada vez mais as populações.

O país tem mesmo que estar ao Deus dará, porque muitos portugueses que ficaram sem nada nas tempestades de Janeiro, em Leiria e Marinha Grande, ainda não receberam as indemnizações prometidas…

13 Jul 2026

LÁ PASSARAM

A selecção nacional de futebol conseguiu passar para os oitavos de final do Mundial 2026. O Mundial está ao rubro e os milhões de portugueses amantes de futebol têm sofrido como nunca. Por uma simples razão. Não temos treinador. Os jogadores de nível superior internacionalmente jogam o que sabem e o que desenvolvem em campo, especialmente contra o Congo e Colômbia, é aquilo que praticam nas suas equipas famosas. O treinador não tem teorias, estratégias e táticas. Nem a noção que se põe Ronaldo em campo também tem de colocar ao seu lado o João Félix. Nós somos doentes pelo futebol, pelo Benfica, deslocamo-nos da Guarda a Lisboa quando há Benfica-Sporting. Sabemos bem o que é sofrer pelo raio da bola. E na sexta-feira, mais uma vez, nem soubemos como ganhámos à Croácia. Valeu que o jogo teve um bom VAR. Caso contrário, a Croácia teria ganho o jogo a brincar. O espanhol seleccionador/treinador continua a deixar Gonçalo Inácio no banco, um dos melhores defesas da Europa. Permite que João Cancelo ande por todo o lado, incluindo na extrema esquerda e depois o seu sector defensivo ficou vazio e os croatas entravam quando queriam e lhes apeteciam e sempre com perigo, ao ponto de Diogo Costa ser mais uma vez o homem do jogo. Realmente, o salvador da Pátria.

Esta madrugada em Macau vamos ver o que acontece contra a Espanha, uma equipa que não brinca em serviço nem comete erros como a equipa portuguesa.

O Mundial 2026 tem sido uma surpresa. Antes de mais, os EUA não mereciam as centenas de milhares de adeptos que se dirigiram para aquele país com o intuito de apoiar as selecções dos seus países, quando são presididos por um fascista que proíbe a entrada a muitos cidadãos estrangeiros. Que raio de liberdade passou a existir na América?

Na verdade, tem sido impressionante como todos os jogos do Mundial têm os estádios esgotados e ainda milhares de adeptos no exterior a ver pela televisão. É impressionante o preço dos bilhetes que tem sido praticado na candonga. No Portugal-Croácia houve “doentes” pelo Ronaldo que pagaram cinco mil dólares pela entrada no estádio.

Outra surpresa têm sido os resultados positivos e o comportamento futebolístico das equipas africanas. Como foi possível que os candidatos ao título Alemanha e Países Baixos tivessem ido à vida? Um aplauso para o Congo, Senegal, Costa do Marfim, Egipto, Marrocos e Cabo Verde. Os caboverdianos que são até agora os heróis do Mundial. Na sua primeira participação apenas foram eliminados aos 111 minutos pelo campeão do mundo Argentina, já depois de terem empatado contra o campeão europeu Espanha.

O futebol, realmente, movimenta multidões e milhões. Da Nova Zelândia a Portugal todos os povos vibram com o futebol e as crianças já brincam com a bola melhor que Ronaldo quando este jogava nas ruas do seu bairro madeirense. Um outro ponto a salientar: as arbitragens têm sido na generalidade muito boas e os VAR muito sérios. Por referirmos as arbitragens, é importante que saibam que em Portugal a arbitragem está pelas ruas da amargura. O director técnico da arbitragem e um dos melhores ex-árbitros portugueses, Duarte Gomes, demitiu-se e rebentou uma bomba. Alegadamente existem suspeitas de que no campeonato que terminou existiu muita corrupção no seio da arbitragem e até árbitros com nomeações combinadas com certos clubes. Isto, é um escândalo, uma vergonha, ignóbil para a imagem do futebol português na Europa. A discussão nos canais televisivos é diária sobre este assunto e a maioria dos comentadores desportivos salienta que a investigação tem de ir até ao fim, doa a quem doer. O mais curioso é que o FC Porto reagiu de imediato após se saber da vergonha. Seguiu-se o Benfica e o presidente do Sporting deu o seu parecer de viva voz. Será que todos querem agora sacudir a água do capote, quando vimos ao longo da época 2025/26 muitas arbitragens duvidosas e tendenciosas? Resumindo: o dinheiro continua a comprar todas as Taças… Agora, o mais importante é que esta madrugada para vós, Portugal possa ganhar à Espanha. Boa sorte, Portugal!

6 Jul 2026

Dilema

Na região da Guarda, onde resido, existe há muito um dilema que se agudizou. Trata-se da luta pela sobrevivência dos lobos e das ovelhas. Por um lado, estão os pastores que defendem os seus rebanhos e que estão contra a existência de lobos no montado porque atacam e comem as suas ovelhas.

Alguns pastores já passaram a andar de caçadeira na mão com o intuito de abaterem qualquer lobo que se aproxime. Por outro, estão os defensores dos animais que adiantam ser imperioso defender a existência dos lobos. Afirmam que o lobo ibérico está em vias de extinção e que está protegido por lei. Um dilema, uma contradição difícil de solucionar. Os que defendem os lobos são criticados.

Os críticos afirmam que não são defensores de animais, porque morrem ovelhas quase todos os meses devido ao ataque dos lobos. E salientam que esses defensores de animais não comparam a importância de uma ovelha para a sociedade e a do lobo que se limita apenas a matar outros animais. A discussão não tem fim e estamos quase perante aquele dilema de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha…

O debate sobre esta matéria tem sido complexo e gira essencialmente em torno de quatro eixos principais: os ataques causam prejuízos severos aos criadores de gado, especialmente no norte e centro do país e no planalto mirandês. Além da perda de animais, há ferimentos que inutilizam o gado e o pânico provocado no rebanho afecta a produção. A repetição e proximidade dos ataques levam alguns criadores a reivindicar o fim do estatuto de protecção legal do lobo ibérico, que está em vigor desde 1988.

Para mitigar os ataques, várias entidades promovem activamente a coexistência através de boas práticas pecuniárias, tais como, o uso de cães de protecção, nomeadamente o Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e Cão de Castro Laboreiro. Esta é uma das medidas mais eficazes para afastar os lobos.

Por outro lado, tem sido importante a utilização de vedações eléctricas e a recolha de gado em abrigos seguros durante a noite, que reduzem drasticamente a vulnerabilidade dos rebanhos. Um aspecto positivo tem sido a posição do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas que atribui indemnizações aos proprietários lesados pelos prejuízos causados pela perda de ovelhas ou cabritos.

Conversámos com um pastor que nos surpreendeu ao dizer-nos: “Sabe, já perdi dezenas de ovelhas mortas por lobos, mas agora pensei numa coisa que tenho posto em prática e que me tem resolvido o problema. Uma vez por semana mato uma ovelha e corto aos bocados. Meto-me na mota e vou lá acima à montanha onde sei que vivem lobos e distribuo a carne. Para já, tem sido um remédio santo, mas ando sempre em pulgas não venha aí um lobo e lá se vão duas ou três ovelhinhas”.

Na verdade, a vida de pastores no montado é algo de muito difícil e cada vez há menos jovens que se dediquem à criação e venda de gado ovino. A rapaziada nova prefere alistar-se na polícia, na GNR ou seguir a vida militar.

Todavia, o dilema prossegue e em certas zonas os ataques dos lobos continuam e não se vislumbra uma solução. Parece um assunto de pouca importância, mas não o é. Imaginem só, as centenas de talhos existentes no país e que estão sempre a pressionar os seus fornecedores de carne para que não falte aos muitos clientes que são todos os que gostam de um bom petisco de borrego ou de cabrito.

A natureza é assim mesmo. A sobrevivência de muitos animais é a lei dessa natureza. Temos o exemplo de quase todas as espécies carnívoras, como as leoas e as águias que matam outros animais para se alimentar e dar de comer aos filhos. Como lemos num livro, contra a natureza não há nada a fazer.

 

P. S. – Por referirmos os fenómenos da natureza, desejamos enviar as nossas sentidas condolências a todas as famílias das vítimas dos sismos registados na Venezuela.

29 Jun 2026

O calor mata

Segundo os números oficiais, o calor extremo em Portugal continental, no ano passado, levou a um total de aproximadamente 530 mortes. Este ano, as previsões indicam que o número mortal poderá chegar aos mil. Neste mês de Junho têm-se verificado temperaturas anormais para esta altura do ano.

Ao longo da semana passada os serviços meteorológicos avisaram que em certas zonas do interior do país a temperatura pode chegar aos 50 graus. É assustador para os mais velhos e para quantos sofrem de hipertensão e vivem em casas sem climatização. Ora, aqui está o busílis deste assunto. São casas construídas há dezenas de anos e normalmente com três ou quatro pisos. Quem viva no último andar é um verdadeiro forno insuportável e que tem levado milhares de cidadãos para o hospital ou para a morgue.

Os sucessivos governos nunca se preocuparam em criar uma ajuda financeira às famílias mais vulneráveis para a obtenção de um aparelho de ar condicionado a instalar nas suas casas. Teria sido o mínimo que as “inteligências” governamentais podiam ter feito.

O calor em Portugal é seco, a humidade do ar cifra-se nesta altura do ano abaixo dos 50%. E esta característica ambiental é que leva muita gente ao sofrimento. Há dias, um amigo que veio de férias e que nasceu no Canadá disse-nos ter ficado estupefacto pela falta, quase generalizada, dos prédios sem climatização. E a compra de um aparelho de ar condicionado e respectiva instalação não é coisa barata e acessível à maioria das bolsas dos portugueses. Parece algo de simples e, em Macau, os residentes sabem bem da importância de se possuir ar condicionado em casa.

No entanto, em Portugal não há um governante, especialmente a ministra da Saúde, que se preocupe com tantos compatriotas que morrem todos os anos devido ao calor. É que 50 graus matam mesmo para quem está habituado a sentir, no máximo, 40 graus. O calor mata mesmo e não é uma falácia.

Muitas vezes, os que podem, procuram as praias marítimas ou fluviais para se refrescar e não levar com a onda de calor registada durante o dia. Acontece que em Junho, as praias ainda não têm vigilância e existem no mar os perigosos agueiros e nos rios as ramagens que caíram das árvores e que um mergulho do banhista pode ser fatal.

Nas duas últimas duas semanas já morreram afogados cerca de dez cidadãos no mar ou num rio. Obviamente que a inconsciência e a irresponsabilidade dos que frequentam essas praias e rios é indiscutível. No entanto, as autoridades deviam a partir de 1 de Junho iniciar a época balnear e todas as praias mais frequentadas estarem vigiadas.

A propósito de praias, com ou sem vigilância, temos assistido a uma discussão frenética nas praias com mais banhistas. Imaginem que a desordem já teve de incluir a ministra do Ambiente, a fim de declarar que as praias são um espaço público.

E porquê? Porque os concessionários de toldos e barracas têm dado uma grande “barraca” ao pretenderem proibir que em frente à concessão haja alguém que coloque na praia o seu chapéu do sol. Era o que faltava termos agora praias privadas para os senhores concessionários. Já não basta a vergonha do que se tem passado na Comporta de Tróia e na Arrábida, onde os milionários proibiram o uso das “suas” praias, imbróglio que já passou para a orla judicial, havendo tribunais que discordam com as decisões do Governo, o qual decidiu serem as praias um espaço público.

Portugal é um país de sol, de turismo, de boas praias, mas não pode ter o seu povo em casas sem climatização onde se sofre e morre de calor.

P. S. – Na Assembleia da República a proposta do Governo sobre reforma laboral foi chumbada. Uma grande vitória dos trabalhadores cuja proposta revertia ao século XIX os direitos dos trabalhadores.

22 Jun 2026

O Futebol é Q’Induca

Gostar de futebol é quase natural na maioria dos povos. Em Portugal, o futebol é fidelidade, amor e até doença pelo seu clube, seja o Benfica, FC Porto, Sporting, Chaves ou Farense. As mulheres têm aderido ao futebol progressivamente e os campeonatos femininos já arrastam muita gente aos estádios. Nos próximos tempos temos outra paixão: o Mundial com a presença da selecção nacional.

Quase todos os adeptos de futebol são treinadores de bancada ou de sofá. A escolha dos jogadores para a selecção tem dado água pela barba. É na televisão, na rádio, nos cafés e no seio familiar. “É pá, o espanhol não percebe nada de táctica!”; “Oh pá, tu já viste aquele tonto que não seleccionou o Palhinha e vai para o Mundial com quatro guarda-redes?”; “Não percebo este treinador, o Bernardo anda a fazer de Palhinha e ainda tem dúvidas se o Leão joga na extrema esquerda”; “Mas aquela espécie de treinador ainda não viu que o Gonçalo Inácio não está em forma?”; “O que eu sei é que assim que o Ronaldo sai a malta ganha!”; “Andam todos para aí a falar que ganhamos a taça, que vamos ser campeões e ainda não viram que as chances são muito poucas”. Enfim, as opiniões dos treinadores de bancada e sofá são infinitas. Na verdade, alguns “opinadores” até podem ter a sua razão, porque as experiências com o Chile e Nigéria não foram nada animadoras no que concerne a coordenação de estratégia futebolística em que possamos ter uma equipa a rolar sobre rodas, como se vê nas seleções da Alemanha, Espanha e Brasil.

Mas ainda há quem dê alento aos jogadores e equipa técnica. O Presidente da República deslocou-se à cidade do futebol e esteve com todos os membros da selecção nacional tendo palavras que caíram bem no seio dos jogadores. António José Seguro salientou que temos uma equipa de alto gabarito, com elementos de nível mundial e apelou que trouxessem o caneco para Portugal. Vamos ver como tudo começa contra o Congo, porque temos no nosso grupo um osso duro de roer que é a congénere da Colômbia.

No entanto, ao mesmo tempo que os amantes de futebol vão estar umas semanas agarrados ao televisor e aos boletins de apostas existe outro relvado onde a bola custa a girar. É o relvado plantado à beira-mar chamado Portugal, onde a economia definha, o aumento do custo de vida é mensal, onde há reformados a receber 300 euros mensais, famílias vítimas das tempestades de Janeiro que ainda não viram as suas casas reconstruídas, terrenos repletos de árvores derrubadas com a época dos incêndios à porta, aliás, que já começaram, e uma política governamental que teima em aprovar uma lei laboral que tem revoltado quem trabalha. A criminalidade está a passar das marcas.

A falta de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica é uma realidade incontornável e os salários são dos piores da Europa. Já temos quatro milhões de portugueses a viver ao nível da pobreza e a exploração na indústria hoteleira é um escândalo. Os hotéis, especialmente no Algarve, pagam mal e apenas dão trabalho durante três meses e os contratados a recibos verdes ainda têm de alugar um quarto.

Os hotéis chegam a pagar o salário mínimo a um jovem que durante quatro anos pagou um curso de gestão de hotelaria e que exerce a função de director-adjunto durante a noite sem que lhe sejam pagas a dobrar as horas nocturnas ou o trabalho aos feriados e domingos. Ninguém no Governo se preocupa com esta nódoa existente na tal indústria que se farta de apregoar que é o sustento do grande turismo existente no país do bom sol e boas praias.

Quando referimos a chegada dos incêndios é justo que se saliente as queixas apresentadas pelas corporações de bombeiros. Provam que os meios não são suficientes, que as ambulâncias não podem acudir a tudo e, muito menos, ficarem estacionadas horas e horas à porta das urgências hospitalares porque as macas ficam retidas com os doentes nos corredores. Isto, é outro futebol, onde o árbitro tem passado entre os pingos da chuva no caso grave da Spinumviva.

Vamos esperar por aquilo que vai prender o povinho durante umas semanas: o campeonato mundial de 2026 tendo como palco um país que não o merecia, onde um presidente autocrático proíbe cidadãos com bilhetes e hotéis pagos de entrar na América. De qualquer das formas, temos que também enviar um voto de confiança à equipa das quinas e como disse o Presidente Seguro, que tragam a taça para nosso orgulho. Contra os canhões, jogar! jogar!

15 Jun 2026

Nem no fascismo

Senhor primeiro-ministro, Luís Montenegro: que polícia é esta, a sua? Eu tenho a resposta. Uma polícia pior que aquela que existia no fascismo, no tempo de Salazar/Caetano. Infelizmente, saboreámos as bastonadas na polícia de choque em 1969 quando nos atrevemos a participar numa pequena manifestação, quando não havia liberdade de reunião e de manifestação.

No entanto, poucos dias depois a polícia de choque recebeu indicações para se dirigir à cidade universitária de Lisboa e banir fortemente com um grupo de estudantes que estava num género de comício a falar mal da ditadura. O que vos posso dizer é que o comandante da polícia de choque mandou parar as viaturas policiais perto do hospital de Santa Maria e, como estava quase a anoitecer, não avançou mais e esperou que os jovens dispersassem. Não optou por violência, por bastonadas e por detenções. A Constituição que ainda temos é bem explícita em permitir a liberdade de reunião e manifestação. Mas, o que aconteceu em frente à Assembleia da República foi uma vergonha, apenas justificada para que Montenegro possa dizer em Bruxelas que tem uma polícia muito “eficiente” que prende quaisquer anarquistas.

A central sindical CGTP promoveu uma greve geral e em várias cidades do país realizaram-se manifestações de protesto contra o pacote laboral que o Governo pretende implementar contra todos os direitos existentes dos trabalhadores. No final da manifestação, os dirigentes da CGTP e a maioria dos manifestantes dispersou.

Na base da escadaria da Assembleia da República foram colocadas baias metálicas e tudo correu bem. A rua frontal à escadaria foi vedada ao trânsito. Tudo tinha corrido às mil maravilhas. Um grupo de jovens manteve-se a mais de cinquenta metros da escadaria e depois de cantar o Grândola, Vila Morena ficou na conversa bebendo umas cervejas.

A dado momento, abriram a rua ao trânsito e os jovens não gostaram com receio de serem atropelados e tentaram impedir a passagem dos carros. Acto contínuo, apareceram polícias que começaram à bastonada aos jovens e a atirá-los para o chão. Um dos jovens atirou uma garrafa de cerveja contra os polícias. A repórter da CMTV dizia que eram “várias” garrafas e que feriram um polícia… Chegou a polícia de choque, talvez para mostrarem o novo equipamento e uns capacetes especiais e começou a desancar bastonadas e agressões aos jovens. Um espectáculo degradante quando atiraram para o chão puxada pelos cabelos uma moça que ficou de pernas ao léu até às cuecas e foi algemada.

A polícia de choque continuou a intervir violentamente para retirar o grupo de jovens do local e começou um show policial nunca visto em democracia. Nem no tempo do fascismo. Pelas ruas circundantes os jovens eram perseguidos à bastonada.

No entretanto, os jovens queimaram dois caixotes de lixo e um comentador do canal NOW dizia que os “muitos” caixotes de lixo queimados era um acto de anarquistas que podiam invadir o edifício da Assembleia da República… e a polícia de choque continuava a perseguir pelas ruas os jovens. Numa rua com escadaria até uma jovem aparentando ser menor, com a sua mochila escolar, foi atirada ao chão e outra foi ferozmente agredida à bastonada. O tal comentador nem sabe o que são anarquistas, porque se o fossem, o caso seria muito sério porque anarquistas experientes estariam nos terraços dos prédios a atirar coquetéis Molotov para cima dos polícias que ficariam queimados. Os polícias tinham-se metido mesmo na boca do lobo…

A vergonhosa actuação da polícia de choque durou um tempo infindável escorraçando todos os jovens para muito longe do local onde tinha terminado a manifestação da CGTP.

Com cerca de quarenta carrinhas policiais para cerca de três dezenas de jovens, a polícia apresentou o seu troféu: seis jovens detidos e que foram presentes a um juiz. Tudo inqualificável. Uma acção policial sem senso, sem lógica e sem democracia. Será este o futuro que espera ao povo? Uma polícia que não controla assaltos a ourivesarias, a restaurantes a casas de jogadores de futebol, a postos de combustível, mas que está pronta no imediato para agredir uns miúdos que não estavam a prejudicar ninguém? Não, senhor primeiro-ministro.

O que aconteceu deve envergonhar o governo de um país dito democrático, apesar de haver gente que achou muito boa a intervenção policial. O nosso desprezo para essa gente. As imagens foram chocantes e repugnantes e o senhor Montenegro deve vê-las para refectir sobre o que se passou e que o show infeliz não se repita. Recorde-se, que eram cerca de 100 polícias para agredir 30 jovens. Uma realidade triste, que indignou qualquer democrata que se preze. Desta forma, já há quem acredite que a democracia pode ter os dias contados.

8 Jun 2026

Socialistas presos

Declaração de interesse: não temos nada, absolutamente nada a ver com o Partido Socialista. Mas, em Portugal algo mudou na política e na investigação judicial. Existem actualmente em Portugal 24 partidos políticos legalmente inscritos no Tribunal Constitucional. Destes, oito têm assento parlamentar na Assembleia da República.

Não nos lembramos desde o 25 de Abril de 1974 que a Polícia Judiciária tenha realizado, com 400 funcionários e técnicos de informática, várias buscas domiciliárias e não domiciliárias a um só partido político, como o fez, na semana passada, ao Partido Socialista, dirigindo-se à sua sede principal de Lisboa e em juntas de freguesia e residências onde se encontravam socialistas em Lisboa, Oeiras, Mafra e Coimbra, A megaoperação versus espectáculo da PJ deteve vários membros do PS e mais de 40 funcionários do partido passaram à situação de arguidos.

Recorde-se, que a operação “Tutti Fruti”, dirigida a Rui Rio não abrangeu somente membros do PSD e deu zero. Que a ida de um avião com funcionários da PJ para a Madeira deu zero. Neste sentido, começamos por sublinhar que 400 funcionários da PJ fariam imensa falta nos seus gabinetes para accionarem as muitas queixas-crimes que deram entrada pela mão de muitos cidadãos portugueses e que passados muitos meses continuam a marcar passo, com a alegação da falta de pessoal, especialmente de procuradores.

Por outro lado, salientar que as buscas da PJ foram de tal forma chocantes na sociedade porque deu a ideia de que no Partido Socialista era tudo uma cambada de corruptos. Com a agravante de ser precisamente no dia seguinte a uma operação idêntica em Espanha ao Partido Socialista Operário Espanhol.

A PJ alega que a existem suspeitas de corrupção, factos relativos a adjudicações por autarquias, cujo valor global pode ascender a quase dois milhões de euros, suspeitas de alegadas práticas de crime de prevaricação e participação económica em negócios, peculato, abuso de poder, procedimentos de contratação de militantes socialistas e à adjudicação por ajuste directo de serviços a empresas associadas a elementos do Partido Socialista, por parte de câmaras municipais e juntas de freguesia. Obviamente que se se vier a provar tais factos, que os responsáveis terão de ser punidos.

Mas, vamos a factos. Vamos a coincidências. Vamos a jornalixo. Vamos a discriminação. Em primeiro lugar, não pomos as mãos no lume que nos outros partidos não aconteça precisamente a mesma coisa. Por exemplo, a PJ não realizou nenhuma megaoperação domiciliária quando elementos do Partido Chega, roubavam malas nos aeroportos ou eram acusados de pedofilia.

Que coincidência a realização da operação da PJ, já que foi realizada quando um homem que foi muitos anos director da instituição passou para ministro e aconselhou que um seu amigo ocupasse o seu lugar à frente da PJ. Coincidência, quando canais de televisão da propriedade de Cristiano Ronaldo, amigo de Donald Trump, canais que mais entrevistam André Ventura apoiante de Trump e o político português que de imediato veio a público apoiar a operação da PJ e pronunciar-se contra o líder socialista José Luís Carneiro.

Isto, quando muito recentemente as sondagens divulgadas deram um resultado com o Partido Socialista em primeiro lugar. Coincidência, chocante e repugnante, por parte dos referidos canais televisivos que em apenas duas horas divulgaram mais de 50 vezes que tinha sido detido Duarte Moral “assessor de António Costa”, quando o ex-primeiro ministro já não o é há cerca de três anos. Com a agravante de o jornalixo desses canais não referir que Duarte Moral foi assessor de António Costa, de Pedro Nuno Santos e de José Luís Carneiro, porque é o principal quadro do partido na área da comunicação e antigo jornalista. A propósito, à mesma hora em que esses canais televisivos não cessavam de divulgar o nome de António Costa, a RTP Notícias falava sobre a Ucrânia, a CNN Portugal da guerra no Irão e a SIC Notícias de José Mourinho e de Marco Silva.

Algo mudou mesmo em Portugal. Antes, dizia-se à política o que é da política e à justiça o que é da justiça. No entanto, o povinho não é atrasado mental e já verificou que algo se está a misturar entre a política e a justiça. Estranho é a PJ nunca ter realizado buscas às dezenas de juntas de freguesias lideradas por políticos de diferentes partidos que têm criminosamente vendido terrenos baldios que por lei são “invendáveis” e pertencem ao Estado.

Na passada noite de quinta-feira, sexta e sábado, naturalmente que todos os canais de televisão e toda a imprensa veio a público anunciar a detenção de cinco socialistas, aliás quatro, porque uma senhora detida foi logo libertada porque o “crime” cometido era ter em casa uma velha arma que era do seu pai. Além dos detidos, passaram à condição de arguidos cerca de 40 socialistas.

A ideia que ficou pelo país só deu força ao político neofascista que deseja a todo o momento descredibilizar a democracia. Lá vieram as conversas nos cafés de que “Ventura é que tem razão, são todos uma camarilha de ladrões nestes partidos do sistema”. Entretanto, vários socialistas, entre eles João Soares, já vieram a público sublinhar que a operação da PJ se tratou de “uma cabala contra o PS num momento em que o partido é apresentado em primeiro lugar nas sondagens”. Desta forma, não nos admira nada que as sondagens apresentem o Chega em segundo lugar. O governo de Montenegro e os seus interesses políticos em derrotar o Partido Socialista leva muita gente a actuar para lhe agradar… E mais uma vez, a montanha pariu um rato: o juiz mandou todos os detidos em liberdade.

1 Jun 2026

Sopa salvadora

A coisa está preta, dizem os brasileiros, e a maioria dos portugueses sente que a vida está cada vez mais difícil. Vive-se momentos de tristeza, ansiedade e desespero. O meu vizinho pediu-me algum dinheiro emprestado. Disse-me que tinha uma reforma de 300 euros mais o Complemento Solidário para Idosos, que é uma miséria, não consegue sobreviver dignamente.

Convidou-me a entrar na sua casa e deixou-me estupefacto. O frigorífico não tinha rigorosamente nada. Nem um pacote de leite, de manteiga ou um qualquer produto. Muito menos, peixe ou carne no congelador. Disse-me que o pecúlio recebido, depois de pagar as contas, dá-lhe para uma “sopa salvadora”. Pedi-lhe para explicar. Respondeu-me com as lágrimas nos olhos que o seu almoço e jantar, há vários meses, é uma sopa salvadora.

Confirma-se que muitas famílias pouco mais comem do que uma sopa e uma fruta. A sobrevivência para quatro milhões de portugueses que vivem ao nível da pobreza está cada vez mais difícil. E o Governo insiste em levar ao Parlamento um pacote laboral que ao ser aprovado deixará milhares de trabalhadores em situação muito precária.

As centrais sindicais marcaram uma greve geral para o próximo dia 3 de Junho, precisamente com a palavra de ordem principal “Não ao Pacote Laboral”. Na verdade, Luís Montenegro e os seus súbditos ministros não têm a noção do país real. Como defensor de uma política capitalista que apenas agrada aos patrões, tenta a todo o custo que passe a existir um banco de horas, que os trabalhadores sejam despedidos por dá cá aquela palha e, com todo o desplante, sublinhando que o pacote laboral é para “reforçar os direitos e garantias dos trabalhadores no século XXI e permitir aumentar a produtividade, a competitividade das empresas e criar condições para pagar aos trabalhadores salários de nível europeu”. Só para rir, antes que caiam as lágrimas aos que serão despedidos sem justa causa.

Isto, porque se pretende alterar o prazo dos contratos de trabalho, o banco de horas por acordo, o reforço das licenças parentais e dos dias de férias. Não foi por acaso que nem a UGT entrou em sintonia com o Governo. Uma das alterações propostas mais contestadas pelos parceiros é o aumento da duração dos contratos a termo certo de dois para três anos. Actualmente, as empresas só podem manter os trabalhadores com contrato até termo certo por dois anos e, terminado esse período, têm de decidir se integram os trabalhadores no quadro ou se terminam o contrato. Se a proposta de lei do Governo for aprovada, o prazo aumenta para três anos, o que significa que o trabalhador terá de esperar mais um ano para saber se o vínculo laboral termina ou se é integrado nos quadros.

Outra grande divergência diz respeito à possibilidade de não reintegração de trabalhadores alargada. Actualmente, quando um tribunal declara o despedimento ilícito, o empregador é condenado a pagar uma indemnização ao trabalhador e, à partida, a reintegrá-lo na mesma empresa, com a mesma categoria e antiguidade. O que o Governo pretende é alargar essa possibilidade a qualquer empresa, independentemente da sua dimensão. Isto significa que, se aprovada a proposta de lei, qualquer empresa pode recorrer ao tribunal para pedir a exclusão da reintegração.

Na proposta de lei consta, ainda, a revogação total, atenção total, da limitação à subcontratação de serviços. Actualmente, as empresas que tenham realizado despedimentos colectivos e extinções de postos de trabalho não podem, por 12 meses, recorrer à subcontratação.

Enfim, toda esta panóplia de mudança nos direitos dos trabalhadores só tem um objectivo: agradar aos patrões, os quais são a minoria num povo trabalhador que começa a ver a vida a andar para trás. O povinho, por exemplo da zona centro, desespera. Em Leiria e Marinha Grande, onde as tempestades de Janeiro mais danificaram património, ainda há pessoas sem telhado, luz, água e telefone.

Várias fábricas vão encerrar e centenas de trabalhadores vão para o desemprego. Os apoios estatais demoram a chegar e não se encontra m-ao-de-obra porque com a mudança da lei da nacionalidade centenas de imigrantes já partira, para outras paragens e prevê-se que nos próximos seis meses milhares de imigrantes do Bangladesh, Nepal, Índia, Paquistão Roménia sigam para Espanha, França e Suíça.

Os preços dos produtos alimentares aumentam semanalmente, o preço das casas está insuportável e o preço dos combustíveis já obriga centenas de condutores a deixar o carro à porta de casa. O que resta a muitas famílias, afinal? Nada mais, que a “sopa salvadora”…

18 Mai 2026

“Deixem-nos trabalhar”

Não há ninguém, incluindo nas hostes do PSD, que não tenha pedido a demissão da ministra da Saúde. Dois anos de incompetência e de protestos por parte dos profissionais de saúde e dos doentes. Pois, a senhora teve o desplante de na semana passada vir a público afirmar que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está “doente” e que em vez de a criticarem que “deixem-nos trabalhar”.

Qual trabalho? Cirurgias e consultas para as calendas? 24 horas de espera numa urgência? Grávidas a terem os filhos nas ambulâncias? Directores de Neurologia que ultrapassaram a idade da reforma e que receitam ao doente um medicamento trocado que provocou a morte do paciente? O INEM em greve com pessoas a morrer sem socorro? Gastos astronómicos a médicos sem escrúpulos que realizam cirurgias estéticas ao fim de semana?

Consultas de especialidade marcadas para dia de greve e depois nunca mais contactam o doente? O grande hospital de Lisboa que nunca mais teve início a sua construção? Os médicos com salários mais baixos que no Congo? Comissões inacreditáveis de gestores de hospitais na aquisição de material médico? Centros de Saúde encerrados ao fim de semana? O Algarve com o hospital de Faro a rebentar pelas costuras? Centenas de macas com doentes graves pelos corredores dos estabelecimentos hospitalares? É sobre isto que a ministra quer trabalhar quando não conseguiu em dois anos alterar uma palha? Não, senhora ministra. A senhora ou tem o primeiro-ministro na mão ou o primeiro-ministro é tão incompetente como a senhora.

Ana Paula Martins afirmou que a resposta do SNS está “muito diminuída” devido aos internamentos inapropriados. Só para rir… a ministra ainda fez rir mais o país, se não chorou, quando recusou que o SNS esteja a falhar na actividade assistencial que presta aos utentes, alegando que isso é um mito “sistematicamente repetido”. Para se afirmar algo tão absurdo, a ministra tinha de ter a noção que já se devia ter dedicado a coser meias, de tal forma que uma leitora do Facebook ao ler as declarações da ministra, escreveu: “Está alheada de tudo, onde é que isto vai parar, ela brinca com a saúde dos portugueses”.

Na verdade, nos primeiros dois meses do ano, houve menos consultas e cirurgias programadas nos hospitais públicos do que no mesmo período do ano passado e aumentou o tempo de espera para os doentes. No entanto, a ministra com toda a sem vergonha afirmou que “o SNS não está a falhar”.

O número de cirurgias realizadas no SNS, em Fevereiro, não era tão baixo há dois anos. Segundo os dados do Portal da Transparência, foram feitas cerca de 130 mil operações em todo o país, menos 10 mil do que em 2025 e menos 3.000 do que em 2024. Como é que a ministra da Saúde pode vir dizer que a descida está relacionada com o aumento de internamentos. Ora, se aumentou o número de internamentos teria de aumentar também o número de cirurgias.

A incongruência é tão vistosa depois de Ana Paula Martins ter defendido que todos os indicadores assistenciais melhoraram desde que está no Governo. Ou mente ou é incompetente. Pior, as declarações da ministra contrastam com a informação disponível, que dá conta de, pelo menos, 19 mil consultas hospitalares do que no mesmo período de 2025, sobretudo as primeiras, e do aumento do tempo de espera nas consultas e nas cirurgias.

Contrariamente ao que diz a ministra a saúde está cada vez mais doente. Todos os utentes dos hospitais se queixam da organização no atendimento. A culpa não é dos médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal da limpeza. A culpa é de quem está à frente da pasta da Saúde. A ministra nada faz para melhorar as condições de trabalho dos profissionais de saúde e dos utentes.

Os institutos de oncologia, peças basilares no salvamento de vida, têm-se queixado da falta de meios. Isso, é inadmissível. O cancro aumenta à mesma velocidade da demência e nunca se viu construir habitações especiais para recolher doentes cancerígenos ou com demência. Realmente, o povinho é que tem o direito de pedir a demissão da ministra e de dizer “deixem-nos trabalhar” com melhor saúde…

11 Mai 2026

Montenegro, o maior das promessas

Recordam-se que a série de tempestades aconteceu há mais de três meses. As zonas de Leiria e Marinha Grande foram as mais afectadas. O governo de Montenegro prometeu de imediato que as indemnizações às vítimas que ficaram sem nada seriam uma prioridade. Ainda hoje temos gente sem telhado, pior, sem casa e que receberam uns míseros cinco mil euros.

Nos últimos tempos, Montenegro tem prometido este mundo e o outro. Afirma que Portugal está melhor. Mas, centenas de portugueses já pararam o carro devido ao aumento do preço dos combustíveis e o povinho vai ao supermercado comprar o mínimo indispensável para viver. O custo de vida aumenta todas as semanas. A inflação sobe. Há reformados que já não compram os medicamentos, mas o chefe do Executivo tem sempre na ponta da língua que aumenta as reformas. Isto, quando existem portugueses com reformas de 150, 250 e 350 euros.

As promessas são quinzenais e algumas vão até 2030. Quando o Governo vai a debate na Assembleia da República lá ouvimos uma catadupa de promessas. Na semana passada foi demais. Montenegro, na qualidade de primeiro-ministro, tem focado as suas promessas na estabilização económica, apoio ao custo de vida e reformas estruturais. Cantigas leva-as o vento e, se não, vejamos. Montenegro tem defendido uma reforma laboral, procurando um acordo, apesar das tensões com parceiros sociais como a UGT. No entanto, a central sindical CGTP já marcou uma greve geral para Junho contra o pacote laboral e a UGT adiantou que poderá aderir à greve geral.

Anunciou uma linha de apoio de 600 milhões de euros para empresas com elevados custos de energia, mas ainda na quarta-feira passada os dirigentes das pequenas e médias empresas vieram a público afirmar que não aguentam a actual situação, especialmente o aumento do custo da energia. Há muito tempo que Montenegro anunciou a aprovação de novas medidas para combater o aumento do custo de vida e o preço dos combustíveis. É só irmos ao supermercado e verificar o aumento do custo de produtos como leite, pão e fruta e o preço dos combustíveis aumenta quase todos os dias, mesmo quando o preço de petróleo baixou em face do cessar fogo no Irão. No último debate quinzenal no Parlamento, lá veio o Ventura tentar ganhar mais uns votos, porque aproveitando-se das falsas promessas de Montenegro, acusou o Governo de “ineficácia absoluta”. É assim que o populismo ganha votos. A ineficácia resulta de prometer e de nada acontecer em benefício do povo.

Nas hostes social-democratas aplaude-se de pé Montenegro. Ele é o maior, o mais inteligente, o mais empreendedor, o mais resoluto, mas não é capaz de prometer que irá reformular o acordo da Base das Lajes com os americanos, antes que o Irão se lembre de enviar um drone contra Lisboa… As promessas são mais que muitas. O povo está cansado de ouvir Montenegro prometer e nada viabilizar para uma melhor qualidade de vida. Os reformados de miséria já nem querem ouvir falar em Montenegro e dizem que nunca mais irão votar num governo deste calibre.

O chefe do Governo inventou um nome pomposo para as promessas. Imaginem que apareceu com o Programa de Recuperação e Resiliência Português (PTRR). Houve deputados na casa da democracia que se riram de tanta promessa para as calendas, tais como o apoio à reconstrução dos malefícios das tempestades, às infraestruturas rodoviárias, ferroviárias, ao abastecimento de energia eléctrica, de água e melhoria nos serviços públicos.

Obviamente que a incongruência tinha de enfrentar a oposição parlamentar. O Governo tem falado na verba de 2,5 mil milhões de euros para dar resposta às necessidades das famílias, das empresas e das autarquias mais afectadas nas tempestades. Mas, ao mesmo tempo, anuncia que ainda não tem disponível o dossiê de levantamento das necessidades para solicitar o fundo de Solidariedade europeu. Esta incongruência foi naturalmente explorada e não escapou aos partidos da oposição durante o debate parlamentar. Como tudo isto parece um circo, os palhaços podem continuar em cena…

4 Mai 2026

Pacote laboral da discórdia

O Governo de Montenegro é assim: eu quero, posso e mando que o país tenha uma nova Lei Laboral em detrimento de quem trabalha. Todos os partidos com assento na Assembleia da República, excepto o PSD e CDS, são contra as novas regras laborais que o Governo pretende implementar. Até o secretariado nacional da UGT votou por unanimidade a recusar o novo pacote laboral. E recorde-se que, a UGT tem duas tendências políticas.

Uma social-democrata e outra socialista. E a tendência social-democrata votou contra as pretensões do Governo. Há nove meses que o Governo mantém reuniões com os parceiros sociais para chegar a um acordo. Não há acordo, nem nunca devia haver, apesar de o Presidente da República, estranhamente, o desejar. António José Seguro só tinha que vetar uma legislação que pretende prejudicar os trabalhadores quando estes, nos tempos que correm, apenas deviam ser beneficiados. O anteprojecto de reforma da legislação laboral aprovado pelo Governo, prevê a revisão de mais de uma centena de artigos do Código do Trabalho, adorado pelos patrões e contestado pelas centrais sindicais.

As alterações emanadas do Governo visam essencialmente as licenças parentais, amamentação e luto gestacional, trabalho flexível, período experimental dos contratos de trabalho prevendo ainda um alargamento dos sectores que passam a estar abrangidos por serviços mínimos em caso de greve.

O risível disto tudo é que a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social teve o desplante de afirmar que a nova lei “visa aumentar a competitividade da economia e promover a produtividade das empresas”. Se é assim, como é que a maioria do país discorda de tal desiderato?

Para que possam ficar esclarecidos, podemos salientar que a mudança na Lei Laboral que o Governo entende é enorme e os trabalhadores já realizaram uma greve geral contra: a licença parental poder chegar a seis meses com partilha entre progenitores; Governo quer pais a gozar 14 dias de licença seguidos após o nascimento do filho; Mudanças no subsídio parental; Alterações nas regras relativas à amamentação; Governo quer eliminar falta por luto gestacional; Trabalho flexível e direito de recusa a trabalhar ao fim-de-semana; Auto declaração de doença fraudulentas pode dar direito a despedimento; Governo alarga serviços mínimos a mais sectores; Mexidas nos contratos de trabalho a termo certo e incerto; Mudanças noutros regimes de contratos de trabalho; Banco de horas individual regressa; Horas de formação obrigatórias nas microempresas caem para metade; Fim das restrições ao ‘outsourcing’ após despedimentos; Quotas de emprego para pessoas com deficiência; Trabalhadores independentes; Plataformas digitais; Teletrabalho; Compra de dias de férias; Subsídios de férias e Natal podem ser pagos em duodécimos e fim do período experimental de 180 dias no primeiro emprego.

Obviamente que em face da tendência mega conservadora a classe trabalhadora não podia estar de acordo. A falta de consenso entre as partes em negociação é uma realidade. A discórdia é de tal forma, que a surpresa maior foi para a recusa peremptória da UGT, cuja central sindical tem alinhado com governos de direita.

No centro do desacordo estão 10 pontos críticos identificados pela UGT, os quais se traduzem na manutenção do aumento da duração dos contratos a termo e o alargamento dos fundamentos à sua celebração, beneficiando grandes empresas e tornando mais vulneráveis idosos, jovens e desempregados; A manutenção da reintrodução do banco de horas individual dando poder ao empregador para desregular horários com redução de custos e sem compensações efectivas; A manutenção da possibilidade de mudança de categoria com perda de retribuição por deferimento tácito da Autoridade para as Condições do Trabalho; A manutenção da não aplicação das convenções colectivas aos trabalhadores em ‘outsourcing’, tornando mais barato o trabalho e fomentando a substituição/despedimento dos trabalhadores; A manutenção da eliminação de exigências de fundamentação de denúncias da convenção com a vontade injustificada e infundada do empregador a poder imperar; A manutenção da eliminação da arbitragem de apreciação da denúncia e arbitragem necessária após sobrevivência, dando poder ao empregador para fazer cair convenções pelo mero decurso do tempo e sem negociar; A manutenção da possibilidade (pior, aliás, que na versão inicial do anteprojecto) de extensão de uma convenção colectiva ao nível da empresa por mera vontade do empregador, desvalorizando a vontade dos trabalhadores e de quem os representa; A manutenção da generalização dos serviços mínimos da greve, deixando milhares de trabalhadores fora deste direito fundamental e a manutenção das restrições à actividade sindical nas empresas sem trabalhadores filiados, negando a relevância do papel dos sindicatos na defesa dos trabalhadores.

Estamos perante uma discórdia absoluta porque se trata de um reverso inadmissível nos direitos dos trabalhadores adquiridos com o 25 de Abril comemorado no sábado passado. Estamos perante mais um reverso na política que tem vindo a ser implementada pelo governo AD com o apoio do Chega, reverso que tem vindo a preocupar todos os democratas progressistas.

27 Abr 2026

Arrendar a explorar

O mercado imobiliário em Portugal está a destruir o tecido social da classe média. Os pobres já se habituaram a viver num quarto ou numa espécie de barraca de madeira em bairros ilegais. A situação vivida por uma grande parte da população começa a roçar o trágico. A chamada classe média não consegue viver com casa própria. Regressa para casa dos pais quando os têm. Os jovens nem pensam em possuir uma casa que lhes dê o mínimo de dignidade. Que possam casar e ter filhos. A maioria arrenda um quarto. E que quarto. A grande maioria entra no mundo existente da exploração.

Hoje em dia em Portugal não se arrenda uma casa. Explora-se o arrendatário. De formas diferentes. Por um lado, um inquilino recebe uma carta do senhorio. Paga 300 euros mensalmente. O senhorio transmite que ou passa a pagar 600 ou sai. Isto, não é mercado. É sugar até ao osso. Quem aufere 900 euros de salário, vive de quê? Paga renda, água, luz, gás… e come o quê? E ainda há imbecis que batem palmas e que afirmam “é o mercado!”. Não. Isto não é mercado, mas sim abuso mascarado de negócio. Se o inquilino não aceita o aumento da renda tem de sair. A lei permite tudo aos novos exploradores. Sair para onde? Quando um quarto com uma cama, uma mesinha e um armário, sem casa de banho, já custa 500 euros. E o circo dos novos exploradores é infame e permitido pelas autoridades: retiram uma família da habitação, com três quartos por exemplo e colocam em cada quarto quatro beliches arrendando cada colchão a 250 euros por mês. Ou seja, o explorador passa a receber 2.000 euros por quarto. Com três quartos recebe 6.000 euros. Chocante e revoltante. E não nos referimos a Lisboa, porque na capital é o impossível. Já é difícil encontrar uma casa com dois quartos por menos de 1100 euros e um quarto com casa de banho em Odivelas pedem de renda 600 euros. Não estamos perante arrendamento, mas de explorar ao máximo o desespero. Rentabilizar não pode ser esmagar o próximo. O lucro não pode existir à custa da falta de dignidade humana.

E o nosso Estado? Continua a ver tudo isto acontecer como se fosse algo normal. O problema é que o Estado não quer analisar o verdadeiro problema. No caso de arrendar a explorar começa a atirar com muitos portugueses para o limite. Uma senhora funcionária da Cáritas portuguesa transmitiu-nos que o limite que referimos é o desespero em último grau denominado suicídio. A situação é grave e o Governo não entende que a solução imediata seria a construção de habitações a rendas acessíveis. O primeiro-ministro Luís Montenegro vai ao Parlamento e afirma que o país está melhor e os portugueses igualmente. Quem está melhor são os ricos que vêem a construção de condomínios de luxo com rendas insuportáveis para a maioria da população portuguesa. No entanto, temos de abrir um parêntesis justo para muitos senhorios que não entram no jogo da exploração. Antes pelo contrário, são pessoas compreensivas que vão aceitando o atraso no pagamento das rendas porque sabem que os seus inquilinos vão sempre pagando como podem. Para eles, os maiores encómios, porque no mundo de hoje justiça e solidariedade são palavras vãs.

O arrendamento a nível nacional é efectivamente uma exploração. Ainda há dias, em Castelo Branco, um proprietário de um apartamento com três quartos teve o desplante de pedir um aumento na renda do imóvel de 500 para 2000 euros. É o reino da prepotência que não deixa saída para quem está dependente de um contrato de arrendamento que termina. Vai terminar? Então, ou aceitas o aumento ou vais para a rua. É isto socialização de uma comunidade? Não é. Estamos perante um tipo de exploração sem rei nem roque onde cada proprietário faz o que entende. Conclusão: inquilino sofre…

20 Abr 2026

Água impotável mata milhares. Milhares morrem na estrada

Inimaginável. Quem vai comprar umas garrafas de água ao supermercado. Quem diariamente abre a torneira em casa e bebe água. Quem vai à fonte com o jarro recolher água cristalina e fresquinha, ninguém imagina que em Portugal entre 2019 e 2024 morreram 2.850 pessoas por causas associadas a água insalubre e falta de saneamento. Só, em 2024, estas mortes atingiram um pico de 602. Para algo, que acontecerá em países do terceiro mundo, estranha-se que nunca tenha sido dada uma explicação pública, em particular, por parte do Ministério da Saúde.

Na verdade, uma vez, levei o meu neto à piscina municipal e o miúdo começou a beber água do chuveiro que se situava perto da piscina e o rapaz salva-vidas que estava por perto, disse logo para que não bebesse daquela água porque não era de confiança. São números que amedrontam e que colocam o cidadão a interrogar-se sobre o tratamento e higiene que é dado nas centrais de distribuição de água, dita potável. Acontece que a água insalubre ou imprópria para consumo é aquela que contém substâncias ou microrganismos prejudiciais à saúde humana, podendo causar doenças graves e a própria morte, tal como anunciámos.

Um dos principais motivos para a água se tornar insalubre está directamente ligado à contaminação das fontes de água pelo lançamento de esgotos ou resíduos industriais sem tratamento. E ainda existe um perigo desconhecido, que se prende com pequenas rupturas nos tanques de combustíveis, as quais provocam o vazamento dos tanques subterrâneos de combustível e que vão poluir as águas subterrâneas. Seja como for, o importante é que temos portugueses a morrer devido a beberem água insalubre e as autoridades em mais de sete anos nunca se pronunciaram quando as mortes já ultrapassaram as duas mil e quinhentas.

Este número que indicámos de mortos devido a ingerir-se água impotável, está ao mesmo nível do número de portugueses que morrem nas estradas do país. Cerca de 40 em cada mês. E a maioria não são pessoas com mais de 75 anos de idade.

É infame. Razão? Conduz-se muito mal em Portugal. Mais de 50 por cento dos condutores nunca deviam ter tido carta de condução. Um grande número apenas conduz ao domingo. Um número ainda maior conduz apenas no Natal, Páscoa e férias de Verão. A instrução dada nas escolas de condução é uma mentira, apenas para enganar examinador.

A carta de condução é facilitada a 90 por cento de condutores que nem sequer sabem reduzir a velocidade do veículo da sexta velocidade para a segunda, em caso de risco de acidente. Na última Páscoa, o balanço realizado pela GNR e PSP foi trágico, com um aumento significativo da sinistralidade rodoviária em comparação com o ano passado. 20 vítimas mortais, 53 feridos graves (dos quais nunca se sabe quantos vieram a falecer), mais de 2.600 acidentes. Leiam bem: o número de mortos quadruplicou relativamente à Páscoa de 2025. E sabem quais as causas? Obviamente o excesso de velocidade por intermédio de quem não sabe conduzir, o excesso de álcool ingerido e o uso do telemóvel. Ainda há dias, uma família de dois adultos e dois menores morreu devido a um choque frontal num local onde está pintado no pavimento o risco contínuo e a estrada fazia lomba. Num cenário destes, não existem campanhas de sensibilização que resultem. Tinham era de existir exames de condução muito mais rigorosos e não passeatas a 50 km/h pelos locais previamente mais que treinados.

O absurdo. Não queria terminar este contacto convosco sem vos transmitir o impensável que é chocante. Praticamente todas as semanas morrem crianças com doenças várias. Alguns pais têm tido possibilidades de pagarem as despesas dos funerais. Outros, nem pensar. A precaridade de vida obriga-os a pedir dinheiro a amigos ou a uma instituição de apoio social para o pagamento do funeral da criança. E sabem por que razão o Estado não financiava a despesa dos funerais das crianças? Não acreditam. Porque era dito que as crianças nunca tinham descontado para a Segurança Social… Em boa hora, a luta de um casal que ficou sem o filho criança, tudo leva a crer que o Governo mude de atitude e comece a subsidiar os funerais das crianças… Ai, Portugal, Portugal…

13 Abr 2026

Spinumviva é “Operação Freguês”

Um dia, entrámos numa mercearia onde estavam diversos clientes para serem atendidos. Entrou um indivíduo e o patrão largou tudo para o atender e deixou os restantes pagantes a olhar para o tecto. Era um freguês especial. Pessoa importante na política e que mandava peso nas directrizes da edilidade local. Este episódio fez-nos lembrar o que se passa com Luís Montenegro e o seu caso misterioso Spinumviva. Qualquer advogado tem direito a ter os seus clientes e os respectivos a apresentarem-lhes os seus negócios para serem aconselhados da melhor forma. Aconteceu que Luís Montenegro, com todo o direito, decidiu criar uma empresa familiar e os seus escritórios tratavam da gestão e consultoria dos seus clientes. No entanto, Montenegro já era político, líder parlamentar do PSD e superiormente consciente de todas as regras do jogo político, comercial e financeiro. Sabia perfeitamente que se a sua empresa familiar começasse a ganhar muito dinheiro legalmente, que também como político ou governante tinha regras a declarar sobre os seus rendimentos.

A empresa familiar de Montenegro teve a sorte que muitas não têm. Clientes dos bons e de grande riqueza não faltaram a entregar à empresa do causídico e político Montenegro a gestão e consultoria das suas fortunas. Tudo nos conformes, mesmo que se tratasse de uma concessionária do jogo como a Solverde, com concurso público à porta. Montenegro passou a ser o líder do PSD e ganhou as eleições legislativas. Foi empossado como primeiro-ministro de Portugal e, a partir daí, os jornalistas, esses grandes malandros “terroristas” que tudo vasculham, vieram a saber que Montenegro não tinha declarado ao Estado todo o seu património material, muito menos a lista de grandes clientes que tinha no escritório a subsidiar a tal empresa familiar, a chamada e badalada Spinumviva.

A partir daqui, nunca mais a confiança no primeiro-ministro foi a mesma e as últimas sondagens apresentam mesmo uma grande descida do apoio popular a este Governo. O caso passou para o Ministério Público de uma forma muito subtil e com Amadeu Guerra, amigo de Montenegro, nas funções de procurador-geral da República a não dar quaisquer esclarecimentos sobre a investigação à Spinumviva. No entretanto, assistiu-se a algo feio, em termos políticos. Se Montenegro não tinha nada a esconder por que razão proibiu a publicação da lista dos seus clientes e por que passou a empresa familiar apenas para o nome da sua mulher e filhos?

Ultimamente, o caso voltou à baila e com um pouco de estrondo. A Spinumviva está envolta em vários “mistérios”, os quais poderiam levar à demissão do primeiro-ministro. Na sequência das notícias recentes, e para “evitar mais desinformação sobre o tema”, o gabinete do primeiro-ministro enviou na passada quinta-feira, mais um esclarecimento sobre o caso Spinumviva. Luís Montenegro informa que a 29 de Abril do ano passado “entregou à Entidade para a Transparência (EpT)”, a lista de clientes da empresa que “fundou e onde trabalhou, nos termos em que lhe foi solicitado”. À data, recorda, solicitou que a mesma não fosse divulgada “por razões de natureza jurídica”. No entanto, a EpT suscitou um recurso para o Tribunal Constitucional e nove meses depois, o Tribunal Constitucional rejeitou em definitivo os recursos apresentados por Luís Montenegro. Neste sentido, algo ficou muito preto para o lado de Montenegro.

Algo de estranho e que não é lógico foi a atitude de Montenegro antecipar-se à EpT e ter divulgado a lista de clientes, onde fazem parte potenciais empresários com ligações económicas ao Governo, nomeadamente a Solverde-casinos; Beetsteel; Cofina; ITAU; Produtos Farmacêuticos Lda e Radio Popular, entre outros. O que seria muito grave, se um dia os tais jornalistas “terroristas” viessem a descobrir que o Governo de Montenegro facilitou, governamentalmente, a vida aos potencias clientes da sua empresa familiar.

Tudo isto, nos recorda a “Operação Marquês” de José Sócrates que já vai em investigação há 13 anos. No caso da Spinumviva nada nos admiraria que pelo facto do freguês em causa ser pessoa de muita importância, que daqui a muito anos, alguém venha a escrever sobre uma “Operação Freguês”…

30 Mar 2026

Até o Constitucional é política

O Tribunal Constitucional (TC) desempenha um papel fundamental no sistema político e jurídico português, assegurando que o poder político e as leis respeitam o Estado de direito, especialmente a defesa da Constituição. Mas, que raio de país é o nosso onde a política tem de se imiscuir em tudo, tudo o que mexe com a vida dos cidadãos.

O Tribunal Constitucional é um órgão soberano que actua como tribunal superior em matéria constitucional e as suas decisões são obrigatórias para todas as entidades. O TC é composto por 13 juízes: 10 designados pela Assembleia da República e três cooptados por estes. Na semana passada, assistimos a um espectáculo indecoroso sobre a eleição, ou escolha, dos juízes para o TC. E, obviamente no cerne da “bronca” tinha de estar o Chega, partido que pensa tudo poder fazer desde que passou a ser o segundo grupo parlamentar. Existem três juízes que é preciso substituir no Constitucional.

E a partir daqui, entrou a bagunça política e a tentativa de alterar a história, só porque o político que retirou o subsídio de férias, o de Natal e baixou as reformas aos pobres “ressuscitou” e anda pelo país a querer voltar à ribalta num claro apoio à junção com o Chega. Pedro Passos Coelho, até se intrometeu na escolha dos juízes para o TC forçando uma maioria à direita entre AD, Chega e IL. Para já, se Luís Montenegro e André Ventura mantiverem a ideia de designarem sozinhos os nomes dos três juízes, o líder do Partido Socialista irá romper todas as negociações com o Governo.

José Luís Carneiro afirmou que “seria incompreensível que o Partido Socialista fosse afastado do Tribunal Constitucional por uma maioria de direita aliada à extrema-direita” e acrescentou que os portugueses não iriam achar correcto “se o Partido Socialista, fundador das liberdades e dos direitos fundamentais, ficasse de fora” do Constitucional.

Por seu turno, o líder do Livre, Rui Tavares, vai directamente ao âmago da questão e sustenta que se, o acordo com o Chega acontecer para a eleição dos juízes do TC “fica toda a gente a perceber que o PSD foi naquele sentido porque quis ir naquele sentido”. À saída de uma audiência com o Presidente da República, o Livre mostrou disponibilidade para, com PS e PSD, fazer parte da maioria de dois terços necessários para eleger os juízes do TC. Rui Tavares disse que “se houver um acordo entre o PSD e essa visão anticonstitucional é uma traição à história do PSD”.

Este é um exemplo claro da doença em que se encontra a nossa democracia. Quando hostes políticas que sempre, desde os seus fundadores, defenderam teses democráticas se aproximam dos racistas, xenófobos, demagogos e autarcas corruptos, tudo vai mal no império Spinumviva. O diagnóstico está traçado e o medicamento adequado será difícil de encontrar no mercado, e viu-se, com o caso da Base das Lajes a servir de trampolim para bombardear o Irão e a diferença com o governo espanhol que proibiu todo e qualquer uso das bases americanas em Espanha para que Trump demonstrasse a sua senilidade.

Numa altura em que passámos a ter um novo Presidente da República. Numa altura em que nunca se falou tanto em estabilidade. Numa altura em que Presidente da República e o Governo apontavam a consensos importantes para a melhoria de vida dos portugueses, deparamo-nos com uma traição política por parte de Montenegro, simplesmente porque receia que o seu “inimigo” Passos Coelho possa candidatar-se às diretas do seu partido, em Maio, caso ele não alinhe nas teses passistas.

Quando para um órgão soberano como o Tribunal Constitucional se pretende afastar da sua constituição um juiz socialista, é baixa política. Adivinha-se a pretensão. Com um colégio judicial de direita e de extrema direita passará a ser fácil o cumprimento das intenções malévolas e antigas de realizar uma revisão constitucional…

24 Mar 2026