Posturas

Quando tive de ir para o hospital consegui levar alguns livros (bom, escolhas que tinha de fazer de modo sonâmbulo, febril, e em cinco minutos).

Peguei ainda no tomo completo do Herberto Helder mas folheei cinco páginas e esbarrei em palavras abstractamente líricas, vazias, uma luxúria que vem do raciocínio, como uma máquina, que produz ideias ou metáforas segregadas por outras ideias e que, por terem abandonado o contacto com a vida nua, resistiam agora menos à violência, à prova do cateter.

A poesia tem de voltar a uma dimensão humana, de superar a prova do cateter (esse embate com a dor e a violenta drenagem de fluidos num vaso sanguíneo), ter o seu quê de mancha humana e de grito. Quantos poetas chegarão lá acima para a pergunta fatal do S. Pedro: eh tu onde meteste as tuas tripas?

Estou a ser injusto com o velho vate e aliás ao contrário de muitos adorei os seus últimos livros porque precisamente havia aí uma nova porosidade com a vida que prescindia de volutas e da gratituidade do engenho para ir direito ao osso, à humílima presença do ar que se partilha. Mas, pelo meio, a provação da doença destapara os brilhos de alguma talha dourada naquele húmus, algum apego ao adorno. Embora não esqueça que quanto mais uma coisa tem profundidade mais deva ser refinado o espírito que a pode entender.

E havia o problema do peso. Com quantos tomos completos me deixariam entrar no isolamento?

Mais tarde, já no hospital, optei por baixar na net uma antologia de Gullar. E logo ao quarto poema apanhei, AS PERAS: «As peras, no prato,/ apodrecem./ O relógio, sobre elas,/ mede/ a sua morte?/ Paremos a pêndula. Deteríamos,/ assim, a/ morte das frutas?/ Oh as peras cansaram-se/ de suas formas e de/ sua doçura! As peras,/ concluídas, gastam-se no/ fulgor de estarem prontas/ para nada./ O relógio/ não mede. Trabalha/ no vazio: sua voz desliza/

fora dos corpos./ Tudo é o cansaço/ de si. As peras se consomem/ no seu doirado/ sossego./ As flores, no canteiro/ diário, ardem,/ ardem, em vermelhos e azuis. Tudo/ desliza e está só.(…)», um poema magnífico, que naquela cama abismada pela espectralidade dos sudários, me levava a identificar-me com as peras, com a fugacidade que lhes dá e rouba a doçura e com essa voz que desliza para fora dos eixos do tempo.

Li entretanto, outras coisas com alguma densidade paliativa, que me desviaram de pensamentos tétricos, “A Tempestade”, de Vladimir Sorokin, que à partida me parecia e se confirmou como um pastiche do romance russo do século XIX mas que vai enlouquecendo à medida que progride e o absurdo se torna toda a medida, e o esplêndido segundo tomo da biografia de Doris Lessing, “Andando na Sombra”, que não deixa nada em pé dos mitos do século xx (da derrocada dos mitos políticos da esquerda, à figura do escritor como pêndulo de certos valores, em retratos onde esta pose é esgarçada pelas garras da autocondescendência, do paradoxo quanto à frequência com que se encontram em desacordo com a sua consciência, ou a da inveja) mas é de uma coragem na exposição da intimidade e duma honestidade que retempera e recupera, ainda que sob a sombra perpéta da possibilidade do erro, uma certa força moral.

E reli sobretudo um ensaio com um prazer redobrado: “Experience Esthetique et Spirituelle chez Henri Michaux /la quete d’un savoir et d’une posture”, de Claude Fintz.

É um livro que me é vital pois separa o trigo do joio e aqui é menos a estética do que o espiritualidade que me interessa, nessa vertente heterodoxa mas tão sériamente vivida por Michaux e onde também sinto ser o meu sulco – não falo dos conseguimentos mas do lugar onde me posiciono -, tal como na Catalunha o sinto na obra de Chantal Maillard, que já traduzi e espero vir a apresentar com outro fôlego.

Transcrevo dois excertos do Fintz, onde me sinto totalmente identificado: «Escrever permite, a um tempo, mudar-se a si mesmo, apaziguar as desordens individuais, mas também mudar o mundo e regular-lhe o mal. Michaux sonha com uma escritura sem traço, transfigurada em força radiosa. Ele crê na eficácia mágica duma escrita que desembocará no bem e cuja “crueldade” se metamorfosearia em poder de cura».

A segunda: «A escritura em Michaux é explicitamente pensada como empreitada de conhecimento de si (…) a escritura é certamente espelho das inquietações,  esperanças, hesitações, impasses da via experimental, mas ela é em si mesmo o caminho perdido e reencontrado de si; ela permite “percorrer-se” sobre diferentes modos – compreendendo-se aí  o ficcional e o imaginário – mas ela é em última instância una ascese que leva à maturação, quase à mutação interior».

Portanto, naquele umbral em que me encontrava confirmei as minhas convicções: merda para o cinismo, para o realismo, para o niilismo. Nós somos melhores do que isso – é o que vos digo.

E para alguém como eu, a quem interessa mais a espiritualidade do que a infusão num Deus nomeável, não deixo de encontrar sentido na questão levantada por Karlfried Durckheim: «Vocês serão melhores pintores, sapateiros ou carpinteiros, se sentirem que a vossa responsabilidade é para com Deus e não somente para com o vosso cliente.» Sim, é preciso que a sensibilidade da poesia testemunhe o seu tempo (é o fragor existencial de que não devemos abdicar) e ao mesmo tempo, numa dobra, como algo que difere ou se bifurca, desperte uma instância “anónima” e mais profunda, enraizada num outro plano onde o pequeno ego se reconcilia e dissolve – é isso que nos mede e reconstitui. É também o que nos dá uma dimensão crítica, um sentido da proporcionalidade dos valores que emudece o encantamento das sereias.

5 Ago 2021

Cruz e Sousa

20/07/21

 

Está prestes a sair em Portugal uma antologia do verdadeiro introdutor do simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa. A organização e o aparato crítico são do poeta Alexei Bueno, um excelente indicador porque Alexei é um criador sempre em diálogo com os clássicos e de um estro técnico inexcedível, o que se traduz numa enorme segurança nas suas análises.

Cruz e Sousa foi um visionário que morreu aos trinta e sete anos na miséria, acicatado pela inveja e o preconceito, dado ser negro – outro desses seres de escol de origem africana que o Brasil produziu no século xix (bastaria lembrar Lima Barreto e o Machado de Assis) e que depois passou um século a querer branquear (até a cédula de nascimento de Machado foi falsificada, para se esconder os seus genes africanos).

A fulgurante qualidade de Cruz e Sousa, no âmbito do simbolismo em língua portuguesa, talvez só tenha par em Camilo Pessanha, dois poetas que viveram a condição de uma “diáspora interior” e a quem a vida, literalmente, lapidou a expressão.

Seria igualmente curioso fazer paralelismos, de vida, de destino trágico, de imersão nas mesmas atmosferas poéticas para uma transfiguração plena de conseguimentos artísticos, entre Cruz e Sousa e o poeta Jean-

Joseph Rabearivelo (1901–1937), o primeiro poeta moderno da África, o maior artista literário de Madagascar, e uma vítima da colonização francesa.

Como em certos poemas de Pessanha, antecipa-se no plinto de Cruz e Sousa, nalguns poemas, os laivos expressionistas e até um salto estilístico da música (avant toute chose) dos versos para o regime do olhar, como se atesta aqui:

«ÉBRIOS E CEGOS, Fim de tarde sombria./ Torvo e pressago todo o céu nevoento./ Densamente chovia./ Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.// Monótonos gemidos/ Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis:/ Plangentes ais perdidos/ De solitários seres invisíveis…// Dois secretos mendigos/ Vinham, bambos, os dois, de braço dado,/

Como estranhos amigos/ Que se houvessem nos tempos encontrado.// Parecia que a bruma/ Crepuscular os envolvia, absortos/ Numa visão, nalguma/ Visão fatal de vivos ou de mortos.// E de ambos o andar lasso/ Tinha talvez algum sonambulismo,/ Como através do espaço/ Duas sombras volteando num abismo.// Era tateante, vago/

De ambos o andar, aquele andar tateante/ De ondulação de lago,/ Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.// E tardo, lento, tardo,/ Mais tardo cada vez, mais vagaroso,/ No torvo aspecto pardo/ Da tarde, mais o andar era brumoso.// Bamboleando no lodo,/ Como que juntos resvalando aéreos,/ Todo o mistério, todo/ Se desvendava desses dois mistérios://Ambos ébrios e cegos,/ No caos da embriaguez e da cegueira,/ Vinham cruzando pegos/ De braço dado, a sua vida inteira.(…)»

Um outro excerto nos sirva de isca: «Em vão fui perguntar ao Mar que é cego/ A lei do Mar do Sonho onde navego.// Ao Mar que é cego, que não vê quem morre/ Nas suas ondas, onde o sol escorre…// Em vão fui perguntar ao Mar antigo/ Qual era o vosso desolado abrigo.» Um livro a não perder.

21/07/21

De convalescença, arrumo papéis, folheio cadernos com esboços e notas. Acho uma longa sinopse de um filme que seria um EVANGELHO SEGUNDO MÍRIAM, cuja acção se localizaria nas Minas de S. Domingos, na actualidade. E no interior do filme haveria outro filme, uma história de amor, envolvendo um antepassado do protagonista do plot principal e que se passaria em 1938, em plena Guerra Civil espanhola:

«Um anarquista, para escapar ao massacre de Badajoz, escapa-se a vau para o Alentejo e vive escondido, pois sabe a Guarda Republicana de simpatias franquistas.

Um dia a Custódia, uma rapariga bonita e de espírito vivo, sempre com a resposta na ponta da língua, marca encontro com o filho do patrão, Luciano, num velho moinho de água. Luciano era uma má rês que, segundo o padre, “adubava o pecado e a maldade nas raparigas”. Como era boa figura causava quase sempre efeito. A Custódia sabia-lhe a fama mas era mais curiosa que precavida.

Contudo, ele falta ao encontro, havia ficado de véspera na jogatina e ingeriu tanta aguardente que não acordou para o encontro.

Custódia, farta de esperar, ouve barulho dentro do moinho e resolve ir espreitar. Encontra Diego, ferido; na véspera tivera um mau encontro com um javali. Diego conta-lhe que é um professor primário, fugido aos malefícios da guerra. Está esfomeado, anda a águas há vários dias. Ao princípio ela assusta-se, mas os modos do espanhol inspiram confiança e resolve ajudá-lo. É o seu segredo.

Traz-lhe uma merenda e com umas ervas do campo fez um unguento que lhe cura as feridas. Dura isto vários dias e vão-se aproximando. Ele conta-lhe a sua aventura, as esperanças que teve e a mortandade que se seguiu. Neste novelo apaixonam-se, ainda que ela rejeite chegar a “vias de facto”. Diego respeita-a nisso, o que só intensifica a paixão.

Passam a chamar ao monte e ao moinho onde se desenrola o seu amor CABEÇA DE DEUS.

O pior é que Luciano desatou a cismar. Não estava acostumado a que lhe dissessem que não e fazia-lhe espécie que ela primeiro lhe tivesse acenado com um sim para depois ser tão recticente, negando-lhe um, dois, três encontros. Desatou a segui-la e um dia descobriu-os.
No dia seguinte, Diego era entregue à Guarda Espanhola.

Lá ficou na prisão à espera de ser fuzilado. Não contavam era com a determinação de Custódia.
Numa madrugada, armou uma trouxa, e andou cinquenta quilómetros em dois dias, até chegar à vilória onde Diego estava preso.

Depois entrou decidida no gabinete do chefe do posto e negociou com ele a liberdade de Diego. Como? Ofereceu-lhe a virgindade.
O chefe de posto abusou dela mas honrou a palavra e escoltou-os até à fronteira.

Diego tornou-se o melhor professor primário daquelas regiões, tendo educado muitos filhos de camponeses. Luciano é morto em Angola, pelo leão que caçava.”

22 Jul 2021

Crónica duma sobrevivência

Primeiro o lugar-comum: ficas isolado numa atmosfera rarificada para além das agulhas do cateter, do tétrico incómodo da máscara de oxigénio, duma áspera sensação de aquário que devagar mas inexoravelmente te desloca para a periferia da vida – vais sobrando.

E bate-te funda a perplexidade de que em 24 horas te foram roídos sessenta por cento dos pulmões – infectados.
Chegou de onde o ataque, se estavas medicado? Na primeira percepção de que algo te colocou em jogo eis-te em desvantagem, antes de tomares posição na trincheira. Uma metáfora da ligeireza com que te entregaste à vida? Metáforas de areia, reduzidas a um nó de carne patética, manejada por um reles vírus que numa ceifa rápida te fez roçar a face na lâmina da indeterminação e de quem ouves a gargalhada. Tens quarenta por cento de hipóteses, num território em que o inimigo domina.

A máscara de oxigénio incomoda-te, dias a aceitares que é tua aliada. Uma aliada que pouco te confirma. Precisarás de algo que te afaste dos números da máquina que três vezes ao dia vai à tua cabeceira ler a tua produção de oxigénio e que te desengana; aquém da resposta devida. Só aqueles malditos números importam, só eles te permitirão levantares-te, antes que paultatinamente o teu sistema biológico entre em derrocada. Tudo depende dos pulmões; tens mais de sessenta e estás na Volta a França em bicicleta. Aguentas-te? O teu diálogo passa a ser com aqueles números digitais e os seus apitos, as ondas da tensão e os valores dos diabetes, e as injecções anti-coagulantes e, com o zinco, o zinco teu amigo, mas sobretudo, com a percussão do sonar martelado por aqueles números, estamos nos Pirinéus, merda de subidas, os teus números têm de subir aos noventa.

Como evitar que ao fim de quatro, cinco, seis dias de impasse, o medo aflore? Que te sintas no intérmito, insituado em pleno deserto, sem nada para trás que te salve, inúteis os milhares de livros na estante, os versos escritos, a vaidade dos inéditos, ah, a “inteligência”, em que vácua galhofa patinam agora os milhares de artigos? Em que insuficiência te tornaste tu? Afinal o que resiste para além da borbulhagem, do imago, da caca que todos os dias produzes? Estás só, enterrado num saco de pele, recoberto por brisas e alguns escombros de palavras, enfeixado por fim num espesso saco de plástico, que te cobre inteiro com uma máscara de matéria insólita que vai engrossando com, parece-te, intenções ambíguas, suspeitas.

Não fazes balanços de vida, aí saberias que cederias à morte – a soma dos erros não te deixaria em paz.
Quando te atreves a tirar a máscara de oxigénio sabes que tens um minuto para levantares-te e ires à tomada carregar o telemóvel e o kindle. Um minuto antes de começarem as tonturas, e dessa oportunidade depende tanto. Pior, o carregador que sempre serviu para ambos dá sinais de fadiga, são horas para carregar 20 % do telemóvel, e o kindle decidiu passar para o lado das trevas. As tuas defesas baixam.

Na clínica, há resistências para receberes mais artefactos electrónicos e livros. Vais ter de te amanhar com o caderno cartonado, preto, de quadrículas, onde te apanhas a repetir variações em torno de três quatro palavras: ar, oxigénio, grainhas… Ah, de repente és um poeta concretista e só te apetece chorar!

Tens de encontrar poros no sarcófago, uma narrativa que te devolva a uma certa unidade humana, a uma presença de que te sintas parte.

Decides que a morte fica fora do tempo e que só te importa o que lateja no seu interior, no frágil tecido temporal. Só aí há algo intocável, que não pode ser invadido: o Amor. Não cederás à puta um milímetro.

Dedicas a energia a fazer no WhatsAap (nunca mexeste nessas coisas) um grupo familiar, com a tua mulher e as cinco filhas, quatro em Portugal, e netos. O que é vital é saberem que os amas e lutas por elas, e procuras todos os dias trocar mensagens animosas, contra o teu estado de espírito, fotografias com mínimas travessuras, ditos de humor, mensagens benignas – porra, amas a tua mulher e filhas, aconteça o que acontecer, o importante é elas sentirem que as amas, o resto é secundário. Depois, fechas os olhos e com a pouca carga que o carregador te permite ouves música: Debussy, Poulenc, Messiaen, tudo o que lhe sejam pássaros, a Hélène Grimaud, a tocar, Bach – Chaconne from Partita No. 2 in D minor, BWV 100, a Quarta Sinfonia do Philip Glass, o Calculus 2020, do John Zorn…( falhas tragicamente as sinfonias do Lutoslawski – adoras as sinfonias três e quatro mas era a net que ia ao ar, ou a bateria que faltava…).

Ouves a música que te expande as células e te faz abraçar o pouco grão de ar que te sustém, e é a música que, naquele momento, desesperadamente, gostarias de transmitir aos que amas, para que fossem tocados por uma parte do Belo de que fazemos parte e nos justifica a vida e sempre tão inabilmente comunicaste.

Agora o teu corpo é como uma tábua de engomar, precisa de reabrir poro a poro e de reaquirir o seu ritmo respiratório – os pulmões estão frágeis. Vais reler poetas a que deste menos atenção, poetas do ar: Guillen, Jaccottet.

Mas já estás na varanda, a apanhar sol e a ler Milosz, outro dos teus alimentos:
« O PRÉMIO / Que dia feliz./ A névoa dissipou-se cedo. Pus-me a trabalhar no jardim./ Colibris estacaram sobre a madressilva./ Nada sobre a terra que quisesse possuir,/ Ninguém sobre a terra que eu pudesse invejar./ Todo o tanto que sofri, esquecido,/ Não tinha já vergonha do homem que fui./ Não me doía o corpo./ Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas».

Parece que a Teresa fez uns pastéis de bacalhau; retiras-te, que te desculpem a pieguice.

1 Jul 2021

Carta a um jovem poeta

Organizada pelo poeta Zetho Gonçalves, saiu agora na Letra Livre (numa bela edição), uma compilação de textos de Jorge de Sena que de comum são difíceis de encontrar e cuja reunião se justifica no longo, justo, e tenso prefácio em que Zetho explana o pensamento poético do autor de “Metamorfoses”.

Logra-se o efeito deste livro, precisamente, abanar alguns lugares-comuns sobre a poética de Sena (quer no prefácio, quer congruente propriedade que a montagem dos textos revela) e estar à altura da verve que o homenageado cultiva na ácida “Carta a Um Jovem Poeta”, aqui repescada como pretexto para de outros modos de viver a poesia e a dignidade que a deve estribar se falar.

A impressão que nos fica desta leitura (de “Carta a um jovem poeta”; “Sobre Poesia, alguma da qual portuguesa”; “Acerca de um Puro Poeta – fragmentos”; “Oito Poemas para a Nova Madrugada”; “Prefácio da Primeira Edição de Poesia”; “Discurso do Prémio Etna-Taormina”; “Discurso da Guarda”) é a de que este fluxo de disparos e tinir de espadas nos chega de um pirata de Madagáscar, tal é a violência da carga que se apresenta no traslado.

É impossível numa crónica apresentar todos os argumentos que aqui se esgrimam, iremos ater-nos ao texto que dá título ao livro e a algumas irremovíveis estocadas com que Sena desfaz as ilusões poéticas.

Conta Zetho, o texto surgiu de um convite do poeta brasileiro Walmir Ayala, através de Sophia de Mello Breyner Andresen, para Sena figurar numa obra colectiva cujo plinto seria as famosas “Cartas a Um Jovem Poeta”, de Rilke.

E relata-se, num delicioso apontamento memorialístico, que perguntando Zetho a Sophia pela sua própria Carta, da qual não haveria notícia, respondeu a poeta: “A carta do Jorge deixou-me sem mar para escrever fosse o que fosse”.

Lendo a carta vê-se como Sena sabota as mais rudimentares pretensões pedagógicas e seca qualquer pingo de aragem para o mais mínimo cata-vento:

«A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa.

Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o “si mesmo” está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu sim mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. (…) Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser.»

Sena procede como Sileno, o tutor de Dionísio, a quem o rei Midas perseguiu na floresta, insistindo em perguntar-lhe qual dentre as coisas seria a melhor e a preferível para o homem. Forçado pelo rei, respondeu: «Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, ser nada. E o melhor em segundo lugar, para ti, é morrer rápido» (, in Nietzsche, A Origem da Tragédia). Sensivelmente pela mesma data da escrita desta carta de Sena, em Londres, o jovem poeta de Bombaim, Dom Moraes (tinha dezanove anos), em visita à cidade, almoça com o seu poeta favorito das gerações precedentes, Stephen Spender; o qual desfere, sem dó: «você está ciente de que ser poeta/ é olhar-se ao espelho e ir padecendo/ do ser monstruoso em que se vai tornando,/ porque a poesia não pactua com a mentira?».

Gente sem feitio para andar com bordados. Mas que sobretudo previne que o terreno é pedregoso e que a poesia só oferece «uma garantia da dignidade humana» se a sua independência e liberdade se cumprirem (um poeta não pode esquecer-se de transformar o mundo), deixando então pressentir a vera radiação de uma presença inominável, reconhecível nos exercícios de cabotagem que a escrita permite, mas tão difusa que querer obter proveitos dela é como capturar o oceano com um garfo.

E continua Sena: «Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida?»

Quanto ao gesto do jovem poeta pedir conselhos, ou da pertinência destes, volta Sena a desenganá-lo: «a poesia autêntica não necessita de ser encorajada; antes se acrisola numa solidão que de própria natureza bem conhece».

Percebe-se que Sophia tenha ficado sem chão, como todos nós. Mas o que torna
necessário a leitura desta Carta contundente, visceral, é exactamente lembrar-nos que há uma espessura para as coisas e que na anti-pulcritude da verdade que contém se traceja a “aventura espiritual” (expressão repetida neste livro) que importa, mesmo contra o que parecia adquirido: «A literatura, de resto, é algo de somenos que nunca me interessou; salvo raras excepções que me espantam, sempre a achei uma forma de analfabetismo, exactamente como o ensino universitário: uma e outro não conferem cultura, mas ideias feitas, preconceitos, muita presunção vazia.»

Dizia o Godard, se a cultura é a regra a arte é a excepção. Ainda que incomode, é a que encontramos nesta carta que nos devolve à solidão. O resto é o marketing – espuma, o que na longa duração apenas fede.

10 Jun 2021

Armar a teia da sedução 2

Que horas bem passadas a ler o livro de entrevistas de Jaime Gil de Biedma, Conversaciones (Austral, 2002). Não é um autor das minhas linhagens, mas ressuma inteligência em todas estas conversas, a tal ponto que até quando discordamos é com agrado que o fazemos.

Veja-se este primor; diz Biedma ao entrevistador:
«- A respeito disso, deixe-me contar uma anedota engraçada. Sólon, imperador de Atenas, tinha fama de sábio. A Atenas daquela época seria absolutamente provinciana, com as pessoas sentadas na soleira da porta, a observarem quem passava e com quem trocariam eventuais comentários. A Sólon havia morrido um filho de vinte anos; na altura, assim que os filhos arrebitavam iam para a guerra ou punham-se a cavar a horta… Uma coisa chata, os filhos morrerem nessa idade. E parece que Sólon, o criador da Constituição de Atenas e, na verdade, o inventor de Atenas, estava lamentoso, e então o cretino de plantão, que todos conhecemos porque, sabe-se, só a estupidez é imortal, viu ali uma oportunidade para achincalhar o sábio, e observou-lhe: “Por que o choras, se não serve para nada?” E respondeu-lhe o Sólon: “É por não servir para nada que choro!” O que é muito bom, e mostra como Sólon era realmente um sábio.

– Bem, eu volto ao poema. Aquele intitulado “De vita beata”.
(transcrevo-o inteiro: «Num país antigo e ineficiente/ algo parecido à Espanha entre duas guerras/ civis, num povoado à beira-mar,/ ter uma casa uma pequena renda/ e estar privado de memória. Não ler,/ não sofrer, não escrever, não pagar contas,/ e viver como um nobre arruinado/ entre as ruínas da minha inteligência.»)
– Ah sim. E que tem?
– Você ainda o subscreve?
– Imagine que não o subscrevia. Que fazer? Removo-o das edições de minhas obras?
– Não. O que lhe quero perguntar é se foi o fruto de um momento determinado ou de uma concepção de vida mais duradoura.
– É o fruto de um momento específico; não é o resultado de uma concepção da vida. E digo-lhe mais, ao poema compu-lo na cabeça enquanto nadava numa piscina. Claro que, por isso, é tão curto, o fôlego, quando estamos a nadar numa piscina, não é o mesmo.
– Entre todas as entrevistas que lhe fizeram, que suponho terem sido muitas, que pergunta gostaria que lhe tivessem feito e ninguém fez?
– Eu gostaria que me fizessem uma proposta desonesta.
– Como desonesta?
– Sim, é o que ainda se espera de uma entrevista, que nos façam uma proposta desonesta.
– O que entende por desonesto?
– Bem, repare, o normal numa entrevista é que te perguntem a opinião sobre a poesia e etc. e tal. Mas chegar alguém e passar-me a mão no pêlo, bem, seria o que não se espera, e aí poderia tornar-se realmente divertido.»

Biedma, como Auden, faz do poema uma conversa, às vezes em chave alegórica como em Eliot e Cernuda, que também permeia de ironia e ou de auto-derrisão – e diga-se que o seu confessionalismo sinaliza mais um efeito retórico do que uma premissa psicológica.

Na sua obra há vinte poemas excepcionais, os demais espelham um quotidiano hipostasiado em cultura ou uma espécie de auto-compadecimento, em pose, que me irritam um pouco e me põem sob reserva. Com a leitura deste livro entendi porquê.

Biedma distingue entre poesia e poema: «a poesia é o que o leitor experimenta lendo o poema, não o que ocorre ao poeta enquanto o escreve. A poesia é o poema assumido no momento da leitura. Um poema não se faz para ser escrito mas para ser lido, inclusive pelo próprio».

Ou seja, a poesia é primeiro que tudo um artefacto social, de que o poema é o epítome, não passando do seu processo desencadeador. E o que interessa sobremaneira a Biedma é o efeito do escrito sobre o seu leitor – «o meu interesse primordial são as pessoas», diz – e menos a experiência a montante do poema.

O que explica a escassez da obra (pouco mais de cem poemas) e a desmotivação que, com a idade e a perda do seu tónus físico e da eroticidade que o galvanizavam, o tomou.

Com esta distinção entre o poema e a poesia Biedma imita o engenho que ecoava na boutade de Duchamp:”ce sont les regardeurs qui font les tableaux!”. Por outro lado, a importância que dá ao leitor, a obsessão com “o seu” público, realça que os seus poemas funcionavam para o poeta como simulações com endereço prévio – i, é, mais não pretendem do que “fazer espírito” e armar a teia da sedução.

Fica justificado o reparo do poeta da sua geração Caballero Bonald, com quem concordo: «dificilmente a sua narratividade anulava o meu hábito de leitor, seguramente defeituoso, de desdenhar a poesia que não ocupa mais espaço que o poema, quero dizer que não ultrapassa a própria fronteira do seu argumento para se cingir à sucinta órbitra realista, sem ramificar-se noutros voos…».

Atenção, levantar as saias das senhoras ou baixar as calças dos homens: motivos tão superlativos como quaisquer outros para produzir poesia. Porém isto faz com que aflorem na poesia de Biedma, sumamente inteligente como factura técnica, vários momentos pueris (frívolos, lhe chama Bonald), dado que apenas pretendia organizar um solvente catálogo de engates.

Com excepção daqueles poemas em que, ao contrário, está inteiro, como em No Volveré a Ser Jovem, que o poeta declarava como o seu preferido: «Que la vida iba en serio/ uno lo empieza a comprender más tarde/ —como todos los jóvenes, yo vine/ a llevarme la vida por delante./ Dejar huella quería/ y marcharme entre aplausos/ —envejecer, morir, eran tan sólo/ las dimensiones del teatro./ Pero ha pasado el tiempo/ y la verdad desagradable asoma:/ envejecer, morir,/ es el único argumento de la obra».

Neste caso também deve tê-lo composto a nadar, mas não é preciso mais.

3 Jun 2021

Ignorâncias

Insone, passei à sala e agarrei num molho de livros para começar a fazer a minha busca de poemas de todo o mundo sobre o vento, pensando num programa de rádio que planejo fazer com o Fernando Alves (um fascinado pelo vento, como eu). Um dos livros que me veio à mão foi «O Prolífico e o Devorador», do Auden, traduzido pelo Helder Moura Pereira para a &etc. Um livro de aforismos e anotações breves que Auden deixou inacabado. No primeiro aforismo lê-se:

«O homem não só cria o mundo à sua própria imagem como os vários tipos de homem criam vários tipos de mundo. Cf. Blake: “O ignorante não vê a mesma árvore que o homem sábio”».

Neste momento, de falência cognitiva tão acentuado, esta evidência seria considerada ofensiva. Depois, ao que parece, deixou de haver ignorantes. Disse-me um aluno (fincando a inutilidade da minha presença como professor): basta abrir a net e informamo-nos sobre tudo e todos.

No que só deu razão a Platão que antevia na escrita o perigo e a loucura de se idolatrar as sombras. Daí estar justificado que, com tanta sabedoria à mão de semear, o meu aluno se dispense, numa caprichosa constância, de “consultá-la!”.

Eu, ao contrário dele – que mantém a ignorância “sob controle e ao alcance dos seus megabytes” (invejo-lhe a crença na “transparência” dos meios) -, considero a vida e a sabedoria como enigmas e à minha ignorância uma benção. É o que me motiva a procurá-la, ciente, de que há, inclusive, muitos tipos de elucidação não verbais.

Quando percebo que ignoro qualquer tema, âmbito, a existência de um autor e determinada área, sinto que se avizinha o reencantamento e atiro-me às águas desconhecidas na ânsia de alcançar, mesmo a nado, esse novo arquipélago. Nunca me senti diminuído por desconhecer algo: é uma alegria reconhecer o que ignoro, dado que isso abre o espaço.

Nunca tomei é o conhecimento como adquirido, tenho sempre de o conquistar, de o digerir.

O que o meu aluno não sabe (lembro Blake, “O ignorante não vê a mesma árvore que o homem sábio”; admitindo que seja eu, noutros níveis, o patego da relação) é que o saber não está na informação, e não resulta da soma dos seus itens, e antes se situa no modo como lemos a “experiência”. Sendo esta, tão somente, o que “acontece” quando a informação deixa de transitar à nossa frente, fora de nós, com os seus brilhos efémeros, e se interioriza, inscrevendo-se subcutaneamente no nosso corpo, levando-nos a mudar a vida e o olhar em conformidade com o nosso comprometimento no seu rasto. Avatar que o meu aluno ainda não está disposto a assumir porque, como é novo, acha que tem ainda mil hipóteses à sua frente e não tem que se vincular com nada.

Ora, como alvitrava o Pound, no ABC of Reading, e eu tomo por certo: «Os homens não compreendem os livros até que tenham vivido uma porção considerável da sua vida. De todo o modo, nenhum homem compreende um livro profundo enquanto não tiver visto e vivido ao menos uma grande parte do seu conteúdo.»

Talvez se ele observasse o rosto de Auden percebesse: o tempo é um arado e os mil sulcos na face do poeta confluem para um mesmo resultado, é imparável o modo como o humano se aproxima da morte e aos caminhos que se bifurcam convêm estar sustentados em valores para não resultarem em miragens mas em riqueza expressiva.

Resulta daqui que na relação com o conhecimento escavar seja o que é exigível, nem que seja para que se levantem poços de ar – percepções concretas. Mas se até o acto de observar, em si mesmo, leva tempo, o que ele não quer “desbaratar”, abstraído de que temos de perder para ganhar…

Ilustra-o o belga Jacques Darras, num poema, Nommer Namur, em que alude aos dois rios da sua infância que circundam a cidade), e de que traduzo um excerto (Darras é um poeta de poemas longos):
«(…)/ Como restabelecer a circulação num rio confiscado por um hino?/ Deixem-me explicar./ Afago-o vai para um longo tempo./ Acarinho-o há um vasto tempo infinito./ Isto poderia durar meses, bastantes, anos, uma vida inteira./ Acaricio o rio no sentido das suas pernas para conseguir que o sangue reaprenda o sentido da água, a jusante./ Para que ninguém se engane, isto nada tem que ver com a ecologia, é preferível que se considere a medicina./ Uma medicina enamorada./ Uma medicina poeticamente enamorada./Que consistiria em curar os rios ou às cidades com a voz./ Ou reciprocamente./ Com o matiz que pretende fazer passar todo um rio como o Mosa pela sua própria voz de uma vez só, o que suporia um gargarejo gargantuesco./ Enfático./ Não confundir ênfase com empatia./ Não, eu curo-me e curo-nos com os rios, nessa liquidez fluvial./ Queria que nos encontrássemos na palavra, na fluidez./ Essa transparência fluida que é como a respiração da água prévia à desembocadura./ E para o qual os rios do Norte parecem possuir desde sempre uma enorme facilidade./ Na sua moderação pouco torrencial./ Igual a si mesma./ Na sua uniformidade falsamente plácida./ Não busco tanto o epos antigo caricativo com os militares e com as castas de soldados demasiado tempo afastados das mulheres./ Não busco o conhecimento profundo de Gilgamesch./ Busco o jogo alargado da insinuação amorosa através da voz.»

Uma voz. Manter no fio de uma voz a insinuação amorosa que pode exalar do afecto e juntar-se à admiração – esse são princípio de proporcionalidade – na liga que importa, que não é a do futebol mas a da vida que decola do seu ponto de irrelevância.

27 Mai 2021

Lembrar Edward Said

Olho para estes dias a ferro e fogo no Médio Oriente e imagino como o Edward Said viveria a irracionalidade que nessas terras se compraz.

Said, mais conhecido pelo célebre “Orientalismo”, era um intelectual para quem entender o mundo pressupunha – anota David Barsamian no prefácio ao livro de entrevistas que saiu no mesmo ano da sua morte, em 2003 e que conheço na edição brasileira, intitulada “A Pena e a Espada” – encontrar «um equilíbrio entre dissonância, consonância e discordância» e que «por esse prisma complicado» se via não como «uma única pessoa corente, mas como várias coisas diversas».

A sua disposição é ainda mais suspeita, este intelectual palestino, professor de Literatura Comparada na Universidade Columbia, que fez livros que desmantelaram arreigados mitos ocidentais sobre o (médio) oriente e foi um defensor abnegado da causa palestina mas, ao mesmo tempo, o primeiro a dizer que não reconhecer Israel era um disparate, gostava de se definir como um ser marginal e atreito a uma completa ausência de centro, declarando que se sentia como «um feixe de correntezas fluidas»: «Prefiro isso à ideia de um eu sólido, à identidade à qual atribuem tanto significado; (…) os seres humanos não são recipientes fechados, mas intrumentos pelos quais outras coisas fluem».

“A Pena e a Espada” é um livro de uma lucidez mordaz (não porque ele seja ácido, simplesmente nunca se evade de pensar para além das evidências), que se hoje fosse lido pelos seus compatriotas e pelos israelistas talvez servisse de travão ao fanatismo que os encarniça: «Na minha infância, era possível mudar de um país – Líbia, Jordânia, Síria, Egipto – e cruzá-los por terra. Era possível fazer isso. Todas as escolas que frequentei quando garoto eram cheias de gente de raças diferentes. Era completamente natural para mim frequentar uma escola com arménios, muçulmanos, italianos, judeus e gregos, porque aquele era o Levante e essa foi a maneira como cresci. O divisionismo e o etnocentrismo que encontramos agora são um fenómeno relativamente recente que me é absolutamente estranho. E eu o odeio. (…)Em muitos dos meus textos recentes oponho-me à ideia, presente em muitas das agendas intelectuais e políticas dos oprimidos, de que quando chegassem ao poder iriam descontar tudo nos outros. Isso é absolutamente contrário à ideia de libertação. É como se parte do privilégio de vencer fosse o direito de descontar nos outros. Vai directamente contra a razão da própria luta; não posso dizer que concordo com isso. Essa é a outra armedilha do nacionalismo, ou do Fanon chamava a “armadilha da consciência nacional”. Quando esta se torna um fim em si mesma, quando uma particularidade étnica ou racial ou a “essência” nacional, em grande medida inventada, vira a meta de um civilização, cultura, ou partido político, você sabe que esse é o fim da comunidade humana e que estamos diante de outra coisa».

Essa outra coisa é o coração das trevas que por aquelas bandas lateja, até se reduzirem mutuamente a pó – pois que retaliação caberá a um fantasma?

Saliente-se que Said fundou em 1999 com o seu amigo Daniel Barenboim, maestro argentino-israelita, uma orquestra de  jovens  do Egipto, Síria, Líbano, Tunísia e Israel, a “Diwan Oriente-Ocidente” (Barenboim, que ofendeu judeus quando, em Israel, ousou tocar Wagner – o “compositor de Hitler” – e que emocionou palestinianos ao doar o seu Steinway ao Conservatório de Ramallah [que agora tem o nome de Edward Said], destruído pelo Exército israelita, tinha uma admiração profunda pelo amigo com quem partilhou concertos de Mozart, Beethoven, Schubert e Rossini.).

Vale muita a pena ler este “A Pena e a Espada”, bem como o seu livro magnífico sobre os intelectuais, “Representações do Intelectual” ou o seu último ensaio, aliás póstumo, “Sobre o Estilo Tardio”, reflexões na arte e na literatura.

No livro de entrevista, às vezes somos nocauteados com evidências que deixámos escapar, por “erros de simpatia”, como esta, sobre Camus:

«Não menosprezo o seu talento como escritor; Camus é um excelente estilista, certamente um romancista exemplar em muitos aspectos. (…) Mas o que me incomoda é ser lido fora de seu contexto, da sua história. A história de Camus é a de um “colon”, um “pied noir” (…) Os seus romances, na minha opinião, são verdadeiras expressões da situação colonial. Mersault, em “O Estrangeiro”, mata um árabe, a quem Camus não dá nome nem história. Toda a ideia do final do romance, segundo o qual Mersault vai a julgamente é uma ficção ideológica. Nenhum francês jamais foi julgado por matar um árabe, na Argélia colonial. Isso é mentira, é algo que ele inventou. Em segundo lugar, no seu romance, “A Peste”, as pessoas que morrem na cidade são árabes, mas não são mencionadas. As únicas pessoas que importavam para Camus e para o leitor europeu da época, e até de hoje, são os europeus.»

É duro, mas faz pensar. Como na generalidade tudo o que escreveu este homem de uma profunda racionalidade e cultura múltipla, que sabia amar o diferente e ser equidistante, embora nunca tivesse perdido de vista as causas.

20 Mai 2021

Da vida como brasa

Serei o único nababo que ao acender o cachimbo, macia e estultamente, se queima?

Muito mais do que eu, o Pasolini há-de ter esmaltado com o lume algumas estrias nos dedos imprevidentes porque não há dúvida que a vida lhe esteve sempre em brasa, que o seu sopro nunca deixou esfriar o escândalo, que o vento nele era uma liga de fogo «num ventre vivo».

Lê-se este livro póstumo de Pasolini, editado pela Barco Bêbado, e percebe-se porque, sinaliza-o Claudio Magris num artigo em que os compara, Montale se irritava com ele.

Pasolini e Montale representam os dois pólos da atitude face à escrita e à vida. Um apostava numa escrita impessoal e era céptico quanto ao poder que a poesia lograsse para mudar a vida; aliás à própria vida não atribuía mais do que uns 5% de presença e convicção. Pasolini, pelo contrário, era da linhagem de Rimbaud, vivia a 120% do seu potencial e a escrita nele só tinha sentido como operador da mudança. Mesmo eivada de contradições e do vestígio das derrocadas que a existência arma, a poesia era-lhe um modo expedito de fazer respirar a acção que urde uma moral focalizada pelo dissídio, ou na razão poética e anti-burguesa.

A poesia é, para o autor de “Poesia in Forma di Rosa”, esse pleito onde a consciência acede à sua própria percepção e restaura a contigência duma voz (de um rosto) exumada pela sua inscrição política. Ademais, ele tinha uma vocação plectórica que o fazia tocar vários carrinhos: poeta, contador de histórias, dramaturgo, cineasta, romancista, cronista político, ensaísta, e, provocatoriamente, gostava de fazer de “ponto” intrometido e desarvorado no palco de todas as revoluções. Este “Who is me – Poeta delle Ceneri” (Poeta das cinzas), bem o demonstra.

Um dia, cinco anos depois do seu assasinato, Enzo Siciliano, o autor de uma das suas biografias, descobriu o rascunho deste longo “poema biobibliográfico”, e, apesar de não estar acabado, considerou que à obra incabada não faltava o ímpeto que merecia a publicação.

Tinha razão, o poema tem nervo e no seu modo digressivo, “reticulado” (um bom achado da posfaciadora, Rosa Maria Martelo, para falar do mecanismo desta escrita) faz uma espécie de panorâmica sobre a vida, com flexões desde a infância, às ilusões revolucionárias e à justificativa de passar da poesia para o cinema (o filme “Teorema” tem no poema uma boa e alentada sinopse), numa fluência em que as modulações reflexivas, as concretíssimas pinceladas campestres, a trama dos amores e das perseguições judiciais que aí se desencadearam (Pasolini foi alvo de vários processos), a discussão sobre as formas estéticas e os valores morais, se enredam numa textura verbal sempre à beira de pegar fogo. Porque este é um homem de um realismo iracundo que conversa interpelando o leitor, nesse tu cá, tu lá, que fazia dos poemas de Pasolini um pensamento coral.

Não tinha razão Montale quando acusava Pasolini de um excesso de pathos, como se erguesse um ego contra o mundo; na verdade, para o poeta rival, como prevenia Deleuze, «Escrever não é contar as lembranças, as viagens, os amores, os lutos, sonhos e fantasmas. Ninguém escreve com as suas neuroses. (…) A literatura só se afirma se descobre sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal.»

É neste sentido que o emocionado Moravia, nas exéquias de Pasolini, falou da enorme perda de um “poeta civil” – exactamente no mesmo sentido com que Pound definia o “poeta como antena da raça”. Pasolini usava a sua vida, narrava-a, como quem encarna o modo coral da sua época e do tecido social que ele sentia em perda.

Este poema de trinta páginas, que faz o balanço de «um peixe fora da rede», chega a ser brutal na análise e na auto-derrisão dos factos narrados, quer na relação com o pai, sempre ambivalente no ódio e na compaixão, quer na traição dos camaradas comunistas, aburguesados, que chegaram a matar-lhe o irmão por fanatismo de facção, quer na própria relação de artista com o seu público («A burguesia italiana, a verdadeira, a/ que compõe verdadeiramente a Itália/ experimentou um ódio profundo por aquele mundo subproletário:/ o ódio pela diversidade/ um ódio indistinto e global por mim e pelas minhas personagens./ Com o meu primeiro filme, que se intitula “Accattone”, /aquele ódio transformou-se num verdadeiro e real sintoma de racismo.», pág. 21).

Nada escapa à lucidez e ao crivo do poeta (que na altura da escrita do poema viajava pela América e era alvo de processos judiciais contra a iconoclastia de “La Ricotta”).

E, antecipando-se ao seu tempo, o poema apontava o dedo à biopolítica que corrompia pela base as alternativas existenciais e políticas e anteviu os perigos da massificação das massas («Caros americanos, não pacifistas, e não espiritualistas, /ou seja, a enorme maioria bem-pensante,/ o vosso deus é um idiota/ como qualquer cidadão médio/ que deseja com todas as suas forças e com todo o seu espírito/ ser como todos os outros (…)», pág. 22).

Expressivamente, Pasolini reclama uma alocução directa que diz preferir às volutas do estilo: «Também este caso te contei/ num estilo não poético/ para que não me lesses como se lê um poeta. / Assim decaiu a estima pela poesia, típica/ das infâncias que acreditam no eterno…» (pág. 29), mas esta é uma meia-verdade, pois como o poeta lembra na página seguinte: «Apenas o amor por aquela língua do não-eu, que se exprime/ com igual direito, igual força do eu/ dá ao poeta/ a capacidade.» (vês, Montale?). Daí que ao fim de trinta páginas deste aluvião ou ossário afinal polposo o leitor se sinta agarrado – e também por força do bom ritmo com que a tradutora, Ana Isabel Soares, soube dotar o texto.

«E hoje, dir-vos-ei, não é só preciso comprometer-se com o escrever, / mas com o viver:» é isto, nem mais.

14 Mai 2021

Cristalizações

12/12/20

Uma mulher belíssima, com um olho vazado. Ou foi uma ilusão de óptica? Pode esta dúvida, por si, constituir personagem? Trazia com ela um lobo-de-alsácia que se alçou sobre as patas no largo parapeito da janela da cervejaria, nas minhas costas. As unhas do cão arranharam o alumínio e lancei um relance para trás das costas, vendo a mancha cinza do cão, a sua túmida língua rosa, e sobre a cabeça deste aquele semblante radioso, a quem a máscara não conseguia obstruir a luz, nem a sombra enigmática no olho esquerdo desfeava. Um cabelo à Lauren Bacall e traços que me evocavam uma mulher que julguei amar como uma estátua distante numa repetida rota de comboio e que, soube depois, morreria de aneurisma.
O génio modernista não deixou de acoitar os seus cretinismos. Para Gertrude Stein chamar a uma obra artística bela significaria que ela estava morta. Que juízo austero!
Contudo, a impressão que me deixou esta belíssima (mesmo com um olho vazado) e fugaz aparição feminina era a de que, rompendo qualquer insípida harmonia, me sorvia a atenção pela impossibilidade de ser definida, o que a tornava desejável e porosa, digamos, uma representação viciosamente viva. Como se aquele breve segundo não se dissipasse mas se se implantasse, imprimindo-me na retina uma obra de arte.
A feiosa Gertrude que se dane!

15/12/20

Volto ao Brecht, à peça prometida à Maria João Luís, e que gostaria de terminar até ao fim do mês. Escreveu o dramaturgo alemão numa breve nota de 10.06.50, no seu Diário de Berlim: «Li um trabalho sobre mim e Gorky, escrito por um estudante trabalhador de Leipzig. Nada mais do que ideologia, mais ideologia e, sempre, ideologia. Em nenhuma das suas partes se enxerga um único conceito estético; o todo lembra vagamente a descrição de um prato onde nada seja dito sobre o sabor. Devemos organizar prioritariamente exposições e aulas destinadas à formação do gosto, i. é. que tenham em vista o prazer de viver.»
Um pequeno reparo que me faz reconciliar com a personagem (visto que, como ser humano, quanto mais o conheço mais o acho um traste).
Mas, curioso, é como fisionomicamente são parecidos, ele e o António Guerreiro. Se fizesse um filme sobre o Brecht recrutava-o. Tal como a Maria João Luís tem, é patente, o mesmo tipo físico da Heléne Weigel, que incorporá.
E isto lembra-me um conto burlesco que escrevi, ainda inédito, onde exploro as cruéis ou divertidas parecenças entre algumas figuras da pintura clássica e algumas figuras públicas de diversos quadrantes. Como aqui:
«Deixei então de querer ser um autor e comecei a sentir-me atraído pela ideia de me converter no sósia de um personagem que representasse indubitavelmente o estigma da Saudade. Que a superasse, dando-lhe um corpo. Posto ser a única esperança que nos resta para refundir o elo perdido: encarnar o avatar. Sempre me senti um artista, um artista verdadeiro, e como artista não queria fixar simplesmente a imagem para um corpo (o que não passaria de um espectro) mas sim construir um corpo para a imagem.
Tive a certeza disso quando vi o retrato de Carlos III pelo Goya, e vi que o rei era afinal o actor Miguel Guilherme.
A carreira de Miguel Guilherme, tenho a certeza, nunca descolará como verdadeira expressão artística e não crescerá internacionalmente (não falo da popularidade de que já beneficia em Portugal) antes dele assumir esta cristalização, tornando-se monárquico.»
“Tem a certeza” o personagem do conto, não eu, que estimo e desejo os maiores sucessos ao Miguel Guilherme. Mas, digam-me lá se eu não dava para olheiro? Vou fazer uma agência de casting.

16/12/2020

Foi hoje a cerimónia de lançamento de dois livrinhos que fiz em colaboração com a Cooperação Espanhola, em Maputo. Dois livros bilingues, de cujas traduções me encarreguei (com a Teresa Noronha), O passo que se habita, um longo poema de 30 páginas (nesta edição) de Esther Peñas, e Escrever, de Chantal Maillard, outro poema unitário, de 19 páginas. Ficaram belíssimos, os livros – o projecto gráfico é do pintor e gráfico moçambicano Luís Cardoso. Agora, vamo-nos atirar aos próximos livros da colecção.
Aqui deixo um excerto do primeiro:
« As abelhas voltejam no portão que separa o deus despossuído/ da multidão que reclama sangue/ porque não reconhece o valor do sangue,/ se soubesse que o sangue que corre em cada homem,/ em cada deus,/ é, mais do que sangue, energia sagrada, mas a turba já/ esqueceu o sagrado e o seu conceito, já não sabe alimentá-lo/ de madeira nem talhar nela/ a cena da fome./ O deus ruge, a seu pesar,/ e parece menos deus assim, tão dolente,/ tão pouca coisa este deus que se sofre no seu infinito;/ as abelhas corroem o ferro, fundem-no,/ obstinam na ordem profunda dos humildes poetas que segregam seda/ para não perder o sonho,/ as abelhas/ corroem o ferro, fundem-no, / juntam-se aos pés do deus/ e essa imagem,/ as abelhas dispondo-se num cortejo inverosímil,/ as abelhas,/ que segregam sonhos,/ devolvem-lhe a sua natureza primeira, a sua altura celeste/ e o deus responde em actos, baixa do patíbulo e a sua presença/ derrama-se pela praça,/ a sua dignidade trémula impõe-se,/ a multidão abre-se de um só golpe/ e um silêncio cósmico ressoa/ enqunto o deus confia às abelhas a inércia do passo./ recompõe-se,/ abre os olhos,/ abre os olhos e vê o que está para além do que neles cabe;/ poderia vingar-se, sim,/ mas a sua é a bondade feita existência;/ as abelhas acompanham-no, como nuvem de gatafunhos;/ há medida e recato no seu gesto,/ é um gesto de homem caído a pique capaz de levantar-se./ As abelhas sabem a quem servem,/ porque segregam cera,/ e as talárias pressentem.»
São duas poetas de respiração cósmica. Mas delas falarei numa próxima crónica.

17 Dez 2020

Desatinos

O acaso atirou-me para o estômago de Xipamanine e só teria boleia duas horas depois. Andar de chapa em pleno Covid não me parecia prudente.

Sentei-me na tasca mais protegida da poeira. Eles chegaram vinte minutos depois e abancaram na mesa ao lado da minha, num estardalhaço. Cinco bizarmas, altos e maçicos como zulus. Na melhor das hipóteses, seis ex-piratas convertidos ao basquetebol. Não eram, falavam em casas ardidas e em extorsões.

E o líder – há azares que nunca vêem sós – achou graça que na mesa ao lado um white se procurasse concentrar na leitura. O que dava uma função diferente ao tampo das mesas, agastadas por décadas de cotovelos ébrios. Para mostrar-se magnânime, interpelou-me, queria pagar-me um copo. Escusei-me às primeiras, mas ele insistia e de cinco em cinco minutos voltava à carga. Ao cabo de vinte minutos amaldiçoei-me por não ter zarpado mais cedo nem poder agora evitar a oferta, sem parecer indelicado. Suspirei para dentro, apropriei-me com um olho de uma linha do livro que estava a ler e atirei para a mesa do lado, num sorriso contrafeito:

– Bom, se até o Hegel, na Fenomenologia do Espírito, evoca a necessidade de tornar fluido o “pensamento congelado”, poderei eu recusar a sua oferta em oferecer-me uma cerveja?

Fez-se silêncio e a coisa deve ter-lhe parecido rebuscada, de um momento para o outro eriçou-se. Lançou para os outros:

– O white gosta de confusionar os bradas… – e sacando a pistola do bolso, pô-la em cima da mesa, sem deixar de me mirar – Vamos ver o que esse boss, como é que era mesmo o nome?

– Hegel…- repeti, reprimindo a custo o soluço – é alemão…

– Vamos ver o que esse boss fala depois de ver o buraco de uma bala no bucho… de outro white.

– Bom, dou por alternativa aceitar o seu copo… – reagi, mansamente.

Na hora seguinte, rodeado de risos e grunhidos e de mil disparos escatológicos, bebi cinco canecas a mata-cavalos, quase em silêncio; o capanga queria comprovar se o white aguentava. Não é verdade que cinco canecas depois se desloque o foco da depressão. E explicava ele aos outros, trocista, topando o meu incómodo:

– Julgava que o “mano” lia uma cena de economia e nos ia falar como livrar impostos!

Ficou o Hegel mais às curvas do que eu, apreensivo com os rumos de tanta generosidade. À sexta caneca, comprovando que a minha necessidade inata para ser tranquilizado me traía, deixei escapar um arroto. O que lhe provocou uma gargalhada e amenizou a tensão. Resolveu aí guardar a pistola e condescender:

– O white sabe beber… – antes de prevenir, de seguida – mas para a próxima faço-te engolir o livro!

O livro, de bolso por sinal, chama-se La Figure du dehors, e é do Kenneth White: daria uma bela e indigesta refeição.

Sairam dez minutos depois, na mesma estúrdia em que tinham entrado, deixando-me a cismar na ressaca e na petulância com que a cultura às vezes arrisca não ser mais do que um descarnado out of time.

Noutra vez resolvi ir experimentar o ambiente de um café novo, numa zona nobre da cidade, um pouco retro, bastante kitsch, e estupidamente caro.

Normalmente, só levo comigo o suficiente para pagar dois cafés, para não me entregar a outros estragos. Estava naquele limiar em que começamos a pensar em ir para casa quando me abordou um tipo baixote, anafado e cinzento:

– Desculpe. Dizem-me que o senhor escreve versos.

– Às terças-feiras.

Ele riu:

– Hoje é domingo, mas poderei pagar-lhe.

– Pagar-me o quê?

– Um poema para a minha dama.

Cocei o queixo, olhando-lhe os dedos encardidos do tabaco:

– Hum, e qual é a pressa?

– Ela faz anos hoje e fiquei de ir jantar com ela. Gostava de levar o poema comigo. Por quanto mo fazia?

– É um uísque duplo, por quadra. Se for soneto, três.

– Posso voltar daqui a meia hora?

– Quarenta minutos, a primeira dose é para me descer a inspiração, só ao segundo começo.

Espetou a mão sapuda no ar e selámos o acordo com um passou-bem.

Pedi-lhe uma fotografia da amada. Bom, ela era o impossível cruzamento de um radiador de Mercedes Benz com uma fêmea de tubarão-martelo. Há gostos para tudo. Porém, se o Mallarmé fazia de encomenda poemas para os casamentos e depois explicava aos amigos que aqueles poemas não eram obscuros porque não tivera o tempo para isso, eu também seria capaz.

Pedi o primeiro duplo.

Ele voltou uma hora depois:

– Não quis apressá-lo na sua escrita.

Passei-lhe o poema. A cara dele alterou-se à primeira palavra:

«Rémora grudada à sua pele/ lustrosa, o meu amor por ela./ (Ela não sabe que lhe chamo tubaroa!) / Rémora de si mesmo saudosa// mas rendida à emoção que só/ no seu flanco estua, quando ela arfa/ e um heliventilador me limpa o dó,/ no ar que me somava as derrotas.// (E quem mais aceitaria que eu/ fume por dia dois cinzeiros?) Rémora/ de amor ardente e ciúme ao rubro, e mui/ inquieta por fazer anos a minha fera/ e eu ainda à toa quanto ao presente…/ (Se ela soubesse que lhe chamo tubaroa!)»

Desculpe, o que é rémora? – perguntou desconcertado.

Expliquei-lhe. Não gostou do tom jocoso. Nem topou o verso camoniano.

– O senhor é maningue excêntrico, o poema nem tem lírios!

– Com emendas é mais um uísque!

Irritou-o a piada. Pôs uma carranca e deixou-me a sós com a conta por pagar, num café fino onde nunca havia entrado e nos braços de um gerente, percebi depois, um bocado bruto para brancos desabonados.

Este declinou a minha oferta com a sentença:

– Os uísques pagam-se com o dinheiro e os sonetos com o aplauso.

Gente ingrata, é o que é!

10 Dez 2020

Do mal e da farsa

O problema com o mal é que é superficial e raras vezes ultrapassa o recorte da opereta. Ou seja, não é Lady Macbeth quem quer – até Macbeth soçobrou na tentativa. No desfecho do primeiro encontro entre o Fausto e o Mefistófeles, de Goethe, isso é-nos caridosamente explicado, quando o mafarrico, na impossibilidade de sair do Gabinete de Estudo conforme quer, concede que a “lei” não muda, o que leva Fausto a observar, triunfante: «Então até o Inferno tem as suas leis. Isso é óptimo. Quer dizer que um pacto feito com os senhores seria fielmente respeitado.»

Pois é: então afinal o Diabo desordena, trapaceia, muda o quê? Pobre mártir das aparências.

Daí que no essencial a tentação satânica traduza uma mera aceleração das potências do desejo ou funcione como um momentâneo e hipnótico inibidor do bem, sem que seja um domínio. É um enredo que entretém, sem resolver o enigma. Para o comprovar basta não ceder à coerção da violência: aí constata-se como o mal se dilui; de si mesmo alheio.

Grande parte do mal advém de um desespero que não acedeu à lucidez, de uma energia mal orientada.
Em Moçambique calhou-me enfrentar situações em que julguei estar face ao Mal. Essa percepção da maldade humana que experimentei, sufocava-me. Até que me apercebi que essas figuras vogavam em práticas de vida agónicas, e como, para além de se não divisar a vantagem que tiravam da sua ruindade, se sentiam absolutamente perdidas. Tornava essa irracionalidade mais distorcida a sua maldade? Sim, mas esvaziava-se no seu acto circunstancial, eles não representavam qualquer entidade – apenas, os filhos da mãe, desconheciam a bondade. Aí o “poder” inverteu-se.

A obscenidade com que demasiadas vezes a ficção aposta no mal como efeito-placebo de uma suposta totalização do real resulta de uma necessidade que houve a jusante de dotar as narrativas de uma dimensão extra-moral (e foi uma dessacralização necessária, justíssima), mas a montante a representação do mal fetichizou-se, vulgarizou a perversão. Passou-se só a figurar a sombra, a violência, o mal, da mesma forma que a comunicação social ficou refém dos efeitos dramáticos que “intensificam” as mensagens.

Talvez não fosse mau – lá está! – conseguirmos contrapor a esta pulsão uma certa «disseminação amante», usando uma expressão feliz de Ramos Rosa.

Creio que uma das chaves para entender o Pessoa é aceitar que a sua multiplicidade nasce da sua resposta ao problema do Mal: primeiro o medo (ao que se enraízava na sua declarada compulsão para a loucura) levou-o a criar, em vez de fantasmas, duplos de si que o tornassem insituável, por fim, converteu-se na compreensão de que no uso do mal afinal só se condensa a escória de um tempo perdido e, que, em contrapartida, a prática do múltiplo vitamina o bem.

Pessoa não está só nesta intuição, também Valery escreveu: «Penso muito sinceramente que se cada homem não pudesse viver uma quantidade de outras vidas para além da sua, nem a sua própria ele poderia viver».

Há outra questão que não é de somenos. A tentação faustica – na sua face patológica, havendo outra benigna – pode nascer de uma fonte psíquica pouco sadia: a identificação com o equívoco que às vezes norteia a ideia de ser-se eleito.

Fausto simboliza a arrogância de espírito que se julga acima da fona da populaça! Por isso desdenha de proximidades com a massa, ignara e tola, e impaciente observa: «É já tempo de provares, por actos, que a dignidade do homem não fica atrás da grandeza de um Deus», estatelando-se estridentemente na soberba.

É normal que então se interrogue sobre como poderiam sobrevir soluções ou respostas para o mundo de alguém mais senão dele. Aí faz o pacto. Para se situar acima da média humana.

Uma proposição nos antípodas de um lema de Zambrano que devíamos adoptar como antídoto para tanta sandice a que assistimos: “nada real deve ser humilhado”. O que nos convida a uma descentralização do nosso lugar de sujeitos e a trocarmos uma antropologia assimétrica por um imaginário que seja rizomático.

E como no fundo não era melhor que os demais, rapidamente, dos pedidos de Fausto a Mefistófeles, ressuma a falência das suas ideias mais nobres: sobressaem as questões acessórias, egoístas, subjectivas, os pequenos inhos, a fatalidade de quase condenar Margarida, por afinal ser tudo igual nos “céus” a que o transporta Mefistófeles ao que na terra se desenhava.

É-me difícil por conseguinte ler o Fausto a não ser como farsa.

Contudo, às duas por três no Sabbath final há uma bruxa que se propõe vender pechinchas de toda a espécie e que entretanto avisa: «(…) nada vendo que não haja igual na terra, ou que um dia não tivesse feito mal aos homens e ao mundo. Não há aqui punhal que não tenha derramado sangue; nem taça que não tenha vertido num corpo são o seu veneno activo (…) nem enfeite que não tenha seduzido mulheres virtuosas; nem espada que não tenha quebrado uma aliança (…)» etc. O que leva Mefistófeles a ripostar: «Longe estais de entender os novos tempos, boa amiga; o que lá vai, lá vai. Mostrai-nos coisas novas, só nos atrai o que for novidade.»

Como antídoto ao seu próprio “métier”, Mefistófeles lembra que é necessário romper com a tradição para surgir a novidade. Uma das mensagens mais inesperadas de Fausto e uma das mais actuais. Talvez, contra esta tradição obsessiva do mal que em termos políticos e militares já ressuscitou modelos arcaicos como a Lei de Talião, tenha chegado o momento de, como ateus (é o meu caso), não nos envergonhar romper e aceitar os gestos de beleza ou de bondade, e que à competitividade doentia possamos preferir a emulação do jogo; recuperando algo desse espírito trágico que nos advertia: existe o mal… e também há as alegrias incuráveis, como na vida – e não como nos regimes dominantes da ficção actual.

17 Set 2020

Dormir com Lisboa

04/09/20

“A explicação órfica da terra é o único dever do poeta.”, Mallarmé. Um encolher de ombros, um leve enfado: tudo o que me provoca hoje este tipo de sentenças peremptórias e redutoras. Imagine-se: o único. E logo “patrocinado” por Orfeu que, ao contrário de Alceste, não teve os tomates para trocar a sua alma pela da amada, ou de deixar a sua lira como penhor no Hades. Há muito de burguês e de balofo nesta pretensão mallermeniana. Para que lhe servia então o dom, se face à morte recuou? Puro ilusionismo de feira. Que o poeta reivindique esse desígnio para si é magnífico (foi o caso de Herberto, entre outros), que o torne condição sine qua non para toda a poesia é excrável. Há muitos raios para chegar ao núcleo da roda.

05/09/20

A este selo com dois cudos a correrem, desenhados com esmero e dinâmica, posso garantir que Pessoa não o teria na sua colecção porque a sua emissão só teve lugar dez anos após a sua morte. Perdeu-se a sua colecção de selos, reunida com tanto empenho, ainda que tenha chegado até nós o seu álbum. Quem lhe teria extraviado os selos, como? Tê-los-ia trazido consigo, no regresso a Lisboa desde Durban, ou já considerava isso coisas de menino? Qual foi a medida do impulso coleccionista em Pessoa? Há imensas zonas de penumbra que a investigação (felizmente) não tem conseguido dilucidar, aspectos que na vida de um homem reaparecem com uma irrelevância quotidiana, mas sem desfalecimento. Por exemplo, o umbigo de Fernando Pessoa seria do tipo dos que atraem a formação de cotão ou não? Nesse caso, quantos quilos de cotão produziu o poeta em vida? Todas as coisas de molde inaparente, menores, que podem reger a vida de um homem sem ele dar conta. A primeira vez que Sir Walter Raleigh se despiu diante da Rainha Isabel esta, percorrendo-lhe com o olhar o tronco escorreito, largou uma gargalhada ao dar-se conta de que Raleigh estava nu em todos os lugares menos no umbigo, onde repontava uma bola de cotão. Essa gargalhada, que Raleigh nunca recebera de qualquer mulher sinalizou para Elizabeth uma superioridade que a fez ter sobre o seu amante um ligeiro ascendente.

07/09/20

A gafe foi monumental. A empregada enganou-se na panela e aqueceu a errada, servindo à mesa a sopa que estava azeda. Apressar-nos a contar que foi imediatamente despedida não salva um jantar liquidado à nascença. Recomecemos agora a narrativa por um ângulo à Claude Chabrol e mais afim do imaginário da luta de classes: a criada fez a ronda da mesa, vertendo colher e meia de sopa por prato, e os convidados aguardaram cerimoniosos que o anfitrião fosse servido. Este colocou o guardanapo sobre as pernas e acabou de contar a anedota de um anão que fora dormir à alma do canhão do circo, antes de num gesto magnânimo, sugerir, Comam, façam favor de começar antes que arrefeça, e para dar o exemplo foi o primeiro a levar a colher à boca. Foi também o primeiro a baquear, envenenado.

09/09/20

Dois livros sobre Lisboa retiveram-me a atenção nas últimas semanas. O primeiro é de fotografias, Lisboa Deserta, de Maria Margarida Chaves Marques, um álbum com design de Ivone Ralha. Eis o testemunho de uma Lisboa em puro insílio, nua, despojada de gente. Tinha ouvido falar por familiares desse período de isolamento obrigatório por causa do Covid e das suas regras quase militares, mas nunca se imagina quanto. O livro mostra-nos e ganha um relevo quase sociológico. Uma cidade sem ninguém é um organismo em ferida, constata-se neste “belo” álbum que percorremos com a inquietação que antecede os sismos. Um alerta que não nos deixa esquecer de quanto o rosto de uma cidade depende da sua fosforescência humana.
Outra curiosidade interessante: as fotografias deste álbum foram todas tiradas com um telemóvel, sendo a prova de que, como queria Paracelso, é a mente quem faz ver os olhos. Uma boa foto só depende de se ter um ponto de vista – e desta carência o livro não sofre.
Encontra-se à venda na Livraria Snob.

O outro é um romance da Fausta Cardoso Pereira, Dormir com Lisboa. Um belíssimo livro que foi obrigado a um percurso sinuoso por causa da sua peculiaridade narrativa: o protagonista é a própria cidade. Como “supostamente” lhe faltava um personagem com quem o leitor se identificaria (o que é falso, aqui como em Manhatthan Transfer, de John dos Passos, retrata-se a cidade com um ritmo, uma riqueza de perspectivas e uma pulsação orgânica que nos leva a não abandonar a leitura) o livro foi sendo rejeitado até que ganhou na Galiza o Prémio Antón Risco de Literatura Fantástica e vários encómios após a sua edição, pelas virtudes que em Lisboa lhe negaram. Agora vai ser finalmente editado em Portugal, por uma editora portuguesa mais sensível à eficaz estrutura coral do livro e menos arreigada à uniformidade do mainstream.

A edição galega é de 2017 mas o covid e as ausências da mole humana na cidade devido à pandemia deram a esta narrativa um carácter quase profético. A trama é simples: quebrando a sua rotina, numa aleatoriedade que desafiará a criatividade de cientistas chegados de todo o mundo para estudar o fenómeno, a calçada de Lisboa ganha hábitos de bivalve e engole alguns cidadãos comuns. O desconforto, a desorientação e o pânico tomam conta da urbe, que ameaça desertificar. É a “alma” da cidade que se revolta contra a indiferença e as equívocas políticas urbanas dos seus edis? Será algum tipo novo de “doença” urbana? Que espécie de cataclismo e de assombramento ameaçam Lisboa? Um romance imperdível com um enredo imaginativo e uma escrita ágil, que ameaça ser um dos livros do ano. Pelo menos, a singularidade ninguém lho tira.

10 Set 2020

Feiras do Livro

26/08/20

Não faço a menor ideia de onde surgiu esta caneta Lokubo que me apareceu numa bolsa da mochila e com que agora enxameio estas linhas – terá sido com uma caneta igual que Mark Strand, o grande poeta americano, se pôs a enpijamar os mortos? De qualquer dos mortos se recolheria pestanuda gratificação – há lá ofício mais nobre do que vesti-los para dormir? Mesmo numa vala comum devia ser obrigatório o pijama. Quem não enpijamasse os defuntos seria sujeito a pena.

27/08/20

Há ventos que insidiosamente enlouquecem os relógios. Como os que têm varrido a Feira do Livro de Lisboa, que está a retalho. É tão bom ver que metade dos stands se oferece como lojas em liquidação, é tão mau constatar que os moribundos já não têm valor. Quem “destapa” o logro e reconhece o que isto significa?

28/08/20

«”Deixei a Síria por medo dos bombardeamentos – mas quando isto aconteceu, desejei ter morrido sob uma bomba”. Najma al-Khatib, professora síria de 50 anos e mãe de dois filhos, é uma das testemunhas ouvidas pelo The New York Times.

Ao jornal, conta que foi levada de um centro de detenção na ilha de Rodes por oficiais gregos mascarados e abandonada num bote sem leme e sem motor em alto mar, antes de ser resgatada pela Guarda Costeira turca. Com ela estavam outras 22 pessoas, incluindo dois bebés.

Segundo o jornal, as autoridades gregas terão feito pelo menos 31 expulsões semelhantes desde março – no total 1.072 requerentes de asilo foram abandonados em mar alto.»: leio e coro de vergonha. Oficiais gregos mascarados? Coro de vergonha. Sem que a Europa tenha apontado a ignomínia? Coro de vergonha. Eis os coros de Sófocles enterrados pelo guano turco – não há-de Erdogan fazer o que quer!? Mais digno de facto morrer num bombardeamento – o futuro de uma Europa desossada de valores.

29/08/20

Triste, chegar o incauto de dez mil quilómetros para levar banhadas de amigos ou ouvir alguém “defender-se” deste modo: não posso estar contigo antes das onze porque não consigo acordar cedo. É cavilosa a dor de dentes no vazio dos búzios.

29/08/2020

Alegria por descobrir que a arte ainda se usa de múltiplos plintos, para além de baptizar urinóis. Gesto até imérito, mas que de tão repetido já condói de irrelevante. Aqui, pelo contrário, encontramos a leveza e o denso, a paródia e a veneração do palimpsesto, o humor e a reflexão, os sinais da tragédia permeados pela intensidade com que se recomeça, a criatividade no seu espectro mais amplo e necessário: https://issuu.com/pedroproenca5

Abra e espante-se por encontrar cento e quatro livros escritos, desenhados, magnificamente editados, pelo escritor e artista plástico Pedro Proença. Foi esta a minha mais enriquecida Feira do livro deste ano.

Se entretanto hesita, porque embater na esquadra de alguém realmente criativo exige mais do que a airosa coragem de jogar à batalha naval, comece por ler o livro de Pedro Eiras, O Riso de Momo/ Ensaio sobre os ofícios de Pedro Proença em torno da exposição O Riso dos Outros, editado pela Documenta.

E imitando o voo destas aves, num almoço em que só tive por companhia este livro impagável, fui habitado por versos, O CORDEIRO DELATOR INEBRIA-SE: «1 (trajecto)/ Os comboios como achas/ atordadas pela saudade de sol,/ por cima boceja o viaduto./ Cruz de Prata Palace – jardim, piscina, spa./ No rio borbotam filamentos de luz – ó amor, a sério?/ Entumecida cúpula, a do Panteão/ vista deste ângulo em que telhados se lhe ajustam,/ rútilos como batom./ No outro lado da rua ressalta um pórtico/ em mármore embutido no amarelo:/ ao cima a casa apalaçada onde se juraram disparos,/ na Iª República. Mas tão esparsos como este trânsito em Agosto./ Um renque de painéis solares/ amodorrados pela ideia fixa/ antecede o Museu da Água/ onde nenhum gota promete fazer greve de fome./ Será o início de um novo torpor na nossa história? Ui,/ passou com o sinal vermelho aquele gingar de ancas/ que galopa a instabilidade do olhar, sempre à cata de visitas proibidas.

3/ A mulher opulenta que à minha frente se sentou/ de vestido vermelho às bolas/ arca com a gravidez de um farol.// Eventualmente/ tudo se transforma.// Fêmea em pleno exercício
de culminação,/ surpreende-me o seu olhar errante/ e o merencório vagar com que os seus maxilares/ se movem como quem do futuro já pressagia/ a chegada dos predadores.//

Adensam-se os seus seios/ como o escuro no miolo/ das grutas de Lascaux – vaso/ o vinho de um gole ao reconhecer numa forma/ a resistência tardigrada./ Sem custo afundaria neles/
– gluglugluglu, como na ária de Offenbach.// Pena não sorrir, está grávida/ e contudo arredia à epifania,/ ao meu desânimo de não ser/ o garfo que lhe desfia boca dentro/ as ovas cozidas.// Catastrófica esta distância social: quando se levanta adivinho-lhe/ um jeito cigano, seríamos dois frames/ fundidos no queijo de uma refeição de Kusturica. //Ah (não abras tanto a boca rapaz!),/ como a intangibilidade do devir/ sobre a inconsistência dos átomos/ que nos palafita em simetrias/ nos atrai às dissidências!

4/ Em 1985, pintou vários Empédocles/ quando afinal só um deles/ caiu no Etna/- excelso multiplicador da esperança.// Gargantuesca ideia/ a vulva de Uva valsando/ no delineamento do vulcão.// A caca hoje só me sai preta/ como se encordoada em sangue/ – será a merda de um barroco/ ou o manifesto de Aguirre?//

Atalhemos pelo riso,/ indemne, ainda que viciado/ pelas mais variegadas proveniências,/ porque o dandismo,/ superior às nossas forças,/ é o cavalheiro que empresta/ à esfarrapada morte/ a agulha e o dedal.”

3 Set 2020

A palavra e a teia

Terça-feira, dia 25, no Teatro da Rainha, terá lugar mais uma sessão do Diga 33, as conversas em torno da poesia moderadas pelo Henrique Fialho, e desta vez o convidado sou eu. Imprudência minha em ter aceitado e do Henrique em dirigir-me o convite pois sou um medíocre orador.

Chego depois de uma semana no Algarve, assombrada pelo “esplendor” ártico das águas; mas onde, com um entusiasmo juvenil me apanhei numa actividade que há décadas não praticava: a apanha de conquilhas na maré baixa, única forma exaltante de não pensar no frio. Não as sondava com o pé, drago as areias com as mãos, penetro com os dedos os seus mantos suaves para lhes perscrutar os nós, os bivalves.

Ainda tenciono ler um ensaio sobre a metáfora da filósofo e poeta de Barcelona Chantal Maillard, que me ajudará a aclarar algumas ideias para a conversa, pois tenho muitas afinidades com o que ela pensa.

Mas poderei desde já apontar alguns princípios, os meus “nós”:
– a poesia e a ciência são as duas formas de conhecimento que admitem por atracção e desencadeamento o desconhecido;
– o poema não é uma transcrição de um mundo conhecido de antemão mas sim um processo em que a intercepção e a descoberta andam a par;
– o poeta não escreve só para expressar-se mas igualmente para orientar-se dentro da sua própria vida ;
– a realidade não pode ser postulada sem o esforço simultâneo para a compreendermos, sendo a arte e a poesia, como processos contínuos, um testemunho desse desejo;
– a palavra é na verdade uma fibra e o poema um feixe de fibras que se organiza como uma intrincada rede de densidade semântica. O mais próximo do poema é a teia de aranha, visto que no poema como naquela “o todo está inteiro em cada uma das suas partes” (logrando uma dimensão fractal) e que, igualmente, quando algo toca um fio da teia do poema esta vibra inteira; daí que uma só palavra errónea possa destruir o poema;
– o poema arma a teia para capturar insectos mas a qualidade da atenção que desperta, a intensidade da sua atracção, só eclode quando lá caem pássaros e essa eclosão do inesperado é que abre espaço para o mistério (uma forma de inteligência não circunscrita cujas leis clamam por tornar-se conhecidas) que todo o verdadeiro poema sonda;
– a este “inesperado” que rompe o fluxo chama-se comumente irracionalidade, imaginação, compulsão isomórfica ou revelação – quatro maneiras de designar o mesmo: há níveis diferentes de realidade e modos distintos de percepção duma mesma realidade;
– o realismo, como se diz na Índia, é apenas um dos quarenta modos de decoração da realidade, i. é, a sê-lo não se equivale ao modo restringido e em auto-decapitação como é de uso concebê-lo nas poéticas hoje mais em voga na nossa tradição mas antes como um modo de abrir “poros” na realidade;
– o poema abre “poros” para além da esquadria da retórica e de uma visibilidade à cabotagem;
– um bom poeta aprende a utilizar em seu proveito as forças do acaso para as reenquadrar na sua pauta de referências, não para as sufocar, mas antes como um plinto ou um “acelerador de partículas” e a um ponto que, paradoxalmente, não pareça haver nada de casual na sua obra, nem nenhum elemento gratuito que obscureça a percepção do poema;
– há uma irracionalidade descendente e uma irracionalidade ascendente: Eugenio D’Ors, chama a esta o “nível angélico” (uma espécie de supraconsciência, que material e fenomenicamente é o polo contrário do subconsciente freudiano), embora este possa ter pouco de pio, sendo apenas o acesso a um nível cognitivo onde voltam a re-ligar-se os padrões e pulsa uma nova inteligibilidade da totalidade, que no plano anterior era apenas intuída; admitida a hipótese de que haja devir e seja fito do homem superar-se;
– a um ateu como eu é mais fácil admitir com o Fausto de Pessoa, que os deuses têm os seus próprios deuses, e que no fundo o sentimento do religioso é um saudável princípio de proporcionalidade que o poeta não se deve abster de possuir; no que ajuda ter a honestidade de integrar-se numa tradição e num sistema de “admirações” que lhe dão lastro e perspectiva, sabotando de antemão o seu ego q.b.;
– toda a simplicidade é um resultado e não um postulado criativo; ou seja, é mais fácil a um barroco ser simples quando o texto assim o exige do que a um “militante da austeridade” ser criativo;
– a quantas palavras deve recorrer o poeta, na sua paleta, ou qual deve ser a extensão do seu léxico? As suficientes para lembrar a pertinência com que Wittgenstein observava que os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem. Se numa cesta de frutos só houver nozes, o nosso conhecimento dos insectos será mais limitado do que se houver um pomar na nossa cesta. É neste sentido que Harold Bloom defendeu, num livro de setecentas páginas, que Shakespeare (que usou quase trinta mil palavras) foi quem “inventou o humano”. Este pôde entender novos e mais subtis modos de relacionamento humano e político e até de afecções sentimentais porque as iluminou pela primeira vez num plano distinto de acções com a amplitude das modulações da sua imersão numa linguagem total;

– “Quando encontro/ neste meu silêncio/ uma palavra/ está fundida na minha vida/ como um abismo”, escreveu Ungaretti, descrevendo com exactidão a minha relação com a palavra: por estar imerso no silêncio e no deserto é-me mais difícil falar do que escrever.

Não sei se vou conseguir explicar estes meus princípios, ou se me evadirei contando histórias.
Fica o esboço.

27 Ago 2020

Exílios & Insílios

26/07/20

«Quem escreve está no exílio da escritura; é lá a sua pátria, onde não é profeta», cunhou Blanchot em L’Écriture du désastre. Eu sublinharia: onde precisamente não é profeta. Pelo que exilados seremos todos, desde que comandados pelo devaneio e por esse incessante ofuscamento de uma cicatriz na luz. Há vezes que dolorosa, de outras encontrando uma fraternidade na fuga. Talvez seja isto a escrita: uma fraternidade na fuga. Mas há exílios e exílios.

Também o Ovídio, exilado em Tomis (na foz do Danúbio), encontrava um remédio para o seu mal-estar no sonambulismo da escrita. Trôpega, havia perdido o seu auditório e os Getas, junto dos quais estava exilado, não o compreendiam; ao cabo de uns anos sentiu que lhe encalhava o navio na língua, perdia a linguagem, secando-se-lhe a veia poética.

Os seus poucos correspondentes suspeitavam que ele exagerava nas suas lamúrias. Quando se está longe e isolado, é difícil explicar que a distância amplifica o silêncio e vai tornando irreais, migratórios, até os espaços físicos onde exercitamos a nossa ausência. A terra estrangeira, perguntava-se Robert Bolano, é ela uma realidade objectiva, geográfica, ou é antes de mais uma construção mental em movimento perpétuo?
E no entanto, soube-o Segalen como ninguém, a nossa personalidade alimenta-se de tudo o que é o seu antípoda: «É pela Diferença, e no seio do Diverso que se exalta a existência». É bem verdade, e senti que isso actuou em mim como um anzol que foi ao fundo de mim repescar a maiêutica. Contudo, que cansaço.

Neste meu afastamento intermitente tive o tempo e a oportunidade de ler textos magníficos sobre o exílio, o ensaio de Linda Lê, as observações de Edward Said, os Diários de Gombrowicz, o texto laminar de Joseph Brodsky, donde tiro este excerto certeiro:

«(…) se há algo de bom no exílio, é o facto de ensinar a humildade (…) o exílio é a lição suprema dessa virtude. E isso é especialmente precioso para um escritor porque lhe dá a perspectiva mais ampla possível.

“E avanças em humanidade”, como disse Keats. Perder-se na humanidade, na multidão – multidão? – entre bilhões; tornar-se uma agulha naquele famoso palheiro – mas uma agulha que é procurada por alguém: é disso que se trata quando falamos de exílio. (…) Mede-te não por teus pares escritores, mas pela infinidade humana: é quase tão terrível quanto a inumana. É a partir daí que deves falar e não a partir da tua inveja ou ambição.»

Chegaram-me estas notas por causa do livro que descobri hoje que o meu amigo Nazir Can havia lançado no Brasil sobre a literatura moçambicana e que se chama: O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio (Kapulana, 2020). Fiquei preso ao substantivo «insílio», cujo significado me instigava e resolvi averiguar, tendo descoberto que ganhou a armadura de um conceito muito explorado nos ensaios do sul-americano Mario Benedetti para identificar “a condição dos cidadãos que foram forçados por poderes coactivos a adotar uma atitude passiva e uma semi-impotência que os destitui de sua autonomia moral e de sua iniciativa psicológica”.

Para ter chamado a palavra à capa é porque Nazir encontrou em muitos textos essa característica, ao ponto de a desenvolver como chave e parece-me ser um achado para traduzir o indisfarçável mal-estar de grande parte da intelectualidade moçambicana, tal como aliás “a curiosa nostalgia do exílio em plena pátria” (Benedetti), muito presente no impasse que muito para além do Covid se faz sentir no quotidiano do país.

Nós não nos libertamos de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau, dizia Mark Twain – e poderíamos citar um hábito como o medo.

Sem o ter lido, conhecendo-lhe a inteligência e a capacidade de análise suspeito que este livro estará para Moçambique como Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço, esteve para Portugal, e espero que o livro se possa comprar em Maputo.

27/07/2000

A caixa com livros estava na varanda. Abria-a e o livro que estava por cima era A Festa de Babete, de Karen Blixen. Estava o frescor que acaricia as têmporas e lhes dá a agudez da atenção. Resolvi ler finalmente a História Imortal, por causa do Orson Welles (filme que nunca vi). Fui ao guarda-fato vestir um blusão e sentei-me na varanda a ler a pequena novela. Foi como visitar uma casa mobilada com biombos que o vento vai trocando de lugar. Depois disto só um iogurte de cerejas, coisa impossível de arranjar por estas bandas. Absolutamente devastador…

28/07/20

A cultura de massas é o resultado de uma arte combinatória de tudo o que já foi assimilado. As belíssimas orquestrações das canções dos Beatles ou do Elton John, em termos de linguagem da música, mais não fazem do que usar os padrões musicais conquistados pelos movimentos musicais do século XIX. Tiveram sucesso popular, depois de um século de acomodação a essa sensibilidade musical. Parecem agora simples: houve uma educação do gosto e da sensibilidade. Quem lembra hoje as resistências suscitadas pelas dissonâncias que o jazz introduzia na música?

Isto em si é normal. Grave é que para um filho da cultura de massas não exista o mundo antes de si, a memória da tradição cultural, e o presente não passe do pomar onde supostamente colhe os lucros. Daí que um destituído como Bolsonaro consiga ser presidente e possa dizer sem ser imediatamente electrocutado por raio divino que criar uma lei de combate às fake news é uma tentativa de limitar a liberdade de expressão, por não entender que a liberdade não existe em abstracto e está irmanada com a responsabilidade. Não é sequer perversão ou maldade, ele não entende mesmo. Esta incapacidade de discernimento é comum a quem teve uma exclusiva educação ancorada nos “valores” da sociedade de massas, onde até o capital se converteu, antes de mais, “numa estética mercantilizada” que fez naufragar tudo numa terrível, irrevogável, indistinção.

30 Jul 2020

As duas cabeças

21/07/20

No Jardim Zoológico de San Diego, na Califórnia, vê-se algo bastante raro embora não excepcional: cobras do deserto californiano que, devido a algum tipo de acidente genético, têm duas cabeças. O que complica a vida a este corpo com duas cabeças é que são duas vontades, dois sujeitos, do ponto de vista cerebral. E podem morrer por causa disso: cada cabeça busca comida de seu lado; quando uma encontra comida, a outra desvia-a na direcção que prefere e assim essas pobres cobras de duas cabeças dificilmente se conseguem alimentar, apenas em zoológicos. Vemos, então, que o princípio da exclusão funciona mesmo entre duas cabeças-de-cobra que têm o mesmo corpo.

Associo isto às culturas nas sociedades pós-coloniais. As supostas remanescências da cultura colonial e a suposta e “restituída” cultura de origem são duas cabeças que se recusam a perceber que hoje vivem num mesmo corpo híbrido e as duas cabeças em vez de conjugar esforços para se conseguirem alimentar combatem-se e morrem à fome. O resultado dá a soma resto zero do princípio da exclusão!

Já, Heinz von Foerster, um dos pais da cibernética, apontava há cinquenta anos, o grande paradoxo da auto-organização dos sistemas. E explicava que se obviamente a auto-organização significa autonomia, por outro lado um sistema auto-organizado é um sistema que tem de aplicar-se para construir e reconstruir a sua autonomia e, portanto, nesse esforço desperdiça energia. Ou seja, fica sujeito à entropia, à dissipação da força que o mantinha regulado, coeso. Para recuperar o equilíbrio que lhe permite a sobrevivência a única hipótese é esse sistema captar energia de fora, ou seja, observava Von Foerster qualquer sistema para ser autónomo, acaba por estar dependente do mundo que lhe é exterior. E essa dependência não será apenas energética, mas também informativa, porque todo o organismo vivo extrai informações do mundo exterior, a fim de organizar o seu comportamento.

Este modelo não é nada dissemelhante ao que se passa com as culturas e as identidades. Nós somos alguma coisa por referência a outras que nos estão enganchadas, embora fora de nós, a identidade é um valor no processo de diferenciação que distingue o significado de “ser africano” do significado de “ser europeu”, tal como a palavra se engancha no silêncio.

Sou pela defesa do incremento das línguas-mãe em Moçambique, pelo resguardo da sua dignidade edificando uma literatura nessas línguas, porque as línguas transportam consigo sensibilidades únicas; contudo, creio igualmente que o português é um ganho irrenunciável e que as culturas não são bolhas estanques, ilhas. Ou seremos ilhas mas em arquipélago, organizado num sistema de mútua influência e em perpétua re-combinação. Não existe o branco, o preto, o azul, existe a crioulagem, tal como se aprende na física das cores, tal como ensina o filósofo Edouard Glissant.

Nesta discussão, infinita, sobre a questão das identidades tenho a maior dificuldade em perceber as posturas extremadas. Que alguém se reivindique exclusivamente bantu, a partir dos instrumentos e das categorias que lhe foram dados por uma educação de influência ocidental e vice-versa, que um europeu não seja sensível a aspectos da cultura africana que o podem enriquecer.

E fico sempre um pouco incomodado no momento obnóxio em que alguém desata a falar em nome da ancestralidade. Não é invulgar que desse fundo mágico que o romântico Herder emprestou aos imaginários colectivos emerja uma vontade de nos alhearmos daquilo a que Stendhal chamava a “força moral”, a coragem de pensar por si próprio – posto que na verdade cada homem está sozinho na História.

Na próxima vez que participar de um debate destes já sei que argumentos usar contra o “abuso dos ancestrais”.

22/07/20

Uma observação de José Navarro de Andrade no Facebook leva-me a rever alguns filmes do Preston Sturges, e sobretudo essa comédia extraordinária The Palm Beach Story (1942)/ Uma Mulher de Verdade, com a Claudette Colbert.

Uma das coisas mais difíceis de trabalhar com alunos de guionismo é os diálogos, um dos territórios mais áridos nas artes narrativas. Conheço óptimos escritores que não atinam com os diálogos e são realmente raros os filmes (dois, três, ao ano) em que os diálogos sejam primorosos. A maior parte das vezes os diálogos apenas ilustram a acção, não estabelecem uma dialéctica com ela (quando muito cumprem a função de revelarem a parte emocional das personagens) nem montam uma rede comunicacional que é por si só um outro espectáculo porque dispara os níveis de significação e de subentendidos. Um bom diálogo vira o contexto de pantanas, serve a trama para a desviar. Billy Wilder era um mestre nisso. Constato agora que o Preston Sturges – de que só tinha visto dois ou três filmes há 30, 40 anos, na pouca assiduidade com que frequentava a Cinemateca – é absolutamente outra referência a seguir. De ontem para hoje vi três filmes dele e agora terei de farejar nos filmes em que ele só fez os diálogos.

The Palm Beach Story é uma festa, sobretudo pela personagem feminina, uma «mulher prática» de todo desassombrada e que, sabendo ser leal, à hipocrisia dos costumes diz nada e faz o que tem a fazer. Sturges, revolucionou a screwball comedy (a comédia de situações inconvencionais) porque a doseou com as técnicas de “marivaudage” (que tira todos o proveito do jogo das máscaras e da mentira) e é o exemplo de como uma enorme massa de diálogos num guião – se maduros e acutilantes (a dificuldade de explicar isto aos realizadores) não impede que a narrativa tenha um bom ritmo – só depende do pico dos actores e do “factor de improbabilidade à pele” das situaões. E digo-vos, o final do filme é tão trepidante e surpreendente como o de Quanto mais Quente Melhor, do Billy Wilder, pois socorre-se da técnica do “deus ex-machina” com uma eficácia (louca) que se impõe como necessária. Um filme imperdível. Há uma cópia menos má, legendada em português, no Youtube.

23 Jul 2020

O jogo das energias

11/06/2020

Leio em Agamben: «Se a criação fosse apenas potência-de-, que não pode senão resvalar cegamente para o acto, a arte decairia para a execução (…) Contrariando um equívoco disseminado, maestria não é perfeição formal, mas, exatamente ao contrário, é conservação da potência no acto, salvação da imperfeição na forma perfeita.», e só posso concordar.

O que fatalmente me leva àquela sequência maravilhosa em O Barbeiro dos irmãos Cohen, na qual  Ed Crane/ Billy Bob Thornton (o mais taciturno e melancólico barbeiro de que há memória), leva a filha do amigo com quem todas as noites bebe o seu digestivo ao conservatório duma cidade vizinha, para uma audição relacionada com a vaga de um pianista numa orquestra. Há muito que ouvia todas as noites a miúda martelar no piano e achava-a um prodígio. O maestro recebe-os e vai com ela para a auditório enquanto Ed Crane fica à espera. Passado meia hora, o maestro vem “devolvê-la” e amavelmente despede-se sem mais uma palavra.

O barbeiro é que insiste numa justificação para o malogro. E então diz-lhe o maestro: “Não há nada de errado com ela, toca tudo com grande habilidade, as notas todas que estão na pauta e no tempo devido… será uma óptima dactilógrafa”.

Na recente variação em torno do mito do Fausto que Maria João Cantinho cunhou no seu romance As Asas de Saturno, há uma discussão entre o jovem compositor Florimundo e o seu dilecto intérprete e amigo, Pedro, o jovem pianista que se suicidará, e nessa acesa troca de ideias o compositor refere que “sempre perseguiu a perfeição mas nunca o mal…” O problema é talvez ambos estejam inextricavelmente ligados e que o que mais importa na arte seja abrir um novo poro na respiração, o jogo das energias, em vez da obsessão de exaurir as formas na sua abstracta auto-suficiência.

13/06/2020

Vou finalmente editar, em setembro, um ensaio que fiz sobre o Bocage, para prefácio de uma edição que se malogrou. Nele falo de outro projecto na gaveta, uma das miragens que me anima. É assim:
«Na sinopse que uma vez esbocei para uma fantasiada biografia de Bocage, quando este deserta de Damão e está desaparecido uns tempos, antes de reaparecer em Macau, o poeta desembarcava no Japão, numa flotilha holandesa.

E o capitão, já vezeiro nestas paragens e um amante da arte da vida, leva-o a Edo (como antes se chamava a Tóquio), aonde o apresenta a duas maravilhas: a Yoshiwara, o “palácio” das cortesãs, e a Hokusai.

A inteligência, a cultura e a delicadeza das gueixas cativam-no mas o que para ele constitui uma revelação abissal é o espírito absolutamente materialista do artista japonês. Por materialista entenda-se um homem até permeável a superstições momentâneas e capaz de fazer do tema dos “fantasmas” um género, mas de personalidade incapaz de sucumbir, estruturalmente, à credulidade e aos mitos – o homem para quem o plano da imanência e da reflexão estriam o empírico.

Diga-se que neste livro hipotético, que hiberna, o Bocage era cruzado com três outros espíritos seus contemporâneos, o William Blake, o Goya e o Hokusai. Os criadores aqui convocados têm em comum com Bocage (e igualmente com Pessoa) aquilo que Kenneth White anotou para o japonês:

“É preciso tempo para que uma tal obra encontre a sua constelação. Juntemos a isto o facto de que se tem sempre tendência a pensar em termos de categorias, de procedimentos, de identidades. Ora, ninguém melhor que Hokusai ilustra o princípio segundo o qual, em arte, o que conta não é uma identidade mas o jogo das energias” (sublinhado meu).

Através do especial atrito que experimentou cada um destes criadores com a sua sociedade e época, e situando-o numa “constelação”, eu intentaria perceber melhor a inserção e os problemas de Bocage com o tempo que lhe coube viver, e medir, face à comparação com os outros, a extensão da sua originalidade.

Um, Blake, representava o tipo de homem que inventa os seus próprios mitos e exulta a sua sexualidade, chocando os costumes, outro, a tragédia duma dessintonia com a sua época, ou a consciência da mudez com que os abismos interiores devoram no homem a sua facúndia social e a alacridade dos sentidos; Hokusai era o encontro com alguém com os pés fincados na terra e que abraça as rugosidades do real, as suas minudências. Os outros dois seriam ainda homens do seu século, embora (como Bocage) já virados para a propulsão romântica, Hokusai seria o encontro que lhe enxugaria a cabeça de alucinações, colocando-o face aos sortilégios de um “realismo” que não tinha par em Portugal, impraticável mesmo.

Não esqueçamos que, se o mestre da Manga japonesa, ficou orfão como Bocage muito cedo, foi adoptado aos 4 anos por Nakajina Ise, um fabricante de espelhos para a corte do shogun.

Porque esse me parece o percurso de Bocage: o sadino perfaz a parábola que partiu duma sôfrega entronização nos mitos (a credulidade do jovem Bocage lembra-nos a gravura de Hokuasi onde se figura A Aranha que Incuba os Crânios) para desembocar numa inversão das perspectivas e num despojamento em relação a todas as gorduras da crença dos fundamentos do que a partir do século XIX se chamaria a ideologia.

O homem que regressa do Oriente é já um homem em redução fenomenológica, que despiu o olhar do que queria ver e que passou a ver apenas o que lá está, quase um céptico, apesar de jovem. Usando de novo um título de uma gravura de Hokusai, Bocage deixou de ser O Guerreiro que Engoliu uma Vaga, para ser um surfista.

Calcule-se o choque, a iluminação de Bocage, ao ser-lhe mostrado o manuscrito de Kinoe-no-Komatsu e deparar com uma mulher a ser desfrutada sexualmente por um polvo: no livro que abandonei.”

16 Jul 2020

Deslizes civilizacionais

A forma trivial como Bolsonaro nomeia ministros tornou-se tão deslustrosa que hoje ninguém arrisca “credibilizar” a pasta da Cultura. O que já fora comentado, ironicamente, por Drummond de Andrade, numa crónica. É no livro De Notícias e Não-notícias faz-se a Crônica, num precioso microconto: « — Esse vai ser ministro, sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu. — E você, com esse ordenado micho de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro?, duvidou a mãe.» No baptizado, ao enunciar o nome do filho, o personagem de Drummond proclamou: «— Ministro. — Como?, estranhou o padre. — Ministro, sim senhor, teimou o pai, irredutível. A mulher ainda tentou corrigir: — Tonzinho, não foi Antônio de Fátima que a gente combinou?». Melhor, é impossível.

O que era afinal a civilização democrático-liberal? A elegância, a leveza, a dignidade que nos eram consentidas no fluxo do quotidiano e o sentimento de que as instituições funcionavam capazmente (i.é, sujeitas a erros e acertos periódicos) na regulação social; tendo como base valores éticos que protegiam um sentimento de pertença comum.

O que se conseguiu à custa da clivagem entre narrativas civilizacionais ou até de guerras e obrigou a novas formas de gerir o conflito e as mediações humanas, tendo mudado inclusive o estatuto das ficções, crescentemento palco de simulações das dinâmicas sociais. Isso mexeu com as próprias formas criativas, deu-lhes pano de fundo, mercados, complexidade, subtileza – refinou-lhe os processos.

Vou dar um exemplo extraído de um filme que se encontra no Youtube. Trata-se de Youngs Lions, de Edward Dmytryk, de 1959; conta a história de três tipos: um tenente alemão gradualmente céptico com a razão da guerra e dois americanos que vão servir no exército a contragosto (um cantor da Broadway e um rapaz pobre de origem judaica). O enredo entrecruza os variados pontos de vista acerca do conflito e os elos humanos que nutrem os dois lados da batalha.

Marlon Brando é Cristhian, da Baviera, instrutor de esqui, que será um tenente do exército incomodado com a nazificação do espírito alemão. Mandado para Paris, enfiaram-no na Gestapo, com cujos métodos discorda, e pede uma licença ao seu capitão para ir a Berlim. Este, que vê nele um bom militar a quem só falta obedecer sem se interrogar, pede-lhe que entregue uma mantilha de renda preta que comprou à sua mulher e lhe “transmita o seu afecto e como pensa nela constantemente”.

Cristhian faz a visita à esposa do capitão. Esta, de uma beleza e sensualidade ímpares, está de saída (vai encontrar-se com um general), mas sugere que a aguarde “pois quer falar com ele sobre o capitão”. Ele fica por deferência, dir-se-ia que o seu gesto se entroniza na aprendizagem da obediência que o capitão lhe quer incutir. Ela volta de madrugada e acorda-o com suavidade. Ele quer compor-se, julga-se numa postura imprópria em casa alheia, mas ela mete-o à vontade e inverte os papéis, perguntando-lhe “se ele não lhe oferece uma bebida”.

Depois, en passant, ele queixa-se de não ser soldado e de ter sido posto na polícia (nesta fala abre-se uma ética) e ela confia-lhe que pode mexer os cordéis para o transferirem. Como? Ela, despindo-se, insinua, “com esforço…”. Cristhian compreende que é uma questão de troca de “esforços” e, fiel à transmissão de afecto que lhe pediram que fizesse, satisfá-la sexualmente com uma obediência cega ao acto.

O jogo destes matizes subtende uma ironia subtil, feroz, inteligentíssima: a cena vale o filme.

À frente, uma segunda cena entre os dois dá-nos a chave do “ethos” de Cristhian.
Fim da guerra. Cristhian, que vira o capitão em péssimo estado no hospital, volta a visitar-lhe a esposa. A casa está arruinada e a rua derruida, sob efeito dos bombardeios. Ela fala-lhe friamente da morte do marido, que entretanto se suicidou. Não se mostra alterada e atira-se de novo a ele. Ante as suas reticências, ela pede-lhe para ser “realista”. Cristhian percebe: o que antes se lhe afigurava uma marca de liberdade afinal não passa de um expediente de sobrevivência a todo o transe – mete-lhe agora repulsa a beleza dela, afinal um signo do degradado vaivém dos afectos com que o sistema corrompeu o espírito alemão e lhe ditou a crueldade. A corrupção, percebe aí Cristhian, começa na forma como cedemos aos apetites, lhes obedecemos – paradoxal caminho da derrota. Rejeita-a, e nesse gesto repele a sua anterior cumplicidade com a abjecção.

Nas duas cenas, através das peripécias da intimidade, transparece o arco e o declínio de uma postura civilizacional e por isso são magníficas – embora sejam ideias de argumento que Dmytryk se limita a ilustrar.
Contudo, para se conseguir esta complexidade das personagens, esta filigrana que oferece vários níveis de leitura para as situações dramáticas e o implícito que abre chaves no jogo psicológico foi preciso uma tradição narrativa que levou séculos a apurar-se e que supunha um modo fecundo de relacionamento com o que seja a inteligência e o modus operandi da criativa ociosidade burguesa.

O que está colocado em causa nesta época sombria. Estamos de novo na temperatura civilizacional de onde emerge a mediocridade e a confusão de valores que levou Cristhian a equivocar-se em todas as escolhas políticas. Como acontece ciclicamente, acomodamo-nos à patética fase de exibição narcísica em que não nos rala ficarmos mais tolos, egoístas, e naufragados na iliteracia. Escuda-nos a ilusão de que tudo tem um preço: primeiro efeito do triunfo niilista. A vaga anti-intelectual que sacode os orgãos de comunicação ajusta-se.

Trump, que ridiculamente se diz o novo guardião do Cristo Redentor, ao “nacionalizar” as vacinas para o Covid-19 esvazia com isso os valores cristãos que protegiam a validade de uma pertença comum. A contradição não lhe importa, Trump, num lance de poder travestido de nacionalismo espera ter corrompido a vontade dos votos. Assim começam os fascismos.

9 Jul 2020

No outro lado do espelho

É notícia dos últimos dias, nos jornais e na televisão. O título é invariavel: Em Maputo, bebé nasce sem ânus. Irresistível chamada; lida a notícia vemos que há uma imprecisão na parangona, a desembocadura do intestino existe, houve apenas um desvio de rumo e o dito cujo “floresceu” no abdómen.

Não consegui apurar onde, excita-me a ideia de que se localize no umbigo, seria de uma ironia insolúvel, mas o que interessa ressaltar é a dificuldade de nomear o que é.

A coisa até me diverte, embora às vezes me enfureça.
Pergunto ao gabiru:
Brada, a loja das fotocópias?
Pai, está a ver o restaurante chinês, ali na esquina?
Restaurante chinês? — Eu fartinho de saber que é um restaurante português e ele, que trabalha a vinte metros devia saber igualmente. Mas repete — O restaurante chinês, da esquina…
Para quê contrariá-lo?

Sim, pai, a tabacaria é ao lado…
Encaminho-me na direcção do dito restaurante, chinês do Minho.

Na estante atrás do balcão, na tabacaria, dispõem-se várias caixas com canetas, de variegadas marcas, feitio e cor. Contudo, a prateleira só exibe um preço marcado, sob a caixa que arruma as esferográficas vermelhas. Gosto das vermelhas e do preço, 15 meticais, mas prefiro outras que estão ao lado. Pego em duas e nas fotocópias e proponho-me pagar. E diz-me a dona:

São 395 meticais.
Engasgo-me:

Como, se as fotocópias são 15 e as canetas 30?
Não…- Esclarece pronta — As de 15, são só as vermelhas… estas, são 190 cada…
– Ah, bom não se adivinhava. Dado que só tem marcado um preço por prateleira…
– É para facilitar…

Não facilita e gaguejo, face àquela lógica invertida ou manca de rigor; envergonhado:
– Nesse caso levo uma vermelha…

Esta característica de uma outra orientação na ordem das coisas também às vezes a encontro em casa. Pede-me a minha mulher:
– … se vais passar por lá, preciso que me troques cem dólares na tabacaria.
– Na tabacaria? – Indago, conhecendo a “peça”.
– Na tabacaria! – Confirma – A que fica ao frente ao BCI. Está claro?
– Está claríssimo!

Meia hora depois a situação está enevoada. Para trás e para a frente no rasto tabacaria. Enfim, troco o dinheiro em frente ao BCI, numa perfumaria.

Para que confio eu em ti, se há vinte anos que sei, quando dizes Está na gaveta direita, está na gaveta esquerda… –, queixo-me em casa. Os “tiques” de cada casal.
Não há, em Maputo, uma localização que pergunte na rua que não conheça percalços, uma probabilidade altíssima da indicação estar errada.

Fiz um livro de entrevistas com uma figura interessante, um médico que já foi ministro da saúde e director do Hospital Central de Maputo e com muitas histórias para contar. A primeira vez que fui a casa dele, orientararam-me, com solenidade:

– Na rua X, mesmo, mesmo, em frente à esquadra da polícia.
Lá estive a rabiar, eram 80 metros à esquerda.

Pior se pergunto a um “cinzentinho” (como popularmente se chama aos polícias), com toda a convicção do mundo manda-me para os antípodas do pretendido.

Toda a gente “sabe” e não confessa que não sabe… Pelo motivo mais simpaticamente estulto: considera-se má educação não corresponder a uma solicitação, sendo preferível dar uma indicação errada do que não a dar.

Uma vez fui perguntando por um endereço em Nampula e quase cheguei a Quelimane.
Corolariamente, no aeroporto de Nampula nenhuma loja correspondia ao que se anunciava no lettring. Se estava Agência de Viagens vendia-se artesanato, se dizia Boutique de Senhora vendiam-se embalagens de comida para cães, etc. Bom, em Nampula, a minha preferida é a Livraria Central que tem motos na montra e, lá dentro, pneus e peças para tractor. No Gurué a única livraria da cidade vende todo o tipo de colchões, fronhas e lençóis. Livros, talvez, em sonhos.

Estas inversões lógicas estendem-se à cronologia e à noção da própria idade. Numa entrevista, perguntámos a uma miúda a idade e respondeu para a câmara, muito serena:
– Tenho noventa e nove anos.

Estivemos dez minutos a explicar-lhe por a+b que isso era impossível, ela contou então que nascera num ano que em que houvera muita produção de melancia. Voltámos a gravar o depoimento, ela, muito espontânea apresentou-se e depois concluiu:
– … tenho dezanove anos… assim serve?

De outra vez, em Quelimane, onde dei aulas, numa esplanada, uma miúda que dizia ter dezanove anos (parecia ter quinze) meteu-se comigo com intenções peregrinas. Para a dissuadir perguntei-lhe:
– Sabes que idade é que eu tenho?

Ela olhou-me fixamente e depois atirou:
– Tens oitenta e oito, é isso!

Numa gargalhada, contrapuz o argumento final: num homem de oitenta e oito o guindaste está avariado.
Popularmente, em Maputo, os verbos significam o seu oposto: trazer por levar, ir por vir, buscar por levar, emprestar por pedir emprestado, etc.

Conto isto porque hoje encontrei uma citação de Evelyn Baring, que governou o Egipto por mandato da coroa britânica entre 1883 e 1907 e que a dado momento da sua volumosa história do Egipto escreve:

A falta de precisão, que degenera facilmente em falsidade, é, de facto, a principal característica do espírito oriental (…) o espírito oriental, tal como as suas ruas pitorescas tem uma absoluta falta de simetria.

É uma generalização absolutamente abusiva, que convém relativizar, embora — vá lá saber-se como funcionam os meandros do espírito — me desperte uma hipótese ontológica atordoadora, a de existir uma simetria psíquica planetária e oculta:

Eles, os que vivem deste lado oriental (e digo eles, porque é diferente cá morar momentaneamente ou pertencer-se) vivem afinal no seu lado certo do planeta, a nossa cabeça, como a da Alice, é que ainda está no outro lado do espelho.

2 Jul 2020

Que deus não perdoe!

Acordo assarapantado: no meu sonho uma brigada fundamentalista assaltava as bibliotecas e incendiava todos os exemplares do Moby Dick porque, espumavam com verdadeira incontinência, no romance de Melville se matam baleias.

Passei os últimos dias a reler o romance e estou literalmente esmagado com a magnitude de Melville e a violência do seu fracasso.  O livro, de 1851, foi zurzido pela crítica e o principal motivo para o declínio da carreira do autor.

Moby Dick é um romance tingido por reflexões éticas e filosóficas que também se manifestariam em Pierre or the ambiguities (1852), outra obra-prima, desta feita uma obscura exploração alegórica da natureza do mal em quinhentas páginas. Mas se Moby Dick não foi um sucesso comercial, Pierre or the Ambiguities foi um fiasco retumbante. O que levou o seu editor a recusar o manuscrito, hoje perdido, do livro seguinte: The Isle of the Cross.

Herman Melville morreu em 28 de setembro de 1891, aos 72 anos, em Nova York, na total obscuridade – quarenta anos depois de ter assistido à sua derrocada. Aliás, além de The Isle of the Cross, Melville só voltaria a escrever Billy Budd, publicado trinta e alguns anos depois da sua morte, e passaria as suas últimas três décadas de vida em deceptiva congelação, sem chegar a adivinhar o sucesso que a sua obra alcançaria no século seguinte.

Face a Moby Dick, escrito com um domínio total sobre todos os recursos técnicos do romance e as suas modulações expressivas, é monstruoso pensar na solidão de Melville e na desproporção entre a sua natural consciência de quanto os seus livros valiam e a frustre recepção dos mesmos – a mágoa com que abandonou a sua arte é, para nós, incomensurável.

Entretanto, registe-se esta curiosidade no Moby Dick, no capítulo 41: «(…) as realidades da vida rivalizam com os prodígios das lendas antigas, mesmo quando se trata de uma velha história como a da serra da Estrela, em Portugal, onde se diz existir perto do cume um lago em cuja superfície flutuam carças de navios naufragados no oceano.» A serra da Estrela, à qual Melville, no original, chama “montanha interior” mas que na edição brasileira da Cosac & Naify é amesquinhada, não passando de um “monte da Estrela”.

Pois no futuro será a cordilheira-Melville que vai voltar a ser aplainada sob a vaga dos literalistas que dominarão as próximas décadas. Como escreveu Pacheco Pereira: «Ninguém liga nenhuma ao facto de uma certa forma de ignorância agressiva estar a crescer, e a como isso se está a tornar um grave problema social, e político (…) será um retrocesso civilizacional (…) A dificuldade de separar a verdade da mentira, o crescimento das teorias conspirativas, as ideias contra a ciência, tudo isto está a ganhar terreno. O populismo moderno dá-lhes uma expressão política eficaz.».

E como são literalistas, tudo o que seja expressão simbólica escapa-lhes, e até o melhor da emulação desportiva e da sua dupla significação de redenção e sacrifício será desentendido. Aí, igualmente o boxe será banido: serão postas numa pira os filmes Body and Soul, do Robert Rossen, The set-up, de Robert Wise, O Touro Enraivecido, de Scorsese, e A Million Dollar Baby, de Clint Eastwood – quatro obras-primas a arder, sob a fúria iconoclasta.

Receio que os esbirros, o pesadelo advertiu-me, venham cá a casa incendiar o belíssimo On Boxing, da insuspeita Joyce Carol Oates e o impagável The fight, a genial reportagem que Normal Mailer escreveu sobre the rumble in the jungle, a mítica disputa do título dos pesos-pesados, entre Muhammad Ali e George Foreman, em Kinshasa, no antigo Zaire. São duzentas e trinta páginas trepidantes, do melhor New Journalism. Norman Mailer escrevia sobre boxe como quem soltava rápidos jabs, e aí se lia:

«Talvez que a doença resulte de uma falha de comunicação entre a mente e o corpo. Isso é certamente verdadeiro no caso de uma doença tão rápida como o nocaute. A mente não consegue mais transmitir uma palavra sequer aos membros. O extremo dessa teoria, exposta por Cus D’Amato quando treinava Floyd Patterson e José Torres, é que um pugilista com desejo autêntico de vencer não pode ser nocauteado se vê o soco aproximar-se, pois então não sofre nenhuma interrupção dramática de comunicação. O soco pode machucar, mas não é capaz de liquidá-lo.»

The rumble in the jungle, tinha eu quinze anos, em 30 de Outubro de 1974, motivou uma das minhas primeiras «directas», para conseguir ouvir às quatro da manhã, pelo rádio, a reportagem do combate. Noite sobre a qual escreveria um poema, que assim termina:

«(…) E o tempo, sorna, de sorriso a tiracolo, a descarnar-me as gengivas,/ a enrodilhar-me nas suas veias de lobo,/ enquanto Ali – grafitos indeléveis no céu/ de Órion – ginga ao canto, furtando-se/ ao amasso de Foreman, e resiste,/ uma e outra vez, dando enlace e realce/ ao delicado equilíbrio das estrelas ascendentes.»

Tudo isso será queimado e já começou. Começou no silêncio que tem vigorado sobre os cinquenta e dois jovens executados no distrito de Muidumbe, pelos terroristas de Cabo Delgado. Executados porquê? Porque, na aldeia de Xitaxi, quando os grupos armados tentavam recrutar jovens no distrito de Muidumbe, estes ofereceram resistência a ser instrumentos do Mal, a qual provocou a ira dos invasores, que os balearam indiscriminadamente. O silêncio oficial que se abateu sobre estes jovens que rejeitaram servir a ignomínia – lembremos que o nocaute começa numa falha de comunicação entre a mente e o corpo -, aliada à abóbada de indiferença com que os media internacionais, tão ocupados nas estatísticas do Covid ou nas últimas traquinices de Trump, amorteceram o impacto do caso, reflecte um franco declínio civilizacional, nem que seja porque talvez, diria Melville, as almas daquelas cinquenta e uma vitimas fossem afinal a quinta roda que fazia mover a carroça.

E eu, como apóstata, confesso: estamos fodidos!

26 Jun 2020

O combate do século

Numa entrevista recente, a propósito de Murder Most Foul, quando perguntam a Bob Dylan sobre os riscos da hiperindustrialização e da tecnologia se virarem contra a vida humana, o cantor responde:

«Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo agora do que costumava existir. Mas isso só se aplica a pessoas de uma certa idade como eu e você, Doug. Temos a tendência de viver no passado, mas isso somos nós. Os jovens não têm essa tendência. Eles não têm passado, então tudo que sabem é o que vêem e ouvem, e acreditam em qualquer coisa. Daqui a 20 ou 30 anos, eles estarão na vanguarda. Quando você vê alguém com 10 anos, ele estará no controle em 20 ou 30 anos, e ele não terá ideia do mundo que conhecíamos. Os jovens que estão na adolescência agora não têm memórias suficientes para se lembrar.

Então provavelmente é melhor entrar nessa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade. No que diz respeito à tecnologia, ela torna todos vulneráveis. Mas os jovens não pensam assim. Eles não poderiam se importar menos, porque telecomunicações e tecnologia avançada são o mundo em que nasceram. O nosso mundo já está obsoleto.»

Gosto do diagnóstico, mas não da resignação do artista, contraditória com a lucidez da primeira parte da resposta; talvez seja típico de um americano.

Sim, os jovens hoje crescem num ambiente em que as ciências humanas e as suas pautas simbólicas foram desvalorizadas e preteridas pelos saberes técnicos e de imediata operacionalidade e vivem sob o jugo do “eterno presente” da esfera mediática. Trump é o exemplo de alguém que é absolutamente fruto de uma educação temperada pelos inputs das indústrias culturais, sem qualquer filtragem de uma cultura humanística que coloque o presente e os seus valores em perspectiva.

Trump é um espelho das patologias da sociedade de consumo e da equívoca relação do mercado – hipervalorizado como única instância reguladora – com os princípios da democracia, porque, afinal, tem sido esquecido, uma democracia será mais do que um sistema financeiro.

A surpresa de Boris Johnson – um cínico, que beneficiou ainda de uma educação aristocrática e assente nos referenciais de uma cultura humanista – sobre a motivação dos que vandalizaram a estátua de Churchill é genuína, daí ter lembrado que apesar de algumas das ideias defendidas pelo seu histórico antecessor serem “inaceitáveis para nós hoje”, «Churchill continua a ser uma figura heróica que salvou o país de uma “tirania racista e fascista”». Indesmentível, e isso torna absurda a situação dos anti-racistas tomarem a figura de Churchill como alvo da sua ira e da estátua do estadista ser defendida por milícias e holligans de extrema-direita.

Assistimos aos sintomas da desordem mental que resulta de sermos expostos há décadas a um avassalador fluxo informativo sem filtro, sem a mediação de qualquer pensamento crítico ou a ambição de articular essa amálgama informativa sob o guarda-chuva de um sistema cognitivo que re-ligue os padrões e nos possa orientar no seio de Babel. A educação como grande projecto iluminista pulverizou-se: o efeito disto traduz-se mais nos “legumes” de Archimbold e Pilipe Haas que num mundo mais igualitário.

A facilidade com que hoje os líderes convencem os seus fanáticos de que quem se opõe às suas ideias é “comunista” ou “fascista” assinala o triunfo do slogan contra qualquer possibilidade de reflexão. O eleitorado prefere a velocidade, a adrenalina, à ponderação, ao juízo.

Um verdadeiro líder democrático é quem nos ensina: a contingência habita o cerne do poder – mais cabal não há que o exemplo de Churchil, derrotado à boca das urnas logo a seguir a ter ganho a guerra, perdeu e retirou-se. Hoje, com Trump e Bolsonaro, assiste-se ao contrário: napoleonicamente, apresentam-se como providenciais, e, grotescamente, estão convencidos disso.

A democracia, mais do que o exercício da alternância democrática (que apela ainda a uma disputa entre os diferentes sentimentos de pertença cristalizados nos partidos), deve antes promover um sentimento de não-pertença e de distância analítica que se reforça pela persuasão com que novos direitos e sensibilidades emergentes ganham novos focos de mediação, novos intermediários e impõem as suas razões narrativas.

O movimento social é como um tecido corrompido que só se sara quando se instauram novas mediações.
Socorramo-nos de Alain Badiou:

«… chame-se movimento a uma acção colectiva que obedece a duas condições: em primeiro lugar, esta acção não está prevista nem regulada pela potência ou o poder dominante. Logo, esta acção pressupõe algo imprevisível, que rompe com a repetição. Chamamos movimento a algo que rompe com a repetição colectiva, social. É a primeira condição.»

O que tivemos com as espontâneas reacções à morte de George Floyd. E o movimento, deve romper com a unanimidade mimética – pura condição.

Embora, para se tornar fecundo, a sua segunda condição seja «que se proponha dar um passo mais, adiante, no que respeita à igualdade. A consigna de um movimento, o que diz, o que propõe, vai, de una maneira geral, no sentido de uma maior igualdade».

O seu efeito é a emergência de um novo “intermediário”, de uma nova sensibilidade em relação às decisões políticas e às instâncias de mediação. Nesta pequena nuance da mediação joga-se a superação de uma democracia representativa para uma democracia re-encantada e este salto é vital.

A validade e inteligência desta mutação ficam enfraquecidas com os gestos demagógicos de vandalizar as estátuas. Restituir ao social a dignidade que aponta para uma “maior igualdade” supõe simultaneamente respeitar os símbolos da ideologia adversária e mobilizar a energia para a mudança política, posto estar o debate lançado.

A explosão e a fúria sem a reflexão redundam numa oportunidade perdida. Pichar as estátuas, mutilá-las, censurar filmes ou livros, só mostra como o colectivo e as suas unanimidades são permeáveis à estupidez e intolerância que germinou nos regimes autoritários e discriminatórios e como a educação volta a ser o combate do século.

18 Jun 2020

A arte e o covid

Assistimos, nesta desembocadura do confinamento, a duas posturas de fatídica ingenuidade. A de quem busca pretextos (que pode ter a face justa de uma causa, como participar numa manifestação contra o racismo) para voltar a juntar-se em grupos, rompendo assim o cerceamento do afecto, e aqueles que desesperam porque descobrem, à beira do esgotamento que o isolamento promove, que o medo não acaba por orientação social, não lhe é síncrono. Para muita gente o medo implantou-se e vai reger os seus próximos anos. Não há neste caso palavras de consolo, alívio retemperador.

A simpática irresponsabilidade com que a primeira postura escolheu o altruísmo como alibi e a tendência depressiva de quem descobre em si uma patológica fonte de apego, surgem-me como margens simétricas de um mesmo rio: a dificuldade que as pessoas têm para de si escaparem, reinventarem-se. O que tanto se manifesta na carência da proximidade física, por extensão narcísica, como se realça no pânico de perder o controle da identidade que o deflagrar duma doença acelera. Confluindo ambas as tendências nos reflexos do «mármore negro» com que Mallarmé caraterizava a mente.

Estas são para mim duas portas do Inferno. “Uno de mis insistidos ruegos a Dios y al ángel
de mi guarda era el de no soñar com espejos”, clamava Jorge Luis Borges, e, com nuances, era um pedido que também faria meu.

O poeta romântico John Keats descreveu numa carta a “capacidade negativa”, fundamental para os homens criativos e para a literatura: consistiria na capacidade mental para aguentar-se no meio das dúvidas, incertezas e mistérios, sem ceder a qualquer nervosa pressão para ler no que decorre sinais da presença de um facto ou uma razão justificativa. A capacidade de estar em equilíbrio no meio do caos. Admira que Keats considerasse como fruto da “capacidade negativa” a ideia de a que beleza é a verdade e a verdade beleza (como se lê no final da sua “Ode a uma Urna Grega”), se concebia a beleza como um encaixe, um viés novo sobre algo objectivável que só eclode pelo despojamento da identidade? A beleza não abrigaria assim nenhum iniludível carácter subjectivo, desarme que tem sido escamoteado. E este despojamento, defenderia depois Mallarmé, pode atingir o próprio semblante das palavras: «Creio que o que podemos apontar como próprio na poesia será que, antes de mais, as palavras nesta… reflectem-se umas nas outras até perderem a sua cor própria para não serem mais do que as transições de uma gama». Idêntica operação à que acontece com as cores e o branco.

Neste aspecto ainda não saímos do orbe romântico e vejo pouca utilidade em fazê-lo.
Contudo, enxergam-se diferenças entre este “encaixe na transição de uma gama” e os efeitos desse “espelho negro” da mente, que só valida o real como duplo ou imagem de si mesmo; quem não busca a ressonância, uma correspondência entre mundos, e antes a sua projecção neles, porque de modo convulso a tudo interpreta – numa dimensão paranóica -, é inepto para aceitar que uma parte essencial não esteja nas palavras.

Esse erro decorre do redutor postulado segundo o qual a mente é linguagem. Mais fecundo aceitar a hipótese de que nós não pensamos em palavras, que ocorre às vezes pensarmos em palavras, não passando estas, na formulação certeira de Roberto Colasso, «de esporádicos e flutuantes arquipélagos na mente que o mar é». Quando queremos reduzir tudo às palavras o espelho fica negro, sujo, como a pedra da Caaba, porque lhes tocámos demais.

Daí o saudável desapego que a arte e a leitura nos podem dar.
Tendo em casa milhares de livros de poesia, não a consigo ler todos os dias. Para a ler preciso de despojar-me ou de limpar primeiro o meu espelho para que nele vibre o encaixe rítmico que essa paisagem me impõe – sem esse esvaziamento prévio não consigo ler a poesia porque a leitura de “outro” não se compadece com as “nossas” grelhas e necessita de uma certa nudez.

Igualmente a arte, no século XX, descobriu que o significado não assenta tanto na fábula como na relação entre cada uma das formas que a dizem, daí que a arte tenha tantas vezes escolhido despojar-se de tradições, desencadeando a transformação radical que substituiu o objecto representado por uma beleza que se compõe dos nexos que as suas associações libertam. Tal como acontece no cinema, onde a imagem não pode ser isolada: a emoção que cada fotograma/frame desperta depende da imagem que lhe era anterior e da expectativa que lança sobre a que lhe sucede; i.é. não é isolável do tipo de cópula que o fluxo lhe permite.

O advento do cinema recompôs uma nova realidade, dado que na tela «tudo muda de proporção, de ângulo, de aspecto. Tudo se afaste e se aproxima, se acumula ou falta, como depressa se afirma e se exaspera» (Blaise Cendrars). É inegável, o cinema mudou as proporções do mundo, ou pelo menos, mudou a capacidade perceptiva do receptor, convertendo-o num depredador do espaço ocular.

Interrogo-me se o Covid-19 não imporá semelhantemente uma mutação do olhar, quer nos sentidos da proporção e das geometrias de posição (o que obriga a descrições dum novo tipo), quer nas formas e ritmos, pois se a velocidade da recepção abranda tenderá a dar-se de novo uma oportunidade ao denso e às suas sombras, neutralizadas nos últimos tempos pelo “ilusionismo” da imediatez comunicativa; do mesmo modo que a realidade se verá exumada da “simplicidade” em que o mercado a enterrava e retomará a evidência de que existem vários planos de realidades e vários níveis de percepção da mesma e não essa ordenação da trivialidade com que o neo-liberalismo impunha o mandamento de que no gosto somos todos iguais – números ansiosos de serem absorvidos numa, imensa, massa latejante de consumidores, entenda-se.

11 Jun 2020

As vantagens de aprender

Aproveito a insónia para ler o “Peregrino em Paris”, de Italo Calvino, volume póstumo que, entre outras curiosidades, compila as cartas onde o autor italiano relatou a sua errância pelos States, durante seis meses, em companhia de Arrabal (de quem faz um retrato caricato) e de Hugo Claus (cuja consistência admirou).

Só em S. Francisco ele tem um “encontro” que o fascina e lhe provoca o entusiasmo. Foi com Kenneth Rexroth, sobre quem escreve: «Decerto é a pessoa mais notável que encontrei na América; não o conheço como poeta (escreveu uns vinte livros de poesia e diversos livros de crítica, além de muitas traduções de clássicos japoneses e poetas) mas como homem impressionou-me muito.»

O que me deixou com vontade de reler o poeta. De facto, Kenneth Rexroth (1905-1982) é uma personalidade que impressiona pelas suas múltiplas e omnívoras facetas, a começar pelo seu intratável penteado. Não há modo de descrever sucintamente alguém que foi anglicano e católico, comunista, anarquista, pacifista (objector de consciência na II Guerra Mundial e ajudou muitos japoneses confinados) e budista; pintor, ensaísta, colunista, professor, dramaturgo; casamenteiro e mulherengo; conhecedor profundo de jazz e de literatura clássica grega, chinesa e japonesa; tradutor, agitador cultural e, finalmente, padrinho generoso de novos poetas. Foi ele o anfitrião na emblemática noite de 7 de outubro de 1955, tida como a do nascimento oficial do Movimento Beat, na qual Allen Ginsberg recitou o poema Howl. Mas, aqui para nós, Rexroth, que pugnava por uma poesia rente à respiração da fala, rapidamente achou que Kerouac não passava de um hipster momentaneamente na moda e creio que é um astro poético de maior dimensão que Ginsberg (, aliás, dele escreveria Milosz: «ele gabava-se, mentia, trapaceava, rezava, praticava a poligamia, traía as suas quatro esposas, embora acreditasse na sacralidade do casamento; era paranóico com seus amigos. No entanto, para mim ele era, acima de tudo, um esplêndido poeta e um tradutor maravilhoso de poesia chinesa e japonesa») à altura de William Carlos Williams ou W. H. Auden. Aqui deixo as versões de poemas seus com que desanuviei a insónia

Um límpido poema existencial: AS VANTAGENS DE APRENDER
Foi tudo para o ralo, as ambições,/ A maior parte dos amigos; tão inapto/ Para ganhar a vida como para não deixar que aconteça/ Esta decadência galopante, este ar abandalhado,/ De quem sempre preferiu fugir a lutar/ Contra a maldição – que importa?/ É meia-noite, sirvo-me de uma taça de vinho branco/ quente e de sementes de cardamomo./ Depois, num esfiapado robe cinzento e/ Com a minha puída boina, sento-me ao frio a escrever/ Poemas, a desenhar nus nas margens enrugadas/ E a copular com imaginárias garotas/ Ninfomaníacas de dezasseis anos.

Dois poemas de amor: SOMENTE ALGUNS ANOS
Volto ao chalé no/ Canyon de Santa Mónica onde/ Andrée e eu éramos pobres e/ Felizes. Às vezes chegava-nos A fome e rapinávamos verduras/ Nos quintais vizinhos, doutras vezes/ Varríamos o escuro com a lanterna/ No rasto das beatas./ Mas nadávamos todos os dias,/ O ano inteiro. E tínhamos um cão,/ Um rafeiro grande e/ amarelo chamado Proclus,/ E um gato branco, o Cyprian. / Fizemos então a nossa primeira / Mostra de arte juntos, e começavam / A sair os meus poemas em Paris./ Trabalhávamos sob as baixas ramagens/ Da acácia, no jardim da frente./ Agora, saio do carro/ E paro defronte da casa ao lusco-fusco./ A florida acácia polvilha o caminho/ Com pequenas pílulas de lã dourada./O aroma é denso e pesado/ Neste início da noite. Espantoso,/A árvore galgou duas vezes a altura/ Do telhado. Dentro, um velho/ E uma mulher sentam-se à luz do lampião./ Torno ao carro e enfio-me estrada fora rumo/ À praia de Malibu, onde me espera / Um amigo de infância de cabelos já grisalhos./ Contemplamos a lua cheia que desponta sobre/ As longas e enrugadas ondas da baía escura.

O TEU ANIVERSÁRIO NAS MONTANHAS DA CALIFÓRNIA
A lua tremula nos requebros da água fria/ E gansos selvagens gritam no céu./ A fumaça dos acampamentos eleva-se/ E divaga na geometria do firmamento/— Pontos de luz num negrume infinito./ Eu observo por entre a nesga das árvores/

O vai e vem da tua penumbra ao redor do fogo./ Um marreco grasna alto no lago e amarra-se à noite./ E então o mundo estaca, silente, nesse/ Gotejar do outono que aguarda/ A chegada do inverno. Junto-me/ Ao halo de luz da fogueira, levo-te/ O espeto com trutas para o nosso jantar./ Enquanto comemos, na borda sussurrante do lago,/ Digo-te, “daqui a muitos anos lembrar-nos-emos/ Desta noite e conversaremos sobre ela.” Muita água/ Passou entretanto debaixo das pontes,/ Muitos lustros se passaram. Lembro-me/ Daquela noite como se fosse ontem,/ Embora tu estejas morta vai para trinta anos.

Um poema descritivo: A DELGADA Linha Do TeU ORGULHO, IX
Ao fim de uma hora/ Aquela amálgama de neve entre as luzes, / Suavizou-se e amaciou o emaranhado das linhas/ Bicudas dos ramos nus, recortando-o/ Contra o crepúsculo gelado./ Agora, nas minhas costas, na pálida/ Extensão da avenida vazia,/ A neve reclama uma por uma –/ Desde a mirada fixa e obscura/ Dos vitrais -, nada mais do que/ Essa linha de pegadas.

Um triste retrato de geração: ENTRE DUAS GUERRAS
Lembras-te certamente daquele pequeno-almoço:/ Das uvas pretas e frescas que cheiravam vagamente/ À cortiça da embalagem, os pãezinhos quentes/ E muito brancos, o chocolate espesso/ Com sabor a mel?/ E as festas noturnas; o gin e os tangos?/
As fitas de cabelo desfeitas, os botões/ De punho desirmanados?/ Em que se tornaram essas esplêndidas/ Raparigas, as horas sem rumo?/ Diziam-nos perdidos, inconscientes, imorais,/ Que nós atrapalhávamos os planos do Poder.
E eis-nos hoje, milhões de emparedados vivos/ Que tamborilam nas lajes de seus túmulos/ E se escondem nas arruinadas catacumbas, brigando/ Pela sua própria carne mutilada.

4 Jun 2020

Dias tristes

25/05/2000

Há que que digerir e seguir em frente, pois se, como dizia o Valéry, o lobo é a soma de todos os cordeiros assimilados… a vida, hélas, é a intratável combustão que muda os lobos em estrume. Mas cansa este acuamento da actualidade que o Covid nos impõe e, condoído com o desaparecimento da Maria Velho da Costa, só apetece espreguiçar-me, alheadamente. Começo por isso esta crónica apropriando-me do belo naco de homenagem que lhe dedicou o Miguel Serra Pereira, no FB, neste post em que a recorda:
«Hoje que morreste só me ocorre para te saudar aqui, como se repetisse que o lembrei sempre, aquilo que me disseste, um dia, sobre a literatura, há tantos anos já, no Jardim da Estrela, depois de um almoço algures, para os lados de São Bento, perto da casa onde então moravas. E foi que a literatura não servia para nada que valesse a pena, se, quando a valia, não servisse tanto para ser mais. Ser mais, como em tudo o que foste, foste sempre.»
Providencial lembrança, e não podia estar mais de acordo.

26/05/20

Não era nada fácil, a autora de Casas Pardas, inclemente consigo e a escrita (cena que consideravamos terminada nos guiões era comemorada com um uísque e a frase brincalhona, Esta, António, nem o Shakespeare! A nossa alegria durava quinze minutos, rapidamente torcia o nariz ao polimento, encontrava uma coisa a corrigir, um defeito no viés da personagem ou um erro de construção na estrutura da cena – nunca encontrei ninguém tão exigente nem tão capaz de distanciar-se emocionalmente do texto de forma tão veloz; havia algo de levemente esquizoide no processo, como sempre me pareceu uma espécie de milagre “fora dos gonzos” a facilidade com que lhe brotava o vocabulário e as suas derivas vernaculares), igualmente na esfera pessoal podia dura e álgida, e tanto eu como o Armando Silva Carvalho, que foi também seu parceiro em livros, tivemos momentos de zanga e distanciamento duma relação de desiquilibradas reciprocidades.

Mas era um bicho admirável e mesmo quando era voluntariamente controversa e dizia coisas bárbaras, como ter afirmado em França que o Fernando Pessoa era um poeta «minable», nós sentíamos que ela era das poucas pessoas com o direito a dizê-lo, porque o seu nível não desmerecia o do poeta e daí as novidades que trouxe ao romance português.

A sua morte lembra-me episódios de inveja de que foi objecto e a que assisti. Mas não vou por aí, sempre achei uma enormidade a inveja que encontrei em muitos – neste item não passo de um cordeiro.

Quando andava imerso na escrita de A Maldição de Ondina e bradava aos cinco céus que seria a melhor novela do ano, uma noite resolvi tirar teimas e reler O Deserto do Le Clézio, só para a comparar nos itens técnicos, rítmicos, e efabulatórios, e a manhã apanhou-me acabrunhado e com umas olheiras tremendas; e perguntou-me o poeta Rogério Manjate, «e então?», e respondi-lhe, «o gajo deu-me 6 a 0». E com um score tão negativo só me restou voltar à reescrita do livro, aos treinos, e lá meti três golos—  o importante é o sentimento da proporção que nos pode afastar da lisonja e da auto-satisfação, pois isso é que fermenta o bolo.

Que a Maria Velho da Costa tivesse uma extensão lexical muito maior que a minha só me fascinava, indicava-me o que havia a progredir. Sempre achei detestáveis as caturrices do Vergílio Ferreira, nos seus diários, contra outros escritores em ascensão, ou as guerras por satélites de alguns poetas cimeiros.

Mesmo a um nível menos doméstico há exemplos descoroçoadores: são insondáveis as reservas que o Saramago dedica nos diários ao Paz. Noutras coordenadas, privei alguns anos com passarocos de peso, em que, por preferência pelas declinações românticas que enchem de brilhos e aforismos a prosa de Agustina, o Saramago era um bombo da festa.E eu, alarve, por mimetismo, concordava. Quando fui obrigado, por questões de trabalho, a ler-lhe a obra com atenção achei-me diante de uma indeclinável qualidade e acima das opiniões que se tenham sobre ela. Tal como a obra de alguns dos seus denegridores o é; pelo que não se descortina a utilidade do dispêndio de energias.

Contudo, o ponto máximo na rivalidade entre escritores talvez esteja na maldade com que Quevedo comprou a casa de Gôngora só para ter o prazer de o despejar e de lhe mandar os tarecos pela janela.

Para o mundo dos escritores o mundo é uma pedra de moer que exige uma grande crença para ser locomovida e algum sangue e esquírolas de osso por baixo. E uma idiota rivalidade mimética alimenta muito da energia dessa crença que faz de cada autor um atleta em transpiração sobre a mó, investido da única pergunta irrespondível.

Poucos poetas e escritores conheci capazes de uma generosidade que suplantava esta bárbara condição. Talvez o Al Berto e o Fernando Assis Pacheco.
Mas a Maria Velho da Costa era de facto um ser de outra ordem.

26/05/20

Faço meu o que formulou Pound: «Quero dizer que há ideias, factos, noções, que podeis procurar numa lista telefónica ou numa biblioteca e outras que estão dentro de nós, como o estômago ou o fígado.»

As ideias que me são interiores como o estômago e o fígado – eis tudo quanto procuro extrair ao difuso oceano das circunstâncias.

Porém, hoje, eis-me num daqueles dias em que, merda, sinto que o fígado navega à bolina e dava-me jeito umas próteses. Talvez seja de ontem ter revisto O Grito, de Michelangelo Antonioni, e de lhe ter deplorado as rugas, embora depois me tenha consolado com o seu testamento: o filme “mudo” em que o cineasta já octogenário presta reverência ao seu homónimo escultor – um hino sem retórica.

Já O Grito de Munch resistiu melhor ao tempo, apesar de me dizerem que as suas cores se desvanecem. Ou será o fígado?

31 Mai 2020