Perante o teu rosto 1

De Hong Sang-Soo e da sua trintena de filmes só me calhou ver cinco filmes e felizmente que um deles é o Perante o Teu Rosto, a muitas milhas dos outros, e definitivamente uma obra-prima, no seio do “sistema” Hong Sang-Soo, e fora dele.

Podia o cineasta não fazer mais nada, mereceria sempre a nossa gratidão.

Para explicar porquê, vou começar por falar de um conto breve de Dalton Trevisan, A Sopa, e lembrar uma verdade de La Palice: o crédito dado a uma narrativa não falece enquanto se mantiver um clima no qual os personagens estão predispostos a aguentar um máximo de tensão.

O que falta a demasiadas fitas que vemos e esquecemos no dia seguinte. Porque a tensão não nasce de uma montagem rápida ou de um suspense tecnicamente logrado, mas de um fluxo onde colidam expectativas emocionais e valores morais traduzíveis em atritos ou nas expectativas reflectidas numa conduta.

O brevíssimo conto de Dalton Trevisan –do livro Histórias Nada Exemplares –, onde, à roda de uma mesa de cozinha, se mostra a fugaz discussão entre pai, mãe e filho, oferece mais conflito, intensidade e aceleração emocionais que muitas perseguições de carro em filmes medíocres. É assim que começa:

«Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido.

Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
— Aonde é que vai?
O filho abriu a torneira do banheiro:
— Fazer a barba.
— Hora da janta. Vem comer.
Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
— Não quero jantar. Sem fome.
O homem suspendeu a colher:
— Não quer jantar, mas vem para a mesa.

Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
— Dar uma volta.

O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.»
A concisão desta escrita é como uma pirâmide que esconde em sombra outra invertida; a sua rede de imagens subsume um feixe de interacções emocionais que, de um modo posicional, motiva cada palavra e contribui para esticar a tensão entre as personagens.

Em dezanove linhas apresentam-se quatro conflitos: a do pai com a sua condição física e com a sua imagem de poderoso pater familias (“ainda era um homem”; “sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa”), conflito com o filho, condensado em acções mudas (“Demorava-se o rapaz, torneira fechada”; “a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas”), conflito não declarado da mulher com ele (“A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo”), enquanto ela mira a chama que, inconsumível, crepita no seu íntimo, até à explosão final.

Cada palavra em Dalton Trevisan leva o sangue à guelra do peixe.
Veja-se o oposto disso. Se alguém escreve: “Adalberto viu Rita pela primeira vez na esplanada” e assim continua, sei-me diante de um burocrata do aparo com hábitos de voyeurismo. Nada se implica na frase, nem o narrador, nem as personagens entre si; nada se desencadeia: a descrição é um arabesco na congelada pista dum mundo reificado.

Se, ao invés, o relato se iniciasse assim:”Os seios dela olharam argutamente para mim”, o escritor situava-nos face a uma relação, algo se pôs em movimento e envolve ambas as personagens, sem a intermediação distanciada do narrador. E a frase imprimiria uma aceleração narrativa: a primeira hipótese exige mais dez linhas antes de se chegar ao ponto (o telos), nesta hipótese parte-se do ponto.

A primeira frase nada comunica e a sua famigerada mensagem é tão vaga como a abstenção do narrador, que aí não mete prego ou estopa. Encontraram-se na esplanada e so what? Que se passa em seguida, quais as motivações das personagens, que as vai unir ou separar, etc? Foi tudo adiado, a mensagem patina no vazio, ou antes, processa uma procrastinação.

Já na segunda hipótese presenciamos um acto de economia narrativa: as motivações das personagens imbricam-se na forma da frase, tornam essa expressão a única possível e, inclusive, de forma implícita, a frase comunica-nos a temporalidade da acção: se fosse inverno os escultóricos peitos da rapariga estariam tapados por sobretudos e cachecóis e não teriam o efeito devastador que aí se adivinham, provocando mudanças na vida das personagens. Adoptando a sinédoque, tomando a parte (os seios) pelo todo (a Gisela, para lhe dar um nome), numa frase menos vulgar, comunicamos afinal muitíssimo mais, em intensidade e de chofre.

Afinal, não estávamos a falar de seios – ainda que seja exaltante a sugestão de Alexandre O´Neil de que pela manhã nos deveriam servir seios em vez de pãezinhos quentes – mas de procedimentos narrativos.

E se a narrativa de Trevisan parece jogar-se num tabuleiro realista, num registo refém da objectividade, é apenas um engano: não há uma única frase no conto que não esteja prenhe da emocionalidade referente a cada personagem – é esse o génio do narrador. Como na fita de Moebius, o que é dado a ver como morfologia das acções objectivas, exteriores, só incarna afinal o não-dito das interacções humana, o seu subtexto, uma inconfessada intencionalidade vertida num “estilo indirecto livre”.

Este mecanismo engendra uma tensão interna à narrativa e imprime-lhe um ritmo. O mesmo se passa num filme e este pode até passar-se à mesa que o seu ritmo interno funciona como um acelerador na percepção do espectador.

23 Jun 2022

Paula Rego

07/06/22

Raramente se encontra um melhor argumento para a necessidade da arte do que este, avançado pelo humanista e cientista Jorge Wagensberg:

«Olhar para trás é uma tarefa complacente, mas certas paisagens debotaram e, enquanto não se melhorar muito as técnicas de leitura, já não é possível saber quantos coices deu o cavalo de Napoleão; outros lampejos, em troca, como a Sinfonia Concertante de Mozart, permanecem claros e nítidos».

Em tempos de guerra como este, este argumento vê reforçada a sua pertinência, porque à guerra – como nesta disputa se tornou claro – motiva-a o passado e a vã ilusão de fixar o número de coices que deu o cavalo do Napoleão.

É a obsessão que orientou Putin, como, antes dele, inspirou outros corifeus da guerra: ressuscitar o império, reencontrar a pureza da alma eslava ou concretizar o velho sonho da Euroásia, não passam de facetas duma mesma crença, a saber, a solução para o mundo expressa-se no número cabalístico incarnado pelos coices que deu o cavalo de Napoleão.

Compromete-se a dignidade do presente e a do futuro quando insistimos em querer esvaziar o mar com uma forquilha. O passado não volta. A oportunidade que se gorou no passado não volta. O instante que acabou no momento em que digito esta frase não me tornará mais novo.

Suponhamos que a guerra se alastra e os beligerantes tiram das gavetas as bombas de neutrões. Daqui a cinquenta anos aterram os extraterrestres e encontram Paris, Moscovo, Joanesburgo ou Nova Iorque semi-devastadas e habitadas pelos ratos e o vento, sem sombra de humanos. Saberão ler nos vestígios a insanidade da guerra, que o homem não assimilou que se na natureza tudo é possível nem todos os acontecimentos virtuais são desejáveis ou plausíveis; que existem leis para restringir o caos e que devem ser seguidas. Mas encontram estátuas, um ou outro lance arquitectónico, arquivos, livros, imagens, e, num velho aparelho que activam, ouvem Bach, o Love Supreme de Coltrane, a nona Sinfonia do Mahler; são atraídos pela Notre Dame, de Paris, que, face à vacuidade de tudo, se ergue então como um alento misterioso.

E percebem pelo contraste entre a dor que o homem infligiu a si mesmo, extinguindo-se, e aqueles exemplos de uma exuberante fluidez harmónica, ou mesmo dissonante, que realçavam momentos de algum ajuste, de algum sentido para figurar uma busca de infinito, que se a insanidade havia vencido no planeta isso não representava em exclusivo o homem. O que nos degradou não havia eliminado a energia que nos arrancava do chão em busca de um equilíbrio, talvez cósmico.

Entram num museu de arte e vagueiam por entre as imagens, atentos ao halo que as obras humanas resgatam, aqui e ali, como testemunho de um certo viés para a beleza ou de um sentimento de exílio, mas ao arrepio da destruição.

Não era muito, mas esse testemunho repunha alguma dignidade. E resolvem levar algumas obras, uma pintura da Paula Rego, outra com uma estranha arquitectura de Robert Matta, onde curiosamente se sentem retratados, a dança dos estilhaços em Cold Dark Matter de Cornelia Parker (- antes, noutra sala, os extraterrestres haviam aproveitado a Fonte, de Duchamp, para urinar, e num relance às Sopas Campbell, de Warhol, não lhe descortinaram a validade, o que me faz desconfiar que estes extraterrestres se alimentam por fotossíntese).

Daqui a cinco séculos, a treze, ou naquilo que nos recordar e for levado pelos visitantes da Constelação de Orion, o que será digno de memória são as pinturas de Paula Rego e não os mísseis de Putin e Biden, por muito que isso custe a quem nos agride só perdura o que dá a vida. O mais são os coices e os flatos do cavalo do Napoleão – pó, sem terra onde poisar.

08/06/22

À procura de outra coisa, encontro esta afirmação de Simone Weil: «No mal, como no sonho, não existem leituras múltiplas. Daí a simplicidade dos criminosos. Crimes lisos como os sonhos dos dois lados: lado do carrasco e lado da vítima. Haverá algo mais aterrador do que morrer num pesadelo?».

Eis o portador do mal refém do seu olhar unilateral, dogmático, da sua impossibilidade em reverter os efeitos da sua própria crença. De cada vez que perpetra o mal, só se rebaixa, esgarçando ainda mais a possibilidade de conseguir ler o fio da relação entre as coisas. Paranóico, devido à suspeita de poder haver algo que possa não controlar, apega-se à inteligência. Só que esta, noutro dizer luminoso de Simone Weil, «não tem nada para descobrir, tem sim para terraplanar».

Como não pensar nos Senhores da Guerra.

Entretanto, volto a Jorge Wagensberg, que me ensina outras coisas surpreendentes. Por exemplo, que as crenças não são o produto de conclusões, mas, em qualquer caso, de estímulos. Mas igualmente que, se já sabíamos que as crueldades mais absurdas aparecem justificadas por uma concepção determinista do mundo, não demos conta que também muitos artistas e escritores ilustram os seus actos com as leis do determinismo: «O meu romance escreve-se sozinho, tal pintura, tal escultura têm a sua própria dinâmica, obedecem às suas próprias leis, algo guia a minha mão… ou o “Eu não procuro, eu encontro”, de Picasso.» – surpreendente, não é, como nunca tínhamos associado uma coisa à outra?

Leituras múltiplas, e responsabilização nos actos criativos: procuram-se, mortas ou vivas, 10 000 euros de recompensa.

10 Jun 2022

Oferenda de massacres

23/05/22

«O quadro Mona Lisa de Leonardo da Vinci foi alvo, no domingo, de um ataque de vandalismo no Museu do Louvre, em Paris. Revela o El País, um visitante do museu atirou um bolo à famosa pintura a óleo, que estava protegida por um vidro de segurança. O autor do ataque estava disfarçado com uma cadeira de rodas e uma peruca. Antes de ser expulso do local, gritou: “Há pessoas a tentar destruir o planeta. Pensem na Terra, pensem sobre isso”.»

Um pastel de nata, um queque, quiçá, um russo? E qual é a verdadeira pegada ecológica da Mona Lisa para ser objecto de um atentado? Está por aferir. Com tanta moldurinha, acho que um saquinho com térmitas abandonadas num canto absconso do museu causava um efeito mais duradouro. Ainda por cima se a ideia era chamar a atenção sobre si, o disfarce deixa-o anónimo.

E imagino do que este acto será precedente: de um novo atentado, que baldeie com cinco quilos de magnum de chocolate algum encardido torso de Victor Hugo, em nome da reparação devida ao Egipto por ter sido um francês a decifrar a escrita egípcia, ou o roubo de todos os cartazes que ainda existam do filme Táxi Driver para serem queimados em praça pública em nome da má influência que o Travis terá tido sobre a educação de Putin.

Já nem Deus nos dá guarida contra esta loucura humana. Bom, há século e meio que foi demitido por Nietzsche, mas ainda confiávamos no discernimento e na equidade que podem emergir com o exílio.

25/05/22

Os americanos foram alimentando em Zelensky a ilusão de que havia entre ele e Putin uma paridade, i.é, a hipótese da dança que pode ocorrer entre um elefante arrogante e um roedor teso quando se encontram numa loja de loiças.

Só que aquele elefante foi educado para fazer a autópsia a roedores e não se assusta. Agora o combativo roedor tenta tudo e até vai a Cannes pedir emprego, já investido numa certa aura de predestinado que aqui e ali lhe diminui a lucidez. Estou a ser um pouco injusto mas há um nítido registo de overacting na condução de Zelensky e às vezes parece que entre Biden, Putin e Zelensky se combina uma oferenda de massacres.

Eu, se fosse a Zelensky, dizia a Putin: queres a região de Donbass, toma-a, queres Mariupol, toma-a. Entregava-as, de mão-beijada. Está já tudo tão destruído que os russos ficavam diante do vazio do que haviam conquistado. Daqui a dez anos, face ao desenvolvimento da outra parte da Ucrânia, em contraste com a zona conquistada, os de Donbass e de Mariupol ficariam tão revoltados contra os russos que a estes só lhes restaria devolver o que haviam tomado. Eu jogaria mais com o tempo e uma boa gestão dos recursos que choverão sobre a Ucrânia e que lhe favorecerão o desenvolvimento acelerado do que com os mísseis, em nome de um nacionalismo que é a obstinação dos tolos. Nada como um bom e um paradoxal exemplo para virar o jogo.

29/05/22

Uma nota para a aula:

Quando era miúdo o meu pai começou a pintar. O meu pai, que era tipógrafo, foi a casa de um doutor e viu lá um quadro dum boi pintado à maneira dos impressionistas e ficou banzado. E pensou: mas isto também eu faço.

Chegou a casa e foi comprar tintas e telas. E a primeira coisa que pintou foi um palácio. O que é isso pai, perguntei eu que nunca tinha visto um palácio na vida. E ele responde-me, é um boi. Quando eu fui a casa do dr., senti-me um boi a olhar para o palácio… Mas a casa do dr. era num palácio, perguntava eu sem perceber nada. Não, tinha lá um boi.

Um boi dentro de casa, pai? Um quadro com um boi, e eu é que me senti um boi a olhar para o palácio porque nunca me tinha passado pela cabeça que fosse tão fácil. Por isso cheguei a casa e pus-me a pintar. E queria reproduzir aquele boi, mas só me sai o palácio.

Sem saber o meu pai tinha-me esclarecido sobre a deslocação que se produz na arte, fazendo-me «descobrir aquilo sobre o qual se pode, no poema, dizer que isto é como isso» (Badiou), ou seja que uma palavra significa noutra, respira melhor em trânsito.

É o que faço neste poema de um só verso:
“Um vidro: enche de cerejas a mão!”

Falo do quê? De uma ferida na mão e do sangue que escorre. Embora o raccord mental que me autoriza aqui a elipse, aparentemente tão simples, teria sido absolutamente incompreensível há século e meio, antes da invenção do cinema ter fragmentado o espaço e nos ter habituado às imagens descontínuas no tempo e no espaço – a elipses e raccords.

Foi preciso um século para que esta imagem deixe se ser hieroglífica.
Ou no começo de um poema feito na Macaneta, olhando as ondas a rebentar na praia:
«É nítido, antes de rebentar, espreguiçam / as suas malhas de leopardo.»
Basta olhar para reparar as malhas de leopardo nas ondas, mas só a poesia nos dá a lente para «ver», o que é diferente de olhar. Outra nuance.

A poesia ajuda-nos a duas coisas:
– a voltar a ver, isto é a detectar as intensidades no horizonte amorfo,
– e ajuda-nos a re-ligar num padrão inesperado o que parecia separado, a pele do leopardo na onda do mar.
(Admirava Mallarmé em Gautier “o dom misterioso de ver com os olhos”.)
Deus, a existir, seria o arquitecto desse padrão que re-liga tudo, dar-lhe um nome é que equivale a dar um passo de recuo para aquilo que separa. Já a poesia é uma lente que, no dizer do brasileiro Mário Quintana, nos ajuda a fugir para a realidade, isto é, a unir.

2 Jun 2022

Leituras

18/05/22
A necessidade de reler a Odisseia faz-me vasculhar na net. Fico deliciado com a capa que reproduzo na imagem. É a mais bela capa de todas as edições que conheço da Odisseia. Por dentro, como era comum na Cosac Naify, a paginação corresponde. Só tenho a elogiar, do ponto de vista gráfico. O longo prefácio também me parece bastamente informado. Mas passo para o texto do Homero e sai isto:
«Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse:
por iniquidade própria, a deles, pereceram,
tolos, que as vacas de Sol Hipérion
devoraram. Esse, porém, tirou-lhes o dia do retorno.
De um ponto daí, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.»
Compare-se com o mesmo trecho, na tradução de Frederico Lourenço:
«Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração
para salvar a vida e o regresso dos companheiros.
Mas nem os companheiros salvou, embora o quisesse.
Pereceram devido às suas próprias loucuras,
tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol,
comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
Destas coisas, a partir de um ponto qualquer,
ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também a nós.»
Nem sequer comento qual a que vou ler.

20/05/22
Incrédulo, volto atrás, gaguejo, releio:
«Juan Carlos, monarca del Estado español, impuesto como gobernante aunque hoy sea más bien una figura decorativa, nos ha salido con que “nunca fue la nuestra lengua de imposición, sino de encuentro; a nadie se obligó nunca a hablar en castellano: fueron los pueblos más diversos quienes hicieron suyo, por voluntad libérrima, el idioma de Cervantes”.
Uff. El dislate es, literalmente, regio.».
De facto. Há sempre um pequeno colonialista que nos habita a sombra e que mete a cabeça de fora e os seus irreais à primeira oportunidade.

21/05/22
Sergei Loznitsa, o realizador ucraniano que se demitiu da Academia Europeia de Cinema (a 28 de Fevereiro) pela posição tímida à invasão da Ucrânia pela Rússia, foi agora expulso da Academia de Cinema da Ucrânia por ter manifestado o seu apoio aos cineastas russos e ser insuficientemente leal ao seu país de origem.
Loznitsa fez os filmes mais esclarecedores quanto à farsa dos argumentos russos sobre Donbasse e Maidan, mas a sua utilidade não foi reconhecida por simplesmente lembrar, justamente, que a cultura russa não é o Putin. Foi então acusado de ser um “cosmopolita”.
É vergonhoso e absurdo – a prova evidente de que a guerra nivela tudo e que a sua duração só promove uma irracionalidade que passa a operar em 360º. Talvez um excerto de um poema de Tomas Transtömer seja o melhor comentário: «Os portões altos fecham-se novamente/ Eis-nos dentro do pátio da prisão/ Numa nova temporada».

23/05/22
Extraordinária, a biografia de Marina Abramovic (Pelas Paredes, Editora José Olympio, 2017). Mesmo para alguém, como eu, que mantém uma reserva em relação à prática artística que circunda as “instalações” e as “performances”, é inevitável que o livro desperte um extremo respeito pela senhora. É, além do mais, uma narradora nata:
«A fixação de Danica (a mãe) pela ordem penetrou no meu inconsciente. Eu costumava ter um pesadelo recorrente sobre simetria – que era extremamente perturbador. Nesse sonho estranho, eu era uma general que passava revistando uma enorme fileira de soldados, todos perfeitos. De repente, eu tirava um botão do uniforme de um deles, e toda aquela ordem desabava. Eu acordava num pânico total, tamanho era o pavor que tinha de destruir a simetria das coisas.»
Este sonho é claramente inventado, surgiu-lhe das amiudadas leituras de Marina das parábolas sufis, mas encaixa à perfeição.
E a dado momento Marina conta-nos a história espantosa do encontro entre
Tsvetaeva e Pasternak, que escreviam sonetos um para o outro, ela em Moscovo, ele em Paris, e sobre o destino trágico da poeta:
«E então, como era casada com um russo-branco que fora encarcerado pelos comunistas, ela teve de deixar a Rússia com seus dois filhos pequenos. Foi para o sul da França, mas seu dinheiro acabou, e precisou voltar para a Rússia.
Tanto ela quanto Pasternak decidiram que, depois de quatro ou cinco anos dessa correspondência apaixonada, ela faria uma parada na Gare de Lyon em Paris, no caminho de volta para casa, e eles de fato se encontrariam pela primeira vez.
Quando acabaram se encontrando, ambos estavam num nervosismo terrível. Ela carregava uma velha mala russa, tão cheia de pertences que estava estourando. Ao ver sua dificuldade para fechar a mala, Pasternak saiu correndo e voltou com um pedaço de corda. Amarrou e fechou a mala.
Agora, os dois estavam simplesmente sentados ali, mal conseguindo falar. Seus escritos os tinham levado tão longe que, quando eles se viram de fato na presença um do outro, as emoções eram avassaladoras. Pasternak disse-lhe que ia comprar cigarros. Foi embora e não voltou. Tsvetaeva ficou ali sentada, esperando, esperando, até que chegou a hora de embarcar no trem. Pegou a mala consertada com a corda e voltou para a Rússia.
Ela retornou a Moscou. Seu marido estava preso. Tsvetaeva não tinha dinheiro. E, assim, foi para Odessa. Lá, desesperada para sobreviver, escreveu uma carta para o clube de escritores, perguntando se poderia trabalhar para eles como faxineira. Eles responderam que não precisavam dos seus serviços. Então ela pegou a mesma corda que Pasternak tinha usado para consertar a mala estourada e se enforcou.»
O poder, por aquelas paragens, nunca mereceu os seus artistas.

24 Mai 2022

A construção do poema

Porque o poema é menos a bisca que o bridge, fui a uma escola explicar a engenharia do poema.
Um dia fiquei chocado com uma notícia: por causa do H5N1 (a gripe das aves) os cisnes dos lagos e jardins europeus apareciam mortos.
Abri o caderno e verti o seguinte poema:

A eufonia dos cisnes infiltrados de H5N1/ invadiu os Museus de Arte da Europa. / Ledos, os guardas e as lídimas, canoras/ guias turísticas, repetem, “eis-nos no debrum // do Casal Ventoso”. Pelo ar, lamenta-se Barroso,/ num francês de estufa, todas as fronteiras, / inclusive as mais abruptas, são porosas. / Quem amnistia a brutal epizootia (frioleiras // de uma tia que arrasta à Casa dos Répteis, / Horácio, o epiléptico?) que lança no Averno / os lagos da Suíça, as margens de salgueiros / onde a súcia gozava estiagem, o pistácio // e o matutino, e ficavam surdos aos ralhos maternos / (e quase alados) os dedos dos petizes? Quem,/ no desatino de uma paixão suicida (Werther / faz duzentos e trinta anos), sacudirá a fogueira // da Europa? Poupem-se ao menos as perdizes!/ Os apoios externos estão garantidos, anuncia-se/ em Maputo – tudo a postos contra os lampos/ frangos da Nigéria. Entretanto, desatino oportuno, // lambuza-se o vírus nas bibliotecas da Grécia e bica / a polpa exangue dos sonetos de Yeats e Mallarmé. / Rien de rien, meu amor (vê-me, please, s’algum bicho / me picou na nuca), as nossas crias sorvem o seu capilé. // Coisas da Europa caduca – do seu espírito erudito / que, canzoada arrepiada, é hoje pasto para o mosquito / – (enquanto a fufa da tia – que raio designa uma epizootia?- / empurra de mansinho o Horácio da balaustrada).

Comente-se agora:
a) «eufonia». O cisne morre cantando e canta morrendo. Decorre daí a escolha do vocábulo “eufonia” – antecipando o desejo de fusão que a música autoriza -, condicionando o poema, pois obrigá-lo-á ora a rimas soantes ora a aliterações.
b) «os Museus de Arte da Europa»: o cisne é um dos animais mais representados no bestiário da pintura europeia.
c) “ledo”: risonho, contente, alegre, jubiloso. Mas o adjectivo foi escolhido pela homofonia em relação a Leda, uma rapariga cuja beleza provocou tais convulsões em Zeus, que este se metamorfoseou em cisne para a possuir e fecundar.
d) “ledo”, por contiguidade, “metamorfoseou-se” em “lídimo” (legítimo, autêntico), pois as guias-turísticas são quem autenticam as “histórias do lugar”, nas visitas turísticas. Por outro lado, associando “canoras e lídimas” associo, por extensão, a beleza dos cisnes à das guias turísticas, geralmente belas ragazzas.
e) “eis-nos no debrum/ do Casal Ventoso”. Introduzi o vocábulo como rima do 1 de H5N1, mas também como ideia de limite, pois o Casal Ventoso era um bairro de Lisboa de grande degradação. O Casal Ventoso é, aqui, o inverso da ordem dos Museus.
f) Barroso: Durão Barroso. Uso a frase dele que a notícia cita para falar da impotência da Europa face à calamidade: «por ar todas as fronteiras são porosas», o que além do mais me permite a aliteração: oso e osa(s).
g) Uma palavra que aparecia na notícia e que desconhecia: “epizootia”. Como a desconhecia de todo, uso uma liberdade poética e concedo-lhe um significado meio absurdo: “frioleiras de uma tia – a fufa!-/ que arrasta à Casa dos Répteis, Horácio, o epiléptico?”, que por um lado introduz uma segunda trama no poema e por outro é uma crítica à imprensa sensacionalista que invadiu o quotidiano da Europa.
h) «… que lança no Averno/ os lagos da Suíça»: Averno, um dos nomes que se dava ao Inferno na antiga Grécia, e a Suíça é o símbolo da estabilidade burguesa europeia.
i) Werther (1774), o primeiro romance burgês original, que cria o tipo de intelectual burguês jovem desadaptado à sociedade e que entra em conflito por causa da apreciação elevada de si próprio e do desajuste a que o sistema social o obriga, acabando por suicidar-se.
j) Um poema circunstancial, que parte de uma simples notícia, pode ser o pretexto para falar (parodicamente) da perda de aura de uma certa ideia de Europa como força civilizacional, o que leva ao comentário irónico (e pessoal, por questões de gosto): «Poupem-se ao menos as perdizes!», pitéu gastronómico, vocábulo que mais uma vez não está ali só para rimar com petizes.
l) Lampo, parente fonético de frango: “o que vem fora do tempo, temporão”. Uma crítica ao “deixa-andar” e à permeabilidade com que em África mais facilmente a perspectiva de um bom negócio para alguns pode fechar os olhos à calamidade pública que a sua execução acarreta.
m) «nas bibliotecas da Grécia…»: a mitologia grega legou-nos a lenda de Leda e do Cisne (Zeus), daí que seja nas bibliotecas da Grécia que os cisnes enlouquecidos começaram por esfacelar os poemas de Yeats e Mallarmé.
n) A quadra final (depois do descanso privado do capilé, pois o mundo não pode ser só desesperança) reforça a denúncia do estado de absurdo a que as vicissitudes da vida contemporânea nos impelem.
O poema brotou de uma notícia de circunstância, mas não prescinde, na sua construção, de um cabedal de referências que fazem parte tanto do sistema cultural em que cresci como de um estranho jogo entre a necessidade e a liberdade, que é o acto criativo. Embora essa cultura me esteja imbuída; o poema foi escrito de impulso, sem preparação prévia: o primeiro rascunho, no café, uma segunda versão quando o passei ao computador.
É poema de valia? Nem isso importa. Só publico um terço do que escrevo, o resto é para ginasticar a imaginação. Ramon Gómez de La Serna escreveu uma vez um longuíssimo texto sobre pregos que lido é um fabuloso exercício, mas que nunca coligiu na sua obra completa, porque senão todas as cópulas dariam filhos, o que seria um tremendo disparate.

12 Mai 2022

Para onde vamos?

À acusação de que a ONU não actuou em relação aos crimes cometidos pela Ucrânia no Donbass, António Guterres, bem, ripostou com o óbvio: “Não temos tropas ucranianas no território da Federação Russa, mas temos tropas russas no território da Ucrânia”. Justificou-lhe depois Putin, “o problema com a Ucrânia começa com o golpe de Estado que teve lugar em 2014. É um facto inequívoco.” E repetiu a lenga-lenga da nazificação que apaga as referências à cultura e às línguas russas do território. Palavras em conserva.

Seria útil que a Assembleia Geral da ONU, os russos algemados às cadeiras, visionasse os filmes de Sergei Loznitsa, o cineasta ucraniano, sobretudo Maidan, de 2014, precisamente sobre os movimentos populares que levaram ao golpe de 2014, e Donbass, de 2018. Ambos os filmes proibidos na Rússia. Ideologias à parte, os filmes ajudam-nos a compreender o que se passa hoje e o nível de incompatibilidade cultural e emocional entre os dois países.

Em Donbass, o filme sobre a guerra civil na província homónima, uma coisa ressalta: é um filme verdadeiramente incómodo, exasperante para os dois lados (- pelo subentendido do que possa ter gerado a crueldade que nele se expõe). Só que, enquanto o filme foi proibido na Rússia, o “nazi” Loznitsa condenou há dias, de forma veemente, na revista Variety o boicote ao cinema russo – imensa diferença.

Duas sequências se destacam em Donbass: a do “exterminador nazi” que é exposto ao linchamento popular e a do incauto comerciante chamado às autoridades locais – em “zona libertada” pelos separatistas – para recuperar o jipe que lhe havia sido roubado e é confrontado com “formalidades” que “formalizam” a “doação” do seu carro ao Governo Popular, ao que se acrescenta uma chantagem para extorsão de dinheiro. E os argumentos são redondos:

“Você ou apoia esses monstros, esses fascistas, ou está connosco?”. Ou cede, ou irá para o linchamento. A grande máxima da vida prática que os líderes do Novo Poder patenteiam é “conservar o que se tem, apanhar o que se pode”.

E fica claro a corruptela dos termos nazi/fascista, gastas senhas para justificar de antemão as arbitrariedades do novo poder. Conceitos em conserva. Como, antes do encontro com Putin, para Bolsonaro e vários milhões, comunista significava: aquele que come criancinhas. Alguém admite dúvidas quanto aos comunistas terem sempre uma criança de reserva no congelador?

Não se trata de uma questão de pontos de vista, mas de mundos diferentes, duma total assimetria traduzível na discordante relação quanto ao valor e aos significados atribuíveis às palavras. Para Putin, como para Trump ou Bolsonaro, consoante o desejável predomínio da vontade deles sobre a realidade, as palavras travestizam-se, ou mudam em conserva. Para os russos nem sequer há guerra, a Ucrânia submergiu num momentâneo estado de sonambulismo (como marionete do Ocidente) que não a deixa identificar os trilhos da paz e os ucranianos estão a ser salvos de si mesmo.

Ocorre-me a história que P. Jacob conta no seu livro O Empirismo Lógico:

«O físico Szilard anuncia um dia ao seu amigo Hans Bethe que decidiu escrever um diário:
-Não tenho a intenção de o publicar; vou simplesmente catalogar os factos para que Deus seja informado.
– Tu não achas que Deus conhece os factos? – pergunta-lhe Bethe.
– Sim, anui Szilard, mas ele não conhece esta versão dos factos!».

Em faltando Deus à loquacidade da fé, o que levou o Papa a desistir de tentar a sua chance como mediador, seria esclarecedor que os renitentes vissem os filmes de Loznitsa – e já agora também o Enterro de Estado, de 2019, sobre a morte de Estaline, porque é nesse estado de canonização que se imagina o Novo Czar – para que conhecessem essa versão dos factos. É na direcção desse imenso retrocesso que queremos ir?

Mas quanto ao perverso deslize das camadas tectónicas da semântica e aos seus efeitos no comportamento das instituições, valeria a pena lembrar que isto começa lá atrás e é de todos os lugares, como se atesta em A Mancha Humana de Philip Roth, ou neste facto que agora se noticia: «O tribunal de Fairfax, no estado norte americano da Virgínia, tem sido palco do julgamento de difamação contra Johnny Depp e Amber Heard, duas estrelas de Hollywood que revelam um ex-casamento de brigas violentas, uso de drogas e palavras cruéis. O julgamento tem captado multidões à porta do tribunal. A maioria são fãs do actor, que criticam a postura de Amber. Depp processou a ex-mulher por difamação e pede 46 milhões de euros em danos. Amber Heard avançou com a mesma acusação, mas exige o dobro: 93 milhões. A actriz ainda não foi ouvida em tribunal. O julgamento deverá continuar durante as próximas quatro semanas.»

O que é que falta a este ominoso casal? Interiorizar o visco da palavra Vergonha. E o mercado da comunicação que transforma a vergonha e a frivolidade em espectáculo, não é menos venal (ainda que diferidamente) que o mercado da guerra: corrompe, avilta, faz desejar a “verdade” da violência. Perante a condição de sem-abrigo da existência humana a que o horror da guerra nos propende, Amber Heard exige 93 milhões ao seu marido porque, como prova um vídeo que levou a tribunal, Deep bate com as portas dos armários da cozinha. Que democracia resiste a tanta falta de senso?

Palavras em conserva. Como fascista (uma tragédia, a trivialização do conceito). O Jünger, que supostamente o terá sido, tendia a afirmar a necessidade de manter o niilismo à distância. Nada mal, para um fascista. Melhor que a visão progressista de quem diz combater o fascismo e a uma proposta de tréguas contrapõe: «Moscovo não aceita esse tipo de propostas», numa despeitada letalidade não declarada. Porque, matar à fome e à sede aqueles (civis e militares) que escaparem aos bombardeamentos de Mariupol, à puridade, apenas significa Encomendar-lhes as Almas – exultemos!

28 Abr 2022

Da Rússia, com amor

Segundo Chesterton, os anjos conseguem voar porque se enxergam a si mesmo com leveza. A leveza que a guerra nos retira, imersos num clima inamistoso que nos recorda a advertência de Confúcio em Analectos: nenhum país é governável quando nem os amigos se entendem. Um desalinho que não nos deixa sorrir.

Bastou a Putin acenar com a mijinha territorial e levanta-se o clamor contra o famigerado desequilíbrio que (na selva) a Nato quis provocar.

Esquecem-se, entretanto, de referir – aqueles para quem a Nato, na esteira de Putin, teve movimentos expansionistas adentrando-se nas fronteiras de influência da Rússia – que os países que se candidatam à Nato, não são aliciados; pelo contrário: é por pedido expresso dos países que a sua entrada na Nato tem lugar.

É um pormenor: pede protecção quem não se sente seguro em relação às “boas” intenções do vizinho. Demonstradas na Geórgia e na Crimeia. São os países (soberanos) que pedem protecção à Nato. Ainda ontem o porta-voz do Kremlin ameaçou suecos e finlandeses, hoje já as tropas russas se avolumam nas fronteiras finlandesas. Com que direito?

Nas entrevistas de Putin com Oliver Stone, o posicionamento do novo Czar é muito claro: ele rejeita o comunismo e capturou o sistema para forjar um novo regime, mais próximo dos nacionalismos tradicionais e místicos que ramificam na extrema-direita. Daí as ligações de Putin a Marine Le Pen. É difícil entender a adesão de tanta gente de esquerda às teses de Putin a não ser por reflexo de uma nostalgia patológica face a uma referência revolucionária de todo perdida. Para ilusoriamente se manterem fiéis aos “princípios” aterram nos hangares da extrema-direita.

Mesmo com a “saudosa” União Soviética a solidariedade da Internacional Socialista era uma cilada com aspectos tão reprováveis como as manobras dos países doadores na sua “ajuda” aos países africanos. E assim, “legitimamente”, a União Soviética rapava todo o peixe das costas moçambicanas e deixava aos camaradas moçambicanos o carapau, com tal exclusividade que nos anos oitenta (à falta de outros espécimes na mesa) até sobremesas de carapau se inventaram. De modo semelhante, os chineses hoje rapam as florestas, os espanhóis o marisco, os franceses o gás e, etc. Cada “apoio” ao orçamento de estado corresponde sempre ao interesse velado de mamar em qualquer matéria-prima. Daí que os países africanos não se sintam “gratos” o suficiente para alinharem com o repúdio do Ocidente à agressão russa: têm sido espoliados por todos.

Há também a fobia aos EUA, convulsiva, na escolha de muitos. Aí, entre uma adesão decapitadora e uma rejeição epidérmica, irracional, instala-se um ímpeto cego de crença. É a prova definitiva de que a disputa política raras vezes escolhe a razão como ringue.

É igualmente preocupante o facto do Ocidente estar a pôr todos os seus trunfos num peão que lhe despertou uma chama heróica, mas que igualmente não é impoluto. É provável que, em não sendo a guerra, Zelensky estivesse a contas com alguma crise no seu governo, dado o que foi revelado nos Panama Papers, e a sua bizarra aliança com o sinistro batalhão Azov. A guerra foi-lhe favorável, e fica mais difícil penetrar na obscuridade com que as informações e as contrainformações saturam de luz o palco.

Porém, há coisas que são muitíssimo claras, para além da inaceitabilidade da invasão da Ucrânia.
A primeira agressão de Putin é ao próprio povo russo. Para perpetrar a invasão, Putin mentiu aos seus recrutas e enviou-os para uma armadilha. Os atarantados lá foram, sem saber ao que iam. Neste momento, anulada a mínima liberdade de informação, o russo foi massivamente arredado de qualquer noção da realidade. Proibido de inteirar-se do que se passa, o povo russo é tratado como uma massa infantil a quem se proíbem os bombons porque apesar do espelho reflectir corpos franzinos o regime dita que estão obesos. As notícias indirectas chegadas através da inflacção galopante, do desaparecimento dos produtos no mercado, ou do estranho sumiço dos filhos idos para os exercícios militares, fazem-lhes pressentir algo que, sob pressão de uma ansiedade habituada a reprimir-se, os leva a ceder à paranoia: como no estalinismo, os russos já denunciam colegas e vizinhos (e professores) pela posição crítica em relação à guerra. A vergonha desta bufaria levará gerações a ser ultrapassada.

A segunda agressão de Putin ao seu povo é a denegação da morte. Os nazis encobriram o máximo de anos possível a existência de campos de concentração e a sua indústria de morte programada. Da Rússia, com um mês de combates, já sabemos que – se, em relação ao inimigo, visa sem escrúpulos os civis – incinera os seus militares mortos para que o grosso deles “desapareça” em combate, adiando o mais possível a entrega do cadáver aos familiares. Para Putin, a morte, sempre exterior, nada significa. Como para os nazis, os mortos deixaram há muito de ter nome, são exclusivamente números, abstracções dispensáveis. Mas quanto a isto, se o seu inimigo já o sabe, os russos que não participam directamente da guerra estão a leste duma consciência clara sobre o estado volátil dos seus mortos.

Apesar da democracia ser um sistema imperfeito, há uma diferença abismal entre a persuasão retórica e a repressão que coage os próprios pensamentos, entre os desequilíbrios sociais que renhidamente vão sendo denunciados e os desequilíbrios fundados em castas duma instância política inamovível, entre a corrupção que vive na ilegalidade e a que impele (sob risco da miséria) toda a gente a participar do esquema; etc., etc.

A democracia ainda permite a disseminação de simulacros culturais que moldam novos ritos e mediações, o actual regime russo vive na e da lei da selva. A da impossível reparação. Não creio que possa haver escolha.

Escreveu uma criança ucraniana para a mãe, morta: “Mamã, desejo-te boa sorte, no céu”. Depende, se aí ainda houver leveza.

14 Abr 2022

La vache qui rit

28/03/22

Hoje percebemos como o século XX foi o rio das utopias sanguinárias (do fascismo e das revoluções comunistas às vanguardas artísticas) e da ignomínia programada – o resto é a lactescência das margens. Nessas margens leitosas rumorejavam as bolhas da paz, a fraternidade da música e a magna ilusão do cinema, assim como o sonho da educação para todos, prendadas remanescências do progresso, sob as saias da Ilustração.

Bolhas que se revelariam frágeis, face a três investidas, que correspondem às três Virgens anunciadas certamente no Quarto Segredo de Fátima: a primeira, a Virgem do pós-colonialismo e do “politicamente correcto”, que fez cair as malhas na meia do universalismo; a Virgem do neo-liberalismo que abriu brechas no ideal democrático ao preterir aos valores a economia (daí ter-se abolido as minissaias da minha juventude); e a paradoxal investida das redes sociais que sob a face risonha (que também têm) mostrou ter duas faces e mostrou ao espelho o aspecto de uma Virgem Negra de uma comunicação sem ética (- a piada de Chris Rock e a estalada de Will Smith: duas faces da mesma moeda, no “vale tudo” sem comedimento).

Se quisermos parafrasear o célebre mandamento de Lenine, segundo o qual «o socialismo é igual aos sovietes + a eletricidade», «esta invasão da Ucrânia é igual à violação das três virgens + a bondade com que o Putin nos quer livrar do fascismo».

Tendo ido o ano passado à Beira dar uma formação para professores (da primária ao sétimo ano), saí de lá deveras apreensivo: a maior parte dos docentes não sabia, literalmente, o que era um “ponto de vista”. Portanto, os professores não logravam alcançar o reconhecimento de si que supõe a escolha de um “ponto de vista”, o que pouco campo lhes deixava para a generosidade da empatia; além disto simplesmente minar qualquer habilitação para o exercício democrático. A ignorância pode ser inocente? Lembremos, com Deleuze, que perverso é aquele que vive num mundo sem o outro.

Alertado, fui detectando em graus diversos este mesmo estado ante-Gulliveriano por todo o lado e como alastrava pelas redes sociais e o Facebook: aí, a um estado de deficiência cognitiva generalizado junta-se a “tirania do indivíduo”.

Um dos sinais de intolerância e de inadaptabilidade argumentativa é a efervescência com que se procura acima de tudo ter razão e a última palavra, numa postura heliocêntrica. A mim não me incomoda nada, rigorosamente nada, estar equivocado sobre algo, ou iludido, por me faltar qualquer informação que me fará contemplar outra perspectiva – é-me evidente, não vemos como as trilobites em 360%. Posso ser veemente na forma como armo a argumentação lógica, não confundo a (minha) opinião com o conhecimento. Procurando ser persuasivo, isso faz parte do jogo da comunicação, mantenho em aberto a possibilidade do erro e não invisto cegamente na validação narcísica. Tal como perder ao jogo não me muda a disposição. Fico inclusive contente se me apontam um ponto de vista de que não me apercebera.

O que não me abstém de ficar abismado com algumas reacções, mais do que enérgicas, inflamadas, como se quem me interpela jogasse ali a vida. Já me aconteceu, se é amigo, recordar à criatura que o argumento que exponho é fruto dessa “terça-feira”, que na quinta-feira, fazendo jus à afirmação de Picabia de que temos a cabeça redonda para permitir às ideias mudar de direcção, poderei pensar diversamente.

Sem que isso me roube um centímetro na defesa de algumas causas por que estas são o resultado de um pensamento sedimentado no imenso laboratório que a vida e a idade nos faculta; havendo, portanto, ideias que, como os rins e pâncreas, se tornam interiores: órgãos a que não podemos renunciar.

Um exemplo: não me custa nada concordar com o sr. Biden quando ele diz que esta é uma guerra das democracias contra as autocracias, mas gostaria de o interpelar em relação ao cinismo com que ele, como arauto do Ocidente, agora deplora o “despertar dos carniceiros” que usam as armas que o Ocidente lhes foi vendendo, irresponsavelmente, em nome da economia. E gostaria de o inquirir sobre a sordidez de cada míssil Javelin custar 150 000 dólares, e um carro blindado ou um tanque 2 000 000 de dólares, tendo em conta a fome no mundo e a falta de escolas, de livros e vacinas no terceiro mundo; se esse é o seu conceito de avanço democrático.

Coisas tão simples como manter-se higiénico o cu de um mandril. Em querendo acreditar que a democracia é, terá de ser, a garantia de um incremento da biodiversidade que de todo não se compatibiliza com a guerra e os seus negócios.

Entretanto, estando o caldo entornado, leio: «Nas duas próximas semanas, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Estados Unidos estarão juntos num exercício que simula a ameaça russa a território da Aliança.

Os pilotos vão voar contra sistemas de defesa aérea de origem russa que alguns dos países da aliança operam. Quem participa quer que esta seja uma mensagem clara para o Kremlin.» E, do ponto de vista do meu sofá, que adora simulações, não sei se hei-de rir, se chorar!

29/03/22

QUEM FICA POR ÚLTIMO FAZ AS ACTAS DAS CIDADES DERRUÍDAS

Ao fim de trinta anos de porfia/ nas fontes mais áridas e obscuras/ tendo inclusive decifrado os dísticos/ até aí secretos de Gilgamesh, na finisterra, // após trinta anos de genuflexões na água/ e de experimentar sucessivas, novas, tatuagens,/ alheio ao risco de não distinguir auto-profecia/ do que realmente cauteriza; em variações // da pedra que esposa a veia e da pedra/ sem trapaças e da pedra que escolta o silêncio/ e da pedra erudita que vai aos rins // galgar no azul e nas nuvens;/ montou finalmente a sua bicicleta/ de ouro – já não tinha era pulmão.

30 Mar 2022

ALMA

Elon Musk é uma personagem da Marvel e desafiou Putin para um duelo ao sol. Quem ganhasse decidiria o que fazer com a Ucrânia. É, convenhamos, um medievo, quase ingénuo no desplante com que aposta os trunfos na bondade do homem providencial. Já não é uma questão de princípios, mas de destinos. O anjo bom, contra o anjo mau.

A um dos seus seguidores, que escreveu este desafio não passaria de uma brincadeira, o fundador da Tesla respondeu que falava “absolutamente a sério”. “Se Putin pudesse humilhar o Ocidente com tanta facilidade, aceitaria o desafio. Mas não o fará.”, acrescentou. Para já não houve qualquer reação do Kremlin.

De forma bem mais razoável, Musk já havia oferecido o seu apoio a Kiev, através do Twitter. E depois de ter escrito “Mantenham a Ucrânia forte” e de ter dado as “condolências ao grande povo da Rússia, que não quer essa guerra”, Musk activou o seu serviço de internet Starlink na Ucrânia, enviando equipamentos para ajudar a melhorar a conectividade em áreas atingidas por ataques militares russos.

Cremos que este é um «efeito Zelensky», a aspiração à heroicidade tenderá a tornar-se capilar. Contudo, a coragem do presidente ucraniano forjou-a a situação. Zelensky não pode medir os passos, a sua coragem é um aço temperado na chama do desespero e um intérmino pedido de socorro. Encurralado, só lhe resta ser digno.

Não há ali um grama de fanfarronada. Não se é um herói por heteronomia – não é por acaso que o único líder pró-ocidental que não se mostra acagaçado é o que está encurralado.

Por que é que o menino rico, ávido de protagonismo, não pega nas suas espadas de laser, reúne um regimento, e se oferece como voluntário para o combate – experimentando a longa duração da guerra? O que lhe interessa é a propaganda. Ele já percebeu onde está o futuro, está a posicionar-se.

Na outra trincheira temos Putin e a sua crença em Pavlov: o homem é um cego escravo dos estímulos, mais apegado aos condicionamentos do que à virtualidade raciocinante da sua emoção. Está a lixar-se. Todos os dias haverá mais um jornalista a rebelar-se, ou crianças que irão colocar flores no muro da embaixada da Ucrânia.

Todos os dias alguém que leu Dostoievsky e Gogol e Mandelstam, Soljenítsin e Svetlana Aleksiévitch, há-de interrogar a pertinência do país só gerar tiranetes e ter vergonha por si ou alheia – a areia foge por entre os dedos de Putin.

Tudo se repete. Lemos este resumo de “Meninos de Zinco”, de Svetlana Aleksiévitch, publicado em 1991: «Entre 1979 e 1989, as tropas soviéticas envolveram-se numa guerra devastadora no Afeganistão, que causou milhares de baixas em ambos os lados. Enquanto a URSS falava de uma missão de “manutenção da paz”, levas e levas de mortos eram enviadas de volta para casa em caixões de zinco lacrados. Este livro apresenta os testemunhos honestos de soldados, médicos, enfermeiras, mães, esposas e irmãos que descrevem os efeitos duradouros da guerra. Ao tecer as suas histórias, Svetlana Aleksiévitch mostra-nos a verdade sobre o conflito soviético-afegão: a destruição e a beleza de pequenos momentos quotidianos, a vergonha dos veteranos que retornaram, as preocupações com todos os que ficaram para trás», e adivinhamos a vergonha destes novos imberbes “veteranos”, que mais uma vez tornarão ao regaço da Mãe Rússia, dispostos a esconder-se sob os sete folhos da matrioska para chorarem o arrependimento.

E esta violência que os povos em guerra exercem sobre si e os outros começa invariavelmente na distorção da linguagem, nas cambalhotas semânticas. Faz-se a guerra em nome da manutenção da paz. O que se pretende é “desnazificar” e instalar a “verdadeira democracia”, etc., etc. Tudo começa no relaxe da linguagem, talvez desde esse momento em que um espirituoso se lembrou de dar o nome de ALMA à superfície interna dos canhões.

Há cinco anos escrevi num romance, “Fotografar Contra o Vento”, este diálogo entre os protagonistas:
«- Posso fazer-te uma pergunta?
– Força.
– Não gostas de tourada. E és contra a fiesta?
– Não…
– Porquê? Seria natural que fosses contra…
– Olha, Petra Stoering, um cientista, mostrou que o primeiro acto de consciência de si é o que permite à célula ou ao vírus alimentar-se de outro em lugar de autofagocitar-se, quer dizer, quando
começou a distinguir-se do seu próprio alimento… Percebes?
– Não sei se atinjo onde queres chegar.
– É simples, por trágico que seja, estamos condenados à violência sobre os outros… para não nos auto-devorarmos. Iludem-se muito os homens, mas não há guerra e paz, há apenas a guerra, ponto. No meio disto, o ritual da tourada é como uma trégua neste massacre, e às vezes, a cruz dele, o toureiro, morre com ele. E, se assim tem de ser, prefiro que seja uma violência controlada e ritualizada… antes isso que a indeterminação da violência à solta, como acontece na guerra, ou no terrorismo. Porque, à violência, o ser humano não a vai conseguir extirpar de dentro de si, o mais natural é que seja a violência a arrancar das suas mandíbulas esse dente apodrecido que é o homem…
– Deves ter visto muitas coisas violentas?
Cosmo engoliu a aguardente de um trago, antes de redarguir, definitivo:
– Bom, é tarde, são três da manhã e precisamos de descansar…»
Não defendo a tourada – nem tenho de a defender nem de a atacar, isto é uma conversa entre os personagens do livro e obedece à lógica deles, não à minha – mas, contra todas as abomináveis gamas do politicamente correcto, acho que necessitamos absolutamente de voltar a uma certa e mútua “franqueza” interpessoal, de desenvolver novos ritos e modulações do atrito na comunicação que equivalham a formas de violência controlada e ritualizada, de modo a suster a nossa propensão para a guerra. Pelo menos enquanto o interior dos cilindros dos canhões se chamar ALMA.

17 Mar 2022

Sinais implodidos

01/03/22

 

Eu ainda andava desvairado pela Jane Fonda. Tinha trinta anos, estava desempregado de amores, e deslocava-me todos os fins de semana a Coimbra, onde colaborava com o grupo de teatro A Escola da Noite. Ao cabo de oito meses constatei que a cidade me resistia. As suas mulheres, novas, velhas, viúvas, divorciadas, estudantes ou trintonas, as actrizes, os travestis, as coxas ou mesmo as barbudas, como a do Ribera; a cidade havia-me riscado do seu leito.

Em oito meses, só me tocava conversar sobre o Grotowski, o tango argentino que vitimara um amigo de Manuel Bandeira ou as nuances do adultério do Heidegger com a Hanna Arendt, amanhos do espírito, enquanto o esperma se me coavalha, em espesso glaciar.

Nesse sábado desci à baixa para ir buscar à Valentim de Carvalho um disco do Keith Jarrett, que encomendara. E entrei descontraidamente no Santa Cruz, desarmado por dentro e por fora. Tencionava comer um prego e beber duas cervejas e apanhar um táxi para casa, onde passaria uma tarde plácida a ler e a ouvir o cd.

Sentei-me na única mesa que estava livre. Ao lado de três belíssimas estudantes de direito, uma delas uma mulata com olhos verdes que era a irmã bonita da Sade Adu. Riam a bandeiras despregadas porque ao balcão havia um toureiro em traje de luces a tomar uma bica. Era uma figura caricata, o que a sua excelsa concentração no café que bebia de lábios em bico e o seu mindinho levantado acentuavam. Mas o melhor é que isso nos permitiu três relances e a partilha de um sorriso.

Dez minutos depois, ouço a bonita mulata contar às suas divertidas mas estupefactas amigas que tinha chegado à Europa para o desejo maior de encontrar e conhecer (biblícamente?) um vampiro e pude então lançar a deixa:
Ó cara doutora, mas se é por isso eu levo-a aos Carpátos.

Tudo corria sobre rodas, os olhos verdes dela cravejavam-se nos meus, os seus lábios seguiam o fio da minha voz, o riso dela, o riso dela, meu deus, refrigerava como um leque valenciano o calor dos corpos, enquanto a dança dos dedos nos precipitava no enlace. Só estranhava que ela, que bebera o mesmo, aguentasse de tal modo o álcool – a minha euforia já roçava o patético.

Em casa, fui brevemente à casa de banho molhar a cara, a nuca, e enfiamo-nos no quarto. Fui à cozinha buscar uma derradeira garrafa de vinho, que abri com esmero e delicadeza, servia-a, bebericámos no cálice, e pus o disco. Entreolhamo-nos longamente, já não havia nada a dizer e nos olhos verdes dela acendiam-se néones. Um longo beijo aplacou as disputas, desapertando de rajada todos os botões.
E é tudo o que me lembro desse inglório apagão.

No dia seguinte, acordei sozinho, às onze da manhã. Havia um bilhete em cima da minha secretária, em que se lia, Adorei a música, obrigado. Um beijo da tua Rainha de Sabá. Nem número de telefone, nem qualquer referência. O Keith Jarrett voara com ela.

Na sexta seguinte, assim que depositei a mala no quarto, apanhei um táxi para o Santa Cruz. As duas amigas lá estavam, estudando, na mesma mesa, e foram amistosas. Ela é que não, pois, contaram-me, fora de urgência para Moçambique por causa da morte súbita do pai, e nenhuma delas tinha o contacto de Maputo.

Só a voltei a ver dez anos depois, na televisão, num debate sobre política africana. Era Secretária de Estado do governo de Moçambique.

Vinte anos depois, em Maputo, assistia em casa a um telejornal da RTP/África e passam uma reportagem sobre o Café Santa Cruz, em Coimbra – e vejo-a aperaltada ao balcão (que missão a fizera deslocar à cidade onde estudara?), no exactíssimo sítio onde estivera o toureiro, a beber um café, o indicador levemente levantado, em asa delta.

A culpa disto tudo, creio, é da Jane Fonda.

03/03/2022

CELEBRAR A GUERRA? AGAIN?

«arde a minha alma como um jornal», Hugo Claus

A guerra é o pasto em que arde a soldadesca/ enxameada de vermes, línguas roxas, pus,// enquanto de olhos reboludos as vacas, / extraviadas da lembrança da mãe Ío, ruminam,// alheadas, entre cadáveres. É um éden só de puros / (só aos nossos as nozes, aos outros os ossos), //que provém dos lençóis freáticos de países imaginários./ Na guerra o tempo tem o tique-taque de uma véspera // que já escalda e por isso supura a linha do amor / nas palmas e anseia-se pelo errante ladrão-de-orvalho // que rapine à eternidade um lampejo de cruel felicidade./ Era já assim no tempo dos meus avós na II Guerra Mundial.// Os bombardeios circuncidavam as cidades /e enchiam-se baldes de maçãs, salvo-condutos e tripas gordas,// enquanto o noivo desapanhava a noiva sob os escombros / e a criança adivinhava no relógio esfacelado // da mãe a sua pungente ausência. / Será assim na época dos meus filhos, já pretérita // nas cabeças que faz rolar como se de cravinho fossem, / e no cerne da qual se esfuma a razão, // escarnecida pela fé dos tolos; carecas de saber / que é medieval o costume de coser a bainha // do sol com fios de sangue. A guerra reacende-se / quando o justo e o ímpio desentronizam // os prazos e trocam de posições, confundindo / o ritmo do escalpe com o do tango. //Até que um deles inventa o éden. E eu, tão feliz / no meu inferno, tão em paz que encadernei // com esperma o Novo Testamento, discretamento tusso, / perguntando-me: e a nós, por quanto tempo // nos será autorizado esquecer, como Orfeu? Por quanto / tempo sobreviverá um homem aos 400 mercenários?

4 Mar 2022

Urbe Sub Rosa

20/02/22

“Vá e impeça a guerra, Jair…” – apela o cartaz, num reforço evangélico da campanha do Bolsonaro, que tem dado frutos, visto que ele tem subido nas sondagens. Na imagem vemos como as costas do ignóbil Bolsonaro estão resguardadas pela figura de Cristo. Embora na Rússia, a figura inspiradora que terá estado por trás da acção de Bolsonaro haja sido Judas, já que a benignidade natural do presidente brasileiro não desviou Putin um centímetro dos seus planos de invasão. O pobre falhou a todo vapor a sua estóica missão.

Mas há outros feitos que se poderão atribuir a este novo Mensageiro de Cristo: o regresso de Trump, que vai dividir o país com as suas profecias sobre a guerra na Ucrânia, sopradas pelo Messias brasileiro; a estátua do Cristo Redentor não desabará nunca no morro do Corcovado porque o olhar beatífico do Capitão o impedirá; e na esfera do plano internacional a acção benfazeja de Bolsonaro apagará da lembrança o terremoto de 1755 em Portugal, esse trauma funesto que só continuará a existir nos livros do historiador Rui Tavares, como se sabe um feroz produtor de fake news. Estou encantado com as possibilidades que este novo baluarte do cristianismo abre.

22/02/22

Melanie Daniels (Tippi Hedren), uma jovem socialite com o desejo estampado à flor da pele chega a Bodega Bay e fica cativa. Duplamente cativa. Por causa do advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) – um dos mais fragorosos erros de casting da história do cinema – e dos pássaros e aves que estão como ela à solta, mas numa espasmódica pulsão maligna.

A dado momento, um derrame de gasolina e um descuidado charuto provoca um incêndio na povoação e uma massa de gaivotas, atraída pelo fogo, ataca os transeuntes. Melanie é forçada a refugiar-se numa cabine de telefone, toda em vidro, enquanto as aves criam o caos lá fora.

É um dos momentos fortes do filme, ela em pânico naquele precário refúgio contra a voragem das gaivotas que bicam o vido tentando atingi-la. Se nós quisermos essa imagem é semelhante à condição que hoje experimentamos, acossados no interior duma caixa de vidro contra a histeria dos media que nos assaltam e exacerbam com os seus dramas sangrentos.

No filme há três passarinhos inofensivos, cujo comportamento é confiável: os dois canários da filha de Mitch e a passarinha de Melanie, que apesar de descomandada pede gaiola. O filme mais não é a que a figuração no espaço e nas aves da flagrante sexualidade de Melanie à procura de pousio. E neste item Tippi Hedren é perfeita.

No filme, apesar de tudo, a natureza é domesticável, apesar de irritadiça, inflamada e agressiva, sugere Hitchcock.

Isto nos bons tempos em que não era tão nítido que a natureza mais selvagem é a do homem e que esta se encarniça contra si mesmo, na irracional vontade da guerra.

Esta crise mundial chega no pior momento, aquele em somos rodeados pelos líderes ora mais fracos ora mais velhacos. Num péssimo momento para todos nós e também para os americanos que vão encontrar-se rapidamente divididos entre a liderança oficial de Biden e a alucinada de Trump – diante do recrudescimento da tensão vai ocorrer uma guerra civil não declarada nos States, e Putin joga com isso. Apertado pelos tribunais, é a oportunidade para Trump jogar todos os seus trunfos. Já começou.

23/02/22

Nesta sexta-feira, dia 25, na livraria Barata, apresento o livro que reúne a selecção que o Paulo da Costa Domingos fez de cinquenta anos de poesia publicada, desde 1972, “Urbe Sub Rosa” (com umas extraordinárias capa, lettering e contracapa de Patrícia Guimarães). Cinco anos mais velho que eu, o PDC era um dos meus heróis quando eu tinha dezasseis, dezassete anos e o seu “Uma Orelha Sem Mestre” inflamava a minha atenção, tal como o “Crítica Doméstica dos Paralelepípedos”, do Nuno Júdice, e “A Luva in Love”, do Jorge Fallorca – três livros que me marcaram numa época de aprendizagem da liberdade.

É um livro denso (e não só pelo tamanho, 700 páginas) mas que constitui uma verdadeira aventura porque permite entrever os elos na sua obra que uma leitura livro a livro, plaquete a plaquete, deixava mais na sombra e a novidade é que a consistência que ressalta do conjunto reafirma uma voz e autentica a sua rebeldia, resgatando-a da margem, para firmar um dos mais interessantes e incomplacentes percursos da poesia portuguesa nas últimas décadas. Aqui deixo um poema:

«GARANTO/ Garanto que o norte magnético/ já não é nada do que era,/ o carrocel roda ao invés, a vertigem/ mantém-nos na linha. Dos ventos// a rosa cobre-me os ombros/ e o nosso diálogo é o sentido, por isso/ vos digo: o norte magnético foi-se,/ glaciou-se, entre bacalhoeiros e arenques// que transportam agora nos dorsos os vírus/ do último esquimó/ e o imerecido ódio do/ último viking. Garanto-vos bebida quente/ no ápice trágico que anteceda o suicídio, // e o estilete que apontareis a quem vier/ violar vosso domicílio. Porque convém,/ cada vez mais, arreganhar o dente,/ dedicar um dia inteiro ao veneno.”

24 Fev 2022

Comboios astrologicamente vigiados

Nada me preparara para o sonho que me enovoou, entre Coimbra e Aveiro:
«Duas mulheres belas, altas, desengonçadas, ainda na leveza dos vinte, mas com a airosa gravidade dos trinta a poisar-lhes suavemente no semblante, uma loura e outra ruiva, conversam no banco ao meu lado. Num à-vontade que se exala ao arrepio da máscara. São manequins e adoram o que fazem, embora a covid lhes esteja a ratar os planos:
– Oh pá, é mesmo azar, tinha três desfiles de grande expressão nos próximos meses, um em Santander, outro em Paris e o último em Roma…
– Não digas nada, amiga, eu estava combinada para Barcelona e Biarritz no próximo mês. Tenho marcada uma sessão para a Vogue que, talvez, se realize, o resto é uma banhada…
– E o teu agente?
– Que tem?
– Ainda te responde? O meu anda aos soluços…
– Felizmente, mas tenho amigas que se sentem abandonadas.
– Shit para este tempo que nos coube.
Resolvo interrompê-las:
– Desculpem meter-me na conversa… mas estes tempos só exigem novos palcos, está tudo por reinventar…
– Desculpe, como assim? – pergunta a loira.
– Pensem no efeito de usar-se o comboio como passarela, em sessões contínuas, da carruagem 2 à 23…
– Seria o caos…- reage a ruiva.
– Não vejo porquê? – insisti – seria uma mera questão de disciplina e de horários. O vosso público mais aficionado, pelo inédito da iniciativa, tomaria o comboio por curiosidade, e teriam além disso um público novo, o dos viajantes normais…
– Já viu a confusão, com as entradas e saídas de pessoas? – voltou a loura a objectar.
– O Alfa Pendular só pára três vezes, os intervalos entre as estações seriam o período ideal. E admitamos que se faria à noite a passagem de modelos… Vocês representam a beleza, o glamour… Já viram o vislumbre, quantos milhares de pessoas viriam às janelas de sua casa a essa hora para vos ver passar? Na beleza fosfórica que seria a vossa, à passagem veloz do comboio?
– Como cometas…- admitiu a ruiva.
– Sim, cometas concretos, com nome, rosto, e uma beleza intangível… A junção improvável que alimenta o sucesso.
– Gostei… – ponderou a loura – O que faz o senhor.
– Sou poeta, mas isso não importa agora… Sabe que nome daria a esses desfiles?
– Não… – mostrando-se ansiosas.
– Comboios astrologicamente vigiados.
– Não sei se entendo. – atreveu-se a ruiva – Porquê vigiados?
– Vigiados pelo bom-gosto, no sentido de estarem superiormente devotados à elevação do olhar pela beleza. O que é comum é a cultura de massas nivelar por baixo a educação estética, vocês, como anjos, irradiariam a excelência que nos pode salvar… Cromaticamente, pelo relâmpago dos figurinos e a elegância que os estilistas emprestam aos modelos, e depois pelo vosso natural… Astrologicamente, porque vocês são estrelas de bons augúrios…
– A ideia é muito boa… – concedeu a loura, entusiasmada – poderíamos falar com alguns estilistas de renome…
– Eu sou amiga pessoal da Victoria Beckhman. Vou telefonar-lhe, tenho a certeza de que vai entusiasmar-se…- reforçou a ruiva.
– Isso, eu falo com a Anabela Baldaque e a Fátima Lopes… – prometeu a outra.
– Tenho a certeza de que com alguns nomes sonantes a CP aderia ao projecto, … Mesmo em época de vírus, algo precisa de salvar a soturnidade em que estas viagens se tornaram… Se quiserem escrevo-vos o projecto e vocês apresentam…
– E como poderíamos agradecer-lhe? – perguntou a ruiva, de olhos brilhantes.
– Isso é simples… – brinquei – se “tatuassem” uns versos meus, no colo, num braço, na perna, no ventre… plantados nalgum lugar visível do vosso corpo, já me sentiria bastante recompensado… Já deram conta da variedade de formatos nos média em que vocês aparecem, que melhor montra para a poesia?
– Outra boa ideia…- espantou-se a loura.
– Sim, cada modelo adoptaria um poeta. Sabem, pode ser essa a salvação da poesia… Vocês gostam de poesia?»
Acordaram-me nesse instante, as duas majestosas mulheres. O meu caderno caíra no chão e uma delas devolvia-mo. Agradeci-lhes. Iam sair em Aveiro e o comboio entrava na gare.
– Desculpe acordá-lo… – disse a loura. Mas agora vai entrar muita gente e temi que o seu caderno fosse pisado…
– Obrigado… – balbuciei, num sorriso tímido.
Teria ressonado? Preocupou-me a imagem com que teriam ficado de mim.
Nada me preparou para esse sonho porque há três meses que essa campanha abrilhanta as viagens nocturnas na CP. A operação revelou-se um sucesso internacional, sendo repetida nos países do núcleo duro da moda internacional. E também a minha ideia de cada modelo adoptar um poeta foi seguida como lei. Com um sucesso de arromba. Cada poeta escolhido passou a vender milhares de livros por edição, num rompante.
Em Portugal foram oito os poetas escolhidos.
E nenhum verso meu aflora a clavícula de qualquer modelo, orvalha um decote, ou torneia a barriga de alguma perna. Até o nome copiaram – e o copyright internacional do projecto pertence às duas modelos portuguesas, mais à Victoria Backhmam a quem com certeza elas ludibriaram dando por sua a ideia.
Há três meses que assisto atarantado ao êxito retumbante, por toda a Europa, da campanha dos Comboios Astrologicamente Vigiados. Tentei chegar a acordo com elas, mas riram-se na minha cara quando lhes assegurei que fora eu quem tivera a ideia e lhes transmitira num sonho. Processá-las num sonho e receber a indeminização na vida real será igualmente possível? Já dois ou três jornais zombaram da minha história, como ridícula.
Há três meses que sempre que ouço, a meio da minha insónia, alguém meter uma chave na ranhura da porta, para me vir assaltar, grito, possesso:
– Entre Irene, a casa é sua!

10 Fev 2022

Plotino e a bibliotecária

Afirma Plotino, preto no branco, que nunca o olho lograria ver o sol se não contivesse, de certo modo, ele mesmo o sol. É um conceito mágico de identificação do sujeito e do objecto, de coincidentia oppositorum. A óptica confirmou este facto.

Mas, antes, a Grécia mitológica registou dois momentos em que, pelo contrário, se tramou um recuo do olhar em relação ao objecto, instaurando, uma disjunção, quer por encapsulamento onírico, quer como vinco naturalista.

O primeiro corte ocorre no episódio em que Hermes, com melífluos acordes de flauta, devolve ao sonho a última pálpebra de Argos. Argos é decapitado em virtude de a música ter produzido um curto-circuito entre a sua vontade (programada para tudo ver) e o desfrute contemplativo a que a melodia o arrastava – que, com notas e harmonias imprevistas, pregueava a suposta lisibilidade do visível. Argos não estava preparado para a abertura ao desejo, ao devaneio, e o seu olhar, enublado pelo apreço às volutas da música, começa a sentir como um estorvo a sua missão… e desata a querer descolar do que «vê» – reconduzidas as suas visões apriorísticas ao sonho.

O segundo caso teve lugar quando Perseu, pelo reflexo no escudo, surpreende Medusa de olhos fechados. Perseu, atónito por não ter sido imediatamente transformado em pedra teve um momento de dúvida e quase embarca no desvelo da promessa de harmonia que as pálpebras cerradas de Medusa desenhavam. Reagiu a tempo e antes que ela abrisse as pálpebras cortou-lhe a cabeça.

A Górgone não acolhia o olhar do outro – sem admitir o contágio, a afectação recíproca, tatuava de uma vez na retina alheia a sua cartografia para a memória. Górgone é o símbolo das imagens cristalizadas num repertório auto-centrado, imune a variações:

«Na face de Górgone opera-se um efeito de desdobramento. O voyeur é arrancado de si mesmo, destituído do seu próprio olhar, investido e como que invadido pelo da figura que o encara; (…) o que a máscara de Górgone nos permite ver, quando exerce sobre nós o seu fascínio, somos nós mesmos no além (…) a verdade do nosso próprio rosto» diz-nos Jean-Pierre Vernant. No além: no núcleo mesmo de uma radical ausência a si mesmo. Apelo da pedra, poder de morte.

Górgone representava a Hollywood do seu tempo, uma máquina de converter paisagens em moldes de produção e em receita.

Nos sonhos da Idade Média cabia ao corpo inteiro ser o próprio olho do Diabo, embora o optimista Pedro Damião acreditasse que em cada um dos cinco sentidos havia uma porta que o decoro e uma vontade férrea para rejeitar os impulsos hedonísticos podiam fechar (tempos infelizes, aqueles). Inúmeros são também os olhos que a mãe de Dante, com susto, atribui ao filho. Segundo um sonho de grávida, relatado por Boccacio, Bella vê o filho metamorfosear-se num pavão real e abrir a cauda com os seus mil olhos.

O Renascimento, ao invés, projecta-se como uma alba compadecida e avulsa, à parte de qualquer diabolização: o corpo devém senhor da imagem e a perspectiva espacial inscreve-se na medida (anatómica) do gesto. A partir daí o olho vê o que o corpo mede.

Essa transparência, na inocência que a neutralidade da perspectiva encena, anuncia o écran cinematográfico.
O século XX abriu uma nova fenda na visão pois começou por tratar a figura pelo excedente que a sua relação com outras figuras introduz. Um corpo isolado passa a ser um perjúrio. Era a reacção da pintura contra os moldes realistas e a imobilidade calcária da fotografia, atraída pelo enlace da narrativa e a inter-relação dos movimentos.

Entretanto, a “arte do raccord” reforçava a suspeita sobre a identidade unívoca das figuras, fazendo prevalecer sobre os gestos o intervalo rítmico entre eles: assim se capturaram, escondidas na ambivalência das imagens, algumas insuspeitas invariantes, uma intencionalidade não declarada.

Um filme de Tarkovski é uma rede que erra em busca do Peixe do Invisível e o tempo mana nele como as turbulências num rio ou as dobras nos panejamentos de Leonardo.

Por outro lado, a publicidade entreteve-se século XX adentro a alternar variações para a máscara de Baubó: um sexo dissimulado de rosto, ou, antes, um rosto reduzido ao gracejo de sexo, sem dar conta de que se ia favorecendo a ferocidade dos animais que se entredevoram e que com isso se aboliam as leis da hospitalidade.

Talvez se prenda aqui a razão para Blanchot nos prevenir de que todos os dias há uma coisa para não ver.
No visionamento de um filme catalão permeado pelo trabalho do luto ocorreu-me esta possibilidade: imaginemos um povo sem palavras, mas cujo olhar ritualístico, intencional, de cada geração por alguns objectos e totens, restitui, com a atenção que os seus progenitores já haviam escrutinado, a temperatura das coisas que permitem o apelo da memória, que o mundo se torne sustentável.

Só a plena vigência do olhar, confirmando o detalhe, a invisível pulsação das nervuras ou da sua geometria, na árvore ou nas pedras, as descongelaria do seu estreme esquecimento.

E, contudo, apesar de avisado, ceguei, logo ao primeiro encontro, nas badanas do labiríntico desejo da bibliotecária de olhos verdes a quem calhou ir perguntar que edições haveria de Plotino e em que línguas; grácil e voluptuosa bibliotecária que, nos meses seguintes, se revelou uma amante de um pródigo desregramento como talvez só da Cleópatro haja registo.

O meu olho está embutido na sua carne como o ar molda as vagas que se sucedem na oceânica pélvis de Deus. Coincidentia oppositorum. A óptica confirmou este facto.

27 Jan 2022

Vamos ao Nimas II

“Don’t look up!”: um produto genuíno e bem calibrado da indústria de que emana, sem merecer nem as paixões que move nem o descaso de tantos. Aliás, talvez mais interessante de analisar seja o debate que provocou e ter-se descoberto que, afinal, sob as pedras da calçada não há a praia mas uma legião de críticos de cinema.
A fita é uma paródia aos filmes-catástrofe a que juntou uma oportuna sátira política à mentalidade e à pauta de comportamento dos neo-liberais.

A narrativa expõe logo as suas premissas, por um lado o seu espartilho e por outro a garantia de que o esquema se cumprirá. Daí a estereotipia das personagens, só existem para ilustrar o tema e não para evoluírem para algum tipo de autonomia orgânica e existencial – simetricamente, as suas diferenças complementam-se e justificam o estado das coisas.

Não podemos deslindar no filme os traços do seu género – a paródia – e a meio do jogo esperarmos que se mudem as regras. Também os géneros são condutivistas. Esperar que este filme nos reservasse surpresas é como supor que um lavagante escorregará à vontade nos intestinos de Bolsonaro, se afinal um simples camarão o obstrui. Há regras aristotélicas que não se compadecem com as mudanças.

A alguma eficácia satírica de “Don’t look up!” depende de tudo ser previsível na sua estrutura, é o que torna aqueles políticos ou aqueles pivots televisivos abjectos – i. é, incapazes de grandeza, de reconhecer que há coisas sérias e fora da dimensão do espectáculo ou de serem susceptíveis à mudança (, já que ser dignos está-lhes vedado: o show off devorou-os, como ao cientista a pivot televisiva). O molde que os conformou é rijo como as carapaças dos caranguejos, que anda para o lado quando quer avançar.

Aquilo que, ainda assim, “Don’t look up!” nos apresenta em modo crítico é-nos servido em “Homem-Aranha – sem volta a casa”, de modo jubilatório.

Os filmes da Marvel estão para o cinema como os placebos para os remédios.

Uma semana depois de ter abandonado a fita aos 40 min, ainda continuo atordoado. Por que há-de ser o prazer néscio?

Escrevi por descarga, no Facebook: «Se visse esta fita com o meu neto mergulharia na culpa infinita de o ter estupidificado, se o visse na cama de hospital desejaria morrer por não haver redenção para este grau -zero em matéria de gosto… Que Deus (que é ateu, como eu) perdoe aos milhões de carrapatos que tornaram este “filme” um mega-sucesso de bilheteira. O que só indica que a frivolidade e a menstruação das múmias congelaram os cérebros. Trump vai voltar, melhor sintoma do que este não há!» – mas a coisa é mais triste.

Bom exemplo de cinema, para traçarmos um contraste, é “O Poder do Cão”, de Jane Campion (o melhor da realizadora em muitos anos). Este western, para além de nos arrebatar pelo modo como nunca se esquece do espaço como dimensão cénica (em vários planos as montanhas ganham a maciez de uma pele de animal), sufoca-nos com a teia psicológica que o carismático vaqueiro arma em redor daquele adolescente irresoluto e de dúbia sexualidade.

Como as aparências nos enganam. Durante uma hora vivemos a angústia do cordeiro que sente a águia a pairar. O espectador é penetrado pela atracção e o conflito entre as personagens, bem enfatizado no choque entre a escala das paisagens e a intimidade do drama. Não há um plano neutro, uma cena neutra, tudo é indício numa escalada natural da emoção e, neste filme, a inteligência finta-nos, surpreende-nos, sidera.

Nos filmes da Marvel já é indiferente a posição da câmara (intenta-se o olhar ubíquo de Deus, no afã de tudo mostrar e de tomar o espectador por idiota) e os seus enredos não oferecem um verdadeiro conflito, um prévio determinismo associado aos poderes dos super-heróis reduz o Mal a papel-bolha. Não há limites físicos para os heróis, a dor, neles, é uma mera questão turística – os obstáculos atrasam apenas a rendição do Destino à eficácia dos seus poderes.

Ora, justamente, como na tragédia grega, o cinema vive do conflito entre a irrevogabilidade do Fado e a vontade das personagens, sendo aquele um obstáculo a que nem os deuses escapam. Hollywood inventou os finais felizes, mas não raro as mais magníficas personagens derrapavam num sentimento da perda, só lhes sobrando a dignidade, uma redenção nada isenta de sacrifício.

Há pouco assisti com deleite e susto a um vídeo onde o Tarantino enumerava os 20 melhores filmes deste século, na sua perspectiva. Vi depois o filme japonês que ele elege inequivocamente como a obra-prima do século, “Battle Royale”, e conclui, o Tarantino percebeu que na América ganha mais se der sinais de não ter crescido e exalta filmes muito imbecis para que se realce que ele é melhor cineasta que os seus modelos. É uma boa estratégia.

Já nem se procura que a técnica sirva adequadamente o ethos da história e a tessitura emocional das personagens. O marketing e a pirotecnia tecnológica abafam tudo. São grandes espectáculos mas são derivados do cinema, tal como o néon tem a forma da salsicha sem lhe atingir o sabor. Se senti um desequilíbrio em quase todos os últimos filmes de Scorsese, tão virtuosos tecnicamente como vazios na espessura e no interesse humano dos personagens (e estou a falar de um dos melhores), como encarar esta vaga de fitas da Marvel?

É um equívoco procurar aqui uma correspondência da “arte pela arte” que, noutras disciplinas artísticas, desencadeou algum amaneiramento estilístico. O Tarantino, com a eleição de “Battle Royale” pôs as cartas na mesa. As indústrias culturais já não servem a arte – a memória desta é um escolho e por isso apostam agora todos os seus trunfos na fraude.

Entretanto, já pensaram, o mesmo argumentista que deu aos primeiros filmes de Scorsese um carácter especial, uma profunda densidade humana, é o cineasta da “moda” nos últimos anos – Paul Schrader?

14 Jan 2022

A Lição do Diabo

«A musica, o luar e os sonhos são as minhas armas magicas. Mas por musica não deve entender-se só aquella que se toca, se não também aquella que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve suppor que se falla só do que vem da lua e faz as arvores grandes perfis; ha outro luar, que o mesmo sol não exclue, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturaes e nossos.
– Mas, se o mundo é acção, como é que o sonho faz parte do mundo?
– É que o sonho, minha senhora, é uma acção que se tornou idéa, e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a materia, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho?».
Eis o que disse o Diabo à desprevenida Mãe em A Hora do Diabo, de Fernando Pessoa.
Fico semanas a matutar na natureza dos sonhos em Pessoa – ‘só os sonhos são sempre o que são’ parece-me uma hipótese acabrunhante -, até que, ao navegar na Net, na leitura avulsa de uma longa entrevista com Jean Borella, vejo explícito o que me parecia útil traduzir nestas formulações do Diabo:
« …numa aula, ao ouvir uma explicação sobre a chôra do Timeu – termo que designa a substância protoplásmica universal, esse “quid” de que todas as coisas são feitas, o ‘receptáculo cósmico’ – compreendi então, tanto quanto é possível, o mistério a que a Índía chama Prakriti – princípio cosmológico análogo à matéria prima – , e, por extensão, o mistério metafísico da divina Mâyâ. Esta intuição livrou-me do encadeamento dos conceitos porque me colocou face a face com um ‘pensamento pensante’ que supera largamente a experiência do ’pensamento pensado’. Porque os conceitos transportam-nos aos objectos, cristalizam neles. Mas a chôra, a matéria-prima, não é um objecto determinado (- advertindo de antemão que esta matéria não se assemelha ao puro nada). Ela é, independente do modo, a condição de possibilidade de todo o objecto, o receptáculo onde se podem moldar/ aparecer todos os objectos, a matriz universal pela qual todos os seres podem ser concebidos. Ao intuir isto, por abandono das coagulações conceptuais e da ordem necessária que as encadeia uma nas outras, descobri o pensamento como actividade pensante. Sem dúvida que, a partir daí, como todo o homem, estava condicionado a continuar a pensar por conceitos, mas percebia gratamente um espaço supra-conceptual onde a inteligência podia verdadeiramente respirar: do mesmo modo que um homem para caminhar tem necessidade das suas pernas mas a quem só o olhar mergulha na luz inteligível.»
Recordemos agora como o Diabo detalhou a coisa: «O sonho é uma acção que se tornou idéa, e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a materia, que é o estar no espaço», e demos por certo que, depois de uma breve soneca em Pessoa, o Diabo espertou nas páginas de A Gravidade e a Graça, onde Simone Weil, lhe ouviu o ditado e redigiu:
«Participamos da criação do mundo decriando-nos a nós mesmos (tendo Weil, na página anterior definido deste modo o acto de decriação:«transformar o criado no incriado»)». A decriação opera a reviravolta, a inversão das hierarquias e a re-conversão do espaço em tempo, do agido em emoção, da semente em ascensão, da categoria em devir: e assim se converte em acção a ideia.
E como é que o sonho conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria?
Aqui a lição teremos de ir buscá-la ao Oriente. Os chineses, como os hindus e os japoneses, postulam a existência de uma energia constituinte de tudo o que existe no mundo físico. Os hindus chamam-lhe kundalini ou prana, os japoneses ki, os chineses chi. É uma vibração emanada por todas as coisas e seres mas não é algo que se represente e para a captar há que penetrar para lá dos aspectos superficiais e ser-se, por sua vez, possuído por esse ritmo vital do espírito. Não há observação do fenómeno exterior à implicação do observador.
Também os andaluzes têm um nome para esta energia, chamam duende a esse ritmo vital do espírito.
Já o escrevi, às vezes, a dar aulas, quando engreno, sinto o duende. Que um fio discursivo se solta e se conduz a si mesmo, usando-me como veículo de um fluxo discursivo que ultrapassa em muito os meus limites expressivos.
Para o Oriente não existem seres ou situações claramente delimitáveis, mas sim um processo de convergências e jogos de forças que vão variando de intensidade e cujas interacções potenciam a mutação de todas as coisas, sejam seres ou situações.
É essa tensão, metamórfica, de uma energia em processo (o mundo composto de mudança de Héraclito e Camões) que conserva a força do mundo enquanto lhe repudia a matéria, a identidade pré-determinada e cristalizada em objecto.
É esta a lição do Diabo, em Pessoa.

30 Dez 2021

Vamos ao Nimas?

Só hoje, pela quinta vez em que vejo “A intriga internacional”, de Hitchcock – desta para o dar a conhecer às minhas filhas mais novas – é que dou conta do que me fora ocultado, até aqui. E pasmo. Pasmo do que não conseguia ver.

A dado momento de tão intrincada intriga, Roger Thornhill (Cary Grant) chega à inesquecível casa de Vandamn/James Mason, no topo do Monte Rushmore, vivenda que se desenvolve sobre o abismo (evocando a Casa Sobre a Cascata de Frank Lloyd Wright) e que se encaixa perfeitamente no cenário, com suas linhas horizontais nítidas (até parece embutida na pedra) e os vários cantiléveres. Também o interior, veremos depois, apresenta muitos elementos naturais, incluindo madeira e calcário.

Esta casa foi construída inteiramente nos palcos da MGM em Culver City. Os interiores foram construídos como sets de filmagem em escala real. Alguns dos exteriores foram igualmente montados no plateau como as vigas de aço apoiando o cantiléver, um elemento que não teria sido usado por Wright mas necessário para fornecer a Cary Grant uma forma de escalar fisicamente o exterior da estrutura.

Todas as cenas ocorreram ao fim de dia noite, para que os efeitos ficassem mais realistas.

O que nunca havia conseguido ver e que agora se me enfiou à primeira olhos dentro, como um argueiro que incomoda e não sai, é que a casa de Vandemn mais não é que a representação estilizada do Dragão, os cantiléveres são a maxila do monstro, e toda a cena afinal evoca a acção de S. Jorge, que também se meteu no insensato duelo com a criatura demoníaca para salvar uma pobre rapariga, a filha do rei da Líbia. Neste caso trata-se de salvar Eve Kendall/ Eva Marie Saint, a sensualíssima e misteriosa espia que só nesta cena se comprovará que não tem uma língua bífida (como os lagartos e dragões) e estar do lado de Thornhil, um filho de sua mãe América.

Em concomitância, as irregularidades da pedra nas paredes do exterior da casa, por onde Thornhil trepa, figuram as escamas do dragão, e toda a sequência adquire uma cândida, mas resoluta leitura política. Toda a aventura neste thriller, não nos podemos esquecer, evoca a Guerra Fria e o filme (lua de mel no comboio à parte) praticamente termina com Cary Grant pendurado no nariz da figura de George Washington, nesse encaixe simbólico que é o Monte Rushmore. Lembremos, a vitória de São Jorge sobre o dragão metaforizava a vitória sobre as hostes islâmicas na época das Cruzadas, e neste caso temos de um lado uma mitologia arcaica e telúrica (o dragão do comunismo) contra a benigna racionalidade de quem molda as energias selvagens da natureza num talhe antropomórfico, regulado. E eis Eve, que desde a primeira cena se comportou sempre como uma verdadeira Lilith, convertida ao “humanismo”: domada e adestrada para a lida da casa, como senhora Thornhill.

Desta vez, não precisando mais de estar atento à história, não fui transportado pelo transe da acção e vi o que lá estava. E o engenho do filme está em ser simultaneamente um filme de acção e uma “séria” alegoria política.

Vi também o que não gostava de ter visto em “The Thomas Crow Affair”, de Norman Jewinson, o original, de 1968. Não o revia desde que fora fascinado em miúdo (devo ter visto o filme com doze, treze anos) pelo modo de recrutamento para o assalto, com os faróis no apartamento a encadearem quem responde ao anúncio e impedindo assim que o cérebro do golpe seja identificado. A inteligência do processo fascinara-me (na minha memória durava imensos minutos, quando na realidade a cena é breve) a tal ponto que não me recordava da cena do jogo de xadrez entre Thomas Crow/Steve Mcqueen e Vicky/ Faye Dunaway, e que é verdadeiramente a cena antológica do filme.

O que hoje se retém do filme é menos a inteligência com que o crime (o assalto ao banco) é cometido como a inteligência prenhe de erotismo da investigadora dos seguros, Vicki Anderson. Personagem que aliás tem o mesmo desplante de Eve Kendall, a mesma abrupta honestidade que faz do jogo da verdade um trunfo sensual e uma idêntica vocação para desfrutar, apesar de todos os riscos, da promessa do sexo. Duas Liliths.

Revendo agora o filme, não me lembro de outro com a Faye Dunaway em que funcione tão bem a química entre as personagens e de alguma vez a ter achado tão atraente. E onde há bela vem o senão.

Na cena do jogo de xadrez, excelente na arquitectura da decoupage, há um contraste desconcertante entre os grandes planos de rosto dela (de um desenho e delicadeza ímpares) e os grandes planos das mãos, que movem as peças e vão revelando em vários meneios inadvertidos a geometria do desejo que se instala. Porquê? Não pela natureza dos gestos, que rimam com a situação, mas por causa de um adorno que marcará talvez uma época mas que quando o vemos fora do seu tempo devém vulgar e contrastante com o resto da figura. Falo das unhas postiças de Vicki, que de repente é uma deusa com adereços de manicure comprados no Centro Comercial da Mouraria. O que faz com que não bata a bota com a perdigota, a sofisticação do resto torna imperdoável a vulgaridade. No sugestivo plano em que Vicki “masturba” o bispo, aquelas unhas são cascos grosseiros e adivinha-se ali uma circuncisão sem anestesia em vez do deleite prometido. E nos pormenores está Deus e a Arte.
Quanto a Faye Dunaway, minha Nossa Senhora – que pena eu ser ateu.

9 Dez 2021

A poesia e a sageza

A imprevisível Hilda Hilst, que depois de escrever cinco extraordinários livros de prosa que ninguém lia se entreteve durante anos a tentar gravar (literalmente) as vozes dos mortos, declarou assim nesse bendito livro de entrevistas que se intitula Fico Besta Quando me Entendem:

«Minha relação com Deus é uma relação muito especial; fica muito difícil de explicar isso. Considero a literatura uma coisa essencial e acho que, se ela não é essencial, não deve ser manifestada. Mas isto de “Deus”, como costumam chamar, não sei. Eu chamo Deus de tantos nomes: Obscuro, Grande Obscuro, Sorvete Almiscarado… Cada um dá um nome ao seu Deus. Existem algumas coisas que o seu ser essencial deseja, mas que, na verdade, na vida física, cotidiana, não deseja. Um exemplo disso é o primeiro poema do meu livro Sobre a tua grande face. É um desejo do meu eu mais profundo, mas, na verdade, não desejo isso, aliás prefiro que nunca aconteça isso. A minha parte mais verdadeira, essa parte melhor de mim é que deseja. Esse primeiro poema é de despojamento absoluto, onde digo: “Honra-me com teus nadas. / Traduz meu passo / De maneira que eu nunca me compreenda… “.

“Honra-me com teus nadas…” Estou lendo, para vocês, para verem como existe uma diferença entre o que você realmente quer e o que o seu espírito mais profundo deseja. E, na vida, o que você pode viver, no seu cotidiano, pode não ter nada a ver com essa verdade mais profunda. Aqui, eu me coloco como um ser humano.
Noutro poema escrevi: “E de ti, Sem Nome,/ Não desejo alívio./ Apenas estreitez e fardo./ Talvez assim me ames:/ desnudo até o osso/ Igual a um morto”.

Isso é meu espírito, em que acredito. Acredito na alma imortal. O meu espírito mais profundo deseja isso, mas, na realidade, na minha verdade de todo dia, eu não desejo a pobreza, nem a fealdade, nem o medo. Aliás tenho horror da pobreza, tenho um pânico medonho. O meu ser-verdade é que tem vontade disso tudo. Essa outra e esses outros que nós somos no dia a dia são máscaras que a gente coloca o tempo todo. Talvez o desejo da santidade seja uma nostalgia do homem. A maior vontade do homem, talvez, seja a santidade, a bondade absoluta, a generosidade, a perfeição, uma luz muito perfeita. Um dia, em algum lugar, nós conhecemos essa luz. Acho que toda a nossa vida, aqui, parece ser a busca dessa luz que não conseguimos reaver. É isso. Mas acho que o tom está se tornando muito sério. Eu preferia que fosse mais leve, porque ninguém vai ficar meu amigo, assim. Gostaria que se desse uma abertura para o que vocês quisessem perguntar, mas nada de tão grave. Acho que isso é bom para quando se escreve.»

O que me faz lembrar, a seguinte entrada do meu diário:

«Escrevi este poema: “Tapar todos os buracos de uma vida/ Pode custar-nos a vida/ E desligar-nos dos breves lampejos/ De silêncio em que sob a laje a erva se empolga./ Voltar atrás, fazer entalhes/ No remo ao invés de o meter na água,/ Torna inúteis as sementes de cravinho/ Enfiadas pela criança na fechadura da porta do castelo”.

Escrevi este poema, ou pelo menos esta pronunciação em forma de verso e hesito no modo de avaliá-lo. Julgo que esta minha hesitação resume todas as minhas dúvidas sobre a sageza. Adoro os sages, leio-os, cito-os, trago-os no bolso, não vivo sem eles. Mas desejo profundamente estar aquém ou além, não na sageza.

A sageza é muitas vezes apenas a forma redonda de acomodar o mundo num espaço de concordâncias e analogias que o tornam mais confortável. Aí a sageza funciona como uma espécie de plaina sobre as farpas e irregularidades da madeira – dá-nos uma âncora no meio do ciclone. Ora, julgo que as âncoras só na água não são decoração, o que lhes acontece no ar, ou na terra, por exemplo.

Dito isto, desconfio que a sageza tenda a fazer da parte apostasia, evadindo-se então de frequentar as partes fronteiriças que o real sempre detona e revela. Há um excesso de sentido na sageza, como se houvesse mais acessos do que limites.

Este poema por exemplo é redondo. Chegar a esta “sageza” – passe a soma de ignorâncias que tal supõe – levou anos, muitos.

O que lhe é que lhe falta, para além da eventual carência de expressão poética? A exterioridade do mundo, o curto-circuito, uma ventania que abra um poro e escancare uma vista para algo maior – enigmático, inapreensível à minha auto-complacência.

Os orientais preveniam contra isto. Lembravam que todo o itinerário de Buda era irreproduzível e imitar-lhe a santidade só traria consigo o risco da idolatria. Cada um está condenado a desenhar a sua própria cartografia e um entrelaçamento próprio num padrão cujo objectivo não é repetir-se mas desenvolver-se. É pura perda de tempo imitar seja o que for, seja o Herberto, seja um patamar mínimo de competência que nos permita exigir uma resposta ou uma certa visão das coisas que nos distinga. Quando chegamos aqui atravessamos como um alfinete o tecido da sageza mas o fito é romper e não sossegar nesse pequeno furo/ âmbito que nos serve momentaneamente de patamar.

Talvez por isso Mircea Eliade, nos seus diários, quis contar como foi surpreendido por Alan Watts, na visita que este lhe fez a casa e que face à oferta de um chá lhe terá respondido que preferia um bagaço, se acaso houvesse.

O sage trocava-lhe as voltas, expunha a face de um homem chão, lembrava ao historiador das religiões que o corpo é para gastar e não para ser poupado.”

25 Nov 2021

Efeitos de vida

01/11/21

Estou imensamente agradecido por o Super-Homem ter mudado a sua orientação sexual. Ele era um entrave na minha até aqui estoica paixonite por Lois Lane, a intrépida repórter que achava o Clark Kent um banana – isto na Terra 1, antes de inventarem uma Terra 2 na série televisiva e de os terem casado só para minar a minha confiança numa hipotética abordagem. Outras hipóteses se abrem agora. E esta viragem só corrobora o que sempre pensara: que ele não era homem suficiente para ela. Já aumentei a carga horária no Pilates.

02/11/22

Leio no “Livro do Desassossego”: «Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios em todo o Estado: “Você é explorado, Soares.” Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos de ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível. Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.»

Faltou a Karl Marx este entendimento das entrelinhas entre os humanos para perceber que a exploração do homem não é de facto só económica mas se alarga ao espectro mais amplo da antropologia e do comportamento interpessoal. Com mais este instrumento de análise, talvez as revoluções falhassem melhor, ou deixassem menos sequelas. Entregar tudo na crença acéfala da neutralidade das “estruturas”, sem regras que considerem a provável pequenez do homem que as instrumentaliza foi o erro da esquerda desde sempre. Neste item valia a pena fazer uso de algumas análises de René Girard (que explica como a imitação e a inveja comandam as relações humanas), mas como este se converteu ao cristianismo, canhestramente, oblitera-se.

03/11/22

Mais adiante, escreve Bernardo Soares: «A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.», e fico abismado, porque aqui Pessoa mais não diz do que aquilo que Marc-Mathieu Münch defende ferverosamente desde 1991, isto é com setenta anos de atraso.

Este professor de literatura comparada cujas ideias eu descobri por grosso num livro sobre Estética redigido por um homem de 96 anos, Edgar Morin, defende, contra o relativismo que lançou no pântano a possibilidade de qualquer juízo estético ou literário, que existem «invariantes planetárias» que nos permitem estabelecer alguns «corolários», seis, na verdade, e que esta base legitima retomar a questão fundamental da natureza da arte literária.

Dos seis corolários, sobressai «o efeito de vida», fulguração que está presente no seio das obras mais profícuas, aquelas que, como diria o poeta Robert Juarroz «ampliam as escalas do real». Resgatar pela arte o real do seu confinamento e sensibilizar-lhe novas estrias, de modo a que “os campos sejam mais verdes” e o perfume das flores mais extenso é forcejar no caminho que leva o homem a ser mais consciente de que não passa de um “morto transfronteiriço”, sendo o seu dever despertar os sentidos e a realidade que eles semeiam.  Aliás, na esteira de Susan Sontag, que em “Contra a Interpretação” assim se pronunciava: «Rilke descreveu o artista como aquele que trabalha “para uma ampliação das regiões dos sentidos individuais”; McLuhan chama os artistas de “especialistas em consciência sensorial”. E as obras de arte contemporânea mais interessantes (pode-se começar pelo menos desde a poesia simbolista francesa) são aventuras entre as sensações, novas “misturas sensoriais” (…) O importante agora é recuperar os nossos sentidos. Precisamos aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais.»

04/11/21

Explicava Eliot, “quando a mente do poeta está perfeitamente equipada para o seu trabalho, está constantemente amalgamando experiências díspares”, as quais formam novas totalidades. A estas afluem todos os recursos e não apenas uns ou outros — oponhamo-nos a todas as modalidades redutoras. Não há poemas simples.

Mas este conflito emerge periodicamente, com vários nomes, no território da poesia, reacendendo uma guerra antiga: a que se trava entre a memória e a imaginação, i.é, entre o velho e o novo, como se não pudessem e devessem conviver.

Sempre achei um mistério esta interdição de um trânsito nas duas direcções, na medida em que uma sem a outra propendem a coagular. Nem a inteligência que as imbrica e as torna operatórias consegue actuar sem recorrer a uma e a outra à vez, ou simultaneamente, pois a memória inclusive só se actualiza pela recriação. E nesta há uma parcela de imaginação.

05/11/21

A arrumar materiais para compor um livro redescubro este brinquinho:

«PHODER LEVA EM SI MESMO A CONSOANTE MUDA QUE BATE AS CLARAS EM CASTELO!»

Um slogan que escrevi contra o Acordo Ortográfico.

Não percebo porque nunca fui convidado por nenhuma agência publicitária, alguma mazela terei…

11 Nov 2021

Penélope: Crónica de um encontro

Creio que inventámos o amor para que Deus não se suicide. Não te importas que tudo isto seja ao contrário? Acredita, o que perdemos melhora-nos. Sim, é uma espécie de felicidade para náufragos. Hei-de ser capaz de explicar-te. Espera, tenho de me desconectar, preciso de ir à farmácia comprar um remédio para as miúdas, ligo-te mais logo.

Perguntavas, Como é que se agarra a primeira frase, numa narrativa? É ela quem nos bica duma vez só, como o pombo ao grão-de-bico, ou o gavião que faz um looping sobre a pequena lebre para a arrebatar num ápice, respondo-te, e olho-te as mãos.

Sondo nelas uma réstia de sombra, a mais miniatural, das minhas. Quantas vezes as tuas mãos seguraram as minhas no cinema?

Não se esquece o beijo que foi pasto de chamas na última fila da plateia do Incrível Almadense, um desses beijos que o Doisneau prontamente imitaria, numa urgência de fim-do-mundo. Porém, na verdade, nunca nos faltou lugar e ocasião para namorarmos e, por isso, era-nos mais comum, mais do que com os nossos amigos, seguir as fitas até ao fim e embrenharmo-nos nelas e no sentido que tivessem, num entreolhado cúmplice, sem que a cadela do desejo desencaminhasse da retina as bobinas.

Lembro-me, isso sim, em sendo a fita pavorosa, de te tocar, no escuro, a tua camisola de lã, larga e comprida escondendo a incursão no vértice desapertado das tuas calças; aí desencadeávamos uma nova montagem para o tempo. Tínhamos dezassete, dezoito anos, e lá fora o mundo mudava, tanto que eu queria ser escritor e tu psicóloga.
Decerto que milhentas vezes as tuas mãos desaprenderam as minhas, essas mãos com que tacteias agora no teu ventre a cicatriz da cesariana de um filho que não é meu.

Sobressalto – assalta-me aquele filho que nós não tivemos, desmanchado por enfermeira especializada. Está em que grampo, na tua cicatriz? Nunca lhe demos nome, mas, sei, chamar-se-ia David.

Como é que se agarra a primeira frase de uma narrativa, insistes. Digo, quando algo se põe em movimento a partir de um lugar que não é o do reconhecimento.

Interrompe-nos o velho Meireles, O meu amigo, vai desejar outro jarrinho? Anuo, De um quarto de litro… Observas, antes mesmo do jarro de vinho ter chegado, A Mena ia-me dando conta dos teus filhos, olha nasceu mais um… Cinco, sorris… Pressinto os comentários sobre a minha leviandade: Do que te livraste, ironizo.

Sirvo os copos. Seria o tempo para lastimar, Nós não chegámos ao primeiro, não tivemos a coragem e resolvemos o assunto, no mesmo despacho com que na época nos críamos imunes ao tempo, ao destrambelho da morte… Limito-me a declarar, Talvez não chegue, o jarrinho… Fixo-te, deve incomodar-te que o meu olhar te perfure, quero perguntar-te, Alguma vez pensaste naquele filho que não nasceu, mas calo. Ao fim de trinta anos, teremos de reconquistar a espontaneidade. O que teria mudado das nossas vidas se o tivéssemos deixado nascer? Seria eu escritor e tu uma pintora brutalista que derrama vida pelas telas?

E um quotidiano em comum, as rotinas que ensurdecem o mundo, compensaria este momento de nos reencontrarmos trinta anos depois, pudicamente, com a minha emoção fixa nos seus olhos, que se dão e fogem?

Compreendo, avalia ainda o que pode partilhar, quem serei, três décadas depois. E eu, sugado por uma aleatória esquina do tempo para um sentimento que julgava desalojado, quem te fui?

Disse-te, na rua Cândido dos Reis, se vieres comigo cinco minutos a minha casa dou-te o meu último romance. E tu aceitaste.

Tomámos chá, eu olhando as mãos dela pela primeira vez, desde há trinta anos. Não me ocorria mais nada senão aquele trecho de Cortázar: «Põe a mão em cima da mão de Michèle. Michèle põe a mão em cima da de Pierre. Pierre põe a outra mão em cima da de Michèle. Michèle tira a mão de baixo da dele e põe-na em cima. Pierre tira a mão debaixo da dela e põe-na em cima. Michèle tira a mão de baixo e apoia a palma contra o nariz de Pierre.»

Ou talvez fosse mais acertado dizer: face a mim estavam as mãos de Penélope, a que tece e desfaz as tapeçarias. Isto, se as mãos dela não enxotassem quaisquer insatisfatórias semelhanças.

28 Out 2021

Uma dispersão do diabo

Eis-me numa dispersão do diabo, igual à da senhora australiana que, como foi noticiado esta semana, descobriu já tarde que tinha duas vaginas, quando, num assomo de curiosidade, perguntou à mãe (que pelos vistos nunca lhe mudara a fralda) se costumava meter primeiro o tampão na da esquerda ou na direita. Há vidas santas!

Excertos de três livros em curso:

Excerto 1
A minha vida? Feita de restos, de ingratos desencontros. Entra aquela mulher atraente no café, dá-me a espertina e ponho os óculos: é o casamento feliz de Joni Mitchell e da Suzanne Vega. Tirando a dentuça.
Paira, nesse esplendor condoído da metade dos quarenta.
Que pena não ter nove vidas como o meu gato Sebastião (faz hoje anos) para poder cantar com ela o Blue e o Luka.
Ainda teríamos filhos, dois, e numa visita ao Etna, falar-lhe ia de Empédocles, com cuidado, pra não tropeçar em arbusto incandescente.
(Mete-se a minha mulher, E eu, também não vivo de restos, não tenho os mais vivazes desencontros? Já não estamos sós nem na escrita! Tranquilizo-a: tens sim, meu amor, por isso não cometo o risco que te defraudaria: Viste, acabei de cair no Etna!).
Não te esqueceste dos bróculos, pergunta-me da cozinha (- mudei de parágrafo e de geografia!).
A Jade canta A Pedra Filosofal, a Luna ensaia pela nonagésima vez o Dangerously, de Charlie Puth (quem é?) eu faço o print de duas antologias de Emily Dickinson, roubadas ao amorfo manto da net.
“Tão fugitivo como o poente na neve”, diz a poeta. Fala da mente, digo eu: nenhum de nós tem razão. Para quê dar nome àquela bela miragem?
Na varanda, os jacarandás despem já o seu enxoval. Onde se meteu o noivo?

Excerto 2
De todos os livros sugeridos pelo bibliotecário, o único cujo tema me interessou logo e de que já tinha ouvido falar era o Moby Dick. Por um daqueles acasos felizes com que a vida nos trama, numa tarde de cata-caracol no Camponesa do Alva, assistira a uma conversa em que o primo açoriano de alguém, de visita ao bairro, enquanto chupava os gastrópodes, se entretivera a fascinar a plateia com um assunto absolutamente inesperado: a degola do cachalote.
A sua narrativa, brutal, foi tão arrebatadora que o dono do café, no fim, ofereceu à mesa uma travessa de amêijoas, pois, repetia, naquele dia “tinha-se fartado de aprender”. E como remate da conversa o primo açoriano recomendara a leitura do Moby Dick: “É um livro que sabe mais de baleias que a Bíblia sabe de anjos”.
Ainda hoje me pergunto o que me teria fascinado em Moby Dick, um livro de uma densidade excessiva para a capacidade de absorção de um rapazola de onze anos. Já não falo do vocabulário, que tiraria eu das «enxárcias lassas do sobrejoanete de proa», ou que poderia deduzir ao ler que «dos assuntos úberes medram os capítulos»? Ter-me-iam atraído os vários afluentes de curso fantástico que o Melville vai largando como quem não quer a coisa, ao jeito de ganchos narrativos: «Dizem que os pais de New Bedford oferecem às filhas baleias como dotes», «em Nantucket as pessoas plantam cogumelos diante das casas para conseguirem um pouco de sombra de Verão», «Hossea Hussea mandara encadernar os seus livros de contas com pele de tubarão de superior qualidade», «a alma é uma espécie de quinta roda numa carroça», «aquela mãe egípcia que deu à luz filhas já grávidas à nascença»? Seria da lenda que Melville relata sobre um lago da Serra da Estrela onde apareceriam misteriosamente carcaças de velhos baleeiros? Seria de ter intuído a absoluta precisão vocabular de Melville: «Foi portanto numa noite silenciosa que se avistou um jacto prateado», «empoleirado a desoras no alto do mastro», ou, como se lê num dito do Capitão Ahab: «foi Moby Dick que me desarvorou»?
Tudo isso mais o contraste deste genial romance de inabalável pulsação digressiva com as narrativas correctas, antisépticas e arrumadinhas de hoje. Hoje, na maioria dos livros, está tudo certo, o que lhes falta é a vertigem. A vertigem que nos assalta à leitura das primeiras páginas de Trópico de Capricórnio, a vertigem em que nos submerge o narrador quântico de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou a que nos imprime a loucura descabelada de A Música do Acaso, de A Noite e o Riso, de Partes de África ou a que é patente em muitos momentos de Manuel da Silva Ramos; esta sensação de torvelinho que transmite Melville e o absoluto domínio com que apesar do caos que pletoricamente parece invadir tudo nos tatua com uma impressão de irrefutável unidade.

Excerto 3
A arte é um reino da poligamia ou um estado do polígono? Continuo indeciso. Há lugar para a indecisão na mise en âbime? Nos sonhos sou visitado pela imagem de um homem que envelhece, sentado à janela do comboio. Furta-se a descer nas estações e apeadeiros, a ir lá para fora, como a mosca que se embriaga com os capitosos vapores da sopa mas receia cair na panela, o ruído fragoroso de cada cicatriz. Envelhece na janela do comboio, pois foi seu destino vaguear, como outros viveram indefinidamente em hotéis a ele coube-lhe a velocidade dos cometas, entre carris.
Uma noite, eram três da manhã e escrevia um artigo que me tinham encomendado, senti que metiam uma chave na ranhura de minha porta. Eh! – gritei. Fez-se silêncio. Seguido por uma corrida de retirada, célere como o fósforo que aprende a arder. Quem tem uma chave de minha casa e se apresta a visitar-me, sem avisar, às três da manhã, com intenções enviesadas? Esta noite não voltará. E amanhã terei de trocar a fechadura, pensei.
Mas não troquei. Para me sentir seguro, apanhei o comboio. O primeiro comboio da manhã para o Porto.

21 Out 2021

Desabafos do cantineiro

11/10/2021

 

Não é o melhor da Uma Thurman, os pés. Num deles ameaça o joanete e as unhas, “piquininas”, mate, velejam a custo num mar de carne, despontam ridículas como os narizes redondos dos anões da Branca de Neve recortados contra aqueles gorros inomináveis. A elegância do corpo, do rosto, daquele olhar malicioso como o gume de um sabre, tropeçam-lhe naqueles trambolhos – que custava ao Tarantino ter-lhe arranjado um duplo para aquele plano de “Kill Bill”, penso.

Contudo, aquilo que vejo na tela não é o Tarantino, mas “Nhanguitimo”, de Licínio de Azevedo, o último filme do cineasta moçambicano, onde ele adapta um conto de Luís Bernardo Howana e eu faço mais do que uma perninha, dado ser um dos dois protagonistas. É isso, faço de mau da fita.

É a vigésima vez que vejo o filme, nesta apresentação pública para algumas entidades oficiais (como a ministra da cultura e o presidente da república, os patrocinadores, e algumas figuras), em que em solidariedade com o realizador tive de cumprir agenda pública. Eu é que já não suporto ver-me e já só vejo os defeitos. E zás, introduz-se-me num insert, os joanetes de Uma Thurman, com que adormecera de véspera.

De qualquer maneira, os ecos do filme na imprensa moçambicana extirpam qualquer hipótese de cultivar um grama de narcisismo: procurando na net fotos do filme para ilustrar estar crónica, constato que os jornalistas só deram realce à presença do presidente Nyusi na sessão, nem uma só imagem do filme. Critérios.
E afinal como é a cereja?

É uma curta de vinte e cinco minutos destinada a fazer uma bela carreira nos festivais de cinema; um daqueles exemplos felizes de um magote de boa gente que se junta para remar tudo para o mesmo lado. Costumo dizer a brincar que só não ganho o Óscar de melhor actor porque o meu antagonista me papa as cenas todas, e é verdade, o Antonio Sitoe veste de uma forma superlativa a pele do “indígena” a quem o cantineiro Rodrigues (moi) tem de lixar (para lhe ficar com as terras de cultivo). No filme ganho eu mas na vida real faz-se justiça. Eu não vou mal como colonialista façanhudo (aliás, aproveitei as autoridades presentes na sessão para pedir uma “escolta vitalícia” assim que o filme passar nas televisões moçambicanas), e sou um convincente salazarista de uma ambição sem escrúpulos, mas o puto, que protagoniza já a revolta que incendiará a colónia poucos anos depois, come-me as papas na barriga.

E surpreenderá a câmara exímia (tanto nos enquadramentos como na luminotecnia, num preto e branco “agarrado”) do “Pipas” Forjaz e a música do João Carlos Schwalbach. Assim como o bom ritmo da edição. O resultado final é gratificante.

Aprendi bastante, sobretudo que o “overacting” só fica bem ao Gene Hackman.
Pessoalmente, acabrunha ver o cabelo que perdi com a covid (a rodagem do filme teve lugar duas semanas antes de ter sido contagiado). Face a isso até os joanetes da Uma Thurman são desculpáveis.

12/10/2021

Uma livraria perto de casa anda a fazer saldos com o que definitivamente não vendeu ao cabo de vinte anos e que já só atravancava o armazém. Numa semana comprei o volume onde se reuniu toda a obra édita do Raul de Carvalho por três euros, igual preço que paguei pela obra compilada do M.S. Lourenço, o livro do Viriato Teles sobre o José Afonso, por um euro e vinte, todas “As Tisanas”, da Ana Harteley, e o “Do Extermínio”, do Jaime Rocha, por idêntico dispêndio, o “Terra Nostra”, do João Miguel Fernandes Jorge, por oitenta centavos, dois volumes da Irene Lisboa por um euro e vinte, um volume de ensaios de homenagem ao Virgílio Ferreira, por dois euros… e continuarei atento às novidades que se forem depositando naquela mesa de refugo. Eis-me muito egoisticamente grato a que só eu saiba quem é aquela gente e a mais que sobre aquele tampo pingar.

Quarenta anos depois da independência a literatura portuguesa em Moçambique é um fantasma sem tripas nem leitores.

13/10/2021

Esperam que os clientes chamem. Mas vão afeiçoando o corpo, os quadris, os joelhos, o balanço dos pés, ao jeito da música. Não é ensaiado nem instruído, são apenas incapazes de não o fazerem. Os colegas homens, procuram ser mais sóbrios, mas o movimento do queixo sob a máscara denuncia-os: acompanham o ritmo da batida.

Vê-los em perspectiva, nesta ampla cervejaria de Maputo, é engraçado e contrasta com a pose hirta dos empregados de mesa das cervejarias da minha memória, a norte, que tinham a postura de pinguins petrificados e saudosos de que o frio os obrigasse a mexer.

Eu degusto lentamente a cerveja e folheio, pela décima vez na semana, um livro de João Pedro Grabato Dias; incubo para o prefácio da antologia dele que terei de escrever e que sairá em Lisboa até ao fim do ano, numa iniciativa do Pedro Mexia e da “Tinta da China”.

Um cheirinho: «Chegámos. / O meu morto é o primeiro do dia/ e é bonito isto de ser o primeiro em qualquer coisa/ algo que tanta gente pode verificar num balancear aprovador/ de perfis quási dignos, quási belos. / Passa mais fresca uma aragem de estádio/ um não sei quê de desportivo de goal de meta/ sem o cronómetro da metafísica, de pódio olímpico/ de alegres cem metros planos, de veloz velocipédico estrelato/ o da frente, o primeiro, o ás, o melhor o maior/ o maior morto do dia, o maior morto da semana/ o maior do mês, do ano, do biénio, do triénio/ do lustro, da década, da centúria/ do milénio, da era, da história, do universo…/ Em toda a simplicidade, o morto da minha vida/ o meu morto.» Excerto de “O Morto/ Ode Didáctica”, 1971

15 Out 2021

Por que não fugiu Monty?

Como lhe sugere o pai, por que não foge Monty? Cumprirá sete anos por narcotráfico, consciente de que tendo rejeitado continuar no “esquema” mafioso dentro da cadeia ou tornar-se informador da polícia ficará mais desprotegido e sujeito à violência e à arbitrariedade. Contudo, Monty escolhe a “via recta” num labirinto de solicitações e de emboscadas – e a sua escolha insólita eleva-o a um plano ético insustentável, embora, dada a dificuldade, digníssimo.

Falo de “A 25ªHora”, de Spike Lee, que revi agora porque preparo um pequeno ciclo do cineasta.

Aos sete anos, Monty tem pouca esperança de sobreviver. A narrativa segue as suas últimas horas de soltura (fora alguns flash-backs de contextualização); vemo-lo abrir mão dos privilégios que conquistou como traficante: uma boa casa, a entrada VIP em boates, a fama e a prosperidade económica. E despede-se do pai, um comerciante alcoólatra a quem o filho foi safando as dívidas, da sua namorada Naturelle (Rosario Dawson), que o ama apesar das desconfianças dele, e dos seus melhores amigos de infância, Jacob (Philip Seymour Hoffman), um tímido professor do liceu apaixonado por uma aluna, e Slaughtery (Barry Pepper), um corrector de sucesso em Walt Street. Os quatro passam a última noite livre de Monty, enquanto se adensa a questão de saber quem o terá denunciado à polícia (- terá sido Naturelle?).

Monty extrai as devidas consequências dos seus actos e aceita estoicamente a ida para a prisão. Monty não é um rebelde sem causa, alguém a quem o instinto da liberdade, à visão do castigo, faz espernear; vibra nele uma espécie de diapasão que lhe tempera o tom certo a cada momento da sua vida. Houve necessidade, para resolver certas coisas, de entrar nos negócios ilícitos, e fê-lo convictamente, com eficácia, desfrutando o que pôde da situação. Depois conheceu o amor e entregou-se-lhe, sem reservas nem cinismo – sinal de que o seu carácter não fora corrompido. Com a mesma naturalidade e a mesma lucidez face às circunstâncias, aceita o custo da redenção.

O carácter de Monty clarifica-se logo de início quando, contra a opinião de Kostya (o ucraniano que o denunciará), resolve salvar o cão que encontraram abandonado e ferido, em vez de matá-lo num “gesto de misericórdia”.  É um homem decente que face a certas circunstâncias teve necessidade de enveredar por más escolhas.

A sua índole conhece um contraste em Slaughtery, o corrector. Que vive duma actividade lícita onde só a lógica entra, arredia à natureza do escrúpulo.

Jacob vai a casa de Slaughtery, definido num ápice pelo que há sobre a mesa de trabalho – o Financial Times, revistas de gajas nuas, garrafas de vinho: é um hedonista empedernido. As janelas do apartamento dão para o Ground Zero, o espaço vago das Twin Towers (o filme é de 2002). Dá-se aí uma conversa desconcertante, sintomática. Jacob refere que segundo as informações o “ar daquela zona é irrespirável” e pergunta-lhe se não pensa em mudar. Slaughtery insinua-lhe que ainda espera ganhar muito com a inflação imobiliária e por isso, mesmo que tivesse como vizinho o Bin Laden, não tenciona mudar de poiso.

Slaughtery não tirou as devidas consequências do desastre de 11 de Setembro, a que pôde assistir “nas primeiras filas”; para ele quando se vive na selva há que seguir as regras e aproveitar as oportunidades: é um puro caçador-colector.

Monty/ Edward Norton é de outra índole, mesmo que pleno de contradições. Fez o que havia a fazer na sua oportunidade, agora tem necessidade de redimir-se e rejeita as possibilidades flagrantes de fuga, preferindo uma “reparação” quase irrespirável. Apesar das tentações que o pai enumera pelo caminho, o filme termina sem mercê (- sendo incerto que Monty resista ao inferno da prisão).

A dado momento, Monty, que almoça com o pai, vai à casa de banho do restaurante e um “Fuck You” que alguém escreveu a marcador no espelho atira-o para uma longa diatribe sobre os tipos humanos e étnicos que compõem a cidade, uma massa diversa de comportamentos anómicos que segundo o discurso transformam a urbe numa pauta de irresgatáveis dilaceramentos morais; como se se confessasse filho de um determinismo inescapável. E nada fica de fora desse discurso, da manhosa “inocência” das minorias e do assistencialismo a que se encostam à cupidez dos judeus ou à torpeza dos que impõem a lei. É um segmento que parece desgarrado no filme, uma espécie de manifesto. Que, contudo, se integra e se elucida na sequência final quando no percurso para a cadeia, o rosto condoído e desfigurado de Monty dentro do carro vê como aqueles de quem ele disse mal lhe acenam dos transportes públicos, num gesto de empatia, que lhe antecipa o perdão.

“25th Hour”, que só ganhou com o tempo, feito ainda no rescaldo do 11 de Setembro, é um magnífico manifesto sobre a necessidade do perdão.

O segmento do filme com o Ground Zero, que Spike Lee acrescentou ao romance adaptado, deu uma outra densidade à narrativa e um segundo nível de leitura que o tempo trouxe à tona.

O perdão teria de começar por um “encarceramento” interno, especular, da América, que a fizesse reflectir e reconhecer os seus crimes, antes de se estender de forma incondicional, gratuita, infinita aos terroristas.

Só a força da “resposta paradoxal” introduz mudanças radicais nos comportamentos culturais: foi assim com o oferecimento da outra face, em Cristo, com a inesperada inflexão para a reconciliação de Mandela, que salvou a África do Sul de um banho de sangue, com o pacifismo de Ghandi face ao imperialismo britânico.

Spike Lee intuiu-o, mas a América não esteve à altura da sua lucidez nem teve a grandeza de o seguir. E escolhendo depois a mentira como modo-de-uso imperial a América pôs-se de costas voltadas para o mundo. Começou então o regime de um mundo pós-verdade.

11 Out 2021

Bestiário

27/09/2021

Todos os dias há pequenos sinais da sua presença. Não é algo que se insinua mas algo que já lá está. Como o novo costume de numa tremura involutária derrubar a chávena, entornando a bica, o que me tem acontecido demasiado frequentemente; escaparem-se-me os nomes e ter dificuldade em concentrar-me, ou sentir-me prensado num silêncio sem bordos. E o pior talvez seja a sensação de uma agonia subcutânea, que de vez em quando aflora, como se houvesse um complot da carne contra a mansuetude dos dias. A covid continua a rondar-me e dois meses e meio depois de ter alta é-me mais fácil namorar sem tibiezas nem receios do que escrever cinco páginas seguidas.

Talvez por isso me tenha tocado tanto aquele poema breve de Louise Gluck: «Tal como tínhamos sido todos carne/ éramos agora névoa./ Tal como antes tínhamos sido objectos com sombras,/ éramos agora substância sem forma, como químicos destilados./ Cedo, cedo, dizia-me o tropel do coração,/ ou talvez medo, medo – era difícil de perceber.» (in Noite Virtuosa e Fiel, pág. 15)

28/09/2021

Das escassas duas horas que passei na Feira do Livro de Lisboa, uma delas em “função”, fazendo de conta que alguém queria que eu assinasse o meu livro (vá lá, tive dois leitores devotados), pareceu-me que ao contrário do que seria espectável, as pequenas e médias editoras estão quase, quase, a engolir os grandes grupos editoriais e que estes estão condenados às fugazes leis do entretenimento, reféns dos youtubers, e de sucessos feitos por medida. Mas, fora alguns grandes nomes que mantém em carteira, o que há hoje de mais vivo nas letras não lhes pertence, o que a prazo as condena, porque a espuma momentânea não faz os catálogos.

É como já não entrar sequer na Bertrand ou na FNAC, se pouco acima existe A Travessa – e nunca tal desafecto me passou pela cabeça.

Leio num caderno meu (e não sei de onde tirei isto): «quis expôr as bochechas de Louis Armstrong e Gizzy Gillespic – não se pode querer vitrificar uma paisagem e crer que ela esteja viva!», e julgo que a imagem se apropria.

29/09/2021

O meu amigo Filipe Branquinho, artista e fotógrafo moçambicano, participou numa grande exposição interacional em Basileia, a Art Basel (fechou a semana passada), e escrevi para ele um texto de que divulgo um excerto:
«(…) A forma do anjo foi a última tentativa encontrar no corpo do homem uma medida que fosse articuladamente universal. (…) S. Jorge e o Dragão mais não simboliza que o combate para conter em si, em cada um de nós, a ameaça da poliformia. O monstro é o que é incontrolável no desejo em sermos outro, em fundirmo-nos num corpo estranho, e emerge como um sintoma da patologia do infinito. (…)

O classicismo ainda tentou contrariar de novo essas energias arcanas. Mas o romantismo reforçou-as e um século mais tarde a descoberta do inconsciente, como continente psíquico, revestiu por dentro as manifestações polifórmicas que a pintura havia figurado por fora: os bestiários de seres imaginários passam a ser um espelho do homem, que desde então é Pi, a partilhar o mesmo bote que a fera.

Também a fotografia, duzentos anos depois de Joseph Niépce, parece ter esgotado a missão aristotélica com que devolvia ao real o que nele parecia escondido. O realismo mais não seguia que o príncipio da arte que Elias Canetti definiu como poucos: encontrar mais que foi perdido.

Ao depararmos com esta nova linha de trabalho de Filipe Branquinho encontramos algo que a arte já sondara mas agora num novo formato e expondo uma inquietação latente, que aviva com claridade a tensão do observador com a obra.

O que se realça neste bestiário é que “os retratos” nele não parecem “montados”, encenados. Há uma unidade orgânica – sem costuras nem descontinuidades – entre os corpos, a cabeça, e a sua gestualidade.

Não é tanto a memória de outras grafias corporais que nos instiga (e lembremos que o monstro era, por definição, a criatura que resultava da fusão anamórfica entre dois géneros diferentes de criaturas) como a suspeita de que estas figuras constituem o “novo normal”.

A rudeza, o primitivismo de carácter destas fotos, é magnificamente contrariada pela unidade biomórfica, como a que se verifica na criatura de três faces, onde é muito nítido um inconsutíl acordo de texturas.

Como prevenia Valéry: “O novo é a parte permissível das coisas. O perigo do novo é que ele cessa automaticamente de ser e que acaba em pura perda. Como a juventude e a vida” (Tel Quel, pag. 150) Permissível deve, por conseguinte, ler-se como: o que é contigente e mais facilmente se extingue.

A inquietação para que estas fotos nos alertam, em época de pandemia (e devemos considerar que nenhuma imagem é inocente, no sentido em que revela sempre uma força indicial), é que talvez o humano – o antropomórfico − seja, ao contrário do que gostaríamos, a parte “périssable” das coisas, o que o mundo tem de passageiro. Daí que noutra magnífica foto desta sequência haja um monstro que tapa a cara, num gesto de vergonha, adivinha-se, pelo que ainda haja nele de homem.

O Filipe Branquinho apresenta-nos as criaturas de um Novo Éden, aquelas que se prefiguram antes das palavras e da traição emocional com que a razão as emudece. Se não nos esquecermos que “a tranquilidade é um estado não-humano porque é uma forma de instalação no tempo em que se lhe reconhecem, sem sentimentos de perda, dano ou revolta, todos os poderes” (Manuel Maria Carrilho), então só nos resta agradecer-lhe por ter rompido com a clausura das simetrias.”

30 Set 2021

Cais das Descobertas 1

06/09/21

Devíamos escrever num espelho com um marcador colorido em vez de em papel branco. Não por qualquer impulso narcísico, mas para não deixarmos de estar sempre face a face com o efeito do tempo em nós, a sua tremenda vocação para desenganar-nos.

Interrogo-me se não seria o mesmo que acontecia a Danielle Lessnau, que fazia fotografia-pinhole dos seus amantes com a câmara implantada na sua vagina.

07/09/21

No dia da morte de mon Ami, Ferdinand, vi o enfandonho Exodus, de Ridley Scott, que é o mesmo que uma grande fortuna posta de joelhos (que erros de casting!); fita que me pareceu feita para ilustrar a máxima de José Saramago: “Antes de Jesus já os homens eram capazes de perdoar, mas os deuses não”.

Quanto a Belmondo, que nunca seria actor para fazer de Faraó ou Moisés, guardo-lhe as performances preciosas que marcaram uma geração: como Laszlo Kovacs, em À Bout the Soufle, e como Ferdinand, em Pierrot le Fou, na mais sábia dosagem que o cinema assistiu de actor brechtiano e de nonchalance. Teve um realizador à altura, o que não aconteceu com outros da mesma qualidade, talvez com a excepção de Robert Mitchum em A noite do Caçador.

08/09/21

Voltei ao ciclo das insónias. Acordo entre a 1h30 e as 2h da manhã e não volto a cair nas garras de Morfeu senão pelas 7h, 7h30.

Mato o hiato, lendo, ou fazendo a primeira demão de traduções várias, normalmente de poesia.
Esta noite entreteve-me um delicioso livro de Claude Roy que sobrevoa a poética de vários autores, La Conversation des poètes, e leio sobre Jean Tardieu (1903- 1995):

«(…) nesta duplicação perpétua a que chamamos ser humano, o poeta repara que, em querendo exprimir a sua verdadeira realidade interior, o solilóquio não lhe convém e o simples monólogo o trai. Com a série de poemas reproduzidos em “Dialogues a voix basse””, começou a sua conversação infinita, que vai do arguir contra um interlocutor-interruptor (aliás inexistente), desenvolvido em “Quel est ce homme?, às interrogações, “colóquios”, interpelações e falas ao jeito de um clown filósofico, em “Monsieur Monsieur”. Esta metamorfose levará Tardieu de uma poesia a várias vozes ao teatro.»

Nada que não conheçamos desde o Pessoa; Tardieu, acrescenta-lhe o humor, a paródia, perfaz o espectro duma ironia doce que desemboca na causticidade da sátira, em poemas-curto-circuito onde o “koan” não está ausente.

A primeira antologia que adquiri dele, “Le Fleuve Caché” (poésies, 1938-1961) desfez-se-me nas mãos. Malditos livros que não foram cosidos, antes mal colados, e se desmancham em mil folhas ao contacto.
Nele sublinhei este verso premonitório: «O vento dispersa a tumba».

Há vinte e cinco anos que repousa na estante, intocado. A segunda antologia que dele arranjei é da Seghers, comprei-a na Feira da Ladra, com outros da colecção e pouco a manuseei, interessavam-me mais outros poetas comprados na mesma ocasião; portanto negligenciei o meu encontro com Tardieu.
Agora abri-a ao acaso, à primeira apanhei isto:

«PRIMEIRO ÚLTIMO AMOR

Está tudo morto. Mesmo os desejos de morte,/ jazem, mortos. O que cresce não tem figura./ As mãos, os olhos – desertos. É a derrocada/ de qualquer medida depois do incêndio que destrói um corpo.// Nada – nem esperança nem dúvida – abre mais/ aquela porta onde costuma o sol esperar-nos./ Os frutos profundos, tombados pela tempestade/, estão mortos: o espírito conhece enfim as suas cinzas; // sedento e mestre de uma só noite / que do céu precipita a chuva,/ onde todo o movimento mergulha, para, do objeto/ que nele se apaga,
ressaltar/o chamado sem voz/ que confunde a esmo os nossos sonhos.»

E passo a madrugada a esboçar a tradução de alguns poemas:

«A NOITE, O SILÊNCIO E O ALÉM
Um suspiro na imensidão do espaço// Sussurra então uma voz:// “Gontran, estás aí?”// Soergue-se o silêncio// Passos que se afastam como as nuvens.»

«CONVERSAÇÃO
(de ombro na ombreira, com bonomia)/ Como vai isso aí na terra? / – Ah, magnífico, tudo sobre rodas.// Os cachorrinhos medraram, vigorosos?/
– Graças a Deus, graças a Deus, obrigado. // E as nuvens?/ – Essas flutuam.//
E os vulcões? – Fervem, num fartote.// E os rios?/ – Fluindo.// E a hora? – Acontece.// E tudo bem com a sua alma?/ – Oh, está doente/ a primavera foi tão verde/ que abusou das saladas.»

«NOTAS DE UM HOMEM ESPANTADO
Nascido debaixo de grandes nuvens/ como tu,/ no rodapé das nuvens,/ eis-nos/ */ ela muitas vezes está aqui,/ assim como vos vejo/ Já o instante depois dela é mais longínquo/ ouço-a cantar num beco limítrofe/ É a vastidão, Senhor, a vastidão/ */ Ao meio-dia no momento em que não se morre/ mais de uma folha/ se sobrepõe na sua sombra/ E eu de todo disperso nesta grande paisagem/ nascida da luz dos meus olhos./ */ Saiu esta manhã um pleno de plantas/ bichos e homens/ de uma mesma casa/ repartida pelas estradas,/ nada respira acima deles/ além da luz/ */ Aquele que atravessou o mar/ e aquele que se contenta com pouco/ e todos os demais,/ movemo-nos como os dedos da mão./ */ Cresce a sombra como os mortos/ No alpendre, entre o dia/ e a noite/ hesito/ */ Tremer como varas verdes? As/ portas/ uma após outra/ ei-las fechadas:/ qu’ ele está para chegar./ */ Mas não para quê sofrer/ Não passará de um instante/ De resto, de vós estaremos perto/ */ Se bem que eu não acompanhe o ritmo/ o melhor é saber antes de expulsar-me./ Mais que uma palavra/ uma só palavra/ e raspo-me.»

A afinidades que distraídamente, durante décadas, me haviam passado ao lado! Amanhã aterrarei em Lisboa e hei-de encomendar a obra completa que descobri na Quarto. E hei-de escolher cinquenta poemas para traduzir, com paciência e recato, divertindo-me como um bruto com os seus jogos coloquiais. É sempre excelente o que nos apanha desatendidos.

9 Set 2021