Golos políticos

Ele está em todo o lado e é todo-poderoso. São milhares de seguidores em histeria colectiva nas ruas e outros tantos em histeria privada nos seus sofás. São ligas e taças nacionais, ligas e taças europeias, são os festejos da Champions e vem aí o Euro! Homens a baterem em mesas de cafés com a saliva a escorrer-lhes pelas mãos. A soltar uivos selvagens quando o seu clube atira a bola para dentro da rede. Os grupos de ingleses bêbados a sorrirem de forma animalesca para as câmaras de televisão, a destruirem esplanadas inteiras. Quando um fenómeno colectivo não nos diz pessoalmente muito, é inevitável achá-lo irritante.

E eis que a sua origem milenar, como tantas origens milenares deste mundo, é chinesa. De acordo com a FIFA, o Futebol nasceu na China da Dinastia Han e deriva do Cuju, um antigo jogo de bola chinês. Na Europa, chegou a incomodar Eduardo II de Inglaterra que teve que impor restrições à prática do futebol em 1300 para que os seus soldados parassem se de dedicar à bola e treinassem mais tiro com arco, bem mais útil militarmente. Mas o desporto tem esta faceta da união, dentro da sua rivalidade. A União Europeia antes de ser uma aliança militar ou entidade económica deveria ser, de acordo com Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros francês e arquiteto do projeto de integração europeia, uma comunidade cultural. As identidades culturais costumam formar-se em torno da literatura, do cinema ou da música. Contudo, o factor da diferença linguística torna-se neste caso um divisor irremediável. Então os sociólogos voltaram-se para o desporto eleito e para a forma como este se tornou um valor transnacional, capaz de fazer com que os povos exercessem assim, de forma mais pacífica, o seu nacionalismo, a exibição da sua identidade colectiva, o depósito na competição desportiva de uma intrínseca necessidade humana de pertença. Foi assim criada a UEFA e a atual Champions League. Jogos que cruzam o leste e o ocidente, uma expansão progressiva do espaço europeu onde se incluem países como a Islândia, a Turquia ou o Azerbaijão. É preciso acabar com a narrativa ingénua que separa completamente o futebol da política porque, se por um lado o futebol transcende a política, ele também lhe pertence. Na ultima década temos assistido à crescente desigualdade entre clubes que se baseia, puramente, na crescente desigualdade económica. O futebol é também espelho do que se passa no resto da sociedade. Corrupção, evasão fiscal, lavagem de dinheiro, tráfico humano, crime organizado. Este espaço de integração que devia pertencer ao colectivo é também refém de interesses privados e políticos. Na Turquia, com o aproveitamento partidário de Erdogan. Na Hungria, onde Viktor Orban decidiu fazer um movimento para tornar o futebol húngaro “Great Again” e reforçar severas leis anti-imigração. Nas máfias conhecidas cá da terra. Se por um lado, o futebol é união e manifestação de identidade coletiva, ele também é manipulação e fator de exclusão. Durante o período da revolução industrial, quando as mulheres começaram a exercer trabalhos nas fábricas até ali só exercidos por homens, tornou-se comum ver grupos de mulheres a jogarem futebol. Mas a Associação de Futebol considerou que o jogo, aos pés das mulheres, era incongruente e baniu-o até 1971. Hoje, podemos dizer que as coisas estão mais equilibradas. Sim, estão “mais equilibradas” mas ainda não realmente equilibradas. É inevitável associar o desporto ao género masculino e é essa exclusão estrutural que faz com que me sinta alienada. São grupos de homens a entregarem-se às causas dos seus clubes, de corpo e alma. E eu talvez um dia alcance a pureza de me preocupar mesmo com uma bola a entrar numa rede mas, por enquanto, agradecia que pudéssemos falar de outras coisas.

5 Jun 2021

Fazer ou não fazer

“Não se pode descer duas vezes o mesmo rio, e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela dispersa-se e reúne-se, vem e vai. (…) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos.”
Heráclito de Éfeso

Na minha infância comia amanteigados neste café. Ia buscar tripas de ovos moles a esta barraca. O meu pai estacionava o carro em frente ao mar, precisamente aqui, e passávamos tardes inteiras no carro a olhar para o mar. Ficava no banco de trás às cabeçadas com a minha irmã. Certas coisas mudaram. Puseram outro tipo de corrimãos marítimos para acalmar a violência das ondas. Havia mais dunas e havia mais pinheiros no parque de campismo. A essência é a mesma e eu nunca gostei de fazer só o mesmo. Sempre tive uma tendência natural para o contraditório.

Sempre me pareceu uma das formas mais eficazes de estar na vida: questionar em permanência. Suspeitar de tudo em que toda a gente parece concordar. Se me diziam que as flores eram bonitas, eu ia tentar perceber de que forma não eram bonitas. Se tínhamos que acreditar em Jesus eu ia tentar falar com o padre sobre rituais wicans. Quando me diziam que a paisagem altamente urbanizada não era tão agradável como viver à beira-mar, eu fiz questão de me pôr a trabalhar para transmitir um tipo de beleza menos familiar aos meus conterrâneos. O caos enquanto beleza.

Em Pequim, os meus sentidos colavam-se aos arranha-céus, sobretudo na sua visão noturna. Um céu cinzento, um calor abafado ou um frio seco e, claro, um emaranhado de pessoas, identidades e propósitos. O caos enquanto beleza.

Com o tempo, passei a rodear-me de pessoas que pensavam da mesma maneira que eu. Que sim, que as flores não tinham que ser necessariamente bonitas, que Deus podia ser uma deusa, que a visão mais distópica do mundo pode ser um parque de diversões. Só que chegada a esse ponto em que toda a gente batia palmas ao meu questionamento permanente da realidade, comecei a parar de o fazer. É certo que é para isso que serve a inteligência – colocar-se em infindáveis pontos de vista. Se por um lado, questionar tudo é um bom exercício mental, por outro aceitar que as coisas são como a maior parte das pessoas as vê, é também uma forma de exercer inteligência. Para que conste, não estou a fazer referência a nenhum tipo de relativismo ético. Proponho apenas um lugar de observação em que tudo pode ser o que quiser e eu não tenho necessariamente que me apropriar disso. Aceito sem julgamento todos os atletas de maratonas permanentes em direção ao significado das coisas. Não deixo de me identificar com eles mas passei a aceitar melhor quem decide parar como forma de estar. É falsa essa dicotomia entre fazer ou não fazer. É apenas uma forma de simplificar a realidade mas nada que é simplificado é completamente verdadeiro. Posso sair à rua e cumprimentar os meus vizinhos, mesmo aqueles que parecem relutantes em me cumprimentar de volta. Ter cafés de preferência e outros de que não gosto, como tinham os meus pais e os meus avós antes de mim, aqui, no mesmo sítio. O caos continua a ser belo dentro de mim. A casa pode ser a mesma e o mar o mesmo e as árvores as mesmas mas como diria Heráclito, qualquer tipo de existência é fluida. A casa, o mar e as árvores não são as mesmas todos os dias porque eu não sou a mesma todos os dias.

21 Mai 2021

De Pequim para a alma americana

O primeiro filme que vi da realizadora chinesa Chloé Zhao foi o “The Rider”. Um conto no faroeste contemporâneo que segue a vida de um cowboy num momento de crise. O clássico percurso do herói em busca de significado é introduzido com uma poderosa abordagem emocional e pontua instantes de reflexão com outros de grande empatia.

Uma personagem que nos leva para dentro interpretada por um ator amador que é, ele mesmo, um verdadeiro competidor de rodeios. A dimensão psicológica e intimista do filme permite-nos palmilhar várias questões sobre género e identidade no coração da América. Agora, mais conhecida por Nomadland e os seus inúmeros Óscares, Chloé apresenta-nos uma história com uma estrutura menos clássica mas que recorre a esta técnica de recrutar atores que são a personagem que interpretam. Não é o caso da personagem principal, mas é o caso da maior parte das personagens que surgem no filme. Contudo, a experimentação de Chloé não acaba na técnica de filmagem e de construção das personagens. Sabendo que é pequinense, surge uma questão muito imediata “mas como é possível, uma chinesa descrever com tanta precisão problemáticas da identidade colectiva americana?”. Naturalmente, Chloé teve formação no estrangeiro e viveu em Los Angeles e depois Nova Iorque. Não se propôs, certamente, a explorar estes temas sem neles imergir. O seu trabalho, contudo, deixa bem claro como uma visão externa é tantas vezes mais lúcida do que uma visão interna. Esse distanciamento, tão útil para se abordar diversos tópicos com perspetiva diferentes, sofre, em simultâneo, de uma total ausência de enquadramento. Esse desenquadramento pode ser visível, por exemplo, na sua falta de agendas. Por vezes, em alturas em que os cunhos ideológicos se enfatizam em tudo o que é manifestação pública, é também bom lembrar que a arte não tem que cumprir essa missão. A sua missão não é conduzir pensamento, é antes expor-lhe desafios e envolver os sentidos, mais do que a razão. A jornada de uma mulher pelo luto coincide com as notáveis paisagens do Oeste americano. Se, por um lado, podemos ver a personagem a recusar-se a viver de uma forma que lhe seria mais confortável, por outro, há um sentido de auto-exclusão social intencionado, reforçado e assumido ao longo da breve narrativa. Ela é, como tantos outros nómadas que fazem daquele um estilo de vida, uma refugiada do mercado laboral. Com essa escolha vem a precariedade. Estas são pessoas que se apercebem que existir é suficiente até porque, na maioria dos casos, elas padecem de um incurável sentimento de perda. Não penso que o filme queira, em algum momento, desculpabilizar o estado do mercado laboral. A crueza da exposição sente-se em forma de tensão em todo o filme. Esta desenvolve-se, não em torno do conflito entre personagens mas antes do conflito da personagem principal com todo o seu ambiente. Ela não lhe é cúmplice. Fern não precisa de uma companhia que a volte a tornar estática. O movimento é agora a única realidade possível. Não há glamour em defecar numa carrinha mas há glamour em viver à margem das regras. Viajar como se o que interessasse não fosse o destino mas antes a forma como se viaja – dentro de um permanente pôr-do-sol do deserto. A luz que acaba mas não sem antes projetar um tipo de deslumbramento que qualquer um de nós pode apreciar com todo o luxo dos próprios sentidos.

7 Mai 2021

Abutres

Abutres

Nightcrawler foi um daqueles filmes que me marcou, não só pela excelente atuação de Jake Gyllenhaal e da direção de Dan Gilroy, ou a fotografia de Paul Thomas Anderson mas, sobretudo, devido ao facto de retratar algo tão identificável e sobre o qual nos cansamos de desaprovar por ter-se tornado tão banal. No caso do filme, eram noctívagos, neste, podem ser ambos. Os abutres a que me refiro não são necessariamente aves de grande envergadura, que planam em correntes de ar quente. No entanto, nutrem-se com o mesmo alimento destas criaturas: cadáveres. Refiro-me aos abutres noticiosos. Quando me deparei com a trágica notícia da morte da jovem cantora Sara Carreira, havia registos visuais do aparatoso acidente, sem edição. A jovem estava ainda dentro do carro, morta, coberta por um lençol. É nestes momento que não é possível esquecer a forma como a arte imita a realidade e a realidade imite a arte em Nightcrawler. O filme sobre um cameraman amador que descobre um nicho particular de negócio: estar no sítio certo à hora certa, isto é, estar no sítio certo à hora errada. Os acidentes de carro acontecem sobretudo durante a noite e assim se propicia um cenário mais tétrico. A personagem de Jake Gyllenhaal monta uma equipa de repórteres (ou “repórteres”) que acabam por ter ligações corruptas com as autoridades. Estas facultam de imediato os sítios onde os acidentes rodoviários estão a acontecer em tempo real de modo que as câmaras se possam mover convenientemente para o local do desfortúnio. Desta forma, o repórter consegue captar a morbidez e o horror da aleatoriedade da morte dos outros com gráfico explícitos.Tenho a ligeira sensação de que isto não acontece só na Califórnia. Ver pessoas mortas em acidentes de carros pode ser um entretenimento em ascensão entre a população mundial que gosta das suas notícias bem apimentadas com calamidades fortuitas graficamente explícitas, mas quando a tragédia ocorre dentro de uma narrativa, ou seja, quando a vítima se conhece, estes repórteres não ganham só com a exploração da curiosidade sinistra dos olhares externos. Nestes casos, é possível explorar a representação simbólica da mitologia contemporânea edificada pelos media, encetar uma história romanesca cativante, com heróis e vilões e que irá captar diretamente o coração da audiência. Roland Barthes dizia que quando se recorre à semiótica para analisar a metodologia escondida nos media, esta mitologia é uma forma de entrar nas raízes da criação da realidade. Assim, temos todos os noticiários a abrir com a notícia da morte da jovem, filha de um herói nacional com o a sua descendência igualmente divina e orientada para o canto, vítima de um namorado que, possivelmente, circulava em excesso de velocidade, talvez sem o consentimento da jovem – possível sequela literária para alimentar os nossos criativos (imparciais, factuais) telejornais. O pai, herói nacional, intocável, com uma vida de fama e riqueza transforma-se, subitamente, num comum mortal como todos nós. Se antes não nos era possível identificar com a felicidade da sua fortuna e reputação, agora temos a oportunidade de identificar nele a dor semelhante à dor de uma pessoa comum, como nós. Alguém que tem tudo mas que tudo perde neste instante – o carro, o aparato, o cadáver coberto. Alguém me disse que, assim, através da simbologia mitológica, todos os pais que perderam filhos se identificam com esta dor. Será esta a notícia de que uma tragédia levou de nós uma jovem inocente que era penas um ser humano ou será, numa abordagem semiológica barthesiana, esta a notícia de que um ser humano morto não é notícia se não for transformado em mitologia? E, neste caso, serão os abutres os que produzem os conteúdos ou os que consomem o produto? Questões difíceis que deixo em aberto para reflexão individual, finalizando apenas com este pensamento:

“Do not be scared much of death, but be scared of your inadequate life.” – Bertolt Brecht

19 Dez 2020

O Artista Assassino

A fórmula é relativamente simples: há muita oferta e pouca procura. Esta é a explicação de lógica de mercado que nos dizem ser “a lei natural das coisas”, à qual Gramsci chamava hegemonia cultural (desculpem, mas estão a passar muitas imagens do Avante na televisão). Depois, há a perspectiva da ambição, do desígnio e da excelência que é a fundação da motivação. A ambição pode ser avidez e pode ser cobiça mas pode, também, ser aspiração, desejo de concretizar, vontade de atingir. É como os dois lados da moeda da inveja, aquela inveja em que não prejudicamos ninguém e em que nos tentamos superar a nós próprios perante o esplendor de alheios e a outra, a que nos diz que, para se ser melhor do que alguém, é preciso destruir esse outro. Nos sites de citações procuro o que dizia Saramago sobre a inveja e só encontro isto “Temos que nos convencer de uma coisa, que o mais importante no mundo, pela negativa, e o que mais prejudica as relações humanas e as torna difíceis e complicadas é a inveja” mas eu lembro-me de uma outra versão que ouvi de Saramago sobre a inveja e que parece não ter sido ainda colectada pelos citadores virtuais desta internet e por isso, não vou citar, limito-me a explicar que o ouvi dizer que a inveja tinha tido um papel fundamental na carreira do Nobel, segundo o qual, era a inveja que o fazia querer superar-se, ir mais além, olhar para o lado como quem pensa “percebo a tua perspectiva, estou bem danado de não ter sido eu a lembrar-me disso primeiro, mas acho que se abriu uma nova linha de pensamento que vou explorar a partir daqui” (citação original deste texto, por esta autora).
Vou recorrer a outra referência. Desta vez, uma lenda da mitologia grega para ilustrar a minha perspectiva sobre este tema. O “Artista Assassino”, Dédalo (Daídalos), é conhecido, sobretudo, como o engenhoso construtor do labirinto de Creta que reteve o feroz Minotauro. Conta a lenda que, a certa altura, Dédalo, o mais inteligente, o mais criativo de Atenas, ensina tudo o que sabe ao seu sobrinho, Perdiz, que demonstra ter uma aptidão inigualável. Sob a orientação do tio, Perdiz inventa coisas extraordinárias como a roda do oleiro, a serra e a bússola. Mas o tio, mestre, não consegue conter uma irascível inveja que o assombra pelo aprendiz que o supera. Acaba, assim, por planear o seu assassinato, convidando-o para um passeio ao topo do templo de Atenas, onde o empurra com intuito de o matar. Atenas, no entanto, deusa que privilegia o engenho em detrimento de ignóbeis impulsos deletérios, vê Perdiz cair e transforma-o num pássaro. Dédalo é preso pelo seu crime. Assim nasce o Artista Perdiz.
A Perdiz. Pássaro que não constrói o seu ninho nas árvores nem consegue voar no céu mas que utiliza antes tocas no solo, evitando altitudes.
A inveja deve ser uma fonte simultânea de aspiração e inspiração. E não, não é um problema procurar poder e prestígio através da arte. Contudo, este deve ser encontrado na sua elaboração e não nos níveis elevados, superfícies inalcançáveis, altitudes e elevações que não sejam provenientes do mero ofício. O artista, como a Perdiz, deve procurar a sua força criativa em tocas, o seu engenho em buracos, a sua sagacidade em covis. Esta é a única forma de sobreviver ao Artista Assassino, o destrutivo, aquele que não canaliza a inveja para a sua criação.

11 Set 2020

O Paraíso Perdido da Infância

Olho para o meu filho, ausculto-lhe o nascimento. Nasce-se e nunca se está verdadeiramente pronto para sobreviver, quanto mais para existir. Existir começa com o contacto com o outro. Eu só existo por oposição ao outro. É do contacto com os primeiros cuidadores que o universo inteiro se desembrulha, com todas as assunções subliminares que a nossa micro-relação interpessoal com os nossos guias-protectores no mundo nos incutem para sempre, como uma genética emocional, gravada, perpétua por ser a primeira aprendizagem, a primeira experiência. Os primeiros medos, as primeiras formas de amar, tudo surge dessa cartografia afectiva que nos foi deixando mapas inconscientes aos quais regressamos sempre para explicar um fenómeno ou para reagir a um determinado estímulo.

Este mundo que nos é atirado para as mãos como um presente é um privilégio que vamos ter de justificar, muitas vezes, para nós mesmos, para o resto das nossas vidas. A infância é o laboratório social que nos modela a personalidade e por isso precisamos de voltar a ela. Não é aqui a psicanálise o mesmo que uma teologia da personalidade humana, a criação de uma mitologia pessoal que vamos tentar descortinar, sem qualquer certeza. Foram a secularização e o desenvolvimento da economia e da sociedade burguesa que permitiram esta afirmação sem precendentes do poder do indivíduo como único, quase omnipotente.

Podemos verdadeiramente depender desta assunção?

“Dichtung” em alemão significa simultaneamente poesia e verdade, é Goethe quem traz à humanidade esta brilhante ideia de relacionar o passado com o presente, a criança com o adulto, a criança interior que fica para sempre lá dentro, dentro do adulto. Goethe usa o termo “Dichtung” para descrever a sua vida, porque ele a sabe inabitável, uma passagem onde se mantém algumas derrapagens na desarticulação natural da memória.

A infância é uma carapaça com língua. A infância é poesia e verdade entre o acontecimento empírico e factual, e a projeção idealizada. É ficção e racionalidade, o lugar de todos os encontros. Saímos dela inconscientes, regressamos a ela com um espírito científico, analítico, sedento de consciência, sedento de se apropriar do que é inconsciente para o tornar consciente. Primeiro existir, depois criar, primeiro a nossa infância, depois a infância dos nossos filhos. O “confrontamento hermenêutico com o conteúdo vivido” (Jacobs). O sujeito escava-se, encontra material, lê nisso as intervenções mais ou menos intencionais do próprio sujeito para lhe conferir perspectiva e significado. É desta forma que podemos esquematizar o privilégio emocional como soldados intelectuais com ferramentas psicanalíticas, colectar dados, procurar de padrões, tornar a vida em ciência. A poesia em facto.

Por isso, a superação anual dos níveis de privilégio emocional entre a população deveria ser estipulada prioridade política. Uma educação para o amor. Amar o ser, ausente de socialização, primitivo, amar a sua existência sem condicionamentos, amar um filho como quem explica o fogo.

28 Ago 2020

Separados pelo vírus

Ele desapareceu no outro lado do mundo. A oriente do oriente do oriente. Regressou ao desgoverno urbano e à incurável vedação do seu espaço mental, fecharam as portas, não o deixaram sair, a mim não me deixaram entrar.
Um vírus cansado a voar sobre os assuntos todos. Um soco nos nervos, uma mescla de fé com morbilidade. Um rebento vedado, restos de céu entre os meus braços durante cinco meses. Vultos instáveis a subirem pelas paredes da antiga casa da vila, onde os mortos e os recém-nascidos passam uns pelos outros como relâmpagos. Onde os traumas de infância amamentam a minha adolescência como um vento já conhecido porque já passou mais do que uma vez.

A minha mãe, força suspeita nas torrentes noturnas da serotonina anciã. Dar mais do que o que se pode, só quem pode. Um pânico por lavar deixado na sombra que abandonei no meu berço. Mas o destino! Cuidador informal deste ladrar cínico nas paredes do crânio. A doutora nunca esperou muito do meu sentido de identidade, por isso não se surpreendeu. Sou esboço em cãibras semi-legíveis, às vezes aspiro a ser agradável. Sentido de ego adaptado às características da vossa personalidade. Analisar, repetir. A informalidade mas a conversa certa para a ocasião, a conversa de ocasião numa ocasião de sorrisos obedientes, contagem dos mortos à hora de almoço. Por vezes louco, um sorriso insano no vislumbre da treva e nunca serei validada como como acima da média nacional. Toda lágrimas amadoras de ingratidão ao Serviço Nacional de Saúde. Meu amor, perdido no glitch nocturno de uma foto em Shenzhen. Esqueci-me do respeito que temos pelo silêncio. Desfiz-me desse silêncio prático das sirenes, do lixo tombado que insinua coisas terríveis, desperdício de ânimo nas hortas da banalidade que nos recusamos a cultivar. Aqui, aculturei-me de mim mesma, cobri-me de ruído à hora das sestas, das tantas sestas que faço e que preocupam as pessoas.

Meu amor, há entusiasmos assim ingénuos facilmente ofendidos, que não trazem certificado de presença. Entram só, assim, como um chamamento ao mundo como as fraldas que gostavas de estar a cheirar mas não podes, o sorriso que rebola terno entre o pretexto e a utilidade concreta de evitar o abandono. A madrugada que lhe chora por dentro. A quarentena desnecessária aos dois meses de idade. Mas diz-me, amor, sentes a mão sobre o peito do teu filho nas tuas cinco da manhã, nove da noite cá? Sentes o mar próximo da entrada de metro, o ar puro nos rostos bloqueados por questões de segurança, no vírus que viste à paisana e que tiveste quando tiveste dúvidas sobre nós? Só quero saber se vais voltar. Mesmo que intruso deste espaço-pátria vigiado pelo passado, sair do futuro – vigiado pelo governo, vais ser o presságio das coisas concisas, dos dizeres lacónicos, da desadequação necessária à sobrevivência das ideias únicas. Como regressar a ti quando regressares cá? Tão acima da média nacional, tanto extensão da carne nas veias do rebento, o sangue desagua-nos no mar onde estaremos de rastos, numa palavra-cabana sem leme possível, só o amor-instinto na ajuda à navegação, a divagar entre todas as linguagens que evitamos ensinar à criança.

14 Ago 2020

As Mães que são Pomares

“As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.”
Daniel Faria, Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)

 

As mães são árvores com enxadas nas várias mãos. Para se auto-enxertarem. Ninguém espera que as mães descansem. Ninguém espera que durmam. Ninguém espera que escrevam. Ninguém espera que não trabalhem sem estarem simultaneamente a trabalhar e presentes a qualquer momento.

Ninguém espera que estejam gordas. As mães desdobram-se em várias pessoas, aguentam o peso de vários ramos que a vão tornando corcunda. Ninguém espera que tratem das costas, que encomendem comida, que contratem alguém para limpar a casa. Que não ponham a mesa. Ninguém espera que façam pausa na vida.

Ninguém espera que não amem por vezes, mas que não se amem permanentemente – isso não há problema. Mães esgotadas são fracas. Mães que pedem ajuda são fracas. Que não se ajudem a si mesmas – isso não há problema. Que se anulem – isso não há problema. Toda a gente sabe mais que as mães, toda a gente sabe o que é melhor para os filhos que pariram. Ninguém espera que se queixem, muito menos metaforicamente. As mães que não sabem pegar num carro e parir contra os sonhos. Objetos de vindima, crisântemos imediatos.

A arte de se ser puro até se ser paisagem. Uma primavera imóvel ao ritmo das ondas. Então, lá vão elas iniciar uma nova jornada. Vão até às esquinas dos silêncios parir sozinhas. Lá estão elas, incansáveis, infinitas, absolutas sem autorização para pausas. Ouvem vozes na zona dos mamilos, é leite. O tal ofício da carne. Uma cabeça e o resto do corpo em cima, ao contrário de estar de pé. Órgãos desorganizados para acolher outros mais pequeninos, quase-órgãos, tendões e músculos que quase o são, pequeninos de idade zero. Um médico espanta-se com tamanho rastejo, gordo e delicado. As mães ficam em dívida, trazem uma figueira interna com conceptáculos carnudos, sicónios domesticados até ao Monte de Vénus. Muita prática em defloramento doméstico até à concepção-intersecção de bocas penduradas em árvores, cansadas da sua mudez. Brotam forças no limite do orgânico e do psíquico, pulsões documentadas na botânica. Um lago forma-se com mucosas respiratórias e digestivas que enchem o balão líquido, visível em ecografias. Uma rotura de membrana expõe a folhagem, é o ser quase-ser quase a sê-lo. Imperatriz-criadora com membros de chumbo. Deusa húmida humilde porque reduzida ao seu ofício primário. Só ela sabe rebentar a própria pele para iniciar o mundo. Braços alheios inteiros pela vagina até ao cérvix, até ao centro do universo. Feto danado a esmurrar a alavanca. Subserviência soberana perante o ser que está quase novo. Vagina rasgada até ao altifalante, guinchos viscosos pontuados com sangue na alcatifa das pernas abertas em edifício.

Gabinete de formação para a maternidade. E o parasita na cabine, quanto dela é ela e quanto dela é ele, a administração reune-se e continua a identificar uma identidade só, embora aos ziguezagues com nódulos e deformações fluorescentes mas ainda assim uma só. Tudo bem. É externa esta dupla existência, confirma-se, em breve será nova, única, diferente, separada. Vem da carne e é humano mas diverso.

31 Jul 2020

Uma solipsista laowai em Pequim

Finjo um obrigadinha inevitável, melhor slogan para a mulher que me serve à mesa. Ingénua só à distância, sabe que vive no centro do mundo. Mas por dentro, ah, por dentro, irrito-me miudinho. Há sete pratos, todos variações de comida de rua japonesa. Lembro-me daqueles festivais de comida asiática no Martim Moniz. Subitamente, apetecia-me que houvesse um voo low cost para o Martim Moniz. Mas estar longe é a combinação perfeita para mim.

Dia-a-dia transitório. Ser estrangeira, laowai, macaca branca (白猴子) quando me sento em mesas de reuniões de empresas das quais não sei o nome em troca de uns yuans extra. Este sítio, é o sítio ideal para se irritar involuntariamente, para quem tem transtornos já embutidos na personalidade, tão transtornada sempre que apanhei um transtorno de personalidade. Gosto desta cidade patológica onde se aprende todos os dias um novo sentido para a vida. Com a sua morfologia urbana altamente variável. Além de nós, só existem as nossas experiências. A minha auto-imagem, reflexo de elevação vertical da base para o mais alto ponto da arquitectura ou elemento integral estrutural do prédio com anúncios em Led, belas jovens de farda sorridente publicitam as bebidas de que Mao gostava. Jovens de farda comunista com maquilhagem. Paradoxos, mais paradoxos. Esta cidade é o episódio dissociativo de ontem à noite no bar clandestino, aberto noite fora e dia dentro. A fuga psicogénica na praça de Tiananmen. Estendo-me agora no meio da praça e sou descontínua.

Hei-de abandonar-te antes que me abandones, cidade! Tenho técnicas, sei lidar com isto, toda eu psicanálise até ao cabelo. Acusações essas de ser doente mental só porque me afeiçoei demasiado ao hipertexto, pu-lo num pedestal! Sei perfeitamente que Barthes ia amar esta opressão da mesma forma que eu. É aqui que estou bem, a mover-me por áreas urbanas polarizadoras em constante mutação da percepção de estímulos exteriores. Aglomero as noites de poesia sobre a cama, o quarto enfeitado com um neon que diz “espetadas” em rosa fluorescente comprado no taobao. No parapeito da janela, tenho uma placa que diz “Flowers are nice”, trouxe-a de uma loja de recordações na zona de Gulou. Nice é o pátio da galeria de arte para se fumar e beber Qingdao toda a tarde, romanizar em pinyin sempre e falar de arte, da arte dos trabalhadores migrantes das fábricas mas entretanto temos galerias de arte ocupadas por bolsas de apoio à criação artística do Instituto Goethe. Nunca ouvi as alemãs a falarem de gentrificação. Como digo, há coisas das quais não se fala nesta cidade. Há dragões informáticos descontrolados, nocivos, respirar aqui é nocivo mas nós estamos viciados. O estrangeiro chega aqui e fica toxicomaníaco. Há sete anos estive neste fenómeno muralhado e constatei algo único: a instabilidade, o vazio, não está só cá dentro, está também cá fora. Eu sou este lugar. Eu sou.

Sete cervejas, oito poetas que acham que isto é uma religião. Transitar,crush and run em fuga dos seus transtornos, vestidos de paranóia. Em busca de uma personalidade qualquer algures num lugar de aluguer. Uma personalidade de aluguer. Sem estigma, só amor. Sentimento puro, gentrificado. Sentir que os prédios da cidade também nos crescem para dentro.

24 Jul 2020

A depressão e outros lugares em Neptuno

Fico em casa porque a casa sou eu. Protejo-me nas quatro paredes diagnosticadas com perturbações mentais. Alguém me disse que se um esquizofrénico e um borderline (limítrofe) fossem para uma ilha, o esquizofrénico continuava a ser esquizofrénico mas o boderline não iria revelar sintomalogia.

O seu pilar intermediário influente é calculado pela armadura interpessoal. O cálculo da armadura de flexão em vigas nem sempre considera a largura do pilar intermediário influente. Isto é, se a casa for o silêncio e o pensamento o turista que aproveita o alojamento local para experimentar novas identidades, o escoamento de ideias pode perfeitamente fazer-se pelo saneamento público das convenções sociais, sem demais complicações. É isso, sonho em ser lugar-corpo fragmentado entre geografias. Extraterrestre holístico. Não dá. Tenho de tomar a fluoxetina, fluxo de palavras nas áreas suburbanas do cérebro. Cá vai: passei pela infância despercebida. Claro, havia censores pendurados ao longo dos corredores que iam dar aos outros. Palavras que quando chegavam já vinham em ferida ou, se não feriam, pousavam em feridas como álcool. Ardia. Quando ardia, eu gritava. Qualquer um gritaria. Mas para quem passa na rua e ouve esta gritaria toda dentro de casa, não compreende, enerva-se. As vigas estão lá, está tudo pintado, porque é que esta casa tão normal é tão imprevisível. Barulhenta. Música sempre muito alta na cave dissociativa, janelas que se partem sozinhas porque autodestrutivas, flores a crescerem na extremidade dos transtornos, belas telas penduradas no quarto onde a casa vai para se abandonar continuamente.

Que casa é esta que não sabe o que ser, sendo sempre tanta coisa e nada em simultâneo? Às vezes, tem toda a mobília que consegue comprar, rebenta pelas costuras de tanta estante, arcas, peças em estilo Hepplewhite, cómodas, toucadores, cadeiras sem espaldar, chaise longue para a psicanálise doméstica. Outras é só vazio. Ouvem-se martelos a destruir paredes de pladur, alcatifas rasgadas com as mãos.

– Habitará ali algum demónio? Perguntam-se os vizinhos. – Será ele quem cuida do jardim?

Alguns dizem conhecer um jardim tropical que rodeia aquela casa, com aves-do-paraíso, hibiscos, orquídeas fluorescentes. Várias pessoas relatam a visão deste jardim. À entrada lê-se numa placa romântica “Neptuno”. É um jardim único, soberbo, sobrepõe-se a muitas das coisas já conhecidas. Muitos, nunca o encontram.

A personalidade, essa, que é suposto ser fixa, definida, perturba-se ou, noutras palavras, propõe-se a transformar o acto de perturbar – temporário, por natureza – num acto fixo: um distúrbio. Há escadas entre os factores genéticos do ladrilho. Há estruturas cerebrais específicas para lidar com determinados comportamentos emocionais, como o Sistema Límbico. O limbo, núcleo rochoso ao redor do trauma, esse lugar fora dos limites do céu onde não existe a remissão do pecado (original?) mas existem diversas camadas de nuvens, tempestades ciclónicas. Neptuno não consegue receber a radiação solar necessária para fornecer energia às elevadas turbulências da sua atmosfera. Assim, é esta casa-corpo, mente erigida por um qualquer arquitecto de Neptuno, misantropo e empático, violento e frágil. Um paradoxo consciente. Vou para a cama com o arquitecto, antagonista dos receptores dopaminérgicos. Mantemos afinidade com os receptores serotoninérgicos. É agora que vou tratar das orquídeas. Em Neptuno, rego orquídeas contínuas, num jardim tropical, Jardim-Ilha onde sou sã para sempre.

3 Jul 2020

A arte de cuspir

Permitam-me fazer uma breve apresentação ao título deste segmento: expectoração. Expectorar: expelir pela boca. Mas se esquartejarmos a boca, expelimos pelos dedos. Se uma linguagem colonial desenvolve o discurso, os objetos estreitam, tornam-se mais fugidios. O pós-modernismo, anti-lírico, temido. Em que época estamos, afinal? Qual é o ano com qual nos maquilhamos, ocupamos rostos inéditos, repetimos lutas e repetimo-nos enquanto terreno nu, sedutor na retificação do passado mas infértil porque absurdo. Sentado ao computador com o perfil aberto, um Sísifo a empurrar um pedregulho que lhe reflete a imagem. Uma selfie de Sísifo como ecrã de bloqueio do iPhone. Expectorar é o mesmo que cuspir axiologias.

Um homem trabalha há quarenta e oito horas a pôr cimento em tijolos nos subúrbios de Pequim, dirige-se para a residência comunitária onde tem uma cama num beliche, apanha a linha púrpura que custou mais de mil milhões de yuans por metro. Está sujo, exausto, não toma banho há vários dias, transpira há várias décadas, não dorme porque não existe sono que lhe chegue. Desce com sacos de massa de cimento pelas escadas até ao metro, passa pelos seguranças que já não olham para as pessoas, indiferentes, democráticos na indiferença e em mais nada. O homem encontra-se com outros migrantes da construção civil. Vêm de províncias rurais, remotas, pobres.

Na reluzente, límpida, organizada carruagem do metro com voz de menina-moça kawaii (ke ai), a fazer avisos vários.

Uma jovem de cabelo azul com um rolo na franja afunda a cara no telemóvel. Usa uma app que lhe diz em que partes dos filmes pode ir à casa de banho sem perder nada de especial.

No banco da frente, quatro estudantes do secundário com sapatos da gucci e óculos de armação coreana, ouvem Lil Wayne, não falam coreano nem tão pouco inglês.

Os homens pousam os sacos de massa de cimento como quem pousa o cansaço, como quem assume com um estrondo que nada espera da vida. Indiferentes a modalidades narrativas, o homem exausto puxa o escarro, a voz fofa anuncia a ligação da linha púrpura com a linha verde, quase a chegar a Chaoyang. Entra mais gente. Gente como areia. O homem escarra um escarro a vários decibéis de Lil Wayne com as últimas notícias sobre as novas parcerias comerciais de Xi em África num led. Se um homem fétido escarra numa carruagem de metro em Sanlitun em hora de ponta, terá realmente escarrado?

A expectoração pendurada pelos órgãos, derretida à saída do tasco, baijiu escarlate no focinho do escritor a quem a expectoração mete nojo. Um inventário artificial de palavras sempre disponíveis porque não é casado. O escritor-filósofo define o homem como uma galinha sem penas mas só o migrante entende Diogenes, come a galinha, cospe as penas. O verdadeiro kynikos não aparece nas tertúlias de loiros hispters solitários, inebriados de exoticidade. Aqueles que tocam Punk Rock no Templo: topopoligamos de cerveja artesanal em punho em hutongs onde se defeca com uma intimidade intimidante com o chinês desconhecido, agora íntimo. Tão descontraído que nos faz vergonha ao pudor prepotente.

Escarra enquanto defeca e nós só desejamos conseguir fazer o mesmo, atingir esse patamar onde só chega o autêntico. Expctoração-distúrbio acusada de autonegligência involuntária só porque dispensa confortos. Todo o conforto é inútil.

19 Jun 2020

Como se sentar à mesa com um parente racista

Ter um parente racista com quem se tem de almoçar ou jantar, muitas vezes, por força das circunstâncias, pode ser altamente indigesto. Ainda as primeiras lascas de bacalhau estão a atravessar o esófago e já se ouviram termos como “ciganada” ou “pretalhada” e o sistema nervoso dá logo sinal ao estômago para que pare subitamente de produzir os líquidos gástricos necessários à digestão.

Sim, almoçar com um parente racista é indigesto. Mas pode também ser uma oportunidade de observar em primeira mão um dos fenómenos mais difíceis de explicar dos nossos tempos: a ascensão ao poder de personagens populistas extremas tendencialmente de direita mas sobretudo de seja-o-que-for-que-dê-votos.

O parente racista tem determinadas características passíveis de serem identificadas. Por um lado, é alguém que nunca teve problemas com quaisquer minorias étnicas mas, por outro, é alguém ávido por possuir uma opinião, um ponto de vista sobre qualquer coisa – uma identidade. Um enorme vazio existencial é preenchido com o consumo massivo de notícias. Mas só consumir, não chega. Face à crise identitária, o parente racista necessita de exibir os conhecimentos teóricos que a visualização intensiva da CMTV lhe conferiu.

Eu sei, eu sei que é demasiado batido acusar a CMTV de todos os males deste país mas esperem, eu vou oferecer uma alternativa. Permitam-me que analise o parente racista à luz do…. iluminismo. Sim, esse movimento intelectual e filosófico da Europa do séc. XIX. Um movimento de enorme relevância: desde o contrato social (Lock) até aos direitos individuais (Hobbes), passando pelos ideais de igualdade (Rosseau).

Mas pouco virado para a democracia representativa. Os iluministas acreditavam que a governação não deveria ser uma preocupação do cidadão comum. Tragam daí um Leviatã que ele trata do assunto. Voltaire sugeriu que se fizesse assim: um rei governava na mesma só que em vez de ser um rei estúpido que estava ali por descendência, punha-se a governar um rei-filósofo. Um rei filósofo, como ser intelectual e, lá está, iluminado, seria um líder exemplar – pelo que mais ninguém se precisava de preocupar com isso da política.

A fantasia de uma sociedade que naturalmente se gere de forma justa porque segue apenas o que é racional e científico e que opera através de sistemas legais baseados no mais lógico interesse mútuo, exclui sistematicamente a participação política porque é, supostamente, auto-sustentável. E, como veio apontar bem Arendt, essa participação não é apenas um direito, ela é uma fundamental experiência humana. A ideia de que o homem comum deve prestar-se exclusivamente ao desenvolvimento da economia, ocupar a sua função na sociedade através do seu trabalho define-o, não pelo que é, mas pelo que faz.

É através da discussão política e da educação cívica para a participação ativa no âmbito público que o indivíduo se define, se enquadra, reflete sobre os seus próprios valores, as suas crenças, ou seja, encontra uma identidade. Na esfera privada, o homem defende a sua sobrevivência biológica. Na esfera pública, o homem pode pôr em causa a sobrevivência por uma causa. A participação política é o espaço de afirmação e reconhecimento de uma individualidade discursiva.

O parente racista cresceu, provavelmente, numa sociedade onde a educação (se teve o privilégio de a ter) não lhe permitia qualquer tipo de pensamento crítico, muito menos lhe dava sequer a possibilidade de participação política. Á falta de uma educação para a cidadania e participação ativa em sociedade, em adulto, o seu acesso às ideias políticas foi-lhe fornecido ao jantar pelos telejornais, com as suas agendas nos condimentos.

A crise de valores, a falta de opiniões, a incompreensão do mundo levaram-no a procurar ideias de rápido consumo, simples, prontas a servir como aperitivo para um espetáculo deprimente onde o parente exibe o seu Eu com discursos de ódio e uma identidade importada das piores fontes.

Como se sentar à mesa com um parente racista? Empatizando com o objeto de estudo que ele é porque afinal, de pessoa, ele tem muito pouco.

5 Jun 2020