A candidata política

Olho para o espelho – será o vestuário realmente importante? Fiel aos meus princípios pessoais, não me iria preocupar muito com a percepção externa de uma determinada indumentária. Mas há padrões, procedimentos, convenções que eu neste momento represento. É isto ser-se política (somos todos políticos), olhar para os processos e mecanismos de aplicação de medidas, tendo em conta um princípio ético bem estabelecido, profusamente fundamentado.

Grelhas de leitura da realidade que nos permitam aplicar conceitos operantes a todas as situações, sem excepção. Todas elas têm de ser contempladas, isto é, sobre elas devo ter uma opinião. A camisa azul propõe responsabilidade, as calças de ganga falam de aproximação, o sorriso tem os acordes da empatia. “Bom dia, posso deixar um panfleto?” Logo se erguem alguns olhares curiosos, outros monótonos. Outros que sintetizam uma declaração de interesse “não tenho tempo para isto, não sei”. Raros aqueles que em sintonia me desejam força e bom trabalho. Pontuais aquele olhares que já falam mas que precisam agora das cordas vocais em desarmonia “vocês são todos iguais, ladrões!” (somos todos políticos). O ativismo não é pago, mas muita gente não parece saber disso.

“Estás a subir na vida!” diz-me um parente distante que já não via há alguns anos. Viu-me numa capa de um jornal. Um obscurantismo em relação à minha função, provavelmente, um desconhecimento do funcionamento do sistema que também a ele enquadra. Será também essa a ignorância daqueles que me pedem ajuda quando os visito em nome colectivo, ou podemos atribuir estes pedidos a uma esperança última perante o desânimo, a lentidão necessária à mudança? Eu compreendo as suas atribulações e proponho uma visibilidade exequível. Não estou, contudo, numa posição de poder efetivo. Uma cara num cartaz é só uma cara num cartaz. É o voto que faz a diferença.

Reconheço os laivos de perceção de autoridade e poder nessa pose constrangida, algo diletante, dentro dos cânones expectáveis da representação de uma possível figura política. Mas como explicar que o meu poder só é poder com o vosso (somos todos políticos). Na preparação para a disputa, observo os meus adversários. Como se apresentam, que ideias realçam e quantas contradições me será possível apontar num debate sem que me acusem de beligerância desproporcional. Percepções (nem todos somos políticos) o trabalho não é apaixonante, mas preciso da atenção – aquela que me permita comunicar com aqueles para quem o dia-a-dia se faz pela vida privada porque o tempo é escasso, a existência é dura à base de instintos básicos de sobrevivência, não de citações de Pickettii.

“O que conta é a pessoa” e serei eu pessoa suficiente sem trazer em mim convicções e modelos, trabalho de investigação, uma atitude estóica perante a gestão particular de um coletivo com as necessidades universais do indivíduo? Uma cara num cartaz, bonita, feia, responsável, insana – mas nunca será suficiente personificar um conjunto de ideias. Olho para o espelho e este devolve-me o mundo com todas as suas tentativas de simplificação do complexo. Aquela nem sempre sou eu e desta vez sou todos.

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