Sedução e sucesso

Poderia dizer que era um guilty pleasure, mas não tenho por hábito contrair compungimentos por dá-cá-aquela-palha. Gosto de trap, sobretudo feminino. Cardis, Megans, Nickis, entre outras amazonas de beats e letras bandoleiras, de uma marginalidade tão plástica como os seus corpos. Não são mensagens bonitas mas são mensagens aguerridas, cheias de violência áspera onde o corpo é tantas vezes utensílio sexual instrumentalizado para a obtenção de lucro e poder. O que eu quero dizer com isto é que, sim, a maior parte das letras destas mulheres do hip-hop são um enaltecimento à prostituição. A desproblematização do corpo feminino enquanto objeto. Não um objeto que é imposto pelo olhar masculino, antes um objeto que parte de uma situação de delegação de autoridade à própria mulher promovendo a sua emancipação. Com ele, traz o desmantelamento das prisões puritanas onde a mulher é, frequentemente, reduzida à sua candura condescendente, pueril, estado do que é geneticamente singelo. A apropriação que estas artistas fazem do uso do corpo como ferramenta acaba por ser, simplesmente, a celebração de uma prática humana – nada menos do que isso. Talvez nunca antes tão ostentada e celebrada. Houve épocas em que a prostituição era detida com relativo respeito. Evoquemos Paris em finais do século XIX. Lembremos personagens como Valtesse de La Bigne (1848 – 1910). Ainda que operando no universo demi-mondaine da sociedade, a cortesã francesa atingiu uma reputação irrepreensível junto dos artistas da época através dos seus serviços de cortesã (AKA prostituição de luxo).

Sabemos que o final do século XIX na Europa fica marcado por um crescimento industrial e consequentemente económico sem precedentes. O desenvolvimento da tecnologia e da ciência permeavam agora o temperamento dos artistas com determinismo e positivismo. A lógica e a ciência permitiam o livre questionamento da existência de Deus. Livre das restrições de um modelo social puritano de índole teocrática.

Apesar da persistência de um plano de existência demi-mondaine, a prostituição era encarada como uma carreira. As troupes de ballet eram antecâmaras de exploração sexual para homens com posses que, até porque estava na moda, arranjavam sempre uma ou duas bailarinas de quem se tornavam “patrocinadores” (sendo que o patrocínio era pago com o corpo das mulheres de belas pernas).

Valtesse de La Bigne foi, provavelmente, a cortesã das cortesãs. De dia, estudava ciências sociais, lia poesia, analisava romances. De noite, seduzia os homens das elites artísticas e políticas da sociedade parisiense. A Courtisane du Tout-Paris pousou para Édouard Manet e Henri Gervex e serviu de inspiração para personagens de Émile Zola, Théophile Gautier ou Edmond de Goncourt. A sua cama foi assim descrita por Émile Zola no romance “Nana”: “Uma cama nunca antes vista, um trono, um altar onde Paris passou a admirar a sua nudez soberana”. Conhecido é também o episódio em que Alexandre Dumas, pedindo acesso aos aposentos de Valtesse, levou com esta reposta “Desculpe, mas não me parece que possa pagar este serviço”. Difícil não ligar esta resposta de Valtesse com uma Nicki Minaj a explicar “there’s no such a thing as broke and handsome”.

Para além do seu impacto e influencia nas artes e na literatura, Valtesse tinha uma visão muito perspicaz da geopolítica mundial e aconselhou o seu amante cônsul em Hanoi, Alexandre de Kergaradec, a manter a soberania francesa sobre Tonkin na parte norte do Vietname. Na história da sua vida, podemos ver como o temperamento de Valtesse era tão heteróclito e provocador como os das personas criadas pelas artistas do trap. Esta assunção feminina do corpo e da sedução como vias meritórias de progressão social é muitas vezes encarada pela sociedade patriarcal como uma subversão de valores e a minha questão é, porque não antes celebrada pela mera veleidade fantasiosa que representa? Afinal, já dizia Cardi B na sua música de abertura do álbum Invasion of Privacy: “I ain’t tellin’ y’all to do it, I’m just tellin’ my story”.

7 Dez 2021

A candidata política

Olho para o espelho – será o vestuário realmente importante? Fiel aos meus princípios pessoais, não me iria preocupar muito com a percepção externa de uma determinada indumentária. Mas há padrões, procedimentos, convenções que eu neste momento represento. É isto ser-se política (somos todos políticos), olhar para os processos e mecanismos de aplicação de medidas, tendo em conta um princípio ético bem estabelecido, profusamente fundamentado.

Grelhas de leitura da realidade que nos permitam aplicar conceitos operantes a todas as situações, sem excepção. Todas elas têm de ser contempladas, isto é, sobre elas devo ter uma opinião. A camisa azul propõe responsabilidade, as calças de ganga falam de aproximação, o sorriso tem os acordes da empatia. “Bom dia, posso deixar um panfleto?” Logo se erguem alguns olhares curiosos, outros monótonos. Outros que sintetizam uma declaração de interesse “não tenho tempo para isto, não sei”. Raros aqueles que em sintonia me desejam força e bom trabalho. Pontuais aquele olhares que já falam mas que precisam agora das cordas vocais em desarmonia “vocês são todos iguais, ladrões!” (somos todos políticos). O ativismo não é pago, mas muita gente não parece saber disso.

“Estás a subir na vida!” diz-me um parente distante que já não via há alguns anos. Viu-me numa capa de um jornal. Um obscurantismo em relação à minha função, provavelmente, um desconhecimento do funcionamento do sistema que também a ele enquadra. Será também essa a ignorância daqueles que me pedem ajuda quando os visito em nome colectivo, ou podemos atribuir estes pedidos a uma esperança última perante o desânimo, a lentidão necessária à mudança? Eu compreendo as suas atribulações e proponho uma visibilidade exequível. Não estou, contudo, numa posição de poder efetivo. Uma cara num cartaz é só uma cara num cartaz. É o voto que faz a diferença.

Reconheço os laivos de perceção de autoridade e poder nessa pose constrangida, algo diletante, dentro dos cânones expectáveis da representação de uma possível figura política. Mas como explicar que o meu poder só é poder com o vosso (somos todos políticos). Na preparação para a disputa, observo os meus adversários. Como se apresentam, que ideias realçam e quantas contradições me será possível apontar num debate sem que me acusem de beligerância desproporcional. Percepções (nem todos somos políticos) o trabalho não é apaixonante, mas preciso da atenção – aquela que me permita comunicar com aqueles para quem o dia-a-dia se faz pela vida privada porque o tempo é escasso, a existência é dura à base de instintos básicos de sobrevivência, não de citações de Pickettii.

“O que conta é a pessoa” e serei eu pessoa suficiente sem trazer em mim convicções e modelos, trabalho de investigação, uma atitude estóica perante a gestão particular de um coletivo com as necessidades universais do indivíduo? Uma cara num cartaz, bonita, feia, responsável, insana – mas nunca será suficiente personificar um conjunto de ideias. Olho para o espelho e este devolve-me o mundo com todas as suas tentativas de simplificação do complexo. Aquela nem sempre sou eu e desta vez sou todos.

29 Out 2021

Como dizer as coisas

Já percebemos que as vacinas, embora extremamente eficazes na prevenção da doença grave por COVID, não serão capazes de impedir por completo a sua propagação. Já percebemos também que a sua eficácia diminui ao longo do tempo e que provavelmente serão necessárias doses de reforço para manter a imunidade a níveis satisfatórios.

Apesar de tudo isso, já percebemos também que funcionam. Não tanto como provavelmente gostaríamos, mas funcionam.

Pela primeira vez na nossa vida estivemos a assistir em directo ao acontecimento da ciência enquanto processo. Normalmente temos acesso somente aos resultados: os primeiros passos do primeiro homem na lua, a primeira vez que alguém enviou um e-mail, a primeira radiografia. Não é costume termos acesso ao backstage científico, onde as pessoas noite após noite se descabelam sobrecafeinadas diante de monitores obstinadamente mudos. Por detrás de cada sucesso científico estão décadas de pesquisa, de acidentes fortuitos, de desilusões e de frustração.

A natureza peculiar do nosso tempo, onde tudo existe ao mesmo tempo em todo o lugar, permitiu-nos acompanhar os «ensaios» deste peculiar concerto a que podemos chamar «vacina». A banda prometia muito, apesar de pouco ensaiada – são, afinal, músicos de topo. As expectativas relativamente ao disco eram tremendas – dizia-se que podiam mudar o curso da história (o que provavelmente, aconteceu, dado se ter utilizado o método de RNA mensageiro numa vacina com sucesso, pela primeira vez). Mas também nos foram dados a ver os muitos tropeções no processo, o reajustamento de expectativas, as desarmonias pipocando aqui e ali. O resultado final, sendo muito bom, fica ainda assim aquém do esperado.

Não há nada de errado nisso, nada que seja necessário mudar em todo o processo de criação. A banda não tem culpa. A banda pode continuar a fazer o que sempre fez: ensaiar dia e noite para nos entregar o melhor som possível.

Podemos – e deveríamos – rever o processo de comunicação, no qual não faltaram incoerências graves, indecisões incompreensíveis e muita paternalização pouco ou nada disfarçada. Houve alturas em que as pessoas responsáveis pela comunicação do estado-de-coisas nos fizeram sentir como criancinhas tontas e incapazes de lidar com a verdade e com o que esta poderia exigir de nós. Talvez essas pessoas tenham lido pouca ou nenhuma história; esta está repleta de exemplos onde aquilo que nos foi exigido ultrapassou largamente o sacrifício de estar em casa duas semanas ou ir ao supermercado de máscara. Mal ou bem, sobrevivemos. Estamos aqui. O mínimo que nos devem é a verdade.

Suponho que o hábito performativo, sobre o qual se constrói toda a política contemporânea, seja um gesto de difícil desapego, mesmo numa altura de crise. Mas é absolutamente necessário que retiremos desta pandemia – agora que já nos é possível respirar um pouco melhor – conclusões ao nível da gestão da comunicação. Os políticos, gestores e técnicos responsáveis por todos os dias nos fazerem chegar os números da crise e as orientações relevantes devem fazê-los partindo do salutar princípio de que o cidadão que é a capaz de contribuir com os seus impostos para a criação de uma sociedade mais justa também é capaz de compreender e aceitar, mesmo que a contragosto, a necessidade de fazer alguns sacrifícios individuais para a segurança de todos. A infantilização do recipiente da mensagem política é um processo tão desonesto como perigoso, pois acaba por abrir (mais) frechas na já de si pouca confiança existente no diálogo políticos – sociedade e, à força da insistência em nos tratar como crianças, acabamos por agir como tal. Os cientistas esses, que continuem a ensaiar. Com menos acesso descontrolado ao backstage, por favor.

18 Set 2021

As Supermães

“Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.”
José Luís Peixoto, ‘Em Teu Ventre’

 

Supermães ou em inglês “Workin’ Moms” é uma série cómica canadiana de 2017 criada e protagonizada por Catherine Reitman. Para mim, o interesse da série reside na forma como encara a mãe enquanto mulher e não enquanto mãe como função única. De facto, coloca em causa a transformação total da mulher em mãe como figura secundária de si mesma. Se calhar, por vezes, demasiadas vezes. A verdade é que ter um filho se torna, inevitavelmente, uma prioridade.

Mas a série cumpre a sua função de desconstruir narrativas unilaterais sobre o processo. As representações na cultura sobre o papel da mãe costumam agregar-se a conceitos de famílias tradicionais idealizadas acompanhadas de falsas crenças de felicidade para sempre. Três dos casais da série se separam no primeiro ano após o nascimento de um bebé. Estatisticamente, um quinto dos casais separam-se nos primeiros 12 meses depois de ter um bebé.

À medida que voltamos para um estilo de vida mais sustentável, não podemos, contudo, viver em permanente culpa porque não cozinhamos sempre, porque utilizamos treino de sono, porque por vezes só queremos descansar enquanto o rebento brinca sozinho. A vida é caótica, a ambição individual é humana e as lutas pela igualdade necessárias. Gosto da forma descomprometida como a série aborda temas tabus como o das mães que não querem ser mães. Podem não querer ser mães durante um dia ou podem desistir e abandonar os filhos. Estão condenadas à culpa. A culpa é um sentimento primordial numa mãe.

Há qualquer coisa de terapêutico em perceber que esse sentimento é válido. Podemos ser heroínas incompreendidas como a Kate ou pessoas que precisam de lidar com toda a sua própria bagagem psicológica enquanto desempenham a função de mãe como a Anne. Resta-nos fazer este tremendo progresso de aceitar como fantasioso o conceito pelo qual regemos as nossas vidas – a noção de “escolha certa”. Se por um lado, faz parte da condição humana precisar de amor, também é um facto que faz parte da condição humana ser miserável. Está para nascer quem tenha passado pela vida imaculada.

As mulheres que têm filhos vão, a determinada altura, sentir-se desapontadas consigo mesmas porque não conseguem ser as mães ideais que vivem nas suas fantasias. Vão sentir-se desapontadas com aquilo em que os filhos se tornam e sentir culpa, exaustão, um sentimento de oportunidades perdidas, falta de reconhecimento pelo seu esforço.

Há mães que acreditam que ao terem filhos limitam-se a perpetuar o sofrimento humano. Por outro lado, aquela que decidir não ser mãe vai sentir-se, a determinada altura, sozinha e aborrecida. Vai ser constantemente questionada por todos em relação à sua opção e ter de lidar com a pressão social. Vai ser perturbada por um sentimento de saudade e de oportunidade perdida nos seus últimos dias, onde imagina o que seria o conforto de ter filhos.

Em “Supermães” ser mãe não é diferente de ser outra coisa qualquer. A vida traz-nos desafios e faz-nos questioná-la. Devemos é destruir o conceito de “escolha certa”. Existir não foi uma escolha. E aqui estamos a continuar a existir, criando ou não outras existências.

16 Set 2021

A democracia não nos prepara para a ditadura

Era uma menina bem comportada, como as meninas têm tendência a ser. Uma longa tradição de família em ter-se orgulho na demonstração de competências cognitivas, sobretudo femininas. Menos mal, não me educaram para ser a melhor, apenas para nunca atingir um nível de vergonha própria e alheia. É verdade, por vezes até anexava um bocadinho o meu sentido de valor próprio aos números que iam surgindo. Nada de grave, há casos bem piores. Se fazia mal as contas levava reguada (ainda bem que entretanto nos fomos livrando destas técnicas pedagógicas do paleolítico) e quando levava reguada, sabia que professora não estava a olhar para a aluna dedicada e algo talentosa, estava a olhar para as contas mal feitas. Não é como se doesse menos, mas havia um princípio democrático – o castigo era aplicável a todos devido ao resultado de uma ação. Em democracia, queremos igualdade de tratamento e, acima de tudo, objetividade. Havia razões para o castigo – e não vou entrar aqui na discussão da noção de castigo como método porque esse não é o meu objetivo. Se tivesse um bom desempenho nas aulas mas os testes corriam-me mal, a minha nota ia ser uma conta feita através dessa balança. Os critérios de avaliação eram transparentes e isso era importante. Ninguém me dava uma nota com base naquilo que fazia no recreio ou por me vestir toda de preto com pentágonos, nem pela forma como questionava os professores. Eram sempre questões que provinham da lógica argumentativa e, mesmo que alguns professores tivessem um pouco mais de dificuldades em lidar com o confronto, ele saia do campo da avaliação de minha performance. A forma como me vestia, a forma como confrontava os professores com alguma injustiça na avaliação ou com matérias fora do programa, não interferiam com a minha avaliação que se regia por imparcialidade, racionalidade e não por emotividade. Justiça e democracia em todo o processo. Ninguém me tinha dito que o mundo do trabalho privado seria uma ditadura! Ok, provavelmente alertaram-me para isso constantemente de outras formas como “vais ver quando começares a trabalhar” ou outro tipo de premonições demoníacas. O certo é que ter começado com uma carreira académica não me tinha preparado para tudo o que me esperava no trabalho em empresas. Se nos formam para acreditar na justiça e no mérito, não nos formam para ter que lidar com estruturas que pouco têm de meritocrático porque a sua atribuição de estatuto depende exclusivamente da relação ao capital e, consequentemente, do poder inquestionável que este lhes confere.

Trabalhei em sítios onde me exigiam que andasse de saltos altos. Fui despedida por ter confrontado a minha chefe mesmo que os números do meu trabalho fossem os mais altos entre pares. Fui guiada em áreas do meu domínio por pessoas sem o menor conhecimento da área. Tal como na escola, tinha tarefas para executar e tentava executá-las.

Contudo, o desempenho de funções numa empresa nem sempre depende da transparência e da objetividade de critérios como numa escola. “É o mundo real” dizem. Talvez. Mas por vezes gostaria que me deixassem a um canto a sonhar com utopias.

30 Jul 2021

Literatura de Outro Planeta – Sayaka Murata

O objetivo da organização social é a manutenção da paz. A manutenção da paz garante a sobrevivência da espécie humana. Qual a melhor forma de organização social? Sayaka Murata é uma autora claramente fascinada por perguntas desta natureza. A sua reflexão é contemporânea e o seu ponto de vista geográfico é o Japão. Japão, esse país com uma vasta tradição de pérolas de ficção científica sobre o conflito espiritual entre a máquina e o humano. Tópico que não se esgota na época da recuperação económica dos anos 80. Não se esgota no manga e no anime que nos rechearam a infância com visões filosoficamente proféticas de distopias tecnológicas. Na realidade, talvez ainda estejamos só a começar a explorá-lo. A autora de “Loja de conveniência” tem um posicionamento muito específico na abordagem à realidade robótica. Não a considera propriamente distópica porque não a considera irreal e, precisamente por isso, também não a considera futuro. Em “Uma Questão de Conveniência” o leitor é convidado a entrar na vida de Keiko que, aos 36 anos, não tem outro objetivo na vida que não, simplesmente, sobreviver. O seu trabalho na loja de convivência é rigorosamente sistematizado. É um procedimento colocado em prática que lhe permite executar determinadas funções durante um determinado período de tempo – que lhe permite determinado salário que é o suficiente para um apartamento minúsculo e para comer. Como uma máquina, Keiko é uma extensão do lugar onde trabalha. Amar ou procriar nada lhe dizem e, no entanto, não consegue encontrar forma de a deixarem em paz. Familiares, colegas, amigos, ninguém compreende a falta de “sentimentos humanos” de Keiko.

Esta capacidade em transmitir uma simplicidade profundamente perturbadora encantou milhares de leitores e garantiu à autora um dos mais apetecíveis prémios literários do país, o Akutagawa.

Em “Terráqueos”, temos uma repetição da grelha de leitura filosófica sobre a ideologia vigente do sistema de organização social. A palavra “sobreviver” é a mais repetida em todo o livro. A autora afirma a sua vontade em ser diferente num mundo de normalidades (e consequente normalização). Desta vez, vai mais longe. Desafia limites que pouca ficção desafiou. Num cenário de um Miyazaki tétrico, a personagem e a sua inocência de pensamento contam-nos uma história de abuso parental, abuso sexual, incesto juvenil e doença mental. Tudo incorporado na existência psicótica do planeta Popinpobopia. O planeta de onde é proveniente um pequeno alienígena que parece um rato fofo que vai dando instruções à pequena Natsuki. Até que essas instruções se traduzem em homicídio, isolamento social e, como cereja no topo do bolo, canibalismo. Este resumo é simultaneamente sinistro e absurdo. Observemos a capa do livro na sua versão inglesa. O tal rato alien, uma fonte quase infantil das letras e umas estrelas. A autora gere assim a fronteira entre a verosimilhança e a metáfora, o literal e a caricatural – e eu diria que aqui está um dos principais problemas que muitos leitores encontram neste livro. É uma abordagem que cairia no chavão do experimentalismo porque não se pode dizer, de forma definitiva, qual é o lugar da autora quando nos compõe a puerilidade macabra destas páginas mas estou convencida que não lhe falta um grande sentido de humor (negro, claro está). Na segunda parte do livro, quando a pequena Natsuki é agora uma mulher na casa dos trinta, vamos encontrar as mesmas problemáticas que vimos já com Keiko – torna-se esclarecedor que a autora pretende debruçar-se com maior profundidade sobre um tema e esse tema é o da procriação. Não diria que o teor da exploração da questão da procriação detivesse em si uma visão intrinsecamente feminista. Em ambos os livros, a construção de um falso casal surge como símbolo externo de normalidade e conformismo perante a vigilância apertada dos outros.

Também neste livro é levantada a hipótese: e se a nossa organização em núcleos familiares for só uma construção social? E ainda que fosse mais simples resumir o livro a esta questão, a verdadeira questão parece-me outra. Para além da crítica ao capitalismo e ao conservadorismo, o livro parece sugerir que o ser humano é movido por um impulso de preservação da espécie que é inane, absurdo. Nesta etapa, o campeonato não é pensar modelos de organização social ou ideologia política, é simplesmente reconhecer que filosoficamente o ser humano é feito por “componentes” de uma “fábrica” da qual nunca será gerente. Sem forma de conhecer o seu verdadeiro propósito, continua a existir porque é tudo o que sabe e, pelos vistos, melhor seria se soubesse antes morrer. Perguntas pesadas entre uma experiência estética e sensorial que estão a chamar tanto a atenção do mundo literário. “Terráqueos” de Sayaka Murata parece um livro de outro planeta e quem não gostaria, eventualmente, de conhecer o espaço?

2 Jul 2021

Faça dinheiro a partir de casa

Já escrevi sobre a geracão Z num artigo anterior. Isto de voltar a um tópico sobre “os jovens” e “os dias de hoje” pode perfeitamente parecer um conflito geracional mal resolvido – um daqueles que prometi que nunca iria ter. Vou antes encarar este interesse como uma forma de estar atenta à mudança e ser capaz de antecipar cenários (económicos, sociais e políticos). O meu sobrinho um dia destes perguntou-me se eu queria fazer parte de uma equipa de “mineração de bitcoin”. Aparentemente, só tinha que lhe emprestar a potência do meu computador para o deixar ligado a “minerar” a moeda digital. A mineração é, basicamente, a resolução de um problema matemático. Quanto mais pessoas existirem numa rede com computadores ligados a tentarem resolver uma equação, como por exemplo x – 2 = 0. O primeiro a chegar à solução “x = 2” recebe a recompensa pelo trabalho. Não é fácil o meu sobrinho convencer os avós sobre isto de tentar ficar rico já aos treze anos usando apenas um computador. Nunca existiu uma época como esta. Uma série de miúdos com acesso a comunidades e fóruns online como o discord, passam informação e conhecimento sobre procedimentos vários que lhes permitem começar a trabalhar quando quiserem, em casa, em frente ao – sim, adivinharam- computador. Mas se a existência digital é nova, o ditado é antigo “dinheiro gera dinheiro”. Aquele que conseguir convencer elementos da geração que o precede em relação à sua visão de negócio digital, pode mesmo vir a ter capital para investir. A partir daí, tudo vai depender de quantos vídeos viu no YouTube sobre como investir em criptomoedas, liderar esquemas de pirâmide, fazer marketing social ou aprender a vender coisas que não lhe pertencem. Perguntam-me os leitores muitíssimo interessados neste texto: como assim, vender coisas que não lhes pertencem? O termo é “dropshipping”. Numa forma de comércio tradicional, um vendedor vai fazer compras ao retalho e revender com a sua margem de lucro. Nesta fórmula, os produtos são também exibidos num website criado pelo jovem que entende de internet. Nesse site, ele coloca fotos e informações do produto e torna-o disponível para compra. Só que não o tem! As fotos e as informações foram retiradas de plataformas de e-commerce chinesas como o aliexpress ou o Alibaba e quando um pedido cai no website do revendedor, ele encomenda nesses sites e entrega ao consumidor final. O segredo do sucesso deste modelo passa pela observação minuciosa do comportamento das pessoas online. Existem sites que revelam exatamente toda a informação que o Facebook, o Instagram e o Tiktok têm sobre quantas pessoas reagiram a uma publicação para um produto específico (produtos de nicho). Ao analisar a tendência de interesse, o revendedor vai investir com pagamento de publicidades, criação de websites, lojas online, etc. Há tempos, estavam em voga uns calções de banho que mudavam de cor quando uma pessoa entrava na água.

Afinal, é possível montar um negócio lucrativo sem acabar o secundário? De facto, para se ser rico, não é preciso saber-se muito mais sobre o mundo do que aprender a reproduzir lógicas de acumulação de capital e exploração de mão de obra. É desta forma que se alcança o sonho capitalista, desvalorizando qualquer tipo de experiência que não conduza a uma produtividade material. Resta-nos desejar que as artes, humanidades e ciências sociais (menos “produtivas”), permitam aos jovens serem jovens e que este continuem, como é seu papel, a sonhar em mudar o mundo e não a deixá-lo como está em nome do benefício próprio.

18 Jun 2021

Golos políticos

Ele está em todo o lado e é todo-poderoso. São milhares de seguidores em histeria colectiva nas ruas e outros tantos em histeria privada nos seus sofás. São ligas e taças nacionais, ligas e taças europeias, são os festejos da Champions e vem aí o Euro! Homens a baterem em mesas de cafés com a saliva a escorrer-lhes pelas mãos. A soltar uivos selvagens quando o seu clube atira a bola para dentro da rede. Os grupos de ingleses bêbados a sorrirem de forma animalesca para as câmaras de televisão, a destruirem esplanadas inteiras. Quando um fenómeno colectivo não nos diz pessoalmente muito, é inevitável achá-lo irritante.

E eis que a sua origem milenar, como tantas origens milenares deste mundo, é chinesa. De acordo com a FIFA, o Futebol nasceu na China da Dinastia Han e deriva do Cuju, um antigo jogo de bola chinês. Na Europa, chegou a incomodar Eduardo II de Inglaterra que teve que impor restrições à prática do futebol em 1300 para que os seus soldados parassem se de dedicar à bola e treinassem mais tiro com arco, bem mais útil militarmente. Mas o desporto tem esta faceta da união, dentro da sua rivalidade. A União Europeia antes de ser uma aliança militar ou entidade económica deveria ser, de acordo com Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros francês e arquiteto do projeto de integração europeia, uma comunidade cultural. As identidades culturais costumam formar-se em torno da literatura, do cinema ou da música. Contudo, o factor da diferença linguística torna-se neste caso um divisor irremediável. Então os sociólogos voltaram-se para o desporto eleito e para a forma como este se tornou um valor transnacional, capaz de fazer com que os povos exercessem assim, de forma mais pacífica, o seu nacionalismo, a exibição da sua identidade colectiva, o depósito na competição desportiva de uma intrínseca necessidade humana de pertença. Foi assim criada a UEFA e a atual Champions League. Jogos que cruzam o leste e o ocidente, uma expansão progressiva do espaço europeu onde se incluem países como a Islândia, a Turquia ou o Azerbaijão. É preciso acabar com a narrativa ingénua que separa completamente o futebol da política porque, se por um lado o futebol transcende a política, ele também lhe pertence. Na ultima década temos assistido à crescente desigualdade entre clubes que se baseia, puramente, na crescente desigualdade económica. O futebol é também espelho do que se passa no resto da sociedade. Corrupção, evasão fiscal, lavagem de dinheiro, tráfico humano, crime organizado. Este espaço de integração que devia pertencer ao colectivo é também refém de interesses privados e políticos. Na Turquia, com o aproveitamento partidário de Erdogan. Na Hungria, onde Viktor Orban decidiu fazer um movimento para tornar o futebol húngaro “Great Again” e reforçar severas leis anti-imigração. Nas máfias conhecidas cá da terra. Se por um lado, o futebol é união e manifestação de identidade coletiva, ele também é manipulação e fator de exclusão. Durante o período da revolução industrial, quando as mulheres começaram a exercer trabalhos nas fábricas até ali só exercidos por homens, tornou-se comum ver grupos de mulheres a jogarem futebol. Mas a Associação de Futebol considerou que o jogo, aos pés das mulheres, era incongruente e baniu-o até 1971. Hoje, podemos dizer que as coisas estão mais equilibradas. Sim, estão “mais equilibradas” mas ainda não realmente equilibradas. É inevitável associar o desporto ao género masculino e é essa exclusão estrutural que faz com que me sinta alienada. São grupos de homens a entregarem-se às causas dos seus clubes, de corpo e alma. E eu talvez um dia alcance a pureza de me preocupar mesmo com uma bola a entrar numa rede mas, por enquanto, agradecia que pudéssemos falar de outras coisas.

5 Jun 2021

Fazer ou não fazer

“Não se pode descer duas vezes o mesmo rio, e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela dispersa-se e reúne-se, vem e vai. (…) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos.”
Heráclito de Éfeso

Na minha infância comia amanteigados neste café. Ia buscar tripas de ovos moles a esta barraca. O meu pai estacionava o carro em frente ao mar, precisamente aqui, e passávamos tardes inteiras no carro a olhar para o mar. Ficava no banco de trás às cabeçadas com a minha irmã. Certas coisas mudaram. Puseram outro tipo de corrimãos marítimos para acalmar a violência das ondas. Havia mais dunas e havia mais pinheiros no parque de campismo. A essência é a mesma e eu nunca gostei de fazer só o mesmo. Sempre tive uma tendência natural para o contraditório.

Sempre me pareceu uma das formas mais eficazes de estar na vida: questionar em permanência. Suspeitar de tudo em que toda a gente parece concordar. Se me diziam que as flores eram bonitas, eu ia tentar perceber de que forma não eram bonitas. Se tínhamos que acreditar em Jesus eu ia tentar falar com o padre sobre rituais wicans. Quando me diziam que a paisagem altamente urbanizada não era tão agradável como viver à beira-mar, eu fiz questão de me pôr a trabalhar para transmitir um tipo de beleza menos familiar aos meus conterrâneos. O caos enquanto beleza.

Em Pequim, os meus sentidos colavam-se aos arranha-céus, sobretudo na sua visão noturna. Um céu cinzento, um calor abafado ou um frio seco e, claro, um emaranhado de pessoas, identidades e propósitos. O caos enquanto beleza.

Com o tempo, passei a rodear-me de pessoas que pensavam da mesma maneira que eu. Que sim, que as flores não tinham que ser necessariamente bonitas, que Deus podia ser uma deusa, que a visão mais distópica do mundo pode ser um parque de diversões. Só que chegada a esse ponto em que toda a gente batia palmas ao meu questionamento permanente da realidade, comecei a parar de o fazer. É certo que é para isso que serve a inteligência – colocar-se em infindáveis pontos de vista. Se por um lado, questionar tudo é um bom exercício mental, por outro aceitar que as coisas são como a maior parte das pessoas as vê, é também uma forma de exercer inteligência. Para que conste, não estou a fazer referência a nenhum tipo de relativismo ético. Proponho apenas um lugar de observação em que tudo pode ser o que quiser e eu não tenho necessariamente que me apropriar disso. Aceito sem julgamento todos os atletas de maratonas permanentes em direção ao significado das coisas. Não deixo de me identificar com eles mas passei a aceitar melhor quem decide parar como forma de estar. É falsa essa dicotomia entre fazer ou não fazer. É apenas uma forma de simplificar a realidade mas nada que é simplificado é completamente verdadeiro. Posso sair à rua e cumprimentar os meus vizinhos, mesmo aqueles que parecem relutantes em me cumprimentar de volta. Ter cafés de preferência e outros de que não gosto, como tinham os meus pais e os meus avós antes de mim, aqui, no mesmo sítio. O caos continua a ser belo dentro de mim. A casa pode ser a mesma e o mar o mesmo e as árvores as mesmas mas como diria Heráclito, qualquer tipo de existência é fluida. A casa, o mar e as árvores não são as mesmas todos os dias porque eu não sou a mesma todos os dias.

21 Mai 2021

De Pequim para a alma americana

O primeiro filme que vi da realizadora chinesa Chloé Zhao foi o “The Rider”. Um conto no faroeste contemporâneo que segue a vida de um cowboy num momento de crise. O clássico percurso do herói em busca de significado é introduzido com uma poderosa abordagem emocional e pontua instantes de reflexão com outros de grande empatia.

Uma personagem que nos leva para dentro interpretada por um ator amador que é, ele mesmo, um verdadeiro competidor de rodeios. A dimensão psicológica e intimista do filme permite-nos palmilhar várias questões sobre género e identidade no coração da América. Agora, mais conhecida por Nomadland e os seus inúmeros Óscares, Chloé apresenta-nos uma história com uma estrutura menos clássica mas que recorre a esta técnica de recrutar atores que são a personagem que interpretam. Não é o caso da personagem principal, mas é o caso da maior parte das personagens que surgem no filme. Contudo, a experimentação de Chloé não acaba na técnica de filmagem e de construção das personagens. Sabendo que é pequinense, surge uma questão muito imediata “mas como é possível, uma chinesa descrever com tanta precisão problemáticas da identidade colectiva americana?”. Naturalmente, Chloé teve formação no estrangeiro e viveu em Los Angeles e depois Nova Iorque. Não se propôs, certamente, a explorar estes temas sem neles imergir. O seu trabalho, contudo, deixa bem claro como uma visão externa é tantas vezes mais lúcida do que uma visão interna. Esse distanciamento, tão útil para se abordar diversos tópicos com perspetiva diferentes, sofre, em simultâneo, de uma total ausência de enquadramento. Esse desenquadramento pode ser visível, por exemplo, na sua falta de agendas. Por vezes, em alturas em que os cunhos ideológicos se enfatizam em tudo o que é manifestação pública, é também bom lembrar que a arte não tem que cumprir essa missão. A sua missão não é conduzir pensamento, é antes expor-lhe desafios e envolver os sentidos, mais do que a razão. A jornada de uma mulher pelo luto coincide com as notáveis paisagens do Oeste americano. Se, por um lado, podemos ver a personagem a recusar-se a viver de uma forma que lhe seria mais confortável, por outro, há um sentido de auto-exclusão social intencionado, reforçado e assumido ao longo da breve narrativa. Ela é, como tantos outros nómadas que fazem daquele um estilo de vida, uma refugiada do mercado laboral. Com essa escolha vem a precariedade. Estas são pessoas que se apercebem que existir é suficiente até porque, na maioria dos casos, elas padecem de um incurável sentimento de perda. Não penso que o filme queira, em algum momento, desculpabilizar o estado do mercado laboral. A crueza da exposição sente-se em forma de tensão em todo o filme. Esta desenvolve-se, não em torno do conflito entre personagens mas antes do conflito da personagem principal com todo o seu ambiente. Ela não lhe é cúmplice. Fern não precisa de uma companhia que a volte a tornar estática. O movimento é agora a única realidade possível. Não há glamour em defecar numa carrinha mas há glamour em viver à margem das regras. Viajar como se o que interessasse não fosse o destino mas antes a forma como se viaja – dentro de um permanente pôr-do-sol do deserto. A luz que acaba mas não sem antes projetar um tipo de deslumbramento que qualquer um de nós pode apreciar com todo o luxo dos próprios sentidos.

7 Mai 2021

Ginásio Mental

Li num artigo que a geração Z vai mais ao ginásio. Alcançar uma aparência física desejável beneficia a auto-estima e outra coisa que faz muito bem também é produzir mais likes no Instagram. Conseguir bons ângulos para posar em frente a um telemóvel. Possuir determinados objetos que fazem de nós seres civilizados. Alcançar objetivos que nos atribuam valor, mas, acima de tudo, que sejam visíveis. Passamos de um período a que Walter Benjamin definia como “o culto da arte” para “a arte exibicionista”. Em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica” ele vai mais longe, chegando mesmo a concluir que qualquer forma de exibição é necessariamente ideológica.

Distraidamente ideológica. Afinal, que tipo de pensamento político se consegue expor num post do twitter para além de ideologia pura e dura sem qualquer nuance? E esta personagem que criamos de nós mesmos, o que é que estamos exatamente a vender ao reproduzir mensagens simplificadas até ao tutano? É este o nosso novo produto artístico, nós mesmos, num post? Porque eu quando penso em arte penso no “Quadrado Negro” de Kazimir Malevich. É uma obra que é uma provocação. É pensar a arte enquanto ausência. Ponderar sobre esta nossa existência tão livre que pode até ser tanto que não é nada. Um quadrado negro. É este nível de reflexão que exige algo que está a cair em desuso – a concentração e a deliberação . Num sistema onde um artista tem que se adaptar à forma mais eficaz de produção massiva, perde uma grande parte da sua autoridade enquanto criador. Já não é a arte que nos absorve, nós absorvemos a arte. O artista já não se consegue impor com autoridade porque esse esforço de ir ter com a arte torna-se impraticável. A nossa condição num sistema sócio-político obcecado com a produção material não nos permite parar. Ler ou ir a uma galeria de arte é um ato isolado que requer concentração e disponibilidade mental para que as formulações de ideias tenham densidade. Contudo, se essas várias facetas da vida produtiva nos deixam demasiado ocupados para deixarmos de percepcionar a arte a um nível individual (a arte visual, o livro) e a consumimos passivamente a um nível colectivo como o é o cinema Blockbuster, mas também o é o Instagram e o YouTube, onde vamos enfiar esta coisa massiva que é a subjetividade da experiência humana? Sentir a chuva a cair na pele não é a mesma coisa que ver uma foto da chuva a cair e também não é o mesmo que ver um vídeo da chuva a cair. A chuva a cair na pele só se pode viver, não se pode exibir. Todo este bem-estar físico e bem-estar mental não passa exclusivamente por uma cultura do exibicionismo. Não encontro a autenticidade de alguém numa selfie.

Não compreendo em que altura deixamos de ser capazes de expressar a nossa mais profunda individualidade e começámos a criar, não como quem desafia, mas como quem devolve a todos a sua própria imagem. Ir ao ginásio faz bem mas não nos esqueçamos de treinar também os músculos da mente porque enquanto nos tornamos espectadores passivos de ideias, alguém está, certamente, muito ativo a criar todo o nosso pensamento por nós.

23 Abr 2021

Hackear e Meditar

Quando a mãe olhou para o computador todo desfeito, pegou numa pá para bater no filho de oito anos. O computador tinha sido comprado a muito custo. Uma mãe solteira da classe baixa inglesa não ganhava para aquilo.

Dylan tinha chorado baba e ranho para que a mãe lhe comprasse aquele computador. Vê-lo despedaçado em várias partes foi para ela um grande choque que resultou num enxerto de porrada. Mesmo cheio de nódoas negras, Dylan passou a noite a pé. O computador estava de volta à sua forma original no dia seguinte. A partir daquele dia, a mãe nunca mais lhe bateu. Conheci Dylan já com 35 anos. Comprara uma casa perto de Coimbra e sediara a sua empresa de segurança digital em Portugal. Estava a vir de uma temporada na Suécia que se sucedeu depois uma temporada em Tóquio, mas o lugar que melhor conhecia era a baía de São Francisco. Foi ali que a sua empresa cresceu, no epicentro da fecundidade digital. Quis pôr-me a aprender programação em troca de aulas de português, mas já tenho muito em mãos a aprofundar o conhecimento das programações linguísticas às quais já me dedico. Então, decidiu ensinar-me a meditar.

Se nunca viram o Zuckerberg em retiros espirituais no Hawaii, é porque não andam atentos. De facto, nada como estar profundamente submerso no tecido tecnológico para reconhecer a importância de se ausentar dele. “É preciso manter sempre um sentimento de fundamentação (groundedness)”, dizia-me. Essa necessidade de sentir a materialidade do corpo como um alicerce que se equilibra com o campo da existência mental subjectiva, acabava por ser essencial. Meditar é um processo auto-regulatório da atenção. Executar funções cognitivas complexas corre melhor com menos cortisol no sangue. Não é por acaso que a grande indústria digital está de mão dadas com a neurociência – com nootrópicos a substiuirem os nossos psiquiatrizados receptadores de serotonina cuja fórmula não muda há muitas décadas. Optimização tecnológica é também optimização humana. É apenas natural que as mentes mais curiosas tentem compreender vias alternativas para problemas antigos e essa descoberta possa passar pela medicina preventiva de origem chinesa e indiana que tantas empresas em Silicon Valley estão agora a explorar.

Sobretudo, quando os fundos de investimento cientifico de grandes farmacêuticas ocidentais preferem perpetuar fórmulas ultrapassadas, por exemplo, de antidepressivos (tradozona?). Não é necessário ser-se apelidado de estúpido quando decidimos educar-nos sobre meditações oriundas do yoga, como a meditação transcendental e a meditação budista samatha. A relação entre a meditação e a diminuição de cortisol está comprovada em centenas de estudos fidedignos. Dylan não é um new age de rastas cheio de ametista ao peito. É CEO de uma empresa de segurança digital e hackeava computadores quando era pequeno. Agora, hackeia também a vida. Coloca em causa a nossa arrogância etnocêntrica em relação à supremacia da ciência ocidental e esse questionamento é uma tendência que veio para ficar. Todos devem ter acesso àquilo que a tecnologia de ponta produz em termos de saúde. E essa tecnologia passa tanto por vacinas anti-covid como pode perfeitamente passar pela revisitação dos benefícios da ashwagandha. Só se chega à verdade quando esta é permanentemente questionada. Continuemos a fazê-lo sem pudor e, acima de tudo, sem preconceitos.

9 Abr 2021

Quando eu queria ser um senhor

Quando tinha 15 anos queria intimamente ser um homem de setenta anos. Todas as pessoas que me eram apresentadas como sábias tinham essa característica. Eram sempre homens e, geralmente, idosos. A esta distância consigo ainda recordar o que era acordar todos os dias com vontade de ser um homem idoso. Não estava minimamente conectada à minha feminidade. Ser uma jovem mulher era o oposto daquilo que eu queria alcançar. Eu queria ser mais ou menos, o meu professor de sociologia, homem sábio com as suas grandes barbas como um Lao Zi ou um Aristóteles. Eu queria contribuir para o campo da psicologia como Freud, escrever como Eça, ter ideias como Sócrates. Era também uma altura em que não queria pertencer à minha linha cronológica. Nada que fosse contemporâneo me parecia inspirador. Tinha de voltar ao tempo de Salieri e ser um Mozart, voltar ao tempo de Verlaine e ser um rapaz homossexual que despertou algo de inexistente na poesia. Lembro-me de receber como elogio um comentário de um amigo poeta “tu escreves como um homem”. Eu, enquanto mulher, enquanto jovem, não tinha representatividade na ideia que me era passada de pessoa sábia e intelectual. Tive uma professora de português exímia que nos falava de Natália Correia mas foi só num programa de doutoramento que estudei Hanna Arendt. Antes disso, tinha amigos poetas que me chamavam Sylvia Plath ou na versão nacional Florbela Espanca. Ainda assim, todos os jovens aspirantes a poetas eram Rimbauds, podia ser um Rimbaud feminino ou masculino mas eram Rimbauds. Hoje em dia, dou por mim rodeada de um grande número de mulheres intelectuais. Há mais professoras no ensino superior do que professores e há um número impressionante de poetas portuguesas que atraem diversidade. Recentemente fui publicada numa revista grega acompanhada por poetas como Miguel Manso, Nuno Brito, Tiago Patricio, Luis Felicio. Mas também estou acompanhada por Beatriz Hierro Lopez, Andreia Faria, Tatiana Faia, Raquel Nobre Guerra e Filipa Leal. Para aumentar a diversidade e pluralidade poderíamos integrar autoras como Gisela Casimiro, Raquel Lima, Golgona Anghel, Luiza Nilo Nunes ou Lígia Reyes. A lista seria enorme de jovens poetas provenientes de diferentes contextos e o que importa realçar é a inspiração que essas mulheres são, não só para outras mulheres jovens ou menos jovens – porque não nos interessa o panegírico da juventude, tão embutido nesta realidade mercantilista – mas para a sociedade em geral. Um amigo em Pequim perguntava-me, no seu podcast, que conselhos poderia dar como escritora a um jovem homem neste momento. Segundo ele, muitos homens também se sentem desvalorizados em relação à sua representação entre meios essencialmente mais feministas. Falava-me de problemas como o sentimento de “invisibilidade” numa sociedade que prefere uma figura feminino como adorno. “Um homem nunca é motivo de atenção.” ou o facto do homem ser representado frequentemente como “perigoso” neste discurso. “Quando caminho na rua à noite, vejo mulheres que atravessam a rua, só pelo facto de eu ser homem”. Obviamente, não posso deixar de concordar com aquilo que ele reportava. Também nós já nos sentimos invisíveis quando queríamos ser algo que era, geralmente, um homem. Também nós éramos perigosas e por isso não podíamos votar. Nunca é demais exercitarmos a alteridade. Sem dúvida que uma educação para o humanismo e contra o medo deve sempre estar a par de lutas perfeitamente legitimas. Enquanto as mulheres oprimidas têm uma causa que lhes dá propósito, o homem contemporâneo sente um vazio existencial, tão sintomático do privilégio. Como sempre, disse-lhe, “o mais difícil é ser-se moderado(a)”.

19 Mar 2021

E depois de morrer?

E depois de morrer? O que nos dizem os filósofos?

Para Aristóteles a essência precede a existência, tornando simples a compreensão de uma existência imaterial do ego. Essa essência imaterial é descrita como ininterrupta, sem princípio nem fim, uma vez que não interage com o corpo perecível. Descartes concorda com Aristoteles na sua alegação de que o único ato realmente verdadeiro e que é produzido pela mente é o pensamento. Já Tomás de Aquino concebe a essência humana como uma forma simples, que não se consegue na adição de matéria e forma, existindo nela, contudo, uma estruturação de ato e potência concretizada pelo corpo. O ser estaria para a essência como o ato para a potência.

A chegada do positivismo lógico e, posteriormente, da neurociência, tornam a especulação sobre estes termos um terreno enlameado para a reflexão científica, considerando a experiência espiritual primordialmente ilusória.

Se quisermos espreitar o que os contemporâneos têm escrito sobre o assunto, vale a pena passar os olhos por John Hick. Hick tenta encontrar uma alternativa que não rotule a linguagem religiosa como ilógica. Hick considera a objeção da neurociência insuficiente. Argumenta que os próprios neurocientistas muitas vezes não têm a perspicácia filosófica necessária para interpretar as suas próprias descobertas científicas e que muitos filósofos estão excessivamente agarrados à racionalização, dando uma mera atenção simbólica às descobertas da neurociência, assumindo uma visão de mundo naturalista à partida. O resultado é que se assume praticamente como facto, que a neurociência provou uma visão da existência como meramente materialista quando na verdade as evidências são ambíguas. Para Hick, os seres humanos não foram concebidos num estado perfeito num ambiente idílico, mas sim num processo contínuo de criação e existência multidimensional em que o ser progride através da experiência da morte e ressurreição atravessando estados de imaturidade nas realidades inferiores, até se aperfeiçoar em dimensões sucessoras e atingir o estatuto de moralidade perfeita.

Tendo em conta a característica da potencialidade ligada à identidade passível de ser recreada noutras dimensões, Hick vai buscar uma noção de ligação corpo-mente ou corpo-espirito que se encontra em vários pontos com a concepção de Tomás de Aquino. É, no entanto, impossível não pensar nessa evolução multidimensional da alma sem pensar no que o legado do budismo no deixou. Também no budismo há uma transfiguração do ser na sua própria evolução que parte dos chamados reinos inferiores até à iluminação. Não existe, contudo, a possibilidade da manutenção do ego. Isto é, o ego cumpre a sua função de existência concebida pelo ato mas a sua abnegação torna-se parte de um desempenho essencial para a evolução da existência não material. É precisamente neste ponto do pensamento sobre a ressurreição que me apercebo de uma particularidade: a ressurreição é “praticável”. A ressurreição não é apenas um ato automático se pensarmos que podemos contribuir ativamente através da cognição e da experiência para um aperfeiçoamento do ser. A vantagem dessa prática é que esse aperfeiçoamento pode ser sentido nesta dimensão, à falta de clareza sobre a existência de outras. Estar presente e desapegar-se do ego porque perecível, é uma prática recorrente em grupos de pessoas das mais diversas áreas – da arte à ciência – que procuram viver com presença e com disciplina emocional, promovendo um maior entendimento do ato de existir e, dessa forma, facilitar a concretização de possibilidades. Esta prática da ressurreição interna torna-se assim mais concreta, um plano de trabalho, uma forma de estar. O trabalho interior vale sempre a pena mesmo que não saibamos que impacto pode ter em possíveis vidas futuras porque, mesmo que não ressuscitemos depois de morrer, podemos sempre encontrar alguém novo em nós todos os dias desta vida.

5 Mar 2021

O metro de Pequim

Entretinha-me a pensar se alguma vez iria deixar aquele local, se seria possível mudar complemente de circunstâncias. As metrópoles têm um poder atroz de nos sugarem para dentro e por dentro, parece impossível sair delas e parece impossível sair de nós próprios quando estamos nelas. As suas rotinas muito bem estabelecidas, o seu dia-a-dia optimizado com transportes públicos, salários, entretenimento, trabalho e lazer, boémia e cultura, soluções para todos os problemas. Uma cidade com vinte milhões de habitantes, altamente funcional. Gostava de caminhar na rua depois das minhas aulas com uma garrafa de baijiu e os phones nos ouvidos. Ouvia todo o tipo de porcaria de death metal a hip-hop caviar. Aquele cliché de querer sentir alguma coisa. Adorava a forma como olhavam para mim, como se olha para um carro a passar. Até pode ser um mazzerati novo – e havia vários por todo o lado – mas o interesse dura alguns segundos, fica-se a pensar naquilo, depois vê-se um monte de coisas completamente diferentes a seguir como scooters em contra-mão, dezenas de bicicletas acumuladas à entrada de um metro, uma senhora a vender batata doce assada. Uma estrangeira com baijiu na mão, a contemplar tudo, presente e simultaneamente alheada com a música nos ouvidos, a caminhar aleatoriamente. Gostava de caminhar sem saber para onde ia, nem norte nem sul, caminhar até não sentir as pernas, até suar debaixo do casaco de ski para as temperaturas inferiores a zero. Pergunto-me como me percepcionavam os transeuntes chineses, mas acredito que pensariam nesta imagem de mim durante dois ou três minutos, fariam um breve julgamento, voltavam aos seus problemas. Sim, a mega metrópole tem soluções para tudo menos para a indiferença abissal que é preciso cultivar para nela se sobreviver. Não se pode ter demasiada pena, não se pode ter demasiada inveja. É necessário um estoicismo de néon em edifícios gigantes prolongados no horizonte, infindáveis à vista. Os edifícios e depois o céu. Arranha-céus que são muralhas, não sei se estas também defendem o país das invasões estrangeiras, parece-me que fazem o oposto: convidam os foragidos a explorar a imensidão de possibilidades que ela apresenta. A reencontrarem-se ou a reconstruirem-se.

Todos os poetas que ali conheci escreviam longos poemas sobre o metro. Como é possível descrever uma mega metrópole sem se romantizar o metro de 618 km, um tráfego de 2180 milhões ao ano? A Jennifer tinha um trabalho poético só com frases em inglês das t- shirts do metro “Kate Moss and Pizza Slices”; “My ex died”; “Never say die, believe in yourslef”; “hang some”, etc. O meu trabalho poético “linhas de metro” tinha sido composto para uma performance com música e utilizava o metro para descrever o grupo de artistas underground que faziam parte do meu ciclo de amigos. Descrevia uma história de sedução. Falava de alguém ambicioso, que não se importava de recorrer a qualquer método para extrair das pessoas aquilo que pretendia, mesmo que isso passasse por seduzi-las e abandoná-las aos seus sentimentos.

Artistas que passavam por ali sem ali pertencerem. Era impossível não falar do metro. Depois de caminhar com o baijiu na mão, se estivesse completamente perdida, não tinha qualquer problema. Pegava no telemóvel e apanhava um didi para casa. Uma das estações de metro que apanhava com frequência tinha uma entrada com duas escadas rolantes nos dois sentidos: subir e descer. Por cima de cada escada havia um painel que indicava um visto verde, significava que era a direcção para descer para o metro e outro que tinha uma cruz vermelha, para não se ir distraidamente pela escada rolante que sobe em vez de descer. Esta estação em específico tinha um dos sinais avariados. Ambos os painéis tinham o símbolo de “proibido”. Um deles não era proibido. Todos os dias me entretinha a tirar fotos às pessoas que iam pelo falso “sentido proibido” a apanhar o painel e as pessoas a seguirem o seu caminho, ignorando os sinais vermelhos ou todos os painéis, vermelhos ou verdes, em geral. Parecia-me uma metáfora perfeita para a vida na China.

Confuso é um país com metade da população daquela cidade todo à beira-mar. Confuso é apanhar um pássaro de metal gigante que nos transporta para o outro lado do mundo, duas ou três vezes por ano. Tudo isso parece fantasia.

A mente prega-nos tantas partidas, que não seria de espantar se toda a memória fosse também outro truque. Percebemos perfeitamente a existência dos aviões que fazem voos intercontinentais, mas não conseguimos perceber o porquê da nossa própria existência. Somos como as oito horas do fuso horário que se perdem entre Pequim e o Porto e que ninguém sabe para onde vão. Por vezes penso que vão para o céu. Por cima das nuvens, há uma realidade onde estas oito horas ainda existem. Há uma parte de mim que acredita que alguém vive naquela dimensão, em meu nome. Fomos programados para ser livres, não deixar que a nossa geografia nos condicione, as nossas relações humanas não nos condicionem, as nossas crenças e valores não nos condicionem. Fomos programados para não ter forma e esse é um privilégio tão grande quanto a responsabilidade de navegar num mundo infinito sem nunca nos perdermos – o que é impossível. O metro vai sempre a abarrotar em hora de ponta mas o silêncio impera. Todas as manhãs somos uma massa homogénea optimizada na selva urbana. Não temos forma. Mas temos todos que chegar a algum lado.

19 Fev 2021

A calma de perder o controlo

Ultimamente, tenho lido os estóicos. Têm feito as vezes de um guia prático de sobrevivência em tempos onde a saúde mental de cada um de nós, apesar de cada vez mais vulnerável, tem que ser auto-tratada (consultas desmarcadas, escassez devido a procura, perigo de ir a hospitais).

Dizem que esta é a mais prática das correntes filosóficas. Efetivamente, o meu recurso a ela neste mapeamento de situações mentais não pode estar completamente errado. Muitos terapeutas reconhecem a contribuição do estoicismo para o desenvolvimento de terapias cognitivo-comportamentais. Muitas meditações aurelianas me faltam ainda para me conseguir auto-proclamar uma seguidora de Zenão de Cítio. Uma visão estóica fundamental do mundo que decidi assimilar prende-se com a aceitação total dos acontecimentos externos como não pertencendo a nenhuma forma do nosso domínio. Não há sobre esses eventos externos culpa ou forma de manter o controlo. É um princípio que se aplica à aleatoriedade dos acontecimentos humanos e naturais, em geral. Uma pandemia tem certamente uma origem investigável cientificamente mas tem também um caráter aleatório na forma como se manifesta e impacta as várias camadas de conjunturas em que cada um de nós se encontra individualmente. Temos de admitir: não somos nada bons a aceitar o que é aleatório. Sobretudo, se o fenómeno for extremamente incómodo. É mais fácil atribuir-lhe significado. Pode ser um significado simbólico ou espiritual. A natureza revoltada que nos veio dar uma lição. Pode ser um apontar de dedos – um “alguém está por detrás disto”.

Apesar da distância temporal a que nos encontramos da filosofia helenística sabemos hoje, mais do que ontem, que o universo provavelmente não é uma matéria estável, mas antes um arbítrio. Quem o diz é a física quântica. Ou seja, o único controlo exequível é aquele que ocorre nos nossos vários eventos internos. Não somos nós a olhar o universo, é o universo observa-se a si mesmo. Indiferentes a estas considerações sobre ego e universo, encontram-se as pessoas que procuram justificar eventos externos à luz de lógicas externas, nada fundadas na realidade mas antes na crença ou especulação. Há variantes de conspirações sobre este vírus para gostos diversificados. Que é transmitido pelas torres celulares do 5G, que foi criado pelo Bill Gates para depois lucrar com as vacinas, que foi criado pelas próprias farmacêuticas produtoras das vacinas. Que as vacinas têm microships do governo chinês ou americano (opção de escolha do vilão) para nos espiar e controlar. Que todos os políticos, jornalistas e profissionais de saúde nos ocultam tudo. Este tipo de necessidade de atribuir explicações ao desconhecido, surgiu antes da nossa realidade se tornar cyber-punk. Também em 1348, os flagelantes decidiram atribuir a peste negra aos pecados da humanidade e por isso formaram longas procissões em grupos de mais de quinhentos indivíduos cada que deambulavam pela Europa. Enquanto se chicoteavam, distribuíam pedaços de pele e sangue pelos caminhos que percorriam e, assim, contribuíam boçalmente para a uma aceleração da propagação da doença. Ou seja, na esperança de liquidar a dívida divina percepcionada, estas pessoas ajudaram a piorar a situação. Digamos que a ignorância e a vontade de agir não são a melhor combinação. O racismo e a xenofobia, tão em ascensão na Europa contemporânea, também não são fenómenos exclusivos de escuras cavernas virtuais. Durante o período da peste negra do século XIV, a comunidade judaica foi acusada de ter infetado poços com a praga de forma propositada. Dizia-se que se viam poucos judeus infetados. Foram perseguidos, torturados e linchados publicamente. Comunidades judaicas inteiras foram massacradas até à extinção em eventos como o que ocorreu em Toulun a 13 de Abril de 1348.

Apesar das inúmeras evidências da existência do absurdo na experiência humana, é difícil aceitar o que acontece como simplesmente aquilo que acontece. Aquilo que nos é externo e não controlável. Há, contudo, algo que podemos controlar. Os nossos eventos interiores. Se a necessidade de uma causa ou de uma atribuição de culpas é necessária para explicar o que não entendemos, há um trabalho interior muito importante a fazer e que pode perfeitamente ser feito em confinamento. Vazio existencial? Falta de causas pelas quais se agregar? Frustração?

Depressão? Medo? Reside no interior de cada um de nós a verdadeira razão pela qual não conseguimos aceitar o que nos foge ao controlo. Como os estóicos, deixemos que as revoluções que decidamos iniciar aconteçam primeiro dentro de nós. Isto para que não sejamos, novamente, flagelantes de pecados inexistentes.

5 Fev 2021

A lamechice de pensar

Quando o treino começa, o líder transmite a obediência regional com as palmas das mãos. Gritos de guerra tornam-se objetos duros pendurados na testa. Os objetos precipitam-se para se tornarem comestíveis. A procura do equilíbrio é a procura do terreno, olhos em forma de guardanapos para limpar o suor, para limpar o esforço físico e polir o ego. Qualquer terreno de visão é comestível quando se trata de alimentar o ego. Quantos hospitais habitam a nossa falta de amor-própio? Os outros têm de morrer e nós temos de sobreviver. Mesmo sabendo que isso é um mero acaso, é-lhes importante fazer disso bandeira. Os homens, duros, homens que se sabem defender, homens-muro onde não entra a lamechice do raciocínio. “É preciso alguém que diga umas verdades” diz um desportista para o outro. “É parar de usar palavras bonitas, é preciso ir-se direto ao assunto”. Homens-muro onde não entra a lamechice do pensamento. “É daqueles gajos que incomoda as mulheres” ou os homens fracos, pessoas com batom vermelho que têm ar de quem lhes deve dinheiro. A ferocidade da falta de propósito, o vazio da rotina, a vontade de outra coisa. Outra coisa qualquer desde que haja contenda. Treinam há anos e nunca estiveram numa guerra. Give me a cause to die for.

“Minorias étnicas é conversa de larilas”. Subitamente o desprezo por qualquer demonstração de inteligência. Homens duros onde não entra a lamechice da emoção. Conversa de mulher, muito articulada, à procura de vítimas nas vítimas, com pena dos pobres. Homens-muro onde não entra a lamechice da empatia. “Era pô-los a todos na garagem e vê-los transformarem-se em arco-iris nus”. “Era pô-los no hospital a salivar com as papilas vermelhas e alimentar só a ponta da língua”. Trabalham e outros não trabalham. Queriam a vida de outros mas os outros só podem ter a vida que têm, porque eles não a têm. Porque eles trabalham. Dignidade importada de existir sem estar presente. Centros de treino geridas por totalitarismo patriarcal. As vítimas não são os refugiados de guerra nenhuma. Precisam de atenção. As vítimas roubam-lhes a atenção. E são vítimas de exploração, arbitrariedades e violências. A fome de violência na crise existencial pousada nos sacos de pancada. As vítimas não são os refugiados de guerra nenhuma mas já que insistem, pode-se fazer uma guerra aqui. Se todos os sítios estiverem em guerra, já ninguém foge da guerra. Assim os impostos a serem usados de forma muito mais justa. Em armamento-esforço. O esforço de existir sem causas mas ser-se digno. Correr como quem tem poder. Um dia ouviram falar de interseccionalidades com as feminilidades e fizeram logo duzentas flexões seguidas. Homens que nunca cumprem regras porque são superiores a elas mas acham que a lei é para ser aplicada e a constituição alterada com todas as limpezas de um germofóbico. Libertam-se na atividade bélica porque o único confinamento necessário é o do horizonte. Todo o ódio acumulado numa falsa causa. Afinal, pensar é lamechas e idolatrar um tirano é transformar-se em tirano.

22 Jan 2021

Sem futuro para 2021

É possível estar-se genuinamente só quando se tem um passado? A infância, como laboratório da existência e o resto, aquele momento em que nos abjugamos porque socialmente estávamos alinhavados para a excursão. Moldados para as várias provações e apetrechados de conhecimento teórico. Seguir etapas, projetar ideias, praticar a constância na promessa de uma subsequente jubilação. Tenho novidades: nunca ninguém está preparado. “Estar preparado” não existe, não é estável. O que caracteriza o futuro, senão a quimera? O momento é unicamente tão sólido como as energias electromagnéticas – todo o corpo com temperatura maior que 276 graus negativos. O momento isolado do resto do tempo. Pode ser o passado ou pode ser o futuro, o momento pode ser o único que conseguimos percecionar porque ainda não encontramos as menores partículas fundamentais do Universo.

Nenhuma memória é igual ao presente daquele momento do passado. O passado não é o que recordamos mas sim o que recreamos. Há vários mecanismos de defesa do ego que nos ajudam a recriar o passado como forma de continuar. Confiemos neles. Aqueles momentos em que não queríamos o momento mas que no futuro se torna desejável porque o recordamos com lentes positivas. Aquilo que deixou mais marcas ou a forma como preferimos manter determinada reminiscência: intocável, limpa. Limpamos a recordação para a tornarmos mais estética.

Fantasiamos com o passado e isso é o futuro. O futuro é sempre uma fantasia. É uma aspiração impossível de concretizar, é aquela dose necessária de esperança que nos faz pensar que o agora não é só o agora, é também o que será. Esse sentido de futuro é quase nobre. Mas não é real. Todas as expectativas se elevam acima de nós só para não termos de enfrentar o que é já efetivo.

Como quem escapa. É errado escapar? Nenhum sentimento de transgressão nos vais libertar nem de nós nem do presente. Contudo, é possível estar-se mais consciente do momento, prestar-se mais atenção. É nesta simples ideia que podemos encontrar conforto.

Em 2020, todos nos sentimos sós. Em 2020, todos nos sentimos isolados a determinada altura. Por vezes, levou-nos perto da loucura. Não estamos sós enquanto existirmos, por muito que o vazio interior se possa parecer a um abismo. Uma ausência que parece tão concreta e sólida como a terra ou a gravidade. Devemos reconhecê-la, prestar-lhe homenagem, perceber que vazio é este que nos ocupa desta forma e nos leva à loucura. Quando chegarmos a alguma conclusão, teremos percepcionado que esse vazio está repleto de nós. Ele não se apodera de nós porque nós somos o universo. Repleto de projeções e expectativas, repleto de desejos em constante mutação que no momento em que surgem se parecem tanto com tarefas por concretizar. Não possuímos propósito porque já o somos. O único material corpóreo, palpável, tocável, físico e visível. Quando esse lugar desabitado passar por nós, falemos para ele.

Porque isso será o nosso próprio recheio atulhado, satisfeito e pleno. Quando nos ocorrer pensar que não temos futuro, respiremos. O sangue corre-nos nas veias, alheio a todas as nossas dúvidas. A respiração continua, a gravidade mantém-nos de pé. Este medo de cair é só porque alguém nos disse que um dia íamos voar. Não temos de o fazer. Pés na terra, olhos no mar. Somos tão expansivos como o oceano, mais onda, menos onda.

8 Jan 2021

Abutres

Abutres

Nightcrawler foi um daqueles filmes que me marcou, não só pela excelente atuação de Jake Gyllenhaal e da direção de Dan Gilroy, ou a fotografia de Paul Thomas Anderson mas, sobretudo, devido ao facto de retratar algo tão identificável e sobre o qual nos cansamos de desaprovar por ter-se tornado tão banal. No caso do filme, eram noctívagos, neste, podem ser ambos. Os abutres a que me refiro não são necessariamente aves de grande envergadura, que planam em correntes de ar quente. No entanto, nutrem-se com o mesmo alimento destas criaturas: cadáveres. Refiro-me aos abutres noticiosos. Quando me deparei com a trágica notícia da morte da jovem cantora Sara Carreira, havia registos visuais do aparatoso acidente, sem edição. A jovem estava ainda dentro do carro, morta, coberta por um lençol. É nestes momento que não é possível esquecer a forma como a arte imita a realidade e a realidade imite a arte em Nightcrawler. O filme sobre um cameraman amador que descobre um nicho particular de negócio: estar no sítio certo à hora certa, isto é, estar no sítio certo à hora errada. Os acidentes de carro acontecem sobretudo durante a noite e assim se propicia um cenário mais tétrico. A personagem de Jake Gyllenhaal monta uma equipa de repórteres (ou “repórteres”) que acabam por ter ligações corruptas com as autoridades. Estas facultam de imediato os sítios onde os acidentes rodoviários estão a acontecer em tempo real de modo que as câmaras se possam mover convenientemente para o local do desfortúnio. Desta forma, o repórter consegue captar a morbidez e o horror da aleatoriedade da morte dos outros com gráfico explícitos.Tenho a ligeira sensação de que isto não acontece só na Califórnia. Ver pessoas mortas em acidentes de carros pode ser um entretenimento em ascensão entre a população mundial que gosta das suas notícias bem apimentadas com calamidades fortuitas graficamente explícitas, mas quando a tragédia ocorre dentro de uma narrativa, ou seja, quando a vítima se conhece, estes repórteres não ganham só com a exploração da curiosidade sinistra dos olhares externos. Nestes casos, é possível explorar a representação simbólica da mitologia contemporânea edificada pelos media, encetar uma história romanesca cativante, com heróis e vilões e que irá captar diretamente o coração da audiência. Roland Barthes dizia que quando se recorre à semiótica para analisar a metodologia escondida nos media, esta mitologia é uma forma de entrar nas raízes da criação da realidade. Assim, temos todos os noticiários a abrir com a notícia da morte da jovem, filha de um herói nacional com o a sua descendência igualmente divina e orientada para o canto, vítima de um namorado que, possivelmente, circulava em excesso de velocidade, talvez sem o consentimento da jovem – possível sequela literária para alimentar os nossos criativos (imparciais, factuais) telejornais. O pai, herói nacional, intocável, com uma vida de fama e riqueza transforma-se, subitamente, num comum mortal como todos nós. Se antes não nos era possível identificar com a felicidade da sua fortuna e reputação, agora temos a oportunidade de identificar nele a dor semelhante à dor de uma pessoa comum, como nós. Alguém que tem tudo mas que tudo perde neste instante – o carro, o aparato, o cadáver coberto. Alguém me disse que, assim, através da simbologia mitológica, todos os pais que perderam filhos se identificam com esta dor. Será esta a notícia de que uma tragédia levou de nós uma jovem inocente que era penas um ser humano ou será, numa abordagem semiológica barthesiana, esta a notícia de que um ser humano morto não é notícia se não for transformado em mitologia? E, neste caso, serão os abutres os que produzem os conteúdos ou os que consomem o produto? Questões difíceis que deixo em aberto para reflexão individual, finalizando apenas com este pensamento:

“Do not be scared much of death, but be scared of your inadequate life.” – Bertolt Brecht

19 Dez 2020

Como tem passado?

“O sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?”
Fernando Pessoa, em Carta a Ophélia Queiroz – 29 Nov. 1920

 

Alguém passa à janela de sombra vazia. Pressinto a sua solidão. Os olhos que lhe cheiram a vento. Vai encarcerar-se mais cedo ou mais tarde, atrás da porta do quarto, no silêncio obrigatório dos divertimentos possíveis. Conheço gente assim. Pessoas trancadas que lêem cappucinos e bebem Cruzeiro Seixas. Gente incansavelmente alta que se estende para lá de si mesma para ver uma onda casual num mar permanente. Passam por elas madrugadas sem olfato. Por entretenimento, travam uma batalha com um peixe-mistério que se infiltrou na frota. Jantam as suas espinhas. Aquele quarto podia ser um poema mas é antes uma equação. Quantos óbitos se confirmam entre os recuperados? Vários webinars depois, o sol não parece menos contagioso do que ontem. Mas elas põe o coração de quarentena, reorganizam armários e lavam as mãos como quem lava os pés, como quem compreende o Inverno melhor do que os outros. E eu na fila de espera. Nós na fila de espera.

Sento-me à máquina de escrever para te falar do meu dia. Este novo dia no novo normal. Esquecer-me de palavras: também eu deixei a minha sombra vazia e abandonei paisagens. A minha paisagem é esta, uma rua perto do mar por onde passam transeuntes ocasionais. Outrora foi uma visão para a metrópole pós-punk que é Pequim, noutra foi uma pequena estrada de passagem em Lisboa, noutra era um campo em Braga. É novamente dezembro. Mês de fecho. Fazem-se as várias contas, as referentes a contabilidade e as referentes a outro tipo de acertos a prestar com alguma entidade ou connosco próprios. Este olhar nostálgico pertence a uma disciplina importante: auto-conhecimento. Eu sei, a palavra tornou-se melosa. Esta época moderna, demasiado pós-positivista para qualquer decurso minimamente hermético. Pouco fã de abstrações.

Não terei pudor em admitir que me dedico, também, ao auto-conhecimento. A todos os níveis. Avalio as minhas crenças e ações, as escolhas tomadas em alturas em que havia escolhas a tomar. Serei parte de uma lonjura imperativa ou estarei a desenhar um único trajeto? Penso, “não é relevante atribuir-lhe significado ou valor”. Começo antes por considerar a importância de me tornar mais íntima comigo mesma. Reconheço que parte da ansiedade exibida como forma de estar nas janelas contemporâneas, deriva da evasão. Os mecanismos que acreditamos serem a cura para ultrapassar, seguir em frente, fazer o que tem de ser feito, são tantas vezes, mera distração. O prolongamento inadiável da distração, que nos parece confortar, resulta antes em desconforto. Afinal, estamos desconfortáveis com a mera ideia de desconforto. Ou seja, mais prisão, menos prisão, não somos exclusivamente o que pensamos que somos. Resta-nos o abandono como exercício. O deixar para trás como mantra de dia-a-dia à hora do café. “Vai-se andando” “como se pode” e quem tem mais experiência disto de estar vivo sabe que tudo passa. Que importa se hoje deixo para trás algumas das percepções mais basilares da minha vida na última década? Alguém passa à janela e depois passa outra pessoa após algum tempo. Tudo passa. A crise, o desalento, o tédio, a indignação, as dores de cabeça, o cansaço, a falta de olfato e a solidão. Tudo passa. Até as pessoas.

3 Dez 2020

Rir para existir

O Arthur começou a rir-se aos três meses. Foi uma das suas primeiras formas de comunicação. Nessa altura, ainda não conseguia coordenar movimentos, não tinha força nas pernas, não percebia que tinha de fechar as mãos para agarrar coisas. Começava há pouco tempo a virar-se para olhar em direção às vozes que o rodeavam. O seu riso precoce derretia o coração dos seus cuidadores. Era quase interpretado como um sinal de gratidão perante o nosso esforço. O riso, perguntava-me, seria uma ferramenta genética de sobrevivência que fazia com que quem cuidava, tivesse mais prazer no processo, tivesse mais paciência?

Um riso é uma forma de despontar ligações, é um sinal de paz. É das ferramentas mais eficazes que possuímos na nossa expressão corporal para criar empatia. Mas o riso é também a compreensão de que, em determinado contexto, algo não bate certo, é absurdo e por isso é engraçado. Para filósofos como Platão, Aristóteles, Hobbes ou Descartes, o riso é essencialmente uma forma de superioridade. Rimo-nos de situações ridículas porque nos sentimos superiores a elas. Rimo-nos de pessoas que consideramos inferiores. Por vezes, rimo-nos até dos nossos líderes políticos ou ícones populares porque o humor é também uma forma de colocar em causa todos os que possuem alguma forma de poder. Freud, por sua vez, dizia que rimos para nos libertarmos do stress. Uma anedota costuma começar com uma situação de tensão que depois se resolve: “O que acontecerá se o Pai Natal morrer?”, “– Ele não estará mais em trenós.” As nossas expectativas fomentam tensão – porque o Pai Natal pode eventualmente morrer – mas logo de seguida percebemos que a situação apresentada não é válida porque, reduzindo-se a uma piada, não há nada a temer. É nesse momento que, segundo Freud, libertamos tensão acumulada. Henri Bergson vai mais longe na sua interpretação da função do riso. Para este, o riso é uma forma de manter a sociedade funcional. Bergson declara que qualquer tipo de mecanização do ser humano é uma forma de ameaça à existência.

Defende a durabilidade de um impulso vital baseado na fluidez das pessoas. Sem o humor, que coloca todas as formas de poder vigente em causa, não teríamos flexibilidade suficiente para questionar as narrativas vigentes. Para além disso, o humor absurdo, baseado em situações imaginárias extremadas, é também essencial para se compreender o que é estar à margem de qualquer contributo para o desenvolvimento social. Estes dois tipos de humor podem corrigir aquilo a que o filósofo chamou de “automatismo fácil dos hábitos adquiridos”, ou seja, seguir um hábito de forma automática, sem o questionar. Conduzir a existência através de tarefas que não requerem o pensamento, é mais característico das máquinas do que das pessoas.

Por exemplo, quando alguém age sempre da mesma forma, ou repete sistematicamente as mesmas frases, é fácil imitar essa pessoa. Quando outra pessoa imita essa, vai procurar o riso na audiência que conhece a pessoa imitada. A pessoa, ao repetir-se, tornou-se mecânica e o instinto humano é o de corrigir esse aspeto mecânico do nosso comportamento. Neste caso, segundo Bergson, através do riso.

Mas será essa a função do riso do meu bebé? Dificilmente ele se conseguirá sentir superior a algo. Muito menos poderá satirizar alguma figura do poder para a colocar em causa. No entanto, a teoria de Bergson pode ser aplicada a um bebé. O bebé consegue já reconhecer situações absurdas como caras estranhas e barulhos esquisitos. Também consegue libertar tensão através do riso quando eu finjo desaparecer atrás de um pano para logo reaparecer – afinal não desapareci, ainda estou ali e, tal como o problema criado pela possibilidade do Pai Natal morrer, a criança também se apercebe que eu não desapareci realmente. Um adulto que se aproxima muito do seu frágil corpo pode constituir uma ameaça – mas não quando ele percebe que ele só está muito próximo para lhe dar beijos na barriga ou fazer-lhe cócegas e, por isso, ele ri – libertando tensão.

Quando ele vê a mãe demasiado séria, durante demasiado tempo, decide sorrir e isso faz-me sorrir também. Com esse sorriso, o bebé está já a demonstrar a sua existência neste mundo irremediavelmente integrada numa comunidade, está a dizer-me “mãe, não estejas tão séria a trabalhar ou a pensar em algo, não caias na repetição desses hábitos mecanizados. Sê humana. Sorri para mim”.

Eu já suspeitava que o Arthur fosse um bebé erudito mas nunca pensei que andasse por aí a citar Bergson ainda sem falar! (Estão a ver o que eu fiz aqui?

19 Nov 2020

Desinfectar o almoço

Em 2020, a hora de almoço é uma oportunidade de reflectir sobre a casa. Olhar para os parentes à mesa. Indispensáveis evidências determinam quem é o mais velho, quem tem problemas pulmonares e assim sucessivamente. A fonte dos números dos mortos em Helvetica, vermelho com sombra. Tecto antigo, com fugas de água. Uma voz séria, língua de guerra, mensagens ajustadas. Olhar dramático perante as palavras monásticas. Conselhos, mas imparciais, todas as notícias são imparciais. Roland Barth e as mitologias esponjosas madrepérola entre o ovo estrelado e o arroz. Poseidon, que ninguém se meta com ele. Demasiado mar afundado atrás da pele. Trago, debaixo do braço, poesia épica e um panteão de deuses, mas não há melhor mitologia do que a da televisão à hora de almoço e, por isso, toda a mesa assiste concentrada, não se fala, como no fado ou em Fátima ou no futebol ao qual já não se pode assistir. Também os jornalistas se dedicam à compreensão da vontade dos deuses com oráculos, com os seus pivôs pitonisas.

Contam-nos fábulas que acabam, invariavelmente, em tragédia. O meu lugar na mesa não tem vista privilegiada para a verdade. Ainda assim, consigo ouvir os mitos que não estão a ser explicitamente assumidos: a formar, distorcer e reduzir a percepção do mundo. Signo, Significado, significante. Denotação, conotação – camadas e camadas de sentidos. Afinal, as histórias que nos são apresentadas são uma completa imparcial realidade, sem mediação. Aquela floresta a arder não existia antes de aparecer no pequeno quadrado. Percorro esta forma desinteressada de informar no olhar dos outros. A veemência da repetição. As cerimónias profissionais. As combinações entre bandeiras e TV. Os educadores, os hospitais, o controlo. O primeiro-ministro identificado pelos órgãos, os soberanos, claro e os da comunicação social. A pedagogia que me ocupa a morada na presença de traumas nacionais mesmo antes do trauma. Nacional, mundial. Se eu acho que a metodologia transforma a história em natureza? Antiessencialista, construtivista para os amigos. Sim, claro. Da semiótica à ideologia são dois pratos de carne. Imitações de brinquedos perigosos na banana com café. “Quando se recorre à semiótica para analisar a metodologia escondida nos media, esta mitologia é uma forma de entrar nas raízes da criação da realidade.” A estrutura da nossa cultura é o que a faz funcionar. Histórias ultra-simplificadas que contamos a nós próprios para manter a sociedade funcional. Navegamos a existência através de dicotomias mas as culturas não são opostas. O apertar de mão e a vénia cumprem exatamente a mesma função social. O cotovelinho e o bater de punho servem perfeitamente e são até mais globais. Somos uma expressão dos mitos e dos rituais da nossa cultura.

Quando a nossa cultura é o covid, não deixamos de ser a expressão de algo que aleatoriamente nasceu a 2 de Março de 2020 nas nossas coordenadas geográficas. Nascimentos espontâneos entre a dúvida e o comboio. Corridas regionais, tubos botânicos, máscaras na mobilia, desinfetar a carne cozinhada com poesia administrativa. Tudo para nos limpar, uma limpeza necessária. Estados de excepção colados aos textos.

Desculpa desiludir-te, não és tu que és uma pessoa muito consciente e responsável. Não são eles, somos nós. O Eu não dá forma ao mundo, o mundo dá forma ao Eu. Pelo sim, pelo não, usem álcool-gel para desinfectar o almoço.

5 Nov 2020

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020

The Laowai fever

David trabalhava num gabinete de arquitetura na Califórnia mas decidiu trocar a terra da liberdade por outro tipo de liberdade mais individual numa terra menos livre. Como quem troca o bom tempo californiano por um frio seco na esperança de, mesmo assim, se vir a sentir mais quente. Após um divórcio doloroso, deixou as duas filhas adolescentes com a mãe por uns tempos e veio estabelecer-se em Pequim.

Costumava aparecer nos workshops bimensais de poesia que eu organizava com o Colectivo Artístico Spittoon. O homem de 43 anos vestia-se de forma sóbria, como quem estava habituado a trabalhar num escritório de arquitectos. Trazia sempre vários poemas para a devida sessão de análise, interpretação e crítica construtiva com o resto da comunidade literária que se juntava no internacional Zarah Café, na zona hip de Gulou. Eu seguia o David nas redes sociais mas não lhe era muito próxima. Os meses foram passando e o David começou a frequentar mais eventos sociais em Pequim, começou a praticar mais desporto – cross-fit, montanhismo, passeios conjuntos de bicicletas. Decidiu, a certa altura, criar a sua própria plataforma comunitária para encontros sociais com as mais variadas atividades entre os locais e os expatriados, estando ele no centro de toda a ação (e atenção). Faço scroll pelos momentos do Wechat. Vejo uma foto em que David tem o cabelo rapado dos lados e uma poupa punk pintada de verde. Veste apenas umas calças de desporto e um colete de pele. Faz o sinal V com os dedos e uma boquinha de peixe. Num dos vídeos está a rebolar por um monte e ouvem-se diversas vozes femininas com um inglês muito chinês a lembrarem-no do quão maluco e engraçado ele é. Riem-se, essencialmente. Filmam-no enquanto parece cair deliberadamente.

Noutro vídeo, David está a atravessar uma passadeira na zona de Gulou, movendo-se com as mãos enquanto eleva as pernas. David não é verdadeiramente o nome da pessoa que efetivamente conheci mas é definitivamente alguém real. David sofre de um dos fenómenos menos estudados na história da sociologia, tão pouco estudados que me permitem patentear o conceito altamente inovador na área. David sofre de “Laowai fever”.

Tal como o David, milhares de brancos ocidentais apanham esta patologia ao fim de alguns meses de China. Podem ser pessoas que se costumavam vestir na Zara mas que agora só compram roupa em lojas de moda coreana. Mulheres que subitamente só querem vestidos com folhos e canetas que cor-de-rosa iguais às que usavam na escola primária. Homens que não podem dispensar o fato de treino da Supreme e os óculos de massa grossa. Podem mesmo ser pessoas que, tal como muitos jovens chineses, decidem que preferiam ser coreanos, de uma maneira geral. Há muitas possibilidades. É uma passagem entre o normal para o excêntrico e este fenómeno psicológico, quase sociológico – porque de grupo – fascina-me. Há um processo mental que antecede a mudança drástica da forma de vestir, dos dedos em V e das selfies carinhas-de-peixe, mas esse processo é para mim, ainda, um enigma.

Para sistematizar a análise da mudança súbita de comportamento do “estranja” (laowai) teremos de partir de alguns pressupostos. O Laowai em questão quando chega à China parece ainda manter-se no estado em se encontrava e que antecede o rótulo de laowai. As transformações ocorrem gradualmente. Há várias hipóteses teóricas levantadas por curiosos observadores ao longo destes anos de abertura da China ao estrangeiro.

Depois de falar com alguns sujeitos do sexo masculino que se enquadram no perfil, cheguei à conclusão que estes se sentem “mais confiantes” desde que chegaram à China. “O nível de atenção que passamos a ter por parte do género feminino é uma grande influencia para melhorar os níveis de auto-estima.” diz um anónimo Laowai que entrevistei para este artigo. Mas será apenas o aumento de capital erótico proveniente do exotismo étnico justificação para tanta excentricidade? “Numa cidade com mais 20 milhões de habitantes, ninguém olha para ninguém. Há todo o tipo de pessoas. A mega metrópole faz-me sentir mais livre para ser quem realmente sou” – continuou. Uma espécime do género feminino afirmava, por sua vez “Gosto de me vestir como uma princesa. No ocidente, a mulher é muito sexualizada com roupas justas e decotadas”, “Não achas que a infantilização de uma mulher adulta é, também, uma forma se sexualização fetichista?” A esta questão ela não me respondeu. Lembrei-me de como os asiáticos eram, estatisticamente, os maiores fãs de Ariana Grande.

Será o choque cultural tão grande que deixa os estrangeiros confusos em relação à sua identidade? Será a solidão e o isolamento que os levam a criar dezenas de atividades? Será esta vida de expatriado um prolongamento da experiência Erasmus? Muitas perguntas, poucas respostas. Eu só vos aviso: o fenómeno está para ficar. Já o observo desde 2008. Quando eu voltar da China vestida de Sweet Gothic Lolita, não se surpreendam. É só uma pequena febre de alguém que vem de fora.

29 Out 2020