Diogo Lopes Teixeira, arquitecto e professor na USJ: “Estamos a aquecer as nossas cidades”

Arquitecto, co-fundador do atelier “Hori-zonte”, no Porto, e professor convidado na Universidade de São José, Diogo Lopes Teixeira foi considerado um dos melhores arquitectos europeus com menos de 40 anos nos “Europe 40 Under 40”. Em entrevista, chama a atenção para a importância do bambu e alerta para o excesso do ar condicionado

Qual o significado deste prémio para a sua carreira?

O prémio parte de candidatura feita em definição com os meus dois sócios. É, obviamente, importante, porque traz sempre motivação e confirma um bocadinho daquilo que estamos a tentar fazer com a nossa profissão, mais especificamente nós, como arquitectos mais ligados à área da sustentabilidade. O reconhecimento do trabalho que temos feito dá-nos motivação para continuar, para o fazer ainda melhor. É um privilégio ser reconhecido num grupo restrito de 40 arquitectos na Europa que têm feito um trabalho ligado à inovação e a alguns projectos de sustentabilidade. Mas nós damos aulas ou estamos ligados a algumas universidades, como a Universidade de São José (USJ) de Macau. Portanto, vestimos sempre a camisola em equipa, ainda que haja alguns momentos individuais.

Como tem corrido a experiência de docência na USJ?

Somos professores convidados. O primeiro contacto foi em 2024 através do professor Filipe Afonso, que é nosso colega e amigo. Tem sido uma boa experiência, e no meu caso acompanhei alunos no processo de desenhar e concorrer a um concurso que costumam fazer para desenhar um pavilhão em bambu, explorando [a utilização] de software e tecnologia. Foi um concurso aberto não apenas a pessoas de Macau, Hong Kong ou China, mas de todo o Sudeste Asiático, e o projecto ganhou.

Em termos de formação em arquitectura, os cursos são relativamente recentes. Como olha para o panorama do ensino de arquitectura no território?

A nossa experiência é muito recente, mas o que posso dizer é que, obviamente, é importante que os habitantes de Macau, que vivem a cidade todos os dias, consigam ter uma palavra sobre o seu desenvolvimento, seja num plano mais público, ao nível de infraestruturas e do urbanismo, mas também no desenho dos próprios edifícios e espaços interiores onde habitam. Nós, como escritório de arquitectura focado na sustentabilidade e no reconhecimento do local, achamos que a parte de identidade é muito importante. É preciso entender o local onde vivemos, e este tem muito a ver com o clima, os materiais disponíveis, os tipos de vida. Portanto, eles próprios são os melhores agentes da transformação da cidade. Existe uma série de talentos e arquitectos que podem ter uma palavra a dizer na transformação das cidades.

O seu trabalho foca-se na ideia da arquitectura sustentável. Como encara o uso do bambu, a sua preservação e papel em termos de sustentabilidade?

Quando comparamos com a Europa a maioria das estruturas e andaimes são feitos em bambu, e é algo que, para nós, não é concebível, porque estamos habituados às estruturas metálicas que ocupam a paisagem das cidades durante os anos em que os edifícios estão em construção. É uma pena que os andaimes em bambu não possam ser usados como uma estrutura permanente. Por exemplo, se tivermos de formular a imagem de um edifício, e se vai ser construído o andaime em bambu, porque não pensar numa forma em que este possa servir de base para, por exemplo, as varandas do edifício no futuro, ou como parte integrante da estrutura. Da nossa experiência, com o densificar das cidades e a necessidade de construir mais em altura, tecnologias e instrumentos como o bambu não são os mais apropriados, ou passam a ficar um bocado em desuso. Há também menos pessoas especializadas para o fazer. As universidades, e estes concursos, são importantes para sensibilizar as pessoas de que existe aqui um material que faz parte de uma cultura e que poderá ser introduzido, se calhar não em edifícios com grande altura e escala, mas noutros projectos.

É cada vez mais importante a arquitetura sustentável? Ainda estamos longe dos padrões ideais?

Sim, tendo em conta o objectivo que achamos que deveria existir num sector muito poluente. O sector da construção contribui cerca de 40 por cento para a emissão de gases e efeitos de estufa para atmosfera, e devia tentar olhar para aquilo que constrói uma pegada neutra, que deve ser dividida em dois parâmetros. Um deles é a energia, no sentido em que devemos pensar que os nossos edifícios são energicamente neutros e produzem energia suficiente para as necessidades em termos de manutenção, evitando-se gastos energéticos muito grandes. [Falo também] nas escolhas de sistemas de construção e materiais, que devem ser o mais neutros possível. Obviamente que o mercado não está 100 por cento preparado para isso, devendo existir legislação e apoios, ou incentivos fiscais.

Como estes apoios podiam ajudar, na prática?

No sentido em que novos materiais de base natural poderiam vir ao de cima e ser mais recorrentes no mercado. Isso ainda não acontece e há um caminho grande a fazer, porque é preciso perceber o que existe neste momento no nosso parque edificado. Há um comparativo engraçado entre a cidade de Lisboa, onde muitos edifícios não são dotados de isolamento ou de boas janelas e não têm sistemas de climatização, então há muitos ares condicionados espalhados no exterior do edifício. Esta imagem é ainda mais presente em Macau. É importante perceber que estes sistemas e as renovações que são feitas aos edifícios são prejudiciais também para o exterior.

Em que sentido?

Se colocarmos máquinas exteriores que não são bem dimensionadas ou bem feitas, ou se o projecto não for bem feito, estamos a aquecer ar exterior, ou seja, a retirar ar quente do interior das habitações e a colocá-lo no exterior. Estamos a aquecer as nossas cidades, e depois se precisamos de ir buscar ar fresco ao exterior, ele está mais quente do que deveria estar, além da poluição que já existe. Em Macau, e em muitas áreas da China, essa é uma imagem recorrente, vemos edifícios completamente cheios de máquinas de ar condicionado, e as temperaturas, bem como os níveis de humidade, são muito altos nestas localizações.

Desenvolveu dois projectos na China, um deles o “Park Greenhouse Garden”, em Xangai, e o “Taiyuan Botanical Garden”, onde decerto terá desenvolvido a ideia da arquitectura mais amiga do ambiente? Teve margem para explorar novas coisas nesta área?

Há princípios adoptados que são muito importantes e destaco dois. Houve a intenção de desenhar um edifício que fosse menos dependente de infra-estruturas exteriores e que pudesse produzir o máximo de energia possível. Portanto, é um edifício com muitos painéis solares e que consegue produzir muita energia para a sua manutenção. São projectos interessantes. Não é algo comum hoje em dia na Europa, mas são, praticamente, museus de plantas que criam atmosferas diferentes. Há um espaço dedicado a plantas suculentas, com um clima mais árido, tipo deserto, e temos um pavilhão com esse tipo de ecologia. Temos depois um pavilhão mais tropical, que já implica ter a vegetação do Sudeste Asiático, e aí conseguiu-se que o edifício fosse bastante neutro nesse aspecto. A outra questão é o facto de se situar numa zona onde foi a Expo de Xangai, muito central da cidade, mas desabitada, com muitos edifícios devolutos. Assim, este edifício [Park Greenhouse Garden] surge numa infra-estrutura existente que foi reaproveitada para introduzir um novo programa. Há esta ideia de circularidade, de aproveitar algo que estava lá, mas que não tinha função, para se adaptar e receber pessoas. Ao mesmo tempo, acompanhou-se a recriação de um parque urbano na zona. Estes dois fenómenos aproximam-se muito daquilo que gostamos de fazer, ou do que achamos que pode ser um projecto mais sustentável.

Arquitectura é mais do que construir para habitar, é preciso também ter sensibilidade para o fazer. Como define a sua profissão?

A arquitectura é o palco de muitas actividades humanas, sejam elas vividas no exterior, nas cidades. Neste aspecto, a arquitectura e o urbanismo andam de mãos dadas. Mas é também palco de muitos fenómenos importantes para a vida das outras pessoas. Portanto, a arquitectura está por todo o lado e acolhe outras dinâmicas e outras funções da vida humana com o desenho dos espaços, sejam eles museológicos, parques, zonas de conforto das pessoas com a introdução de vegetação, onde estas se sintam confortáveis, ou mesmo os próprios edifícios de habitação. Para nós, é importante sentir que temos responsabilidade de desenhar algo para as pessoas utilizarem, onde se possam sentir confortáveis, apelando ao seu bem-estar e conforto quando usam os espaços. Ao mesmo tempo, podermos também balancear isto com o conforto do nosso planeta e com os recursos limitados.

Foi fácil projectar na China? Ou foi desafiante lidar com esse mercado?

O projecto de Xangai fez parte de uma prática profissional anterior minha, quando estava num escritório de arquitectura na Áustria. Existe uma barreira cultural que é preciso compreender e também de comunicação.

Para o prémio “Europe 40 Under 40” concorreu com três projectos, o “Eco Retreat Yuma”, em Setúbal; o “Dome Next Door”, na Letónia; e “Historical Palace Office”, no Porto. Que ligações têm entre si?

São três projectos muito diferentes e que contam histórias diferentes, mas com um propósito comum. O projecto na Letónia é feito em parceria com outras pessoas que são muito próximas. A possibilidade de projectar num território que é património da UNESCO, como é Praça da Catedral de Riga, é muito interessante, porque nos permitiu utilizar materiais locais e ter uma estrutura em madeira, um material mais sustentável. [O projecto foi pensado para] ser palco de actividades que trouxesse de novo as pessoas para o centro da cidade. O centro histórico de Riga é muito bonito, mas pouco habitado pelos habitantes da cidade, sendo muito mais turístico. Criar este parque recreativo, onde as pessoas se possam encontrar, usufruir dele e ter momentos de encontro na sua própria cidade é muito importante. Tentámos recriar muito da arquitectura e património existentes através das formas geométricas dos arcos e com materiais locais. No Porto fizemos a reabilitação de um edifício, e as reabilitações enquadram-se bem na nossa filosofia. Houve um cuidado muito grande para tentar preservar e recuperar parte dos materiais existentes e dar nova vida a um edifício que estava sem função, e que tem também a integração com uma zona verde, introduzindo meios de biodiversidade. Utilizámos materiais locais e com uma baixa pegada [ecológica], como a ardósia, o que se alinha muito com os nossos pressupostos. Depois, o projecto em Setúbal é de turismo ecológico, feito num lugar muito específico e bonito. Houve bastante cuidado na maneira como intervimos no local, tentando ter o mínimo de impacto, com uma construção feita em fábrica, que chegou ao local e que foi pousada. Foi também planeada através de uma leitura muito presente do ambiente e do clima. A forma como se constrói nesta área, podendo-se construir num ambiente em que se respeita a paisagem natural existente, é quase como se o edifício desaparecesse no meio da paisagem.

22 Mai 2026

Tonan Quito, actor e protagonista de “Entrelinhas”: “Bem-dita a hora em que aceitei este desafio”

O Centro Cultural de Macau, apresenta hoje a primeira sessão de “Entrelinhas”, na edição deste ano do Festival de Artes de Macau (FAM). Trata-se de um monólogo escrito por Tiago Rodrigues de propósito para Tónan Quito, que em entrevista ao HM fala de um texto que é muito mais sobre a amizade do que propriamente sobre o processo da escrita

Vem a Macau com o “Entrelinhas”. Como se sente por apresentar esta peça num destino tão longínquo [em relação a Portugal, onde estreou em 2013]?

É uma grande honra ir ao festival e sinto-me perplexo com o convite, estou muito contente por ir. Há dois anos tive a experiência de ir ao festival de teatro de Aranya, no norte da China, e agora estou também muito curioso por estar perto de uma cultura diferente e perceber como é que o espectáculo pode ecoar junto a pessoas com uma cultura e maneira de estar completamente diferente da minha, ou no local onde o espectáculo foi criado, que é Portugal. Apesar de Macau ter uma influência histórica portuguesa, e neste sentido estou ainda mais curioso para saber como é que o público irá ver este espectáculo.

O público é sempre importante para todas as peças de teatro, mas nesta em particular, tratando-se de um monólogo, é importante perceber a relação com este texto, em particular?

Sim. Este é um espectáculo muito próximo do público, mesmo a nível físico. Estou mesmo em frente às pessoas, só a contar uma história, que é a história deste grande falhanço que foi fazer o que era suposto ser um espectáculo. E, neste sentido, [é um espectáculo] que pede uma grande proximidade e cumplicidade com as pessoas. Normalmente faço uma versão francesa para um público francês, mas eu compreendo a língua e as reacções, há um legado comum. Mas quando vamos assim, para fora, em que falo na minha língua, e certamente alguém poderá entender o português, mas muita gente não vai aceder ao português e terá de ler legendas, há outra dificuldade, que é eu comunicar esta história. É eu a comunicar-me a mim, como actor ali, naquela noite, numa maneira de estar diferente, que vai pedir empatia, uma escuta, a atenção das pessoas para aquilo que estou a fazer.

O que é que este espectáculo conta nas entrelinhas?

Nas “Entrelinhas” está uma história que, cada vez mais, vou percebendo é muito mais sobre amizade do que o espectáculo de um autor que tem de escrever para um actor. Acho que é uma história que fala muito mais sobre a nossa amizade [entre Tiago Rodrigues e Tónan Quito], sobre a amizade entre duas pessoas que se descobrem nos trabalhos que vão tendo, nos encontros que vamos ter, nos encontros com a família. Portanto, invocamos uma quantidade de gente para esta história, e o espectáculo acaba por ser uma maneira de eu e o Tiago estarmos juntos, mesmo não estando. Nas entrelinhas está isto.

Não é, portanto, um espectáculo focado no tal falhanço da escrita.

Não, mas isso é uma coisa que ando a descobrir, e que nós dois fomos descobrindo à medida que vamos fazendo o espectáculo. Em 2013, isso estava nas entrelinhas, nós é que ainda não tínhamos percebido que estava lá.

O texto foi escrito para si. Como foi o processo de preparação? Além disso, já passou algum tempo entre os tempos iniciais e esta apresentação agora no festival. Há um certo distanciamento, outro olhar sobre a peça?

Não. Continuo a descobrir ainda muito sobre aquilo que a peça é, e como é que faço isto. Isto porque tive mais ou menos um mês no processo de trabalho antes da peça começar, entre a escrita do texto, ensaiar e decorá-lo. Tudo foi feito num curto espaço de tempo. Na estreia não tive muita noção do que o texto era, até porque a minha filha nasceu três dias antes e a minha cabeça estava muito mais com ela do que com o texto. Mas acaba por ser engraçado, porque hoje em dia fazer este texto é reviver aquele dia e uma maneira de estar com ela, sem estar. Mas continuo a descobrir coisas no texto. Naquela altura [2013] fiz dez espectáculos, e no ano seguinte fiz mais dez, e desde 2021 que tenho feito cerca de dez espectáculos por ano, talvez mais [com o “Entrelinhas”], e vou sempre disponível para descobrir o texto outra vez. É sempre um trabalho muito activo, o descobrir o texto com as pessoas a quem o estou a contar, além de que a própria reacção das pessoas condiciona, às vezes, a maneira como o conto.

Este foi o seu primeiro monólogo. Como foi essa experiência de estar sozinho, em palco, pela primeira vez?

Já tinha feito um monólogo antes, mas era falso, porque tinha um manequim com quem falava, ele é que não respondia (risos). Era uma coisa pequena, com 15 minutos. Confesso que a sensação inicial não foi muito boa, confesso. Fazer monólogos não é uma coisa que me atraia muito, mas na altura o Tiago convenceu-me a fazê-lo e partimos. Mas depois, à medida que fui fazendo, percebi que é um falso monólogo, pois estou com as pessoas a contar isto, e já não estou sozinho. Depois vou utilizando muitas pessoas para serem os meus recompositores, na medida em que os uso como personagens do texto. Então, de certa maneira, é um monólogo cheio de personagens e de um mundo que invocamos para o palco. Percebo que não estou sozinho e torno-me um bocadinho mais suportável.

Porque é que não gosta tanto de fazer monólogos? Há um medo acrescido? Sente-se sozinho em palco?

É, gosto de estar com pessoas e colegas, gosto de ser provocado e responder às provocações. Gosto de contracenar, da acção, da reacção, da pergunta, da resposta, e de construir colectivamente um trabalho, um espectáculo. Claro que o espectáculo é feito lado a lado com o teatro, sempre, desde o primeiro momento. [O Entrelinhas] é uma co-criação, apesar de ter sido ele [Tiago Rodrigues] a escrever e depois eu a interpretar, mas foi sempre criado a dois. Portanto não estou bem sozinho.

Como é ter o Tiago Rodrigues, um encenador e dramaturgo premiado, a escrever para si?

Tenho muita inveja dele (risos). Estou a brincar, acho óptimo, e desejo-lhe sempre todas as felicidades, e é muito bom poder partilhar com ele este percurso. Ele influenciou muito a minha maneira de trabalhar, não só como actor, mas a ensinar também. Foi sempre uma partilha. Claro que o facto de estar a viajar com o “Entrelinhas” é muito à custa da pessoa que é o Tiago, que, de repente, é um nome apelativo, com um tipo de trabalho que interessa. Em boa hora o Tiago meteu na cabeça que queria escrever um monólogo para mim, e bem-dita a hora em que aceitei este desafio.

Ele tem mesmo este lado caótico da escrita, de deixar tudo para a última da hora?

Um bocadinho. Acho que já deve estar um bocadinho melhor, mas acho que continua a deixar um bocadinho para a última, pelo menos dos últimos relatos que ouvi.

Preparar um monólogo é mais difícil do que preparar uma peça?

Não. A dificuldade está lá sempre. É difícil fazer uma peça porque estar com outra pessoa em cena é sempre imprevisível, pelo menos na maneira como gosto de trabalhar. Obviamente que ensaiamos, combinamos regras, habituamo-nos à maneira do outro fazer, e vou-me descobrindo através do outro. Num monólogo só dependo de mim, estou disponível para me entregar e partilhar a história com as pessoas. Correndo bem ou mal, não há nada a fazer, começamos e acabamos, sou eu que controlo tudo. Mas, se calhar, até é mais difícil por causa disso, porque a responsabilidade é toda nossa, não é partilhada.

Recentemente protagonizou o filme “Soares é Fixe”, sobre as eleições presidenciais de 1986, em que interpretou o papel de Mário Soares. Como encara as diferenças de trabalhar em cinema, é mais desafiante do que em teatro?

São coisas diferentes. À medida que vou fazendo mais cinema vou percebendo que são maneiras de estar muito distintas [para um actor]. [Fazer cinema] é um trabalho muito mais isolado, não temos tanto tempo de preparação uns com os outros [os actores]. É também um trabalho de espera, de paciência, para depois se concentrar em cada “take”. Para mim, que estou mais habituado a fazer teatro, às vezes pode ser mais frustrante o facto de não haver logo uma reacção imediata ao que se acabou de fazer. É um bocado parecido com os ensaios, “Vamos repetir!”, se bem que está sempre a valer. Repito ali três ou quatro vezes uma cena e, às vezes, não há muito mais tempo para experimentar porque temos que passar para a cena seguinte. [Fazer cinema] é um trabalho de condensação muito grande, até porque não sabemos muito bem o que a câmara está a captar. Não tenho assim tanta experiência quanto isso, mas fazer um protagonista é bom, no sentido em que estamos lá muito tempo, é um mergulho muito grande na questão de estarmos sempre a filmar, e o poder fazer uma construção sobre o personagem e o plano de filmagens – quando é que se filma, e o que é que se filma. Às vezes anda-se muito para trás e para a frente, e, nesse sentido, é bom o trabalho dramatúrgico que se faz, e como é que nos comportamos em cada dia para poder activar o que é necessário para cada dia e cada cena.

Como se preparou para fazer de Mário Soares?

Foi um bocadinho assustador, até porque tive muito pouco tempo de preparação, desde o convite até começar a filmar. Basicamente o que fiz foi ler tudo o que podia, vi muitas entrevistas dele, para perceber como se comportava. Depois não íamos fazer um trabalho em que ficava igual ao Mário Soares, não era esse o objectivo, porque para isso teríamos de ter mais dinheiro. Para fazer um trabalho de reconstituição, com grandes caracterizações [de personagens], é preciso mais dinheiro que esta produção não teve. Era miúdo [nas eleições presidenciais de 1986], andava na escola primária e lembro-me perfeitamente. Mas fiquei a saber muito mais dele [no processo de pesquisa], mas não sobre a vida pessoal, até porque isso não me interessou, na altura, para a construção [da personagem]. [O trabalho de preparação] incidia mais sobre quem era este homem político e, sobretudo, perceber nas cenas em que falava quem estava atrás dos silêncios e do que se passava. Quis tentar desvendar ou revelar um bocadinho do que estava naquela cabeça, naquela noite [das eleições de 1986]. Foi uma eleição em que era o tudo ou nada. Aquele homem podia morrer politicamente ali ou então, pronto, nascer mais uma vez como Presidente [da República], que foi o que aconteceu.

19 Mai 2026

Inês Cardoso, jornalista e autora de livros infantis: “A desinformação joga com emoções”

Inês Cardoso embrenha-se na escrita de livros para os mais novos quando a espuma frenética dos dias do jornalismo lhe dá algum descanso. A directora do Jornal de Notícias foi convidada pelo festival “Letras&Companhia” para apresentar o livro “De Londres ao Porto numa gaivota”, que foi traduzido para chinês

Vem a Macau participar no festival “Letras&Companhia”. Como se sente por vir ao território neste contexto?

É a primeira vez que vou a Macau e é particularmente entusiasmante perceber o trabalho que continua a ser feito para preservar a língua portuguesa. O festival tem muitos atractivos, e é uma honra estar ao lado de pessoas como Afonso Cruz ou André Letria, porque trabalham diferentes públicos e têm um trabalho muito conceituado. Vou falar de literatura juvenil e é bom poder estar directamente com o público escolar e perceber a sua ligação à língua.

Apresenta na sexta-feira o livro que lançou em 2019, “De Londres ao Porto numa gaivota”. Porquê esta obra?

Tem muito a ver com a temática do festival, centrada nas cidades. Este é um livro que trabalha muito no espaço urbano, portanto transporta-nos para alguns dos espaços emblemáticos de Londres e Porto na forma como a protagonista, Sofia, que viveu no Porto, mas se mudou para Londres, vai viajando mentalmente pelos locais que a saudade, no fundo, mantém activos. Não sendo o meu livro mais recente, acabou por estar em destaque nesta edição, e graças a uma parceria entre a Porto Editora e o IPOR [Instituto Português do Oriente, co-organizador do festival], o livro vai ter uma versão em português e chinês. Trata-se de algo que vai permitir trabalhar esta questão da língua e das viagens que fazemos através dela, tal como a própria história também reflecte.

Quando sai a versão em chinês do livro?

Será apresentada no festival, estando disponível na Livraria Portuguesa.

A saudade é um sentimento muito português, é um desafio traduzir essa palavra para outra língua? Que expectativas têm em relação à tradução?

Esta é uma das reflexões que fazemos no livro. Ao tentar traduzir a palavra saudade fazemos essa abordagem, quanto à importância e centralidade que a saudade tem para nós, portugueses. Muitas vezes tem um sentido excessivamente nostálgico, mas a verdade é que nos marca muito, tanto na literatura, na música ou no nosso imaginário. O livro aborda isso, a forma como nos entendemos e como, no fundo, podemos fazer corresponder a saudade a outras expressões que outras línguas têm para traduzir esse sentimento, que, de facto, nos marca muito colectivamente.

O seu livro mais recente, também de literatura infantil, “As Mãos da Avó”, foi editado no ano passado. Há algum paralelismo com a obra que apresenta no “Letras&Companhia”?

É uma história que tem um ritmo um pouco mais lento, por assim dizer, tem uma escrita mais pausada. Procuro que o próprio livro trabalhe a questão da espera e da paciência. É, num certo sentido, um livro que nos leva a viajar, também a nós adultos, pelas nossas memórias de infância. Quando se fala de literatura infantil, prefiro mais falar em livros e álbuns ilustrados, porque tenho percebido que “As Mãos da Avó” é, muitas vezes, um livro que sensibiliza os adultos que se identificam com aquela experiência da neta, que aprende com as mãos da avó e que partilha momentos com ela, e que, em contacto com a natureza, vai percebendo pequenas lições que a avó lhe transmite. Vivemos tempos muito acelerados, em sociedades que valorizam muito a rapidez. A capacidade de pararmos e percebermos a importância da espera é uma reflexão que nos interessa particularmente e da qual até estamos a precisar.

Como se passa do jornalismo, precisamente dessa pressa das redacções, para a literatura infantil?

Esse é um dos desafios e diria até que uma das razões que explica o facto de eu publicar com longos intervalos, exactamente porque o jornalismo é tão absorvente e a realidade tem estado tão acelerada. Sinto que somos arrastados no vórtice da actualidade e temos muita dificuldade em travar, sobretudo desde a altura da pandemia. Tivemos a crise, a invasão na Ucrânia, fomos tendo outros conflitos muito centrados no Médio Oriente, mas também a própria eleição de Donald Trump trouxe uma série de alterações na geopolítica internacional. Temos avanços na inteligência artificial que nos vão lançando desafios. Ou seja, vivemos tempos que constituem desafios colectivos e que se traduzem no nível de atenção permanente por parte dos media e de alteração do trabalho nos próprios media. Somos muito afectados pela alteração dos algoritmos, das redes sociais, da entrada da inteligência artificial em campo. Há uma rapidez que deixa muito pouco espaço para a criatividade e imaginação. Quando consigo esses espaços, importantes para mim, dá-me alguma respiração neste mundo que tem estado algo distópico nos últimos tempos. E, portanto, gosto de olhar para a literatura infantil ou juvenil como um caminho para alguma descompressão e até para alguma saída deste mundo às vezes pouco empático e pouco focado.

Falando da inteligência artificial, ainda é possível pôr crianças a ler um livro físico?

No caso particular da leitura para a infância, e com os álbuns ilustrados, acredito que o papel vai resistir, porque é de facto único na capacidade de nos transportar para o peso que as próprias ilustrações têm. Hoje temos formatos cada vez mais criativos, com livros que trazem novas abordagens, com desdobráveis [por exemplo] e uma criatividade que tem sabido evoluir num sentido que é tão único que, de facto, não pode ser substituído por nenhum ecrã. Vou às escolas com alguma regularidade e sinto que as crianças mantêm, pelo menos na primeira infância, um grande entusiasmo com as histórias e com os livros. Gostam de os sentir. Depois temos de fazer a nossa parte. Se olharmos para os exemplos da Suécia ou Noruega, que num determinado momento foram pioneiros no digital, pelas salas de aula dentro, e agora percebem que foi um erro e estão a regular e a incentivar cada vez mais o livro e a leitura, acho que temos de ir aprendendo com essas lições. Há medidas que têm de ser adoptadas por decisores e governantes, no sentido de ir protegendo e estimulando a leitura e percebendo que ela tem um espaço próprio que não deve ser alterado, apesar da competição gerada pelo digital e pelos ecrãs.

Começou no jornalismo em 1998 e actualmente é directora do Jornal de Notícias (JN). Qual a mudança mais fracturante que assistiu na profissão nos últimos anos?

Temos tido muitas mudanças muito rápidas. Quando comecei já estávamos a falar nos desafios que o digital nos iria trazer, e desde então fizemos muitas experiências e continuamos sem respostas, porque a todo momento temos novos desafios. Uma das grandes dificuldades é continuar a merecer a confiança dos leitores e, no fundo, a captar a atenção no meio de tanto ruído. Diria que o grande desafio é até mais social do que dos próprios jornalistas, que têm estado muitas vezes sozinhos a defender um espaço que é, na verdade, vital para a própria democracia. No nosso caso, no JN, tivemos um momento particularmente marcante que foi ao final de 2023 e início de 2024, um momento de luta que evitou um despedimento colectivo. Houve depois uma mudança de accionistas e de propriedade no grupo [Global Media]. Esse momento, em Portugal, foi particularmente importante e significativo na reflexão que, em Portugal, estamos a fazer sobre a propriedade dos media, o financiamento e a sustentabilidade, problema que também está a ser enfrentado pela revista Visão. Do ponto de vista tecnológico, creio que vamos continuar a assistir a mudanças constantes, em que ainda não sabemos muito bem o que a inteligência artificial vai provocar, nomeadamente nesta questão da confiança das pessoas, na disseminação cada vez maior e mais eficaz da desinformação e os riscos que, no fundo, acarreta para todos nós.

Quando fala que a preservação do jornalismo também parte da sociedade civil, não sente que o perigo reside no facto de as pessoas terem muita desconfiança em relação aos media e terem até um tom acusatório em relação aos jornalistas? Como se combate isso?

Sim, por isso é crucial que haja capacidade para, de forma colectiva, olharmos para este tema da desinformação como um problema da democracia, e não um problema dos jornalistas. É verdade que há essa desconfiança, e parece-me que os cidadãos ainda acreditam em muitos mitos relacionados com a informação, ou seja, que através das redes sociais conseguem obter a informação sem precisar de jornalismo, que conseguem ser eles a seleccionar as fontes, ou que seguem quem querem. Não percebem que estão constantemente a ser manipulados pela própria lógica do algoritmo, pelas bolhas que vão sendo criadas na sequência do seu próprio comportamento digital. Há uma série de mecanismos subtis que são perigosos do ponto de vista individual e do ponto de vista da popularização social, em relação aos quais os cidadãos ainda não estão plenamente atentos e dos quais não estão, sequer, muitas vezes conscientes. Sabemos muito bem a quem interessa essa desinformação, quem a trabalha e quem mais [promove] a disseminação alargada de informações falsas. Sabemos os riscos a que estamos sujeitos quando as opiniões são, cada vez mais, facilmente manipuladas e orientadas, nomeadamente em períodos de eleições. Já há diversos estudos que comprovam o quanto a desinformação aumenta em períodos eleitorais. Esta é uma reflexão que, apesar dessa má imagem que os jornalistas actualmente sofrem, vai ter de ser feita colectivamente.

No sábado protagoniza uma oficia de literacia digital para professores intitulada “Combater a desinformação na era da IA”. E como se combate, afinal?

Temos riscos cada vez maiores e as ameaças são muitas. Diria que se combate sobretudo com muita formação. Nesta acção de formação para professores vamos abordar algumas formas de tratar o tema, nomeadamente para crianças e adolescentes já ao nível do secundário, porque é essencial que todos possamos identificar alguns sinais em vídeos, imagens ou informações partilhadas. Para que saibamos identificar quem tem funções de particular responsabilidade, e o professor é sempre alguém que tem essa responsabilidade perante a sua própria sala de aula e aqueles que estão, no fundo, entregues e confiados. O professor tem essa missão com uma maior exigência, porque pode ter um efeito multiplicador na transmissão de ferramentas que são úteis em todas as idades. Temos de estar atentos e saber como verificar a informação e, sobretudo, como não agir por impulsividade ou emotividade, que é um dos grandes problemas da desinformação. Esta joga muito com as emoções, com a confirmação de preconceitos e esse, no fundo, é o trabalho mais difícil de fazer.

12 Mai 2026

Daniel Pires, académico, sobre Camilo Pessanha: “Um homem que atraía muitas invejas”

“Pairo na Luz, suspenso…” – Centenário da morte de Camilo Pessanha (1867-1926) é o nome do congresso, que se realiza hoje e amanhã na Universidade de Coimbra, para celebrar a vida e a obra do poeta. Daniel Pires, académico e editor de Pessanha, irá desvendar detalhes sobre as colecções de arte que o poeta deixou e os seus contributos a nível jurídico

Apresenta hoje “O percurso cívico de Camilo Pessanha”. São muitas as valências desse civismo.

Vou falar da doação que fez de peças de arte chinesa ao Estado português, e também da sua biblioteca. Também vou falar sobre a sua actividade jurídica, pois esteve ligado a vários regulamentos publicados em Macau, tendo sido ele que os fez, na sua grande maioria, e que têm a ver também com a interacção entre portugueses e chineses.

Falemos das colecções doadas ao Estado português. O que encontramos nestes espólios?

Uma das colecções é imensa, com mais de 300 peças de grande valor, e que foi primeiramente exposta em Macau em 1915. Depois, pouco antes de falecer, ofereceu uma segunda parte da colecção, pedindo que viesse para Coimbra, para o Museu Nacional Machado de Castro.

Como descreve a relação de Camilo Pessanha com a arte chinesa?

Ele era um admirador da civilização e cultura chinesas, sem dúvida, e escreveu sobre isso, embora não tenha escrito muito. Aliás, ele não escreveu muito sobre nada, mas há artigos de jornais sobre arte e língua chinesa, o mandarim, e a estética que nela está implícita. Há notícias de que logo no início da sua estada em Macau, Camilo Pessanha começou a aprender e a falar cantonense. Depois fez traduções, e era de facto um sinólogo, uma pessoa que admirava bastante a filosofia e arte milenares, os caracteres chineses, e por aí fora.

Como era a relação destes intelectuais portugueses em Macau com a comunidade chinesa, numa altura em que eram muito poucos os livros que juntassem as duas línguas.

Não havia, de facto, grandes meios para se estudar a civilização chinesa. Macau estava fechadíssimo e poucas coisas lá chegavam, praticamente só tinha relações com Hong Kong. Ir à China era quase impossível. Mas havia o que chamamos de sinólogos, e os dois principais eram Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes. Depois temos o aluno de Camilo Pessanha que, em termos de sinologia, suplantava tudo, o Luís Gonzaga Gomes.

Além da doação de Pessanha, e que foi exposta em 1915, há uma segunda doação…

Ele [Camilo Pessanha] foi convidado por um grande Governador de Macau, que depois veio a ser morto na “Noite Sangrenta”, em 1921…

Carlos da Maia.

Exactamente, eram grandes amigos. Carlos da Maia convidou Pessanha para expor parte da sua colecção no Palácio [do Governador], e expor 100 peças de uma variedade e ecletismo incríveis, desde vestuário passando por objectos japoneses, etnografia, linguística, com os caracteres chineses artisticamente tratados. Antes de falecer, Camilo Pessanha contactou o Governador na altura, Maia Magalhães, oferecendo a sua colecção com a condição de vir para Portugal. Entretanto, a primeira doação tinha sido recusada por vários museus, por se entenderem tratar-se de pechisbeques. Ao fim e ao cabo tratava-se de ignorância, porque a colecção é excelente mesmo.

Camilo Pessanha adquiriu todas essas peças em Macau?

Ele andava pelos tintins [zona de mercado de rua no Porto Interior], mas também foi a Cantão mais do que uma vez e até a Hong Kong. Mas, de facto, a base dele era mesmo Macau. Ele aprendeu chinês também com o objectivo de poder comprar melhor. Pelas contas que fiz para o livro “Camilo Pessanha – Prosador e Tradutor” ele reuniu um acervo de 370 peças.

Relativamente ao trabalho jurídico de Pessanha, que legado deixou em Macau?

Muito forte, quer como bom jurista, quer como, digamos, juiz substituto. Esteve ligado à promulgação de várias leis e regulamentos. Mexeu bastante em leis que vinham do tempo da monarquia e que não tinham sido mudadas. Como juiz, optou sempre pelas penas mais baixas, tendo um tom humanista.

Macau gerou, ao longo da sua história, diversos intelectuais portugueses que se preocuparam com o território e não estiveram apenas de passagem. Pessanha foi dos mais importantes?

Sem dúvida. Há quem diga que era abúlico, mas [Camilo Pessanha] era uma pessoa doente, o que é diferente, e tinha também alguma depressão à mistura. Nessas crises obviamente que não podia ser muito activo. Ele nunca teve muita saúde, mas quando a teve fartou-se de mexer em coisas, sempre com o objectivo de aperfeiçoar, melhorar, alterar. Só que também é preciso dizer que Macau era muito conservadora, a sociedade macaense. Nem toda a gente aceitava pessoas que não iam à missa, por exemplo.

E Camilo Pessanha não ia à missa.

Não. Ele teve uma educação muito católica mesmo. As duas irmãs dele chamavam-se Madalena e isso não é por acaso, não é? Mas nos anos pré-República o catolicismo foi muito forte e houve ali uma pressão fortíssima. E isso repercutiu-se na mentalidade de muitos intelectuais, muitos deles que eram inicialmente católicos e que depois se confrontaram com o compadrio que existia na alta hierarquia católica e a monarquia. Claro que nem todos seriam assim. Falo do apoio que o alto clero dava aos monárquicos, com alguma corrupção, alguns escândalos de cariz sexual também, e que foram denunciados na imprensa. Tudo isso afastou uma série de pessoas que, inicialmente, eram católicas, e terá sido o caso de Camilo Pessanha também.

Estes casos ocorreram em Portugal.

Sim, mas chegavam a Macau através dos jornais e…

Contaminavam a opinião pública.

Exactamente.

Camilo Pessanha também era mal visto por consumir ópio?

A doença tornava-o propenso à droga, mas não era uma coisa que não o impedia de concretizar o seu trabalho diário. Digamos que seria uma coisa que ele faria em casa [fumar ópio]. Obviamente que as pessoas mais conservadoras olhavam para isso de lado, daí terem surgido uma série de histórias sobre Pessanha da parte de pessoas extremamente conservadoras que não hesitaram em caluniá-lo e até denegri-lo. Muita gente disse que a colecção de arte chinesa dele não valia nada. Silva Mendes, por exemplo, era um inimigo de Camilo Pessanha, misturou ideologia com falta de ética e usou todos os meios possíveis para o denegrir. Chegou a sair um artigo de Silva Mendes dizendo que a poesia de Camilo Pessanha era de muita fraca qualidade. Imagine, onde ele foi tocar. Naquilo onde Camilo Pessanha é intocável é, exactamente, na poesia. Mas era um homem que atraía muitas invejas.

Por ser genial, digamos assim?

Sim. O meio de Macau era muitíssimo fechado. Os portugueses seriam uns mil, isto no princípio do século. Estavam ali encafuados, claustrofóbicos, numa paranóia – no sentido do termo, mesmo – relativamente à China, que estava ali ao lado, e as pessoas sabiam o que tinha acontecido ao Ferreira do Amaral [Governador assassinado em 1849]. Isso foi um trauma muito forte para os habitantes de Macau, e na época de Pessanha esse trauma ainda era visível.

Quando Pessanha vai para Macau tem consciência das suas especificidades sociais e políticas?

Não. Terá tido dificuldades na adaptação ao clima, e são sempre duas culturas díspares, não é? Houve a questão da língua, porque ninguém falava português, o corte radical com a família. Ele tinha problemas familiares, com um irmão que enlouqueceu. Portanto, acho que teve uma capacidade de adaptação bastante grande, porque ele chega e começa a estudar de imediato cantonês.

A relação de Pessanha com a comunidade macaense era também próxima.

Havia, de facto, uma interacção com a comunidade, mas não só. Houve uma interacção de Camilo Pessanha com o primeiro Presidente da República chinês.

Sun Yat-sen.

Exacto. Há várias fotografias dele com o Sun Yat-sen.

Portanto, era bem mais republicano do que monárquico, além de maçom.

Sem dúvida, Camilo Pessanha era mesmo republicano e escreveu vários textos de apoio à República. A implantação da República deu-se a 5 de Outubro [de 1910], mas em Macau não. As autoridades locais eram todas monárquicas e a transição foi difícil.

O novo Governador, Eduardo Marques, só foi proclamado dias depois.

Pois. Eles não cediam. O secretário do Governo era um tipo completamente monárquico, e Camilo Pessanha também desempenhou aí um papel interessante. O mesmo quando a Constituição de 1911 foi aprovada. [Ele questionou]: “E aqui, como é? Não há Constituição?”. O ensino também demorou a mudar, porque os republicanos tentaram reformar o ensino em Macau, que tinham as missões católicas, e isso foi difícil.

Disse que Camilo Pessanha escreveu pouco ao longo da vida. Talvez se não fosse Ana de Castro Osório não teria sido editada “Clepsydra”. Como explica esta dispersão poética?

É verdade. Mas o grande problema prende-se também um pouco com a doença do Camilo Pessanha. Ele esteve quatro anos em Portugal, de 1905 a 1909, quando foi operado a um tumor. A inspiração poética também dependia do seu estado de saúde. Na realidade a “Clepsydra” é composta por 56 poemas apenas, e também fiz uma edição de “Clepsydra” em que reuni a prosa dele, e tudo isso cabe num livro. Houve também muita coisa que ele vivenciou e não escreveu, o que foi pena. Tem a ver com o temperamento dele, era uma pessoa fechada, tímida, na realidade. Ao fim e ao cabo isso reflectiu-se na sua escrita.

A partir do momento em que Pessanha vai para Macau, como ficou a sua relação com Portugal?

Ele foi para Macau por duas razões. Uma delas é que se formou em Direito, e na altura os juristas, para terem uma carreira como juiz ou procurador régio, tinham de servir nas colónias. Foi o que aconteceu ao seu grande amigo, Alberto Osório de Castro, que esteve em Goa e Timor. Depois houve outro detonador, que foi o facto de ele ter pedido Ana de Castro Osório em casamento e ela não ter aceite por já estar comprometida. Depois ela desentendeu-se com o, chamemos, namorado, e há uma carta de Alberto Osório de Castro perguntando a Camilo se ainda gostava da irmã, se havia alguma perspectiva no horizonte, mas ele já estava acomodado a Macau. Tinha de ganhar dinheiro para mandar a um irmão que estava a estudar em Coimbra, e a outro que tinha enlouquecido. Nessa altura, já estava com a mãe do filho, Águia de Prata.

Como olha a forma como Camilo Pessanha é recordado hoje em dia em Portugal?

Digamos que está um pouco esquecido nas escolas básicas e secundárias, mas também lhe digo que não é fácil a poesia de Camilo Pessanha. Quase precisa de um guia. Mas nos meios intelectuais, digamos, não me parece que ele seja esquecido. Antes do 25 de Abril, Camilo Pessanha não era muito conhecido, e ganhou um grande impulso depois. O mesmo aconteceu com Fernando Pessoa. Só por volta da década de 1980 começaram a ser publicadas edições de “Clepsydra” e se impôs Camilo Pessanha. Digamos que, neste momento, Camilo Pessanha não é um poeta esquecido.

11 Mai 2026

José Ferreira Pinto, docente | Na época da “tirania dos números”

Docente na Universidade Cidade de Macau, José Ferreira Pinto acaba de editar, na Amazon, a obra “Arithmocracy: When Numbers Rule and Judgment Disappears”, sobre o poder crescente dos números sobre relações interpessoais. A “aritmocracia” veio, definitivamente, para ficar e é difícil reagir ou encontrar alternativas mais humanas, diz o autor

Porque razão decidiu escrever sobre esta “obsessão métrica”?

Como profissional académico e consultor, testemunhei uma transformação profunda nas organizações, com a substituição progressiva do julgamento humano pela tirania dos números. A “obsessão métrica” não é simplesmente o uso de dados, mas a elevação da medição a uma posição de domínio organizacional que, paradoxalmente, mina os próprios resultados que a medição pretendia melhorar. É como quando o médico passa mais tempo a documentar do que a curar. A “aritmocracia” não é sobre ter métricas – é sobre as métricas nos terem a nós.

Desde a industrialização que os números, no sentido das horas de trabalho, ou contagem da produção, dominam a vida humana. Com a chegada dos meios digitais e, sobretudo, da Inteligência Artificial (IA), podemos ter uma nova fase desta “obsessão métrica”?

Charlie Chaplin, em “Modern Times” (1936), profetizou este fenómeno, mostrando como sistemas desenhados para optimizar performance podem produzir situações absurdas, alienação e estupidez sistémica. Com a IA e meios digitais, entramos numa fase exponencialmente mais intensa.

Como?

A fase industrial, de Chaplin, tinha medição manual, localizada e visível, em que o cronómetro de Taylor media movimento. Aí, o trabalhador via a medição acontecer. Mas na fase digital há a mediação automática, ubíqua e invisível, em que os algoritmos medem cada clique, pausa e desvio sem que nos apercebamos. A IA não reduz a burocracia – torna-se a arma definitiva da “aritmocracia”. O que Chaplin satirizou como loucura mecânica, nós normalizámos como “gestão data-driven”. Hoje a máquina não apenas mede, mas também decide. E quando os algoritmos decidem, a responsabilidade moral dissolve-se: “foi o algoritmo que determinou.”

De onde vem o conceito de “aritmocracia”?

Tem uma genealogia fascinante, nomeadamente uma raiz histórica em Charles Kinglsey (1850), que cunhou este conceito para criticar a redução da democracia a uma mera contagem de votos: “A ‘democracy’ of mere numbers is no democracy, but a mere brute ‘arithmocracy’.” Há ainda um paralelo histórico com o período da dinastia Qing, na China, (221-206 a.C.), e a revitalização moderna com Anthony Tasgal, um estratega de comunicação, que reintroduziu o termo para descrever “a obsessão com números e medição, a crença numa espécie de infalibilidade divina nos números.” O que faço, no livro, é partir de uma observação sobre disfunção organizacional para uma teoria sobre como os sistemas métricos se tornam regimes de poder, e também porque a resistência individual parece fútil.

Como funcionava o sistema de governança por quantificação na dinastia Qing?

Esta dinastia oferece um paralelo histórico fascinante e instrutivo – talvez o exemplo pré-moderno mais sofisticado de governança através de quantificação sistemática. O sistema Qin antecipa, com notável precisão, os mecanismos da “aritmocracia” moderna. A filosofia Legista que fundamentou a Dinastia Qin representou uma revolução no pensamento político chinês. Ao contrário do Confucionismo, que enfatizava a virtude moral dos governantes, o Legismo propunha que o Estado deveria operar através de leis fixas e incentivos mensuráveis, nomeadamente com o “Registo Doméstico Sistemático”. Pela primeira vez na história chinesa, cada família foi catalogada, registada e tornada “legível” ao poder central. Este sistema não era meramente administrativo, mas epistemológico. Transformava populações em unidades contáveis que podiam ser taxadas, recrutadas e controladas com precisão sem precedentes. Havia depois o “Sistema de Mérito Quantificado”, em que o status social deixou de ser hereditário para ser determinado por realizações mensuráveis. Por exemplo, os soldados subiam de patente com base em “contagem de cabeças” – o número literal de inimigos mortos em batalha. [Publicou-se também] “O Livro do Senhor Shang”, um texto que articulou uma visão de statecraft [arte de governar] onde recompensas e punições eram calibradas matematicamente a resultados mensuráveis, eliminando a “confusão” introduzida por considerações morais. Deu-se ainda uma estandardização radical, em que pesos, medidas, largura de eixos de carruagens, escrita, moeda, tudo foi uniformizado. Isso tornou o vasto território “legível” à autoridade central, permitindo a administração à distância através de categorias universais. Contudo, a dinastia implodiu apenas 15 anos após a sua fundação – um dos colapsos mais rápidos na história imperial chinesa.

Porquê?

Deu-se a fragilidade sistémica, com um regime construído inteiramente em métricas abstratas, sem atenção à legitimidade moral ou sensibilidade a condições locais, revelando-se profundamente frágil. Quando uma revolta começou entre trabalhadores recrutados que chegaram atrasados aos seus postos – enfrentando a execução por falhar uma métrica temporal – o império inteiro desmoronou. As regras eram tão rígidas que nenhum contexto importava – e quando as pessoas deixaram de acreditar nas regras, não havia mais nada a sustentar o sistema. Como o historiador Mark Edward Lewis observou, Qin demonstrou que “o poder que flui de cima através de métricas é mais eficiente que o poder que emerge de baixo através de consenso – mas também é infinitamente mais frágil.”

Que semelhanças podem ser encontradas com a actualidade?

Em ambos [os períodos] se promete a eficiência através de uma quantificação universal, ou ambos tratam a diversidade humana como legível através de categorias estandardizadas. Além disso, privilegiam o controlo central sobre conhecimento local, transformando o julgamento moral em cálculo técnico.

Defende-se que o termo “aritmocracia” não é “uma conspiração, mas um padrão emergente onde o sistema de medição, designado como ferramentas, se torna mestre”. Também entende que a forma como pensamos está a mudar. De que forma?

A “aritmocracia” opera através do que Mary Douglas chamou “pensamento institucional”, em que sistemas métricos não apenas constrangem comportamento, mas fornecem as categorias cognitivas através das quais processamos experiência. Há três mecanismos de transformação cognitiva, através da naturalização das métricas, em que estas se apresentam não como escolhas institucionais, mas como descrições da realidade. Há ainda a ideia de que “o dashboard [painel de controlo] mostra”, que se torna equivalente a “a realidade é”; as alternativas tornam-se impensáveis. Há ainda uma amnésia institucional, em que as organizações esquecem o que não medem – um hospital que mede o “tempo de espera”, mas não a “compaixão” [para com os doentes], gradualmente esquece que compaixão importa. Há depois a ideia de captura de valor, de Thi Nguyen, em que valores ricos e subtis das pessoas encontram versões simplificadas e quantificadas no ambiente. Ou seja, as versões simplificadas assumem o controlo. Dou um exemplo concreto: um médico que trabalhou 20 anos num sistema de 15 minutos por consulta eventualmente perde a capacidade de diagnóstico profundo. Não por má vontade, mas por atrofia cognitiva – as capacidades que não praticamos, perdemos.

Traz casos concretos para esta obra, oriundas de “histórias da academia, sistema de saúde, Governo, educação e hotelaria”. São sistemas métricos que não “apenas nos moldam, mas como reformulam a forma de pensar”.

Os casos que o livro documenta são de cinco domínios, e um deles é a academia, em que há a “tirania do h-index”, com académicos a optimizar citações em vez de [garantir] o impacto intelectual [do trabalho produzido]. Há um jogo de rankings, em que as universidades manipulam métricas, encorajando-se candidaturas para rejeitar ou inflacionar rácios professor-aluno. Ainda na área da educação, apresento o “PISA Panic” [pânico ou pressão em torno dos resultados dos testes PISA], pois ministros copiam sistemas de topo em rankings sem questionarem se as métricas PISA capturam o que importa. Há depois a gamificação infantil, com crianças de sete anos a competir por “pontos de leitura”, escolhendo livros por valor de pontos, e não por interesse. [Falo ainda] dos modelos de valor acrescentado, em que professores são avaliados por pontuações de testes, independentemente de contexto.

Na área do turismo, que exemplos apresenta?

Nos resorts integrados há uma tensão entre a lógica do “gaming”, com controlo e métricas precisas, e a experiência. Há ainda uma gestão de receitas, com sistemas que maximizam a receita de quartos a curto prazo, ao mesmo tempo que potencialmente danificam relações com clientes a longo prazo através [da ideia] da percepção de injustiça nos preços. Há ainda uma inércia activa, quando os resorts que enfrentam desafios competitivos respondem medindo mais intensivamente, analisando mais profundamente, otimizando mais agressivamente, numa actividade sem adaptação.

O livro fala da resistência individual à “aritmocracia”. De que forma pode ocorrer?

Argumenta-se que resistência individual é largamente fútil – o problema é sistémico. Mas o livro documenta estratégias coletivas emergentes, nomeadamente a existência de métricas democráticas. [Há o caso da cidade de] Porto Alegre, em que os cidadãos deliberam que resultados importam e como medir. Há ainda o exemplo de cooperativas de trabalhadores, em que os empregados estabelecem métricas de performance. Temos ainda o caso da integração narrativa, em que se podem combinar “dashboards” quantitativos com histórias de pacientes, com a ideia de que os números mostram “o quê” e as narrativas explicam “o porquê”. Há depois actos individuais de coragem, como o médico que fecha o computador portátil para realmente ouvir [o doente] ou ainda o gestor que suspende a avaliação métrica para entender o que os empregados realmente precisam. Estes não mudam sistemas sozinhos, mas criam fissuras no edifício “aritmocrático”.

Que conclusões retirou desta obra?

A “aritmocracia” não representa meramente uma mudança técnica nos sistemas de gestão, sendo uma transformação na própria natureza da agência humana e da autoridade epistémica, na forma como conhecemos o que nos rodeia. Quando um médico experiente enfrenta um paciente cuja condição não se enquadra nos protocolos algorítmicos, o sistema não reconhece [este caso], [reconhecendo apenas] desvios mensuráveis de padrões estatísticos. O médico pode saber que este caso particular requer uma abordagem diferente, mas esse conhecimento não é quantificável, não pode ser inserido numa folha de cálculo, não gera métricas reportáveis. Aos olhos do sistema, não existe. O que se perde não é apenas autonomia profissional, mas a capacidade de responder à singularidade de cada situação humana. Mais profundamente perturbador é o que a “aritmocracia” faz à categoria de pessoa, quando algoritmos de contratação classificam candidatos por “pontuação de adequação”, ou quando plataformas digitais calculam o “valor vitalício do cliente”. Este é um problema da transformação de pessoas em pontos de dados, tratando-as como objectos mensuráveis em vez de sujeitos que se auto-interpretam. A vida humana caracteriza-se por uma pluralidade irredutível de valores que não podem ser reduzidos a uma escala comum de medição. Na prática, os valores que resistem à quantificação tornam-se progressivamente invisíveis e depois indefensáveis.

É docente na área do turismo, porquê enveredar por esta área do discurso métrico e do raciocínio em torno dele? Por exemplo, de que forma este domínio do discurso métrico influencia o turismo e as respectivas políticas de gestão?

A minha motivação para investigar a aritmocracia emerge da confluência entre a minha posição profissional e os interesses académicos que têm orientado o meu percurso intelectual. Como docente a tempo inteiro na Faculdade de Negócios da Universidade Cidade de Macau, encontro-me numa posição privilegiada para observar e analisar uma ampla diversidade de contextos organizacionais e sistemas de gestão subjacentes. Esta experiência proporciona-me acesso directo às dinâmicas através das quais diferentes tipos de negócios – desde pequenas empresas locais a grandes corporações multinacionais – implementam, resistem ou são transformados por lógicas quantitativas de tomada de decisão. O contacto quotidiano com estudantes que se preparam para entrar nestas realidades organizacionais, bem como com gestores e profissionais que navegam as suas complexidades, permite-me compreender não apenas as estruturas formais da aritmocracia, mas também as suas manifestações vividas e as causas profundas que a sustentam. Esta investigação conecta-se de forma particularmente significativa com o núcleo da minha tese de doutoramento, que se centrou na resiliência aos níveis individual e organizacional.

Há uma relação entre a aritmocracia e esta resiliência?

A relação entre aritmocracia e resiliência revela-se fundamental de múltiplas formas. Por um lado, sistemas aritmocráticos prometem aumentar a resiliência organizacional através de monitorização contínua, detecção precoce de desvios e resposta baseada em dados. Por outro lado, a própria rigidez destes sistemas pode minar as capacidades adaptativas que constituem uma resiliência genuína – a capacidade de responder criativamente ao inesperado, de mobilizar conhecimento tácito em situações ambíguas, de manter coerência de propósito mesmo quando métricas específicas se tornam temporariamente desfavoráveis. A nível individual, a resiliência dos profissionais confrontados com pressões aritmocráticas torna-se uma questão crítica: como mantêm integridade profissional e bem-estar psicológico quando o seu trabalho é reduzido a indicadores de desempenho? Esta intersecção entre os mecanismos de controlo quantitativo e as capacidades humanas e organizacionais de persistir, adaptar-se e prosperar sob condições de pressão constitui um território conceptual que liga organicamente o meu trabalho anterior a esta investigação presente, permitindo-me explorar como sistemas de governação numérica tanto facilitam quanto constrangem a resiliência em múltiplos níveis de análise.

Porquê editar o livro em formato kindle na Amazon? Teve dificuldades em chegar a uma editora?

A escolha da auto-publicação em formato Kindle foi deliberada e estratégica, por três razões: a velocidade, pois o livro aborda um fenómeno em rápida aceleração. O processo editorial tradicional, de 12 a 18 meses, tornaria o conteúdo desactualizado. Há depois a questão do alcance global, pois a Amazon permite distribuição imediata em mais de 190 países, essencial para um fenómeno global. Há ainda uma ironia intencional, no sentido do poder do uso de ferramentas da aritmocracia, como os algoritmos da Amazon e as métricas de vendas para criticamente a examinar. É trabalhar dentro do sistema enquanto o questionamos. Quanto às editoras tradicionais, não procurei [nenhuma] activamente. A academia tem os seus próprios rituais de publicação, com sistemas de revisão por pares ou editoras universitárias, mas este livro é, deliberadamente, transdisciplinar – combina antropologia institucional, filosofia, estudos de caso de negócios, crítica de tecnologia. Essa hibridez é difícil de encaixar nas categorias editoriais convencionais.

5 Mai 2026

Jacob Fordham, académico: “Estudo a história dos primeiros macaenses”

Jacob Fordham, académico ligado à London School of Economics, está a ultimar um livro que analisa o papel dos tradutores no comércio entre portugueses e chineses em Macau. No âmbito das Conferências da Primavera, no Centro Científico e Cultural de Macau, o investigador apresentou a palestra “Chinese-Portuguese Linguists, Corruption, and Office: a Late Ming Chinese Debate”. Ao HM, diz que os “linguistas” eram “essenciais para gerir relações com chineses”

Tem analisado arquivos chineses, ingleses e portugueses sobre o comércio no sul da China. Falamos de um período intenso de negociações, com muitos interesses em jogo?

Fiz o doutoramento em Estudos Asiáticos e do Médio Oriente na Universidade de Oxford, investigando a história dos “linguistas” ou “jurubaças” [termo atribuído a chineses cristãos nascidos em Macau] do delta do Rio das Pérolas nos séculos XVI e XVII. Eram tradutores e intérpretes, mas, ao contrário do que esperamos hoje — que os tradutores sejam neutros e discretos — estavam também activamente envolvidos nas relações entre chineses e estrangeiros como negociadores e intermediários. Estudei teoria da tradução, mas fiquei um pouco insatisfeito com a análise de textos traduzidos como forma de estudar a tradução no passado.

Porquê?

Porque a tradução não é apenas linguística; é um acto social realizado por pessoas num contexto específico, e queria escrever sobre essas pessoas. Por isso, passei da teoria da tradução para a história.

Mas voltando a esse período histórico em Macau…

Foi, de facto, um período de negociações intensas e de luta pela sobrevivência para a recém-estabelecida cidade de Macau. Não se tratava apenas de um encontro entre duas culturas separadas, mas de um constante vai-e-vem, um contacto que gerou novas formas de pensar a relação entre Estado e comércio, entre chineses e estrangeiros, e assim por diante. Tentei revelar algumas dessas formas de pensamento através da lente dos “linguistas”, que estavam no centro dessas negociações.

Na sua apresentação, no Centro Científico e Cultural de Macau, falou do caso de Paulo Neretti [falante de português que esteve envolvido no comércio entre Macau e o Japão no século XVII] e das percepções de Zhang e Chen [figuras chinesas envolvidas no comércio] sobre o seu papel como “linguistas”, especialmente em relação ao poder político e comercial e à busca de lucro. Como encontrou a figura de Paulo Neretti e qual a sua importância?

Paulo Neretti foi uma descoberta casual que acabou por ser fascinante. Encontrei-o quando procurava material sobre as primeiras viagens inglesas ao sul da China. Na Biblioteca Bodleian, em Oxford, existe o diário de um mercador inglês que participou na primeira expedição comercial inglesa a chegar a Macau e Cantão, e que lidou com este “linguista” bilingue, Paulo Neretti. A partir daí, segui o rasto arquivístico pelo mundo para descobrir quem ele era exactamente. Descobri que, na verdade, era chinês de nascimento, mas foi criado em Macau na casa de um nobre florentino chamado Orazio Neretti, que se estabeleceu na cidade e chegou a servir como enviado a Nagasaki. Esse agregado incluía outros intérpretes bilingues com ligações até à Coreia e ao Japão. Paulo Neretti teve uma vida extraordinária, sendo eventualmente assassinado em sua casa pouco depois de regressar de um encontro com o imperador Shunzhi, onde actuara como intérprete de uma embaixada holandesa. Foi ele quem me colocou no caminho de estudar os “linguistas” e abriu uma janela para um mundo raramente preservado nos arquivos.

Macau foi um porto comercial muito importante no sul da China a partir de meados do século XVI. Como descreveria a relação entre mercadores e tradutores, ou “linguistas” nesse período? Uma relação próxima, com convergência de interesses?

Eram completamente dependentes uns dos outros. Na verdade, os “linguistas” pertenciam normalmente à casa de um mercador, criados desde o nascimento a falar ambas as línguas. A ligação aos mercadores dava-lhes acesso a uma actividade potencialmente muito lucrativa; e, para os mercadores — que não falavam muito chinês —, os “linguistas” eram essenciais para gerir as relações com os chineses.

Mais especificamente sobre a comunidade macaense, participou activamente nesses jogos de poder em nome da administração portuguesa, ou também da chinesa? Pode dar exemplos?

Este foi o período inicial em que aquilo a que chamamos comunidade macaense estava a formar-se. Muitos dos “linguistas” que estudei tinham origens étnicas mistas ou biculturais, o que lhes permitia ser bilingues em português e chinês. Curiosamente, o termo “jurubaça” passou a ser usado não só no sentido de intérprete, mas também como classificativo étnico para chineses cristãos nascidos em Macau, devido à forte associação com essa profissão. Portanto, aquilo que estudo é, na verdade, uma história dos primeiros macaenses.

Como descreveria a perspectiva das autoridades chinesas sobre este tipo de comportamento, especialmente em relação a lucro, poder e Estado? Seriam conceitos muito diferentes dos europeus?

O que me chamou a atenção ao ler fontes chinesas e europeias foi que todos enfrentavam o mesmo problema: a comercialização trazia oportunidades e perigos. Por um lado, os “linguistas”, vindos de famílias mercantis, eram motivados pelo lucro, e isso podia ser aproveitado pelos oficiais para gerir relações com estrangeiros. Por outro lado, era arriscado, pois significava delegar o controlo da fronteira. Hoje vemos a tradução como algo neutro, mas eles encaravam-na como uma actividade com interesses próprios. Em vez de perguntarem “como traduzem os tradutores?”, perguntavam “por que traduzem?”. Ou seja, qual era a sua motivação? Nas fontes europeias, fala-se da “honestidade” e “coragem” dos tradutores; nas chinesas, da sua “orientação para o bem público” ou “interesse próprio”. Assim, o mesmo problema era pensado de formas diferentes em tradições intelectuais distintas.

Podemos concluir que, em termos de corrupção e jogos de poder, as autoridades chinesas estavam conscientes dessas situações e as permitiam para benefício próprio, nomeadamente em Macau?

Sem dúvida que estavam conscientes e faziam uso disso. Hoje, o termo “corrupção” tem uma conotação totalmente negativa, mas alguns oficiais chineses da época viam isto como uma oportunidade. O uso das “línguas” motivado pelo lucro permitia ao Estado expandir a sua influência além das suas capacidades directas. Quanto a Hong Kong, surgiu muito mais tarde, quando os “linguistas” já tinham perdido importância e eram essencialmente funcionários aduaneiros. Este sistema de gestão de fronteira, delegado a intermediários semi-estatais e semi-comerciais, foi bastante específico dos séculos XVI e XVII.

O que revelam estes casos sobre a presença portuguesa e britânica no sul da China e o comércio da época?

Estes debates ajudam a compreender como eram as relações entre a China e os países europeus na época moderna. Muitas vezes, essas relações são vistas de forma negativa, com a ideia de que a China era fechada, xenófoba e imutável. Mas estes casos mostram que isso não é verdade. A forma de pensar era diferente da nossa.

Que investigação pretende desenvolver no pós-doutoramento?

Estou a escrever um livro baseado nesta investigação, que está quase concluído. Espero que esse livro mostre uma história mais humana e que vá além dos estereótipos de uma China passiva e estática. Também podemos aprender com eles sobre o papel de intermediários informais em zonas de fronteira hoje. Estou também a iniciar um novo projecto sobre as relações entre Macau e Malaca, bem como com o mundo malaio em geral.

4 Mai 2026

José Drummond, artista, estreia novo trabalho em Lisboa: “A ideia foi criar um espaço de meditação”

“O néon é um material que me interessa muito”. Quem o diz é o artista plástico José Drummond, ex-residente de Macau actualmente a viver em Portugal, e que acaba de ver inaugurada no recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, em Lisboa, uma nova peça. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, inspirada no I Ching – Livro das Mutações, é um convite à reflexão sobre a vida e os caminhos que se podem percorrer

Como surgiu a oportunidade de ter um trabalho teu no MACAM [Museu de Arte Contemporânea Armando Martins] e de que forma ele se enquadra nas restantes obras?

Antes de mais quero falar sobre o valioso trabalho do coleccionador Armando Martins na promoção da Arte Contemporânea em Portugal. É um trabalho notável e incontornável. Quero também referir o interesse e visão sobre o meu trabalho e todo o apoio de modo a tornar possível um projecto tão complicado de chegar a uma fase final. O convite foi feito no final de 2020, pela directora do Museu, Adelaide Ginga, e pela curadora Carolina Quintela, que me lançaram o desafio de criar uma obra “site-specific” para o espaço do túnel que liga a garagem ao Museu. Quando começámos a trabalhar, o que sabíamos é que seria um espaço de passagem, que nos interessava manter o aspecto do túnel com as paredes em cimento e que seria uma peça com luz. O trabalho resultante prossegue a minha investigação do espaço intermédio entre culturas – chinesa e ocidental – prolonga as questões de transiência presentes no taoismo e budismo, e continua a explorar os aspectos de, praticamente, todos os meus trabalhos serem sempre uma transferência seja conceptual, cultural ou física.

“Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, nome da obra, é de 2025. Como foi o processo criativo? A sua colocação num corredor obedece a alguma mensagem específica, ou pretende transmitir algumas ideias em concreto.

Este foi um trabalho que teve várias fases e que implicou uma larga cooperação com os engenheiros da obra de recuperação do edifício. A nível de projecto foi complicado chegar a este formato final e cumprir a minha visão. Houve a necessidade de se criar uma estrutura eléctrica de propósito para a peça, de se fazer um tecto falso que mantivesse a expressão das paredes originais e por aí em diante. Mesmo depois de finalizar o projecto no papel, tivemos de esperar que as obras de recuperação do edifício ficassem prontas para que fosse possível avançar, pois o túnel era usado como passagem para todos os materiais usados dentro do Museu. Quando, em conjunto com a Adelaide e a Carolina, cheguei a uma versão conceptual final sobre o que apresentar, levantaram-se outros problemas técnicos de manufactura dos néons e de montagem. Foi um processo muito desgastante para todos porque, infelizmente, tanto o custo dos materiais como a falta de rigor da mão de obra em Portugal – para trabalhar com néon a este nível de alta exigência para uma obra com a dimensão que tem – é deficiente. Basicamente a empresa responsável pela manufactura e montagem teve um comportamento absolutamente grosseiro, de falta de profissionalismo, tendo falhado em praticamente tudo o que foi pedido. Foi necessário desmontar tudo e voltar a montar com a montagem final a ser feita por mim e pelo meu assistente, Rafael Lopes, sem o qual não teria sido possível. Quanto ao processo criativo, apesar de parecer complicado, acabou por ser mais simples. Quis fazer uma obra com inspiração no I Ching [Livro das Mutações], e a partir daí tudo apareceu.

Que ideias concretas trouxe para o projecto?

A minha ideia foi criar um espaço de meditação, de contemplação, uma pausa, um portal que permita uma reflexão sobre a humanidade, sobre cada um de nós, um caminho ou uma passagem que junte a sabedoria milenar ao tempo contemporâneo; e que seja capaz de estabelecer um diálogo intercultural que não se esgote numa só ideia de cultura. Ao combinar elementos como o I Ching, talvez o primeiro registo de cultura em livro do mundo, com uma escolha de materiais como luzes néon, componentes arduíno, sequências por algoritmo de computador e com uma componente de som, o trabalho promove uma fusão entre tradição e tecnologia, entre passado e presente. O gesto de incorporar sequências completamente aleatórias, decididas pela programação e sem que permita ao humano saber o que vai acontecer de seguida, levanta as questões da tecnologia que se começa a automatizar por si própria. A programação irá criar sequências virtualmente infinitas. Este gesto de não se saber se o néon que vai acender de seguida é o hexagrama x ou y, prolonga a ideia do I Ching.

De que forma?

Traz uma dimensão de imprevisibilidade e indeterminação que pode ser interpretado como uma metáfora sobre a complexidade e incerteza da vida contemporânea. As sequências aleatórias são em si um registo de transitoriedade e impermanência, que também podem sugerir a ideia de que cada experiência é singular e cada momento em si, único. A presença de luzes néon e som cria uma atmosfera imersiva e sensorial, convidando os visitantes a uma experiência contemplativa, estimulando estados emocionais e mentais, e incentivando a introspeção. O trabalho poderá parecer inicialmente místico e enigmático, mas os elementos visuais e a sua coreografia – com cadências e mudanças suaves, e a composição de sons – subtis e envolventes, direccionam o sentir e o estar para o momento presente, podendo criar uma sensação de tranquilidade e calma, favorecendo um espaço mental propício à meditação. Oferece ainda um espaço fora do ritmo acelerado da vida contemporânea, onde cada um possa estar com as suas emoções, com os seus pensamentos, naquele momento, ali. Existem duas cores, azul para o céu e vermelho para a terra, ou também noite e dia, ou positivo e negativo – o Céu com seis linhas contínuas e a Terra com seis linhas interrompidas são hexagramas fundamentais que vão de encontro ao processo dos opostos, yin e yang. Tive a felicidade de trabalhar com o programador João Cabral para toda a programação e montagem do sistema arduíno que comanda a peça, e do músico David Maranha que entendeu na perfeição o que eu queria. Uma experiência enriquecedora para todos.

Há muito que trabalha em torno dos neóns. De que forma este trabalho se relaciona com outras coisas que tenha feito, se é que se relaciona de alguma forma…

Ao nível expressivo o néon é um material que me interessa muito. Na montagem final desta peça há resquícios expressivos das memórias que tenho dos néons no antigo Hotel Lisboa e no Hotel Fortuna, que tristemente já foram substituídos por LEDs, ou dos primeiros néons que vi nas minhas viagens na China. Por outro lado, continua o meu trabalho sobre o espaço cultural intermédio, onde as culturas se misturam e se mantêm em suspenso, sobre o deslocamento da pertença de onde somos e para onde vamos.

Que outros novos projectos tem em mãos?

Voltei a pintar. Se conceptualmente é mais do mesmo, o processo está a ser gratificante. Estou a trabalhar num grupo de pinturas luminosas e mais não posso revelar.

2 Abr 2026

Miguel Carvalho, autor do livro “Por Dentro do Chega”: “O Chega atraiu tudo e um par de botas”

Há muito que o jornalista Miguel Carvalho investiga o Chega, o partido político de extrema-direita fundado por André Ventura. Convidado do Festival Literário “Rota das Letras”, Miguel Carvalho vem a Macau falar do livro “Por Dentro do Chega – A Face Oculta da Extrema-Direita em Portugal” e do crescimento dos populismos

Vai partilhar a sessão “Do Engano ao Populismo” com outro jornalista, João Miguel Tavares, que escreveu uma obra sobre José Sócrates. Que paralelismo encontra entre Sócrates e o Chega?

Acho bastante curioso que se tenha proporcionado o debate entre estes dois livros [“José Sócrates – Ascensão (1957-2005)” e “Por Dentro do Chega”]. Isto porque o próprio André Ventura assumiu, embora posteriormente tenha desmentido, mas está gravado, que votou em José Sócrates no primeiro mandato. Descrevo no livro a forma exemplar como Ventura, de alguma maneira, olha para si próprio em relação à própria persona política, nas características positivas que via em José Sócrates, no que diz respeito à ideia do político que veio mudar tudo e mais alguma coisa. Mas José Sócrates é uma figura odiada dentro do Chega, é, talvez, o político que o Chega mais refere para identificar os maus na política. Em muitos casos, Sócrates foi a motivação pela qual muitos aderiram ao Chega. Na minha investigação encontrei muitos militantes que chegaram a votar em José Sócrates, acreditando ser a melhor coisa que podia acontecer à política portuguesa.

O livro vai na nona edição em Portugal. Esperava essa reacção do público, tendo em conta o crescimento do eleitorado do Chega?

Há uma dimensão disto que, para mim, é um bocado irreal. Estamos a falar de um país como Portugal, que tem índices de leitura marginais, e já temos 36 mil exemplares de tiragem no total. Mas esta reacção do universo eleitoral do Chega, tanto de pessoas que já saíram ou que ainda lá estão, não é uma total surpresa para mim. Recebi imensas mensagens por e-mail ou Facebook de pessoas que, ou tinham saído do Chega ou que ainda lá estavam, mas que respeitavam o meu trabalho jornalístico, independentemente do que possam pensar de mim como cidadão ou das minhas convicções. Pessoas que estavam a ler o livro com espírito crítico. Sei de pessoas que leram o livro e saíram do Chega, e outras que continuaram. O livro é 90 por cento o Chega a falar de si próprio, e estou grato pelo facto de as pessoas continuarem a respeitar o meu trabalho jornalístico, independentemente da opinião que possam ter sobre mim.

O Chega é fruto de uma onda de populismos que tem surgido um pouco por todo o mundo. Não aprendemos nada com a história?

Isso não, e é claro a vários ritmos. Dedico o último capítulo à entrada das narrativas extremistas nas escolas e faculdades, e de como a narrativa do Chega está a contaminar, e a tornar cúmplice, uma geração que tem uma grande distância em relação ao 25 de Abril. Com base em testemunhos de professores e de outros profissionais, relato a presença cada vez mais frequente de alunos nas salas de aula a fazerem a saudação nazi, alguns que citaram partes do “Mein Kampf”, ou enveredaram por narrativas simplistas, a maior parte delas completamente falsas e baseadas na desinformação que grassa por aí. São jovens que estão a levar para a sala de aula coisas que julgávamos já estarem resolvidas. Mas isso acontece também porque algo falhou na escola, e se calhar Portugal não é caso único nesse aspecto. Talvez, em parte, justifique a ascensão dessas narrativas e movimentos. Sei também, pelo acesso à vasta documentação interna do Chega ao longo destes anos, que os professores são uma das classes profissionais com maior representação na militância do Chega, desde o ensino básico à academia. Temos aqui factores que estão a gerar um caldo muito preocupante em relação à entrada de ideias extremistas num universo que, em muitos casos, ainda nem sequer vota.

Uma das ideias que sai do seu livro é que não podemos falar de um eleitor tipo do Chega.

Não é fácil para mim [fazer essa definição]. Não sei, neste momento, quem é o eleitor típico do Chega porque varia imenso consoante a localização geográfica e orientações políticas. Ou seja, o Chega atraiu tudo e um par de botas, digamos assim. Numa fase inicial foi buscar gente oriunda dos partidos que estavam mais próximos de si ideologicamente, nomeadamente o PSD e o CDS. Fui muito para o terreno, entrevistei centenas delas, e é agora verificável com estudos realizados sobre o comportamento eleitoral que o Chega conseguiu atrair gente de várias opções ideológicas no passado, desde o PCP ao Bloco de Esquerda. Houve muitos eleitores tradicionais do Partido Socialista que passaram para o Chega. O partido é disruptivo até em relação ao próprio sistema tradicional dos partidos.

Em que sentido?

Acredito que um eleitor ou um militante de um dos partidos tradicionais até pode discordar do líder em determinada altura ou discordar do programa numa determinada fase, mas se está nesse partido e se vota nesse partido, é porque está minimamente confortável, digamos assim, a 70 ou 80 por cento com o seu ideário. Ora, o Chega não funciona assim, e veio romper com tudo isto. Temos de imaginar o Chega como uma espécie de restaurante onde há o chefe Ventura que inventa uns dez pratos, com aquelas ideias que sabemos de cor e salteado, sobre a imigração, a comunidade cigana, a castração química de pedófilos, e depois este universo eleitoral escolhe três ou quatro pratos que lhe dizem mais respeito, em função do seu percurso pessoal e profissional, ou das suas frustrações, ou da sua comunidade, até. Por exemplo, é fácil encontrar gente do Chega que até não concorda nada que André Ventura faça o discurso que faz sobre a comunidade cigana, mas já concorda quando ele justifica a necessidade de não haver educação sexual nas escolas, porque isso só serviria para ensinar as crianças a masturbarem-se. Aí já acreditam e acham que é um combate que vale a pena. Cada caso é um caso e nunca encontrei um partido tão atomizado e individualizado a esse nível.

Fez, há uns anos para a revista Visão, uma investigação sobre o macaense Vitório Cardoso, ligado ao PSD, mas visto em manifestações do Chega. É um exemplo de alguém que se aproximou do Chega vindo de um partido tradicional?

Tudo o que conheço dele e das suas afirmações públicas, algumas delas, entretanto, apagadas, e tudo o que fui lendo ao longo dos anos sobre a expressão pública do seu pensamento político, torna-o obviamente uma figura mais próxima do Chega do que propriamente do PSD, mesmo sendo este PSD o que é, sem grande lastro ideológico. Não me espantaria, portanto, que pessoas como o Vitório se sentissem muito mais confortáveis num partido como o Chega do que naquele onde supostamente militam.

Na diáspora portuguesa o Chega também tem crescido. Como explica este fenómeno, tendo em conta que falamos de um partido com um discurso anti-imigração?

Esse lado está menos tratado no livro, porque na altura não houve condições para aprofundar o tema. O Chega tem, desde logo, uma grande mobilização da parte de alguns empresários portugueses na diáspora. Na França e Suíça isso é por demais evidente. Há, portanto, grandes empresários que se puseram ao serviço do partido e de André Ventura, usando os seus recursos para levarem o máximo de pessoas a votar. O Chega desmentiu, disse que não tem nada a ver com estas organizações, e que se tratam de iniciativas individuais, mas a verdade é que mesmo nas eleições legislativas, em Genebra, o Chega foi o único partido que conseguiu colocar propaganda eleitoral nas caixas de correio. Isto reflecte outro aspecto, que é o facto de o PS e PSD estarem há demasiado tempo confortáveis, em alguns países, com o voto imigrante. Ou seja, como habitualmente dividiam os eleitores entre si, não se preocuparam muito com a literacia política e mediática de um vasto sector da imigração. É preciso lembrar que 90 por cento dos portugueses radicados nos países mais importantes da imigração portuguesa não foram votar, e isso é muitas vezes justificado pelo facto de sentirem que Portugal os esqueceu. E depois há outra questão, que é o facto de gente que mesmo tendo emigrado em circunstâncias muito difíceis para fugir à miséria, a verdade é que com o seu trabalho conquistaram um determinado estatuto e consideram hoje que qualquer imigração, mesmo sendo a dos seus irmãos portugueses, é prejudicial. Notei muito isso nos Açores, por exemplo, onde se começam a gerar conflitos familiares e de amizade. Isto, do ponto de vista psicológico, é bastante complexo de desmontar.

O deputado José Pereira Coutinho, que venceu as últimas legislativas em Macau, comparou-se a André Ventura. O presidente do Chega é visto como uma espécie de estrela da política que quase serve de referência para outros?

Sim. Já é claro que o partido teria muitas dificuldades em manter a força política que tem hoje sem André Ventura, que é alguém que domina a linguagem mediática há muitos anos, muito antes do Chega. Ele tem o domínio avassalador da comunicação e sabe simplificar, obviamente escudado em muitas mentiras e falsidades. Escrevo isto desde 2020, o Chega é, essencialmente, um projecto de poder pessoal. Ventura submeteu o Chega ao culto do líder, e o partido é hoje, com toda a certeza, menos livre do que era no início.

Com menos crítica interna?

Havia, apesar de tudo, determinadas correntes e pessoas com pensamento próprio, que independentemente ou não de estarem de acordo com a generalidade das propostas que o partido oferecia, eram capazes de subir ao palco num congresso e fazer uma crítica à direcção. Tenho sérias dúvidas de que isso aconteça no próximo congresso do Chega. Os acórdãos do Tribunal Constitucional são avassaladores sobre a falta de democraticidade interna, e [isso acontece] por instinto de sobrevivência, já que André Ventura raramente permitiu dar [palco] a outras pessoas. Há estudos recentes que demonstram que André Ventura transformou o Chega numa liderança muito idêntica à do regime norte-coreano. Pode-me perguntar, se amanhã ele for embora, obviamente que o Chega se irá manter. Sofre um grande abalo, mas continuamos a ter a grande questão, tal como tivemos nos Estados Unidos: não foi pelo facto de Donald Trump ter ficado quatro anos de fora da Casa Branca que deixou de existir. Aqui temos o mesmo problema, não será pelo facto de Ventura ir embora que o “Ventura Country” deixará de existir, é preciso dar resposta aos anseios e às frustrações que geraram esse “Ventura Country”. Se isso não for feito, esse “Ventura Country” vai à procura de outro Ventura.

Ventura vai ser primeiro-ministro em Portugal nas próximas legislativas? Com ou sem maioria absoluta?

Se houver uma crise política novamente, estou convicto que o Chega tem altas possibilidades de ser Governo. Mas a verdade é que há sinais de desgaste na narrativa do Chega. Do eleitorado que aderiu em força logo no início, há sinais de que encontrou outro tipo de motivações. Entre as eleições autárquicas, e a primeira volta das presidenciais, e isso não foi muito falado, o Chega perdeu cerca de 100 mil votos. São eleições muito diferentes, mas 100 mil votos também não se perdem assim. E a verdade é que o Chega tinha, em relação às últimas autárquicas, uma altíssima expectativa que, mesmo com três câmaras municipais ganhas, não se veio a confirmar. A verdade é que, se não houver, no imediato, uma alteração do ciclo político, o Chega terá mais dificuldades em chegar ao Governo.

4 Mar 2026

Novo filme de Tracy Choi, “Girlfriends” estreia hoje no MGM Macau: “É muito difícil ser realizadora em Macau”

Em “Girlfriends”, o seu novo filme e quarta longa-metragem da carreira, Tracy Choi criou uma espécie de alter-ego, através de uma personagem que, depois de estudar em Taiwan, vive em Hong Kong enquanto luta para financiar um filme. Em entrevista ao HM, a realizadora diz que quer continuar a fazer filmes em torno das mulheres e suas vivências. A estreia oficial de “Girlfriends” está marcada para hoje, às 19h30, no MGM Macau

Faz exactamente dez anos que estreou “Sisterhood”, e provavelmente Tracy Choi não iria imaginar que, uma década depois, o sucesso seria real, com cada vez mais reconhecimento internacional em relação à sua forma de fazer cinema. Depois de colocar, pela primeira vez, um filme de Macau no Festival Internacional de Cinema de Busan, com “Girlfriends”, é a vez de a realizadora local trazer o seu novo filme, a quarta longa-metragem da carreira, para a sua casa. A estreia acontece hoje na sala “Treasure Box” do MGM Macau, a partir das 19h30.

Conversámos com a realizadora antes da estreia da nova obra, que nos contou como começou a pensar no guião do filme durante o período da covid-19. “A história é sobre uma rapariga que cresceu em Macau, que estudou em Taiwan e que foi trabalhar em Hong Kong. Pensei nisso [no filme] durante a pandemia, porque não podíamos ir a lado nenhum e não tínhamos nada para fazer. Decidi escrever um guião sobre mim: uma rapariga de Macau a crescer, ver como ela cresce e como se encontra a si mesma, algo do género.”

O elenco faz-se de actrizes com as quais Tracy Choi já trabalhou, nomeadamente Fish Liew, Jennifer Yu, Elizabeth Tang, Ning Han, Natalie Hsu e Eliz Lao. “Uma delas já recebeu várias nomeações e até prémios em Hong Kong, incluindo o de melhor actriz [Jennifer Yu]. Desta vez, depois de quase dez anos, voltámos a trabalhar juntas. Acho que crescemos muito e foi como trabalhar entre amigas. Foi uma grande felicidade poder trabalhar com alguém que conheço bem. A química entre elas também é muito boa, porque são amigas na vida real.”

No caso de Natalie Hsu, foi nomeada para o prémio de “Melhor Actriz” na 43ª edição dos Hong Kong Film Awards, enquanto que Eliz Lao é uma actriz local, que até teve direito a um ciclo de cinema em nome próprio na Cinemateca Paixão. Eliz Lao fez filmes em Hong Kong e na China, tendo experiência em televisão e teatro, sem esquecer a formação em ballet.

Sobre a estreia de hoje, Tracy Choi destaca que “os filmes com a temática LGBT, ou histórias sobre o crescimento feminino, não são muito comerciais”. “Sempre que procurámos entrar em festivais, foi-nos dito que o filme não ia ter grandes vendas. Ainda assim, e mesmo que o filme não tenha grande sucesso comercial, esperamos alcançar mais público, e fazer com que mais pessoas conheçam o filme”, destacou.

“Girlfriends” foi rodado e produzido com fundos públicos, e filmado em 2024. Tracy Choi e a sua equipa também procuraram investimentos em Taiwan e Hong Kong. Depois do lançamento em Macau, a equipa prepara-se para novas estreias na região vizinha e em Taiwan.

Sobre a experiência recente em Busan, na Coreia do Sul, com “Girlfriends” a integrar a secção de competição “Vision Section”, Tracy Choi trouxe as melhores recordações. “Foi uma grande experiência estrear o filme lá. Foi o primeiro filme de Macau a ser exibido no festival, tivemos uma grande noite. O público também pareceu gostar e acabámos por ser convidados para ir a outros festivais, e isso foi importante para toda a equipa.”

Furar barreiras

O cinema de Tracy Choi reflecte um pouco o imaginário de Macau e as vivências femininas, mas também explora cenários emotivos de sentimentos de pertença, memória e recordações. “No que diz respeito às mulheres e às histórias de Macau, somos sempre representados pelos outros, como filmes de Hong Kong, ou da China. Muitas vezes somos representados por outros realizadores e não há muitas vozes de realizadores locais, especialmente no que diz respeito a mulheres. Então, como sou mulher, espero realmente focar-me na forma como as mulheres crescem aqui ou noutros lugares na Ásia, naquilo que as mulheres enfrentam. Nos meus próximos projectos espero continuar a focar-me nas maneiras como as mulheres enfrentam o mundo em diferentes situações”, disse.

Tracy Choi não esconde que “Girlfriends” tem uma temática assumidamente LGBT, enquanto que, nos seus filmes anteriores, não era tanto assim. “Talvez fossem mais sobre Macau ou [o sentimento] de irmandade, algo assim. Mas em ‘Girlfriends’ focámo-nos, principalmente, numa história de amor LGBT. Espero que seja um pouco mais comercial para um filme LGBT, e o caminho que escolhemos para contar a história é mais comercial. Espero que o público comum, e não apenas LGBT, também consiga sentir amor pelas pessoas LGBT e identificar-se com esse tipo de história.”

No caso de “Sisterhood”, a sua primeira longa-metragem, há referências à transição de Macau, em 1999, e de duas antigas massagistas, Sei e Ling, que passaram bons tempos juntas. Porém, anos depois, uma delas percebe o grande segredo da outra, numa amizade que ganha outros contornos.

As dificuldades sentidas

Apesar do sucesso que tem vivenciado, Tracy Choi salienta que “é muito difícil ser realizadora em Macau porque não há muitas produções”. “Mas não sou só eu, outros cineastas de Macau também estão a trabalhar arduamente para que aconteçam coisas. Procuramos outras maneiras [de sustento]: eu dou aulas e trabalho como produtora para fazer com que outras produções se concretizem. Esperamos, todos juntos, poder conquistar mais público e atenção, para que os próximos realizadores, e as produções em Macau, tenham um caminho um pouco mais fácil”, acrescentou.

A realizadora está ainda a colher os louros do seu quarto filme, mas já está a trabalhar na pós-produção de outra longa-metragem. “No ano passado também filmei outra produção, em co-produção com a China, e esperamos terminar antes do Verão e exibir o filme ainda no final deste ano.”

Tracy Choi nasceu em 1988 e estudou Produção Cinematográfica na Universidade de Shih Hsin, tendo crescido no bairro de San Kiu. “Sisterhood” foi o seu filme de apresentação que lhe valeu alguma notoriedade, nomeadamente depois de ter recebido o Prémio para a Escolha do Público, no Festival Internacional de Cinema de Macau. Tinha na altura apenas 28 anos.

Sobre este momento, recordou à Revista Macau: “Depois de me ter formado em Taiwan, regressei a Macau para trabalhar. Naquela altura, há cerca de dez anos, não havia cinema em Macau. Não havia produções locais a serem filmadas com regularidade. Isso não acontecia e nós aproveitámos a oportunidade que nos foi dada. Desafiei os meus amigos a juntarem-se ao concurso organizado pelo Centro Cultural, obter financiamento e filmar algo que tivesse um significado importante para nós. Foi também muito importante que a minha primeira longa-metragem pudesse estrear no Centro Cultural, porque foi algo que trouxe visibilidade à indústria cinematográfica local”, referiu.

27 Fev 2026

Marcelo Loureiro, autor e docente: “O indigenato foi uma continuação da escravidão”

Esteve recentemente em Macau para apresentar o livro “Colonial Citizenship: law, race and rights through the Portuguese empire”. A obra de Marcelo Loureiro explora a forma como, no império português, a cidadania portuguesa foi sendo moldada conforme a cor da pele. Macau não foi excepção, ainda que com outros contornos face a África, argumenta o docente da Universidade de Leicester

Imagem: Fundação Rui Cunha

Como começou esta investigação e como surgiram os temas do colonialismo e cidadania?

Tudo nasceu de uma experiência pessoal e familiar. Cresci no Rio de Janeiro, numa família marcada pela diáspora portuguesa por um lado, e pelo silêncio colonial do outro. A minha avó paterna, portuguesa, guardava no fundo de um armário os documentos que me permitiram, aos treze anos, reclamar a cidadania portuguesa. A minha outra avó, mestiça, cafuza, não tinha papéis, não tinha histórias para contar; de ela para mim, existia apenas um silêncio. Esta divisão, entre quem tem direito a documentos e a voz e quem é forçado ao apagamento, foi o ponto de partida para questionar a construção legal da cidadania e da nacionalidade. Quando cheguei a Portugal para estudar Direito em Coimbra, comecei a perceber que a lei que me reconhecia como português era a mesma que historicamente negou esse reconhecimento a milhões de pessoas com base na raça, na ‘civilização’ e na cor da pele. O livro é, em parte, uma tentativa de compreender essa estrutura jurídica de inclusão e exclusão, é uma denúncia da injustiça por detrás dos direitos. É uma denúncia da cidadania como método de exclusão.

No contexto do império português, quando surgem as primeiras noções de cidadania e quais os critérios utilizados?

As primeiras noções formais de pertença nacional em Portugal aparecem nas Ordenações Filipinas de 1603, que estabelecem quem deve ser considerado ‘natural’ do reino. É interessante perceber que a inclusão da noção de nacionalidade só foi incluída na lei portuguesa durante a União Ibérica, durante a dinastia Filipina, quando Espanha controlou Portugal por meio dos Habsburgo. Foi nesse contexto que a lei espanhola foi transposta para Portugal para separar portugueses de espanhóis. Contudo, a construção prática da cidadania portuguesa começa muito antes, por oposição: através da escravatura. Desde o século XV, com bulas papais (como a Dum Diversas de 1452 e a Romanus Pontifex de 1454), Portugal obteve legitimação canónica para escravizar africanos e conquistar os seus territórios. A cidadania portuguesa foi-se construindo assim, em oposição à figura do ‘outro’ – o mouro, o negro, o pagão, o ‘selvagem’, e finalmente, o ‘indígena’.

Quais eram os critérios de diferenciação?

Os critérios eram essencialmente civilizacionais e raciais: ser cristão e, progressivamente, ser branco ou reconhecido como ‘civilizado’ segundo padrões europeus. A conversão ao cristianismo funcionava, em períodos, como uma espécie de ‘branqueamento espiritual’, mas mesmo os convertidos raramente alcançavam plena igualdade jurídica o que continuou sendo imposta por séculos. A lei chamava indígenas a todos aqueles que existiam fora do padrão de civilização esperado de cidadãos, que eram as populações não-brancas de Angola, Moçambique, Guiné e Timor.

Macau terá ocupado sempre uma “posição privilegiada” no contexto deste império. Concretamente, como?

Em termos de cidadania, Macau nunca foi sujeito ao Estatuto do Indigenato, que vigorou em Angola, Moçambique, Guiné e Timor. Esta exclusão não foi acidental. O Estatuto do Indigenato aplicava-se a populações consideradas ‘não civilizadas’ segundo critérios raciais e culturais europeus, sendo, em termos práticos, essencialmente populações negras da África continental e de Timor. Em Macau, a população chinesa, muitas vezes chamados de ‘Chins de Macau’, embora não sendo europeia, foi tratada de forma diferente. Havia leis que regulavam os direitos e costumes da população macaense, com uma lei completa entrando em vigor em 1909 e só abolida em 1949, por exemplo. A presença portuguesa em Macau sempre foi ladeada de diversos outros factores, como a influência britânica por contacto de Hong Kong, a progressiva presença política de Pequim, a instabilidade política portuguesa e o questionamento da existência do próprio império português internacionalmente. Tal levou a que Portugal não tenha conseguido impor em Macau uma soberania tão potente quanto àquela imposta em África e Timor.

Houve casos de discriminação contra as comunidades chinesa e macaense antes do século XX?

A discriminação existiu, embora de natureza diferente da imposta em África. Podemos mesmo ver na literatura, nas obras de Senna Fernandes, por exemplo, como a existência de muralhas, lados e partes de Macau, às vezes até ideológicas, para diferentes populações, de aldeais chinesas a cidades cristãs. A mesma divisão ocorria no mundo dos direitos, só que de uma forma indirecta, e não pela imposição directa do indigenato e da condição de nacional de segunda classe. A segregação e a diferença ocorriam de forma social, de dificuldade de aceder a determinadas carreiras, a falta de convites para aniversários por não serem ‘brancos’. Essa discriminação não assumiu a forma jurídica sistemática do indigenato, como dito. Os macaenses ocupavam uma posição intermédia, frequentemente funcionando como intermediários entre portugueses e chineses. A sua ‘portugalidade’ era reconhecida de forma ambígua: eram portugueses, mas de outro tipo.

Podemos referir que a cor da pele foi decisiva para não colocar Macau sob o Estatuto do Indigenato.

Sim, a cor da pele era absolutamente decisiva. O Estatuto do Indigenato aplicou-se em Angola, Moçambique, Guiné e Timor, territórios com populações maioritariamente negras ou ‘não brancas’ no sentido colonial. A lei portuguesa até criou o termo ‘raça oceânica’ para identificar timorenses durante a imposição do indigenato para que pudessem aproximar essa população racialmente das populações africanas. Macau, Índia Portuguesa, Cabo Verde, e, de certa forma São Tomé e Príncipe, foram excluídos dessa classificação. Os critérios oficiais estabeleciam ‘usos e costumes’ e ‘civilização’ como os parâmetros para identificar esses povos, mas na realidade essas categorias funcionavam apenas como um substituto para raça: eram raça, mas por outro nome. As populações da Índia Portuguesa e de Macau, embora não europeias, foram sempre poupadas da aplicação de leis abertamente racistas, apesar de práticas e políticas locais imporem, na maioria das vezes indirectamente, restrições a cidadania completa dessas populações, como descrevi.

Tendo em conta o Estatuto do Indigenato, que evolução pode traçar em termos do conceito de cidadania portuguesa?

O Estatuto do Indigenato, consolidado no início dos anos 1930, representou a codificação jurídica máxima da exclusão racial. O indigenato foi uma forma jurídica de segregação racial que criou duas categorias de ser português, nomeadamente o ser cidadão português (brancos e assimilados) e ser indígena português (a maioria negra). Os indígenas eram juridicamente portugueses, mas não eram cidadãos; não viviam com acesso a direitos, mas a restrições, viviam, como chamo no livro, num estatuto de ‘nacionalidade negatória’. Indígenas não podiam votar, não podiam circular livremente, não tinham direito a advogados, estavam sujeitos a trabalho forçado, pagavam impostos especiais por razão da raça, não podiam frequentar as mesmas escolas ou hospitais que os brancos. A evolução do conceito de cidadania portuguesa neste contexto é paradoxal: formalmente, todos eram ‘portugueses’, mas materialmente, a cidadania era reservada para quem demonstrasse ‘civilização’ por meio da cor da pele ou provando ser assimilado suficiente apesar de ser negro. A assimilação era o único caminho jurídico para sair do indigenato, mas exigia provar domínio da língua portuguesa, abandono de ‘usos e costumes’ africanos, emprego estável, ‘boa conduta moral’, e serviço militar. Pouquíssimos conseguiam.

Quais os casos mais flagrantes de negação de direitos que pode apontar?

Um dos mais flagrantes é o sistema de trabalho forçado, que funcionava como uma continuação da escravatura sob outro nome. Os indígenas eram obrigados a trabalhar em plantações, minas e obras públicas, frequentemente longe das suas famílias, em condições desumanas. Outro caso é a segregação espacial e social: hospitais separados para brancos e indígenas, bairros segregados, escolas diferentes. Na Guiné, indígenas eram forçados a usar colares com placas metálicas. Em Moçambique eram forçados a pagar impostos de rádio, caso tivessem um aparelho. Em Timor eram obrigados a pagar taxas caso se mudassem de uma autoridade local a outra, ou quando se divorciassem segundo os costumes locais. Os arquivos mostram também casos de indígenas que, apesar de se terem mudado para Lisboa, ainda continuavam a ser tratados como indígenas. Tudo graças a uma lei de 1955 que impôs o estatuto do indigenato a qualquer indígena em qualquer parte do império português – o que antes só era aplicado nas colónias de indigenato. Esse foi o caso dos chamados ‘Pedidos de Lisboa’, um grupo de requerimentos de assimilação que encontrei no Arquivo Ultramarino de Lisboa, onde indígenas que, tendo emigrado para a metrópole, tentavam obter reconhecimento como cidadãos.

O Estatuto do Indigenato seria abolido anos mais tarde, mas os efeitos parecem ter permanecido.

Concordo absolutamente. E digo mais: o indigenato foi uma continuação da própria escravidão, um reflexo que ainda é sentido hoje por tantas e tantas comunidades tocadas pelo império português. O Estatuto foi abolido em 1961, mas décadas de exclusão jurídica, educacional e económica não se apagam por decreto. As populações africanas foram sistematicamente impedidas de aceder a educação, propriedade, mobilidade e participação política durante gerações. Isso explica, em certa medida, a diferença entre as diferentes partes do império português, onde Brasil, Angola, Macau e Índia ocupam espectros completamente diversos em relação a níveis de protecção e acesso a direitos. Quando o Estatuto foi abolido, já estava consolidado um contexto de restrição e necessidade onde a maioria negra sobrevivia sem educação formal e sem acesso a direitos básicos. Os efeitos pós-coloniais são igualmente profundos: o indigenato ensinou gerações de africanos que a sua cultura, língua e modo de vida eram inferiores, e que para serem formalmente alguém, para serem reconhecidos como plenamente humanos perante a lei, tinham de se tornar brancos, tinham de se assemelhar, o máximo possível, ao colonizador. Mas mesmo essa assimilação formal raramente se traduzia em protecção real: o reconhecimento legal não garantia acesso efectivo a direitos. A assimilação marca não só um período histórico, mas uma forma de ver, sentir e sobreviver à história colonial. Esta violência deixou marcas que persistem nas sociedades pós-coloniais lusófonas e que só se pode pensar em serem sanadas quando existir um processo de acolhimento, verdade e reconstrução — algo que o Estado português ainda não foi capaz de fazer.

4 Fev 2026

Exposição | Eric Fok mostra “Dreaming of the Occident” em Taiwan: “Em Portugal, vejo vestígios da minha cidade”

O ano começou com um novo projecto de Eric Fok, que apesar de viver em Portugal não deixou Macau e o Oriente. “Dreaming of the Occident” está exposta na galeria Helios, em Taipei, e pode ser vista até 24 de Janeiro. Ao HM, o artista local revela que quer explorar artisticamente o universo da bifana de Vendas Novas, pela ligação à costeleta de porco de Macau

Como está representado o Ocidente nesta exposição?

Sempre me fascinou o cruzamento entre as culturas do Oriente e Ocidente, e já explorei a forma como Macau foi um território moldado por missionários e navegadores ocidentais que trouxeram novas ciências e ideias para o Oriente. A propósito de uma anterior exposição, e durante o processo de pesquisa, percebi como era raro os chineses viajarem para a Europa na época dos Descobrimentos. Li com entusiasmo os relatos dos poucos que o fizeram. Há diários que recriam de forma vívida as perigosas viagens marítimas e como era a vida nas antigas cidades europeias. Isso permitiu projectar-me nas suas histórias, fazendo a ponte entre o passado e o presente, entre o Oriente e o Oriente. Essas diferenças culturais não são apenas história para mim, mas tornaram-se numa rica fonte de imaginação para o meu novo trabalho.

Como artista de Macau, de que forma a história do território, marcada pelo intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente, moldou a sua forma de pensar esta mostra?

Tudo começou com o mapeamento de Macau para a série “Paraíso” [exposição de 2014], um projecto que nasceu da minha curiosidade sobre o passado da cidade num contexto de rápida expansão das indústrias do turismo e jogo. Através deste diálogo com a história local, comecei a compreender verdadeiramente a cidade. Passei de ter o foco nos pequenos detalhes da vida urbana para ter uma perspectiva macro do mundo, relevando o papel significativo de Macau na história global. Isso inclui o estatuto de porta de entrada para a China durante os Descobrimentos, a contribuição para o início da globalização, ou ainda ter sido um espaço de difusão do catolicismo a Oriente. [Não podemos esquecer] a profunda influência da cultura marítima. Todos estes temas constituem uma extensão da minha exploração em torno da experiência histórica, e singular, de Macau.

Pode descrever com mais detalhe o processo criativo para “Dreaming of the Occident”?

Além dos mapas de Macau, esta exposição apresenta também mapas da Eurásia e de várias colónias asiáticas, onde exploro temas como a navegação, o comércio e o império. A minha investigação estende-se também à experimentação de materiais. Além de usar o papel e a madeira, incorporei suportes não convencionais, como ovos de avestruz. Estes objectos funcionam como telas para narrar histórias sobre espécies endémicas e a história da migração, estabelecendo uma ponte entre um lado biológico e histórico.

A exposição pretende criticar a influência ocidental em Macau, reflectir sobre ela ou simplesmente observá-la?

Na minha exploração destes temas interesso-me sobretudo pelas dimensões culturais da história. Quando os europeus chegaram pela primeira vez à Ásia, viam o mundo de uma perspectiva eurocêntrica. O termo “Extremo Oriente” não era apenas uma designação geográfica, mas um símbolo de poder e uma visão específica do mundo. Mas, por outro lado, o termo “Extremo Ocidente” representa uma imaginação global inicial, no sentido de ser um espaço de compreensão mútua, ainda que incompleta. Hoje, que vivemos numa era de muita informação, em que a conectividade é instantânea, perdemos esse sentido de mistério, e o meu trabalho procura recuperar um pouco daquilo que é a fantasia da distância.

Espera leituras diferentes da exposição ou um conhecimento mais profundo do que é Macau, em termos culturais e históricos?

No processo criativo dou privilégio à expressão pessoal como respostas à sociedade e ao mundo em que vivemos. Embora expor numa galeria comercial traga, inevitavelmente, uma dimensão de mercado ao meu trabalho, o meu foco é sempre na integridade da obra. Nos últimos anos, a minha vontade de que o público “descodifique correctamente” a minha arte foi-se alterando, no sentido em que, embora sinta uma profunda satisfação quando alguém se conecta com o meu mundo interior, passei a aceitar esse “vazio” na narrativa do meu trabalho. Essas lacunas destinam-se a ser preenchidas pelas experiências e emoções de quem vê, ou talvez pelo próprio tempo e pela história. Num tempo de mudanças rápidas e efémeras, utilizo o pincel para documentar e preservar. O meu trabalho consiste numa partilha da experiência urbana que convida o público a criar uma ligação emocional com as cidades, promovendo uma reflexão profunda sobre identidade e pertença.

Tem vivido entre Macau e Portugal. De que forma isso influencia o seu trabalho e a visão da história e cultura de Macau?

No momento em que respondo a esta entrevista encontro-me em Vendas Novas, uma localidade em Portugal que é famosa pela bifana. Actualmente, estou a explorar se existe alguma ligação directa entre esta especialidade local e o pão com costeleta de porco de Macau. Há séculos atrás, os portugueses procuraram construir um “lar” em Macau, deixando estruturas portuguesas que definiram o horizonte da minha cidade. Actualmente, estando em Portugal, vejo vestígios da minha cidade por todo o lado. Sendo asiático, e estando rodeado por diferentes raças e línguas, encontro um certo sentimento de pertença que tanto pode trazer uma ideia de alienação como de algo profundamente familiar. A enorme distância geográfica é encurtada pela cultura e história, que são partilhadas. Esta troca de identidades e o movimento entre lugares constituem profundas inspirações para o meu trabalho.

A busca por um lugar desconhecido

No portal de Internet da galeria Helios, a nova exposição de Eric Fok é descrita como uma busca por uma Europa que, do lado oriental, se sabia existir, mas que estava longe de ser conhecida, sobretudo a partir de meados do século XVI, quando surge o termo “Taixi” como referência ao “Grande Ocidente”. A expressão chinesa foi usada pelo missionário jesuíta Matteo Ricci e é um dos focos do trabalho do artista de Macau em “Dreaming of the Occident”.

Segundo a apresentação da Helios, “Taixi” era um termo atribuído à “terra extremamente distante no Ocidente e que foi, outrora, um espaço em branco nos mapas, ainda por explorar”. Desta forma, os mapas imaginados de Eric Fok exploram as ideias de um lugar ausente e desconhecido, sendo analisada também “a identidade do eu, o transporte de memórias, poder e ideologia”. Com recurso a pesquisa histórica, o artista de Macau “redescobre a ‘Taixi’ a partir do olhar do Extremo Oriente, por meio da escrita e da representação cartográfica”. Eric Fok investigou também “as visões do mundo que existiam no passado, formadas pela interligação entre o poder e a crença”, é descrito.

15 Jan 2026

Embaixador do Irão em Lisboa condenou “institucionalização do uso indevido da força”

O embaixador do Irão em Lisboa, Majid Tafreshi, condenou “institucionalização de uma nova política”, concretizada com o instrumento do “uso indevido da força”, aludindo aos Estados Unidos e a Israel. Numa entrevista à agência Lusa, Tafreshi advertiu que este processo irá “alastrar-se” se os países, sobretudo os ocidentais, “não tomarem medidas sérias” contra os Estados Unidos e Israel, “que têm incitado à agitação pública”.

“Não há garantias de que tais práticas não venham a repetir-se, sobretudo quando já se ouvem discussões inquietantes, como as relativas à posse da Gronelândia”, destacou Tafreshi, lembrando a actuação norte-americana na Venezuela, e as insinuações contra a Colômbia e Cuba.

A entrevista decorreu antes de o diplomata ser chamado pelo Governo português por causa da repressão violenta de manifestações contra o Governo iraniano, anúncio feito ontem pelo ministério dos Negócios Estrangeiros.

O diplomata iraniano lembrou ter já solicitado aos “colegas académicos” e diplomatas a criação em Portugal, de um novo fórum intitulado “Diálogo entre Inimigos”, na procura de uma “paz universal e de um mundo livre de guerra e de tensão”, bem como a criação de novos mecanismos – como uma União da Ásia Oriental – “poderia constituir uma iniciativa com significado”.

“Acredito que a política e os políticos deveriam seguir mais de perto a vontade dos seus próprios povos, que, na realidade, não parecem ter grandes conflitos entre si – como se observa claramente no turismo, nos estádios de futebol, nos concertos e em centenas de outras interacções humanas”, argumentou o diplomara iraniano.

Sobre os recentes desenvolvimentos no Irão, em que, disse, manifestações pacíficas centradas em desafios económicos, com o passar do tempo, “alguns elementos presentes nessas concentrações escalaram para incidentes violentos”, incluindo acções armadas que, segundo relatos, “envolveram indivíduos com treino prévio”.

“Lamentavelmente, estes acontecimentos resultaram em vítimas entre agentes das forças de segurança, forças de ordem pública e cidadãos comuns”, afirmou Tafreshi, depois de o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, ter condenado e exigido o fim da “repressão dos protestos no Irão, que resultaram em mais de 600 mortos desde 28 de Dezembro, segundo uma organização não governamental.

O embaixador do Irão em Lisboa referiu os “milhões de cidadãos iranianos” que participaram segunda-feira em manifestações públicas, “reflectindo uma mudança no quadro geral e expressando apoio ao seu país islâmico”, o que, tal como no passado, a notícia tem uma atenção limitada dos meios de comunicação social ocidentais.

Incentivos exteriores

Questionado sobre o que está a estrangular a economia iraniana, Tafreshi destaca a intervenções de Israel, “em menor grau”, e os Estados Unidos, “que têm incentivado a agitação pública”, bem como os desafios económicos do Irão que são significativamente influenciados por sanções extensas impostas” por Washington.

“Estas medidas, que o Irão considera ilegais, têm também sido apoiadas por países europeus que defendem os direitos humanos, apesar de existirem preocupações de que tais políticas tenham afectado negativamente direitos fundamentais da população iraniana, incluindo o acesso a cuidados de saúde”, denunciou.

“O respeito pela Carta das Nações Unidas, as amargas lições da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais e as experiências devastadoras e os custos dos acontecimentos no Afeganistão, na Síria, na Palestina, no Líbano, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia e noutros locais deveriam ser suficientes para nos recordar a necessidade urgente de priorizar, mais do que nunca, a coexistência pacífica”, acrescentou.

Sobre o elevado número de vítimas mortais, Tafreshi negou que a segurança iraniana esteja a utilizar o uso desproporcional da força, exemplificando, a par do elevado número de mortes entre civis, com o número significativo de mortos e feridos de polícias”.

Poder do povo

Questionado sobre as palavras de Reza Pahlavi – filho do antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto após a Revolução Islâmica de 1979 – em que afirmou que tenciona regressar em breve ao Irão, Tafreshi considerou que, com o “apoio de alguns meios de comunicação social ocidentais e sionistas”, parece estar a tentar desempenhar o papel de um “Robin dos Bosques”.

“No entanto, Robin dos Bosques nunca apelou às pessoas comuns para recorrerem à violência ou violarem normas e princípios internacionais, como o ataque a embaixadas e instalações diplomáticas. Durante o reinado do seu pai, apesar de o Irão contar com o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente, o país perdeu a sua 14.ª província, o Bahrein. Com base na experiência, os Estados Unidos apoiam e exploram qualquer pessoa capaz de prejudicar a independência e a segurança do Irão”, respondeu.

Tafreshi negou, por outro lado, que o regime – “o termo “regime é uma expressão ilegítima e enviesada” – esteja em risco, destacando novamente “os milhões” de iranianos que se manifestaram segunda-feira em favor da soberania do Irão.

“A República Islâmica pertence ao povo do Irão. O ayatollah [Ali] Khamenei é o líder do Irão e um desses cidadãos”, sublinhou o diplomata, para quem a China e a Rússia mantêm “boas relações” com Teerão, pelo que não é necessário contar com Pequim ou Moscovo para defender o país, que conta com o seu próprio povo para proteger a sua segurança e soberania.

14 Jan 2026

Sofia Ferreira da Silva, autora de um estudo sobre ópera nos anos de Mao: “Rota da Seda foi a maior influência”

Em “Cantando a Revolução: O Papel das Cancões e da Ópera na Disseminação do Comunismo na China de Mao Zedong”, Sofia Ferreira da Silva analisa a forma como canções e ópera difundiram ideais políticos, deixando marcas no panorama cultural do país. A análise saiu da tese de doutoramento em Estudos Artísticos, defendida pela autora na Universidade Nova de Lisboa

Como era o ambiente musical no país antes da chegada de Mao Zedong ao poder?

A China era, e continua a ser, um território com uma enorme variedade de práticas a nível regional, local e étnico. Podemos falar em quatro tipos principais: uma música de carácter mais erudito, simbolizada pela música de corte (yayue) e pela música para guqin, mais centrada em ideais confucianos e com funções rituais e de auto-cultivo da moral individual; música folclórica, com géneros vocais e instrumentais variáveis conforme a região e a etnia; música religiosa taoísta, budista e de outras crenças; e ópera tradicional, como a Kunqu e as óperas de Pequim, de Sichuan e de Cantão, combinando canto, declamação, movimentos estilizados e artes marciais. A maior influência na música chinesa foi, porventura, a Rota da Seda, pois uma boa parte dos instrumentos musicais que agora são considerados “chineses”, como o erhu, a pipa, a suona e o sanxian, têm origem em instrumentos estrangeiros trazidos para território chinês, e que foram gradualmente adaptados e incorporados na sua música. Por outro lado, alguns géneros narrativos e operáticos evoluíram da adaptação e combinação de congéneres provenientes dos territórios atravessados por esta rota. Não fosse a Rota da Seda, e a música chinesa tradicional seria radicalmente diferente.

Que outras influências existem?

A outra grande influência é a da música ocidental. Esta, apesar de ter entrado no país nos séculos XVI e XVII, fez-se sentir com maior intensidade a partir de meados do século XIX e ao longo do século XX. A crescente presença e influência estrangeira levou à introdução sistemática da notação ocidental, da formação académica em moldes europeus e de géneros de música erudita e popular ocidentais, que viriam a ser assimilados de forma variável por compositores chineses, como Ma Sicong, Li Jinhui ou Xian Xinghai, combinando-as ou não com motivos da música tradicional.

Fala, na tese, de duas grandes mudanças nos anos de Mao, com a criação dos chamados “espectáculos-modelo (yangbanxi)” e as óperas de Pequim revolucionárias. De que forma estes formatos ajudaram a reformular o cenário musical da época?

Os espectáculos-modelo, nos quais se inserem as óperas de Pequim, e as canções revolucionárias, desempenharam um importante papel na reforma do panorama musical maoísta, implicando mudanças não apenas nos estilos musicais, mas também na função social da música. A produção passou a estar inteiramente subordinada ao projecto político do Partido Comunista Chinês (PCC), traduzindo-se na adesão obrigatória de artistas e associações artísticas designadas, e na supressão, através da crítica nos órgãos de comunicação social, de elementos ou géneros musicais considerados “feudais”, “burgueses” ou “supersticiosos”. Por oposição, e acompanhando sucessivos movimentos e campanhas políticas, foram sendo promovidos outros formatos, mais em linha com os ideais do regime.

Como, em termos concretos?

No caso das “yangbanxi”, da Revolução Cultural, o facto de serem apelidadas de “modelo” implicava que todas as novas criações deveriam seguir à risca os preceitos estéticos estabelecidos através destas, sobretudo as regras da “tarefa básica”, com a construção de figuras heroicas revolucionárias como fim último da criação artística. Havia ainda as “Três Proeminências”, com a atribuição de maior ou menor proeminência a determinada personagem consoante o seu grau de positividade ou negatividade, da sua função na trama. Estas regras orientavam não apenas a estrutura narrativa e o papel das personagens, mas também aspectos como a integração entre música e gestualidade, a construção de figurinos e cenários, e a harmonia entre elementos musicais tradicionais e ocidentais. Esta codificação visaria, nesta medida, garantir a uniformidade ideológica e estética essenciais à criação de uma cultura musical controlada, funcional e politicamente eficaz no quadro dos objectivos da revolução.

Quais as principais mensagens políticas transmitidas através destes dois tipos de espectáculos?

A primeira grande ideia é a lealdade quase religiosa a Mao Zedong e a observância incondicional das suas ideias. É o seu pensamento que inspira e guia as acções dos heróis e personagens heroicas, a segunda mais importante categoria de personagens nas óperas revolucionárias, e as conduz à conclusão bem-sucedida da missão que lhes seria imputada ou ao sacrifício heroico em prol da causa comunista. A segunda é a luta de classes como motor da história. Temos, por um lado, a classe opressora, capitalista, imperialista e feudal como vilã, e por outro o povo trabalhador, explorado e oprimido pela primeira, sofredor das maiores tormentas às suas mãos. Os conflitos e situações difíceis atravessadas pelos heróis ou outras personagens positivas, como a morte de familiares, a prisão ou escravidão, eram sempre a expressão directa dessa luta, e a sua resolução só adviria da postura revolucionária e da assunção de um papel activo na construção do socialismo.

E a terceira ideia presente nos espectáculos?

Trata-se do colectivismo, pois um verdadeiro revolucionário coloca os interesses do Partido e do Povo acima de qualquer sonho ou desejo individual. Por mais destacado que seja o seu papel, o herói precisa do apoio popular para a conclusão da sua missão: as suas aspirações são as aspirações do povo, e é na solidariedade entre todos que se superam as dificuldades e se alcança a tão desejada harmonia socialista. A realização pessoal só tem valor se estiver ao serviço da causa colectiva, e o sacrifício individual é glorificado quando contribui para o progresso comum. As óperas promovem, nesta medida, uma visão de mundo onde a identidade individual se dissolve na identidade do colectivo revolucionário, e onde a participação activa das massas é não só desejável, mas necessária.

Estes foram anos do chamado maoísmo cultural, como refere na tese. Como se caracteriza?

O maoísmo cultural apresenta pontos de contacto no que toca à subordinação da arte à política, à valorização do quotidiano das massas como matéria-prima da criação e à defesa da sua ampla popularização. Contudo, distingue-se pela ênfase na proletarização do próprio artista, que deveria abandonar a sua posição de intelectual afastado e tornar-se membro activo do povo trabalhador, aprendendo através da prática e inserindo-se nas suas lutas quotidianas.

Quais as principais influências deste movimento?

Além da matriz marxista-leninista, o maoísmo cultural ficaria marcado por influências confucianas, atribuindo à arte uma função ética e formativa, pois tal como em Confúcio, Mêncio ou Xunzi, a arte moldava o carácter. No entanto, no contexto maoista, esta moldagem era canalizada para a construção da consciência socialista e para a erradicação dos vestígios da mentalidade burguesa. Um dos princípios centrais desta política foi a “linha de massas”, uma espécie de dinâmica cultural circular em que as ideias e expressões populares eram recolhidas e sistematizadas pelo Partido, antes de serem devolvidas ao povo de forma mais clara e politicamente orientada. Outro aspecto a considerar é a valorização da herança cultural nativa e estrangeira, condensada na máxima “usar o passado para servir o presente, usar o estrangeiro para servir a China”.

De que forma?

Para a criação de novos trabalhos artísticos, Mao recomendava o estudo inicial de obras ocidentais, tidas como “científicas” e tecnicamente superiores, antes da incorporação selectiva de elementos da tradição chinesa. Em ambos os casos, o valor das formas artísticas residia na sua função social e política, não na sua preservação enquanto património. Neste contexto, o líder do PCC propôs dois critérios para a avaliação artística: o político, que exigia a promoção da unidade nacional e a rejeição de ideias contrárias ao Partido; e o artístico, que pressupunha rigor técnico e estético seguindo uma noção abstrata de “critérios científicos da arte” ao serviço das massas. Esta dupla exigência substituía, no maoísmo, a distinção confuciana entre qualidade moral e qualidade estética.

Nestes anos, quais foram as grandes influências na composição de canções?

A composição de canções foi grandemente influenciada por duas grandes tradições musicais: a nativa, com o emprego de melodias e motivos regionais e das várias minorias étnicas que compõem o território; e a ocidental, na qual incluo a tradição musical soviética, mais visível em marchas e nas chamadas “canções artísticas”, que poderão ser entendidas como uma espécie de ‘lieder’ revolucionários ou de conteúdo altamente politizado. A influência de cada uma delas era mais ou menos visível consoante a situação política do território.

De que forma os anos do “maoísmo cultural” alteraram o panorama musical do país?

Alguns aspectos da produção das óperas da Revolução Cultural, como a introdução da orquestra ocidental e o emprego de técnicas provenientes da música ocidental, a incorporação de cenários mais realistas e o carácter melodramático das histórias influenciaram e continuam a influenciar a produção de novas óperas de Pequim, sobretudo as de temáticas contemporâneas ou históricas referentes ao séc. XX. Ao longo dos últimos 30 anos, têm vindo também a ser produzidas óperas de temas históricos com alguns destes elementos, sobretudo ao nível da música e cenários, como “Cao Cao e Yang Xiu”. Também na interpretação de óperas tradicionais se observam alguns resquícios deste período, especialmente na apresentação de árias ou excertos em programas televisivos. Vejo inúmeras representações que combinam, assim como no repertório revolucionário, arranjos com orquestra ocidental e cenários realistas, com recurso extensivo a novas tecnologias. No entanto, aquele que considero ser o maior resquício das óperas revolucionárias será, talvez, uma maior audácia artística da parte dos criadores de novas óperas. É uma questão que merece maior aprofundamento por parte da academia, mas, das minhas observações enquanto espectadora, noto uma maior abertura à incorporação de elementos de outras artes, como a dança e o teatro, e uma maior complexidade nas personagens, especialmente aquelas consideradas negativas, menos antagónicas, com mais nuances no que toca às motivações para agirem de determinada forma. É óbvio que o sofrimento psicológico infligido por estas óperas em toda uma geração de chineses é inegável e não pode, em circunstância alguma, ser esquecido; no entanto, as óperas-modelo impulsionaram o ímpeto criativo de compositores e libretistas, em linha com o processo evolutivo, de fusão com outras artes, da Ópera de Pequim ao longo dos séculos.

7 Jan 2026

Alfredo Gomes Dias, historiador, sobre Rocha Vieira: “Uma figura histórica, quer quisesse ou não”

Lançado na quinta-feira no Porto, com a chancela da Guerra e Paz, “Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991–1999)” é o resultado de um trabalho de 20 anos do historiador Alfredo Gomes Dias. A obra contém testemunhos pessoais de Rocha Vieira e detalhes documentados da última Administração portuguesa de Macau

Acaba de lançar mais um livro sobre Rocha Vieira e a última Administração portuguesa de Macau. Fale-me do início deste projecto.

Este projecto tem mais ou menos 20 anos, e começou quando conheci Rocha Vieira, em 2005, para fazer um texto para o livro “Governadores de Macau” [editado pela Livros do Oriente em 2013]. No meio disso, descobri que havia um fundo documental pessoal do general Rocha Vieira, enquanto governador. Como historiador, fiquei entusiasmado com a ideia. Ofereci-me para fazer, juntamente com ele, um projecto, a que chamámos “relatório”. Todos os documentos estavam em casa dele, em Lagoa, de onde era natural. Depois foram depositados num espaço cedido pela Câmara Municipal de Mafra e entre 2007 e 2013 trabalhei nessa documentação. Foi um trabalho solitário e prolongado, porque tive de organizar 1.700 caixas de documentação e conciliar com o meu trabalho de docente. Rocha Vieira foi adiando o projecto, dizendo que não, mas em 2016 disse-me para avançarmos com o “relatório”, o livro. Terminei a primeira versão em 2021. É um livro comprometido, no sentido em que pretende dar a visão do general Rocha Vieira do que foi o seu Governo. Não se trata de um trabalho académico.

Teve acesso completo ao arquivo pessoal.

Deu-me luz verde para consultar a documentação toda, não tive qualquer restrição. Rocha Vieira foi-me contando uma ou outra história com pormenor, deu-me linhas de orientação e revelou-me as preocupações dele durante a governação. Disse-me algumas posições que teve e depois os caminhos diferentes que se tomaram, e todo o livro é construído em torno das muitas conversas que tive com o general, em que recorro também à documentação. Temos a visão de tudo o que aconteceu entre 1991 e 1999 e as acções do governador nas diferentes dimensões da Administração, a nível económico, social e político, nas relações com a China e Lisboa, com Hong Kong, e depois tudo o que foi o trabalho relacionado com a transformação do território, como o nascimento do Cotai e as grandes obras que se foram fazendo. Fala-se também da fase da transição e os grandes temas, como a entrada das tropas chinesas em Macau, a cerimónia e como esta se organizou. Hoje vivemos num mundo imediato, e à velocidade de hoje é sempre estranho dizer que este livro demorou 20 anos a fazer-se.

Podemos dizer que é a primeira vez que temos um testemunho tão completo da visão de Rocha Vieira sobre o seu Governo?

A biografia editada [Vasco Rocha Vieira – Todos os Portos a que Cheguei] já dá muitas ideias das suas preocupações. O que acabei por fazer foi não me focar tanto na vida toda do general, mas apenas nos anos do Governo e desenvolver ao máximo muitos dos assuntos que Pedro Vieira colocou nessa biografia.

Que assuntos estão então mais desenvolvidos nesta nova obra?

Descrevo muito bem todos os processos ligados à transição de Macau, como a questão das leis e da localização, a necessidade de as traduzir para chinês. Esse foi um trabalho gigantesco. Depois abordo a construção de grandes obras, o nascimento do Cotai. Tudo isso com base nas plantas e planos originais pensados para o Cotai, onde se conhece o início da ideia para essa zona. Qualquer historiador que, no futuro, queira estudar o processo de transição, tem, necessariamente de passar por este livro. Não quero dizer que o que lá está é definitivo, porque nunca é. Mas é importante ter esta base e testemunho, que é enriquecido e fundamentado na documentação.

Imagino que as polémicas do Governo de Rocha Vieira também estejam no livro. A quezília com Jorge Sampaio, a criação da Fundação Oriente em Portugal. Qual o testemunho de Rocha Vieira sobre estes dois momentos?

Ele sempre manteve o mesmo discurso face ao que já tinha dito publicamente. Há um capítulo específico sobre a Fundação Oriente, onde se tenta, com o apoio da documentação, explicar o processo e porque é que Rocha Vieira, quando chega a Macau, tem a necessidade de resolver um problema que se arrastava e que era importante ultrapassar. Descreve-se a forma como ele o conseguiu resolver, pois era uma questão que estava a dificultar o diálogo com as autoridades chinesas. Está explicada a forma como Rocha Vieira se foi relacionando com os diferentes Governos da República [Portuguesa] e os diferentes Presidentes, as posições que foi tomando a fim de garantir o que era da sua responsabilidade. Enquanto esteve à frente do Governo, Rocha Vieira tentou sempre fazer vingar as suas visões, e uma das coisas interessantes é que tive acesso a cópias de actas de reuniões do Conselho de Estado, nas quais Rocha Vieira apresentava a sua visão sobre a situação de Macau. É um contributo interessante. Mas ele explica que a forma como dialogava com o Presidente Mário Soares era completamente diferente da forma como dialogava com Jorge Sampaio. A relação institucional alterou-se, a forma de estar numa reunião também era diferente. Isso é explicado, mas sem entrar pelo lado pessoal da quezília.

Rocha Vieira saiu de Macau com a sensação de dever cumprido?

Acho que ele saiu de Macau muito convicto, e toda a cerimónia da transferência acaba por nos dar um pouco essa imagem de que Portugal saiu da melhor maneira possível. Temos também de pensar que falamos de dois países completamente diferentes, e que um deles é gigante. E que, apesar dessa diferença, foi possível manter um diálogo quase de igual para igual entre dois Estados para resolver, da melhor maneira, uma questão específica que era Macau. O que mais me surpreendeu na visão de Rocha Vieira foi ele ter alterado a centralidade da visão para Macau.

Em que sentido?

De uma maneira geral os portugueses e as autoridades falavam de Macau pensando em garantir o processo de transição sem pôr em causa os interesses de Portugal. E o general Rocha Vieira inverte os termos da questão, ou seja, para se garantir os interesses de Macau, com a ideia de que garantir os interesses de Macau seria o mesmo de garantir os interesses de Portugal. Parece a mesma coisa, mas não é. Essa visão, para mim, é que foi surpreendente.

Porquê?

Porque ia contra o que era o discurso mais comum entre as autoridades e as pessoas responsáveis pela administração portuguesa [de Macau]. Esta ideia central acaba por mudar a forma como ele organiza o seu Governo, como age e o tipo de acções que desencadeia. Todas tinham a ver com esta convicção profunda, de que, nos anos que restavam, fosse garantido um grande desenvolvimento de Macau, a afirmação da cultura portuguesa, apoiando instituições, ou até com a Escola Portuguesa de Macau (EPM), cuja solução acabou por não ser a que ele propunha. Acabou por ser uma opção minimalista.

Qual era, concretamente, a posição de Rocha Vieira?

Era garantir que o antigo Liceu de Macau era a EPM, o que daria uma dimensão completamente diferente à escola face [à localização actual]. Não tem nada a ver. Ele não queria só uma escola portuguesa, mas também um espaço onde fosse possível desenvolver actividades culturais, criar um pólo cultural em Macau ligado a Portugal, e com uma opção muito mais digna do que aquela que foi, depois, a opção do Ministério da Educação, na figura de Marçal Grilo, que optou [pela localização] da antiga Escola Comercial. Portanto, o foco sempre foi garantir e desenvolver os interesses de Macau, a sua autonomia, e a questão do aeroporto era fundamental para garantir a autonomia de Macau. Pretendia-se também que Macau aderisse aos acordos internacionais relativamente ao respeito pelos direitos humanos. A ideia era que, conseguindo garantir os interesses de Macau, pensando o território como fazendo parte do segundo sistema da China, e que se investíssemos muito em Macau, estávamos, naturalmente, a defender os interesses portugueses e a deixar um grande legado.

Qual foi o dossier mais complexo para Rocha Vieira?

Acho que ele tinha uma grande mágoa relativamente à opção do Ministério da Educação para a escola portuguesa. Das conversas que fui tendo com ele [foi o que me pareceu]. Havia depois as questões de segurança, com as seitas, que acabaram por se resolver. Nos anos de 1997 e 1998 foram momentos muito críticos em Macau, mas como ele sempre foi tendo boas relações com as autoridades chinesas, isso levou a que a China tenha percebido a situação, passando a colaborar mais com as autoridades portuguesas em Macau, no sentido de controlar o problema.

Sobre o Cotai, como surge a ideia?

Surge no contexto das obras para o aeroporto, quando se percebe que seria relativamente fácil mobilizar as terras que estavam associadas às obras do aeroporto, aproveitando-se esse momento para fazer uma ligação e criar, no fundo, uma segunda centralidade urbana em Macau. Os planos iniciais do Cotai tinham a ver com o espaço urbano, espaços verdes, industriais. Todo o plano estava concebido para agregar diversas áreas, espaços sociais, como escolas ou a saúde, como se o Cotai fosse uma mini-cidade, digamos assim, no território.

Mas quem teve, concretamente, a ideia?

Foi uma ideia do Executivo de Rocha Vieira desenvolvida com secretários. A ideia partiu dele, quando se viu perante a questão das obras, e depois foi sendo desenvolvida com a equipa. Ele tinha sempre a preocupação de desenvolver as coisas com a equipa, garantindo também uma continuidade com o que se tinha feito antes. Quando conversava comigo, tinha o cuidado de dizer: “isto não começou comigo”, ou que para determinado trabalho tinha sido fundamental este ou aquele secretário. Nunca quis ficar com os louros que não eram dele, e isso também é um grande reconhecimento dos governadores anteriores.

Portanto, o Cotai não era para ter tanta área destinada ao jogo.

Pelo que analisei nos documentos, não havia a ideia de ceder um espaço tão grande para o entretenimento, com casinos. Penso que a visão inicial para o Cotai era um pouco mais equilibrada, com habitação, escolas, centros de saúde, espaços verdes. Era para ser um novo espaço urbano que ia nascer com todos os serviços necessários para funcionar, não era para ser só jogo.

Ficaram para a história os momentos em que Rocha Vieira agarra a bandeira ao peito, comovido. Ele recordou consigo esses momentos?

Sim, mas apesar da dimensão histórica do papel dele, Rocha Vieira não tinha propriamente noção do papel histórico que estava a desempenhar. Ele estava ali com uma missão e objectivos claros, sem pensar propriamente no protagonismo que podia ter no futuro. Uma vez, quando estávamos a almoçar, disse-lhe que podíamos relativizar o nosso trabalho, mas que ele ia tornar-se numa figura histórica para a história de Portugal, quer quisesse ou não. E o engraçado é que ele ficou a olhar para mim com uma cara de quem nunca tinha pensado nisso, com um ar muito surpreendido. De facto, é impensável tirar-lhe esse estatuto de último governador português em Macau em centenas de anos de história. Ainda por cima, ele esteve um período longo [9 anos], quando a maioria dos governadores esteve lá três ou quatro anos.

20 Dez 2025

Christian Montag, Instituto de Inovação Colaborativa da UM: “A IA não consegue imitar o toque humano”

Pode a inteligência artificial ajudar a combater a solidão? A questão foi analisada num estudo da Universidade de Macau, dirigido pelo académico Christian Montag. O director do Instituto de Inovação Colaborativa sublinha que as ferramentas de IA “não são soluções a longo prazo” a nível psicológico

De que forma a inteligência artificial (IA) pode ajudar a contornar sensações de solidão, se as redes sociais não conseguem atingir esse fim?

A “teoria das necessidades e gratificações” afirma que a tecnologia só pode ter sucesso se o seu uso satisfizer necessidades humanas, como, por exemplo, a necessidade de interação social. Com os companheiros de IA, quer como produtos autónomos, quer integrados em plataformas de redes sociais, atingimos um novo patamar, porque os seres humanos passam a conversar com uma pessoa artificial e não com outra pessoa humana, como acontece nas redes sociais. Surgem problemas específicos com estes novos companheiros de IA, em que há sistemas de IA excessivamente agradáveis e encantadores que não desafiam as visões enviesadas do mundo de uma pessoa. Além disso, muitas pessoas em todo o mundo já se tornaram excessivamente dependentes destes produtos, utilizando-os sem reflexão crítica.

Uma das conclusões do vosso estudo é que a IA não consegue, por si só, resolver sentimentos de solidão. Que passos na investigação foram seguidos para chegar a esta conclusão?

Existem estudos bem conduzidos que mostram que as interações com companheiros de IA podem, de facto, reduzir sentimentos de solidão. Não duvidamos destes resultados nem negamos o potencial que pode advir dessas interações entre o ser humano e a IA, desde que tais sistemas sejam concebidos de forma segura e quando não há um humano disponível. Dito isto, acreditamos que essas interações entre humanos e IA não representam uma solução a longo prazo.

Porquê?

Isso deve-se à ausência de contacto social e da presença real de outro ser humano quando se recorrem a companheiros de IA baseados em modelos de linguagem de grande escala, especialmente em momentos de desespero. Revimos uma vasta literatura que demonstra que precisamos levar a sério a nossa herança evolutiva, com a necessidade real de outros seres humanos, particularmente na era da IA. A nossa perspectiva baseia-se em muitos anos de investigação na área da neurociência afectiva. Ainda assim, é claramente necessário desenvolver mais estudos empíricos novos que abordem directamente as interações com IA e sustentem esta visão.

Corremos o risco de a IA provocar mudanças cognitivas profundas nas pessoas. Em que medida? Podemos mudar enquanto seres humanos, especialmente no que diz respeito à necessidade que temos dos outros?

A mesma discussão surgiu com o aparecimento dos smartphones. Importa notar que essa discussão mais antiga ainda não foi resolvida: o que acontece ou aconteceu às nossas capacidades cognitivas quando passámos a externalizar permanentemente a aprendizagem de números de telefone, a orientação de A para B, entre outras tarefas, para uma máquina? Uma investigação recente do MIT [Massachusetts Institute of Technology] sugere que o cérebro fica menos activado quando é utilizado o ChatGPT para tarefas de escrita, em comparação com a escrita sem esse apoio. Para mim, isto não é surpreendente e também não deveria conduzir a pânicos morais. Temos outros problemas mais urgentes, como quando surgem dificuldades reais quando aumentam as desigualdades na sociedade, isto porque algumas pessoas utilizam a IA e outras não investem nesta área.

Quais os impactos concretos?

Algumas pessoas poderão tornar-se muito, muito produtivas em breve, enquanto aquelas que não forem educadas para usar a IA adequadamente não conseguirão acompanhar [o ritmo]. Curiosamente, observámos em investigações recentes que pessoas com um estilo de aprendizagem profundo estão mais dispostas a envolver-se com a IA para se tornarem mais produtivas. Quanto à pergunta sobre se mudamos em relação à nossa necessidade dos outros, duvido muito disso, pois estes impulsos evolutivos estão geneticamente ancorados na nossa espécie e não podemos simplesmente eliminá-los. As necessidades sociais são uma parte essencial do que significa ser humano.

Estas mudanças cognitivas, a ocorrer, podem ser mais significativas nos jovens do que nos adultos, por exemplo?

Questão interessante. Sabemos, a partir de alguns estudos sobre atitudes em relação à IA, que os utilizadores mais jovens tendem a ter visões mais positivas sobre a IA e, por isso, são mais propensos a adoptá-la no quotidiano. No entanto, actualmente observamos algo bastante problemático, como o facto de a IA estar frequentemente a eliminar empregos para jovens que acabam de sair da universidade. Assim, a IA parece dificultar a entrada no mercado de trabalho após a obtenção de um diploma universitário. Em outras palavras, a falta de experiência profissional torna as coisas difíceis para muitos jovens. No final, isso também pode levar a que a perceção dos jovens sobre a IA se torne mais negativa, em breve.

Como devem os governos legislar ou adoptar políticas para promover uma aceitação e utilização saudável da IA na sociedade e nas escolas?

Observamos abordagens muito diferentes em todo o mundo para responder à revolução da IA. Sou alemão e, na Europa, assistimos a fortes esforços regulatórios com o chamado Regulamento da Inteligência Artificial (Artificial Intelligence Act). Pessoalmente, não estou convencido de que o actual esquema regulatório europeu esteja bem planeado, pois penso que é demasiado rigoroso e que, em alguns pontos, utiliza termos juridicamente indefinidos, embora aplauda o objectivo de promover uma IA fiável e de tentar reduzir danos. Penso que a actual regulamentação da IA na União Europeia pode ir longe demais e acabar por prejudicar a economia europeia, ao sufocar uma inovação muito necessária. Mas há perigos reais associados à IA e é necessária alguma regulamentação.

Que perigos?

Falo, por exemplo, da fusão não regulamentada entre biotecnologia e IA que poderia resultar em danos, caso as pessoas passem a “criar” novos vírus nos seus quintais. Considero muito interessante a abordagem de Singapura baseada na aprendizagem ao longo da vida como resposta à revolução da IA. O Governo de Singapura oferece aos seus cidadãos a possibilidade de obter um grau académico em IA a partir dos 40 anos, com apoio financeiro do próprio Estado. O que gosto nesta abordagem é que precisamos de lembrar às pessoas que também é sua responsabilidade adquirir novas competências ao longo da vida. Esta mentalidade deve ser incutida desde cedo nas escolas.

Em que áreas das nossas vidas os modelos de linguagem de grande escala (LLMs) podem trazer mais benefícios do que prejuízos?

Existem muitas tarefas rotineiras e repetitivas em que a IA será realmente útil para os seres humanos. No entanto, sabemos pela literatura científica que os humanos experienciam o que se chama “aversão aos algoritmos”: em algumas áreas das nossas vidas, as pessoas não gostam que a IA desempenhe um papel. Por exemplo, quando falamos de terapia de casal, as pessoas preferem claramente falar com um ser humano do que com um sistema de IA. Talvez quanto mais nos aproximamos da nossa herança evolutiva em termos de cuidar uns dos outros, mais o papel da IA deva ser cuidadosamente monitorizado e reflectido, se quisermos que ela tenha um lugar aí. Pessoalmente, não gostaria de ver o meu filho a ser cuidado no jardim de infância por um robô alimentado por IA.

Como deve a psicologia adaptar-se à IA, tendo em conta o número crescente de pessoas que a utilizam para esse fim?

Existem diferentes perspectivas sobre este tema. Em primeiro lugar, nem toda a gente sabe que a psicologia é uma disciplina que depende fortemente de dados. Por isso, os estudantes de psicologia são treinados para se tornarem excelentes cientistas de dados. Nesse contexto, é lógico que a nossa disciplina adopte a IA como ferramenta de análise de dados. No entanto, penso que se refere à forma como os psicólogos veem o uso crescente da IA nas relações humanas. Como acontece com muitas coisas, isto é complexo. Se a IA permitir uma melhor comunicação humana, como, por exemplo, melhorando aparelhos auditivos para pessoas com problemas de audição, isso é muito bem-vindo. Se a IA substituir relações humanas, na minha perspectiva isso causará problemas. Como expusemos no nosso trabalho mais recente, neste momento a IA não consegue imitar com sucesso o toque social humano nem a presença real de outra pessoa.

No Centro de Ciência Cognitiva e Cerebral da Universidade de Macau, quais são os principais projectos desenvolvidos nesta área?

Dispomos de oportunidades únicas de investigação na Universidade de Macau para estudar interações entre humanos e IA, com técnicas neurocientíficas. Espero que possamos divulgar descobertas muito interessantes num futuro próximo.

A humanidade ainda mora aqui

Publicado recentemente na revista científica “Trends and Cognitive Sciences”, o artigo “Can AI really help solve the loneliness epidemic?” [Pode a IA realmente ajudar a resolver a epidemia da solidão?] conta com Christian Montag, director associado do Instituto de Inovação Colaborativa da Universidade de Macau (UM) como autor principal, seguindo-se os académicos Michiel Spapé, professor associado do Centro de Ciências Cognitivas e Cerebrais da UM, e Benjamin Becker, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Hong Kong, como co-autores.

Segundo uma nota de imprensa divulgada pela UM a propósito desta investigação, uma das principais conclusões é de que a IA “provavelmente não será solução de longo prazo para a solidão humana”. Citado nesta nota, Christian Montag declarou que “se uma pessoa está solitária, anseia pela presença física de alguém próximo”, sendo que isso “é muito difícil de imitar com os chatbots disponíveis”.

“Os grandes modelos de linguagem operam principalmente por meio da comunicação por texto. Claramente, isso não é suficiente para fornecer às pessoas solitárias a melhor cura para a solidão: o apoio directo em pessoa”, declarou. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “a solidão afecta uma em cada seis pessoas em todo o mundo”, tendo sido “identificada como uma preocupação de saúde pública global”.

Apesar do sinal, o estudo aponta para um lado positivo deste universo, referindo-se que “a tecnologia de IA tem um potencial significativo para apoiar os seres humanos em momentos de crise psicológica, especialmente quando a intervenção humana não está disponível”. Porém, “os investigadores defendem que a tecnologia deve ser tornada mais segura antes de poder ser utilizada neste contexto”, enfatizando “a importância de recordar a nossa herança evolutiva e a necessidade de conexões interpessoais genuínas”.

17 Dez 2025

Luís Bernardino, académico: “Precisamos definir uma estratégia de cooperação-defesa” para a CPLP

O livro “25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP” foi lançado em 2023 em formato digital e, dois anos depois, chegou à versão impressa. Luís Bernardino, co-autor ligado à Universidade Autónoma de Lisboa, realça evoluções positivas desde a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, não obstante inacções e polémicas com a Guiné Equatorial

“25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]” foi lançado em e-book e agora chega à versão impressa. Porquê editar este livro?

Este livro fala sobre os 25 anos de cooperação na área da defesa da CPLP e é da minha autoria, juntamente com uma colega do Brasil, Camila Rizzi. Resulta de um projecto de investigação desenvolvido no Centro de Análises Estratégicas da CPLP, sediado em Moçambique. Tem a componente de defesa da CPLP e faz reflexão estratégica sobre esse tema. Pelo facto de terem passado 25 anos de cooperação nessa área quisemos fazer uma avaliação e o livro para que ficasse para a história da organização. Em 2023, não houve condições financeiras para editar o livro em papel como queríamos, e foi agora lançado a 18 de Novembro, em Maputo.

Há críticas quanto à efectiva acção da CPLP. Considera que este organismo tem crescido de forma sustentável?

A avaliação que faço é na área da defesa. Quando a CPLP foi criada, a cooperação na área da defesa não constava nas seis áreas iniciais. Essa área só surgiu em 1998. A CPLP nasceu com seis áreas principais – cultura, língua, concentração político-diplomática – e tem actualmente 26 áreas de cooperação, o que é a prova de que cresceu de forma sustentada. Obviamente que com altos e baixos, situações mais fáceis ao longo destes quase 30 anos. Mas o que se salienta neste livro, na área da defesa, é que houve um crescimento bastante consolidado e participado. Nestes 25 anos fez-se muita coisa interessante e a avaliação é positiva.

E o futuro?

Precisamos de definir uma estratégia de cooperação-defesa e aquilo que queremos para a CPLP nesta área nos próximos 25 anos. É esse o desafio que temos pela frente, de uma maior actividade e iniciativa, para que a cooperação e defesa possam ser estratégicas naquilo que é a cooperação dentro dos Estados. Para que possa ser algo mais visível e permitir, de forma efectiva, um crescimento, participação e desenvolvimento, ou até maior empenho, em contextos regionais.

Mas olhando para passado, presente e futuro, como tem sido a dinâmica na área da defesa?

O livro mostra uma certa dinâmica de crescimento constitucional substancial numa primeira fase. Depois houve desenvolvimentos muito interessantes, com alguns protocolos e cooperação ao nível das Forças Armadas, mas há ainda muita coisa a fazer, nomeadamente olhar para a área da cooperação-defesa como uma área estratégica.

O sistema geopolítico mundial parece estar a mudar muito rapidamente, seguindo um caminho multipolar. A CPLP deveria ter outro papel neste contexto, com actores como a China, Rússia ou Estados Unidos?

A CPLP não é um instrumento multilateral, não é uma organização desse nível. Temos de colocar a CPLP ao nível da Commonwealth, por exemplo, de organizações de nível cultural, linguístico, de parceria entre países, de preocupação com o desenvolvimento. O que costumo dizer é que a CPLP é um bom instrumento diplomático de comunicação, um soft power relativamente a áreas relacionadas com a gestão e prevenção de conflitos. Não estejamos à espera que haja forças armadas, ou um exército, da CPLP. Este organismo é de diálogo e cooperação. O que fazemos, em termos de defesa, é isso mesmo, criar parcerias para que haja mecanismos de resposta a catástrofes, para dar capacidade de treino às forças armadas. Há até quem faça a pergunta: porque é a CPLP não interveio em Cabo Delgado, em Moçambique, na questão do terrorismo?

E porquê?

Porque a CPLP não é esse mecanismo de hard power, não tem capacidade, nem doutrina, logística, mandato ou viabilidade para ser empregue em operações de combate. E os Estados-membros da CPLP estão muito conscientes de que somos um mecanismo muito bom de cooperação, parceria e desenvolvimento, com contributos para a cultura e língua. Portanto, a CPLP não vai intervir no conflito entre a Rússia e Ucrânia, porque não é essa a sua área, nem tem mecanismos para essa dinâmica.

Justifica-se a existência da CPLP?

Acho que sim, obviamente, porque, como disse, a CPLP é um instrumento muito bom em termos de cooperação, da divulgação da língua portuguesa, da história. O facto é que temos cerca de 350 milhões de pessoas que falam português. Temos 30 países que são observadores associados, como a Ucrânia, o Chile, e a cultura portuguesa está representada nesta organização. Cada país tem o que quer da CPLP e dá-lhe a importância que acha que deve dar, e isso depende da política externa de cada Estado. Mas acho que a CPLP faz muito sentido no mundo em que vivemos, e fá-lo como representante multilateral da língua, da cultura, da cooperação entre os estados que falam português, e aqueles que de fim ao cabo têm alguma afinidade [com o mundo lusófono]. A questão de Macau é muito específica nesta organização.

Macau tem o papel de plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e a China tem uma agenda para a lusofonia.

Antes de 1999 Macau tinha um estatuto próprio na CPLP, por ter administração portuguesa. Havia uma Declaração Conjunta que permitia que Macau, não sendo um Estado-membro, tivesse, de certa forma, um protocolo [com a CPLP]. Quando passou a ser RAEM, as coisas mudaram e perdeu esse estatuto de ligação, e Macau não é membro da CPLP, e obviamente não pode ser. A China também não, e não pode ser. Portanto, há aqui um estatuto de observador associado que surge para os países, organizações internacionais e regionais, e ainda as entidades territoriais dotadas de administração própria, que também não é bem o caso de Macau. O território está num limbo, entre ter uma história muito forte ligada à Lusofonia, e ter uma administração muito ligada à China, o que lhe dá, na minha perspectiva, duas dinâmicas.

Em que sentido?

Macau é um elemento fundamental na ligação entre os países da CPLP e a China. Por todos os motivos, mas pela questão da língua, história, e da sua representatividade, é um actor fundamental nesta cooperação. Macau deve ser visto, efectivamente, como um parceiro e como uma porta de entrada da China para os países da lusofonia. É isso que, de certa forma, já está a acontecer, e é a isso que a CPLP vai estar atenta, nesta relação em que Macau tem um estatuto especial. Quer queiramos, quer não, isso tem impacto. Macau é um factor de atractividade de facilitação de relações entre a China e Angola, Portugal ou o Brasil.

A permanência da Guiné Equatorial na CPLP levanta questões de credibilidade?

Concordo consigo. Terá sido, nestes 30 anos, um dos principais momentos difíceis na criação de consensos. Recordo que a Guiné Equatorial foi admitida em 2014, mas já havia um processo em fase de análise anterior. Havia sempre um prolongamento, ano após ano, e foi difícil chegar a um consenso no quadro dos países da CPLP. Em 2014, houve uma cimeira em Timor-Leste e, por acção do Brasil e Angola, houve, de certa forma, uma pressão muito grande para a entrada da Guiné Equatorial. Mas há dois princípios, para o bem e para o mal, que justificam a presença da Guiné Equatorial na CPLP.

Que são…

O primeiro argumento é que, de facto, a Guiné Equatorial tem o português como língua oficial na sua Constituição, apesar de nós sabermos que a língua portuguesa, por exemplo, abrange quatro ou cinco por cento da sociedade num todo, e já estou a ser bastante generoso. Mas há um compromisso das autoridades da Guiné Equatorial para desenvolver o português como língua de trabalho e há uma ligação histórica à cultura portuguesa e à lusofonia. Outro critério é a promessa de que, numa próxima revisão constitucional, firmar o compromisso da abolição da pena de morte. Quanto ao português, é uma coisa que leva gerações, não se faz de um ano para o outro. Nem nos próximos 10 ou 15 anos nós teremos o português perfeitamente implementado. Há alguma timidez, um compromisso, de certa forma. Quanto à pena de morte, o que é facto é que se conseguiu, parece, alguma alteração. Nunca mais houve uma acção de pena de morte [desde a adesão]. E há a esperança que, numa próxima revisão constitucional, este facto seja abolido da Constituição e que possa, efectivamente, deixar de existir. Na qualidade de membro da CPLP, estas mudanças serão mais fáceis e mais visíveis e, no futuro, a Guiné Equatorial pode, efectivamente, assumir o estatuto da CPLP tendo em conta estas premissas. Não sei se vai acontecer, deixo aqui uma reticência, e este é um momento de desafio para a própria CPLP. Há que fazer um trabalho a partir de dentro, para que a Guiné Equatorial possa estar ao nível dos outros países, principalmente nestas duas áreas.

O que é certo é que permanece uma certa falta de transparência em relação ao que se passa no país.

Temos consciência de que a Guiné Equatorial tem grandes problemas com questões da legitimidade democrática, das eleições. Há uma série de situações que reconhecemos que não são perfeitamente adequadas face ao estatuto dos países da CPLP. Acho que há uma esperança de que as coisas possam mudar, a tentativa de criar espaço para que o português possa crescer dentro da Guiné Equatorial, e ainda o compromisso para uma maior abertura e participação. O que é facto é que a Guiné Equatorial tem participado nas reuniões da CPLP, e eu tenho participado em algumas. Nas situações internacionais temos de ser pragmáticos, e temos esperança de que, só porque a Guiné Equatorial está na CPLP, isso possa dar o contributo para que a própria Guiné possa desenvolver alguns gestos mecânicos.

25 Nov 2025

Timor-Leste / Independência – Mari Alkatiri: Proclamação foi antecipada pela presença militar indonésia

Entrevista de Isabel Marisa Serafim, da agência Lusa

O líder da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, disse que a proclamação unilateral da independência estava prevista para 01 de dezembro de 1975, mas foi antecipada porque as tropas indonésias já se encontravam no território.

“Estava inicialmente marcada para 01 de dezembro”, disse Mari Alkatiri, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração da unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira, e da ocupação indonésia, nove dias depois, em 07 de dezembro.

Em novembro, Mari Alkatiri fazia um “safari” por vários países africanos, principalmente aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que passou pela participação na declaração da independência de Angola, em 11 de novembro de 1975.

“Depois dessa ‘tour’, desse ‘safari’ africano, regressei ao país. Na altura estava em Maputo para preparar o meu regresso e recebi um telefonema do Nicolau Lobato para não regressar, porque precisávamos de ter alguém fora do país”, recordou, salientando que não acatou a ordem do então vice-presidente da Fretilin.

“Então voltei a Díli em 22 ou 23 de novembro e o comité central e comité político militar estava reunido no atual quartel-general da Polícia Nacional de Timor-Leste, era sede provisória da Fretilin, e discutia-se a proclamação para 01 de dezembro”, explicou. No dia 28 de novembro, Mari Alkatiri, então com 25 anos, recordou que Nicolau Lobato foi ter a sua casa e disse que era preciso proclamar a independência naquele dia.

“Saímos os dois num carrito dele para Lahane onde estava Xavier do Amaral [antigo presidente da Fretilin] e transmitimos isso a Xavier Amaral, que disse claramente para esperarmos mais três ou quatro dias. Dissemos que não havia tempo para esperar e decidimos fazer a proclamação nesse dia à tarde”, disse.

“Felizmente que não só a Constituição estava pronta, mas também a bandeira já estava pronta. Foi a minha mãe que coseu a bandeira. Havia condições mínimas para a proclamação da independência”, afirmou o atual secretário-geral da Fretilin, que também escreveu o texto da proclamação.

“Quando começo a falar destes dias não é só memória, eu participei ativamente na proclamação unilateral da independência, embora se tente cortar a minha fotografia, politiquices, mas a verdade é que só há uma pessoa ainda viva que participou ativamente na proclamação há 50 anos, sou eu”, salientou.

No primeiro Governo timorense, liderado por Nicolau Lobato e que só durou nove dias, Mari Alkatiri foi nomeado ministro de Estado para os Assuntos Políticos. Nocolau Lobato liderou a luta contra a ocupação ondonésia e foi assassinado em dezembro de 1978. A restauração da independência aconteceu em 20 de maio de 2002, depois da realização de um referendo pela autodeterminação em 30 de agosto de 1999 e de 24 anos de resistência contra a Indonésia.

Uma questão de egos

Mari Alkatiri afirmou também, na mesma entrevista, que os “egos” estão a impedir Timor-Leste de suplantar os desafios e que é preciso uma cultura de liderança mais democrática, inclusiva e abrangente.

“Se nós conseguimos na altura, com todas as dificuldades, com todos os desafios suplantar, à velocidade da luz quase, porque é que hoje não conseguimos? É essa questão, a questão da causa. Quando a causa une, a jornada pode decorrer, com muitos atropelos aqui e acolá, mas vai conseguir e vai vencer”, disse Mari Alkatiri em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira.

Questionado sobre a razão para não haver união, o líder da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) disse que são os “egos”.

“Eu estou a acompanhar o debate orçamental, quando nós continuamos a pensar de uma forma ‘cantineira’ os assuntos do Estado, não vamos a lado nenhum”, criticou o antigo primeiro-ministro timorense, cujo partido optou por se abster na votação final global do Orçamento do Estado.

Sobre as críticas contra as opções da atual governação, Mari Alkatiri disse não saber se alguma vez houve uma opção. “Estratégia não vejo. Há uns acertos aqui e acolá, tenta aqui e acolá, mas não há estratégia, mas defende-se bastante o planeamento estratégico, investimento estratégico, mas não vejo”, afirmou.

“Há necessidade de uma cultura de liderança muito mais democrática, muito mais inclusiva, muito abrangente, com sentido de missão e visão no futuro”, salientou o secretário-geral da Fretilin. O dirigente partidário alertou também para que não se aguarde que a “bomba rebente”.

“A bomba retardatária está aí, a bomba-relógio está aí, espero não termos de fazer, depois disso, a apologia da verdade, depois da bomba rebentar”, salientou. Questionado sobre se a “bomba” é a insatisfação, o ex-primeiro-ministro disse: “completa”.

“Um país que após 24 anos de restauração de independência, com os meios que teve para trabalhar, porque é que falhou? Falta de sentido de inclusão. Nós estamos a construir um Estado, fala-se de Estado de Direito Democrático, é verdade? Ou oligárquico”, questionou.

As novas gerações

Ainda em relação aos jovens, que representam a maioria dos cerca de 1,4 milhões de habitantes de Timor-Leste, Mari Alkatiri disse que estes se sentem perdidos. “Os jovens são naturalmente mais generosos quando são mais considerados, ou mais revoltosos, quando revoltados. Há duas facetas aqui na juventude, a de generosidade quando abraçam uma causa, outra, é uma reação muito mais violenta de confrontação”, disse.

Salientando que mais de 70% da população tem menos de 35 anos, Mari Alkatiri advertiu que daquelas “duas gerações já estão sacrificadas” devido à educação “sem qualidade” e uma “saúde cada vez pior” e “sem perspetivas”. “Agora, todos nós falamos que o dinheiro do petróleo vai acabar, estou a ver que para o Governo a alternativa para o petróleo, é o petróleo”, disse.

O capital do Fundo Petrolífero de Timor-Leste era em setembro de 18,95 mil milhões de dólares (16,4 mil milhões de euros). “Ficámos a sonhar com o Sunrise e como costumo dizer enquanto sonhamos com o Sunrise, teremos o ‘sunset’, porque não há política, não há planos, não há programas”, acrescentou.

Mari Alkatiri referia-se ao campo de gás Greater Sunrise, localizado a 150 quilómetros de Timor-Leste e a 450 quilómetros de Darwin, cujo projeto tem estado envolto num impasse, com Díli a defender a construção de um gasoduto para o sul do país, e a Woodside, segunda maior parceira do consórcio, a inclinar-se para uma ligação à unidade já existente em Darwin.

O consórcio é constituído pela timorense Timor Gap (56,56%), a operadora Woodside Energy (33,44%) e a Osaca Gás (10,00%). O Governo de Timor-Leste anunciou no sábado a assinatura de um acordo de cooperação com a australiana Woodside Energy para estudos para processar e exportar gás para o país.

Discussões que faltam

O secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, defendeu a necessidade de “todos juntos” discutir o que falhou nos últimos 24 anos, após a restauração da independência, em maio de 2002.

“Fala-se muito de novos paradigmas e o velho paradigma, estamos prontos para nos sentarmos todos juntos para discutir o velho paradigma, porque é que falhou? Não”, afirmou o antigo primeiro-ministro timorense, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira.

Para Mari Alkatiri, todos contribuíram com a “sua parte positiva, com a sua parte negativa”, mas é preciso perceber as falhas em “termos individuais”, em “termos coletivos” e haver “responsabilização”. Questionado pela Lusa sobre as razões pelas quais não há essa discussão, o líder da oposição timorense respondeu que um “líder que não se consegue sentar à mesa, não é um líder”.

“O líder deve saber que há um momento de se sentar à mesa. Eu fiz propostas. Quando voltei em 2018, disse ‘este meu voto é para que o povo possa vencer’, não disse para a Fretilin vencer. A mensagem era clara, era tempo de pensarmos todos em conjunto. Fiz a campanha a dizer Fretilin ganha, Xanana ganha”, afirmou Mari Alkatiri.

O líder da Fretilin disse que a resposta tem sido “de vingança, de ódio”. “De tal forma que para se vingar de mim atinge centenas de pessoas, famílias. Se é comigo, venha falar comigo, não tem de prejudicar os outros, mas isso é uma questão pontual”, afirmou, referindo-ae ao primeiro-ministro timorense, XAnana Gusmão. A questão fundamental, continuou Maria Alkatiri, é “ter sentido de missão, visão de futuro e ter uma causa comum”.

“O que é determinante é saber todo o dinheiro que se gastou, o que se fez. Um balanço de desempenho do coletivo e do individual. Quando estávamos a fazer a guerra, sabíamos o que queríamos, restaurar a independência, 24 anos depois da restauração da independência não sabemos para onde vamos”, lamentou o dirigente.

Mari Alkatiri disse também estar “muito preocupado” com o relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que alertou em 11 de setembro para a proliferação de redes criminosas em Oecussi, enclave timorense no lado indonésio da ilha de Timor, salientando que as recentes investigações mostram uma contaminação da região.

“Já está a ser absorvido pelo cartel de mafiosos, que estão a entrar aqui em toda a sua força. Fechamos quiosques e achamos que estamos a combater a máfia. Estou muito preocupado”, disse. Para o futuro, Mari Alkatiri afirmou que vai continuar a lutar, mas para “criar massa crítica”.

“A minha luta agora não é a preocupação com os ciclos eleitorais, mas como posso criar realmente uma massa crítica verdadeira em Timor-Leste. Acabemos com a cegueira, muitos dos nossos intelectuais académicos emprenham pelos ouvidos, mas não ficam grávidos”, salientou.

O líder da Fretilin disse também, a todos da sua geração, que é tempo de se pôr “egos” de parte e voltar-se a “pensar em conjunto”, salientando que têm mais cinco anos para o fazer. “O próximo mandato de governação deve ser produto do entendimento se queremos realmente que este país vá para a frente”, afirmou Mari Alkatiri, salientando que o povo timorense merece “muito mais e muito melhor” do que o que foi dado até hoje.

24 Nov 2025

Independência | Ramos-Horta: É “graças ao Xanana” que Timor-Leste está aqui

O Presidente timorense, José Ramos-Horta, destacou, em entrevista à Lusa, o percurso do atual primeiro-ministro e antigo líder da residência, salientando que é “graças ao Xanana [Gusmão]” que hoje Timor-Leste está aqui.

“Xanana sobreviveu e com uma força de vontade impressionante, que poucos seres humanos conseguem ter, reorganiza a resistência, novas investidas contra os indonésios”, disse Ramos-Horta, em entrevista à Lusa a propósito dos 50 anos da declaração da independência, em 28 de novembro de 1975, lembrando os ataques de que o primeiro-ministro foi alvo.

O líder timorense perdeu homens e sofreu reveses, mas organizou a rede clandestina e a resistência das cidades ocupadas. Xanana Gusmão foi eleito líder da resistência e comandante-chefe das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (FALINTL) em 1981, tendo lançado a Política de Unidade Nacional, desenvolvido a Frente Clandestina e instituído o Conselho Nacional de Resistência Maubere, mais tarde nomeado Conselho Nacional de Resistência Timorense.

“Chegamos a 1999 ao referendo graças ao Xanana, não graças a mais ninguém, obviamente, a igreja envolveu-se, porque o Xanana teve a lucidez de falar com D. Martinho da Costa Lopes, abandonar o marxismo-leninismo. Graças ao Xanana que hoje nós estamos aqui”, afirmou o chefe de Estado.

Martinho da Costa Lopes foi uma das figuras mais importantes da Igreja Católica em Timor-Leste durante a ocupação indonésia e desempenhou um papel central na defesa dos direitos humanos dos timorenses.

José Ramos-Horta lamentou também que agora digam que Xanana Gusmão já não é o grande homem que foi durante a luta. “Eu digo: senhores agora também foi ele que ganhou para nós a fronteira marítima. Não sei quem é que ganharia”, disse, referindo-se à negociação das fronteiras marítimas com a Austrália, concluídas em 2018 e lideradas pelo atual primeiro-ministro.

O Presidente salientou também que Xanana Gusmão é que tomou a decisão histórica de diversificar do Fundo Petrolífero em 2009, o que “trouxe para Timor já 11 mil milhões de dólares de retorno” e fez a reconciliação, sem perseguições e sem julgamentos de ninguém.

José Ramos-Horta destacou igualmente que é Xanana Gusmão que “continua a ter competência técnica” para discutir as fronteiras marítimas com a Indonésia, cujo processo de negociações se iniciou este ano, bem como para resolver a questão do Greater Sunrise, esperando-se que o acordo seja assinado no início do próximo ano.

“Ele quer resolver todas essas questões antes de deixar o poder. Ele não quer deixar para a nova geração esses dossiers muitos complexos”, acrescentou o Presidente.

Ideias e defesas

José Ramos-Horta afirmou que não foi a favor da declaração unilateral da independência, em 28 de novembro de 1975, considerando que foi feita “apressadamente” perante a iminência da ocupação pela Indonésia.

“Eu não era a favor da declaração unilateral da independência, eu era, mas não era no dia 28 de novembro. Era preciso mais tempo de preparação, porque quando se faz uma declaração unilateral da independência sem quaisquer preparativos, o resultado foi o que foi. Não havia ninguém. Ninguém reagiu”, disse Ramos-Horta, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos da efeméride.

Do dia 28 de novembro de 1975, o atual chefe de Estado recorda uma cerimónia sem a presença de uma “única personalidade mundial” e uma noite escura. “A declaração unilateral da independência foi feita apressadamente por razões determinadas pelas circunstâncias da altura. A queda de Atabae [município de Bobonaro]”, disse o Ramos-Horta.

“A base caiu com uma investida grande já de forças regulares da Indonésia, já muito no interior de Timor-Leste. Primeiro caiu Batugadé, isso foi em outubro, caiu Balibó e Maliana, em outubro e Atabai, cai em vinte e poucos de novembro. Logo a seguir a Fretilin declara a independência unilateral”, explicou o Presidente.

A ocupação pela Indonésia concretiza-se em 7 de dezembro de 1975. “As forças indonésias já estavam no território nacional antes de 7 de dezembro e a decisão em Jacarta tinha sido feita em 1974 ou Timor-Leste integra na Indonésia pacificamente através de algum ato pseudodemocrático, ou Timor-Leste passaria para dominação Indonésia sob a via da força”, disse o chefe de Estado timorense.

A invasão é apoiada pelos Estados Unidos, Austrália e alguns países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).

“Obviamente, naquele quadro de 1975, os Estados Unidos não iriam apoiar Portugal na questão de Timor-Leste. Na questão de Timor-Leste a Indonésia é que pesava mais, sobretudo, no quadro pós-guerra do Vietname, em que os Estados Unidos saíram desacreditados e a fugir. Para os Estados Unidos e para os países da região a ameaça comunista era real e Timor-Leste foi votado ao isolamento, abandonado”, salientou o também prémio Nobel da Paz.

A libertação de Timor-Leste acontece em 30 de agosto de 1999, quando se realiza o referendo pela autodeterminação, que dá a vitória à independência, que acabaria por acontecer em 20 de maio de 2002, depois de uma administração transitória das Nações Unidas.

“Vinte e quatro anos depois o país é liberto contra todos os profetas da derrota, todos os que apregoavam para nós, para mim, o realismo, alguns diziam irrealismo atroz, outros diziam causa perdida, ouvimos muito, incluindo em Portugal”, acrescentou Ramos-Horta, salientando que Timor-Leste conseguiu prevalecer.

Defesa da emenda constitucional

José Ramos-Horta defendeu, na mesma entrevista, uma emenda constitucional para adoção do sistema presidencialista no país, porque é preciso uma “autoridade clara” e “sem dualidade” e afastou uma recandidatura ao cargo.

“Eu acredito que devemos fazer uma emenda constitucional e passar para o sistema presidencialista. O Presidente é o executivo, acabou-se isso do dito semipresidencialismo”, disse José Ramos-Horta, em entrevista à Lusa no âmbito dos 50 anos de declaração unilateral da independência, em 28 de novembro de 1975.

Atualmente, Timor-Leste tem um sistema semipresidencialista de pendor parlamentar, com o Governo a emanar do parlamento. Segundo o chefe de Estado, o sistema escolhido na Constituição, elaborada em 2001 e 2002, “não tem sido mau de todo”, mas já se viu que em “vez de ser um fator de equilíbrio”, pode ser um “fator de instabilidade”.

Ramos-Horta exemplificou com o que aconteceu no oitavo Governo, após a coligação liderada por Xanana Gusmão ter vencido as eleições legislativas com maioria absoluta. “Xanana é convidado para formar Governo, apresentaram a lista de governantes e o Presidente Lu Olo decide vetar, não quis dar posse a nove membros”, disse o também prémio Nobel da Paz.

“É preciso uma autoridade clara e sem esta dualidade, dividir o poder com o Presidente. Não funciona. Funciona bem em Portugal”, salientou Ramos-Horta. Para o Presidente timorense, “não há razão nenhuma” para Timor-Leste ter adotado aquele modelo, porque para o “equilíbrio está o parlamento, está o poder judicial”.

“Estes três órgãos são a constituição do Estado. Creio que toda a gente vai concordar”, disse. José Ramos-Horta considerou que “é altura”, após cerca de 25 anos da atual Constituição, para fazer “algumas emendas” e passar para o sistema presidencialista.

“Para mim, o Xanana Gusmão deveria continuar. Chegamos a 2027, termino o meu mandato, novas eleições em 2028. Entre o período de 2027, em que eu saio, e 2028 trabalharmos ativamente numa emenda constitucional para que a eleição de 2028 já seja com base na nova Constituição, isso é que eu defendo”, explicou.

Questionado pela Lusa sobre se não pretende candidatar-se a um novo mandato, o Presidente afirmou não estar “minimamente motivado”. “Eu, em 2027, vou à cerimónia de transição da pasta para o novo Presidente à meia-noite de 19 de maio de 2027 e nem assisto à cerimónia no dia 20. Já estou na AeroDili a caminho de Singapura”, afirmou.

Problemas da nova geração

Na mesma conversa, José Ramos-Horta destacou também alguns problemas actuais do país, nomeadamente quanto ao facto de a geração posterior a 1975 ainda não ter conseguido um líder com afirmação nacional. Este salientou que desde 2002 que membros dessa geração ocupam lugares no Governo e no parlamento.

“Nova geração está lá desde 2002. O problema é que a nova geração não conseguiu ainda uma única pessoa que se afirme como líder nacional. Não apareceu ainda. Esse é o problema. Estão no Governo, nos tribunais, no parlamento tudo nova geração”, disse o Presidente em entrevista à Lusa por ocasião do 50.º aniversário da declaração unilateral da independência.

José Ramos-Horta questionou também sobre quem é o líder da nova geração que “tem dimensão nacional”. “Não há, nem um, porque em democracia tu tens de ganhar o eleitorado”, disse, salientando que se cria um partido e esse partido concorre às eleições.

O chefe de Estado destacou, no entanto, que hoje Timor-Leste já tem 210 doutorados e 1.700 mestres, formados em “boas universidades” e “há gente que sabe”. A sociedade civil timorense tem acusado a atual liderança timorense, que continua concentrada em figuras da era da resistência, de criar obstáculos para o surgimento de novos líderes com capacidades de responder aos desafios contemporâneos.

Questionado sobre se, após 50 anos da declaração unilateral da independência, os timorenses estão reconciliados, Ramos-Horta afirmou que entre as “fações de [19]75 mais do que reconciliados”. “Alguns até já morreram, a maioria morreu. Não há problema nenhum. Quando eu vejo algum ser brilhante a dizer ‘ainda são as divisões de 75’, o senhor não sabe que a maioria já morreu, só se forem as almas no cemitério”, disse José Ramos-Horta.

Segundo o Presidente, as divisões resultam da luta democrática. “Acho ridículo, interessante, às vezes frustrante quando oiço que os timorenses estão divididos”, disse o Presidente.

“Muito bem, vamos todos unir como se faz na Coreia do Norte, ou melhor, partido único, candidato único, já se sabe quem ganha as eleições na Coreia do Norte, portanto, não há muita dor de cabeça tudo simples, 97% vota pelo Kim Jong-un, depois fazem a recontagem e afinal não foi 97%, mas foi 101%. É uma opção, aí estamos todos unidos”, ironizou Ramos-Horta.

Mas, acrescentou, os timorenses optaram pela democracia. “Uma democracia que hoje é elogiada e sobrevive à onda retrocessos da democracia na Ásia, na América Latina, na África e na Europa. Estamos muito bem com a democracia”, concluiu.

23 Nov 2025

Cuca Roseta, fadista: “O Fado é um samba-poesia cantado vindo do coração”

Na pandemia cantou para o público de Macau através de um vídeoconcerto, mas, agora, a fadista entrega-se de alma e coração para um concerto com a Orquestra Chinesa de Macau, integrado no cartaz do Festival Internacional de Música de Macau, no próximo sábado, 11. Em entrevista ao HM, Cuca Roseta fala do alinhamento do espectáculo, dos 15 anos de carreira e da verdade encontrada nas composições da sua autoria

Actua em Macau no próximo dia 11 de Outubro com a Orquestra Chinesa de Macau (OCM). Fale-me um pouco sobre aquilo que poderemos esperar deste espectáculo.

Sim, finalmente vamos a Macau. Vai ser a primeira vez porque fizemos anteriormente um vídeoconcerto para Macau na pandemia, e não conseguimos estar aí fisicamente. Actuamos agora com a OCM, que é muito boa, e estou feliz com essa parceria, por poder unir, de alguma forma, duas culturas. Estamos um pouco ansiosos por esse facto.

O concerto vai ter canções como “Meu”, “Preto e Branco”, “Canção do Mar”, “Não Sei de Onde” e “Finalmente”. O que nos traz este alinhamento?

Já tínhamos arranjos feitos para orquestra pelo Marinho de Freitas, que são arranjos extraordinários, e que serão adaptados aos instrumentos tradicionais da OCM. Estas canções são praticamente todas da minha autoria, letra e música, e contam diferentes histórias, algumas que eu própria vivi ou então histórias que, de alguma forma, experienciei alguém viver, de muito perto. São fados originais. A “Canção do Mar” é muito antiga e ficou conhecida na voz de Dulce Pontes e Amália Rodrigues, e tem um arranjo novo. Achámos que ficaria lindíssimo com a OCM. Claro que há músicas que cantamos sempre e que não saem do repertório, ligadas a fases tradicionais da minha carreira. Há algumas músicas que as pessoas gostam e pedem, mas trazemos um repertório completamente diferente do que apresentamos na altura [em Macau, com o vídeoconcerto], que foi muito bem recebido. Foi um concerto que correu muito bem, embora tenha sido por vídeo, e recebemos mensagens maravilhosas.

Lançou este ano o álbum “Até a Fé Se Esqueceu”, que tem um repertório exclusivamente brasileiro, com vários nomes da música brasileira, como Seu Jorge ou Zeca Pagodinho. Porquê explorar este universo, misturando-o com a linguagem do Fado?

Sim, mas este ano vou lançar também um álbum francês com o agente de Amália Rodrigues, que me fez esse convite. Mas o “Até a Fé Se Esqueceu” partiu de um convite de um grande produtor brasileiro para gravar sambas antigos, e que têm muito a ver com o Fado. Embora seja um álbum brasileiro, todo com sambas, é o meu álbum mais triste de todos, mais melancólico. Daí que fomos procurar esta raiz do samba para encontrar grandes poetas e grandes compositores que o Brasil tem, e que têm este peso que o Fado também tem.

Como?

O Fado liga muito à palavra e à composição, aliás, o Fado é um samba-poesia cantado vindo do coração, porque tem de existir essa verdade na interpretação, a ideia da verdade oriunda das experiências da vida, no transformar a história que conta. Essa melancolia está nas veias do sangue português e é misturada com a arte e a música. Este convite quis colocar uma fadista a cantar com seriedade e com o peso que o Fado traz, e poder interpretar os grandes poetas e sambas. O álbum [Até a Fé Se Esqueceu] tem sambas muito antigos, um deles de 1937. É, portanto, um álbum muito forte e mesmo muito bonito, com grandes poemas e compositores, como Tom Jobim, Vinicius de Morais, e parcerias maravilhosas com Seu Jorge e Zeca Pagodinho, que vieram até ao Fado. É um álbum que me deixou mesmo muito orgulhosa.

Portanto é possível casar o Fado com a alegria do samba, que também tem um lado melancólico, não é? Como a melancolia do nosso Fado.

Na verdade, quando ouvimos a palavra samba pensamos em alegria, mas na verdade a base do samba não é a alegria. Existe aquela frase de Vinicius de Morais, “Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, se não, não se faz um samba não”. Então é aí que recai a beleza deste trabalho, que vai à raiz do samba e mostra que não há assim tantas diferenças entre a melancolia da raiz do samba e a melancolia do Fado. É um álbum nostálgico e melancólico, não traz essa alegria. Pode trazer esperança, e podemos dizer que alguns temas trazem consigo essa esperança, que encontramos na cultura brasileira e nos tambores. Porque eles literalmente põem as tristezas na roda da saia e nos tambores, não é? Eles transformam as tristezas em dança e música, mas neste trabalho não vemos esse tipo de samba.

A Cuca também tem um álbum anterior, “Cabo Verde Nha Cretcheu”, pelo que se pode dizer que tem explorado, na sua carreira, as diversas sonoridades lusófonas, indo além do Fado, mesclando sons?

Esse álbum não partiu de uma vontade minha, e acho que [é sinal] que a vida me leva, no fundo. Este álbum nasce de uma digressão que fiz pelas nove ilhas de Cabo Verde com a gravação em directo das mornas que cantei em cada ilha, pois eu cantei as mornas tradicionais de cada ilha. Entre uma ilha e outra há mornas muito diferentes. O que eu fiz foi, depois dos meus concertos de Fado, cantava duas mornas e compilámos depois todos os temas em crioulo em celebração do facto de ter sido a primeira artista internacional a fazer as nove ilhas de seguida. Mas também estive em Goa e fiz o meu concerto em Concanim. Tenho facilidade e gosto de aprender as músicas tradicionais dos países onde vou cantar. Já cantei em Moscovo e aprendi uma canção russa; aprendi as músicas de Goa, e na Geórgia, em Tiblisi, também aprendi uma música. É um mimo que faço quando viajo pelo mundo a levar o Fado. Mas a morna é maravilhosa e realmente há parecenças entre este género musical, e quis levar aos cabo-verdianos este encontro entre o Fado e a morna, e surgiu este álbum, que é lindo.

Uma vez que vai a Macau, poderemos esperar uma canção em cantonense, ou mandarim?

Sim. Por acaso já tinha falado com o meu manager para contactar alguém nesse sentido, a fim de podermos descobrir uma canção tradicional que pudesse aprender.

Celebrou, no ano passado, 15 anos de carreira. Como revê a sua carreira, que começou com os álbuns “Cuca Roseta” e “Raiz”?

Na verdade, foi muito bom celebrar os 15 anos no MEO Arena [sala de espectáculos em Lisboa], e poder revisitar todos os álbuns desde o primeiro. O “Raiz” abriu algo que é mais raro, que é a fadista compor e escrever as suas letras. Esse foi um disco que correu maravilhosamente bem e, a partir daí, foi bom, porque nesta busca pela verdade que o Fado tem, poder compor e escrever as próprias letras é sempre dar um pouco mais de nós. Cada pessoa compõe e escreve à sua maneira, e quando o pode fazer, é sempre um pouco como as linhas da palma da mão, ou seja, é algo único. Nesta busca que as pessoas fazem por seguir padrões para alcançar o sucesso, acredito que este existe quando não temos medo de seguir a nossa voz e o nosso instinto, o que vem do nosso coração, contar as nossas histórias e cantar as nossas melodias sem medo. Dessa forma acabamos por nos tornar únicos. Apesar de não ser habitual no Fado uma fadista compor e escrever, foi bonito ver que as minhas canções se tornaram importantes para muitos fãs. Às vezes tenho grandes compositores e poetas [a colaborar comigo], mas acho que [escrever e compor] traz esse lado da pessoa ser mais verdadeira. Jamais os meus poemas podem ser comparados aos dos grandes poetas que já cantei, mas acho que as pessoas sentem que estou mais na minha pele. De certa forma, isso toca-as e emociona-as. O celebrar os 15 anos de carreira foi o fecho de um ciclo e o começar de outro, e foi muito bom voltar à “raiz”, e perceber que era nela que estava a “pólvora”, no sentido de não termos medo de nós mesmos.

6 Out 2025

Hui So-ying, protagonista do filme “Ah Ying”: “Representar é ser-se humano”

Em 1983, o cinema de Hong Kong, pela lente de Allen Fong, revelou “Ah Ying”, um filme que retrata a vida dura de uma menina que vende peixe no mercado e sonha ser actriz. Essa menina era Hui So-ying e “Ah Ying” inspirou-se na sua vida. O HM conversou com a actriz à margem da “Making Waves – 2ª Mostra do Cinema de Hong Kong”, que decorreu este fim-de-semana em Lisboa

 

Como se envolveu no projecto deste filme?

A principal razão pela qual me envolvi neste filme foi porque o meu professor de teatro faleceu. Por isso, senti que precisava de fazer algo para o homenagear, porque foi ele que me ensinou a representar. Então tentei ser actriz. Posteriormente, quando [o realizador] Allen Fong me conheceu, achou a minha história de vida interessante, acabando também por conhecer alguns dos meus familiares. Aí perguntou se eles estavam também interessados em participar no filme, o que levou a que muitos deles acabassem por entrar também no projecto. O filme mostra também o ambiente em que o meu professor vivia, é um retrato de experiências e histórias vividas por mim e pelo meu professor.

O filme retrata a vida de Hong Kong naqueles tempos. Como se preparou para a personagem?

A beleza deste filme está muito relacionada com as colaborações que se fizeram, nomeadamente na fotografia e nos figurinos. Foram precisas muitas colaborações para criar a beleza que existe no filme. Foi um trabalho árduo assumir a personagem [de Ah Ying], porque a história foi concebida para descrever algumas das minhas experiências passadas, e foi isso que o realizador quis fazer. Mas isso foi difícil para mim, porque havia algumas coisas que não queria enfrentar, mas tive de o fazer. Claro que depois percebi que, no fundo, não era nada, e até me senti aliviada depois de terminar as filmagens. Pensando se a história era uma forma de arte ou a realidade, quando estava a representar, tive de entrar na situação do momento porque, de facto, o episódio [real] já tinha passado, mas tive de voltar a ter certos sentimentos durante a representação. Como actriz, foi um grande teste.

“Ah Ying” é considerado um dos grandes filmes da chamada “Nova Vaga” do cinema de Hong Kong. Durante a rondagem, esperava o sucesso do filme?

Não pensei nisso, mas em todo o projecto achei que Allen Fong era um realizador muito ousado, porque nunca tinha sido feito um filme deste género em toda a história do cinema de Hong Kong. É uma espécie de “docudrama”, e ele teve a força e coragem para inovar na forma de filmar, o que, para a época, era inédito.

Qual foi o grande desafio que enfrentou neste filme?

Foi ter de regressar ao meu antigo eu. Havia coisas que não queria enfrentar e tive de as enfrentar novamente, com o mesmo sentimento que tinha naquela altura.

Entre 1983 e a actualidade passaram muitos anos. Olhando para trás, qual o significado que este filme teve para si, como pessoa e actriz?

Na verdade, depois de ver o filme, vi-o apenas como uma história. Para mim representar é ser-se humano, todos os dias são uma actuação.

O filme retrata a vida de Hong Kong nos anos 80 e ganhou uma versão restaurada. O que pensa que este projecto pode trazer a um público mais jovem que veja o filme hoje?

Este ano o filme foi exibido várias vezes, e faço sempre a mesma questão, se as pessoas não compreendem o filme ou se acham que ele não consegue ser imersivo o suficiente. Na verdade, tendo em conta a minha experiência, a maioria dos espectadores mais jovens responderam que não é assim, que o filme é bastante real. Não me parece que este filme esteja ultrapassado ou fora de moda só porque os tempos progrediram ou a sociedade mudou. Não acho isso.

“Ah Ying” encerrou, em Lisboa, a segunda edição de “Making Waves – Mostra de Cinema de Hong Kong”. Como se sente por ver este filme exibido em Portugal?

Achei interessante. Nunca pensei que o filme pudesse ser exibido nesta mostra, não sei se foi pelo facto de haver uma cópia restaurada. Antes desta nova versão era mais difícil exibi-lo. O público pode ver um filme que mostra as relações familiares vividas nos anos 80, e penso que aí o filme pode ser imersivo [na temática], quando aborda conflitos familiares, porque todos têm uma família. Vendo o filme podem questionar-se como é a relação com os seus familiares. Claro que também espero que tenham aprendido mais coisas sobre Hong Kong. Mas, apesar de este filme se passar na década de 80, foca-se muito nas relações familiares e interpessoais.

Há algum episódio das filmagens que a tenha marcado?

Em todo o filme houve vários momentos, mas aquele que me deixou maiores impressões foi a última cena, da entrevista, em que estava a falar para uma cadeira, mas era como se estivesse a falar com o meu professor. Quando vejo esta cena novamente fico sempre comovida, porque o meu professor já faleceu, mas tudo isso ainda me impressiona bastante.

30 Set 2025

Jorge Figueira, arquitecto e académico da Universidade de Coimbra: “As relações heróicas” de Macau

Há muito que escreve e pensa a arquitectura, e desde vez Jorge Figueira, arquitecto, académico da Universidade de Coimbra, fá-lo em Macau. Depois de uma sessão esta semana em que destacou o antigo complexo de habitação pública do Fai Chi Kei, de Manuel Vicente, Jorge Figueira aborda hoje na Fundação Rui Cunha o legado de Nuno Portas

 

Participa hoje na conferência “Nuno Portas: da Arquitectura ao Urbanismo, do Homem à Cidade”. Que legado deixou este arquitecto português?

Nuno Portas é alguém que já no final dos anos 50 tem uma actividade crítica que é totalmente inovadora e pioneira no contexto português. Depois, já nos anos 60, teve uma actividade mais internacional, tendo sido o primeiro a divulgar a obra de Siza Vieira. Foi aí que teve os primeiros contactos com arquitectos espanhóis e italianos, fundamentalmente. Também nesses anos escreveu dois livros que também eram invulgares, como “Arquitectura para Hoje”, em 1964, e “Cidade como Arquitectura”, de 1969. Foram também uma forma extraordinária de tentar apanhar o que se passava em termos de correntes internacionais na arquitectura. Mas depois teve também uma [importante] actividade como arquitecto ao lado de Nuno Teotónio Pereira, nomeadamente na obra da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, e numa casa em Vila Viçosa. Depois, com o 25 de Abril de 1974, foi nomeado secretário de Estado da Habitação e Urbanismo e lança o SAAL – Serviços de Ambulatório ao Apoio Local, um programa de habitação social completamente revolucionário, de acordo com o espírito da época. Depois Nuno Portas dedicou-se mais às questões do urbanismo e não tanto da arquitectura. Esteve ligado ao início da Expo 98. Acaba por ser alguém que nos últimos 20 anos do seu trabalho passa a ter preocupações mais científicas e sociológicas, e menos artísticas. É algo que teve desde o início, mas depois passa a ser o cento da sua actividade.

Nuno Portas teve alguma relação com Macau?

Penso que as relações não seriam tão intensas em comparação com outros arquitectos e contextos, mas sabemos que Nuno Portas esteve em Macau a convite do Governo para uma conferência, entre 2001 e 2002. É interessante porque dessa passagem temos ecos daquilo que aconteceu, como a surpresa dele ao descobrir o orfanato Ellen Liang de Manuel Vicente, que não conhecia. Foi a primeira obra de Manuel Vicente em Macau, dos anos 60, e sabemos que Nuno Portas ficou emocionado ao visitar essa obra, sobretudo a pequena capela que existe no orfanato. É interessante porque não havia uma relação directa entre Manuel Vicente e Nuno Portas, são figuras em pólos muito diferentes, e até opostos. Há também uma referência interessante e positiva ao plano do Siza [Vieira, Plano de Expansão da Cidade de Macau (Areia Preta e Porto Exterior, de 1982], e que quando Nuno Portas visita Macau está a ser construído. É interessante que tenha comentado esse plano porque nos anos 60 e 70 a relação entre Nuno Portas e Siza Vieira já não era a mesma, e o facto de ter feito referências elogiosas a Siza é muito interessante.

Foi aluno de Nuno Portas. Que outros aspectos da sua carreira ou personalidade pode destacar?

Também trabalhei com ele. Ele era um homem culto, muito inteligente e com uma memória avassaladora. Era alguém que gostava de provocar, mas no bom sentido, de discutir, de contrariar. Tive a sorte de manter um diálogo com ele de décadas, e será esse meu conhecimento pessoal que irei transmitir. Também reparo que era um homem muito próximo do poder de Lisboa, dos partidos, mas sempre muito independente. Era amigo pessoal de Jorge Sampaio, foi secretário de Estado, mas nunca teve grande protagonismo político. Por um lado, isso deve-se à sua independência, mas por outro ele era uma figura tão controversa e inteligentemente inquieto, que penso que o poder também se assustava com ele.

Esta semana falou também na conferência “Lisbon, Porto, Macau, Maputo: Heroic Collective Housing from the 60s & 70s”. Como descreve os projectos de habitação pública de Macau nesses anos?

Há muitos arquitectos sobre os quais poderia falar, mas concentrei-me na obra de Manuel Vicente em Macau, nomeadamente o complexo de habitação pública no Fai Chi Kei, que foi demolida e depois deu origem ao projecto de Rui Leão e Carlota Bruni. Não falei concretamente de arquitectos portugueses ou macaenses, também temos nomes como, por exemplo, José Maneiras. Até porque os arquitectos portugueses sempre foram poucos em Portugal, e a partir dos anos 50 existiam cerca de 150, aumentando depois muito em número. Mas fiz [na conferência], uma homenagem aos arquitectos portugueses que construíram nesse período, porque num território complexo e com as suas vicissitudes, diferentes das que existiam em Portugal, souberam fazer experiências arquitectónicas no campo da habitação pública extraordinárias. Tentei demonstrar o que estava a acontecer em Lisboa, Porto, Macau e Lourenço Marques, actual Maputo, de formas diferentes. Em Macau estabeleceram-se relações, que chamo de heróicas, no sentido em que foram relações de arquitectura experimental, em que as pessoas tiveram de se adaptar, ter um espírito próprio. Tratam-se de arquitecturas já com um pouco de história, pois passaram 50 ou 60 anos, mas continuam a ser marcantes os exemplos que encontramos nestas cidades.

Que projectos destaca destes anos?

Falei do empreendimento habitacional “Pantera Cor-de-Rosa”, de Gonçalo Byrne, em Chelas, Lisboa. Mostrei os “Cinco Dedos”, de Vítor Figueiredo, também de Lisboa, e o “Bairro da Bouça”, de Siza Vieira, no Porto. Mostrei o complexo do Fai Chi Kei, de Manuel Vicente, e um projecto de Pancho Guedes em Moçambique. Apesar de já serem longínquas no tempo, trata-se de arquitecturas que permanecem referências fundamentais dos pontos de vista cultural e arquitectónico. Há uma espécie de sorte narrativa de poder falar de sítios tão diferentes, e com arquitectos tão diferentes, e mostrar como tiveram esse lado heróico, experimental, comovente, até radical, que tinha a arquitectura desse período em particular.

Macau teve uma evolução positiva no que diz respeito à oferta de habitação pública?

Cheguei em Agosto e tenho visitado o território nos últimos anos, pelo que venho acompanhando um pouco esse processo. Macau é, obviamente, um território extraordinário e desde logo pela coexistência de culturas muito diferentes no que se refere à habitação, que aqui tem uma escala e expressão completamente distintas da portuguesa. Em Portugal há uma aversão às torres de habitação pública, sempre foi algo invulgar e os resultados que se conhecem não foram bem-sucedidos por razões diversas. Mas em Macau é exactamente isso que vemos, habitação pública em torres e com uma expressão muito forte. Isso tem a ver com as características do território e também com uma certa cultura da China e de Hong Kong. Isso não quer dizer que tudo o que está a ser construído em Macau seja bom, há torres e edifícios com soluções menos interessantes ou que decorrem de uma certa repetição. Mas não há nenhuma cidade que só tenha boa arquitectura ou boa habitação pública. O desafio está em resolver o problema da habitação em larga escala, algo que deve ser estudado e pensado. É bonito e avassalador ver que Macau é um território que cresce dia após dia e é excitante observar isso também do ponto de vista da arquitectura. É isso que estou a fazer, a trabalhar em projectos futuros.

Projectos de análise, ou académicos?

Sim, sou professor e investigador na Universidade de Coimbra e colunista do jornal Público, então o meu trabalho é muito analisar e investigar. Já publiquei muito sobre Macau e quero retomar algumas pontas que deixei para resolver, digamos assim. Estou muito estimulado com tudo o que tenho visto e as pessoas com que tenho falado, e se calhar vou aumentar o meu trabalho sobre o território do ponto de vista académico e no plano da investigação.

Numa altura em que Portugal tem um problema crónico de habitação, com falta de habitação pública, Macau poderia ser um exemplo?

De forma directa não, por causa da questão tipológica da torre habitacional. Poderia não ser um modelo bem-vindo no contexto português. Mas sem dúvida que Portugal precisa de aprender com outras experiências e outros territórios e precisa de encontrar soluções. Seguramente que o que se passa em Hong Kong e Macau são experiências que interessa muito conhecer, não para replicar, mas sim para perceber que se trata de um problema global [a falta de habitação].

Lembrar Nuno Portas

A Fundação Rui Cunha (FRC) recebe hoje, a partir das 18h30, a conferência “Nuno Portas: da arquitetura ao urbanismo, do homem à cidade”, com Jorge Figueira. Será tempo de falar de um percurso que o recém-falecido arquitecto iniciou em 1959, com um texto sobre a nova geração do Movimento Moderno em Portugal. Seguiram-se textos nos anos 60 e 70 com “abordagens científicas”, com Nuno Portas a deambular por entre a arquitectura e o urbanismo, sempre de forma reflexiva. Nuno Portas foi uma “figura multifacetada, mais conhecida por ter lançado o programa de habitação social SAAL, que ainda hoje é alvo de investigação e um exemplo”, descreve Jorge Figueira numa nota. O orador está ligado ao Centro Estudos Sociais e Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra.

3 Set 2025

Anabela Santiago, académica: “A China é reformista e moderada”

Anabela Santiago acaba de defender na Universidade de Aveiro a tese de doutoramento que analisa como a China se tem posicionado, nas últimas décadas, como actor importante na “Governança Global de Saúde”. Hoje, Pequim procura “mecanismos alternativos” de cooperação no “Sul Global” e tenta construir um modelo alternativo à Organização Mundial de Saúde

 

 

Comecemos pelo conceito de governança global de saúde (GGS). Trata-se de um conceito mais contemporâneo ou relativo ao período do pós-II Guerra e fundação da Organização Mundial de Saúde (OMS)? Quais têm sido os principais actores desta governança até ao crescimento da China?

A GGS é um conceito cuja proeminência e relevância cresceram significativamente no século XXI, em grande parte impulsionada pela globalização económica e pela interconexão mundial. Embora a saúde global tenha desde sempre transcendido as fronteiras nacionais, exigindo abordagens multidisciplinares e cooperação internacional, apenas a partir de da década de 1990 é que se tomou maior consciência dela. Historicamente, a GGS tem sido influenciada predominantemente por potências ocidentais e por valores neoliberais. Os principais actores desta governança, até ao crescimento da China, foram historicamente marcados por intervenções de entidades como a OMS e organizações não-governamentais, predominantemente norte-americanas e europeias.

Uma das conclusões da sua tese de doutoramento é que a China tem vindo a posicionar-se de forma progressiva nessa liderança. Esse posicionamento começou concretamente quando e porquê?

Sim, a China tem-se posicionado progressivamente como um actor de relevo na evolução do sistema de GGS. Embora não seja possível apontar uma data exacta de início, a China evoluiu de um país relativamente isolado para um actor principal nas arenas política, económica e tecnológica globais. A sua crescente influência económica e política representa uma mudança também na dinâmica histórica da GGS, sendo que já na década de 1960 a China tentava ter um papel de assistência humanitária em saúde nos países vizinhos e em África. A tese destaca que a experiência da China pode ser vista como um exemplo do que é alcançável quando um Estado escolhe o seu próprio caminho em vez de um modelo pré-estabelecido, alinhando-se com a previsão do século XXI como o “Século da Ásia”.

Os anos da pandemia influenciaram esse posicionamento? De que forma?

A pandemia de covid-19 realçou a necessidade de cooperação global em saúde, bem como as consequências potenciais da falha em priorizar a saúde global. A tese explora a evolução da Rota da Seda da Saúde antes e depois da pandemia, indicando que os anos da pandemia permitiram uma maior conscientização da necessidade de instrumentos como a Rota da Seda da Saúde como plataformas de cooperação mais efectiva entre as Nações. Embora não esteja detalhado nesta secção específica, é implícito que a pandemia intensificou a actuação da China na diplomacia da saúde e na assistência ao desenvolvimento em saúde.

Olhando para as reformas internas que a China tem levado a cabo na área da saúde, quais destaca como mais importantes?

Abordo, na tese, as reformas do sistema de saúde da China e destaco que o modelo de governança chinês é uma combinação única de reformas económicas orientadas para o mercado e desenvolvimento liderado pelo Estado, incorporando elementos de neoliberalismo e autoritarismo nas questões políticas em geral, sendo que o sector da saúde não é diferente em nada dos restantes. Uma das contribuições da China mencionadas, reconhecida pela OMS, é o seu modelo de atenção primária à saúde baseado na reconhecida boa prática dos “barefoot doctors” (médicos pés descalços). Além disso, a tese analisa as principais políticas de reforma e o seu progresso e desafios no período de 2009-2018, que compreendem as reformas dos cuidados de saúde primários, a reforma hospitalar e farmacêutica. O programa “Healthy China 2030” também é um referencial importante e ambicioso das reformas domésticas da China em matéria de saúde, abarcando igualmente os determinantes sociais.

É intenção de Pequim criar uma entidade alternativa à OMS, ou simplesmente criar um movimento alternativo que possa coexistir com a OMS, no contexto do relacionamento com o Sul Global? Como poderia isso funcionar?

A tese sugere que a China adopta uma “abordagem dual”: ao mesmo tempo que se integra nas estruturas globais existentes, forja simultaneamente caminhos alternativos, particularmente através de alianças regionais como os BRICS e parcerias com o Sul Global. Isso indica uma intenção de criar um movimento alternativo que possa coexistir e complementar o papel da OMS, em vez de uma entidade alternativa directa. A China demonstra um claro compromisso em alinhar os objectivos da iniciativa “Belt and Road” com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, mostrando a sua vontade de apresentar estas iniciativas como complementos aos mecanismos de cooperação já existentes na ordem liberal internacional. A visão do Presidente Xi Jinping de uma “Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade”, que inclui a noção de “Comunidade Global de Saúde para Todos”, também aponta para uma nova perspectiva no âmbito da cooperação internacional.

Máscaras, vacinas e Medicina Tradicional Chinesa (MTC): quais os produtos ou instrumentos usados pela China para se posicionar como um actor cada vez mais global na GGS?

A tese destaca que a China é um provedor indispensável de bens públicos globais de saúde, essenciais para a cadeia de suprimentos de produtos, como é o caso das máscaras e das vacinas. A MTC também é mencionada como um dos grandes contributos da China para a governança global da saúde, com os seus tratamentos derivados de ervas chinesas, alguns dos quais já reconhecidos pela OMS em 2017. Além disso, a assistência médica chinesa e as equipas médicas enviadas para outras regiões do globo são instrumentos importantes da diplomacia da saúde chinesa.

Na criação de um movimento ou realidade alternativa à OMS, a China poderá estar a tirar partido da falta de uma representatividade plena nessa mesma OMS, ou lacunas no seu funcionamento?

A tese não aborda directamente se a China está a tirar partido de uma falta de representatividade plena na OMS ou de lacunas no seu funcionamento. No entanto, ela enfatiza que o trabalho visa preencher uma lacuna no conhecimento científico em relação ao paradigma da governança da saúde de uma perspectiva não-ocidental e liberal, dando ênfase à China como actor do Sul Global. Isto sugere que a China procura fortalecer modelos alternativos que podem oferecer soluções mais personalizadas para desafios de saúde, diferentes dos defendidos pelos países ocidentais, posicionando-se como um actor reformista moderado.

De que forma a política externa da União Europeia (UE) em relação à China tem afectado ou influenciado este posicionamento do país na governança global da saúde?

Na tese, a quarta publicação, intitulada “Challenges on the European Union-China cooperation in higher education from ‘people-to-people dialogue’ perspective: The case of health-related joint projects”, explora a cooperação no ensino superior, em particular aquela que inclui projectos relacionados com a saúde. Verifica-se, pois, que, apesar do diálogo estratégico e económico, a deterioração das relações bilaterais UE-China intensificou-se, com a Comissão a assumir um declínio de entusiasmo devido a “contramedidas da China às sanções da UE em direitos humanos, coerção económica e medidas comerciais contra o mercado único, e o posicionamento da China na guerra na Ucrânia”. Embora se reconheçam desafios e tensões, a cooperação no ensino superior, incluindo projectos de saúde, é vista como parte de um quadro mais amplo de construção de parceria estratégica entre a UE e a China. No entanto, evidencia-se que não existe uma longa tradição de cooperação em saúde entre a UE e a China no ensino superior, e que existem poucos projectos conjuntos em comparação com o panorama geral. Sugere-se que tanto a UE como a China deveriam fazer mais esforços para alinhar os currículos de estudos médicos e promover mais pesquisa conjunta em áreas relacionadas com a saúde, doenças infeciosas, entre outros.

Na era Trump 2.0, e sem pandemia, qual poderá ser o papel da China na governança global da saúde?

Embora a tese seja publicada este ano, foca-se no período que antecede e inclui a pandemia, onde não especulo directamente sobre um cenário futuro de “Trump 2.0” sem pandemia. No entanto, a tese argumenta que a China não é apenas um participante, mas uma força reformista moderada na formação das normas de saúde globais. Independentemente de cenários políticos futuros, a sua crescente influência económica e política, a diplomacia estratégica em saúde, as reformas internas e iniciativas como a Rota da Seda da Saúde continuarão a moldar o seu papel na governança global da saúde. A visão de uma “Comunidade Global de Saúde para Todos” também permanece como um princípio orientador para os esforços da China.

Este poder da China na GGS verifica-se mais com acordos bilaterais ou multilaterais?

A tese sugere que o poder da China na governança global da saúde se manifesta tanto através de acordos bilaterais quanto multilaterais, mas com uma ênfase crescente em certas formas de cooperação que fortalecem o seu papel no Sul Global e através de mecanismos alternativos. Embora a tese não quantifique explicitamente a predominância entre bilateral e multilateral, o foco nas alianças regionais (BRICS) e parcerias com o Sul Global (que frequentemente envolvem acordos bilaterais e iniciativas de cooperação de grupo) e a Rota da Seda da Saúde indicam uma abordagem híbrida.

30 Jun 2025

Fórum Macau | Secretário-geral diz que nunca se discutiu alargamento a países hispânicos

Numa entrevista à agência Lusa, o secretário-geral do Fórum Macau, Ji Xianzheng, garantiu que “nunca discutiu” o alargamento da acção aos países hispânicos, mas que a concretizar a vontade já enunciada pelo Governo de Sam Hou Fai terão de ser as autoridades a decidir um novo rumo à estratégia de cooperação

 

O secretário-geral do Fórum Macau afirmou que a instituição “nunca discutiu” a criação de uma entidade para alargar aos países hispânicos serviços de promoção de cooperação económica semelhantes aos que presta à ligação entre a China e os países de língua portuguesa.

“Dentro do Fórum Macau, nunca discutimos esse tema”, afirmou o secretário-geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Ji Xianzheng.

O responsável reconheceu que, “na sociedade, houve algumas conversas para discutir ou abordar a possibilidade de promover mais contacto e cooperação com os países da língua espanhola, mas, a nível do Fórum, nunca abordámos este tema”.

O Executivo de Macau anunciou, em meados de Abril, a intenção de criar um centro para promover os serviços económicos entre a China e os países de línguas portuguesa e espanhola na vizinha zona económica especial de Hengqin.

A ideia é proporcionar às empresas de países hispânicos serviços no “âmbito linguístico, jurídico, fiscal, de verificação da observância das normas, de formação, de arbitragem e de mediação”, segundo o secretário para a Administração e Justiça, André Cheong.

Dias antes, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, tinha também anunciado a intenção de “promover o intercâmbio e a cooperação”, através de Macau, entre a China e o universo de países de língua espanhola.

Apesar de Macau querer alargar o foco aos países que falam castelhano, “o Fórum continuará a ser o Fórum para a China e os países da lusofonia”, garantiu Ji Xianzheng. O secretário-geral esclareceu que a instituição que dirige “pode aportar contributos para a maior abertura da Macau na cooperação internacional”, como é a intenção anunciada pelo novo Governo da RAEM.

Fórum complementar

Pessoalmente, o secretário-geral garantiu ter “todo o prazer em trabalhar com todas as partes”, mas sublinhou que essa é uma “decisão que cabe aos governos centrais tomar” e que o Fórum nunca foi contactado nesse sentido.

“Sim, trabalhei na América Latina, em Espanha, nove anos em Madrid e em Caracas. Mas isto não é uma decisão de interesse pessoal, cabe aos políticos tomar a decisão”, afirmou, explicando que a ideia será promover a relação entre Macau e o Brasil e daí a outros países da América Latina, assim como, alargar a relação com Portugal à Espanha.

“Não há limite. O Fórum de Macau é complementar. Não restringe nenhuma promoção da cooperação das outras partes”, disse.

De acordo com o gabinete de comunicação do Governo de Macau, Sam Hou Fai admitiu no passado dia 21 de Junho que adiou para o Outono uma deslocação a Portugal, prevista para Julho, e que deverá também passar por Espanha e pela sede da União Europeia, em Bruxelas.

Más interpretações

Na mesma entrevista à Lusa, o secretário-geral do Fórum Macau imputou aos governos nacionais a responsabilidade pela condução das políticas de desenvolvimento e cooperação económica, sublinhando que a instituição “não tem projectos de investimento”.

Ji Xianzheng atribui as críticas ao Fórum Macau a uma interpretação errada relativamente à missão do organismo. “O Fórum é um mecanismo de cooperação entre os governos centrais. Muita gente pensa que é ao secretariado que cabe a execução das políticas, mas temos um número de pessoas limitado”, acrescentou Ji.

“O secretariado não tem projectos de investimento, é um mecanismo de preparação da conferência ministerial, de ligação com os governos, não é uma agência de promoção. Não foi pensado assim, faz ligação com as agências de promoção. Somos quatro pessoas enviadas pela China e um delegado por cada país”, concretizou.

Na última conferência ministerial, em Abril de 2024, o então ministro da Economia português Pedro Reis defendeu que o Fórum e o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa deviam apostar mais nas pequenas e médias empresas (PME).

O fundo de cooperação foi criado em 2013 pelo Banco de Desenvolvimento da China e pelo Fundo de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Macau, com mil milhões de dólares, dos quais cerca de 60 por cento já foram investidos, segundo o secretário-geral.

Planos de acção

Ji Xianzheng admitiu que as PME são “um tema difícil para qualquer Governo” e que “a cooperação internacional para a promoção do desenvolvimento e cooperação das pequenas e médias empresas é ainda mais difícil. É um tema que está a ser debatido diariamente a nível mundial”. Porém, admitiu, “aqui, pouco”.

“Mas está estipulado no plano de acção [2024-2026]. Cabe aos governos centrais e às câmaras de comércio, agentes de promoção, trabalhar conjuntamente para fazer isso. O secretariado assume a responsabilidade conforme autorizado pelos governos centrais, concretamente, no programa de actividades”, reforçou.

Responsáveis políticos de vários países, incluindo Portugal, Angola e Moçambique, têm apelado a uma alteração das regras da candidatura ao fundo. As actuais regras obrigam, por exemplo, que os projectos candidatos tenham um investimento mínimo de cinco milhões de dólares, sendo que o Fundo apenas cobre 20 por cento do investimento total, remetendo o resto para os governos ou empresas.

Ji Xianzheng afirmou que a nova direcção do Fundo “está empenhada em promover um investimento mais amplo, com melhor cobertura para todos os países do Fórum, [relativamente] aos projectos que têm um impacto estratégico ou significativo para o desenvolvimento socioeconómico dos países participantes”.

Segundo o secretário-geral, “os termos de aplicação [das regras de acesso ao Fundo] vão ser mais flexíveis e as formas de aplicação também vão ser mais diversificadas”. “Em vez de ser só investimento directo, eles também estão a estudar formas de aplicar o fundo, em cooperação com outros fundos ou com outras instituições financeiras”, deu como exemplo.

“Este fundo tem uma operação segundo as regras do mercado. Não é um fundo de ajuda humanitária. Por isso, tem que garantir o mínimo retorno de benefício. Mas, em cima disso, eles estão muito abertos para estudar, caso por caso, as condições de cada projecto”, acrescentou Ji Xianzheng, escusando-se, porém, a dar exemplos da “flexibilização das regras”.

Sobre a aproximação do universo China e países da Península Ibérica, já cimentada nos discursos oficiais, a economista Maria Fernanda Ilhéu, presidente da Associação dos Amigos da Nova Rota da Seda, disse ao HM, no início deste mês, que esta intenção é “muito objectiva e pragmática e pode resumir-se ao projecto de diversificação da economia de Macau, para a qual estão a convocadas empresas e investidores não só de Macau, mas também de países de língua portuguesa”.

“Mas o facto é que as empresas e instituições de países de língua portuguesa não estão a ser eficazes na resposta a essa necessidade de Macau. Portanto, alargar às empresas e às instituições de língua espanhola esse convite para cooperação parece-me lógico”, disse a economista.

30 Jun 2025

Isabel Rio Novo, autora da biografia de Luís de Camões: “Tempo em Macau foi de tranquilidade”

Será lançada amanhã, no Consulado-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, a biografia de Luís de Camões, da autoria de Isabel Rio Novo. Em entrevista ao HM, a autora desvenda alguns segredos sobre a vida do poeta em Macau, um período de relativa calma no meio de uma vida quase sempre turbulenta

 

Porque decidiu embrenhar-se na escrita de mais uma biografia sobre Camões?

É verdade que Luís Vaz de Camões foi biografado muitíssimas vezes ao longo de 500 anos. No entanto, há 50 anos que não havia uma biografia sobre ele. Do meu ponto de vista e do editor, Camões merecia uma biografia mais actual que revisitasse de uma forma desprovida todo tipo de preconceitos, buscando fontes conhecidas, a pesquisa de informação ainda não descoberta e onde se fizesse a releitura de todas as obras anteriores. Esta biografia não é apenas uma súmula, mas também a reinterpretação daquilo que já se sabia, mas que raramente tinha sido relacionado. O livro traz também alguns dados novos com alguma documentação que foi descoberta.

Como nasceu a sua relação com a escrita de Camões?

Apaixonei-me e fui daquelas jovens leitoras que não ficou atormentada com Camões. Pelo contrário, gostei logo e deixei-me seduzir pelo Camões lírico. Sou das áreas de Literatura Comparada e da História, e nesse sentido sempre compreendi a dimensão e importância da obra de Camões.

E quais são?

É uma obra e um autor muito do seu tempo e da sua época, que foi extraordinária, com o Renascimento, o Humanismo e as viagens da navegação. Mas, ao mesmo tempo, é uma obra que é produto de um génio literário fora de série, daqueles que podemos contar um punhado na história da literatura universal.

Que Camões encontramos nesta biografia?

Tentei ir ao fundo, retirar camadas do sentido que estes 500 anos foram acrescentando a Camões, no sentido em que cada época leu o seu Camões e produziu a sua interpretação. Quis descobrir o substracto, o homem de carne e osso que viveu e escreveu há 500 anos.

Foi um homem sofrido, com muitas dificuldades financeiras.

Foi um homem com uma relação complexa e difícil com a realidade, não só do seu tempo, mas também com a realidade [em si]. O tema da época, do desconcerto do mundo, de como a sociedade parece funcionar ao invés daquilo que deveria funcionar, tratando-se de um tópico literário do Renascimento, foi algo que Camões sentiu de forma pessoal e genuína.

De que forma?

Ele viveu uma série de dissabores, de experiências extremas. Basta dizer que esteve preso várias vezes e por razões diversas. Fez grandes viagens numa altura em que estas eram empreendimentos absolutamente arriscados, morosos e complicados. Camões esteve envolvido em expedições militares, e quase toda a sua vida foi soldado. Mas esse conjunto de experiências permitiu-lhe ser quase tudo aquilo que alguém podia ser na época em que viveu.

Foi um dos autores mais viajados da época, tendo estado no Brasil, Goa…

Sim. Mesmo a ligação a Macau, que é contestada por alguns estudiosos, mas não por mim… sou persuadida, face à documentação existente e testemunhos indirectos, que Camões passou pela China com o cargo de provedor dos defuntos e ausentes. Quando isso aconteceu já existia, ainda que de forma muito incipiente, o estabelecimento português na China, que já era Macau. Não se sabe se Camões exerceu esse cargo que lhe foi atribuído pelo vice-rei D. Francisco Coutinho, se ele estava exactamente designado para ser provedor durante a viagem, ou provedor no estabelecimento de Macau. Mas o que ele conheceu da China foi, seguramente, esse pequeno entreposto que Portugal tinha conseguido, a muito custo, com muita dificuldade e depois de muitas tentativas, obter na China.

O que fazia um provedor dos defuntos?

Sempre que um português morria no Oriente, um soldado ou mercador, era preciso assegurar os direitos dos herdeiros, das famílias que normalmente estavam em Portugal. O provedor tinha de identificar o falecido, a sua naturalidade, origem e fazer com que os herdeiros fossem conhecidos. Tinha ainda de guardar os bens do falecido antes que fossem roubados, levá-los a leilão, guardar as moedas que daí resultassem e depois levar tudo isso para Lisboa. Era um processo que, se corresse bem, demorava muitos meses, pois era preciso enviar esse dinheiro para as autoridades de Goa que depois o enviavam na carreira da Índia para Lisboa.

Podemos falar de um período de estabilidade na vida de Camões em Macau?

Sim. Até essa nomeação como provedor dos defuntos, tudo o que Camões conhecia do Oriente tinha sido como soldado. Mal chega a Goa [1553], embarca semanas depois numa primeira expedição militar. Sabemos porquê: não porque tivesse alguma apetência bélica, mas porque só participando em expedições ganhava o seu soldo. Embora toda a gente dissesse que os soldados viviam muito pobremente, o soldo era o que Camões tinha para sobreviver. O tempo vivido em Macau, em que esteve liberto das obrigações de soldado, foi um tempo de tranquilidade em relação à subsistência, que estava assegurada. Dispunha de algum tempo e calma para prosseguir o trabalho com “Os Lusíadas”. Mais do que isso, tanto quanto as fontes permitem deduzir, Camões conheceu em Macau uma fase de equilíbrio em termos de vida pessoal e amorosa, na medida em que, na viagem de regresso, trazia consigo, segundo o testemunho de Diogo do Couto, uma rapariga chinesa.

Dinamene.

Esse foi o termo usado pelo cronista. Não sabemos se seria uma rapariga chinesa ou asiática. Essa rapariga com quem Camões vivia maritalmente era alguém de quem gostava muito, segundo o testemunho de Diogo do Couto. Mas Dinamene não seria, certamente, o nome dela, por ser um nome mitológico que, aliás, já Camões usava na sua lírica, mesmo antes de ter embarcado para o Oriente. As raparigas chinesas com quem os soldados e mercadores em Macau viviam amancebadas eram baptizadas e recebiam um nome cristão. Portanto, Dinamene até teria um nome cristão e português. Mas como não sabemos o nome dela, e se for com consciência de que usamos uma espécie de metáfora, podemos chamar-lhe Dinamene.

Ela morre depois numa viagem e deixa Camões muito abalado.

Na viagem de regresso de Macau a Goa, provavelmente no fim do seu mandato como provedor, Camões sofre o célebre naufrágio, no qual perde os bens pessoais que tinha amealhado, incluindo os bens dos defuntos de que era guardião, e isso vai trazer-lhe complicações. Sofre também a perda de Dinamene. O naufrágio foi junto a alguns nos mares da China, provavelmente junto à foz do rio Mekong.

Considera improvável que tenha perdido aí parte de “Os Lusíadas”.

Os primeiros biógrafos dizem que Camões se salvou desse naufrágio com uma tábua. Não é descabido que tenha conseguido salvar, nessa tábua, o manuscrito dos Lusíadas. Mas também não é de excluir que Camões soubesse de cor o seu poema. A memória das pessoas no século XVI era diferente. Estavam muito habituadas a guardar as coisas de memória. E nós sabemos, porque a prova obtém-se na obra de Camões, que este tinha uma memória extraordinária. Tenho forma de o provar, claro, que Camões seja um dos raros autores que conhecia de cor o seu poema.

Considera que Camões teve uma vida inferior ao seu verdadeiro talento?

Sem dúvida. Segundo um conjunto demasiado extenso de testemunhos concordantes, ele morre pobre, mesmo em condições miseráveis, e segundo uma testemunha ocular, sem ter um cobertor com que se cobrir. Por outro lado, Camões ficou conhecido a seguir à publicação dos Lusíadas, que foram comentados e lidos [no tempo de vida do poeta]. Temos o testemunho de Faria de Sousa, um dos primeiros biógrafos de Camões, que diz que quando este passava nas ruas as pessoas paravam e apontavam. Camões tinha também uma figura que se destacava, com o olho vazado e a usar uma pala. Nessa altura, já estaria bastante doente, a usar muletas. Mas há um conjunto de poetas, que é muito pouco crível que não conhecessem Camões, que nunca se lhe referem. Há, por outro lado, outros humanistas, como Pedro Magalhães Gândavo, que desde logo o elogia como o príncipe dos poetas portugueses.

Mas o rei dá-lhe uma tença por feitos prestados e pela publicação de “Os Lusíadas”.

Essa famosa tença, que não devia ser grande coisa, porque todos os biógrafos antigos dizem que era irrisória, é-lhe atribuída como uma espécie de reforma militar, por causa dos 17 anos de serviço no Oriente, e não propriamente como recompensa pela publicação de “Os Lusíadas”. A carta de mercê de D. Sebastião, que lhe atribui o título de Cavaleiro Fidalgo, não tinha, na prática, nenhuma repercussão, mas dava-lhe 15 mil reais. [A publicação de “Os Lusíadas”] terá sido um argumento adicional [para a carta] e não o argumento principal. Isso leva-nos a crer que D. Sebastião nem sequer terá lido ou ouvido ler “Os Lusíadas”, terá recebido uma informação indirecta, favorável sobre o poema.

Como se deu o processo de edição de “Os Lusíadas”?

Foi um acontecimento, porque tanto a imprensa como os livros que se publicavam por ano eram uma quantidade muito pequena. No ano em que “Os Lusíadas” são publicados foram a única obra de cariz não religioso [a ser editada]. Para custear a edição é mais que provável que Camões tenha tido o apoio de um mecenas, provavelmente D. Manuel de Portugal, da família dos Condes do Vimioso. Conseguir que a obra fosse imprensa era um processo moroso e complicado, pois tinha ainda de passar pelo Exame Prévio das autoridades civis, da autoridade régia e da censura da Inquisição. O revedor do Santo Ofício acaba por não só deixar passar o livro, como tecer uma quantidade de elogios quase inédita no alvará que autoriza a publicação da obra. Se formos pegar nos pareceres emitidos pelo mesmo revedor, não há nenhuma outra obra sobre a qual ele seja tão elogioso como foi com a epopeia de Camões.

Na Indonésia, fez amizade com um escravo da Ilha de Java.

Camões esteve, pelo menos uma vez, na ilha de Ternate, na Indonésia, no arquipélago das Molucas, numa altura em que houve conflitos motivados por um capitão português extremamente cruel para com o rei ou sultão de Ternate, e que originaram uma espécie de guerra entre os portugueses e os locais. Camões tem uma canção que descreve a ilha de Ternate. Não sabemos se foi nessa altura, ou em outra passagem pelo Extremo Oriente, que Camões se ligou a um jaú, ou javanês, mas que podia não ser exactamente do Extremo Oriente, mas um escravo liberto que se tivesse ligado por amizade a Camões. E isto porque numa das primeiras biografias de Camões lê-se que jaú, com o nome cristão António, pedia esmola à noite. Essa liberdade de movimentos de um escravo indicia que, provavelmente, seria um escravo liberto. Pedia esmola para Camões, para ele próprio e para a mãe de Camões, com quem Camões terá vivido nos últimos anos de vida.

26 Jun 2025