China | Piloto que embateu no edifício mais alto de Pequim quis suicidar-se

As autoridades chinesas atribuíram o acidente de sexta-feira da semana passada, em que um pequeno avião embateu contra o edifício mais alto de Pequim, a “motivos pessoais” do piloto, que tinha ideias suicidas.

O homem de 66 anos morreu e 13 pessoas ficaram feridas. Nenhuma ficou em estado grave e uma das vítimas já teve alta hospitalar, acrescentaram as autoridades da área administrativa de Chaoyang, em Pequim, num comunicado divulgado nas redes sociais.

O relatório da investigação apontou que o piloto, identificado apenas pelo apelido Liu, não tinha emprego fixo, era divorciado e vivia sozinho, sofrendo de insónias e ansiedade. O diário do piloto continha várias referências à intenção de se suicidar.

O acidente ocorreu pelas 18h, numa zona de arranha-céus no centro da capital chinesa, numa altura em que muitas pessoas deixavam os locais de trabalho, levantando questões sobre a segurança em Pequim. O embate abriu um buraco na fachada envidraçada da Torre CITIC, com 108 andares, conhecida como edifício “Zun” devido ao formato inspirado num antigo recipiente chinês para vinho.

Na mesma nota, as autoridades referiram que o piloto realizou inicialmente um voo de treino acompanhado num avião de instrução de dois lugares e, posteriormente, descolou sozinho de um aeroporto privado nos arredores de Pequim. Durante o voo, desviou-se da rota prevista e as autoridades perderam contacto com a aeronave.

3 Jul 2026

Criança de 11 anos atropelou mortalmente nove monges na Tailândia

Pelo menos nove monges budistas morreram ontem e mais de dez ficaram feridos ao serem atropelados por uma carrinha conduzida por uma criança de 11 anos no nordeste da Tailândia, disse a polícia.

O chefe da polícia local, Pairoj Thaiphutsa, disse aos jornalistas que “o suspeito é uma criança” de 11 anos que conduzia o veículo dos pais sem autorização, acabando por atropelar um grupo composto por 35 monges e cinco fiéis numa estrada na província de Mukdahan. O mesmo responsável acrescentou que o veículo foi apreendido para perícias, “a fim de determinar a causa do acidente”.

Cinco monges morreram no local e quatro não resistiram aos ferimentos depois de terem sido transportados para o hospital da região. Os restantes feridos permanecem hospitalizados. Segundo as autoridades locais, os monges relataram ter visto o veículo a perder o controlo antes de sair da estrada e colidir com o grupo.

Os monges tinham iniciado, 30 minutos antes do acidente, uma peregrinação a pé de cerca de 260 quilómetros até à província de Ubon Ratchathani. A província de Mukdahan, a cerca de 600 quilómetros a nordeste da capital, Banguecoque, na região de Isan, uma zona rural no Delta do Mekong, na fronteira com o Laos. Isan é a região mais pobre da Tailândia e tem a menor densidade populacional do país, com cerca de 350 mil habitantes.

Na lista negra

O governador da província de Mukdahan, Worayan Bunnarat, afirmou que a tragédia deve servir de alerta sobre a segurança rodoviária na Tailândia.

O país tem um historial de sinistralidade rodoviária, porém, a segurança tem melhorado nos últimos anos, mas não o suficiente para tirar a Tailândia da lista de países com as estradas mais perigosas do mundo.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a Tailândia ocupa o nono lugar entre 175 países em termos de mortes no trânsito. Em 2021, o organismo da ONU registou mais de 18.200 mortes, cerca de 50 por dia, devido a acidentes rodoviários.

Embora as autoestradas e as estradas principais sejam relativamente bem conservadas e pavimentadas, os padrões de qualidade podem baixar consideravelmente nas vias mais rurais e secundárias.

3 Jul 2026

Comércio | Pequim convida UE para nova ronda de diálogo no Outono

A China convidou o comissário europeu para o Comércio e Segurança Económica para uma visita ao país no Outono, no âmbito da segunda reunião do mecanismo de diálogo bilateral criado para resolver as tensões comerciais, anunciou ontem Pequim.

O convite surge após o primeiro encontro, realizado na segunda-feira, em Bruxelas, entre o comissário Maroš Šefčovič e o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, durante o qual ambos se comprometeram a manter abertos os canais de comunicação até Outubro para evitar que os desacordos evoluam para uma guerra comercial.

O porta-voz do ministério do Comércio chinês, He Yadong, confirmou ontem o convite, numa conferência de imprensa regular, na qual apresentou também os resultados da primeira reunião. He explicou que o mecanismo constitui um novo canal permanente de diálogo económico e comercial entre as duas partes, que acordaram realizar entre uma e duas reuniões ministeriais por ano.

Segundo o porta-voz, o primeiro encontro centrou-se em áreas emergentes, como a inteligência artificial (IA), sectores com potencial de cooperação e questões litigiosas, com o objectivo de promover um comércio mais equilibrado, através do seu crescimento e não da sua redução.

A aposta no diálogo surge após vários episódios que agravaram as tensões entre a China e a União Europeia nos últimos anos, marcados por investigações comerciais recíprocas, divergências em torno da guerra na Ucrânia e sanções impostas por Bruxelas a empresas chinesas por alegada colaboração com a Rússia.

3 Jul 2026

Shenzhen | CR New Energy estreia-se em bolsa a subir 114% após IPO recorde

A produtora de energias renováveis China Resources New Energy estreou-se ontem na Bolsa de Shenzhen com uma valorização superior a 113 por cento face ao preço inicial, na maior entrada em bolsa da história daquele mercado.

A oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) ficou avaliada em mais de 3,6 mil milhões de dólares. As ações da empresa abriram a 21,6 yuan, acima dos 10,11 yuan definidos para a IPO. Nos primeiros minutos da sessão, chegaram a registar uma subida de 198,32 por cento, antes de moderarem os ganhos para cerca de 124 por cento.

A operação, a maior realizada na Ásia desde o início de 2026, envolveu a venda de mais de 2,42 mil milhões de ações, permitindo à empresa angariar cerca de 24,5 mil milhões de yuan.

Na semana passada, a subsidiária do conglomerado estatal China Resources revelou que a parte destinada aos investidores de retalho registou uma procura 683 vezes superior ao número de ações disponíveis, mesmo após o aumento da alocação através de um mecanismo de redistribuição de ações aos investidores de retalho. Trata-se da maior IPO na China desde a realizada, em 2022, pela petrolífera estatal CNOOC, que angariou o equivalente a 5,1 mil milhões de dólares na Bolsa de Xangai.

A operação supera igualmente o anterior recorde da Bolsa de Shenzhen, estabelecido em 2020 pela produtora de óleos alimentares Yihai Kerry Arawana, que arrecadou cerca de dois mil milhões de dólares.

Vento e sol

No final de 2025, a China Resources New Energy dispunha de cerca de 41 gigawatts de capacidade instalada, o equivalente a 2,3 por cento do mercado chinês. Mais de 80 por cento da capacidade correspondia a projectos eólicos, embora a energia solar tenha vindo a ganhar peso no portefólio da empresa.

As receitas da IPO serão destinadas ao desenvolvimento de novos projectos eólicos e solares, que acrescentarão mais de 7,1 gigawatts de capacidade instalada, num investimento superior a 40 mil milhões de yuan. A operação atribui à empresa uma capitalização bolsista estimada em cerca de 135 mil milhões de yuan, semelhante à da Ganfeng Lithium, o maior produtor chinês de lítio.

A imprensa económica chinesa destacou que a operação permite também aferir o apetite dos investidores por sectores além da inteligência artificial e da robótica, que dominaram as maiores estreias bolsistas dos últimos meses.

3 Jul 2026

Bolsa | Tecnológicas intensificam recompra de acções após fortes quedas

As gigantes tecnológicas chinesas estão a intensificar os programas de recompra de acções para recuperar a confiança dos investidores, após fortes desvalorizações em bolsa. Empresas como Tencent, Alibaba, Xiaomi e Meituan tiveram quebras na primeira metade de 2026 entre 30 a 44 por cento

 

A maiores empresas tecnológicas da China reforçaram os programas de recompra das suas próprias ações, após derrocadas na bolsa, noticiou ontem o jornal South China Morning Post (SCMP). Estes programas surgiram na sequência de fortes quedas bolsistas causadas por uma vaga de cepticismo em torno do sector e entusiasmo com empresas de inteligência artificial (IA).

Empresas como Tencent, a maior cotada chinesa e a 26ª maior do mundo, Alibaba, Xiaomi e Meituan registaram quedas entre 30 e 44 por cento no primeiro semestre, acelerando posteriormente o ritmo das recompras de ações, uma prática habitual entre empresas cotadas para apoiar a cotação quando consideram que o mercado está a subavaliar os seus títulos.

Numa compilação divulgada pelo jornal de Hong Kong SCMP, a Tencent recomprou ações no valor de cerca de 1.270 milhões de dólares em Junho, o montante mais elevado de 2026, enquanto a Alibaba gastou 50 milhões de dólares apenas na última semana.

A Meituan disse ter adquirido quase 26 milhões de dólares em ações entre segunda e terça-feira, depois de o presidente executivo reconhecer que o desempenho recente da empresa em bolsa ficou aquém do esperado. A Xiaomi já gastou cerca de 153 milhões de dólares nesta estratégia desde meados do mês passado.

“Tendo em conta a robustez do fluxo de caixa líquido e os montantes ainda disponíveis nos programas de recompra, esperamos que estas empresas acelerem o ritmo das recompras”, escreveram recentemente analistas da Citi Research num relatório.

Só para aparecer

Empresas como Alibaba e Meituan envolveram-se numa guerra de preços no mercado da entrega de refeições ao domicílio, situação que levou mesmo à intervenção do Governo chinês, enquanto os investidores voltavam a atenção para empresas totalmente dedicadas à IA, como Minimax ou Zhipu AI.

“As tecnológicas tradicionais têm uma exposição relativamente reduzida ao negócio da IA, o que levou à deslocação de capitais dessas ações para empresas focadas exclusivamente nesta área”, referiu Kenny Ng, analista da Everbright Securities.

Embora os especialistas considerem que os programas de recompra constituem apenas uma solução temporária, disseram acreditar também que as grandes tecnológicas chinesas podem estar próximas de atingir um mínimo bolsista, sustentadas pela solidez dos negócios principais, pela capacidade de gerar lucros e fluxo de caixa de forma consistente e pela volatilidade do sector da IA, que tem servido de principal motor do actual ciclo dos mercados.

Perante este contexto, as tecnológicas chinesas não só intensificaram as recompras de ações, como os principais executivos multiplicaram presenças públicas para tentar recuperar a confiança dos investidores. O fundador da Alibaba, Jack Ma, reuniu-se com gestores para plantar arroz, enquanto o fundador da Xiaomi, Lei Jun, foi fotografado a comer numa pequena banca de beira de estrada em Wuhan, no centro da China.

3 Jul 2026

EUA | Alibaba paga 600 milhões de dólares para encerrar processo

O conglomerado chinês Alibaba vai pagar 600 milhões de dólares para resolver uma disputa com o governo dos Estados Unidos da América (EUA) nascida de alegações de importação e venda de medicamentos ilegais, substâncias controladas, químicos regulados e equipamento de produção de comprimidos.

O Alibaba opera algumas das maiores plataformas mundiais de comércio electrónico, como a Alibaba.com e a AliExpress.com. Os EUA alegam que a empresa baseada no território norte-americano que processa os seus fluxos financeiros comerciais, a AUS Merchant Services, violou a lei federal ao não impedir os comerciantes de importarem e venderem produtos ilegais nos EUA através daquelas plataformas.

A Alibaba admitiu, em acordo com o Departamento de Justiça, que entre Janeiro de 2016 e Dezembro de 2024 não impediu que cerca de 80 mil produtos fossem vendidos, alguns dos quais importados, em violação de várias leis federais.

Agentes de vários serviços federais, sem revelar identidade oficial, fizeram mais de 40 compras de farmacêuticos e maquinaria cuja importação para os EUA era ilegal, segundo um comunicado.

O chefe das investigações criminais da agência tributária (IRS, na sigla em inglês), Jarod Koopman, considerou que o acordo alcançado com a Alibaba “realça o compromisso da IRS para seguir o dinheiro e garantir que as empresa a operarem nos EUA comprem a lei federal”.

3 Jul 2026

O vazio na pintura e na estética chinesa

Por Sun Weiqi

Quando era criança, passava muitas tardes em casa da minha avó, diante de uma parede coberta de pinturas tradicionais chinesas, e havia nelas qualquer coisa que me inquietava profundamente: grandes extensões de papel permaneciam brancas, suspensas, intactas, como se o pintor tivesse interrompido o gesto antes de concluir a obra ou como se tivesse decidido abandonar metade do mundo ao silêncio. Na minha imaginação infantil, uma boa pintura deveria estar inteiramente preenchida, cada fragmento da superfície ocupado por uma montanha, uma árvore, uma ave, uma casa, uma figura humana ou qualquer sinal visível que justificasse a existência daquele espaço. O branco parecia-me falta, hesitação, incompletude.

A minha avó, que aprendera caligrafia e pintura desde os sete anos, nunca me respondeu com uma explicação longa, nem tentou converter a minha curiosidade de criança numa lição formal de estética. Pegava simplesmente no pincel, deixava cair uma gota de tinta preta sobre a água e observava comigo a forma como essa mancha se abria, se dissolvia, se espalhava lentamente, até já não ser ponto nem linha, mas uma respiração escura dentro da transparência. Depois dizia-me: “O que não se vê é o que respira na pintura. O vazio é o lugar onde a alma da obra mora.”

Durante muitos anos, guardei essa frase sem a compreender inteiramente. Hoje, quando estudo a estética chinesa e volto, pela memória, à parede da casa da minha avó, percebo que ela falava de uma das intuições mais profundas da arte chinesa: o vazio, ou kōng (空), ocupa o centro da experiência estética, porque abre a obra à circulação do sopro, da imaginação e do tempo. O espaço branco da pintura chinesa não corresponde a um intervalo morto, a uma zona abandonada ou a uma ausência de execução; pertence à própria estrutura espiritual da obra, como o silêncio pertence ao poema e como a pausa pertence à música.

Este texto nasce, por isso, de uma dupla experiência: por um lado, a reflexão sobre uma tradição estética antiga, atravessada pelo taoísmo, pela pintura de paisagem, pela caligrafia e por uma conceção muito particular da relação entre forma e invisível; por outro, a memória íntima de uma aprendizagem familiar, feita sem tratados, sem definições rígidas, sem a arrogância das palavras que querem possuir aquilo que apenas se pode contemplar. Escrevo sobre o vazio como quem regressa a uma casa, a uma parede, a uma tarde lenta, a uma avó que ensinava através do gesto e que sabia, talvez melhor do que muitos livros, que a pintura começa precisamente onde a tinta se retira.

Para compreender o vazio na pintura chinesa, é necessário abandonar a ideia de que a totalidade da obra coincide com aquilo que se oferece imediatamente ao olhar. Em muitas tradições pictóricas ocidentais, a superfície da tela tende a ser concebida como um campo a preencher: a moldura delimita um mundo, e o artista organiza dentro dela formas, volumes, cores, perspetivas, corpos e objetos, criando uma representação mais ou menos fechada da realidade. Na pintura chinesa de montanhas e águas, shān shuǐ huà (山水画), a lógica é outra: o vazio não encerra a obra, abre-a; não interrompe a paisagem, prolonga-a; não empobrece a composição, permite que ela respire para além dos limites materiais do papel.

Recordo-me de uma tarde em que a minha avó me mostrou uma pintura atribuída a um antigo mestre da dinastia Song. No canto inferior esquerdo, via-se apenas um pinheiro, desenhado com traços secos, firmes e contidos. O restante espaço permanecia branco, amplo, quase vertiginoso. Perguntei-lhe o que havia ali, apontando para aquela extensão sem tinta. Ela respondeu: “Névoa. Ar. O silêncio da montanha ao amanhecer. Se o pintor tivesse desenhado a névoa, a névoa desapareceria.” Essa resposta acompanhou-me durante anos, porque continha uma verdade difícil de apreender: há realidades que a representação excessiva destrói, há presenças que só sobrevivem quando a mão aceita deter-se.

O vazio, na pintura chinesa, constitui uma modalidade subtil de presença. Ele carrega o qì (气), o sopro vital que atravessa os seres, anima a paisagem e liga o visível ao invisível. Quando um pintor deixa uma área sem tinta, realiza uma escolha estética e espiritual, abrindo espaço para que a energia circule dentro da obra e para que o olhar do espectador participe na sua formação. Uma paisagem demasiado cheia torna-se imóvel, sufocada pelo excesso de informação; uma paisagem atravessada pelo vazio conserva o movimento secreto da água, do vento, da névoa, do tempo e da distância.

Vi essa lógica na prática quando a minha avó me ensinou a pintar bambus. Eu queria desenhar todas as folhas, todas as nervuras, todos os detalhes do caule, como se a fidelidade dependesse da acumulação minuciosa de traços. Ela corrigia-me com paciência: “Se pintares tudo, o bambu morre. Deixa espaço entre as folhas. Deixa o ar passar. O bambu vive também no vento que não consegues pintar.” Nesse momento, comecei a perceber que a pintura chinesa não procura copiar a aparência exterior das coisas, mas captar a sua respiração interna, a tensão entre presença e retirada, a forma como cada ser existe em relação com aquilo que o envolve.

Esta conceção encontra raízes profundas no pensamento taoísta. No Dao De Jing (道德经), Laozi afirma que a utilidade da roda depende do vazio do seu centro, a utilidade do vaso depende do espaço oco que pode receber, a utilidade da casa depende da abertura que permite habitar. A forma visível oferece contorno; o vazio oferece possibilidade. Aplicada à pintura, esta intuição significa que o branco do papel participa ativamente na construção do sentido, pois torna possível a respiração dos traços, a profundidade da paisagem e a liberdade do olhar. Sem o espaço vazio, a tinta perderia a sua ressonância; sem silêncio, a cor perderia a sua vibração.

O vazio, porém, ultrapassa a esfera da teoria estética e inscreve-se numa maneira de ver, de estar e de aceitar o mundo. Durante a adolescência, vivi durante algum tempo como se todo o espaço disponível tivesse de ser ocupado: música nos ouvidos, telemóvel na mão, conversas contínuas, tarefas sucessivas, uma espécie de medo da interrupção e da pausa. Quando olhava para uma pintura chinesa, o espaço branco parecia-me monótono, demasiado silencioso, quase pobre. Hoje, estando longe da China, em Portugal, longe da casa da minha avó e da parede onde aquelas pinturas repousavam, sinto falta precisamente desse branco que antes me parecia vazio; sinto falta de uma lentidão que acolhe, de uma montanha quase invisível, de uma névoa que não precisa de se explicar, de um espaço onde o pensamento possa assentar sem ser imediatamente substituído por ruído.

A pintura chinesa ensinou-me que o vazio pode ser um lugar de encontro. Diante de uma paisagem com grandes zonas brancas, o espectador não recebe uma imagem totalmente determinada; entra na obra, completa-a com a sua memória, com a sua solidão, com o seu próprio modo de sentir a distância. O branco torna-se uma zona de hospitalidade. Nele cabem a névoa vista pelo pintor, o silêncio imaginado pelo observador, a montanha que se ergue sem ser desenhada, o rio que corre fora do papel, o tempo que separa quem pintou de quem contempla. Assim, a obra atravessa os séculos porque conserva um espaço disponível para cada olhar.

A estética chinesa distingue-se precisamente por essa confiança na participação do observador. A pintura não impõe uma leitura única, nem oferece uma realidade totalmente fechada sobre si mesma; deixa zonas de indeterminação onde a imaginação pode mover-se, como alguém que caminha numa paisagem envolta em bruma e descobre, a cada passo, a sua própria forma de ver. Lembro-me de ter levado uma amiga portuguesa a ver as pinturas da minha avó. Ela deteve-se diante da pintura do pinheiro e comentou que parecia faltar alguma coisa. Sorri, porque me reconheci imediatamente naquela observação, a mesma que eu própria teria feito em criança. Respondi-lhe que talvez faltasse apenas o olhar dela, a sua memória, a sua presença diante do branco. A pintura esperava por isso.

Esse vazio estende-se a outras dimensões da cultura chinesa. Na caligrafia, a força de um carácter depende tanto da densidade da tinta como da distribuição dos espaços que o rodeiam; na música tradicional, o silêncio entre as notas permite que cada som se prolongue para dentro do ouvinte; na organização da casa, a sobriedade dos objetos cria uma atmosfera de repouso; na conversa, as pausas podem transmitir respeito, delicadeza ou pensamento. A cultura chinesa conhece, de modo profundo, o valor da suspensão. Falar menos pode significar escutar melhor; ocupar menos pode significar permitir mais; retirar pode ser uma forma de oferecer.

Esta relação com o vazio implica também uma ética. Num mundo habituado ao excesso, à velocidade e à acumulação, a estética chinesa recorda que a plenitude pode surgir da contenção e que a beleza nem sempre coincide com abundância. A pintura de paisagem, quando deixa metade do papel sem tinta, afirma uma confiança rara: a confiança de que o invisível participa na construção do real. O artista não precisa de controlar tudo, nem o espectador precisa de receber tudo pronto. Entre ambos existe uma zona de respiração, um intervalo sensível onde a obra continua a acontecer.

Há, portanto, uma sabedoria existencial no vazio. A vida humana, tal como a pintura, perde vitalidade quando todos os espaços são preenchidos por obrigações, ruídos, explicações, desejos e medos. Precisamos de margens interiores, de zonas brancas, de momentos sem função imediata, de silêncios onde as emoções possam decantar-se. A minha avó compreendia isto sem precisar de o formular como tese. Talvez por isso pintasse devagar, talvez por isso deixasse sempre espaço suficiente para que uma ave pudesse atravessar a paisagem sem ser desenhada, para que uma montanha pudesse permanecer escondida na névoa, para que a obra tivesse um lugar onde respirar.

Hoje, a parede da casa da minha avó continua a existir na minha memória com uma nitidez quase física. Já não olho para aquelas zonas brancas como quem encontra uma falha. Vejo nelas a névoa da montanha, o vento no pinheiro, o silêncio do amanhecer, a mão antiga do pintor, a voz baixa da minha avó e a minha própria transformação: a criança que queria preencher tudo deu lugar a uma mulher que aprendeu a reconhecer a intensidade do que permanece suspenso.

O vazio na pintura chinesa constitui uma forma de pensamento sensível, uma filosofia encarnada no gesto, uma maneira de compreender a relação entre mundo, olhar e interioridade. A sua força reside na capacidade de ensinar sem declarar, de abrir sem ocupar, de sugerir sem aprisionar. A lição da minha avó permanece comigo: aquilo que não se vê pode sustentar o que aparece; aquilo que se cala pode dar profundidade ao que é dito; aquilo que fica em branco pode guardar a respiração mais íntima da obra.

Quando observo uma pintura chinesa, vejo tinta, papel, montanha, água, memória, cultura e família. Vejo também a minha própria aprendizagem do silêncio. O espaço branco que em criança me parecia monótono tornou-se o lugar onde tudo se reúne sem se confundir: a paisagem, a avó, a China, a distância, o tempo e a minha forma de olhar. O vazio não equivale ao nada. O vazio é a morada invisível da respiração.

3 Jul 2026

Toi San | Projecto de casa de banho seleccionado para guia

O projecto de “Casa de Banho Ecológica ‘Pop-Out’ – Casa de Banho Pública de Toi San”, do atelier de arquitectura Urban Pratice, acaba de ser seleccionado para a primeira edição do “Guia CIALP para a Agenda 2030”, uma publicação do Conselho Internacional de Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP).

Segundo um comunicado do Urban Pratice, atelier situado em Macau e liderado pelo arquitecto Nuno Soares, a escolha deste projecto “consolida ainda mais a posição de Macau no mapa global da inovação em termos de design sustentável”.

O projecto de casa de banho “integra de forma harmoniosa a tecnologia ambiental e o design circular”, reflectindo “o compromisso da Urban Pratice na transformação de infra-estruturas cívicas”. Esta não é a primeira vez que este projecto é distinguido, tendo recebido o “Prémio Pioneiro de Arquitectura Verde” na sexta edição do Japan International Pioneer Design Award (IPDA).

O “Guia CIALP para a Agenda 2030” funciona, segundo a mesma nota, “como um roteiro arquitectónico seleccionado e alinhado com os objectivos humanitários globais”, sendo uma compilação de “projectos arquitectónicos inspiradores de todo o mundo lusófono”. Estes projectos destacam-se ainda por terem contribuído “activamente para os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas”.

Segundo a Urban Pratice, o projecto de casa de banho “aborda princípios fundamentais” que estão alinhados com alguns dos ODS definidos para a erradicação da pobreza e promoção do desenvolvimento global até 2030. São eles “Saúde e Bem-estar, Redução das Desigualdades, Cidades e Comunidades Sustentáveis e Consumo e Produção Responsáveis”, destaca-se na mesma nota.

O referido Guia foi lançado e apresentado publicamente na passada segunda-feira no Congresso Mundial de Arquitectos da União Internacional de Arquitectos 2026, realizado em Barcelona.

3 Jul 2026

Crime | Residente detido por apostas ilegais em jogos do Mundial

Um residente de Macau, de apelido Sou, foi detido em Taiwan por suspeitas de apostas ilegais em jogos de futebol. Segundo noticiou o website noticioso TVBS, de Taiwan, a polícia da região desmantelou uma rede criminosa ligada a apostas ilegais de futebol, e deteve oito pessoas de Taiwan, Hong Kong e Macau.

A mesma fonte realçou que o residente da RAEM tem o mesmo nome de um director do grupo junket Tak Chun. Porém, as autoridades ressalvaram não terem a certeza se o indivíduo pertenceria à rede criminosa e que seriam precisas investigações mais aprofundadas.

Os detidos alugaram, em meados do mês passado, um edifício em Tainan. Apesar de terem alegado que o motivo da viagem para o local seria turismo, as autoridades suspeitam que a razão seria montar um esquema de apostas ilegais com base nos jogos do Mundial de Futebol.

Na residência em Tainan foram descobertos dezenas de computadores, monitores e livros de contabilidade. O esquema envolveu apostas de mais de 10 mil milhões de dólares taiwaneses, ou seja, 2,5 mil milhões de patacas.

3 Jul 2026

PJ | Filho detido por auxiliar tentativa de suicídio do pai

Um residente de 42 anos foi detido por suspeitas de ter auxiliado o seu pai numa tentativa falhada de suicídio. O caso foi revelado ontem pela Polícia Judiciária (PJ) e o homem foi entregue ao Ministério Público (MP).

Segundo a PJ, o pai do detido sofre de uma doença crónica, depressão e mobilidade reduzida, e fez várias ameaças de tentativa de suicídio. A PJ não revelou há quanto tempo o idoso se encontra nestas condições, mas admitiu que o progenitor do detido vivia num “estado emocional persistentemente negativo” e que estava a ser acompanhado pelo Instituto de Acção Social (IAS).

A situação piorou na noite de terça-feira, quando o idoso sofreu uma queda em casa. Nessa mesma noite, quando o filho e a esposa chegaram à residência, o idoso repreendeu-os de forma “violenta”, o que gerou um “estado de grande agitação emocional”. O homem exigiu ainda ao filho que o auxiliasse a cometer suicídio.

Face ao pedido, o descendente foi à casa-de-banho, onde pegou numa embalagem de lixívia, que abriu, e entregou-a ao idoso. Este deu um golo, mas abortou a tentativa, quando começou a sentir dores na garganta. Face às dores, o idoso decidiu ainda pedir ajuda às autoridades. Actualmente encontra-se em situação estável e não corre perigo de vida.

No entanto, o filho foi detido e está indiciado pela prática do crime de “incitamento, ajuda ou propaganda ao suicídio”, que é punido com uma pena máxima de 5 anos, ou de 8 anos, se for considerado que a pessoa que se tentou matar era menor ou tinha a “capacidade de valoração sensivelmente diminuída”.

3 Jul 2026

Crime | Detido por desviar fundos para visto de residência em Portugal

Um residente foi detido depois de ter prometido arranjar um visto de residência em Portugal a um empresário do Interior da China. O dinheiro recebido pelo suspeito para tratar do processo terá sido utilizado para pagar dívidas

 

A Polícia Judiciária de Macau deteve um homem por alegadamente ter desviado 2,1 milhões de yuan em fundos pagos por um cliente do Interior da China para obter um visto de investimento em Portugal. De acordo com um comunicado publicado nos canais oficiais da PJ de Macau nas redes sociais, a investigação indicou que o suspeito utilizou as quantias transferidas pela vítima para custear dívidas que tinha.

No dia 25 de Junho, a PJ recebeu a queixa de um homem da China continental, que afirmou ter confiado a um residente de Macau o pedido de um visto de investimento para imigração para Portugal, suspeitando que as taxas pagas “tinham sido desviadas”.

As autoridades policiais do território adiantaram que o queixoso identificou o suspeito como responsável por uma empresa local de comunicação social em Macau.

“Em Julho de 2025, durante o encontro entre ambos, o suspeito alegadamente afirmou que poderia obter um Visto de Imigração para Empresários D2 para Portugal mediante o pagamento de 3 milhões de yuan, comprometendo-se a concluir o processo até Fevereiro de 2026”, informou a PJ.

O visto D2, também conhecido como visto de empreendedor, é uma autorização de residência para cidadãos de fora da União Europeia que desejam abrir, gerir ou investir numa empresa, ou trabalhar como profissional autónomo/freelancer em Portugal. “Posteriormente, foi celebrado um contrato de prestação de serviços entre as duas partes”, salientou o comunicado da PJ.

Adeus, dinheiro

Entre Setembro e Outubro de 2025, a vítima transferiu um total de 2,5 milhões de yuan para uma conta bancária designada na China continental, conforme instruído pelo suspeito. Os restantes 500.000 yuan (cerca de 64 mil euros) só seriam pagos após a conclusão do pedido de visto.

“No entanto, em Março de 2026, o visto ainda não tinha sido processado, tendo o suspeito adiado repetidamente o procedimento sob vários pretextos”, referiu a PJ.

Desconfiando da situação, a vítima contactou a agência onde o suspeito trabalhava, responsável pelo tratamento da documentação de imigração e descobriu que o homem apenas efectuara um pagamento inicial de 41.000 euros em Outubro de 2025 e não havia liquidado quaisquer prestações subsequentes.

A PJ confirmou que o suspeito contratara efectivamente uma “agência de imigração para investimento legítima” para tratar do pedido da vítima e que a documentação do requerente cumpria os requisitos regulamentares exigidos.

“No entanto, após o pagamento da primeira prestação, o suspeito alegadamente comunicou à agência que a vítima ainda não havia pago as taxas de processamento, utilizando esse pretexto para solicitar repetidos adiamentos no andamento do processo”, explicou ainda a PJ de Macau.

A polícia adiantou ainda que o suspeito foi presente ao Ministério Público para continuação da investigação, sob suspeita da prática do crime de abuso de confiança agravado envolvendo quantia elevada, um crime punível com pena de prisão até cinco anos ou multa.

3 Jul 2026

Metro Ligeiro | Junho com média mais baixa de passageiros

Em Junho, uma média diária de cerca de 20.400 pessoas apanharam o Metro Ligeiro, o registo mensal mais baixo do ano, de acordo com os números oficiais da empresa. Para encontrar paralelo com este registo é preciso recuar a Julho do ano passado, quando a média foi de 20.300 passageiros por dia.

Apesar do número mais baixo, o número de utilizadores de Junho deste ano é superior ao de Junho do ano passado quando houve uma média de 19.800 passageiros por dia. Desde Abril deste ano, quando 29.400 pessoas utilizaram o transporte, que o número de utentes está em quebra, dado que em Maio houve uma média diária de 26.400 passageiros por dia.

Em relação à primeira metade do ano foi registada uma média aproximada de 28.067 pessoas por dia, um aumento de quase mais 4 mil passageiro diários, em comparação com os primeiros seis meses de 2025. Nessa primeira metade de ano a média diária de passageiros foi de 24.550.

3 Jul 2026

Jardim das Artes | Plataforma pedonal será construída por fases

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) anunciou que vai acrescentar uma plataforma pedonal no Jardim das Artes, para que os peões não tenham de contornar o perímetro do parque, aumentando assim a conveniência na circulação. O objectivo desta plataforma foi “facilitar a deslocação pedonal entre ambos os extremos do NAPE”.

“Com vista a optimizar ainda mais o ambiente de travessia pedonal do Jardim das Artes e das suas imediações, o IAM está a promover ordenadamente a obra de optimização do acesso pedonal do Jardim das Artes, com a construção de passeios com tijolos antiderrapantes ou de calçada portuguesa, e ao mesmo tempo a demolição de algumas vedações do parque, permitindo assim elevar a acessibilidade e aperfeiçoar o ambiente pedonal livre de barreiras arquitectónicas”, foi justificado.

A obra irá aumentar a área verde em cerca de 1100 metros quadrados e será realizada em quatro fases, com parte do parque a ficar vedado durante a execução.

3 Jul 2026

Intercensos | DSEC reúne com associações antes de recolha de dados

A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) anunciou ontem, em comunicado, que os Intercensos 2026 irão decorrer entre os dias 25 de Julho e 15 de Agosto deste ano, baseando-se na recolha de informações dos agregados familiares.

Neste contexto, dirigentes da DSEC reuniram com várias associações locais, tendo sido apresentado o “plano de trabalhos dos Intercensos 2026”, o serviço de preenchimento do questionário disponível na plataforma “Conta Única de Macau” e ainda “uma série de medidas de prevenção de burla”, é descrito.

A DSEC espera que estas associações, nomeadamente a Federação das Associações dos Operários de Macau ou a União Geral das Associações dos Moradores de Macau, entre outras, possam colaborar no trabalho dos Intercensos.

Segundo a mesma nota, os dirigentes associativos “referiram que irão ajudar a divulgar informações aos seus associados e à comunidade”, além de “incentivar os cidadãos a colaborar activamente nos trabalhos estatísticos”.

3 Jul 2026

Wang Yi apela a Estados Unidos e Irão para manterem negociações

O chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, defendeu a manutenção do impulso negocial entre Estados Unidos e Irão, apesar da fragilidade do actual cessar-fogo, numa reunião, em Pequim, com o homólogo saudita, Faisal bin Farhan Al Saud.

Segundo um comunicado divulgado pelo ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang afirmou na terça-feira que a China “vê com bons olhos” o início das negociações entre Washington e Teerão.

O chefe da diplomacia chinesa sustentou que os acontecimentos demonstraram, uma vez mais, que “competir pela força não traz paz nem estabilidade” e que o diálogo é a única via para evitar nova escalada. Wang afirmou que, “embora o actual cessar-fogo continue frágil, é melhor dialogar do que combater, e o diálogo é preferível ao confronto”, apelando à preservação e aplicação do memorando de entendimento alcançado entre os Estados Unidos e o Irão.

“O essencial é manter e aplicar devidamente o memorando de entendimento, preservar o impulso das negociações, superar as dificuldades e interferências e esforçar-se por alcançar, o mais rapidamente possível, um acordo global aceite pelos Estados Unidos e pelo Irão, apoiado pelos países da região e bem acolhido pela comunidade internacional”, acrescentou.

Wang afirmou ainda que a China está disponível para trabalhar com a Arábia Saudita na redução das tensões e para contribuir para uma “paz e estabilidade duradouras” no Médio Oriente, além de apoiar um papel mais relevante de Riade nos assuntos internacionais e regionais.

Regresso à normalidade

Faisal bin Farhan afirmou que a Arábia Saudita aprecia o “papel construtivo” desempenhado pela China na promoção da redução das tensões no Médio Oriente e espera cooperar com Pequim para favorecer o regresso da paz e da estabilidade à região “o mais rapidamente possível”, segundo o mesmo comunicado. O ministro saudita acrescentou que Riade atribui grande importância às relações com a China e pretende aprofundar a cooperação bilateral.

A reunião realizou-se após a recente cessação das hostilidades entre o Irão, os Estados Unidos e Israel, que permitiu aliviar as tensões na região e reabrir parcialmente o trânsito no estreito de Ormuz, uma rota estratégica para o abastecimento energético mundial.

A China, que condenou repetidamente os ataques contra o Irão, apelou igualmente ao respeito pela soberania e segurança dos países do Golfo, com os quais mantém estreitas relações políticas e comerciais. Pequim tem defendido de forma consistente uma solução negociada para o conflito, reclamando um cessar-fogo e insistindo na necessidade de restabelecer a livre navegação no estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 45 por cento das importações chinesas de petróleo e gás.

2 Jul 2026

Licença de maternidade | Entrada em vigor antecipada

A actualização da licença de maternidade para 90 dias, estabelecida pela alteração à lei das relações de trabalho, passará a vigorar no dia seguinte à data da publicação do diploma no Boletim Oficial (BO), em vez de no dia 1 de Janeiro do próximo ano, como estava previsto anteriormente.

Segundo noticiou o jornal Ou Mun, a antecipação ocorre para que as grávidas possam gozar mais rapidamente do benefício, explicou a deputada Wong Kit Cheng, que preside à 1ª Comissão permanente da Assembleia Legislativa (AL).

A comissão, que analisa na especialidade as alterações à lei laboral, reuniu na terça-feira. A proposta que está em cima da mesa visa que os dias de licença passem dos actuais 70 para 90, sendo que 60 destes têm de ser gozados imediatamente após o parto. Os restantes 30 podem ser gozados quando a mulher quiser, antes ou depois de dar à luz.

A proposta de lei sugere também um subsídio adicional a empregadores à licença de maternidade, de 20 dias, combinando-se os actuais 14 dias após a entrada em vigor da proposta de lei. A partir de 1 de Janeiro de 2027, o Governo passará a subsidiar esses 20 dias, enquanto os restantes 14 são pagos pelos empregadores.

2 Jul 2026

Função Pública | ATFPM em Seul para reunião de organização internacional

A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) está desde ontem na capital da Coreia do Sul para participar na reunião anual sub-regional da Ásia Oriental da Public Services International (PSI), organização sindical global que congrega associações de trabalhadores da função pública de cerca de 160 países.

Segundo um comunicado divulgado ontem pela ATFPM, “durante os dois dias de trabalhos, estão a ser abordadas questões como a precarização dos direitos laborais, a qualidade e as condições nos locais de trabalho, os fenómenos de migração e emigração de trabalhadores, bem como a segurança no trabalho”.

Durante a reunião, Pereira Coutinho afirmou que em Macau “os direitos dos trabalhadores da função pública estão devidamente protegidos pela legislação da RAEM”, e que a ATFPM “mantém um diálogo profícuo com o Governo nas matérias de alteração legislativa sobre os direitos e deveres dos funcionários públicos.” Já Rita Santos destacou “o grande aperfeiçoamento das leis que defendem os direitos das mulheres em Macau após o estabelecimento da RAEM”.

2 Jul 2026

Segurança | Queda de avião poderá reforçar controlo sobre aviação

Analistas consideram que o embate de um avião ligeiro contra a Torre Citic, em Pequim, expôs uma rara falha de segurança na capital chinesa e poderá desencadear purgas e reforçar o controlo sobre a aviação privada.

O acidente ocorreu na semana passada, quando uma aeronave de pequena dimensão embateu na fachada leste do edifício mais alto de Pequim, a Torre Citic, também conhecida como “China Zun”, provocando a morte do piloto e ferimentos em 13 pessoas.

O incidente foi rapidamente envolvido por um forte dispositivo de segurança e por um apertado controlo da informação. Os funcionários do conglomerado estatal Citic receberam instruções para não falar sobre o acidente, enquanto as autoridades impuseram um perímetro policial em redor do edifício e limitaram a cobertura do caso nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais.

O voo levanta questões delicadas para as autoridades responsáveis pela segurança da capital, uma das cidades mais vigiadas do mundo, onde o Partido Comunista Chinês mantém uma política de tolerância zero em relação a incidentes que possam afectar a estabilidade.

Citado pelo Financial Times, o professor de Ciência Política da Claremont McKenna College, Minxin Pei, classificou o episódio como “sem precedentes”, considerando que revela “uma enorme falha de segurança” e poderá ter consequências para os responsáveis pelo dispositivo de proteção da capital.

Outro especialista ouvido pelo jornal, James Char, da S. Rajaratnam School of International Studies, em Singapura, afirmou que o incidente terá impacto político por poder transmitir aos adversários da China a imagem de vulnerabilidades na defesa de Pequim, embora tenha salientado que as autoridades dispunham de muito pouco tempo para reagir.

2 Jul 2026

PCC | Xi sugere modelo chinês e sublinha que a China é “construtora da paz”

No discurso que marcou o 105º aniversário do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping afirmou que a China conseguiu em poucas décadas o que os países desenvolvidos demoraram séculos a atingir, exaltando o modelo chinês como exemplo a seguir. O Presidente defendeu ainda que o PCC esteve sempre do lado certo da história

 

O Presidente chinês, Xi Jinping, propôs ontem a industrialização conseguida na China como novo modelo de progresso para os países em desenvolvimento. Xi, que cumpre o 14.º ano no poder, afirmou que a China alcançou “em poucas décadas” aquilo que os países desenvolvidos demoraram “séculos” a conseguir.

“Defendemos a construção de uma comunidade com um futuro partilhado para a humanidade, oferecendo a sabedoria, as soluções e a força da China para enfrentar os grandes desafios da humanidade”, afirmou Xi, durante a cerimónia que assinalou o 105º aniversário da fundação do Partido Comunista Chinês (PCC), no Grande Palácio do Povo, em Pequim.

A China, que há muito contesta a predominância dos Estados Unidos na ordem internacional, tem defendido que não pretende substituir o sistema internacional, mas reformá-lo de forma a reflectir melhor os interesses dos países em desenvolvimento.

No discurso, o Presidente chinês afirmou que o mundo entrou numa nova fase de turbulência e transformação, colocando a humanidade “numa encruzilhada”, e reiterou o compromisso de promover um “novo tipo de relações internacionais” para impulsionar a paz e o desenvolvimento mundiais.

As declarações retomaram vários dos temas centrais do discurso proferido por Xi no centenário do PCC, em 2021, incluindo a necessidade de reforçar as capacidades militares da China e de concretizar a “reunificação” com Taiwan.

O líder chinês defendeu ainda que “resolver a questão de Taiwan” e alcançar a “reunificação” da China constitui uma “tarefa histórica” do Partido Comunista Chinês. Além disso, apelou ao aprofundamento dos intercâmbios e da integração entre as duas margens do estreito de Taiwan e prometeu combater de forma “firme” as “forças separatistas” favoráveis à “independência de Taiwan” e a “ingerência externa”, numa referência indirecta aos Estados Unidos.

Eliminar vírus internos

O líder chinês defendeu a aceleração do processo de modernização das Forças Armadas para atingir “padrões de nível mundial”, reiterando, ao mesmo tempo, a necessidade de preservar a liderança absoluta do Partido Comunista sobre os militares. Nos últimos anos, vários generais de alta patente foram afastados no âmbito da campanha anticorrupção promovida por Xi, que analistas consideram também servir para reforçar a lealdade das Forças Armadas à liderança chinesa.

Xi Jinping afirmou que o PCC deve “eliminar todos os vírus” que corroem o “organismo saudável” e a pureza do partido, para que “nunca mude de natureza nem de cor”, numa passagem dedicada à disciplina interna. A mensagem surge após vários anos de campanha anticorrupção e de purgas que atingiram altos responsáveis civis e militares, incluindo antigos dirigentes do Exército de Libertação Popular e membros da cúpula do partido.

Numa nota mais positiva, o secretário-geral do PCC afirmou que a China é “construtora da paz mundial”, “contribuinte para o desenvolvimento global” e “defensora da ordem internacional”. O líder chinês argumentou que ao longo de 105 anos, o PCC “esteve sempre do lado certo da História e do progresso da civilização humana” e sustentou que a “modernização chinesa” ampliou as vias de desenvolvimento para os países do Sul Global.

2 Jul 2026

China | Regras duras para investimentos no estrangeiro devido a segurança nacional

A China reforçou ontem o controlo sobre os investimentos no estrangeiro, com a entrada em vigor de novas regras destinadas a salvaguardar a “segurança nacional” em sectores considerados sensíveis, num contexto de rivalidade tecnológica com os Estados Unidos.

As novas disposições, anunciadas inicialmente em 1 de Junho, conferem às autoridades um quadro jurídico mais abrangente para orientar e controlar os fluxos de capitais e de trabalhadores qualificados da China para o exterior.

Pequim considera áreas como a inteligência artificial (IA), os semicondutores e as tecnologias verdes fundamentais do ponto de vista económico e estratégico, procurando acelerar o seu desenvolvimento no país. Em simultâneo, as medidas visam “melhorar a qualidade e o nível dos investimentos no exterior”, segundo o regulamento divulgado pelo Governo chinês.

Os investimentos internacionais deverão respeitar o conceito de “segurança nacional global”, procurando simultaneamente “equilibrar as considerações nacionais e internacionais”, refere o documento.

Na prática, o novo quadro permite ao Governo submeter a escrutínio investimentos ou transferências susceptíveis de afectar a “segurança nacional”, numa altura em que Pequim mantém uma postura cautelosa em relação às transações transfronteiriças.

Em Abril, o principal organismo de planeamento económico da China bloqueou a tentativa da empresa norte-americana Meta, proprietária do Facebook, de adquirir a ‘startup’ de inteligência artificial Manus, criada por uma empresa fundada na China, apesar de esta estar actualmente sediada em Singapura.

Ao abrigo das novas regras, as restrições às transações internacionais deixam de abranger apenas a transferência de bens e dados, passando também a incluir a exportação de serviços, como o envio de especialistas técnicos para o estrangeiro ou a realização de acções de formação fora da China.

Margem larga

As medidas suscitaram preocupações entre alguns investidores, que receiam que o reforço do controlo limite a capacidade do sector tecnológico chinês de aceder aos mercados internacionais.

A Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos–China (US-China Economic and Security Review Commission) considerou, esta semana, nas redes sociais, que o endurecimento das regras “reforça uma tendência” que acompanha “há vários meses”.

Em Maio, a comissão bipartidária norte-americana alertou que, “como acontece frequentemente com as leis chinesas relacionadas com a segurança nacional”, as autoridades dispõem de uma ampla margem para determinar o que constitui uma infração, aumentando os riscos para as empresas estrangeiras estabelecidas na China.

2 Jul 2026

Sul do país prepara-se para o primeiro tufão do ano. Macau com sinal 3 esta sexta-feira

O Centro Meteorológico Nacional da China emitiu ontem o primeiro aviso de tufão do ano, prevendo que o fenómeno atinja as províncias de Hainan e Guangxi na sexta-feira e sábado, respectivamente. Em Macau, o sinal 3 de tempestade tropical será içado entre a madrugada e manhã desta sexta-feira, 3. O sinal 1 de tempestade tropical foi, entretanto, içado pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG).

Segundo informação disponibilizada pelos SMG, prevê-se que “a depressão tropical localizada na parte central do Mar do Sul da China se intensifique gradualmente nos próximos dias”, deslocando-se “em direcção à Ilha de Hainan e Golfo de Tonquim”. Assim, esta sexta-feira os SMG esperam que o “vento se intensifique gradualmente em Macau, podendo atingir o nível 6, com aguaceiros frequentes”. Podem ainda “haver ventos fortes no final da semana, acompanhados de aguaceiros fortes e trovoadas”.

Os SMG explicam ainda que “a depressão tropical está a uma certa distância de Macau”, além de que “a [possibilidade de] ocorrência de ‘storm surge’ [inundações] é baixa”. Tal deve-se ao facto de, nos últimos dias, a região não ter estado “num período de maré astronómica”, embora a população deva “prestar atenção às inundações provocadas pelas chuvas torrenciais”.

Entretanto, o Centro Meteorológico Nacional da China indicou esta quarta-feira que a precipitação em algumas zonas de Guangxi e da ilha de Hainan poderá aproximar-se de valores recorde para esta época do ano, apelando à adoção antecipada de medidas de prevenção.

Após atingir inicialmente a costa entre o leste de Hainan e o oeste da província de Guangdong, amanhã, o tufão deverá atravessar a ilha e seguir para o golfo de Beibu, onde voltará a tocar terra, desta vez na costa de Guangxi, no sábado, enfraquecendo gradualmente depois. Segundo as previsões, são esperadas chuvas muito intensas nas províncias de Hainan, Guangxi, Yunnan, Guangdong, Guizhou e Hunan, com precipitação extremamente forte em alguns locais.

Os meteorologistas alertaram em particular para Guangxi, onde a chuva persistente dos últimos dias provocou uma elevada acumulação de água, aumentando o risco de inundações e outros desastres.

2 Jul 2026

O Silêncio que Ilumina: o verdadeiro sentido do Chan (禅) na cultura chinesa

Por Guo Kehang

Introdução

Quando se fala de Chan (禅, chán) no contexto da cultura chinesa, é comum procurar nele uma utilidade imediata: uma técnica para reduzir a ansiedade, uma filosofia de equilíbrio, um método de aperfeiçoamento individual ou uma forma de serenidade adaptável à vida moderna. Essa expectativa revela, desde logo, a dificuldade contemporânea de compreender uma tradição que não nasceu para obedecer à lógica da eficácia, da produtividade ou da aplicação prática. O Chan resiste à tentação de se converter em instrumento. A sua força reside precisamente nessa resistência silenciosa: não promete resultados visíveis, não oferece receitas rápidas, não transforma a existência num problema técnico à espera de solução.

Na tradição chinesa, o Chan aproxima-se de uma disposição interior, de uma forma de atenção ao mundo, de uma consciência que aprende a permanecer diante da complexidade da vida sem a reduzir imediatamente a explicações. Ele não exige a eliminação da dúvida, da dor ou da contradição; propõe antes uma relação mais profunda com aquilo que, na experiência humana, permanece instável, incompleto e difícil de nomear. Talvez por isso tenha atravessado séculos sem perder a sua vitalidade: a sua permanência não depende de respostas definitivas, mas da capacidade de alterar, de modo quase impercetível, a forma como cada indivíduo se coloca perante as perguntas fundamentais da existência.

Ao longo da história chinesa, o Chan ultrapassou o espaço estritamente religioso e inscreveu-se numa sensibilidade cultural mais ampla. A sua presença pode ser encontrada nos mosteiros e nos textos budistas, mas também no chá bebido lentamente, na contemplação das montanhas, na caligrafia executada sem pressa, na escuta da chuva, no silêncio que se instala entre duas pessoas que já não precisam de falar para se compreenderem. O Chan tornou-se, assim, uma arte discreta de habitar o mundo: uma forma de presença, de contenção e de lucidez.

A importância daquilo que escapa à utilidade

A sociedade contemporânea tende a avaliar quase tudo a partir da utilidade. O conhecimento deve gerar emprego, as técnicas devem resolver problemas, o tempo deve produzir resultados, e até o repouso é frequentemente justificado como estratégia para aumentar a produtividade futura. Nesse horizonte, o Chan surge como uma espécie de contracorrente silenciosa, pois recorda que certas dimensões essenciais da vida humana não se deixam medir por critérios de eficiência.

Na tradição chan, aquilo que parece inútil pode sustentar o espírito com mais profundidade do que aquilo que se apresenta como imediatamente funcional. Uma árvore antiga, uma pedra no jardim, um poema breve, uma chávena de chá, uma respiração observada com atenção: nada disto produz, no sentido económico do termo, e ainda assim tudo isto pode devolver ao ser humano uma relação mais inteira consigo mesmo. O inútil, neste contexto, não significa ausência de valor; significa libertação em relação à obsessão pelo proveito.

Podemos pensar numa empresa para compreender esta lógica de modo simples. Os funcionários executam tarefas, os gestores organizam processos, os departamentos produzem resultados visíveis. O diretor-presidente, observado de fora, pode parecer alguém que intervém pouco na execução concreta do trabalho diário. Porém, a sua função consiste em dar orientação, identidade e sentido ao conjunto. De forma semelhante, no ser humano, o conhecimento executa, os métodos organizam, mas a sabedoria interior orienta.

O Chan ocupa esse lugar silencioso da orientação profunda. Ele não retira a dor do mundo, nem transforma a vida numa superfície lisa, pacificada e sem conflito. Atua antes sobre a forma como a dor se instala dentro de nós, sobre o modo como nos prendemos aos acontecimentos, às perdas, às expectativas e às imagens que construímos de nós próprios. A dificuldade permanece, mas deixa de dominar inteiramente a consciência; o sofrimento existe, mas perde parte do seu poder de nos aprisionar.

Talvez a sabedoria chinesa mais profunda tenha sido sempre transmitida por vias subtis: gestos, atmosferas, pausas, rituais domésticos, modos de servir o chá, maneiras de olhar a paisagem ou de permanecer em silêncio perante o que ainda não pode ser compreendido. O Chan pertence a essa linhagem de conhecimentos que não gritam, não se impõem e não procuram convencer; aproximam-se lentamente, como a luz que entra numa sala antes de alguém reparar nela.

2. O que a linguagem não consegue possuir

A tradição chan resume frequentemente a sua essência através de três formulações fundamentais: aquilo que não se pode dizer, aquilo que não é necessário dizer e aquilo que não se deve dizer. À primeira vista, estas ideias parecem negar a linguagem; na verdade, revelam uma consciência muito fina dos seus limites.

A primeira dimensão diz respeito ao indizível. O Chan procura um despertar interior que ultrapassa a linguagem comum, porque a experiência viva, quando é fixada em palavras, perde parte da sua mobilidade original. Como afirma o Laozi (老子), “o Caminho que pode ser narrado não é o Caminho eterno” — 道可道,非常道. As palavras organizam o mundo, permitem comunicar, ensinar e preservar a memória; ao mesmo tempo, delimitam, simplificam e, por vezes, encerram aquilo que ainda deveria permanecer aberto. A experiência chan é fluida, direta e difícil de aprisionar em conceitos estáveis.

A segunda dimensão refere-se à desnecessidade da explicação. Um dos princípios centrais do Chan afirma:

“不立文字,直指人心,见性成佛”
Bù lì wénzì, zhí zhǐ rénxīn, jiànxìng chéngfó

A expressão pode ser traduzida como: “sem assentar nas palavras escritas, apontar diretamente para o coração humano, ver a própria natureza e tornar-se Buda”. O despertar, segundo esta perspetiva, não nasce apenas do estudo, da acumulação de doutrinas ou da análise racional. Surge da experiência direta, da atenção ao instante, da perceção súbita daquilo que sempre esteve presente e, contudo, permanecia obscurecido pela agitação mental.

A terceira dimensão prende-se com a reserva. Certas compreensões perdem autenticidade quando são expostas de forma demasiado rápida, demasiado lógica ou demasiado explicativa. Há experiências que amadurecem apenas na interioridade, como frutos que precisam de silêncio para ganhar sabor. No Chan, algumas verdades só se tornam reais quando atravessadas pela prática, pela observação de si e pela convivência paciente com o tempo. A palavra, nesses casos, chega sempre depois; descreve as margens, mas raramente alcança o centro.

3. O Chan na vida quotidiana chinesa

Quando era criança, imaginava que o Chan pertencia apenas aos templos budistas, aos monges das montanhas ou aos antigos mestres sentados em meditação. Parecia-me uma realidade distante da vida comum, envolta numa espécie de solenidade religiosa e inacessível. Com o passar dos anos, comecei a perceber que muitos comportamentos tradicionais chineses guardam uma sabedoria chan implícita, mesmo quando ninguém lhes dá esse nome.

Recordo-me de que, durante conflitos familiares, a minha avó raramente discutia de forma direta. Em vez de responder imediatamente, preparava chá em silêncio, colocava as chávenas sobre a mesa e deixava que o ambiente se reorganizasse pouco a pouco. Na altura, essa atitude parecia-me evasiva ou difícil de compreender. Hoje percebo que havia ali uma lógica profundamente chinesa: certas emoções, quando confrontadas com violência verbal, tornam-se mais turvas; quando recebem tempo, assentam lentamente, como a lama suspensa na água depois de a corrente acalmar.

O Chan manifesta-se muitas vezes nesses gestos discretos da vida quotidiana: no hábito de contemplar a chuva sem procurar uma conclusão, no prazer de beber chá sem pressa, na caligrafia realizada como extensão da respiração, na observação das montanhas e da água, na capacidade de permanecer quieto sem transformar o silêncio em desconforto. A sua presença raramente assume a forma de uma declaração; aparece antes como uma tonalidade, uma maneira de estar, um ritmo interior.

Esta dimensão distingue o Chan chinês de muitas imagens exotizadas que circulam no Ocidente. Reduzi-lo a uma estética minimalista, a uma técnica de meditação ou a uma decoração espiritual empobrece a sua espessura cultural. O Chan está ligado à forma chinesa de sentir o tempo, de compreender a relação entre quietude e movimento, de aceitar a impermanência das coisas e de reconhecer que o mundo não precisa de ser inteiramente dominado pela explicação para ser profundamente vivido.

4. Os gong’an (公案): histórias que abrem fendas na razão

Embora valorize o silêncio, a tradição chan recorreu frequentemente a pequenas histórias conhecidas como gong’an (公案). Estas narrativas não pretendem transmitir uma moral simples nem conduzir o discípulo a uma resposta lógica. Funcionam antes como golpes breves na rigidez do pensamento, como fendas abertas no hábito de compreender tudo através da razão discursiva.

Um exemplo clássico conta a história de um jovem monge que interrogava incessantemente o seu mestre. A cada pergunta, o mestre respondia apenas: “Não sei.” A repetição dessa resposta irritava o discípulo, habituado a procurar ensinamentos claros, fórmulas estáveis e explicações capazes de organizar a sua inquietação. Um dia, enquanto remexia sozinho as cinzas do fogão, viu uma pequena chama escondida entre as brasas. Nesse instante, compreendeu algo que nenhuma resposta anterior poderia ter transmitido e disse:

“深深拨,有些子;平生事,只如此。”
“Mexendo fundo, encontra-se algo; os assuntos da vida são apenas assim.”

A força desta história não está na possibilidade de descobrir uma interpretação correta. Cada pessoa compreende um gong’an a partir da sua própria experiência, do seu grau de maturidade, da sua dor, da sua atenção e da sua disponibilidade interior. A sabedoria, no Chan, não se impõe de fora para dentro; desperta quando a consciência se torna capaz de reconhecer, num acontecimento mínimo, uma verdade que já a habitava de forma obscura.

Os gong’an ensinam precisamente porque recusam ensinar de modo convencional. Interrompem a expectativa de sentido imediato, deslocam a mente do terreno seguro da explicação e obrigam o indivíduo a encontrar, dentro de si, uma outra forma de compreensão. Por isso, continuam a fascinar: parecem pequenos enigmas, mas atuam como espelhos.

5. O Chan e a vida moderna

O Chan mantém uma pertinência particular no mundo contemporâneo, marcado pela velocidade, pelo excesso de informação, pela ansiedade permanente e pela dispersão da atenção. Vivemos rodeados de estímulos, notificações, imagens, opiniões e exigências de desempenho. A consciência torna-se fragmentada, sempre chamada para fora de si, sempre ocupada com o próximo objetivo, o próximo receio, a próxima comparação.

Neste contexto, o Chan convida a recuperar uma relação mais silenciosa com a própria interioridade. Observar os pensamentos sem se confundir inteiramente com eles, aceitar a solidão sem a transformar em ameaça, libertar-se da fixação obsessiva no passado e no futuro, desenvolver uma clareza que não depende da acumulação de respostas: estes gestos tornam-se formas de resistência íntima perante uma época que frequentemente confunde movimento com sentido.

A paz, no Chan, não resulta da ausência de problemas. Nasce de uma alteração profunda na relação com eles. O mundo continua instável, as perdas continuam possíveis, o sofrimento continua a visitar a vida humana; contudo, a consciência aprende a não se desintegrar perante cada mudança. A serenidade chan não é anestesia, fuga ou indiferença. É uma presença lúcida no interior da impermanência.

Por essa razão, o “Buda” do Chan pode ser compreendido para além da figura religiosa exterior. Representa uma possibilidade de despertar inscrita na própria vida humana: a capacidade de ver com mais clareza, de permanecer com mais inteireza, de reconhecer a natureza transitória dos fenómenos sem transformar essa transitoriedade em desespero. Tornar-se Buda, neste sentido, significa regressar à própria natureza antes que ela seja obscurecida pelo medo, pelo desejo, pela comparação e pela agitação.

Conclusão

O Chan (禅) representa, na cultura chinesa, uma forma particular de compreender a existência: silenciosa, intuitiva, interior e profundamente ligada à experiência direta da vida. A sua importância não reside numa doutrina fechada, numa técnica de meditação ou numa filosofia abstrata, mas na maneira como ensina a olhar, a esperar, a escutar e a habitar o mundo com maior lucidez.

Ele não promete eliminar o sofrimento humano nem oferecer respostas prontas para as contradições da existência. Ensina antes a transformar a relação com a dor, com o tempo, com o silêncio e com a própria consciência. O seu ensinamento mais profundo talvez seja este: a claridade não surge sempre como revelação súbita ou palavra definitiva; por vezes, nasce lentamente, no espaço entre dois pensamentos, no intervalo entre duas respirações, na chama pequena que permanece escondida sob as cinzas.

Na cultura chinesa, o Chan continua a iluminar precisamente porque não se exibe. Vive nos templos e nos textos, mas também na chávena de chá, na montanha distante, na mão que escreve um carácter com atenção, na avó que escolhe o silêncio para pacificar a casa. O seu verdadeiro sentido talvez esteja aí: numa sabedoria que não precisa de levantar a voz para transformar a forma como o ser humano atravessa o mundo.

2 Jul 2026

Comédia | Wynn Palace apresenta dupla Yue Yunpeng e Sun Yue

Decorre no dia 1 de Agosto um espectáculo de “stand-up comedy” da dupla Yue Yunpeng e Sun Yue no Wynn Palace Grand Theatre, no Cotai, a partir das 20h. Segundo um comunicado do Wynn Palace, trata-se de um regresso a Macau após cinco anos, “numa actuação muito aguardada”.

“Aclamados pelo seu estilo cómico distinto e pela química impecável em palco, a dupla irá apresentar um espectáculo inesquecível, repleto de risos”, numa noite que promete ser “cativante, marcada por uma interacção animada e excelência cómica”.

Yue Yunpeng é também conhecido como “Xiao Yueyue” e juntou-se ao Deyun Society em 2004. “Com uma actuação cénica distinta e um humor característico, conquistou os corações do público por todo o país”. O artista é conhecido pelas actuações “Song of the Fifth Ring” e “I Can’t Stand It”, tendo participado em diversas edições da “Gala do Festival da Primavera” da estação televisiva chinesa CCTV.

Actualmente Yue Yunpeng é tido como “um dos comediantes mais populares no panorama da comédia stand-up chinesa”. Os bilhetes já estão disponíveis, com preços a partir de 888 patacas, na bilheteira online da Wynn.

2 Jul 2026

Julho repleto de eventos, de exposições, desporto, passando pelo design e caligrafia

O Instituto Cultural (IC) levantou o véu sobre o que tem agendado para Julho, com uma programação multifacetada, variando entre pintura, design, voleibol, entre outras propostas.

Um dos destaques será uma exposição sobre o trabalho do pintor Mio Pang Fei, já falecido, intitulada “Contemplações Oriente-Ocidente: Retrospectiva de Mio Pang Fei”. Segundo um comunicado do IC, esta mostra “irá estar patente em breve”, sem que tenha sido mencionado ainda o local, tal como a exposição “sobre o 1º Grupo de Bens Móveis Classificados de Macau”, outra iniciativa agendada pelo IC para este Verão.

Mio Pang Fei nasceu em Xangai, em 1936, mas foi em Macau que viveu praticamente toda a vida, tendo-se firmado como um dos mais conceituados artistas plásticos e uma referência da arte contemporânea chinesa.
Ainda na China interessou-se pela arte contemporânea ocidental, à época tida como anti-revolucionária. No período da Revolução Cultural dedicou-se à caligrafia e arte tradicional chinesa, tendo sido condenado a trabalhos forçados. No ano de 1982 refugiou-se em Macau e descobriu na pintura uma forma de juntar a arte ocidental com a arte chinesa tradicional.

Ainda no campo das exposições, o IC tem patente, no ART (Dot Art), a mostra “A Antiga China no Design Criativo”, até ao dia 7 de Agosto. Segundo a mesma nota, trata-se de uma iniciativa organizada pelo Ministério da Cultura e Turismo da China, coordenada pelo Museu Nacional da China e coorganizada pelo IC.

Apresenta-se aqui “relíquias culturais clássicas de 22 entidades museológicas de todo o país como protótipos de design, apresentando cerca de 400 obras culturais e criativas requintadas”. O objectivo é que o público possa “aprofundar a compreensão dos visitantes sobre os 10000 anos de história cultural e os 5000 anos de civilização da China”.

Desporto para todos

No tocante a actividades desportivas para este verão, decorre entre os dias 22 e 26 de Julho a “Liga das Nações de Voleibol Feminino – Finais Macau 2026 apresentada pelo Galaxy Entertainment Group”, com jogos no Dome – Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental de Macau.

A Liga conta com a participação de 18 equipas de elite mundial, que disputarão três rondas preliminares até ao dia 12 de Julho – e que tiveram início a 3 de Junho, sendo que a China “como equipa anfitriã, estará juntamente com as sete equipas melhor classificadas na pontuação, reunindo em Macau na segunda quinzena de Julho para disputar na fase final o título de campeã da Liga deste ano”, pode ler-se.

Destaque ainda para a realização da prova de badminton da categoria aberta, integrada na “Taça Hengqin-Macau” – Série Principal e Série Júnior de 2026, agendada para o dia 9 de Agosto no Dome. As inscrições para a competição estarão abertas a partir do início deste mês.

Este fim-de-semana acontece no Centro Desportivo Olímpico – Campo de Hóquei, o evento “Comunidade Dinâmica – Festival Competitivo de Verão 2026”. O evento alia, segundo a mesma nota, “a vertente lúdico-competitiva ao espírito de equipa, incluindo modalidades adequadas para grupos de jovens e actividades especialmente concebidas para a participação familiar”.

No leque de eventos culturais organizados pelo IC destaca-se também a terceira edição do Festival Internacional de Artes para Crianças de Macau, com espectáculos, ciclo de cinema e workshops até finais de Agosto; ou ainda a actividade “Onde a cultura floresce, a felicidade acontece”, realizada em diversas zonas de lazer, parques, sítios do Património Mundial e museus em Macau e Taipa, “sob a forma de concertos, workshops temáticos e actividades de promoção da leitura”. Por sua vez, o 44º Concurso para Jovens Músicos de Macau, nas categorias da Música Chinesa e Ocidental, terá lugar na segunda quinzena de Julho.

2 Jul 2026