Um dia

“O dia fútil, mais que os outros dias”: o dia das “discretas ironias”. Saberei fazer um dia que importe, um dia que marque a passagem do tempo e não se esvaia simplesmente, como se os relógios não existissem, na sua existência circular e monótona?
O tempo só tem, na verdade, um lugar e um templo que é o corpo. Tudo o mais nada nos diz sobre ele. E os dias andam sedentos de um qualquer acontecimento. Uma ruga de memória no cérebro, algo de memorável, amorável. Um daqueles eventos que o esquecimento não varra. Um padrão implantado no continente verde das horas.

E que o dia não seja de “discretas ironias”, mas um frenesim de trombetas e rufar de corações.
E que o dia seja mais e seja mais cego de tanta velocidade, uma lição de condução em estrada de montanha, os olhos rasos de precipícios e a mente ávida de abismos.
E que o dia seja de estrondosa certeza, de pão e de vinho sobre a mesa e, sobretudo (ó sim, sobretudo!), sem hesitações.
E que não seja um dia fútil e já passado antes de se aconchegar no manto da noite.
E que algo aconteça de extraordinário, de brutal.
E que nos faça uma daquelas fomes capazes de comer a areia dos desertos e haurir num sorvo a água dos mares.
E que seja salgado. Apimentado.
E que se desfaça na boca com um riso crocante de dentes.
E que nos escorra quente na garganta, sabendo a metal acabado de forjar.
E que seja isso e que seja tudo.

Mas não fútil. Não de pequenas e discretas ironias.

20 Fev 2019

Antigamente…

Quando o imperador falava até os burros baixavam as orelhas, porque existia uma antiga tradição no Império do Meio segundo a qual o Filho do Céu podia controlar os Dez Mil Seres. E assim acontecia, um pouco por todo o império.

Cada édito do imperador era distribuído por todas as províncias, mesmo as mais remotas e em menos tempo do que, hoje, podemos pensar. Os canais de comunicação imperiais na China eram céleres porque estavam montados de tal modo que as mensagens nunca paravam.

Mas não se trata apenas de uma questão de velocidade. Peso, isso sim, peso era o mais importante porque em risco estava a vida, não apenas a vida dos indivíduos mas de toda a família.

A palavra do imperador surgia assim imbuída de um especial poder porque carregava sempre em si a ameaça de morte. É como se o carácter imperativo dos éditos derivasse de algo sagrado, algo que não se fita a face, que se obedece sem discutir, que se executa sem pensar.

E, ao longo da História da China, assistimos muitas vezes às mais flagrantes mudanças de opinião, de posição, de atitude, de pensamento. O que hoje era azul, passava a ser laranja; o que ontem era verde, rapidamente resplandecia do mais brilhante dourado.

Nesses tempos, era assim. Vivia-se o terror do império, o povo era subjugado pela vontade férrea dos tiranos, muitos deles regionais. Contudo, estes raramente se atreviam a não cumprir as imperiais ordens, esforçando-se mesmo por as julgar sábias, recitando-as com fervor, dignas de inscrição em pedras colocadas sobre dorsos de tartarugas, como ainda hoje podemos testemunhar nalguns museus e templos mais importantes.

Claro que estes procedimentos limitaram o desenvolvimento da China, na medida em que nem sempre o imperador estava certo, joguete que por vezes era de alguns dos malvados eunucos que o rodeavam. Ainda assim, aos homens de virtude das províncias distantes, outro remédio não havia se não obedecer-lhe.

Felizmente que hoje já não é assim e a China avança determinada no caminho da modernização e desenvolvimento. No entanto, nem sempre o imperador se enganava e muitas vezes dava as ordens certas que contrariavam a ambição dos senhores feudais, em prol do povo. Tenho para mim que, aliás, algumas das directivas dos imperadores impulsionaram a China no bom caminho, porque contornavam o desejo de imobilismo egoísta dos senhores locais, ciosos de que nada mudasse para conservarem, a todo o custo, o seu desmedido poder e satisfazer a sua insaciável luxúria.

18 Fev 2019

A utilidade do min tói

“Não sei. Falta-me um sentido…”. E é com esta frase de Álvaro de Campos a martelar-me as têmporas que me afasto do tempo irreal dos cronómetros insensíveis à real passagem das horas. Tenho para mim que é inútil a reza fria e sem sabor nas papilas gastas e, por isso, pouco temerosas. A língua enrola as palavras, desdobradas em suspiros, sombras destacadas de paredes de quartos interiores.

Ajoelho-me, contudo. Não para meditar que sou ossudo e pouco afoito à concentração. Menos ainda em súplicas ou lamentos, estranha disciplina de mulheres, arrojadas nos templos mas temíveis nas brigas. Ajoelho-me enquanto me dirijo a um sítio perfeitamente conhecido, não vá o sentido esvair-se também do próprio quotidiano. Faço-o em silêncio, enquanto gracejo para o lado. E reservo para mim, só para mim, essa “oscura noche”. E com que deleite me repito: “Não sei. Falta-me um sentido…”

Pagaria caro, neste momento, a menor ousadia, o corpo calibrado de medo, ajoelhado, vergado, verdascado e — porque não? — sangrento. Rio-me, contudo, dessa minha odisseia de atravessar ruas, calcorrear passeios, olhar para dentro de lojas afáveis, servir-me dos gestos alheios para compor um mundo.

Só os outros me fazem o sentido, na certeza plena de cada gesto. Não pensam e são belos como os gatos, respiram e são pujantes ainda que a sua respiração seja roufenha, desde que não saibam que respiram e assim escapem à repugnância de duas frases articuladas e com sentido ainda que vago.

Vagueio e só assim advém o esquecimento, pelo cansaço dos músculos e a acção lenta do frio (“Não sei. Falta-me um sentido…”), até me recolher nos braços tépidos de algum min tói.

29 Jan 2019

Sabendo como e porquê

Não há facilidade em nenhuma escrita que se interrogue, não somente sobre o seu objecto como sobre si própria. E, nessa estranha dança entre formas e conteúdos, joga-se mais que uma vida: um momento de discernimento ou um mergulho na boçalidade. E seja: um momento pode valer por uma eternidade.

Aliás, será também a eternidade um momento, por exemplo para Deus, como o é para quem já abandonou este espaço de efemeridades. Tijolo a tijolo, página a página, palavra a palavra, beijo a beijo, aparentemente o tempo passa, embora seja apenas visível no nosso corpo ou na face enrugada da Terra.

Valha-nos a invenção da idade para podermos ir compreendendo um pouco mais as coisas, ao mesmo tempo que o saber acumulado se transforma numa espécie de corrida pela cegueira. Crescer significa, afinal, deixar de ver.

E, sabendo como e porquê, existe o advento da morte, essas pequenas mortes que diariamente nos rodeiam, as mortes ínfimas. De seres e trajectos. De ideias. De mistérios.

Sabendo como e porquê, abandonamos para voltar a encontrar. Existem metamorfoses do descanso no sono insatisfeito. Há um ruído, de dentes rangidos, de onda agigantada para nunca rebentar. Voltaremos a casa e aos espelhos familiares. Ao calor do forno onde se consome a lenha amável. Ao charco fétido, à lama de chocolate onde na infância se reflectia a esguia lua, às cabanas silenciosas, às estradas por asfaltar. A isso tudo voltaremos.

Sabendo como e porquê.

22 Jan 2019

Do Suor

Seria sempre pouco o sabor a sal a deslizar pela pele que, uma e outra vez, se humedece de suor. E não tem a ver com um esforço qualquer mas simplesmente por ser, por estar sob o clima inóspito, sob o céu baixo e uma sufocante matéria estelar. Um vaivém descontínuo e um gotejar soberbo da testa que o lenço inutilmente limpa.

A experiência do suor exige um simulacro de língua fervente a descer pela pele. Indicia um corpo lacrimejado a preceito, a via crucis sem sangue, obsessiva, mas um corpo que incha, se expande, um corpo a rebentar.

A experiência do suor exige a paciência do doente e remete para a imobilidade hospitalar. É, curiosamente, imediata e progressiva como um som que não pára de crescer até nos rebentar os tímpanos. Uma música de pesadelo, música de fonte muda de onde silente escorre uma água espessa e quente.

O silêncio do suor obriga ao arquejo. Cola-se a roupa ao corpo como um destino se cola a uma existência em desgraça. O suor lembra o remorso, evoca o castigo infernal.

É, no entanto, bom ficar muito quieto enquanto as gotas nos emergem da fronte e lentamente escorrem rosto abaixo. É um desconforto que, aos poucos, se transmuta em aceitação de um estado praticamente excepcional. Existe um estranho peso, cálido e opressor, que nos afaga, que nos embala para um fora de nós, um inusitado espaço, terreno outro de inferno frígido, que pode até invocar o adorcismo e a alucinação.

*

A experiência do suor é também experiência limite do corpo, sobretudo quando ele deriva da não-acção, quando não existe uma razão real para suar, para a sua emergência. Quando não corremos, mal andamos e ainda assim a pele chora comovida por dar conta de si sob um opressivo calor sem sol.

O suor é uma chuva discreta, contranatura, olorosa, imbebível, que só o próprio corpo — ou outro corpo — admite reconhecer. O suor marca presença entre os amantes e é sublinhado pelo álcool e pelo medo. Surge da pele em toda a sua extensão e desliza grave por ela, acelerando o arrepio.

A presença do suor é sintoma de alteração, de metamorfose. Não serão as mesmas palavras, as mesmas intensidades, os mesmos desejos, as mesmas acções. Sob o seu reino, a mente ignora e experimenta, amiúde descobre novos prazeres.

Há algo de perda inconsequente na experiência do suor que é tão mais válida quanto menos for provocada e desejada. Seria sempre pouco o sabor a sal na pele, a indiciar uma e outra vez uma repetição, um arremedo infindo, a presença tépida e sublime de uma pequena morte.

8 Jan 2019

Unheimlich

Desde que se reconheceu como Homem, a espécie humana tem procurado distinguir-se das outras espécies animais, quer pela simples adição de atributos (do género “o homem é um animal racional”), quer pela constatação de um corte radical numa hipotética escala evolutiva (o homem é um animal com cultura). Mas, no fundo, parece existir uma remota e timorata consciência de que a distância que nos separa dos outros bichos não é tão grande quanto isso.

Um dos primeiros a escorregar na senda da confissão deste terror (em termos científicos) foi o naturalista Buffon. Dizia ele que se os animais não existissem o Homem seria ainda mais misterioso — o que indicia proximidade e semelhança.

Nalgumas das pinturas que o italiano Castiglione fez na corte de Pequim avultam a representação de cavalos e cães, desenhados ao modo ocidental; contudo, inseridos num contexto de pintura chinesa, o que imprime nas pinturas algo de inusual, para não falar de uma certa estranheza, um sentimento indefinível, próximo, se quisermos, do desconforto.

Tal é sobretudo verdadeiro quando contemplamos um certo cavalo, de cor castanha e proporções suaves. O mais extraordinário da besta é o seu olhar. Ao contrário do que se poderia pensar, jamais o classificaria de humano. A sua placidez e segurança situam-no, desde logo, num patamar que nos ultrapassa.

A estranheza, a que não é ausente um traço de temor, mede a altura do lance, desafia a capacidade da nossa perna.

12 Jul 2016