A utilidade do min tói

“Não sei. Falta-me um sentido…”. E é com esta frase de Álvaro de Campos a martelar-me as têmporas que me afasto do tempo irreal dos cronómetros insensíveis à real passagem das horas. Tenho para mim que é inútil a reza fria e sem sabor nas papilas gastas e, por isso, pouco temerosas. A língua enrola as palavras, desdobradas em suspiros, sombras destacadas de paredes de quartos interiores.

Ajoelho-me, contudo. Não para meditar que sou ossudo e pouco afoito à concentração. Menos ainda em súplicas ou lamentos, estranha disciplina de mulheres, arrojadas nos templos mas temíveis nas brigas. Ajoelho-me enquanto me dirijo a um sítio perfeitamente conhecido, não vá o sentido esvair-se também do próprio quotidiano. Faço-o em silêncio, enquanto gracejo para o lado. E reservo para mim, só para mim, essa “oscura noche”. E com que deleite me repito: “Não sei. Falta-me um sentido…”

Pagaria caro, neste momento, a menor ousadia, o corpo calibrado de medo, ajoelhado, vergado, verdascado e — porque não? — sangrento. Rio-me, contudo, dessa minha odisseia de atravessar ruas, calcorrear passeios, olhar para dentro de lojas afáveis, servir-me dos gestos alheios para compor um mundo.

Só os outros me fazem o sentido, na certeza plena de cada gesto. Não pensam e são belos como os gatos, respiram e são pujantes ainda que a sua respiração seja roufenha, desde que não saibam que respiram e assim escapem à repugnância de duas frases articuladas e com sentido ainda que vago.

Vagueio e só assim advém o esquecimento, pelo cansaço dos músculos e a acção lenta do frio (“Não sei. Falta-me um sentido…”), até me recolher nos braços tépidos de algum min tói.

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