Um dia

“O dia fútil, mais que os outros dias”: o dia das “discretas ironias”. Saberei fazer um dia que importe, um dia que marque a passagem do tempo e não se esvaia simplesmente, como se os relógios não existissem, na sua existência circular e monótona?
O tempo só tem, na verdade, um lugar e um templo que é o corpo. Tudo o mais nada nos diz sobre ele. E os dias andam sedentos de um qualquer acontecimento. Uma ruga de memória no cérebro, algo de memorável, amorável. Um daqueles eventos que o esquecimento não varra. Um padrão implantado no continente verde das horas.

E que o dia não seja de “discretas ironias”, mas um frenesim de trombetas e rufar de corações.
E que o dia seja mais e seja mais cego de tanta velocidade, uma lição de condução em estrada de montanha, os olhos rasos de precipícios e a mente ávida de abismos.
E que o dia seja de estrondosa certeza, de pão e de vinho sobre a mesa e, sobretudo (ó sim, sobretudo!), sem hesitações.
E que não seja um dia fútil e já passado antes de se aconchegar no manto da noite.
E que algo aconteça de extraordinário, de brutal.
E que nos faça uma daquelas fomes capazes de comer a areia dos desertos e haurir num sorvo a água dos mares.
E que seja salgado. Apimentado.
E que se desfaça na boca com um riso crocante de dentes.
E que nos escorra quente na garganta, sabendo a metal acabado de forjar.
E que seja isso e que seja tudo.

Mas não fútil. Não de pequenas e discretas ironias.

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