IFFAM | Give me Liberty arrecada prémio para melhor filme

Na Competição Internacional, o prémio de melhor filme foi para Give me Liberty, dos Estados Unidos da América. Lynn + Lucy, uma co-produção de Inglaterra e França arrecadou os galardões de melhor realizador e melhor actriz. Já na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês o melhor filme foi Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang

 
E no final, o amor do Milwaukee acabou mesmo por vencer. Give me Liberty, filme nascido das profundezas do cinema independente dos Estados Unidos da América e realizado pelo russo Kirill Mikhanovsky venceu o galardão de melhor filme da Competição Internacional do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM). Cinco anos depois de um conturbado processo, quer a nível financeiro, quer a nível de produção, até pelo “simples” facto de o filme contar com actores não-profissionais (alguns com mais de 80 anos) e outros, portadores de deficiências, o realizador russo e a argumentista norte-americana Alice Austen mostraram-se radiantes após a distinção.
“É um sentimento incrível, sobretudo pelo trabalho de todas as pessoas que fizeram parte deste filme, que por pouco não existia. Cada momento que contribuíu para a produção deste filme é um milagre. Estamos aqui para celebrar a comédia da vida, pois essa é a única maneira de enfrentar a realidade”, disse Kirill Mikhanovsky. “Este filme é muito dramático mas conseguimos sempre encontrar sentido de humor nos momentos mais difíceis”, acrescentou Alice Austen.
Acerca do filme, passado num dia da vida de um jovem que conduz uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde na “segregada” e complexa cidade do Milwaukee, o realizador disse há dias, numa entrevista concedida ao HM, que o filme “não é sobre pessoas com deficiência, nem sobre racismo. É um filme sobre humanidade, com uma história muito simples, que se assume como um pretexto para um tema maior, uma ponderação filosófica quase, acerca do destino da América e também do mundo”.
Lynn + Lucy foi outro dos vencedores da noite, ao arrecadar dois prémios da Competição Internacional do IFFAM: Melhor Realizador, atribuído a Fyzal Boulifa, e Melhor Actriz, atribuído a Roxanna Scrimshaw. Lynn e Lucy fala da história de duas amigas desde os tempos da escola, que acabam por desenvolver uma relação tão intensa como qualquer romance.
“Depois do prémio de melhor actriz nunca pensei que pudessemos ganhar mais um. Fico muito contente por todos os que fizeram parte deste filme e em especial pela Roxanna Scrimshaw porque ela não tinha qualquer experiência prévia em cinema”, foi desta forma que reagiu Fyzal Boulifa após Lynn + Lucy ter sido distinguido com dois prémios.
Já o prémio de Melhor Actor foi a tribuído a Sarm Heng, pelo seu desempenho em Buoyancy, filme realizado pelo australiano Rodd Rathjen que conta a história de Chakra, um jovem do Cambodja com 14 anos, que acaba juntamente com o seu colega Kea, por ser escravizado por um capitão de um barco de pesca tailandês, após ter partido em busca oportunidade de ter um trabalho remunerado numa fábrica. Buoyancy foi ainda galardoado com o prémio do público.
Por fim, o prémio de Melhor Argumento foi para o neo-zelandês Hamish Bennet, realizador e argumentista de Bellbird, filme que a história de Ross, um agricultor parco em palavras, que parece perder o rumo da vida, a partir do momento em que a sua mulher Beth, morre inesperadamente.
O presidente do Júri da Competição Internacional, Peter Chan sublinhou o facto de os membros do júri terem “uma ideia comum” e de não ter havido discussões para encontrar os vencedores. “Decidimos rapidamente os prémios e isso, para mim, é um sucesso”, disse Peter Chan. O presidente do júri enalteceu ainda a juventude dos realizadores presentes no festival que estão a produzir as suas primeiras ou segundas obras.

Os melhores da China

Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang venceu o prémio de melhor filme na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês. Inspirado no título de uma famosa pintura chinesa de Huang Gongwang, Dwelling in the Fuchun Mountains conta o drama familiar de quatro irmãos que assistem ao declínio de saúde da mãe, ao longo das quatro estações do ano. Já com o troféu nas mãos, o realizador agradeceu o apoio de todos os que ajudaram a obra a tornar-se realidade e falou da homenagem à cultura chinesa que o filme pretende também ser.
“Este filme conta a história de uma família contemporânea (…) que tem de cuidar da sua mãe, assumindo-se como um reflexo actual da sociedade chinesa. O processo de gravação foi muito difícil pois o filme passa-se em quatro estações, o que implicou fazer gravações durante dois anos”, referiu.
Já o prémio de Melhor Realizador foi atribuído a Anthony Chen, pelo seu trabalho em Wet Season, filme que tem como pano de fundo Singapura. “É um honra ganhar este prémio e agradeço ao Festival de Cinema de Macau. Acho que este filme é muito especial até porque, no início, não estava à espera de voltar a utilizar os mesmos actores”, apontou Anthony Chen.
Zhou Dong Yu foi a vencedora do prémio de Melhor Actriz pela sua prestação em Better Days, filme realizado por Derek Kwok-cheung Tsang. Adaptado do romance “In His Youth”, Better Days conta a história de uma jovem estudante vítima de bullying, no contexto da preparação dos exigentes exames de admissão à Universidade na China, intitulados de gaokao.
Para a actriz receber este prémio foi “um momento muito emocionante. Penso que este tema do bullying das escolas é uma questão social que conseguimos chamar à atenção do público”, explicou Zhou Dong Yu.
Já o prémio de Melhor Actor foi atribuído a Wu Xiao Liang pela sua prestação em Wisdom Tooth. O melhor actor da competição do Novo Cinema Chinês admitiu que o prémio “foi uma surpresa” e sublinhou que este foi um filme “muito difícil de fazer e que tem muita paixão”, até pelas condições climatéricas adversas que encontraram no norte da China. “Havia momentos em que estava tanto frio que era impossível abrir a boca para dizer as deixas”, partilhou.
Por fim, o prémio de Melhor Argumento distinguiu Johnny Ma pelo seu trabalho em To Live to Sing, que o próprio também realizou. Para Ma, apesar de o processo ter sido “muito difícil” é depois compensador quando “oferecemos uma história ao público”. “Quero, por isso, agradecer à minha equipa, pois comparado com outros lugares, a China é o lugar mais difícil para se fazer um filme”, desabafou Johnny Ma.

Distinções Honrosas

Além dos principais prémios, outras menções foram também anunciadas por ocasião da Cerimónia de Entrega de Prémios.
2019 Asian Blockbuster Film 2019: Parasite (Coreia do Sul)
NETPAC Award: “To Live to Sing”, de Johnny Ma
“Spirit of Cinema” Achievement Award: Li Shao Hong (A City Called Macau)
Cinephilia Critic’s Award: “Wet Season”, de Anthony Chen
Cinephilia Critic’s Award for Best Macau Film: “Years of Macao, de Tou Kim Hong, Penny Lam, Albert Chu, Emily Chan, Peeko Wong, Chao Koi Wang, Maxim Bessmertny, Ao Leong Weng Fong e António Caetano de Faria

11 Dez 2019

IFFAM | Give me Liberty arrecada prémio para melhor filme

Na Competição Internacional, o prémio de melhor filme foi para Give me Liberty, dos Estados Unidos da América. Lynn + Lucy, uma co-produção de Inglaterra e França arrecadou os galardões de melhor realizador e melhor actriz. Já na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês o melhor filme foi Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang

 

E no final, o amor do Milwaukee acabou mesmo por vencer. Give me Liberty, filme nascido das profundezas do cinema independente dos Estados Unidos da América e realizado pelo russo Kirill Mikhanovsky venceu o galardão de melhor filme da Competição Internacional do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM). Cinco anos depois de um conturbado processo, quer a nível financeiro, quer a nível de produção, até pelo “simples” facto de o filme contar com actores não-profissionais (alguns com mais de 80 anos) e outros, portadores de deficiências, o realizador russo e a argumentista norte-americana Alice Austen mostraram-se radiantes após a distinção.

“É um sentimento incrível, sobretudo pelo trabalho de todas as pessoas que fizeram parte deste filme, que por pouco não existia. Cada momento que contribuíu para a produção deste filme é um milagre. Estamos aqui para celebrar a comédia da vida, pois essa é a única maneira de enfrentar a realidade”, disse Kirill Mikhanovsky. “Este filme é muito dramático mas conseguimos sempre encontrar sentido de humor nos momentos mais difíceis”, acrescentou Alice Austen.

Acerca do filme, passado num dia da vida de um jovem que conduz uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde na “segregada” e complexa cidade do Milwaukee, o realizador disse há dias, numa entrevista concedida ao HM, que o filme “não é sobre pessoas com deficiência, nem sobre racismo. É um filme sobre humanidade, com uma história muito simples, que se assume como um pretexto para um tema maior, uma ponderação filosófica quase, acerca do destino da América e também do mundo”.

Lynn + Lucy foi outro dos vencedores da noite, ao arrecadar dois prémios da Competição Internacional do IFFAM: Melhor Realizador, atribuído a Fyzal Boulifa, e Melhor Actriz, atribuído a Roxanna Scrimshaw. Lynn e Lucy fala da história de duas amigas desde os tempos da escola, que acabam por desenvolver uma relação tão intensa como qualquer romance.

“Depois do prémio de melhor actriz nunca pensei que pudessemos ganhar mais um. Fico muito contente por todos os que fizeram parte deste filme e em especial pela Roxanna Scrimshaw porque ela não tinha qualquer experiência prévia em cinema”, foi desta forma que reagiu Fyzal Boulifa após Lynn + Lucy ter sido distinguido com dois prémios.

Já o prémio de Melhor Actor foi a tribuído a Sarm Heng, pelo seu desempenho em Buoyancy, filme realizado pelo australiano Rodd Rathjen que conta a história de Chakra, um jovem do Cambodja com 14 anos, que acaba juntamente com o seu colega Kea, por ser escravizado por um capitão de um barco de pesca tailandês, após ter partido em busca oportunidade de ter um trabalho remunerado numa fábrica. Buoyancy foi ainda galardoado com o prémio do público.

Por fim, o prémio de Melhor Argumento foi para o neo-zelandês Hamish Bennet, realizador e argumentista de Bellbird, filme que a história de Ross, um agricultor parco em palavras, que parece perder o rumo da vida, a partir do momento em que a sua mulher Beth, morre inesperadamente.

O presidente do Júri da Competição Internacional, Peter Chan sublinhou o facto de os membros do júri terem “uma ideia comum” e de não ter havido discussões para encontrar os vencedores. “Decidimos rapidamente os prémios e isso, para mim, é um sucesso”, disse Peter Chan. O presidente do júri enalteceu ainda a juventude dos realizadores presentes no festival que estão a produzir as suas primeiras ou segundas obras.

Os melhores da China

Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang venceu o prémio de melhor filme na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês. Inspirado no título de uma famosa pintura chinesa de Huang Gongwang, Dwelling in the Fuchun Mountains conta o drama familiar de quatro irmãos que assistem ao declínio de saúde da mãe, ao longo das quatro estações do ano. Já com o troféu nas mãos, o realizador agradeceu o apoio de todos os que ajudaram a obra a tornar-se realidade e falou da homenagem à cultura chinesa que o filme pretende também ser.

“Este filme conta a história de uma família contemporânea (…) que tem de cuidar da sua mãe, assumindo-se como um reflexo actual da sociedade chinesa. O processo de gravação foi muito difícil pois o filme passa-se em quatro estações, o que implicou fazer gravações durante dois anos”, referiu.

Já o prémio de Melhor Realizador foi atribuído a Anthony Chen, pelo seu trabalho em Wet Season, filme que tem como pano de fundo Singapura. “É um honra ganhar este prémio e agradeço ao Festival de Cinema de Macau. Acho que este filme é muito especial até porque, no início, não estava à espera de voltar a utilizar os mesmos actores”, apontou Anthony Chen.

Zhou Dong Yu foi a vencedora do prémio de Melhor Actriz pela sua prestação em Better Days, filme realizado por Derek Kwok-cheung Tsang. Adaptado do romance “In His Youth”, Better Days conta a história de uma jovem estudante vítima de bullying, no contexto da preparação dos exigentes exames de admissão à Universidade na China, intitulados de gaokao.
Para a actriz receber este prémio foi “um momento muito emocionante. Penso que este tema do bullying das escolas é uma questão social que conseguimos chamar à atenção do público”, explicou Zhou Dong Yu.

Já o prémio de Melhor Actor foi atribuído a Wu Xiao Liang pela sua prestação em Wisdom Tooth. O melhor actor da competição do Novo Cinema Chinês admitiu que o prémio “foi uma surpresa” e sublinhou que este foi um filme “muito difícil de fazer e que tem muita paixão”, até pelas condições climatéricas adversas que encontraram no norte da China. “Havia momentos em que estava tanto frio que era impossível abrir a boca para dizer as deixas”, partilhou.

Por fim, o prémio de Melhor Argumento distinguiu Johnny Ma pelo seu trabalho em To Live to Sing, que o próprio também realizou. Para Ma, apesar de o processo ter sido “muito difícil” é depois compensador quando “oferecemos uma história ao público”. “Quero, por isso, agradecer à minha equipa, pois comparado com outros lugares, a China é o lugar mais difícil para se fazer um filme”, desabafou Johnny Ma.

Distinções Honrosas

Além dos principais prémios, outras menções foram também anunciadas por ocasião da Cerimónia de Entrega de Prémios.

2019 Asian Blockbuster Film 2019: Parasite (Coreia do Sul)
NETPAC Award: “To Live to Sing”, de Johnny Ma
“Spirit of Cinema” Achievement Award: Li Shao Hong (A City Called Macau)
Cinephilia Critic’s Award: “Wet Season”, de Anthony Chen
Cinephilia Critic’s Award for Best Macau Film: “Years of Macao, de Tou Kim Hong, Penny Lam, Albert Chu, Emily Chan, Peeko Wong, Chao Koi Wang, Maxim Bessmertny, Ao Leong Weng Fong e António Caetano de Faria

11 Dez 2019

Maria Helena de Senna Fernandes, presidente da comissão organizadora do IFFAM : “A média de lotação tem sido de 80%”

Em entrevista, a Directora dos Serviços de Turismo e Presidente da comissão organizadora do Festival Internacional e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM), Maria Helena de Senna Fernandes fez um balanço dos últimos quatro anos de festival e apontou, apesar das muitas dificuldades, que a edição deste ano foi pautada por um sentimento de consolidação e de maior adesão por parte do público e da indústria.

“O Mike [Goodridge] disse-me que este ano foi mais fácil atrair novos projectos que nos anos anteriores (…). Temos que dar confiança às pessoas, aos filmes e sobretudo às distribuídoras, que nos oferecem os seus filmes. Este ano foi já muito mais fácil do que nos anos anteriores e isso é bom sinal”, referiu Maria Helena de Senna Fernandes.

A presidente da comissão organizadora do IFFAM recordou as dificuldades que marcaram as primeiras edições, onde foi “preciso aprender quase tudo acerca da realização de um festival” e as mudanças que foram feitas a partir da segunda edição, que classificou com um ano de “reorganização”, marcado por uma nova direcção artística chefiada por Mike Goodridge. Depois de uma terceira edição apostada em atrair “bons projectos e bons filmes”, Maria Helena de Sena Fernandes sentiu grandes melhorias, consistência ao nível dos conteúdos e, sobretudo, menor preocupação com a organização, porque “a equipa está cada vez mais madura e sabe o que é necessário”.

“De facto, de todos os quatro anos, este ano foi aquele em que fizemos menos reuniões internas, porque quase toda a gente já sabe o que é necessário e conhecem melhor (…) os pontos em que temos de ter mais atenção. Por causa disso eu não tenho que chamar as pessoas a atenção este ano e isso é bom sinal”, explicou a Directora dos Serviços de Turismo.

Quanto à adesão, apesar de admitir “continuar a ser uma batalha”, Maria Helena de Sena Fernandes afirmou que a quarta edição do IFFAM assistiu a uma procura superior, até porque a “equipa de programação está agora mais sensível ao gosto do público”. Sublinhando que “nem todos os filmes estiveram lotados porque (…) há muita oferta” e existe a vontade de criar “o hábito de comprar bilhetes”, a lotação média em sala tinha sido positiva, tendo chegado aos 80 por cento.

Para continuar

Não querendo comprometer-se com a realização da próxima edição do IFFAM em 2020 por não ter ainda tido oportunidade de debater o assunto com a nova secretária para os Assuntos Sociais e Cultura do novo Executivo, Ao Ieong U, Maria Helena de Sena Fernandes afirmou contudo que, seja de que forma for, a aposta do Governo nas indústrias criativas, e em particular no cinema é para continuar. “Esta é uma aposta do Governo, que sempre deu oportunidades às indústrias criativas, até porque em Macau há muita gente que quer fazer filmes e entrar no circuito de produção. Por isso, temos de dar oportunidades e haverá sempre maneira de apoiar”, explicou.

11 Dez 2019

Juliette Binoche, actriz: “Estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui”

A “embaixadora-estrela” da quarta edição do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM), defende que “há muitas formas de ser livre”, mesmo quando existe censura

 

Juliette Binoche, aclamada actriz francesa que se tornou na primeira a ser galardoada com o prémio de Melhor Actriz nos três principais festivais de cinema europeus, mostrou-se ontem solidária com os artistas que têm de ver as suas obras escrutinadas pela censura chinesa. No entanto, para Binoche que só sabe “viver de forma independente”, há sempre maneira de continuar a desenvolver qualquer forma de arte.

“Eu quero ser livre e vou ser livre, mas há muitas formas de o ser. Como actores também temos limites: temos de saber as nossas deixas, as nossas marcações e, às vezes, só temos a oportunidade de fazer um take. Mas no interior, temos de encontrar o nosso caminho (…). Por isso há sempre formas de nos expressar e estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui”. “Há sempre limites, mas para mim a arte deve ser levada o mais longe possível”, partilhou Juliette Binoche quando questionada pelos jornalistas sobre a forma como iria lidar com a censura na China, caso aceitasse o convite lançado no dia anterior por Diao Yinan, realizador chinês que em 2014 venceu o Urso de Ouro em Berlim pelo filme “Black Coal, Thin Ice”, para participar num filme por ele realizado.

Acreditando que a essência do seu trabalho como actriz, e no limite, de uma boa cena, está numa “certa incerteza” e “na energia que existe em saltar para o desconhecido”, Juliette Binoche falou da importância que a descoberta e a vontade de aprender têm para si.

“A curiosidade é a base da humanidade. É possível aprender interagindo, viajando (…) é essa paixão que me leva a ir, a paixão de aprender o contacto com grandes artistas”, referiu.

Realizar? Talvez um dia

Questionada sobre a possibilidade de vir a realizar os seus próprios filmes, a actriz francesa admite que até “pode acontecer”, mas que, neste momento, se sente sortuda por trabalhar com realizadores e equipas fantásticas. “Se não tivesse essa oportunidade provavelmente escreveria e realizava eu”, explicou Juliette Binoche, vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária pela sua prestação em “O Paciente Inglês” (1997), uma das obras destacadas no evento “Em conversa com Juliette Binoche” do IFFAM.

“O momento da pós-produção é quando o realizador tem verdadeiramente o poder. É aqui que o filme está mesmo a ser feito e o realizador pode mostrar a sua inteligência, sabedoria e também o artista que é, ao nível do ritmo, por respeitar ou não aquilo que foi gravado, por adicionar música ou confiar pura e simplesmente na forma como estava planeado”, referiu Juliette Binoche.

“Lembro-me de uma cena que o Anthony Minghella, realizador do Paciente Inglês, gravou entre o Kip e a minha personagem no sótão da casa, e ele, que acabou por cortar essa parte, resolveu usar uma reacção minha gravada nessa cena, noutro contexto completamente diferente, onde o Willem Dafoe revela ser o paciente inglês. E nesse momento a minha personagem passa a ouvir o que se está a passar e a estar envolvida no segredo. Fiquei impressionada por ele ter sido capaz de fazer isso”, exemplificou a actriz francesa.

11 Dez 2019

Gitanjali Rao, realizadora de Bombay Rose: “É possível contar inúmeras verdades dolorosas através da arte”

Gintali Rao decidiu contar uma história sobre Bombaím e as suas pessoas através de quadros animados. Bombay Rose é o único filme de animação seleccionado para a Competição Internacional do Festival de Cinema de Macau e, segundo a actriz e realizadora indiana, fala de trabalho infantil, homossexualidade e dos “heróis” que não têm histórias de sucesso para contar

 

Bombay Rose é uma história sobre restrições, amor e busca por novas paisagens e condições de vida. Que mensagem pretende passar com este filme?

Essencialmente queria contar esta história há muito tempo, que fala de duas personagens, que imigraram para Bombaím. Vivo rodeada de pessoas como eles diariamente em Bombaím e descobri que as suas histórias nunca são contadas porque não são histórias de sucesso, não são as histórias convencionais. Mas é muito interessante de conhecer, do ponto de vista humano, as dificuldades pelas quais passaram, as pequenas aldeias de onde vieram e perceber, chegados a Bombaím, que nem todos os seus sonhos se tornaram realidade. Por isso queria contar uma história sobre como enfrentar as dificuldades e o que tiveram de fazer para sobreviver. Aqui não se trata de uma sobrevivência normal, são jovens que também se apaixonam, assistem a filmes de Bollywood e que também têm as suas fantasias, escapes e sentem falta do sítio de onde vieram. Por isso, este filme fala destas questões complexas e da forma como a cidade lida com elas, mantendo estas pessoas longe dos privilégios dos mais ricos, pois eles constroem, limpam e mantêm a cidade, mas são quase obrigados a viver na rua.

Bombay Rose aborda vários temas sociais, novos e intemporais, que são críticos na sociedade, como a religião ou a homossexualidade. Como é que estas questões são abordadas no filme?

Para mim, quando penso em personagens elas vêm com os seus problemas, porque é assim que acontece na realidade. É impossível separar alguém da língua e cultura do sítio de onde veio. Quando estas pessoas chegam a um novo sítio têm de sobreviver e estão constantemente a ser confrontadas com questões éticas acerca daquilo que devem ou não fazer e a maneira como lidam com essas situações. Queria que tudo isso viesse com as personagens, não queria que fossem só bonitas e simples para as pessoas as perceberem melhor. As personagens têm de trazer consigo os seus problemas e, a partir daí, faz sentido contar as suas histórias e de que forma conseguiram ultrapassar os problemas. Porque há três ou quatro personagens, e cada uma vem de um sítio diferente e tem um contexto diferente, retratando também um problema diferente, quer seja trabalho infantil ou a homossexualidade. Aqui, podemos fazer de duas formas. Ou não mostramos os problemas e só damos a ver as partes boas, ou mostramos os dois lados. Para mim é bom mostrar as duas partes e acreditar que é possível lutar e sobreviver. Para mim esses é que são os heróis. Não se trata de ter muito sucesso, mas de pequenos sucessos perante as dificuldades.

Porquê animação e como enveredou pelo mundo do cinema?

Depois de estudar comecei a trabalhar num estúdio onde aprendi animação. Ser actriz foi algo que surgiu em paralelo com o meu trabalho diário e com os estudos, porque eu era actriz de teatro e não tinha dinheiro para sobreviver se só fizesse teatro. Por isso, para mim, a animação foi algo que aprendi fazendo e foi uma forma de trazer as minhas qualidades artísticas enquanto pintora, para a realização. Mas também o que aprendi como actriz foi muito útil na animação para fazer com que as personagens do filme se comportem de forma realista, pois não possuem nenhum tipo de exagero nos seus gestos, são quase como pessoas reais. Nem mesmo actores são tão realistas. Para mim trata-se sempre de pintar, frame a frame, sem fazer qualquer tipo de animação 3D. Adoro fazê-lo sozinha e, para além disso, da forma como eu vejo a história, é possível contar inúmeras verdades dolorosas através da arte, porque se torna mais poético, torna-se lírico e estético. Acho que não conseguiria contar assuntos tão brutais num filme com actores.

Como vê actualmente o cinema asiático?

Para o ocidente é uma revelação mas para nós, a verdade é que temos feito isto desde sempre. Acho que o que tem acontecido ultimamente é que o espectro mudou. Quando era mais nova e procurava filmes nos anos 90 não via assim tantos filmes asiáticos, via sim muitos filmes europeus a toda a hora, em festivais. Era essa a influência. E os filmes americanos que apareciam nas salas de cinema. Até num país como a Índia, onde existem mais de 20 regiões diferentes, com línguas diferentes e que fazem o seu próprio cinema. Acho que a exposição daquilo que temos estado a fazer há muitos anos na Ásia está a tornar-se cada vez mais interessante para o resto da Europa. Na minha opinião, isto também acontece porque estes países são jovens em termos de desenvolvimento e têm muito mais coisas novas para dizer e isso está a tornar-se cada vez mais interessante para a audiência global. Na Ásia existe uma geração mais nova que está agora a fazer filmes em oposição ao ocidente onde as gerações mais antigas estão a fazer filmes. Por isso agora acho que o interesse está naquilo que é fresco, o que é novo e é bom, porque fazia falta há muito tempo.

Sente que o IFFAM pode ser um veículo importante para esse crescimento?

Sem dúvida. Acho que tudo isto está a acontecer na Ásia porque os países daqui estão a levar o cinema muito mais a sério e não apenas como um negócio. Porque nos países asiáticos é comum ver menos aposta na arte e mais no negócio. Com os festivais, é dada maior importância à parte artística, por isso eventos como este estão a fazer a diferença na forma como o público vê filmes. Quando era mais nova existia apenas um festival na Índia, agora devemos ter cerca de 100, em apenas 20/25 anos. Por isso está definitivamente a fazer a diferença.

11 Dez 2019

Project Market | Uk Kei de Leonor Teles vence na categoria Macau Spirit Award

O projecto Uk Kei de Leonor Teles e Filipa Reis venceu na categoria “Macau Spirit Award” do IFFAM Project Market (IPM), garantindo um prémio monetário de 5 mil dólares americanos. Para Leonor Teles, a mais jovem realizadora a vencer um Urso de Ouro na competição de curtas-metragens de Berlim (2016), apesar de existir alguma estranheza pelo facto de estar “a receber prémios por coisas que ainda não estão feitas”, o reconhecimento é muito positivo.
“Na verdade eu nem sei bem o que quer dizer Macau Spirit Award mas é sempre bom quando reconhecem aquilo que estamos a tentar fazer. É sempre um incentivo, e passando-se o filme em Macau este reconhecimento é bom.” Quanto à obra em si, Leonor Teles apenas adiantou “que se passa entre Lisboa e Macau”, não havendo ainda nenhum calendário definido para o projecto.
Já o “Best Project Award” do IPM, foi atribuído ao filipino Eduardo Dodo Dayao, pelo projecto Dear Wormwood. Após saber que ia levar para casa 15 mil dólares americanos, o realizador mostrou-se satisfeito com a conquista e prevê começar a rodar o filme no final do próximo ano.
O prémio “Creative Excellence Award”, no valor de 10 mil dólares americanos, foi atribuído ao projecto The Day and Night of Brahma, da sul-africana Sheetal Magan, cuja curta Paraya foi apresentada em Cannes.
Por fim, Drum Wave, da realizadora australiana Natalie Erika Jameson venceu na categoria “Best Co-production Award”, garantindo também 10 mil dólares americanos.

10 Dez 2019

Project Market | Uk Kei de Leonor Teles vence na categoria Macau Spirit Award

O projecto Uk Kei de Leonor Teles e Filipa Reis venceu na categoria “Macau Spirit Award” do IFFAM Project Market (IPM), garantindo um prémio monetário de 5 mil dólares americanos. Para Leonor Teles, a mais jovem realizadora a vencer um Urso de Ouro na competição de curtas-metragens de Berlim (2016), apesar de existir alguma estranheza pelo facto de estar “a receber prémios por coisas que ainda não estão feitas”, o reconhecimento é muito positivo.

“Na verdade eu nem sei bem o que quer dizer Macau Spirit Award mas é sempre bom quando reconhecem aquilo que estamos a tentar fazer. É sempre um incentivo, e passando-se o filme em Macau este reconhecimento é bom.” Quanto à obra em si, Leonor Teles apenas adiantou “que se passa entre Lisboa e Macau”, não havendo ainda nenhum calendário definido para o projecto.

Já o “Best Project Award” do IPM, foi atribuído ao filipino Eduardo Dodo Dayao, pelo projecto Dear Wormwood. Após saber que ia levar para casa 15 mil dólares americanos, o realizador mostrou-se satisfeito com a conquista e prevê começar a rodar o filme no final do próximo ano.

O prémio “Creative Excellence Award”, no valor de 10 mil dólares americanos, foi atribuído ao projecto The Day and Night of Brahma, da sul-africana Sheetal Magan, cuja curta Paraya foi apresentada em Cannes.
Por fim, Drum Wave, da realizadora australiana Natalie Erika Jameson venceu na categoria “Best Co-production Award”, garantindo também 10 mil dólares americanos.

10 Dez 2019

Competição Internacional | Realizador de Give me Liberty quer fazer próximo filme em Macau

A perseverança de Kirill Mikhanovsky e Alice Austen foi levada ao limite para que Give me Liberty fosse uma realidade. O filme, que levou cerca de cinco anos a produzir, contou quase com tantos contratempos como uma conturbada viagem de carrinha pelo Milwaukee. O realizador russo e a argumentista norte-americana contaram ao HM todos os percalços de um filme que centra a sua autenticidade num elenco de actores não profissionais

 
A dada altura, ao fim de três anos, quando estávamos prestes a começar a gravar, perdemos todo o financiamento, até que um bilionário disse que financiava o filme na totalidade, se o fizéssemos em Detroit. E nós recusámos. Claro que pensámos se não estaríamos a ser estúpidos pois não encontrámos financiamento em mais lado nenhum no Milwaukee”, disse Kirill Mikhanovsky, realizador de Give me Liberty, filme a concurso na Competição Internacional do IFFAM. “Tivemos de ser muito fortes para continuar”, explicou.
A vida pode ser uma viagem no interior de uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde. Pelo menos é este o entender de Kirill Mikhanovsky e da argumentista Alice Austen, acerca de Give me Liberty, o qual fizeram questão que fosse passado no Milwaukee, EUA, e que contasse a história de uma personagem local. Além disso, o filme teria também de contar com actores não-profissionais, alguns com mais de 80 anos e outros, portadores de deficiências.
“O Milwaukee é uma das cidades mais segregadas dos EUA e usámos a carrinha literalmente como um veículo que poderia ligar pessoas diferentes, de várias partes da cidade e representar a forma como a América é actualmente, mas isto é a parte filosófica. Essencialmente queríamos contar a história deste jovem que está perdido na vida e de todas as pessoas que o rodeiam e que querem estar onde precisam de estar, num dia particularmente difícil”, explicou o realizador.
No entanto, contar a história desse dia levou cinco anos, pois além de não haver ninguém interessado no financiamento, o facto de o elenco ser composto maioritariamente por actores não profissionais tornou ainda mais difícil a tarefa de angariar financiamento.
“Basicamente nos EUA não há financiamento público, é tudo privado. A maior parte do financiamento privado é ditado pelo elenco e, se não há um nome sonante o projecto está praticamente destinado a falhar”, explicou Mikhanovsky.
Mas a decisão estava a tomada e o projecto foi-se tornando “muito pessoal para ambos” pela quantidade de energia emprestada.
“A utilização de actores não profissionais é uma abordagem neo-realista que decidimos abraçar e que determinou todo o trabalho a partir daí e também a utilização de pessoas com deficiências para fazer todas as personagens que têm deficiências”, referiu Alice Austen. Este desafio, explicou a argumentista, colocou também uma “enorme pressão na escolha da actriz para o papel da Tracy”, que acabou a ser desempenhado por “Lolo” Spencer. “Pareceu-nos errado ter uma actriz a fazer o papel de uma personagem com uma deficiência, no meio de um elenco com pessoas deficientes”, disse Alice Austen.

Divina comédia

Questionado sobre a razão da utilização de um registo cómico na abordagem de temas tão sensíveis quanto variados, presentes em Give me Liberty e o desconforto que isso pode criar ao espectador, Kirill Mikhanovsky diz que “não foi propriamente uma escolha, mas sim o reflexo de uma forma de ver o mundo”, que nasceu a partir do respeito.
“Falámos muito acerca deste assunto quando estávamos a desenvolver o guião”, acrescentou Alice Austen sobre o tema. “A partir dos pontos mais trágicos encontramos muitas vezes este tipo de comédia. Para nós foi muito importante não olhar para as personagens de um ponto de vista que nos faça ter pena delas, mas de uma maneira que nos ligue a elas”, explicou.
Um dos actores do centro de apoio a pessoas com deficiência, o Eisenhower Center, onde foram gravadas várias cenas de Give me Liberty, queria inclusivamente, conta Alice Austen, cantar de forma irónica, a música “If I only had a brain” do Feiticeiro de Oz. “Estamos a lidar com pessoas que têm a capacidade de se rir de si próprias.
“Na minha opinião, a única forma de lidar com a realidade e com os eventos trágicos das nossas vidas é através da comédia”, acrescentou Kirill Mikhanovsky. “É a única maneira de enfrentar o drama, de o confrontar e sobreviver. Isto pode soar estranho, mas vem do amor. Se amarmos e respeitarmos estas pessoas, o humor vai nascer a partir do amor e do respeito”.

Ficção-científica na RAEM?

Durante o processo de criação de Give me Liberty, Kirill Mikhanovsky e Alice Austen chegaram a concluir o argumento para um thriller de ficção-científica que acabaram por colocar de parte.
Agora, passados cinco anos, tanto o realizador como a argumentista querem retomar o projecto e equacionam mesmo gravar algumas partes em Macau.
“Eu e a Alice escrevemos um thriller de ficção científica que queremos retomar agora e, tantos anos depois, achamos que é um trabalho sofisticado, onde Macau se enquadra perfeitamente”, afirmou Kirill Mikhanovsky.
“Estivemos a ver Macau e achámos que partes deste novo projecto podem ser gravadas aqui. Talvez o festival queira de alguma forma fazer parte disso”, acrescentou Alice Austen. “Seria muito entusiasmante usar o tempo que estamos aqui para nos sentarmos e falarmos sobre esta possibilidade de colaboração. Por isso, quem sabe?”, acrescentou.

10 Dez 2019

Competição Internacional | Realizador de Give me Liberty quer fazer próximo filme em Macau

A perseverança de Kirill Mikhanovsky e Alice Austen foi levada ao limite para que Give me Liberty fosse uma realidade. O filme, que levou cerca de cinco anos a produzir, contou quase com tantos contratempos como uma conturbada viagem de carrinha pelo Milwaukee. O realizador russo e a argumentista norte-americana contaram ao HM todos os percalços de um filme que centra a sua autenticidade num elenco de actores não profissionais

 

A dada altura, ao fim de três anos, quando estávamos prestes a começar a gravar, perdemos todo o financiamento, até que um bilionário disse que financiava o filme na totalidade, se o fizéssemos em Detroit. E nós recusámos. Claro que pensámos se não estaríamos a ser estúpidos pois não encontrámos financiamento em mais lado nenhum no Milwaukee”, disse Kirill Mikhanovsky, realizador de Give me Liberty, filme a concurso na Competição Internacional do IFFAM. “Tivemos de ser muito fortes para continuar”, explicou.

A vida pode ser uma viagem no interior de uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde. Pelo menos é este o entender de Kirill Mikhanovsky e da argumentista Alice Austen, acerca de Give me Liberty, o qual fizeram questão que fosse passado no Milwaukee, EUA, e que contasse a história de uma personagem local. Além disso, o filme teria também de contar com actores não-profissionais, alguns com mais de 80 anos e outros, portadores de deficiências.

“O Milwaukee é uma das cidades mais segregadas dos EUA e usámos a carrinha literalmente como um veículo que poderia ligar pessoas diferentes, de várias partes da cidade e representar a forma como a América é actualmente, mas isto é a parte filosófica. Essencialmente queríamos contar a história deste jovem que está perdido na vida e de todas as pessoas que o rodeiam e que querem estar onde precisam de estar, num dia particularmente difícil”, explicou o realizador.

No entanto, contar a história desse dia levou cinco anos, pois além de não haver ninguém interessado no financiamento, o facto de o elenco ser composto maioritariamente por actores não profissionais tornou ainda mais difícil a tarefa de angariar financiamento.

“Basicamente nos EUA não há financiamento público, é tudo privado. A maior parte do financiamento privado é ditado pelo elenco e, se não há um nome sonante o projecto está praticamente destinado a falhar”, explicou Mikhanovsky.

Mas a decisão estava a tomada e o projecto foi-se tornando “muito pessoal para ambos” pela quantidade de energia emprestada.

“A utilização de actores não profissionais é uma abordagem neo-realista que decidimos abraçar e que determinou todo o trabalho a partir daí e também a utilização de pessoas com deficiências para fazer todas as personagens que têm deficiências”, referiu Alice Austen. Este desafio, explicou a argumentista, colocou também uma “enorme pressão na escolha da actriz para o papel da Tracy”, que acabou a ser desempenhado por “Lolo” Spencer. “Pareceu-nos errado ter uma actriz a fazer o papel de uma personagem com uma deficiência, no meio de um elenco com pessoas deficientes”, disse Alice Austen.

Divina comédia

Questionado sobre a razão da utilização de um registo cómico na abordagem de temas tão sensíveis quanto variados, presentes em Give me Liberty e o desconforto que isso pode criar ao espectador, Kirill Mikhanovsky diz que “não foi propriamente uma escolha, mas sim o reflexo de uma forma de ver o mundo”, que nasceu a partir do respeito.

“Falámos muito acerca deste assunto quando estávamos a desenvolver o guião”, acrescentou Alice Austen sobre o tema. “A partir dos pontos mais trágicos encontramos muitas vezes este tipo de comédia. Para nós foi muito importante não olhar para as personagens de um ponto de vista que nos faça ter pena delas, mas de uma maneira que nos ligue a elas”, explicou.

Um dos actores do centro de apoio a pessoas com deficiência, o Eisenhower Center, onde foram gravadas várias cenas de Give me Liberty, queria inclusivamente, conta Alice Austen, cantar de forma irónica, a música “If I only had a brain” do Feiticeiro de Oz. “Estamos a lidar com pessoas que têm a capacidade de se rir de si próprias.

“Na minha opinião, a única forma de lidar com a realidade e com os eventos trágicos das nossas vidas é através da comédia”, acrescentou Kirill Mikhanovsky. “É a única maneira de enfrentar o drama, de o confrontar e sobreviver. Isto pode soar estranho, mas vem do amor. Se amarmos e respeitarmos estas pessoas, o humor vai nascer a partir do amor e do respeito”.

Ficção-científica na RAEM?

Durante o processo de criação de Give me Liberty, Kirill Mikhanovsky e Alice Austen chegaram a concluir o argumento para um thriller de ficção-científica que acabaram por colocar de parte.

Agora, passados cinco anos, tanto o realizador como a argumentista querem retomar o projecto e equacionam mesmo gravar algumas partes em Macau.

“Eu e a Alice escrevemos um thriller de ficção científica que queremos retomar agora e, tantos anos depois, achamos que é um trabalho sofisticado, onde Macau se enquadra perfeitamente”, afirmou Kirill Mikhanovsky.

“Estivemos a ver Macau e achámos que partes deste novo projecto podem ser gravadas aqui. Talvez o festival queira de alguma forma fazer parte disso”, acrescentou Alice Austen. “Seria muito entusiasmante usar o tempo que estamos aqui para nos sentarmos e falarmos sobre esta possibilidade de colaboração. Por isso, quem sabe?”, acrescentou.

10 Dez 2019

Paulo Branco, produtor de cinema: “Este festival foi uma ideia minha”

Há 10 anos atrás sentiu que era importante criar em Macau uma janela cultural forte através de um festival de cinema e chegou mesmo, segundo o próprio, a dar o mote para o projecto. Não querendo “assumir a paternidade” do IFFAM, Paulo Branco, produtor do filme português “A Herdade”, falou ao HM acerca do contributo que a Ásia tem dado à arte cinematográfica, das novas plataformas digitais, mas também de uma carreira marcada pela presença incontornável do realizador Manoel de Oliveira

EEstudou engenharia no Técnico, até 1971, três anos antes do 25 de Abril. O que aconteceu na sua vida para enveredar pelo cinema?
Isso é quase um filme. Foi uma sucessão de acasos mas, sobretudo, o facto de ter descoberto, como cinéfilo, a sétima arte. A certa altura, comecei a ter um prazer enorme em ver filmes, em descobrir e foi isso que me levou à produção. Nunca na minha vida pensei ser produtor e aqui estou, ao fim de 40 anos. Encontrei um espaço onde, de certa maneira, e eu sou uma pessoa extremamente anárquica, tento transformar os sonhos dos realizadores em realidade. Por isso tenho que ter um lado concreto e isso é uma batalha diária comigo próprio, ou seja, fazer com que os filmes existam e depois ocupar-me deles, de maneira a dar-lhes uma visibilidade para que possam existir.

Lembra-se que obras o fizeram apaixonar-se pelo cinema?
Talvez a primeira tenha sido o “Rio Bravo” de Howard Hawks. Lembro-me também de ter visto, quando era muito jovem, “As aventuras de Robin dos Bosques” com o Errol Flynn e ter ficado traumatizado porque a projecção parou a meio e só muitos anos depois consegui rever o filme. Mas isto são só pequenas recordações. Tive depois a sorte de encontrar pessoas do meio e de me começar a fascinar sobre como é que um filme se torna realidade e, mais tarde, houve alguém que me desafiou para ser produtor e eu, mesmo sem saber nada do que era a produção, lancei-me. E ainda não sei, estou a aprender todos os dias.

A figura de Manoel de Oliveira foi determinante na sua vida e carreira. Como começou esta relação e que lições guarda do grande mestre Oliveira?
Conheci-o através de outros realizadores da altura, o António Pedro Vasconcelos e o Paulo Rocha e cheguei a encontrar-me uma ou duas vezes com ele por acaso, quando ainda era um miúdo. Penso que, nessa altura, nem sequer reparou em mim. Depois, a dada altura, estava eu em Paris, quando o Manoel de Oliveira foi extremamente atacado em Portugal com a Obra “Amor de Perdição”, que tinha passado na televisão. Nessa altura resolvi estrear o filme em Paris porque gostei imenso e, foi um sucesso tal ao nível da crítica, que acabou por ter uma enorme influência, fazendo com que o Manoel de Oliveira voltasse a ser considerado como alguém que ainda poderia dar muito ao cinema. Foi aí que ele veio ter comigo a perguntar se eu queria produzir a próxima obra dele, porque nessa altura o Instituto Português do Cinema começou a exigir produtores para os filmes. Daí nasceu o “Francisca” e também uma relação que foi absolutamente essencial, pois estava a trabalhar com um dos grandes senhores do cinema mundial e, por outro lado, o Manoel era uma lição de vida permanente, porque era alguém que, mesmo com a idade que tinha, acabava por arriscar mais do que qualquer outra pessoa. Isso foi para mim extremamente importante, ou seja, ter um dia a dia, durante vinte e tal anos, com alguém que nunca estava contente e queria sempre fazer mais e continuar, mesmo até ao fim da sua vida.

Todos os cinéfilos têm filmes recorrentes aos quais retornam como quem regressa a casa com saudades das personagens, dos cenários… quais são os seus filmes recorrentes e porquê?
Há muitos filmes da história do cinema, dos grandes, que eu gosto de rever e depois há outros que já vi 30 ou 40 vezes. Um filme que eu conheço de cor e salteado é o “The Searchers”, do John Ford. Outro menos conhecido mas que aborda um tema que a mim sempre me fascinou, é o “Lilith”, de Robert Rossen, que pouca gente conhece mas que é um grande filme. Ainda há pouco tempo revi um filme extraordinário do Douglas Sirk, “The Tarnished Angels”, que é uma adaptação de um romance do William Faulkner. Depois há outros. Estou a falar mais nos filmes americanos porque do cinema europeu logicamente que revejo eternamente os filmes do Rossellini e os filmes do Renoir. Portanto, há sempre uma relação com toda essa cinematografia que, ao rever agora um filme como o “Roma, Cidade Aberta” ou o “Alemanha, Ano Zero”, percebe-se que todo cinema moderno nasceu do Rosselini. Ou ao rever um clássico como “Le Carrosse d’Or” do Renoir, percebe-se que a grande relação que existe entre o teatro e a vida, foi ele que nos ensinou. O cinema sempre foi uma fonte para mim, não só de prazer, mas também de descoberta, que me permitiu não ter medo de arriscar e de estar sempre à procura de novos territórios, até mesmo para a minha própria vivência pessoal. Tento aproveitar este dom magnífico ao máximo, de ainda estar aqui apesar de ter 69 anos.

O que nos pode dizer sobre o processo de produção de “A Herdade”?
Foi muito particular porque é um projecto que já queria fazer há muitos anos, de uma grande ficção, a partir da herdade de uma grande família que atravessa um período pouco retratado no cinema português que é o lado dos grandes latifundiários, das grandes famílias e da forma como tudo isso passou do feudalismo aos tempos modernos, trazendo todas as feridas abertas e destruições que existiram, infelizmente, com essa evolução natural da sociedade. O filme retrata um personagem que é um sedutor nato, bigger than life, patriarca no sentido antigo do próprio conceito e que, ao mesmo tempo, tem um poder de destruição enorme porque a atenção que tem para determinadas situações da sua herdade, não tem, em termos pessoais, com a sua família. São todas essas contradições que fazem com que o filme tenha uma emoção e uma capacidade de prender os espectadores e de fazer um retrato extremamente forte de todos os personagens que existem nesta história.

Desde o próprio João Fernandes, que é realmente o patriarca, mas também a personagem da mulher, os filhos, as pessoas que trabalham na herdade, há ali um lado, uma tensão e uma evolução dos personagens que penso que traz algo de novo ao cinema português e é isso que penso que transformou este filme num grande êxito em Portugal e lhe conferiu também uma dimensão internacional. Apesar de ser um filme que só fala de algo que se passou connosco no nosso país, há esse lado universal e melodramático e essa tensão.

Que ideia tem do Festival de Cinema de Macau e que margem de progressão em termos de projeção mundial acha que pode vir a ter?
Sabe, este festival foi uma ideia minha, que eu trouxe aqui há 10 anos ao Alexi Tan. Foi a partir de mim que eles depois convidaram o Marco Müller para a primeira edição, portanto há 10 anos atrás senti que havia aqui talvez uma possibilidade. Como me estava a divertir com o meu festival lá em Portugal pensei: “porque é que não vou propor isto a Macau?”. Eu vim, só que depois, o Marco Müller era para ter estruturado a ideia e vá… faltou-me a paciência, como se costuma dizer. Depois vim cá ver que isto agora é uma realidade, mas os princípios que eu na altura achava importantes, como a atenção ao cinema asiático, a possibilidade de haver uma competição de primeiras e segundas obras, tudo isso já estava um pouco no projecto inicial. Logicamente que transformaram isso depois. Mas acho que na altura sentia-se que era importante que houvesse aqui uma janela cultural forte e que um festival de cinema podia trazer isso. Não quero de maneira nenhuma assumir a paternidade do festival, simplesmente dizer que estou extremamente satisfeito que Macau tenha, neste momento, um festival. Agora, não me cabe a mim dizer qual é a dimensão que ele está a ter ou não. Estou aqui porque para mim era extremamente importante que os portugueses de Macau pudessem ver “A Herdade” numa sala de cinema.

Acabou a resposta anterior a falar em sala de cinema. Como vê a transição da sala de cinema para o pequeno ecrã liderada por plataformas como a Netflix? Podemos chamar a isto cinema?
Para já não vejo, porque nem sequer computador tenho. É uma questão muito prática. Por outro lado, qualquer realização de ficção, quer seja para cinema ou televisão, pode ser considerada cinema. Mas, no grande ecrã a atenção e o respeito são diferentes. Podemos dizer que há um gesto do próprio espectador, há o ir ao cinema que é, penso, essencial. É a mesma coisa, por exemplo, que ver as obras de arte todas que quiser na internet, mas outra coisa é ir mesmo vê-las. Agora não quero dizer se é cinema, isso são coisas que deixo depois para historiadores e filósofos. Mas é um prazer que é diferente e que ainda por cima, não nos permite estar distraídos pelas 50 mil coisas que acontecem ao mesmo tempo que se está a ver um filme na televisão ou num computador. Na sala de cinema as pessoas estão atentas a tudo, até mesmo aos ventos, aos silêncios e tudo que, ao ver na televisão, passa muito mais despercebido. A maior parte do que é construído para televisão tem, e não falo já nas plataformas, mas nas ficções televisivas, um ritmo especial para as pessoas não fazerem zapping e portanto, isso já formatiza de certa maneira um pouco o modelo. Por isso é que eu não sou adepto das séries, já sabemos exactamente qual é o ritmo, e o lado inventivo que o cinema sempre trouxe perde-se, talvez não nos conteúdos mas, em termos formais. Há excepções como o Twin Peaks, do David Lynch, mas isso é uma pessoa que já demonstrou que qualquer terreno para onde vá, é absolutamente extraordinário.

Como vê o cinema feito na China, sobretudo pelas novas gerações?
Houve um grande boom, não só do cinema chinês, mas no cinema asiático nos anos 80, que trouxe um olhar diferente em termos estéticos e de conteúdo daquilo que era feito. É preciso não esquecer que a grande cinematografia sempre esteve na China com o Mizoguchi, Kurosawa, Ozu, mas depois houve uma nova geração que começou a aparecer em Hong Kong, China, Coreia e que se começou a impor ao mundo. Neste momento, há um espaço para o cinema asiático fantástico porque já existe uma diversidade extraordinária de cineastas que são fortíssimos e que têm uma obra extremamente pessoal e que escapa a uma tentativa de controlo industrial. Essa luta existe sempre, seja em que continente for, mas a Ásia consegue realmente impor-se como região que tem dado ao cinema obras incríveis e que, neste momento, fazem avançar a arte cinematográfica.

Até que ponto é necessária alguma loucura para levar avante uma carreira enquanto produtor de cinema independente? Recorda-se do filme que o levou mais perto da loucura e porquê?
Isso acontece-me todos os dias ainda agora e não sei como é que o dia seguinte se vai passar. Adaptei-me a isso e sobretudo a estar pronto a todas as surpresas que possam acontecer e é também a minha maneira de acompanhar o risco artístico que têm os realizadores com quem trabalho. Era fácil demais eu estar numa situação confortável e eles, pelo que são e pelo que querem transmitir, estarem numa situação desconfortável. Fazer uma obra cinematográfica exige da parte deles um risco permanente para que possa resultar nalguma coisa de interessante. Nas situações difíceis eu vou sempre para a frente, não há tempo suficiente para ir ali para uma ponte saber se me deito para o rio ou não.

Tem ideia do número de filmes que produziu em quase 40 anos de carreira? No IMDB, enfim, vale o que vale, a conta dos filmes em que aparece como produtor nos créditos é 278. Como é que isto é possível?
É um bocadinho mais do que isso, mas não faço a mínima ideia. Isso não me cabe a mim responder. Que eles existem, existem. Que eu conheço todos, conheço. Que tenho uma relação pessoal com os filmes todos, também tenho. Posso contar histórias com cada um deles que ainda não me esqueci de nenhum, mesmo aqueles que infelizmente não esqueci. Mas pronto, isso vai-se construindo. É a mesma coisa quando se tem filhos, e eu tenho quatro, e, de repente, dizer, “olha, gostaria de ter mais”. E com os filmes é um pouco a mesma coisa.

10 Dez 2019

Novo Cinema Chinês | Um admirável mundo por descobrir

Considerado por muitos como um dos melhores realizadores da actualidade, o romeno Cristian Mungiu, que em 2007 venceu a Palma de Ouro em Cannes, é o Presidente de júri da competição dedicada ao Novo Cinema Chinês. Para o realizador do leste europeu, o futuro está nos jovens e, pela amostra dos sete filmes em competição no IFFAM, a Oriente este deverá ser risonho
“Gostaria que mais filmes chineses participassem em festivais. Estou muito curioso para saber qual o futuro do cinema chinês”, referiu o Presidente de júri do Novo Cinema Chinês, Cristian Mungiu, que vê em eventos como o IFFAM, oportunidades únicas para ver o que aí vem. “Fui júri em muitos festivais na Ásia e acho o panorama chinês muito interessante porque os temas tratados abordam sempre algo que todos temos em comum e esta semana esse interesse vai aumentar ainda mais, pois vamos também receber alguns realizadores de Macau”.
Além disso, o realizador que venceu a Palma de Ouro em Cannes com o filme” 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” diz encontrar no contacto com os mais jovens as pistas necessárias para ter um vislumbre mais claro daquilo que será o cinema. “A comunicação com os jovens é sempre muito boa. Para mim, pelo menos, a opinião deles é sempre muito refrescante. É preciso reinventar e contar histórias pelas quais continuamos atraídos e estou contente que a nova geração não queira trabalhar da mesma forma que nós trabalhámos”, apontou Cristian Mungiu.
Sobre se o facto de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes contribuiu de alguma forma para o desenvolvimento do cinema no seu país natal, Cristian Mungiu apontou que “as pessoas ficaram muito contentes e orgulhosas, mas que, na realidade, nada mudou na forma como a distribuição passou a ser feita”, confessou.

Em expansão

Quanto à expansão que o cinema chinês tem vindo a desenvolver, o canadiano Noah Cowan destacou o tema comum, que surge muitas vezes nas obras cinematográficas do país: a família. Tema esse que tem vindo a ser contado de diferentes formas, a partir de regiões distintas da China.
“Nos últimos anos, além de Xangai, também Hong Kong e Taiwan começaram a realizar filmes e abordam sempre o tópico da família. Acho que este tema não é de um lugar em especifico”, apontou Noah Cowan.
Além de Cristian Mungiu e de Noah Cowan, fazem também parte do painel do júri, Yang Qiu, Kirsten Tan e Tricia Tuttle. A concorrer na competição do Novo Cinema Chinês na 4ª edição do IFFAM estão Better Days (Hong Kong e China), Over the Sea (China), Wisdom Tooth (China), Lucky Grandma (US), Dwelling in the Fuchun Mountains (China), To Live to Sing (China e França) e Wet Season (Singapura).

9 Dez 2019

Novo Cinema Chinês | Um admirável mundo por descobrir

Considerado por muitos como um dos melhores realizadores da actualidade, o romeno Cristian Mungiu, que em 2007 venceu a Palma de Ouro em Cannes, é o Presidente de júri da competição dedicada ao Novo Cinema Chinês. Para o realizador do leste europeu, o futuro está nos jovens e, pela amostra dos sete filmes em competição no IFFAM, a Oriente este deverá ser risonho

“Gostaria que mais filmes chineses participassem em festivais. Estou muito curioso para saber qual o futuro do cinema chinês”, referiu o Presidente de júri do Novo Cinema Chinês, Cristian Mungiu, que vê em eventos como o IFFAM, oportunidades únicas para ver o que aí vem. “Fui júri em muitos festivais na Ásia e acho o panorama chinês muito interessante porque os temas tratados abordam sempre algo que todos temos em comum e esta semana esse interesse vai aumentar ainda mais, pois vamos também receber alguns realizadores de Macau”.

Além disso, o realizador que venceu a Palma de Ouro em Cannes com o filme” 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” diz encontrar no contacto com os mais jovens as pistas necessárias para ter um vislumbre mais claro daquilo que será o cinema. “A comunicação com os jovens é sempre muito boa. Para mim, pelo menos, a opinião deles é sempre muito refrescante. É preciso reinventar e contar histórias pelas quais continuamos atraídos e estou contente que a nova geração não queira trabalhar da mesma forma que nós trabalhámos”, apontou Cristian Mungiu.

Sobre se o facto de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes contribuiu de alguma forma para o desenvolvimento do cinema no seu país natal, Cristian Mungiu apontou que “as pessoas ficaram muito contentes e orgulhosas, mas que, na realidade, nada mudou na forma como a distribuição passou a ser feita”, confessou.

Em expansão

Quanto à expansão que o cinema chinês tem vindo a desenvolver, o canadiano Noah Cowan destacou o tema comum, que surge muitas vezes nas obras cinematográficas do país: a família. Tema esse que tem vindo a ser contado de diferentes formas, a partir de regiões distintas da China.

“Nos últimos anos, além de Xangai, também Hong Kong e Taiwan começaram a realizar filmes e abordam sempre o tópico da família. Acho que este tema não é de um lugar em especifico”, apontou Noah Cowan.

Além de Cristian Mungiu e de Noah Cowan, fazem também parte do painel do júri, Yang Qiu, Kirsten Tan e Tricia Tuttle. A concorrer na competição do Novo Cinema Chinês na 4ª edição do IFFAM estão Better Days (Hong Kong e China), Over the Sea (China), Wisdom Tooth (China), Lucky Grandma (US), Dwelling in the Fuchun Mountains (China), To Live to Sing (China e França) e Wet Season (Singapura).

9 Dez 2019

Maria Helena de Senna Fernandes, sobre festival de cinema: "Temos ganho popularidade”

A Directora dos Serviços de Turismo e Presidente da comissão organizadora do IFFAM, Maria Helena de Senna Fernandes mostrou-se confiante na qualidade da programação apresentada e afirmou mesmo que o Festival Internacional de Cinema de Macau tem conseguido alcançar novos patamares.
“Acho que a cada edição o festival tem crescido e, para além disso, temos ganho popularidade, não só em Macau, mas também lá fora. Só por isso, podemos dizer que temos trabalhado para a construção de um bom projecto”, apontou, à margem da conferência de imprensa dedicada à apresentação do júri da competição internacional.
Maria Helena de Senna Fernandes revelou também confiança máxima na relação existente com os responsáveis artísticos do festival, pontificada na colaboração com o Director artístico do IFFAM, Mike Goodridge.
“Temos uma boa colaboração com direcção artística, que é muito forte na escolha que faz dos filmes e na ligação que consegue fazer entre Macau e os realizadores de todo o mundo. Espero agora que o público de Macau venha ver os filmes seleccionados”, referiu.
Embora satisfeita com o percurso feito até ao momento, Maria Helena de Senna Fernandes não confirmou, contudo, a continuidade do projecto IFFAM para os próximos anos. Segundo a responsável, é preciso ouvir o que os dirigentes do novo Executivo têm a dizer.
“Não sei, ainda não tive a oportunidade de falar com a minha nova chefe, por isso logo se vê. É preciso ver se a colaboração é para manter e, sobretudo, o que acha o novo Governo porque eu não tenho voto na matéria nessa parte”, explicou.

9 Dez 2019

Maria Helena de Senna Fernandes, sobre festival de cinema: “Temos ganho popularidade”

A Directora dos Serviços de Turismo e Presidente da comissão organizadora do IFFAM, Maria Helena de Senna Fernandes mostrou-se confiante na qualidade da programação apresentada e afirmou mesmo que o Festival Internacional de Cinema de Macau tem conseguido alcançar novos patamares.

“Acho que a cada edição o festival tem crescido e, para além disso, temos ganho popularidade, não só em Macau, mas também lá fora. Só por isso, podemos dizer que temos trabalhado para a construção de um bom projecto”, apontou, à margem da conferência de imprensa dedicada à apresentação do júri da competição internacional.

Maria Helena de Senna Fernandes revelou também confiança máxima na relação existente com os responsáveis artísticos do festival, pontificada na colaboração com o Director artístico do IFFAM, Mike Goodridge.

“Temos uma boa colaboração com direcção artística, que é muito forte na escolha que faz dos filmes e na ligação que consegue fazer entre Macau e os realizadores de todo o mundo. Espero agora que o público de Macau venha ver os filmes seleccionados”, referiu.

Embora satisfeita com o percurso feito até ao momento, Maria Helena de Senna Fernandes não confirmou, contudo, a continuidade do projecto IFFAM para os próximos anos. Segundo a responsável, é preciso ouvir o que os dirigentes do novo Executivo têm a dizer.

“Não sei, ainda não tive a oportunidade de falar com a minha nova chefe, por isso logo se vê. É preciso ver se a colaboração é para manter e, sobretudo, o que acha o novo Governo porque eu não tenho voto na matéria nessa parte”, explicou.

9 Dez 2019

Competição Internacional | Quando o cinema local abre as portas do mundo

No primeiro dia do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM na sigla inglesa) Mike Goodridge fez as honras da apresentação formal do júri da competição internacional do Festival, presidido pelo aclamado realizador de Hong Kong, Peter Chan. Diversos nas suas opiniões, o júri destacou a “primavera” do cinema asiático, a importância da genuinidade local e da forma como o cinema pode vir a encarar um futuro destinado aos “pequenos ecrãs”

 
Para conseguirmos fazer um filme excepcional, mais importante do que ouvir a nossa própria voz, é ouvir uma voz especial, uma voz que seja diferente das outras nesta indústria e estar atento às gerações mais novas”, as palavras são de Peter Chan, Presidente do júri dedicado à competição internacional do IFFAM e que terá a árdua tarefa de eleger aquele que será o vencedor, de entre os 10 filmes em concurso.
Tendo a sua obra sido rotulada inúmeras vezes de “ocidentalizada”, Peter Chan diz ter tido a sorte de ter vivido de perto a fase mais desafiante e interessante do cinema feito em Hollywood, que o inspirou irremediavelmente durante a década de 70. O realizador diz continuar a transportar essa mesma sensação, mas agora relativamente ao cinema feito na China, para o qual se encontra a trabalhar, mas também um pouco por toda a Ásia, onde cada vez mais obras começam a ganhar um lugar de destaque.
“A China é um novo horizonte e uma nova indústria onde tudo é possível. Vivemos tempos muito interessantes na Ásia e em diferentes partes da Ásia. Existem realizadores coreanos, tailandeses, indonésios. Achei o filme indonésio que vi esta manhã muito interessante, o que é uma coisa completamente nova para mim. Sinceramente, acho que o mundo se está a tornar cada vez mais interessante”, partilhou Peter Chan.
Relativamente a “Better Days”, filme realizado por  Kwok Cheung Tsang
a concurso no IFFAM, mas na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês, o presidente do painel do júri considerou que “apesar de ser comercial, é um daqueles filmes que nos têm de dar esperança acerca da China e da censura no cinema.”
“Este filme para mim foi um processo muito difícil. No interior da China é preciso passar muito tempo para ultrapassar a censura, e isto demorou mais de um ano. Mas depois, apesar de não termos grandes expectativas quando lançámos este filme, os números da venda de bilhetes ascenderam aos 250 milhões de dólares no final, o que é bom em qualquer parte do mundo”, explicou Peter Chan.
Também Midi Z, actor e realizador nascido no Myanmar, mostrou optimismo acerca do processo e deixou um conselho para os realizadores em início de carreira.
“Acho que os jovens realizadores não devem impor limites a si próprios em termos do que é um filme e o que é o cinema. Eu faço documentários, ficção e curtas metragens e para mim não há qualquer diferença. Devemos deixar a imaginação entrar nos nossos filmes”.

Eco global

“Gosto muito da ideia de fazer um filme a partir da vontade de contar algo muito genuíno, que se relaciona com o contexto e com as vivências de uma forma directa com o público local, mas que, ao mesmo tempo, é algo tão universal que pode ser partilhado em qualquer lugar do mundo”, disse Dian Sastrowardoyo, actriz e produtora originária da Indonésia que diz estar orgulhosa do filme da Competição Internacional, “Homecoming”, realizado pelo seu conterrâneo Adriyanto Dewo.
Sobre “Homecoming”, Dian Sastrowardoyo mostrou um “orgulho enorme” por ver um filme 100 por cento feito na Indonésia, no IFFAM e destacou a capacidade que a obra tem de abordar “temas locais e histórias com um background claramente indonésio”, como o papel das mulheres na sociedade e em casa ou as diferenças existentes entre classes sociais, já que a obra coloca frente a frente duas realidades muito diferentes neste aspecto. “Acho que passa uma mensagem comum, não só na Indonésia, mas também a uma escala mundial”, explicou. “Acho que o grande desafio para todos agora, é como é que podemos realizar filmes que tenham simultâneamente características locais e globais”, rematou Dian Sastrowardoyo.
Já no seu breve papel como realizadora, Dian Sastrowardoyo, apontou a importância de utilizar o cinema para promover uma mensagem social importante, ao mesmo tempo que consegue cativar o público e levá-lo a identificar-se com as personagens.
“Fizemos um filme histórico que fala sobre o sistema de ensino na Indonésia, mas que contém também vários elementos de comédia e isto acontece porque se tivéssemos realizado o filme de forma demasiado séria, o mais certo era não chegarmos à audiência relativamente às questões políticas que queríamos abordar”, explicou.
Reiterando que “não é possível dizer se um filme está certo ou se está errado, pois todos os têm diferentes características”, Peter Chan lembrou a propósito do tema, que um filme que pode parecer uma comédia, pode perfeitamente apresentar um tema social ao público.
“Temos de ter filmes de hollywood mas também outro tipo de filmes para que o público possa ter acesso a diferentes conteúdos. Filmes que façam o público rir ou chorar, mas que permitam perceber o que está a acontecer na sociedade e estabelecer pontes com os acontecimentos que estão na ordem do dia”, explicou.

Cinema de bolso?

Outro dos temas em debate entre o júri da competição internacional foi o futuro esperado para o cinema enquanto meio, que enfrenta hoje o desafio de se adaptar a uma era digital cada vez mais dominada por pequenos e poderosos ecrãs, capazes de alojar plataformas de streaming como a Netflix.
Pegando no exemplo de “O Irlandês”, filme de Martin Scorsece que estreou em exclusivo naquela plataforma, o actor e produtor Tom Cullen vincou que o benefício da passagem para o pequeno ecrã é que “permite que os conteúdos cheguem a audiências que de outra forma ficariam excluídas. Por exemplo, onde eu cresci, existia apenas uma sala de cinema e ficava a uma hora de distância de carro”, argumentou.
O actor, conhecido pelo papel de Anthony Gillingham em Downtown Abbey, frisou ainda que os produtores e realizadores “têm sabido adaptar-se às mudanças produzidas pelas novas tecnologias”, procurando ser mais específicos dado que agora a audiência pode ser o próprio mundo.

9 Dez 2019

Competição Internacional | Quando o cinema local abre as portas do mundo

No primeiro dia do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM na sigla inglesa) Mike Goodridge fez as honras da apresentação formal do júri da competição internacional do Festival, presidido pelo aclamado realizador de Hong Kong, Peter Chan. Diversos nas suas opiniões, o júri destacou a “primavera” do cinema asiático, a importância da genuinidade local e da forma como o cinema pode vir a encarar um futuro destinado aos “pequenos ecrãs”

 

Para conseguirmos fazer um filme excepcional, mais importante do que ouvir a nossa própria voz, é ouvir uma voz especial, uma voz que seja diferente das outras nesta indústria e estar atento às gerações mais novas”, as palavras são de Peter Chan, Presidente do júri dedicado à competição internacional do IFFAM e que terá a árdua tarefa de eleger aquele que será o vencedor, de entre os 10 filmes em concurso.

Tendo a sua obra sido rotulada inúmeras vezes de “ocidentalizada”, Peter Chan diz ter tido a sorte de ter vivido de perto a fase mais desafiante e interessante do cinema feito em Hollywood, que o inspirou irremediavelmente durante a década de 70. O realizador diz continuar a transportar essa mesma sensação, mas agora relativamente ao cinema feito na China, para o qual se encontra a trabalhar, mas também um pouco por toda a Ásia, onde cada vez mais obras começam a ganhar um lugar de destaque.

“A China é um novo horizonte e uma nova indústria onde tudo é possível. Vivemos tempos muito interessantes na Ásia e em diferentes partes da Ásia. Existem realizadores coreanos, tailandeses, indonésios. Achei o filme indonésio que vi esta manhã muito interessante, o que é uma coisa completamente nova para mim. Sinceramente, acho que o mundo se está a tornar cada vez mais interessante”, partilhou Peter Chan.

Relativamente a “Better Days”, filme realizado por  Kwok Cheung Tsang
a concurso no IFFAM, mas na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês, o presidente do painel do júri considerou que “apesar de ser comercial, é um daqueles filmes que nos têm de dar esperança acerca da China e da censura no cinema.”

“Este filme para mim foi um processo muito difícil. No interior da China é preciso passar muito tempo para ultrapassar a censura, e isto demorou mais de um ano. Mas depois, apesar de não termos grandes expectativas quando lançámos este filme, os números da venda de bilhetes ascenderam aos 250 milhões de dólares no final, o que é bom em qualquer parte do mundo”, explicou Peter Chan.

Também Midi Z, actor e realizador nascido no Myanmar, mostrou optimismo acerca do processo e deixou um conselho para os realizadores em início de carreira.

“Acho que os jovens realizadores não devem impor limites a si próprios em termos do que é um filme e o que é o cinema. Eu faço documentários, ficção e curtas metragens e para mim não há qualquer diferença. Devemos deixar a imaginação entrar nos nossos filmes”.

Eco global

“Gosto muito da ideia de fazer um filme a partir da vontade de contar algo muito genuíno, que se relaciona com o contexto e com as vivências de uma forma directa com o público local, mas que, ao mesmo tempo, é algo tão universal que pode ser partilhado em qualquer lugar do mundo”, disse Dian Sastrowardoyo, actriz e produtora originária da Indonésia que diz estar orgulhosa do filme da Competição Internacional, “Homecoming”, realizado pelo seu conterrâneo Adriyanto Dewo.

Sobre “Homecoming”, Dian Sastrowardoyo mostrou um “orgulho enorme” por ver um filme 100 por cento feito na Indonésia, no IFFAM e destacou a capacidade que a obra tem de abordar “temas locais e histórias com um background claramente indonésio”, como o papel das mulheres na sociedade e em casa ou as diferenças existentes entre classes sociais, já que a obra coloca frente a frente duas realidades muito diferentes neste aspecto. “Acho que passa uma mensagem comum, não só na Indonésia, mas também a uma escala mundial”, explicou. “Acho que o grande desafio para todos agora, é como é que podemos realizar filmes que tenham simultâneamente características locais e globais”, rematou Dian Sastrowardoyo.

Já no seu breve papel como realizadora, Dian Sastrowardoyo, apontou a importância de utilizar o cinema para promover uma mensagem social importante, ao mesmo tempo que consegue cativar o público e levá-lo a identificar-se com as personagens.

“Fizemos um filme histórico que fala sobre o sistema de ensino na Indonésia, mas que contém também vários elementos de comédia e isto acontece porque se tivéssemos realizado o filme de forma demasiado séria, o mais certo era não chegarmos à audiência relativamente às questões políticas que queríamos abordar”, explicou.

Reiterando que “não é possível dizer se um filme está certo ou se está errado, pois todos os têm diferentes características”, Peter Chan lembrou a propósito do tema, que um filme que pode parecer uma comédia, pode perfeitamente apresentar um tema social ao público.

“Temos de ter filmes de hollywood mas também outro tipo de filmes para que o público possa ter acesso a diferentes conteúdos. Filmes que façam o público rir ou chorar, mas que permitam perceber o que está a acontecer na sociedade e estabelecer pontes com os acontecimentos que estão na ordem do dia”, explicou.

Cinema de bolso?

Outro dos temas em debate entre o júri da competição internacional foi o futuro esperado para o cinema enquanto meio, que enfrenta hoje o desafio de se adaptar a uma era digital cada vez mais dominada por pequenos e poderosos ecrãs, capazes de alojar plataformas de streaming como a Netflix.

Pegando no exemplo de “O Irlandês”, filme de Martin Scorsece que estreou em exclusivo naquela plataforma, o actor e produtor Tom Cullen vincou que o benefício da passagem para o pequeno ecrã é que “permite que os conteúdos cheguem a audiências que de outra forma ficariam excluídas. Por exemplo, onde eu cresci, existia apenas uma sala de cinema e ficava a uma hora de distância de carro”, argumentou.

O actor, conhecido pelo papel de Anthony Gillingham em Downtown Abbey, frisou ainda que os produtores e realizadores “têm sabido adaptar-se às mudanças produzidas pelas novas tecnologias”, procurando ser mais específicos dado que agora a audiência pode ser o próprio mundo.

9 Dez 2019

Competição Internacional | Quando o cinema local abre as portas do mundo

No primeiro dia do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM na sigla inglesa) Mike Goodridge fez as honras da apresentação formal do júri da competição internacional do Festival, presidido pelo aclamado realizador de Hong Kong, Peter Chan. Diversos nas suas opiniões, o júri destacou a “primavera” do cinema asiático, a importância da genuinidade local e da forma como o cinema pode vir a encarar um futuro destinado aos “pequenos ecrãs”

 
Para conseguirmos fazer um filme excepcional, mais importante do que ouvir a nossa própria voz, é ouvir uma voz especial, uma voz que seja diferente das outras nesta indústria e estar atento às gerações mais novas”, as palavras são de Peter Chan, Presidente do júri dedicado à competição internacional do IFFAM e que terá a árdua tarefa de eleger aquele que será o vencedor, de entre os 10 filmes em concurso.
Tendo a sua obra sido rotulada inúmeras vezes de “ocidentalizada”, Peter Chan diz ter tido a sorte de ter vivido de perto a fase mais desafiante e interessante do cinema feito em Hollywood, que o inspirou irremediavelmente durante a década de 70. O realizador diz continuar a transportar essa mesma sensação, mas agora relativamente ao cinema feito na China, para o qual se encontra a trabalhar, mas também um pouco por toda a Ásia, onde cada vez mais obras começam a ganhar um lugar de destaque.
“A China é um novo horizonte e uma nova indústria onde tudo é possível. Vivemos tempos muito interessantes na Ásia e em diferentes partes da Ásia. Existem realizadores coreanos, tailandeses, indonésios. Achei o filme indonésio que vi esta manhã muito interessante, o que é uma coisa completamente nova para mim. Sinceramente, acho que o mundo se está a tornar cada vez mais interessante”, partilhou Peter Chan.
Relativamente a “Better Days”, filme realizado por  Kwok Cheung Tsang, a concurso no IFFAM, mas na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês, o presidente do painel do júri considerou que “apesar de ser comercial, é um daqueles filmes que nos têm de dar esperança acerca da China e da censura no cinema.”
“Este filme para mim foi um processo muito difícil. No interior da China é preciso passar muito tempo para ultrapassar a censura, e isto demorou mais de um ano. Mas depois, apesar de não termos grandes expectativas quando lançámos este filme, os números da venda de bilhetes ascenderam aos 250 milhões de dólares no final, o que é bom em qualquer parte do mundo”, explicou Peter Chan.
Também Midi Z, actor e realizador nascido no Myanmar, mostrou optimismo acerca do processo e deixou um conselho para os realizadores em início de carreira.
“Acho que os jovens realizadores não devem impor limites a si próprios em termos do que é um filme e o que é o cinema. Eu faço documentários, ficção e curtas metragens e para mim não há qualquer diferença. Devemos deixar a imaginação entrar nos nossos filmes”.

Eco global

“Gosto muito da ideia de fazer um filme a partir da vontade de contar algo muito genuíno, que se relaciona com o contexto e com as vivências de uma forma directa com o público local, mas que, ao mesmo tempo, é algo tão universal que pode ser partilhado em qualquer lugar do mundo”, disse Dian Sastrowardoyo, actriz e produtora originária da Indonésia que diz estar orgulhosa do filme da Competição Internacional, “Homecoming”, realizado pelo seu conterrâneo Adriyanto Dewo.
Sobre “Homecoming”, Dian Sastrowardoyo mostrou um “orgulho enorme” por ver um filme 100 por cento feito na Indonésia, no IFFAM e destacou a capacidade que a obra tem de abordar “temas locais e histórias com um background claramente indonésio”, como o papel das mulheres na sociedade e em casa ou as diferenças existentes entre classes sociais, já que a obra coloca frente a frente duas realidades muito diferentes neste aspecto. “Acho que passa uma mensagem comum, não só na Indonésia, mas também a uma escala mundial”, explicou. “Acho que o grande desafio para todos agora, é como é que podemos realizar filmes que tenham simultâneamente características locais e globais”, rematou Dian Sastrowardoyo.
Já no seu breve papel como realizadora, Dian Sastrowardoyo, apontou a importância de utilizar o cinema para promover uma mensagem social importante, ao mesmo tempo que consegue cativar o público e levá-lo a identificar-se com as personagens.
“Fizemos um filme histórico que fala sobre o sistema de ensino na Indonésia, mas que contém também vários elementos de comédia e isto acontece porque se tivéssemos realizado o filme de forma demasiado séria, o mais certo era não chegarmos à audiência relativamente às questões políticas que queríamos abordar”, explicou.
Reiterando que “não é possível dizer se um filme está certo ou se está errado, pois todos os têm diferentes características”, Peter Chan lembrou a propósito do tema, que um filme que pode parecer uma comédia, pode perfeitamente apresentar um tema social ao público.
“Temos de ter filmes de hollywood mas também outro tipo de filmes para que o público possa ter acesso a diferentes conteúdos. Filmes que façam o público rir ou chorar, mas que permitam perceber o que está a acontecer na sociedade e estabelecer pontes com os acontecimentos que estão na ordem do dia”, explicou.

Cinema de bolso?

Outro dos temas em debate entre o júri da competição internacional foi o futuro esperado para o cinema enquanto meio, que enfrenta hoje o desafio de se adaptar a uma era digital cada vez mais dominada por pequenos e poderosos ecrãs, capazes de alojar plataformas de streaming como a Netflix.
Pegando no exemplo de “O Irlandês”, filme de Martin Scorsece que estreou em exclusivo naquela plataforma, o actor e produtor Tom Cullen vincou que o benefício da passagem para o pequeno ecrã é que “permite que os conteúdos cheguem a audiências que de outra forma ficariam excluídas. Por exemplo, onde eu cresci, existia apenas uma sala de cinema e ficava a uma hora de distância de carro”, argumentou.
O actor, conhecido pelo papel de Anthony Gillingham em Downtown Abbey, frisou ainda que os produtores e realizadores “têm sabido adaptar-se às mudanças produzidas pelas novas tecnologias”, procurando ser mais específicos dado que agora a audiência pode ser o próprio mundo.

9 Dez 2019

Competição Internacional | Quando o cinema local abre as portas do mundo

No primeiro dia do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM na sigla inglesa) Mike Goodridge fez as honras da apresentação formal do júri da competição internacional do Festival, presidido pelo aclamado realizador de Hong Kong, Peter Chan. Diversos nas suas opiniões, o júri destacou a “primavera” do cinema asiático, a importância da genuinidade local e da forma como o cinema pode vir a encarar um futuro destinado aos “pequenos ecrãs”

 

Para conseguirmos fazer um filme excepcional, mais importante do que ouvir a nossa própria voz, é ouvir uma voz especial, uma voz que seja diferente das outras nesta indústria e estar atento às gerações mais novas”, as palavras são de Peter Chan, Presidente do júri dedicado à competição internacional do IFFAM e que terá a árdua tarefa de eleger aquele que será o vencedor, de entre os 10 filmes em concurso.

Tendo a sua obra sido rotulada inúmeras vezes de “ocidentalizada”, Peter Chan diz ter tido a sorte de ter vivido de perto a fase mais desafiante e interessante do cinema feito em Hollywood, que o inspirou irremediavelmente durante a década de 70. O realizador diz continuar a transportar essa mesma sensação, mas agora relativamente ao cinema feito na China, para o qual se encontra a trabalhar, mas também um pouco por toda a Ásia, onde cada vez mais obras começam a ganhar um lugar de destaque.

“A China é um novo horizonte e uma nova indústria onde tudo é possível. Vivemos tempos muito interessantes na Ásia e em diferentes partes da Ásia. Existem realizadores coreanos, tailandeses, indonésios. Achei o filme indonésio que vi esta manhã muito interessante, o que é uma coisa completamente nova para mim. Sinceramente, acho que o mundo se está a tornar cada vez mais interessante”, partilhou Peter Chan.

Relativamente a “Better Days”, filme realizado por  Kwok Cheung Tsang, a concurso no IFFAM, mas na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês, o presidente do painel do júri considerou que “apesar de ser comercial, é um daqueles filmes que nos têm de dar esperança acerca da China e da censura no cinema.”

“Este filme para mim foi um processo muito difícil. No interior da China é preciso passar muito tempo para ultrapassar a censura, e isto demorou mais de um ano. Mas depois, apesar de não termos grandes expectativas quando lançámos este filme, os números da venda de bilhetes ascenderam aos 250 milhões de dólares no final, o que é bom em qualquer parte do mundo”, explicou Peter Chan.

Também Midi Z, actor e realizador nascido no Myanmar, mostrou optimismo acerca do processo e deixou um conselho para os realizadores em início de carreira.

“Acho que os jovens realizadores não devem impor limites a si próprios em termos do que é um filme e o que é o cinema. Eu faço documentários, ficção e curtas metragens e para mim não há qualquer diferença. Devemos deixar a imaginação entrar nos nossos filmes”.

Eco global

“Gosto muito da ideia de fazer um filme a partir da vontade de contar algo muito genuíno, que se relaciona com o contexto e com as vivências de uma forma directa com o público local, mas que, ao mesmo tempo, é algo tão universal que pode ser partilhado em qualquer lugar do mundo”, disse Dian Sastrowardoyo, actriz e produtora originária da Indonésia que diz estar orgulhosa do filme da Competição Internacional, “Homecoming”, realizado pelo seu conterrâneo Adriyanto Dewo.

Sobre “Homecoming”, Dian Sastrowardoyo mostrou um “orgulho enorme” por ver um filme 100 por cento feito na Indonésia, no IFFAM e destacou a capacidade que a obra tem de abordar “temas locais e histórias com um background claramente indonésio”, como o papel das mulheres na sociedade e em casa ou as diferenças existentes entre classes sociais, já que a obra coloca frente a frente duas realidades muito diferentes neste aspecto. “Acho que passa uma mensagem comum, não só na Indonésia, mas também a uma escala mundial”, explicou. “Acho que o grande desafio para todos agora, é como é que podemos realizar filmes que tenham simultâneamente características locais e globais”, rematou Dian Sastrowardoyo.

Já no seu breve papel como realizadora, Dian Sastrowardoyo, apontou a importância de utilizar o cinema para promover uma mensagem social importante, ao mesmo tempo que consegue cativar o público e levá-lo a identificar-se com as personagens.

“Fizemos um filme histórico que fala sobre o sistema de ensino na Indonésia, mas que contém também vários elementos de comédia e isto acontece porque se tivéssemos realizado o filme de forma demasiado séria, o mais certo era não chegarmos à audiência relativamente às questões políticas que queríamos abordar”, explicou.

Reiterando que “não é possível dizer se um filme está certo ou se está errado, pois todos os têm diferentes características”, Peter Chan lembrou a propósito do tema, que um filme que pode parecer uma comédia, pode perfeitamente apresentar um tema social ao público.

“Temos de ter filmes de hollywood mas também outro tipo de filmes para que o público possa ter acesso a diferentes conteúdos. Filmes que façam o público rir ou chorar, mas que permitam perceber o que está a acontecer na sociedade e estabelecer pontes com os acontecimentos que estão na ordem do dia”, explicou.

Cinema de bolso?

Outro dos temas em debate entre o júri da competição internacional foi o futuro esperado para o cinema enquanto meio, que enfrenta hoje o desafio de se adaptar a uma era digital cada vez mais dominada por pequenos e poderosos ecrãs, capazes de alojar plataformas de streaming como a Netflix.

Pegando no exemplo de “O Irlandês”, filme de Martin Scorsece que estreou em exclusivo naquela plataforma, o actor e produtor Tom Cullen vincou que o benefício da passagem para o pequeno ecrã é que “permite que os conteúdos cheguem a audiências que de outra forma ficariam excluídas. Por exemplo, onde eu cresci, existia apenas uma sala de cinema e ficava a uma hora de distância de carro”, argumentou.

O actor, conhecido pelo papel de Anthony Gillingham em Downtown Abbey, frisou ainda que os produtores e realizadores “têm sabido adaptar-se às mudanças produzidas pelas novas tecnologias”, procurando ser mais específicos dado que agora a audiência pode ser o próprio mundo.

9 Dez 2019

Óscares | As grandes apostas também passam por aqui

“O IFFAM está posicionado de forma perfeita em termos de timing para os Óscares”, as palavras foram ditas ao HM por Mike Goodridge, que assume pelo terceiro ano consecutivo, o cargo de Director Artístico do Festival de Cinema de Macau. Alargando o espectro para além da competição internacional do IFFAM, e tendo em conta que filmes como “Shape of the Water” e “Greenbook”, que figuravam no cartaz de edições passadas do festival, acabaram mesmo por ser galardoados com o Óscar de melhor filme, existem também este ano, segundo Mike Goodridge, algumas obras com aspirações legítimas a uma nomeação, ou mesmo até, a alcançar uma vitória nos Óscares.

O primeiro destaque vai directamente para o filme de abertura, “Jojo Rabbit”. Realizado pelo neo-zelandês Taika Waititi, Jojo Rabbit conta a história de uma criança que luta contra o nazismo alemão e que tem um amigo imaginário chamado Adolf Hitler. Segundo o director artístico do IFFAM, Taika Waititi “conseguiu fazer algo magnífico”, pois é um filme “capaz de pôr qualquer um a rir desalmadamente, enquanto aborda um tema trágico que é Segunda Grande Guerra Mundial”.

Outra obra em destaque é “Dark Waters”. Realizado por Todd Haynes e integrado na secção de Apresentações especiais do IFFAM, conta uma história arrepiante de um advogado que entra num processo judicial com um gigante da indústria química chamado DuPont, que acabou por encobrir alguns factos hediondos. Mark Ruffalo e Anne Hathaway fazem parte do elenco deste filme. “É extraordinário, adorei Dark Waters”, disse Mike Goodridge ao HM.

Mais palpites

Também apontado por Mike Goodridge “à conversa dos Óscares” é o novo filme de Terrence Malik, “A Hidden Life”, que conta a história verídica de um casal austríaco, que se recusa a prestar vassalagem ao regime de Adolf Hitler após a anexação da Áustria. “É um filme sobre princípios, honra, fé e espiritualidade, e fala de tudo isto numa altura em que o mundo tem dificuldade em reconhecer essas qualidades”, partilhou o director artístico do IFFAM.

Em português, mereceu ainda destaque o filme brasileiro “The Invisible Life of Eurídice Gusmão”, realizado Karim Aïnouz. Para Mike Goodridge esta é uma das obras que podem vir a ser nomeadas para a categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”.

Por fim, temos também “Judy”, com Renée Zellweger no papel de Judy Garland. “Ela está simplesmente magnífica. Sinceramente não imagino que Renée Zellweger não vença o Óscar de melhor actriz”, acredita Mike Goodridge.

5 Dez 2019

Óscares | As grandes apostas também passam por aqui

“O IFFAM está posicionado de forma perfeita em termos de timing para os Óscares”, as palavras foram ditas ao HM por Mike Goodridge, que assume pelo terceiro ano consecutivo, o cargo de Director Artístico do Festival de Cinema de Macau. Alargando o espectro para além da competição internacional do IFFAM, e tendo em conta que filmes como “Shape of the Water” e “Greenbook”, que figuravam no cartaz de edições passadas do festival, acabaram mesmo por ser galardoados com o Óscar de melhor filme, existem também este ano, segundo Mike Goodridge, algumas obras com aspirações legítimas a uma nomeação, ou mesmo até, a alcançar uma vitória nos Óscares.
O primeiro destaque vai directamente para o filme de abertura, “Jojo Rabbit”. Realizado pelo neo-zelandês Taika Waititi, Jojo Rabbit conta a história de uma criança que luta contra o nazismo alemão e que tem um amigo imaginário chamado Adolf Hitler. Segundo o director artístico do IFFAM, Taika Waititi “conseguiu fazer algo magnífico”, pois é um filme “capaz de pôr qualquer um a rir desalmadamente, enquanto aborda um tema trágico que é Segunda Grande Guerra Mundial”.
Outra obra em destaque é “Dark Waters”. Realizado por Todd Haynes e integrado na secção de Apresentações especiais do IFFAM, conta uma história arrepiante de um advogado que entra num processo judicial com um gigante da indústria química chamado DuPont, que acabou por encobrir alguns factos hediondos. Mark Ruffalo e Anne Hathaway fazem parte do elenco deste filme. “É extraordinário, adorei Dark Waters”, disse Mike Goodridge ao HM.

Mais palpites

Também apontado por Mike Goodridge “à conversa dos Óscares” é o novo filme de Terrence Malik, “A Hidden Life”, que conta a história verídica de um casal austríaco, que se recusa a prestar vassalagem ao regime de Adolf Hitler após a anexação da Áustria. “É um filme sobre princípios, honra, fé e espiritualidade, e fala de tudo isto numa altura em que o mundo tem dificuldade em reconhecer essas qualidades”, partilhou o director artístico do IFFAM.
Em português, mereceu ainda destaque o filme brasileiro “The Invisible Life of Eurídice Gusmão”, realizado Karim Aïnouz. Para Mike Goodridge esta é uma das obras que podem vir a ser nomeadas para a categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”.
Por fim, temos também “Judy”, com Renée Zellweger no papel de Judy Garland. “Ela está simplesmente magnífica. Sinceramente não imagino que Renée Zellweger não vença o Óscar de melhor actriz”, acredita Mike Goodridge.

5 Dez 2019

IFFAM | Festival Internacional de cinema de Macau arranca hoje

A quarta edição do Festival Internacional de Cinema de Macau começa hoje e, até ao próximo dia 10 de Dezembro irá exibir 48 filmes, em cinco espaços diferentes, divididos em várias secções. Destas, apenas três entram em competição, nomeadamente, “Competição Internacional”, “Novo Cinema Chinês” e ”Competição de Curtas”. O aclamado Jojo Rabbit fará as honras de abertura do festival hoje, no Centro Cultural de Macau, pelas 20h30

 

Competição Internacional

 

A competição internacional conta com 10 filmes a ser avaliados por um painel de júris presidido por Peter Chan Ho-sun, conhecido realizador e produtor de Hong Kong. Fazem também parte do júri da competição internacional Ella Eliasoph, Dian Sastrowardoyo, Midi Z e Tom Cullen.

Goldie

Goldie é uma estrela em ascensão, pelo menos à vista das irmãs mais novas, Supreme e Sherrie. Os desafios são hercúleos e, enquanto luta para evitar que as irmãs sejam levadas pelos serviços sociais, após a mãe das três ter sido presa, Goldie persegue o sonho de conseguir um papel num vídeo de hip-hop. E para isso, no seu mundo ideal, precisa apenas do“empurrão” do casaco de pele cor de ouro que viu numa loja e que há muito tem debaixo de olho. Porque o seu atrevimento e talento parecem começar a suscitar a atenção do resto do mundo. Goldie é um filme norte-americano, realizado pelo holandês Sam De Jong e conta com Slick Woods no papel principal.

Exibição

6 de Dezembro
CCM | 19h30

Lynn+Lucy

Lynn e Lucy são uma dupla desde sempre. Amigas desde os tempos da escola, acabam por desenvolver uma relação tão intensa como qualquer romance. Confinadas ao local onde cresceram, a ligação entre as duas muda quando Lynn, que havia casado com o seu primeiro namorado e cuja filha cresce a olhos vistos, fica deslumbrada quando a carismática Lucy tem também o seu primeiro bebé. No entanto, Lucy não é a mãe que Lynn esperava e rapidamente a sua amizade é testada de forma trágica, envolvente e asfixiante. Lynn+Lucy é uma co-produção britânica e francesa e conta com a realização do londrino Fyzal Boulifa. Roxanne Scrimshaw e Nichola Burley são as actrizes que dão vida às personagens principais.

Exibição
6 de Dezembro
CCM | 21h45

Bellbird

Do neo-zelandês Hamish Bennett, Bellbird conta a história de Ross, um agricultor parco em palavras, que parece perder o rumo da vida, a partir do momento em que a sua mulher, Beth, morre inesperadamente. Sem ninguém por perto interessado em ajudar nos trabalhos diários da quinta, nem mesmo o seu filho Bruce, surge Marley uma jovem disposta a apoiar e a mudar o rumo da vida do ainda mais mal-humorado Ross. Ross dispensa a ajuda de Marley, mas Marley lá vai aparecendo e ajudando na ordenha, enquanto ignora a má disposição do velho Ross, até que, quase um ano após a morte de Beth, a questão se torna incontornável e a necessidade de encontrar o seu lugar no mundo tende a vir ao de cima. Belbird é um filme falado em inglês e conta no elenco com Marshall Napier, Cohen Holloway, Rachel House, Kahukura Retimana, Stephen Tamarapa e Annie Whittle.

Exibição
7 de Dezembro
CCM | 17h

Family Members

A Argentina, desportos de combate e um último adeus, no mínimo, caricato. São estes os pilares que dão o mote para Family Members. Lucas e Gilda viajam para uma pequena cidade costeira do país para espalhar no oceano, as cinzas da sua recém-falecida mãe, que se suícidou. No entanto, para cumprir este último desejo, em vez de cinzas, os únicos restos mortais que têm para lançar, resumem-se à mão protética da mãe. Mais aliviados, embora conformados com o seu destino, os dois adolescentes vêem-se impossibilitados de regressar a casa, quando começa uma greve nacional de autocarros que paralisa a Argentina. Durante o impasse, Lucas, obcecado por musculação e desportos de combate encontra na cidade mais próxima uma oportunidade para explorar os limites do seu corpo, enquanto que Gilda procura inteirar-se das terapias existentes e de métodos de adivinhação para encontar um significado para o mundo. Presos no limbo, os dois enfrentam, longe de casa, o vazio deixado pelo suicídio da mãe, enquanto se despedem da adolescência e enfrentam a ambiguidade que a vida pode trazer. Family Members conta com a realização do argentino Mateo Bendesky e com Tomás Wicz e Laila Maltz nos papéis principais.

Exibição
7 de Dezembro
CCM | 19h

Two/One

Kaden e Khai estão estranhamente ligados um ao outro mas não sabem. Os dois vivem em lados opostos do globo. Embora sonhem um com o outro, quando um dorme o outro está acordado. Kaden é um atleta de esqui de classe mundial em Whistler, no Canadá e Khai, um executivo numa empresa de Xangai. Na mesma janela temporal, Kaden tem a oportunidade de se reconectar com uma antiga namorada dos seus tempos de adolescência, ao mesmo tempo que Khai descobre que a mulher com quem fantasia, começou a trabalhar no mesmo escritório. Os dois homens passam a vida sem saber que estão ligados e, embora nunca se devessem encontrar, estão destinados a fazê-lo. Two/One é realizado pelo argentino Juan Cabral e conta no elenco com Boyd Holbrook, Beau Bridges e Maddie Phillips.

Exibição
7 de Dezembro
CCM | 21h30

Give me liberty

O lado menos glamoroso do sonho americano encontra eco no Milwaukee, cidade do nordeste dos Estados Unidos onde milhares de imigrantes chegam em busca de melhorar as suas vidas. Vic, um americano descendente de uma família russa, ganha a vida, de forma infeliz diga-se, a conduzir uma carrinha de transporte de deficientes e pessoas com dificuldade de locomoção. Atrasado para cumprir os seus afazeres e numa altura em que irrompem protestos nas ruas do Milwaukee, o dia de Vic parece ir de mal a pior quando, comprometido em levar um grupo de idosos russos a um funeral, decide ajudar Tracy, uma jovem diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica, que vive num bairro afro-americano. Give me liberty conta com a realização do russo Kirill Mikhanovsky e com Chris Galust, Lauren “Lolo” Spencer, Maksim Stoyanov no elenco principal.

Exibição
8 de Dezembro
CCM | 19h15

Buoyancy

Camboja. Chakra tem 14 anos e trabalha nos campos de arroz com a família. Ansiando por independência, procura um intermediário que lhe ofereça a oportunidade de ter um trabalho remunerado numa fábrica tailandesa. No entanto, após ter vivido uma jornada atribulada juntamente com outros cambojanos, quando chega à Tailândia apercebe-se que o intermediário mentiu, acabando por vender Chakra e o seu colega Kea como escravos ao capitão de um barco de pesca. Forçados a trabalhar 22 horas por dia, arrastando lixo, em troca apenas de uma taça de arroz frio, Chakra apercebe-se daquilo que terá de passar para alcançar a liberdade. Buoyancy é realizado pelo australiano Rodd Rathjen e conta no elenco com Sarm Heng, Thanawut Kasro, Mony Ros e Saichia Wongwirot nos principais papéis.

Exibição
8 de Dezembro
CCM | 21h45

Bombay Rose

As ruas de Bombaím revelam a história de três contos sobre amores proíbidos, nesta longa-metragem de animação, baseada em factos reais: o amor entre uma menina hindu e um menino muçulmano, o amor entre duas mulheres e o amor de uma cidade inteira por estrelas de Bollywood. “Bombay Rose” assume-se como uma crónica de lutas íntimas e colectivas de pessoas que migraram de pequenas cidades rumo à grande cidade de Bombaím em busca de condições mínimas de vida. Bombay Rose é um musical, detalhado, colorido, em certa medida paradoxal e conta com a realização da indiana Gitanjali Rao. Do elenco vocal fazem parte Cycli Khare, Amit Deondi, Gargi Shitole e Makrand Deshpande.

Exibição
8 de Dezembro
CCM | 15h30

Homecoming

Tentando encontrar soluções para os conflitos do seu casamento, Aida faz uma viagem com o marido de volta a casa. Durante o percurso envolvem-se num acidente de viação e, involuntariamente, acabam por matar um homem. Um homem que era marido de alguém. Após o sucedido, o casal faz um desvio para a aldeia de onde é originário o homem, para prestar homenagem à viúva. É aqui que tudo acontece, numa jornada inesperada de busca por respostas às grandes questões da vida e pela inevitabilidade de enfrentar um futuro diferente, este é um regresso a casa que acaba também por ser uma metamorfose em todos os sentidos da palavra. Homecoming é realizado por Adriyanto Dewo e conta no elenco com Putri Ayudya Asmara Abigail, Ibnu Jamil e Yoga Pratama nos papéis principais deste filme 100 por cento indonésio.

Exibição
9 de Dezembro
CCM | 19h15

Two of us

Nina e Madeleine são duas mulheres reformadas e secretamente apaixonadas há várias décadas. À vista de todos, incluindo a família de Madeleine, são pura e simplesmente vizinhas que vivem no último andar do mesmo prédio. No entanto, longe dos olhares indiscretos, as duas mulheres vão e vêm, alternando espaços entre os seus dois apartamentos que acabam por ser lugares de partilha dos prazeres e da vida que levam em conjunto. Naturalmente que a relação entre as duas acaba por ficar virada do avesso quando um acontecimento inesperado, que coloca mesmo as suas vidas em risco, revela involuntariamente, toda a verdade da relação. Two of us é uma co-produção francesa, belga, holandesa e luxemburguesa e conta com a realizaçao do italiano Filippo Meneghetti. Martine Chevallier é Madeleine e Barbara Sukowa é Nina e neste filme falado em francês.

Exibição
9 de Dezembro
CCM | 21h30

5 Dez 2019

IFFAM | Festival Internacional de cinema de Macau arranca hoje

A quarta edição do Festival Internacional de Cinema de Macau começa hoje e, até ao próximo dia 10 de Dezembro irá exibir 48 filmes, em cinco espaços diferentes, divididos em várias secções. Destas, apenas três entram em competição, nomeadamente, “Competição Internacional”, “Novo Cinema Chinês” e ”Competição de Curtas”. O aclamado Jojo Rabbit fará as honras de abertura do festival hoje, no Centro Cultural de Macau, pelas 20h30

 

Competição Internacional

 
A competição internacional conta com 10 filmes a ser avaliados por um painel de júris presidido por Peter Chan Ho-sun, conhecido realizador e produtor de Hong Kong. Fazem também parte do júri da competição internacional Ella Eliasoph, Dian Sastrowardoyo, Midi Z e Tom Cullen.
Goldie
Goldie é uma estrela em ascensão, pelo menos à vista das irmãs mais novas, Supreme e Sherrie. Os desafios são hercúleos e, enquanto luta para evitar que as irmãs sejam levadas pelos serviços sociais, após a mãe das três ter sido presa, Goldie persegue o sonho de conseguir um papel num vídeo de hip-hop. E para isso, no seu mundo ideal, precisa apenas do“empurrão” do casaco de pele cor de ouro que viu numa loja e que há muito tem debaixo de olho. Porque o seu atrevimento e talento parecem começar a suscitar a atenção do resto do mundo. Goldie é um filme norte-americano, realizado pelo holandês Sam De Jong e conta com Slick Woods no papel principal.
Exibição
6 de Dezembro
CCM | 19h30

Lynn+Lucy

Lynn e Lucy são uma dupla desde sempre. Amigas desde os tempos da escola, acabam por desenvolver uma relação tão intensa como qualquer romance. Confinadas ao local onde cresceram, a ligação entre as duas muda quando Lynn, que havia casado com o seu primeiro namorado e cuja filha cresce a olhos vistos, fica deslumbrada quando a carismática Lucy tem também o seu primeiro bebé. No entanto, Lucy não é a mãe que Lynn esperava e rapidamente a sua amizade é testada de forma trágica, envolvente e asfixiante. Lynn+Lucy é uma co-produção britânica e francesa e conta com a realização do londrino Fyzal Boulifa. Roxanne Scrimshaw e Nichola Burley são as actrizes que dão vida às personagens principais.
Exibição
6 de Dezembro
CCM | 21h45

Bellbird

Do neo-zelandês Hamish Bennett, Bellbird conta a história de Ross, um agricultor parco em palavras, que parece perder o rumo da vida, a partir do momento em que a sua mulher, Beth, morre inesperadamente. Sem ninguém por perto interessado em ajudar nos trabalhos diários da quinta, nem mesmo o seu filho Bruce, surge Marley uma jovem disposta a apoiar e a mudar o rumo da vida do ainda mais mal-humorado Ross. Ross dispensa a ajuda de Marley, mas Marley lá vai aparecendo e ajudando na ordenha, enquanto ignora a má disposição do velho Ross, até que, quase um ano após a morte de Beth, a questão se torna incontornável e a necessidade de encontrar o seu lugar no mundo tende a vir ao de cima. Belbird é um filme falado em inglês e conta no elenco com Marshall Napier, Cohen Holloway, Rachel House, Kahukura Retimana, Stephen Tamarapa e Annie Whittle.
Exibição
7 de Dezembro
CCM | 17h

Family Members

A Argentina, desportos de combate e um último adeus, no mínimo, caricato. São estes os pilares que dão o mote para Family Members. Lucas e Gilda viajam para uma pequena cidade costeira do país para espalhar no oceano, as cinzas da sua recém-falecida mãe, que se suícidou. No entanto, para cumprir este último desejo, em vez de cinzas, os únicos restos mortais que têm para lançar, resumem-se à mão protética da mãe. Mais aliviados, embora conformados com o seu destino, os dois adolescentes vêem-se impossibilitados de regressar a casa, quando começa uma greve nacional de autocarros que paralisa a Argentina. Durante o impasse, Lucas, obcecado por musculação e desportos de combate encontra na cidade mais próxima uma oportunidade para explorar os limites do seu corpo, enquanto que Gilda procura inteirar-se das terapias existentes e de métodos de adivinhação para encontar um significado para o mundo. Presos no limbo, os dois enfrentam, longe de casa, o vazio deixado pelo suicídio da mãe, enquanto se despedem da adolescência e enfrentam a ambiguidade que a vida pode trazer. Family Members conta com a realização do argentino Mateo Bendesky e com Tomás Wicz e Laila Maltz nos papéis principais.
Exibição
7 de Dezembro
CCM | 19h

Two/One

Kaden e Khai estão estranhamente ligados um ao outro mas não sabem. Os dois vivem em lados opostos do globo. Embora sonhem um com o outro, quando um dorme o outro está acordado. Kaden é um atleta de esqui de classe mundial em Whistler, no Canadá e Khai, um executivo numa empresa de Xangai. Na mesma janela temporal, Kaden tem a oportunidade de se reconectar com uma antiga namorada dos seus tempos de adolescência, ao mesmo tempo que Khai descobre que a mulher com quem fantasia, começou a trabalhar no mesmo escritório. Os dois homens passam a vida sem saber que estão ligados e, embora nunca se devessem encontrar, estão destinados a fazê-lo. Two/One é realizado pelo argentino Juan Cabral e conta no elenco com Boyd Holbrook, Beau Bridges e Maddie Phillips.
Exibição
7 de Dezembro
CCM | 21h30

Give me liberty

O lado menos glamoroso do sonho americano encontra eco no Milwaukee, cidade do nordeste dos Estados Unidos onde milhares de imigrantes chegam em busca de melhorar as suas vidas. Vic, um americano descendente de uma família russa, ganha a vida, de forma infeliz diga-se, a conduzir uma carrinha de transporte de deficientes e pessoas com dificuldade de locomoção. Atrasado para cumprir os seus afazeres e numa altura em que irrompem protestos nas ruas do Milwaukee, o dia de Vic parece ir de mal a pior quando, comprometido em levar um grupo de idosos russos a um funeral, decide ajudar Tracy, uma jovem diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica, que vive num bairro afro-americano. Give me liberty conta com a realização do russo Kirill Mikhanovsky e com Chris Galust, Lauren “Lolo” Spencer, Maksim Stoyanov no elenco principal.
Exibição
8 de Dezembro
CCM | 19h15

Buoyancy

Camboja. Chakra tem 14 anos e trabalha nos campos de arroz com a família. Ansiando por independência, procura um intermediário que lhe ofereça a oportunidade de ter um trabalho remunerado numa fábrica tailandesa. No entanto, após ter vivido uma jornada atribulada juntamente com outros cambojanos, quando chega à Tailândia apercebe-se que o intermediário mentiu, acabando por vender Chakra e o seu colega Kea como escravos ao capitão de um barco de pesca. Forçados a trabalhar 22 horas por dia, arrastando lixo, em troca apenas de uma taça de arroz frio, Chakra apercebe-se daquilo que terá de passar para alcançar a liberdade. Buoyancy é realizado pelo australiano Rodd Rathjen e conta no elenco com Sarm Heng, Thanawut Kasro, Mony Ros e Saichia Wongwirot nos principais papéis.
Exibição
8 de Dezembro
CCM | 21h45

Bombay Rose

As ruas de Bombaím revelam a história de três contos sobre amores proíbidos, nesta longa-metragem de animação, baseada em factos reais: o amor entre uma menina hindu e um menino muçulmano, o amor entre duas mulheres e o amor de uma cidade inteira por estrelas de Bollywood. “Bombay Rose” assume-se como uma crónica de lutas íntimas e colectivas de pessoas que migraram de pequenas cidades rumo à grande cidade de Bombaím em busca de condições mínimas de vida. Bombay Rose é um musical, detalhado, colorido, em certa medida paradoxal e conta com a realização da indiana Gitanjali Rao. Do elenco vocal fazem parte Cycli Khare, Amit Deondi, Gargi Shitole e Makrand Deshpande.
Exibição
8 de Dezembro
CCM | 15h30

Homecoming

Tentando encontrar soluções para os conflitos do seu casamento, Aida faz uma viagem com o marido de volta a casa. Durante o percurso envolvem-se num acidente de viação e, involuntariamente, acabam por matar um homem. Um homem que era marido de alguém. Após o sucedido, o casal faz um desvio para a aldeia de onde é originário o homem, para prestar homenagem à viúva. É aqui que tudo acontece, numa jornada inesperada de busca por respostas às grandes questões da vida e pela inevitabilidade de enfrentar um futuro diferente, este é um regresso a casa que acaba também por ser uma metamorfose em todos os sentidos da palavra. Homecoming é realizado por Adriyanto Dewo e conta no elenco com Putri Ayudya Asmara Abigail, Ibnu Jamil e Yoga Pratama nos papéis principais deste filme 100 por cento indonésio.
Exibição
9 de Dezembro
CCM | 19h15

Two of us

Nina e Madeleine são duas mulheres reformadas e secretamente apaixonadas há várias décadas. À vista de todos, incluindo a família de Madeleine, são pura e simplesmente vizinhas que vivem no último andar do mesmo prédio. No entanto, longe dos olhares indiscretos, as duas mulheres vão e vêm, alternando espaços entre os seus dois apartamentos que acabam por ser lugares de partilha dos prazeres e da vida que levam em conjunto. Naturalmente que a relação entre as duas acaba por ficar virada do avesso quando um acontecimento inesperado, que coloca mesmo as suas vidas em risco, revela involuntariamente, toda a verdade da relação. Two of us é uma co-produção francesa, belga, holandesa e luxemburguesa e conta com a realizaçao do italiano Filippo Meneghetti. Martine Chevallier é Madeleine e Barbara Sukowa é Nina e neste filme falado em francês.
Exibição
9 de Dezembro
CCM | 21h30

5 Dez 2019

Mike Goodridge, director do Festival Internacional de Cinema: "Acho que as pessoas nos estão a levar a sério"

Pelo terceiro ano consecutivo, Mike Goodridge assume as rédeas da direcção artística do Festival Internacional de Cinema de Macau (MIFF) que arranca já na próxima semana. A poucos dias do início do evento, o britânico que continua fascinado por Macau, faz um apelo à comunidade portuguesa e aponta várias obras da programação deste ano aos Óscares

 
O que vamos poder esperar desta quarta edição do MIFF?
Dezembro vai ser um mês muito importante para Macau por causa das celebrações dos 20 anos da RAEM e, por isso, quisemos criar uma edição realmente marcante. Este ano, o MIFF tem algumas das melhores obras chinesas e internacionais de 2019, a começar pelo filme de abertura, Jojo Rabbit, que é simplesmente maravilhoso. Por isso acho que estamos em grande forma.
Estamos a poucos dias do início do festival. Está tudo pronto?
Sim, mas foi um grande desafio. Acaba sempre por ser tudo em cima da hora porque a nossa intenção é precisamente trazer as últimas novidades a Macau. No festival não são exibidos, por exemplo, filmes que tenham sido lançados no início do ano. O problema é que, como acabaram de ser lançados, temos pouco tempo para tratar de toda a logística, como arranjar as cópias e mostrá-las aos responsáveis pela atribuição dos ratings, até porque não podemos vender bilhetes sem essa classificação.
Porquê Jojo Rabbit para começar o festival e o que há de especial na abordagem de Taika Waititi?
Já trabalhei com o Taika Waititi e sempre gostei deste tipo de filmes em que existe uma combinação brilhante entre comédia e tragédia. Dá para ver isso no filme que fizemos juntos “Hunt for the Wilderpeople”, mas também em “Boy”, que foi o primeiro grande sucesso de bilheteira dele na Nova Zelândia. Por isso, estou muito expectante em relação a Jojo Rabbit mas, ao mesmo tempo, nervoso porque este era um projecto que o Taika Waititi queria fazer há muito tempo e porque conta a história de um alemão que mata nazis na Alemanha e que tem um amigo imaginário chamado Adolf Hitler. Mas a verdade é que acabou por conseguir fazer algo magnífico, pois é um filme capaz de pôr qualquer um a rir desalmadamente, enquanto aborda um tema trágico que é Segunda Grande Guerra Mundial.
É possível definir um festival tão peculiar como o MIFF?
O MIFF é um Festival de Cinema internacional, não chinês ou asiático, e era isso que o Governo queria que acontecesse, ou seja, que houvesse um evento com um foco internacional e que seguisse os mesmos padrões dos outros festivais internacionais. Quando comecei a trabalhar no MIFF, a minha grande ambição era cativar o público de Macau, porque é impossível haver um festival se não existir uma audiência local. E isso não foi facilmente conseguido porque se trata de uma população que não se envolve muito e há toneladas de coisas a acontecer ao mesmo tempo. Por isso, para nós o desafio passa por trazer todo o tipo de filmes de diferentes partes do mundo, incluindo uma dose saudável de filmes chineses de Macau, Hong Kong, Taiwan, Malásia, Singapura e da China Interior claro.
Que vantagens há em realizar o festival em Macau comparativamente com outras partes da China?
Obviamente que Macau é um país muito mais liberal em termos culturais. Muito especificamente falando de filmes, não existe o nível de escrutínio e de censura que existe no interior da China. Aqui quando vais ao cinema consegues encontrar filmes recentes de Hollywood, que nunca seriam lançados na China, por exemplo. O mesmo se passa em Hong Kong. Por isso é uma oportunidade fantástica para partilhar filmes, mas sempre com a liberdade que Macau oferece.
A edição deste ano marca o 20º aniversário da RAEM. Como vês Macau nos dias que correm?
É muito interessante termos vários filmes de Macau este ano. Um deles chama-se “Years of Macau”. Obviamente que, e eu só comecei a vir a Macau há cerca de três anos, após 1999 existiu um enorme desenvolvimento económico e daí cresceu a enorme indústria dos casinos, que tem sido espetacular. E isso teve tudo um enorme impacto na cidade e na população local. É um lugar que tem experimentado um crescimento económico muito rápido, vasto e dinâmico. Faz parte da China e ao mesmo tempo não faz. É uma porta de entrada para a China em diversos sentidos e, embora habite a mesma casa, consegue ser autónomo em muitos aspectos e ter uma identidade própria. Fico fascinado pela quantidade de pessoas no ocidente que não sabem o que é Macau.
Este ano existem cinco filmes de Macau. Como encara a evolução do cinema aqui?
Macau é uma industria muito pouco desenvolvida, mas é interessante notar que os jovens realizadores daqui estão a contar histórias sobre Macau, ou seja de como é viver neste ambiente extraordinário. Acho que há um longo caminho a percorrer e existem muitos desafios, no que diz respeito à cultura de produção cinematográfica. Macau é muito pequena, tem cerca de 650 mil pessoas e sempre viveu na sombra da indústria cinematográfica de Hong Kong que tem já uma tradição grande. Se olharmos para realizadores como Wong Kar-wai ou Jonnie To vemos grandes mestres que foram muito influenciados pelo estilo de John Woo. Hong Kong foi capaz de criar o seu próprio tipo de cinema o que é verdadeiramente extraordinário, com a agravante de ser reconhecido a nível mundial por ter alguns dos melhores realizadores de todos os tempos. Isso não existe em Macau, por isso como disse, há ainda um longo caminho a percorrer.
Sendo esta a terceira vez à frente da direcção artística do MIFF, como vê o caminho que está a ser percorrido pelo festival?
Acho sinceramente que está a correr muito bem. Quando comecei estava expectante e preocupado sobre se isto iria funcionar, porque queria saber se existia realmente mercado para o festival. E agora acho que há. Até pelo número de bilhetes que já vendemos para a edição deste ano conseguimos perceber que as pessoas sabem que o festival existe, querem fazer parte dele e ver os filmes. Mas ao mesmo tempo, estou muito entusiasmado porque a nível internacional sei que o Festival está a atrair muita atenção e que há muita gente interessada. É uma sorte para qualquer cidade ter um bom festival de cinema. E o nível da programação que conseguimos trazer aqui é muito elevado, temos convidados estonteantes a visitar Macau.
Qual a sua opinião sobre o filme português, “A Herdade”?
Acompanho o cinema feito em Portugal porque queremos passar aqui bons filmes para quem fala português. “A Herdade” é um filme realmente bom, é um grande épico. Acho que todos os portugueses o vão achar interessante porque aborda uma janela temporal de quase 60 anos da história de Portugal, desde os anos 40, passando pela revolução de 1974, até aos dias de hoje. Adorei-o quando o vi na competição de Veneza e em Toronto. Não é um filme fácil pois é longo, mas é épico e altamente apelativo. É uma grande saga com grandes actores portugueses e que é produzido pelo Paulo Branco, por quem tenho uma grande admiração. Por isso tem uma marca portuguesa clara. Espero que a comunidade portuguesa apareça em peso para o ver. Em relação ao cinema português acho que infelizmente não é o mais apaixonante do mundo, o que é uma pena, porque Portugal tem um legado cultural tão rico que adorava que o cinema português fosse mais entusiasmante. Em português temos ainda “The Invisible Life of Eurídice Gusmão” que é também um fabuloso épico realizado pelo realizador brasileiro Karim Aïnouz. É realmente bom e, ou muito me engano, será nomeado para os Óscares.
Da programação do MIFF, quais são as suas apostas quando pensamos em Óscares?
As nossas escolhas não são feitas nessa base obviamente. Mas temos filmes em língua inglesa que são verdadeiramente soberbos e que serão falados e apontados para óscares, nomeadamente Jojo Rabbit, o fantástico Dark Waters, realizado por Todd Haynes, que é uma história arrepiante, que conta também com Mark Ruffalo e Anne Hathaway no elenco. Outro, onde apostaria também as minhas fichas, é o novo filme de Terrence Malik, “A hidden life”, que conta a história real de um casal austríaco, que se recusa a prestar vassalagem ao regime de Adolf Hitler após a anexação da Áustria. É sobre princípios, honra, fé e espiritualidade, e fala de tudo isto numa altura em que o mundo tem dificuldade em reconhecer essas qualidades. Acho que este filme vai também ser apontado muitas vezes à conversa dos óscares. Por último, temos também Judy, onde Renée Zellweger está sublime no papel de Judy Garland. Sinceramente não imagino que Renée Zellweger não vença o óscar de melhor actriz. Está simplesmente magnífica.
E como é ver “The Long Walk” na edição deste ano?
Foi um projecto que foi desenvolvido no MIFF Project Market em 2016 e que vai ser exibido no festival, o que é um cenário de sonho. E se não fosse um bom filme não o passávamos aqui. É um filme magnífico que também já esteve em Veneza e Toronto e é realizado por Mattie Do.
Como será o MIFF no futuro?
Espero que seja abraçado pelo novo Governo e pelo novo Chefe do Executivo porque acho que desempenha um papel importante no lado cultural de Macau e apoia verdadeiramente a construção da cultura e dos hábitos cinematográficos da região. Acho que Macau pode vir a estar muito mais vezes nos ecrãs de todo o Mundo, e não apenas de uma forma glamorosa como nos filmes do James Bond, porque é um sitio realmente especial e único, com um lado profundo também. Qualquer festival quando começa, leva o seu tempo até ganhar tracção e até que grandes estrelas de cinema comecem a vir. E nesse aspecto penso que estamos a ir muito bem e acho que as pessoas nos estão a levar a sério porque nós somos sérios. Acho que os produtores e os realizadores da indústria reconhecem o trabalho feito e penso que isso trará muitos benefícios a longo prazo.

29 Nov 2019

Mike Goodridge, director do Festival Internacional de Cinema: “Acho que as pessoas nos estão a levar a sério”

Pelo terceiro ano consecutivo, Mike Goodridge assume as rédeas da direcção artística do Festival Internacional de Cinema de Macau (MIFF) que arranca já na próxima semana. A poucos dias do início do evento, o britânico que continua fascinado por Macau, faz um apelo à comunidade portuguesa e aponta várias obras da programação deste ano aos Óscares

 

O que vamos poder esperar desta quarta edição do MIFF?

Dezembro vai ser um mês muito importante para Macau por causa das celebrações dos 20 anos da RAEM e, por isso, quisemos criar uma edição realmente marcante. Este ano, o MIFF tem algumas das melhores obras chinesas e internacionais de 2019, a começar pelo filme de abertura, Jojo Rabbit, que é simplesmente maravilhoso. Por isso acho que estamos em grande forma.

Estamos a poucos dias do início do festival. Está tudo pronto?

Sim, mas foi um grande desafio. Acaba sempre por ser tudo em cima da hora porque a nossa intenção é precisamente trazer as últimas novidades a Macau. No festival não são exibidos, por exemplo, filmes que tenham sido lançados no início do ano. O problema é que, como acabaram de ser lançados, temos pouco tempo para tratar de toda a logística, como arranjar as cópias e mostrá-las aos responsáveis pela atribuição dos ratings, até porque não podemos vender bilhetes sem essa classificação.

Porquê Jojo Rabbit para começar o festival e o que há de especial na abordagem de Taika Waititi?

Já trabalhei com o Taika Waititi e sempre gostei deste tipo de filmes em que existe uma combinação brilhante entre comédia e tragédia. Dá para ver isso no filme que fizemos juntos “Hunt for the Wilderpeople”, mas também em “Boy”, que foi o primeiro grande sucesso de bilheteira dele na Nova Zelândia. Por isso, estou muito expectante em relação a Jojo Rabbit mas, ao mesmo tempo, nervoso porque este era um projecto que o Taika Waititi queria fazer há muito tempo e porque conta a história de um alemão que mata nazis na Alemanha e que tem um amigo imaginário chamado Adolf Hitler. Mas a verdade é que acabou por conseguir fazer algo magnífico, pois é um filme capaz de pôr qualquer um a rir desalmadamente, enquanto aborda um tema trágico que é Segunda Grande Guerra Mundial.

É possível definir um festival tão peculiar como o MIFF?

O MIFF é um Festival de Cinema internacional, não chinês ou asiático, e era isso que o Governo queria que acontecesse, ou seja, que houvesse um evento com um foco internacional e que seguisse os mesmos padrões dos outros festivais internacionais. Quando comecei a trabalhar no MIFF, a minha grande ambição era cativar o público de Macau, porque é impossível haver um festival se não existir uma audiência local. E isso não foi facilmente conseguido porque se trata de uma população que não se envolve muito e há toneladas de coisas a acontecer ao mesmo tempo. Por isso, para nós o desafio passa por trazer todo o tipo de filmes de diferentes partes do mundo, incluindo uma dose saudável de filmes chineses de Macau, Hong Kong, Taiwan, Malásia, Singapura e da China Interior claro.

Que vantagens há em realizar o festival em Macau comparativamente com outras partes da China?

Obviamente que Macau é um país muito mais liberal em termos culturais. Muito especificamente falando de filmes, não existe o nível de escrutínio e de censura que existe no interior da China. Aqui quando vais ao cinema consegues encontrar filmes recentes de Hollywood, que nunca seriam lançados na China, por exemplo. O mesmo se passa em Hong Kong. Por isso é uma oportunidade fantástica para partilhar filmes, mas sempre com a liberdade que Macau oferece.

A edição deste ano marca o 20º aniversário da RAEM. Como vês Macau nos dias que correm?

É muito interessante termos vários filmes de Macau este ano. Um deles chama-se “Years of Macau”. Obviamente que, e eu só comecei a vir a Macau há cerca de três anos, após 1999 existiu um enorme desenvolvimento económico e daí cresceu a enorme indústria dos casinos, que tem sido espetacular. E isso teve tudo um enorme impacto na cidade e na população local. É um lugar que tem experimentado um crescimento económico muito rápido, vasto e dinâmico. Faz parte da China e ao mesmo tempo não faz. É uma porta de entrada para a China em diversos sentidos e, embora habite a mesma casa, consegue ser autónomo em muitos aspectos e ter uma identidade própria. Fico fascinado pela quantidade de pessoas no ocidente que não sabem o que é Macau.

Este ano existem cinco filmes de Macau. Como encara a evolução do cinema aqui?

Macau é uma industria muito pouco desenvolvida, mas é interessante notar que os jovens realizadores daqui estão a contar histórias sobre Macau, ou seja de como é viver neste ambiente extraordinário. Acho que há um longo caminho a percorrer e existem muitos desafios, no que diz respeito à cultura de produção cinematográfica. Macau é muito pequena, tem cerca de 650 mil pessoas e sempre viveu na sombra da indústria cinematográfica de Hong Kong que tem já uma tradição grande. Se olharmos para realizadores como Wong Kar-wai ou Jonnie To vemos grandes mestres que foram muito influenciados pelo estilo de John Woo. Hong Kong foi capaz de criar o seu próprio tipo de cinema o que é verdadeiramente extraordinário, com a agravante de ser reconhecido a nível mundial por ter alguns dos melhores realizadores de todos os tempos. Isso não existe em Macau, por isso como disse, há ainda um longo caminho a percorrer.

Sendo esta a terceira vez à frente da direcção artística do MIFF, como vê o caminho que está a ser percorrido pelo festival?

Acho sinceramente que está a correr muito bem. Quando comecei estava expectante e preocupado sobre se isto iria funcionar, porque queria saber se existia realmente mercado para o festival. E agora acho que há. Até pelo número de bilhetes que já vendemos para a edição deste ano conseguimos perceber que as pessoas sabem que o festival existe, querem fazer parte dele e ver os filmes. Mas ao mesmo tempo, estou muito entusiasmado porque a nível internacional sei que o Festival está a atrair muita atenção e que há muita gente interessada. É uma sorte para qualquer cidade ter um bom festival de cinema. E o nível da programação que conseguimos trazer aqui é muito elevado, temos convidados estonteantes a visitar Macau.

Qual a sua opinião sobre o filme português, “A Herdade”?

Acompanho o cinema feito em Portugal porque queremos passar aqui bons filmes para quem fala português. “A Herdade” é um filme realmente bom, é um grande épico. Acho que todos os portugueses o vão achar interessante porque aborda uma janela temporal de quase 60 anos da história de Portugal, desde os anos 40, passando pela revolução de 1974, até aos dias de hoje. Adorei-o quando o vi na competição de Veneza e em Toronto. Não é um filme fácil pois é longo, mas é épico e altamente apelativo. É uma grande saga com grandes actores portugueses e que é produzido pelo Paulo Branco, por quem tenho uma grande admiração. Por isso tem uma marca portuguesa clara. Espero que a comunidade portuguesa apareça em peso para o ver. Em relação ao cinema português acho que infelizmente não é o mais apaixonante do mundo, o que é uma pena, porque Portugal tem um legado cultural tão rico que adorava que o cinema português fosse mais entusiasmante. Em português temos ainda “The Invisible Life of Eurídice Gusmão” que é também um fabuloso épico realizado pelo realizador brasileiro Karim Aïnouz. É realmente bom e, ou muito me engano, será nomeado para os Óscares.

Da programação do MIFF, quais são as suas apostas quando pensamos em Óscares?

As nossas escolhas não são feitas nessa base obviamente. Mas temos filmes em língua inglesa que são verdadeiramente soberbos e que serão falados e apontados para óscares, nomeadamente Jojo Rabbit, o fantástico Dark Waters, realizado por Todd Haynes, que é uma história arrepiante, que conta também com Mark Ruffalo e Anne Hathaway no elenco. Outro, onde apostaria também as minhas fichas, é o novo filme de Terrence Malik, “A hidden life”, que conta a história real de um casal austríaco, que se recusa a prestar vassalagem ao regime de Adolf Hitler após a anexação da Áustria. É sobre princípios, honra, fé e espiritualidade, e fala de tudo isto numa altura em que o mundo tem dificuldade em reconhecer essas qualidades. Acho que este filme vai também ser apontado muitas vezes à conversa dos óscares. Por último, temos também Judy, onde Renée Zellweger está sublime no papel de Judy Garland. Sinceramente não imagino que Renée Zellweger não vença o óscar de melhor actriz. Está simplesmente magnífica.

E como é ver “The Long Walk” na edição deste ano?

Foi um projecto que foi desenvolvido no MIFF Project Market em 2016 e que vai ser exibido no festival, o que é um cenário de sonho. E se não fosse um bom filme não o passávamos aqui. É um filme magnífico que também já esteve em Veneza e Toronto e é realizado por Mattie Do.

Como será o MIFF no futuro?

Espero que seja abraçado pelo novo Governo e pelo novo Chefe do Executivo porque acho que desempenha um papel importante no lado cultural de Macau e apoia verdadeiramente a construção da cultura e dos hábitos cinematográficos da região. Acho que Macau pode vir a estar muito mais vezes nos ecrãs de todo o Mundo, e não apenas de uma forma glamorosa como nos filmes do James Bond, porque é um sitio realmente especial e único, com um lado profundo também. Qualquer festival quando começa, leva o seu tempo até ganhar tracção e até que grandes estrelas de cinema comecem a vir. E nesse aspecto penso que estamos a ir muito bem e acho que as pessoas nos estão a levar a sério porque nós somos sérios. Acho que os produtores e os realizadores da indústria reconhecem o trabalho feito e penso que isso trará muitos benefícios a longo prazo.

29 Nov 2019