Paulo Branco, produtor de cinema: “Este festival foi uma ideia minha”

Há 10 anos atrás sentiu que era importante criar em Macau uma janela cultural forte através de um festival de cinema e chegou mesmo, segundo o próprio, a dar o mote para o projecto. Não querendo “assumir a paternidade” do IFFAM, Paulo Branco, produtor do filme português “A Herdade”, falou ao HM acerca do contributo que a Ásia tem dado à arte cinematográfica, das novas plataformas digitais, mas também de uma carreira marcada pela presença incontornável do realizador Manoel de Oliveira

EEstudou engenharia no Técnico, até 1971, três anos antes do 25 de Abril. O que aconteceu na sua vida para enveredar pelo cinema?
Isso é quase um filme. Foi uma sucessão de acasos mas, sobretudo, o facto de ter descoberto, como cinéfilo, a sétima arte. A certa altura, comecei a ter um prazer enorme em ver filmes, em descobrir e foi isso que me levou à produção. Nunca na minha vida pensei ser produtor e aqui estou, ao fim de 40 anos. Encontrei um espaço onde, de certa maneira, e eu sou uma pessoa extremamente anárquica, tento transformar os sonhos dos realizadores em realidade. Por isso tenho que ter um lado concreto e isso é uma batalha diária comigo próprio, ou seja, fazer com que os filmes existam e depois ocupar-me deles, de maneira a dar-lhes uma visibilidade para que possam existir.

Lembra-se que obras o fizeram apaixonar-se pelo cinema?
Talvez a primeira tenha sido o “Rio Bravo” de Howard Hawks. Lembro-me também de ter visto, quando era muito jovem, “As aventuras de Robin dos Bosques” com o Errol Flynn e ter ficado traumatizado porque a projecção parou a meio e só muitos anos depois consegui rever o filme. Mas isto são só pequenas recordações. Tive depois a sorte de encontrar pessoas do meio e de me começar a fascinar sobre como é que um filme se torna realidade e, mais tarde, houve alguém que me desafiou para ser produtor e eu, mesmo sem saber nada do que era a produção, lancei-me. E ainda não sei, estou a aprender todos os dias.

A figura de Manoel de Oliveira foi determinante na sua vida e carreira. Como começou esta relação e que lições guarda do grande mestre Oliveira?
Conheci-o através de outros realizadores da altura, o António Pedro Vasconcelos e o Paulo Rocha e cheguei a encontrar-me uma ou duas vezes com ele por acaso, quando ainda era um miúdo. Penso que, nessa altura, nem sequer reparou em mim. Depois, a dada altura, estava eu em Paris, quando o Manoel de Oliveira foi extremamente atacado em Portugal com a Obra “Amor de Perdição”, que tinha passado na televisão. Nessa altura resolvi estrear o filme em Paris porque gostei imenso e, foi um sucesso tal ao nível da crítica, que acabou por ter uma enorme influência, fazendo com que o Manoel de Oliveira voltasse a ser considerado como alguém que ainda poderia dar muito ao cinema. Foi aí que ele veio ter comigo a perguntar se eu queria produzir a próxima obra dele, porque nessa altura o Instituto Português do Cinema começou a exigir produtores para os filmes. Daí nasceu o “Francisca” e também uma relação que foi absolutamente essencial, pois estava a trabalhar com um dos grandes senhores do cinema mundial e, por outro lado, o Manoel era uma lição de vida permanente, porque era alguém que, mesmo com a idade que tinha, acabava por arriscar mais do que qualquer outra pessoa. Isso foi para mim extremamente importante, ou seja, ter um dia a dia, durante vinte e tal anos, com alguém que nunca estava contente e queria sempre fazer mais e continuar, mesmo até ao fim da sua vida.

Todos os cinéfilos têm filmes recorrentes aos quais retornam como quem regressa a casa com saudades das personagens, dos cenários… quais são os seus filmes recorrentes e porquê?
Há muitos filmes da história do cinema, dos grandes, que eu gosto de rever e depois há outros que já vi 30 ou 40 vezes. Um filme que eu conheço de cor e salteado é o “The Searchers”, do John Ford. Outro menos conhecido mas que aborda um tema que a mim sempre me fascinou, é o “Lilith”, de Robert Rossen, que pouca gente conhece mas que é um grande filme. Ainda há pouco tempo revi um filme extraordinário do Douglas Sirk, “The Tarnished Angels”, que é uma adaptação de um romance do William Faulkner. Depois há outros. Estou a falar mais nos filmes americanos porque do cinema europeu logicamente que revejo eternamente os filmes do Rossellini e os filmes do Renoir. Portanto, há sempre uma relação com toda essa cinematografia que, ao rever agora um filme como o “Roma, Cidade Aberta” ou o “Alemanha, Ano Zero”, percebe-se que todo cinema moderno nasceu do Rosselini. Ou ao rever um clássico como “Le Carrosse d’Or” do Renoir, percebe-se que a grande relação que existe entre o teatro e a vida, foi ele que nos ensinou. O cinema sempre foi uma fonte para mim, não só de prazer, mas também de descoberta, que me permitiu não ter medo de arriscar e de estar sempre à procura de novos territórios, até mesmo para a minha própria vivência pessoal. Tento aproveitar este dom magnífico ao máximo, de ainda estar aqui apesar de ter 69 anos.

O que nos pode dizer sobre o processo de produção de “A Herdade”?
Foi muito particular porque é um projecto que já queria fazer há muitos anos, de uma grande ficção, a partir da herdade de uma grande família que atravessa um período pouco retratado no cinema português que é o lado dos grandes latifundiários, das grandes famílias e da forma como tudo isso passou do feudalismo aos tempos modernos, trazendo todas as feridas abertas e destruições que existiram, infelizmente, com essa evolução natural da sociedade. O filme retrata um personagem que é um sedutor nato, bigger than life, patriarca no sentido antigo do próprio conceito e que, ao mesmo tempo, tem um poder de destruição enorme porque a atenção que tem para determinadas situações da sua herdade, não tem, em termos pessoais, com a sua família. São todas essas contradições que fazem com que o filme tenha uma emoção e uma capacidade de prender os espectadores e de fazer um retrato extremamente forte de todos os personagens que existem nesta história.

Desde o próprio João Fernandes, que é realmente o patriarca, mas também a personagem da mulher, os filhos, as pessoas que trabalham na herdade, há ali um lado, uma tensão e uma evolução dos personagens que penso que traz algo de novo ao cinema português e é isso que penso que transformou este filme num grande êxito em Portugal e lhe conferiu também uma dimensão internacional. Apesar de ser um filme que só fala de algo que se passou connosco no nosso país, há esse lado universal e melodramático e essa tensão.

Que ideia tem do Festival de Cinema de Macau e que margem de progressão em termos de projeção mundial acha que pode vir a ter?
Sabe, este festival foi uma ideia minha, que eu trouxe aqui há 10 anos ao Alexi Tan. Foi a partir de mim que eles depois convidaram o Marco Müller para a primeira edição, portanto há 10 anos atrás senti que havia aqui talvez uma possibilidade. Como me estava a divertir com o meu festival lá em Portugal pensei: “porque é que não vou propor isto a Macau?”. Eu vim, só que depois, o Marco Müller era para ter estruturado a ideia e vá… faltou-me a paciência, como se costuma dizer. Depois vim cá ver que isto agora é uma realidade, mas os princípios que eu na altura achava importantes, como a atenção ao cinema asiático, a possibilidade de haver uma competição de primeiras e segundas obras, tudo isso já estava um pouco no projecto inicial. Logicamente que transformaram isso depois. Mas acho que na altura sentia-se que era importante que houvesse aqui uma janela cultural forte e que um festival de cinema podia trazer isso. Não quero de maneira nenhuma assumir a paternidade do festival, simplesmente dizer que estou extremamente satisfeito que Macau tenha, neste momento, um festival. Agora, não me cabe a mim dizer qual é a dimensão que ele está a ter ou não. Estou aqui porque para mim era extremamente importante que os portugueses de Macau pudessem ver “A Herdade” numa sala de cinema.

Acabou a resposta anterior a falar em sala de cinema. Como vê a transição da sala de cinema para o pequeno ecrã liderada por plataformas como a Netflix? Podemos chamar a isto cinema?
Para já não vejo, porque nem sequer computador tenho. É uma questão muito prática. Por outro lado, qualquer realização de ficção, quer seja para cinema ou televisão, pode ser considerada cinema. Mas, no grande ecrã a atenção e o respeito são diferentes. Podemos dizer que há um gesto do próprio espectador, há o ir ao cinema que é, penso, essencial. É a mesma coisa, por exemplo, que ver as obras de arte todas que quiser na internet, mas outra coisa é ir mesmo vê-las. Agora não quero dizer se é cinema, isso são coisas que deixo depois para historiadores e filósofos. Mas é um prazer que é diferente e que ainda por cima, não nos permite estar distraídos pelas 50 mil coisas que acontecem ao mesmo tempo que se está a ver um filme na televisão ou num computador. Na sala de cinema as pessoas estão atentas a tudo, até mesmo aos ventos, aos silêncios e tudo que, ao ver na televisão, passa muito mais despercebido. A maior parte do que é construído para televisão tem, e não falo já nas plataformas, mas nas ficções televisivas, um ritmo especial para as pessoas não fazerem zapping e portanto, isso já formatiza de certa maneira um pouco o modelo. Por isso é que eu não sou adepto das séries, já sabemos exactamente qual é o ritmo, e o lado inventivo que o cinema sempre trouxe perde-se, talvez não nos conteúdos mas, em termos formais. Há excepções como o Twin Peaks, do David Lynch, mas isso é uma pessoa que já demonstrou que qualquer terreno para onde vá, é absolutamente extraordinário.

Como vê o cinema feito na China, sobretudo pelas novas gerações?
Houve um grande boom, não só do cinema chinês, mas no cinema asiático nos anos 80, que trouxe um olhar diferente em termos estéticos e de conteúdo daquilo que era feito. É preciso não esquecer que a grande cinematografia sempre esteve na China com o Mizoguchi, Kurosawa, Ozu, mas depois houve uma nova geração que começou a aparecer em Hong Kong, China, Coreia e que se começou a impor ao mundo. Neste momento, há um espaço para o cinema asiático fantástico porque já existe uma diversidade extraordinária de cineastas que são fortíssimos e que têm uma obra extremamente pessoal e que escapa a uma tentativa de controlo industrial. Essa luta existe sempre, seja em que continente for, mas a Ásia consegue realmente impor-se como região que tem dado ao cinema obras incríveis e que, neste momento, fazem avançar a arte cinematográfica.

Até que ponto é necessária alguma loucura para levar avante uma carreira enquanto produtor de cinema independente? Recorda-se do filme que o levou mais perto da loucura e porquê?
Isso acontece-me todos os dias ainda agora e não sei como é que o dia seguinte se vai passar. Adaptei-me a isso e sobretudo a estar pronto a todas as surpresas que possam acontecer e é também a minha maneira de acompanhar o risco artístico que têm os realizadores com quem trabalho. Era fácil demais eu estar numa situação confortável e eles, pelo que são e pelo que querem transmitir, estarem numa situação desconfortável. Fazer uma obra cinematográfica exige da parte deles um risco permanente para que possa resultar nalguma coisa de interessante. Nas situações difíceis eu vou sempre para a frente, não há tempo suficiente para ir ali para uma ponte saber se me deito para o rio ou não.

Tem ideia do número de filmes que produziu em quase 40 anos de carreira? No IMDB, enfim, vale o que vale, a conta dos filmes em que aparece como produtor nos créditos é 278. Como é que isto é possível?
É um bocadinho mais do que isso, mas não faço a mínima ideia. Isso não me cabe a mim responder. Que eles existem, existem. Que eu conheço todos, conheço. Que tenho uma relação pessoal com os filmes todos, também tenho. Posso contar histórias com cada um deles que ainda não me esqueci de nenhum, mesmo aqueles que infelizmente não esqueci. Mas pronto, isso vai-se construindo. É a mesma coisa quando se tem filhos, e eu tenho quatro, e, de repente, dizer, “olha, gostaria de ter mais”. E com os filmes é um pouco a mesma coisa.

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