Baudelaire, uma efeméride

Já topei que a Jeanne Duval – a eterna amante de Baudelaire e uma figura recorrente dos sonhos do protagonista do meu primeiro romance, A Maldição de Ondina – não era rapariga que me fizesse subir os Pirinéus de bicicleta mas, convenhamos, poucas há que me impelissem a semelhante sacrifício. E seria Baudelaire um rapaz de poucos atributos ou de pouca decisão nos atributos, a avaliar pela imperícia da noite de 30 de Agosto de 1857, que passou com Madame Sabatier depois de anos a rondá-la, visto que lhe escreve no dia seguinte queixando-se de que “faltou a convicção”. Repare-se, o amante lastima-se de a senhora não ter gozado.

Uma das coisas desconcertantes, quando se aborda Baudelaire, é que a extrema segurança com que desbravou caminhos na literatura e na arte se recorte contra a extrema dependência que o manteve sob as saias da mãe. Há uma descoroçoadora simetria invertida: a alguns títulos Baudelaire não passa de um “paspalho” inspirado por um traumatismo maternal e chega a ser confrangedor o modo como o seu comportamento com as mulheres se ajusta à grelha psicanalítica. Ao Freud poderia ter sido da leitura de uma biografia de Baudelaire que lhe veio a faísca do Complexo de Édipo – é um supor. E o sintoma mais celerado da desproporção do seu edipianismo está no testemunho de Jules Buisson que o encontra nas barricadas da Comuna de Paris, em 1848, de fuzil nas mãos, excitado e aos gritos: «É preciso fuzilar o general Aupick!» (o padastro).

Fiquei agora curioso de verificar se não há mais corpo nas Flores do Mal do que na soma da sua vida.
Veja-se o que regista em O Meu Coração a Nu, depois de caracterizar uma cópula como “um esquecer o seu eu na carne externa” (insólita expressão) : «Quanto mais um homem cultiva as artes, menos fode (…) Só a besta fode bem e a fornicação é o lirismo do povo. Foder é aspirar a entrar noutro e o artista jamais sai de si».
Que diferença brutal para Bataille, por exemplo, para quem o orgasmo era “a pequena morte”, pelo voluptuoso apagamento de si.

Nisto, os homens serão todos diferentes. Lembro-me da perplexidade que se me seguiu à minha primeira vez: Afinal, é só isto! (Graças a Deus, que como eu é ateu, foi melhorando!).

Contudo, em Baudelaire, essa distância da sua pele a si reflecte-se nas coisas imperdoáveis que escreve sobre as mulheres, fá-lo do ponto de vista de um réptil. Nestes tempos de leituras a preto e branco que as feministas desenfreadas não lhe coloquem a vista em cima (- ai, que já fiz de delator, auto-censura, acode-me!)!

É difícil dizer de Baudelaire, como de Eliot, É o meu poeta preferido! Mas de quantos preferidos já despeguei? Pelo contrário, à medida que os anos passam só lhe descubro qualidades. Ainda esta noite andei às voltas com um poema das Flores do Mal, Le Cygne, e dei comigo a pensar, Meu Deus, estas rimas escorrem como seda! O Brecht odiaria e também eu… há uns anos atrás, agora assombram-me.

É muito divertido o que Baudelaire escreve sobre o teatro, referindo que aquilo que mais o atrai nas casas de espectáculo é “o lustre”. E, apesar de ter gostado pelo menos das peças do Victor Hugo, condena o teatro em termos que sugerem outras propostas artísticas: os actores deviam andar de andas no palco e ter máscaras. Talvez perdêssemos a oportunidade ver Gata em Telhado de Zinco Quente e a senhorita Elizabeth Taylor a catrapiscar o miúdo Newman, porém confesso que a sugestão das andas me excita verdadeiramente as meninges.

De uma mesma carta a Toussenel, retiro isto que me interessa muito: «a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela entende a analogia universal, ou aquela que uma religião mística chama a correspondência…» (o que agora levaria meia-hora para explicar) e a azeda embirração com o pobre do Fourier (alergia cutânea inexplicável). Embora me agrade que ele nunca aplaine o que repele, ou tão só, e com incomodidade, os elogios que lhe dirigem (como o de Verlaine, acolhido com desconfiança).

Num fim de tarde, no final de sua vida, quis o poeta calcular tudo o que havia ganho com a sua pena. Somou um total de quinze mil oitocentos e noventa dois francos e sessenta centavos; e o amigo que testemunhou esta contabilidade sinistra comentou: «Então, este grande poeta, este terrível e delicado pensador, este artista perfeito ganhou, em vinte e seis anos de trabalho, cerca de um franco e setenta centavos por dia».

O que consternaria Baudelaire não seria a pobreza em si (a sua mãe nunca o desampararia), mas o que a pobreza realmente significava: a indiferença brutal do público educado. A auto-derrisão com que fechou o poema de abertura da sua obra magna (“Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”), tolamente, foi sempre tomada por insolência. A graxa que dá aos burgueses no prefácio ao seu Salão de 1846 não lhe serviu de nada e disso tirará as devidas consequências.

Ao contrário de Rimbaud, Baudelaire foi poeta a que sempre resisti, mas com a idade bateu-me.
Assim que me livrar de algumas tarefas pendentes escreverei um pequeno ensaio a demonstrar que, ao contrário do que tem sido escrito, o seu poema Correspondances rompe com a verticalidade que tem sido aduzida para a relação que o simbolismo estabelece entre a Terra e o Céu, «segundo uma direcção irreversível, ou seja, uma herarquia» (Ivan Junqueira). Pelo contrário, vejo antes embutido aí o mesmo jogo de proporcionalidades que o Heraclito defendeu para a relação entre os elementos, o que abre o campo para uma reversibilidade dos dons.

16 Abr 2021

Legente de sombras

Lê-se numa carta de Benjamin para Scholem: «(…) como afirma Kafka, existe uma esperança infinita, simplesmente ela não é para nós. Esta frase contém realmente a esperança de Kafka. É a fonte da sua irradiante serenidade».

Essa pacificação chegará a Kafka, com certeza, da consciência de não haver traído o vector ético, pois a convicção de que viver a esperança não lhe tocará em sorte não o fez generalizar a sua “despossessão” para os demais. É um sinal de uma rara grandeza não querer contaminar com a sua descrença ou malapata o destino dos demais – o que inclusive talvez relativize a negatividade que o próprio Benjamin associava ao autor de METAMORFOSE.

Cada poeta deveria adoptar esta lição ética e forjar um saudável distanciamento em relação à lucidez que calcina, pois se é necessária para revolver a terra também a semente o é, e quando há negrume identifica-o afinal um halo.

Por esfiapada que esteja a esperança, em termos pessoais, há ainda um princípio de fidelidade que deve assegurar o elo, a transmissão.

Sim, é uma bela coisa “deixar falar a linguagem” (Novalis) e isentarmo-nos de interferir com a palavra, mas isto deve ser matizado por momentos em que um carácter de urgência impõe que a palavra signifique e não seja apenas um estado de suspensão da vida ou um resíduo cantável de “deus ausente”, e antes materialize um grito que – esquecida a vidência -, quer apenas lembrar o horror da fragilidade humana e o modo como a descuidamos.

Comecei por apreciar o Pedro Teixeira Neves pintor. O que vai sendo raro, ele deixa-se levar pela “inteligência da mão” e deixa que os materiais e a energia cromática validem as suas composições, sem lhes impôr uma ideia. Aqui, é ainda o romântico que pulsa.

Depois, achei graça à leveza de poemas que vi citados do seu último livro OS TRABALHOS MAIS LEVES (Húmus, 2021), onde as palavras conversam e brincam entre si, numa linhagem que nos recupera O’Neill e Henrique Leiria (A vulnerabilidade toca a todos: «nos bicos dos pés/ alçou-se/ nos bicos dos seios/ calou-se») , e onde o humor e a desconstrução cultural caminham paralelamente (Yazujirô: «gostava/ de a ter/ ao nível/ do plano de câmara ozu.»), às vezes com efeitos de grande subtileza que revelam inteligência do ofício (o que está muito para lá de ter graça), como nestes dois versos que aludem a um orgasmo: «exsudação de figos/ no prumo de agosto». E, lido o livro, vi que estes pormenores se repetiam.

Tomei-te então de lata e, como estou em terras longínquas onde não chegam os livros portugueses, pedi-lhe outros livros. E o Pedro mandou-me dois. Pude então ler A PARTE QUE NOS TOCA, o seu livro anterior (Labirinto, 2020).

É um livro nos antípodas de OS TRABALHOS MAIS LEVES, em termos estilísticos e temáticos, como se fora outro autor a escrevê-lo, e isso não apenas lhe acrescentou ecletismo como seriedade, ficando nítido que não se atém a fórmulas ou a uma “voz” imperturbavelmente mineral. A PARTE QUE NOS TOCA é de uma densidade que contrasta com a airosa fluência de OS TRABALHOS MAIS LEVES (dedicado aos hílares trabalhos do amor) e mostra um poeta que sabe “o seu a seu tempo”, alternando o lúdico e o combate contra a trivialização que hoje importa travar. E fez-me descobrir um poeta confiável, no sentido em que, dominando os seus materiais, não perdeu nem o sentido da “gravitas” nem essa reversibilidade entre a vida e a literatura, tão necessária para romper a vazia tentação dos literatos.

A PARTE QUE NOS TOCA é um longo poema, de fôlego narrativo e verso largo, dividido em três partes (Exílio, Travessia, O Princípio da Imortalidade), onde se mostra a anti-epopeia dos refugiados que nos chegam de África e do médio oriente para se finarem em balsas de morte no Mediterrâneo. Os primeiros três versos soam assim: «prende-se ao coração/como animal de trela/ a terra a que chamamos mãe» e não deixam de martelar-nos espírito dentro os seus mais de mil versos, que correspondem ao lento escalpe da peregrinação para a morte.

Não há neste “cântico” maiúsculas porque face a este horror são ignóbeis as hierarquias e é-nos pequenino o coração que observa.

Tenho mais a sentir do que a dizer sobre este grito-que-nos-toca, a não ser que me espanta realmente que o oportuno carácter de urgência deste poema, de excelente factura técnica, tenha encontrado um caviloso silêncio (ressalvo a revista Caliban, que o entrevistou); sinal de que já não se acredita que a poesia possa ter um papel social ou qualquer dimensão que a torne relevante e necessária. Quando um bom poema como este, que não se faz só das incandescências oraculares e ousa declarar-se como respiração de um testemunho, numa boa bofetada na bochecha da indiferença política, cobardemente, não logra qualquer eco é porque a sociedade está doente e todas as tripas encortiçados.

Cito, do fragmento em prosa (poética) deste “cântico” (Travessia) – em prosa porque estamos então na “aventura” de Job, no momento em que atravessa o mar intérmino – selvagem, sem descanso ou cesura – da sua provação:
«e foi de noite, noite mais noite, que job e três amigos, encharcados de escuridão, se fizeram fantasmas fortuitos ondulando os sonos dos algozes e como coágulo romperam as primeiras e precárias ondas da incerteza e do desconhecido (…) deixando que a sorte rolasse os seus dados. (…) conheceram a negridão das águas paradas, vidro transparente como a espuma dos ossos, amarga e sideral se eternizando, a boca salgada como se picada por escorpiões, a pele queimada, chamamento de chaga, as cabeças a ferver de tanta bebedeira de luz, o frio à noite rasgando o pensamento, mandíbula.»

Obrigado Pedro por nos lembrares que não basta a empatia-diferida, falta a dignidade de dar viva voz à indignação.

8 Abr 2021

Bouquet

Vou ao hipermercado e perco o norte ao tempo certo da fruta. Qual é a época das cerejas? E dos pêssegos? Haverá mangas nas árvores todo o ano? E de morangos, que profusão é esta?

Eu ainda me recordo, mas nenhuma filha minha conseguirá entender a propriedade dos haikus em relação às estações do ano, que evidentemente nesse género poético se confundem com as maturações da vida.

Sempre me atraíram os haikus, mas raras vezes fui capaz de os cometer, acho que por falta de humildade. Escrevo um haiku e não deixo que a redoma do silêncio poise sobre ele, penso de imediato que lhe falta algo, que lhe posso acrescentar xis. Em dias de menor orgulho páro num soneto, mais vulgar é estragar um haiku (enfim!) com uma baba desmedida.
Angustia-me que me tomem por Satie, que não me acreditem como Rachmaninoff.
Uma das lições mais difíceis da vida é a que se estampa no haiku de Buson: «Para cantar/
o rouxinol/ só entreabre o bico.»

Talvez aos oitenta consiga dizer com o Hokusai, mais dez anos e conseguirei desenhar com vida o voo de um moscardo. Até aí, cagança e manha.

Capturei dois haikus numa Canção do Mário Quintana. Ei-los, em CANÇÃO MEIO ACORDADA: (…) Lua de ouro entre o nevoeiro/ Do sono que se esgarçou./ Laranja! Grita o pregoeiro.(…) Sob os arcos da manhã./ (Os gatos moles do sono/ Rolam laranjas de lã.)
Se eu fosse o Mário Quintana, acabaria por transformar o poema em dois haikus, mas ainda bem que ele nos deu a alegria de me contrariar.
Noutro poema, também só ficaria com o que aqui cito, CANÇÃO DE OUTONO PARA SALIM DAVI: O outono toca realejo/ No pátio da minha vida.
Mas isto sou eu a ler dois poemas de 1940.
E o Quintana acabou por fazer, na generalidade, uma obra magicamente enxuta, cristalina, e bem-humorada como em poucos. Não sei porquê, cheira-me que a feliz “leveza” do Jorge de Sousa Braga, teve aqui um mestre.

Em frente à paragem do chapa há uma tasca atamancada – cimento cru e grades sobre bandas de vermelho pintadas para anunciar uma marca de cerveja – como são quase todas na periferia de Maputo, ladeada por duas garagens, uma que parece o Museu do Escape, a outra especializada na recauchutagem de pneus.

Engraçado é os nomes escolhidos para as garagens: a Auto-Motora Passarinho e a Auto-Motora Passarão.
Explicam-me na tasca que ambas pertencem a dois cunhados desavindos, e que a primeira, a dos escapes, é de alguém de apelido Passarinho, o que determinou o nome da outra garagem, escolhida por pirraça e sarcasmo.

Mas a graça completa-se porque redescubro este mimo – e isto configura aquilo a que o Jung chamava uma “sincronicidade” – no dia em que releio a obra completa de Mário Quintana, vejam a delícia:
POEMINHO DO CONTRA, «Todos esses que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão…/ Eu passarinho!»

Os haikus, que são de uma concretude ímpar, não hesitam em restituir-nos o sentimento do mistério ou do inefável, e transportam-me para uma certa ambiência que estampa esta ideia de Montale: «Toda a arte que não renuncia à razão, mas que nasce do choque da razão com algo que não é razão, pode também chamar-se metafísica». Esta tensão sempre existiu, e acho piada que no horizonte da aporia ou do cinismo instalado no seio das sociedades servo-materialistas, se abeire, como se do magno regresso das andorinhos se tratasse, a metafísica. Pois como escapar à natureza, que julgavámos dominada – agora que o Covid nos
demonstrou a vanidade da nossa arrogância?

Daí que, de vez em quando, voltar ao haiku, nos habilite a uma primeira terapia, a um banho de modéstia.
À sua maneira, noutros domínios, e até no domínio das ideias, podem aflorar sínteses admiráveis. Do arguto Valéry: “Todos os políticos leram a História, mas fico com a impressão de que só a leram para daí retirar a arte de reconstituir as catástrofes” – condensando este nosso tempo, pasme-se, num poema inacabado.

Mas falta ainda aqui um bom ingrediente, que encontramos nos melhores haikus e nas melhores ideias, o qual talvez traduzisse assim: só quando uma ideia faz despontar uma sensibilidade, um novo discernimento, é que deixamos de ser apenas intérpretes de projecções passadas e reféns da sedução da inteligência que naquelas se arma.

Um bom haiku rompe, impõe um novo olhar.

Daí que considere que só uma destas aproximações que intentei em baixo cumpre o desiderato (- e já nem falo da métrica). E deixo ao leitor, como se fosse um teste americano, a apalpação duma (sua) hipótese:

1 O girassol não delata./ Não há peças sobressalentes/ para a polinização. 2 Amarelece a sede na carne/ das begónias. Deus/ já seria um excesso. 3 Tempestade,/ encavalitam-se as cerejas/ nas orelhas do vento!
4 Honra ao atavio/ à gordura na picanha:/ a tua carícia fora de horas. 5 Retirada a onda/ dormimos à beira mar sob/ a custódia dos despojos. 6 O meu corpo é o corrimão/ em que se coça/ a puída criança do tempo. 7 De galochas não és um camponês/ o haiku não te dá a santidade/ – que desejo é esse, se a beijas?, 8 Terrível mas verdadeiro,/ o dizer do Buson: canta o cuco,/ sem parentes nem fedelhos. 9 Queres ouvir as estrelas?/ Ouve o chamado/ de bronze dos grilos. 10 Crisântemos à altura da cintura/ e diante dos olhos a escarpa/ dos teus olhos que se afastam. 11. Vejo os cães a polir o teu afecto/ pela alba, na praia/ que me interditaste. 12 Duas mil insónias sem abrigo/ esmaltaram na lua/ a luz dos olhos dela. 13 Desejo inédito inunda a pélvis/ da minha namorada:/ comer ostras na lua. 14 Não subestimes o tigre/ que bafeja esta página/ rasgada pelos olhos do leitor.

1 Abr 2021

Da Ira Identitária II

Há livros clarividentes que constituem um antídoto contra esta maleita mas as hordas fazem alvorecer os equívocos. Devia ser obrigatório ler “As Identidades Assassinas”, do Amin Maalouf, ou o magnífico “A Identidade Cultural não Existe”, do François Jullien. Mas não foram escritos por africanos… e hoje a inteligência e a memória são rejeitadas como elementos espúrios, em não tendo um selo étnico.

Na semana passada evoquei a irreparável ofensa que constituiu a deficiência cognitiva programada pelo colonialismo, comentarei agora a abominável “perda de realidade” e a perversão dos valores que os regimes pós-coloniais imprimem na percepção das novas gerações, praticadas em nome da “identidade”.

Há uma jovem do Malawi, cujos livros estoiraram em todo o mundo. Chama-se Upile Chisala e foi publicada na Leya/Brasil. Li-lhe o primeiro livro, “Eu destilo melanina e mel”. Que tal é? Cite-se: «Eu gosto de pensar que Deus sorri/ quando uma mulher negra é corajosa o suficiente/ para amar a si mesma.»// «Diga a ela que há deusas nos seus ossos/ E histórias de triunfo na sua pele./ E que essa negritude não é um pecado».

Sobressaem no livro três temas: a cor da pele, a necessidade de auto-estima e o difícil respeito mútuo no amor. Upile cresceu no Malawi, entre negros, fez o curso universitário nos EUA, e depois voltou a casa e agora vive na África do Sul, maioritariamente negra, e, em entrevista, diz pretender ser a voz, não de todas as mulheres, mas, “das negras”, contra a discriminação que as vexa. Fico baralhado quanto aos alvos e em que “lugar” ela localiza o racismo e a discriminação: afinal, não vive em África? Talvez Upile sofra do mesmo problema que um jovem “filósofo” moçambicano que nas suas palestras excita a plateia com as mesmas histórias e argumentos histórico-filosóficos, que conduzem invariavelmente ao despertar para a consciência do homem negro, no bairro de Harlém, em 1920 – à terceira vez que ouvi o mesmo discurso, perguntei-lhe se ele já havia dado conta de que vivia em Maputo, terra libertada, em 2019. Até hoje não despertou para a sua realidade e papagueia o seu discurso anti-esclavagista, evitando pronunciar-se contra os erros grosseiros do poder actual que conduziram a Cabo Delgado e à decapitação de crianças.

Outros poemas do livro: «Você/ e eu/ e todos os nossos vícios.»//«Meu amor,/ você não acreditaria em todos os lugares/ em que achei que encontraria você.»// «Milhares de poemas vêm dançando no meu peito/ desde a primeira vez que você me beijou.»//«Tenha cuidado com a maneira como você ama as pessoas./ Não as destrua./ Não se destrua».

Isto tem consistência como poesia? Até como auto-ajuda é medíocre. Porquê o sucesso? É simples, é uma mulher negra num mundo polarizado, não importa a vulgaridade do que diga. Coitadas das poetas de outras latitutudes e raças: têm de estudar todos os poetas da sua tradição, dois mil anos de poesia, antes de se atreverem a escrever uma linha que seja consistente.

Esta crónica vai ser lida como racista quando é o contrário disso: apela a que os africanos readquiram a sua dignidade trabalhando mais e melhor e auto-guetizando-se menos.

Uma moçambicana passou-me o manuscrito de “uma novela”. Como novela era pífia; salvei umas frases no meio da hulha, que montei, o que resultou num poema unitário de 20 páginas. Ela publicou o poema. Vejo-a depois entrevistada pela RTP África onde, com desfrute e vaidade, se ufanava de ser estudada nas universidades do Brasil.

Em que farsa me meti eu, interroguei. De outra vez, deram-me um manuscrito de trezentas páginas para ler, sem estrutura, martelado na sintaxe com que se acomodarão os alimentos no bandulho de um pangolim. Estruturei-o e reduzi-o a cento e dez páginas. Pensei, isto, claramente, ainda precisa de ir às oitenta mas não quero assustá-lo de antemão. O tipo, radiante, meteu imediatamente o livro na tipografia antes de eu conseguir enxugá-lo devidamente.

Nunca mais privou comigo ou voltou a escrever outro livro. Ou antes, contactou-me dez anos depois para que eu exercesse de novo as minhas habilidades de alfaiate, mas disse-lhe que não.

Recebi agora um daqueles livros colectivos, emanados dos Departamentos de Estudos Africanos: lá vinha um aperaltado estudo académico sobre a famigerada “obra-prima”. Ao qual se segue outro artigo “científico” sobre uma poeta que não consegue, literalmente, no domínio da língua, fazer coincidir um botão com a sua casa. Assim se produzem teses, de fora, sobre “o cânone” literário, ancoradas num paternalismo estupidificante.

(Não distorçam, existem bons escritores, ainda esta semana escrevi o prefácio para um jovem novelista, falo antes dos “efeitos da mentira” alimentados pelo duplo critério da complacência, que impedem a autonomia e o crescimento).

O predomínio da cultura oral é patente, explicando a dificuldade de grande parte dos estudantes africanos que vão estudar para fora com bolsa. Não estão habituados a uma tal exigência de ritmo de leitura e de pressão. Em casa, os trabalhos nunca visavam a excelência e nas avaliações prevalece um critério de mitigação: “Dado o contexto, não é mau…”.

“Subtilezas” enquadradas num proselitismo auto-desculpabilizador e avesso à crítica. Neste contexto, a cultura instalada – de cultivar o discurso vitimista em detrimento do esforço e da produção, quer de conhecimento, quer de modos de vinculação ao presente -, é um erro programado que politicamente beneficia a alguns.

O que gera tensões e leva a que os comportamentos se polarizem entre a baixa estima e a auto-indulgência como desporto nacional, num desvanecimento colectivo que tem como mecanismos principais a busca de bodes expiatórios e a catarse hedonista. Por isso são sociedades essencialmente consumistas, destinadas a estar em pane: orgulhosamente, querem ter “a autoria” sem trabalhar o suficiente para aprender os processos. Eis a contradição, gritam por soberania ancorados em sistemas de vida que os engaja na dependência.

Houve um inquérito de uma rádio à boca da universidade sobre se era prioritário fazer o curso universitário ou pertencer ao Partido. Adivinhe-se.

26 Mar 2021

Da ira identitária I

“Canta, ó musa, a cólera funesta do pélida Aquiles!”: o primeiro verso da Ilíada. O primeiro verso da nossa matriz tece uma consideração sobre a ira. É surpreendente, não?

E pode a ira converter-se em vingança? Em Moby Dick, a dor e o eco da cólera no capitão Ahab desbordam numa ira obessiva contra a ofensa irreparável (no caso, a amputação da perna).

Muita da violência cega que reveste o furor identitário que hoje nos invade, à boleia do “politicamente correcto”, camufla dois factores: uma propensão para o vitimismo (acompanhada do complementar “remorso do homem branco”), e a auto-flageladora percepção emocional (nem sempre consciente) com que essas comunidades minoritárias (na Europa) sentem haver sido historicamente submetidas a uma ofensa irreparável.

Elucidemos com o equívoco da Lusofonia. Escrevi em Para que servem os elevadores e outras indagações literárias (o título chegou-me de nessa altura viver num 9º andar e do elevador estar o mais das vezes avariado):

«Em Portugal fala-se em Lusofonia como um efeito hipnótico que levaria logo a uma bacalhauzada entre os falantes de português. Para Moçambique é um termo controverso, associado ao neo-colonialismo. E de facto é preciso perguntar que sentido faz falar em Lusofonia num país em que só dez por cento dos seus habitantes é que tem o português como língua mãe. Mesmo que o português seja a língua oficial, os códigos e as performances da língua aqui são distintas, verificando-se um crescendo de contaminações das línguas nativas e do inglês na textura do português, assim como a presença de deslizes semânticos que introduzem variações quer de significado, quer sintácticas, que tornam a sua tradução uma história de diferimento e não um rastro contínuo.

A Lusofonia é uma cortina de fumo para que as embaixadas possam desligar-se da realidade e não falar entre si de coisas concretas, urgentes e necessárias. Com o álibi dessa suposta base identitária faz-se de conta que está tudo bem para não se investir em nenhum tipo de comprometimento sério (…) a Lusofonia lembra-me a deselegância de martirizar uma noiva, na véspera do casamento, falando-lhe obsessivamente do antigo namorado que ela faz tudo para esquecer.

O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar.

Enquanto não se entender esta coisa primária, a Lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho.

Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem»

É pior: Portugal deixou em Moçambique para cima de 90% de analfabetos. Foram os moçambicanos quem, na ânsia de dar um cimento comum a um mosaico com mais de duas dezenas de línguas, ensinou 50 % dos seus concidadãos a ler e a falarem português.

Não sei se há um modo suave, delicado, para explicar que uma herança de 90% de analfabetos possa constituir uma ofensa irreparável cometida pelo colonialismo português.

Esta situação provocou dois efeitos simétricos: um orgulho moçambicano que roça o patetismo e se mescla numa enviesada fobia ao outro (sobretudo o português) e uma vontade regressiva de voltar às origens, às “tradições”, patentes na ilusão identitária.

Por outro lado, em termos globais, não se pesou este aspecto, que frisei noutro livro: «Para Baudrillard, que era um espírito apocalíptico, “vivemos num período pós‑orgiaco” e numa evidente saturação de todas as nossas categorias e signos culturais. Julgo que ele terá confundido os sintomas com os efeitos. No fundo, sintetiza numa fórmula de aparato o que antes dele escrevera Cioran: “Um povo está prestes a morrer quando já não tem força para inventar outros deuses, outros mitos, outros absurdos; os seus ídolos empalidecem e desaparecem e busca outros, noutra parte, sentindo‑se só diante de monstros desconhecidos. Também isto é a decadência.” A gravidade acentua-se com as representações que se projectam globalmente desta ideia, que os media e as redes sociais espalham como metástases.

Não se tem presente como para os países novos, saídos há décadas do jugo colonial, talvez seja deprimente viver um reapossar da terra e dos seus direitos sobre a modelização do futuro num estado do mundo que se define como pós‑orgíaca.

Então o que lhes coube da festa? E como lidar com uma necessidade vital de desenvolvimento num momento em que a ideia de progresso é encarada como um mito nefasto? Que ironia violenta. a de aceder à soberania quando este estatuto começa a fantasmar‑se?

Não se medem bem a angústia e o cinismo que dimanam dessas ideias politicamente correctas, que se globalizaram, e que os media e as redes sociais difundem. Não creio que este clima esteja alheado da incubação da violência, pois, para nos servirmos da descrição que Kafka fez de Odradek, os cidadãos destes países sentem‑se “uma existência sem proveniência, uma destinação ignorada, uma vida sem sentido”. A fuga para a frente a este sentimento oscila entre o retorno a um patológico “integrismo” étnico – de que o afrocentrismo é uma face – e a tradução em violência de uma angústia impactante».

Daí a vontade de reparação, a incompreensão de que o presente não traduza um afã reparador. À legibilidade ou não de um sentido histórico para tais acções, ponderado e discutido, sobrepõe-se nessas comunidades o sentimento da urgência no resgate, duma redistribuição do saque – faça-se a cobrança!

E o cobrador pode ser aquele personagem de um conto do Rubem Fonseca, que apanhou à má fila uma metralhadora na favela e desce do morro aos bairros dos grã-finos, “cobrando” à esquerda e à direita.

18 Mar 2021

Dos brasões e dos impérios

Coitado do império romano, um império de mil anos, que foi sempre colonizado mentalmente. Dir-se-ia até que foram marionetes, primeiro dos gregos, depois do Cristianismo – ‘tadinhos!

O que nos ensina, este exemplo? Que a História não é linear, não é um mecanismo que conduza ao estipulado pela caução determinista. A História extravia-se irremediavelmente em becos, desperta energias que diferem em relação ao seu eixo e restitui, nos gérmenes das mentalidades que desperta, o que estava na sombra e agora irradia com uma tremenda força de contágio em direcções não previstas.

Daí que, di-lo Benjamin, caiba ao historiador suspender todo e qualquer preconceito se quiser contar a história tal qual ela é, i. é, no engendramento do que bifurca de si mesmo. E adianta na segunda das suas Teses sobre a História: “o cronista que narra profusamente os acontecimentos, sem distinguir grandes e pequenos, leva com isso a verdade de que nada do que alguma vez aconteceu possa ser dado por perdido para a História.”

Pior, em Benjamin, a utopia não é mais pensada como a crença no acontecimento inexorável de um Ideal localizado no termo mítico da história, antes ressurge – através da categoria de Redenção – como “a modalidade do seu acontecimento possível a cada instante de tempo”. E neste resgate acrescenta-se dignidade aos vencidos, que apenas de forma temporária e contingente, se encontram desse lado da barricada.

A História, portanto, reconfigura-se a partir das particularidades, do que nela jazia subterrâneo e marginal ao sistema em vigor. Pelo contrário, a História mostra-nos como tudo tende para o gradual e fosforescente domínio dos vencidos no plano das mentalidades. Para o bem e para o mal. Pelo que, na dúvida, na colisão das narrativas, é sempre melhor negociar cedências mútuas do que “vencer”.
Até na “indústria cultural” é assim: o rap, expressão das periferias foi assimilado, e, convertido em hip-hop, tornou-se dominante, até à náusea.

A Alemanha fascista ergueu-se sobre as ruínas dum tecido social vencido, humilhado e esquecido; a atracção pelo modelo estalinista nos países comunistas mais não foi que a violência maniqueia do ressentimento com que os vencidos trocaram de posições. A Primavera Árabe não foi pervertida, simplesmente acordou o monstro adormecido, que com um atitude sobranceira se havia negligenciado, etc., etc.

Aquilo que o Freud explicava caridosamente quando dava como uma das leis do inconsciente a sua impossibilidade de esquecer, tudo se retém na caixa negra do inconsciente para ser baralhado e voltar à superfície lá mais para diante. Com os povos e a História é o mesmo. Tudo o que se censura volta, o que foi desdenhado e empurrado para a periferia voltará sem remédio.

Acho por isso delirante a polémica em torno de “abafar” ou não os brasões, no Jardim da Praça do Império. O acto de retirar os 32 brasões do Jardim do Império é tão irrelevante para a dignificação da memória das comunidades afro-descendentes como desnecessário. Afinal, o que representam os brasões? Legumes, pequenos arbustos e flores das diferentes e antigas províncias do “Império”. Porquê vedar às crianças a oportunidade de perceberem que as papaias, a pêra abacate, as mangas, a goiaba, que vêem à venda nos hipermercados, são originárias dos países africanos de que inventámos os mapas – para depois lembrar que os “benefícios” do colonialismo geravam a infelicidade dos povos autóctones.

Já retirar os brasões perpetua o erro de recalcar o que supostamente – no novo império do “politicamente correcto” – é vergonhoso. A História faz-se também das suas vergonhas e crimes e não convém ocultá-los.
Só se adquire uma dimensão crítica quando ficam expostas as contradições do sistema e isso possibilita o recuo que nos distancia da carga ideológica de que os seus vários signos eram portadores.

Como escreveu Sena no poema Chartres ou as pazes com a Europa: «Europa, minha terra, aqui te encontro/ e à nossa humanidade assim translúcida/ e tão de pedra nos pilares sombrios.» A “humanidade” nalguma Europa é ainda (apesar de tudo, confirma-o a condenação de Sarkozy) translúcida porque expõe os seus pilares sombrios, não os esconde com um tapume.

Diga-se: a actual cultura ocidental aceita que a sua academia ou artes contrariem ou forjem narrativas paralelas à da sua “história oficial”, num ventilado sistema de correcção conceptual e de fugas, em sendo os argumentos convincentes. Esta liberdade não é global. Onde se oxigenam os ensaístas pós-coloniais, dos diversos quadrantes e raças, e que minam, tantas vezes com acerto e pertinência, a credibililidade das narrativas europeias; em cujo território, apesar de dissonantes, são tratados com respeito, beneficiando até de um mínimo conforto material para poderem zurzir com habilidade e apoio institucional na civilização ocidental? Na Europa (ou nos EUA).

E adianto já: é assim que deve ser. A saúde democrática demanda a presença de antídotos.
Não podemos é aceitar isto por um lado e querermos apagar, como revisionistas, o lado negro da História.
Nas sociedades conservadoras ou autoritárias os liames que cimentam uma sociedade são mais diacrónicos do que sincrónicos: emerge de um desligamento forçado com o presente a força dos símbolos fundadores.

Hoje, na era pós-colonial e da democracia electrónica, diferentes narrativas e tempos históricos digladiam-se e no tecido do quotidiano notamos a presença de vários tipos de presentes, correspondentes a uma heterogenia na composição do(s) passado(s). Neste panorama, o cultivo da memória e o seu debate são cruciais e não devem ser objecto de demagogia.

Como o fará o Chega, que ergueu a bandeira de partido que preserva “todos os símbolos históricos da nação portuguesa”, os quais vai distorcer e idolatrar. É importante que um pai afro-descendente a passear no jardim, possa comentar aos seus filhos, “Era com estes engodos simbólicos que os filhos da puta endrominavam os soldados que iam para a guerra oprimir-nos”, e que eu possa apontar aos meus, “As nações fazem-se numa soma de erros e barbaridades que convém não serem escondidos para podermos estancar a irracionalidade.”

11 Mar 2021

O lugar-de-fala

Essa falácia que se chama “lugar de fala”, tal como está a ser entendida, significa, de modo caricato, que eu como branco não posso falar da injustiça cometida sobre um negro (pois sei lá eu do que falo), que a galinha não pode falar da terrível cárie do lobo, que só a mulher pode falar autenticamente do seu castigo em engomar a roupa da família e que só o monge trapista poderá falar do silêncio.

O último exemplo idiota é a situação em que se viu envolvida a jovem escritora holandesa Marieke Lucas Rijneveld, que, dada a controvérsia inflamada, desistiu de traduzir  holandês o poema recitado por Amanda Gorman na cerimónia da tomada de posse do presidente norte-americano Joe Biden. Segundo o The Guardian, Marieke Lucas Rijneveld — que já ganhou o International Booker Prize — foi escolhida pela editora Meulenhoff  para traduzir o poema Hill We Climb, escolha que a americana aceitou com regozijo. No entanto, Janice Deul, uma jornalista e activista dos Países Baixos, resolveu “falar pela outra” e reinvidicar a dor que Gorman não manifestou, levantando a polémica. Janice defendia que o tradutor de um poema destes devia ser como Gorman, “um artista local, jovem, uma mulher assumidamente Negra”.

O “lugar de fala” é tão duro de ouvido que esqueceu duas qualidades essenciais ao humano e que são anteriores à sua origem étnica ou à braguilha do seu género: a) aquilo que em sociologia se chama «compreender com» e, b) o que é fulcral ao equilíbrio interelacional no quotidiano e nas sociedades, ou seja, «a empatia».

Exclui também, quer a possibilidade de juízos universais, quer o Outro como constituinte da nossa própria identidade – isto é, abole o que é intrínseco à nossa própria formação. Mais redutor e impregnado de má-fé seria difícil.

Passou-se da “autenticidade” da cultura do Outro no Multiculturalismo (que, convenhamos, o mais das vezes não serviu senão de um álibi para a nossa falta de curiosidade quanto ao diverso) para a morte do Outro, que amputamos em nós.

Relembro que mesmo as noções de identidade mais integristas estão reféns, por incapacidade de manifestarem-se senão por constraste a outras. Uma boa fábula para esta doença seria a do homem cuja maior ambição fosse caiar a sua sombra para que ela desaparecesse e afinal descobrisse a meio da sua missão que ela agora se projecta no branco da cal.

E afinal, diga-se, o “lugar de fala” mais não é que a vigência da verosimelhança que já Aristóteles exigia à contrução dos personagem. A tolice é que agora se quer pregar como moral excludente, e assim, com o “lugar de fala” também se multiplicam os equívocos. No meio disto outra tristeza se revelou: a fragilidade com que Marieke Lucas Rijneveld cedeu à pressão. Era uma boa ocasião para as duas autoras darem a mão e darem uma bofetada na tolice que atravessa o mundo.

O filósofo brasileiro Paulo Ghriraldelli fez um magnífico vídeo sobre o que tem de erróneo o “lugar de fala”. E dá um exemplo certeiro com o hífen que toma a parte pelo todo, no afro-brasileiro. Quando a comunidade afro-descendente faz do hífen a reivindicação suprema está a fechar-se numa clausura étnica que esquece dois princípios que são anteriores à sua pertença étnica: o de que é brasileira e o de que existe uma Constituição que como brasileira devia exigir ser cumprida. E aí aliena um combate político que, para resultar em mudanças visíveis, pede um empenhamento total em vez de um interesse parcelar.

Ou seja, paradoxalmente, quem reclama a atitude exclusivista de uma pertença étnica, está a assumir um lugar de subalternidade, para desde esse palanque reclamar os seus direitos. É absurdo.

Os grandes problemas de racismo, no Brasil, nos EUA, na Europa, na Ásia, em Moçambique, são sistémicos, e não dirigidos a um estrato étnico. O racismo, na maior parte dos lugares, é sobretudo dirigido aos pobres.

O “lugar de fala” torna-se então o palanque para dar voz ao fogo de artifício da rendição. É como nos embrulhamos na retórica, para pedinchar quotas, quando há direitos consagrados numa Constituição por cumprir.

Pelas “leis” do “lugar-de-fala” eu só teria legitimidade para defender os direitos da “comunidade lgbt” se pertencesse a um dos seus segmentos, porque não poderia falar por direito próprio. Ora, posso, por conceber o amor para além dos seus géneros e considerar aviltante a mais mínima coacção sobre os direitos e dignidade que cabem ao amor, mesmo que suceda entre um periquito e um ferro de engomar.

A poesia, a arte, a literatura, o teatro ensinam-nos precisamente a tornar porosa a sensibilidade de modo a podermos percepcionar esses outros modos de vida, auto-transformando-nos de um jeito que nos permite «compreender com» e sintonizar outras pautas culturais de seres humanos diferentes de nós.

Ao invés, o “lugar de fala”, como tem sido propagado, é uma versão doce do racialismo; a qual se resume a uma reacção simétrica do apartheid.

Na literatura moçambicana há uma guerra subterrânea entre alguns escritores e Mia Couto por considerar-se que Mia invade o território que é “deles”, e que Gungunhana, como motivo e personagem, só a “eles” pertence.
Pelos princípios do “lugar de fala”, Eurípedes não deveria ter escrito a Medeia (uma apropriação), nem Sófocles a Antígona (outra apropriação), nem Aimé Césaire a sua Tempestade (apropriação de Shakespeare), nem Joyce Carol Oates os magníficos ensaios sobre boxe. Ora, diante de tais bacoquices, só me apetece dizer como o Alfred Jarry: merdra!

Como “lugar de fala”, autêntico, só existe um: o do combate político contra os males estruturais das sociedades hodiernas, e estes não se compadecem com as distracções identitárias.

Só há um limite para a empatia: no umbral da dor estamos irrediavelmente sozinhos e, nesse sofrimento, não há nem cores de pele nem características de género.

4 Mar 2021

Marte e a agência barata

19/02/2021

Dantes só encontrava números de telefone nas últimas páginas dos livros, muitos deles estranhos e de novo anónimos ao fim de pouco tempo. Nesta época desavinda, sempre que revisito um livro, dou conta de só ter anotado nessas páginas, números de táxis, horários de comboios ou de Expressos, modos de trânsito. O isolamento estreita-se e estreita-nos e eis-nos, como os caranguejos, em andamento oblíquo e reticente, a pau com a própria sombra.

20/02/2021

É espantosa a nossa (minha) ignorância. Em 1926, quando Robert Goddard lançou o primeiro foguete movido a combustível líquido à respeitável “altitude” de 12,5 metros, quem se consentiria a imaginar que o rover Perseverance pousaria em Marte 95 anos mais tarde, 54 milhões de quilómetros de distância?

Não me fez mal tanta leitura de Rilke mas devia ter alternado com mais leituras científicas. A ciência, a poesia e a música: os pilares em que devia assentar qualquer educação que se preze.

O salto que se deu em menos de cem anos!
Melhor, foram três os países que se dispuseram a uma “amartagem” e para além da colheita de poeiras cósmicas ser desta vez partilhada colapsaram-se de uma vez as teorias da conspiração que defendiam nunca o homem ter ido à lua, a não ser que os chineses e os emissários de Alá se hajam rendido a Hollywood.
Em homenagem a Marte, durante um mês só se deviam usar palavras pressurizadas.

22/02/2021

Não é o caso destas.
Há um livrinho colectivo de 2013, que se chama O QUE É UM POVO? Quem o abre é Alain Badiou com um texto intitulado Vinte e quatro notas sobre os usos da palavra “povo”, e na nota final lê-se: «A palavra “povo” só tem um significado positivo quando subentende uma possível inexistência do Estado, seja porque se trata de um Estado interdito cuja criação é ansiada ou de um estado oficial cujo desaparecimento é desejado. “Povo” é uma palavra que assume todo o seu valor na forma, transitória, duma guerra de libertação nacional, ou, em níveis bem mais baixos, sob aquelas formas definitivas das políticas comunistas».

Leio isto e não consigo deixar de pensar em Moçambique e na sorte lamentável que tem, a todos os níveis. Há povos que nascem para a provação. Num estalar de dedos morre Daviz Simango, líder do MDM, e o competente presidente da câmara da Beira. Com 57 anos, de um AVC, com “recaída”. Mais do que Dahklama, que só conhecia a linguagem das armas, Daviz é que introduziu verdadeiramente a oposição parlamentar e democrática em Moçambique e o seu relevo vinha-lhe, além disso, da qualidade da sua gestão à frente de uma cidade fustigada quer por calamidades físicas, quer pelo contínuo boicote do poder central. Apesar dos limites dos recursos com que contava, conseguiu imprimir uma dinâmica e uma credibilidade à sua gestão que o tornou confiável, interna e externamente. Com este desaparecimento, contam-se agora pelos dedos de uma mão as figuras de oposição com um verdadeiro capital político e competência técnica para governar, só que nenhum deles é líder e tem carisma. É uma verdadeira desgraça, num momento de realidade soturna, onde à política restritiva do covid se junta um blackout informativo (sobretudo no que às guerras diz respeito), e quando o poder se sustenta num partido que institucionalmente já colonizou tudo, só restando que o soalho apodreça sob os seus pés à vagarosa velocidade do muchém e que o empobrecimento se acentue. Enfim, cada vez mais este é um povo com muitos recursos mas a quem furtam a esperança.

23/02/2021

Encontro, escrito pelo crítico de arte Bernard Berenson, algo que me parece vital: «Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer».
Vagabundagem ao sabor da pele, como a do o matreiro sorriso de Pessoa quando a morte o convidou a jogar xadrez?
Mesmo políticamente, Pessoa apostou sempre nesse tabuleiro.

Em 1917 é publicado no Portugal futurista o «Ultimatum», pela pena de Álvaro de Campos. É um libelo político fortíssimo que apela à regeneração da Europa, mergulhada numa guerra fratricida. O heterónimo de Pessoa propõe uma intervenção cirúrgica anti-cristã, o que compreendia:

a) A abolição do dogma da personalidade; b) a abolição do preconceito da individualidade; c) a abolição do Objectivismo pessoal.

O seu projecto corresponderia a uma revolução coperniciana, com os devidos nexos políticos traduzidos num novo sistema em que cada cidadão teria direito a X votos, consoante o mérito pessoal. Pessoa, como era um Sindicato, teria direito a, no mínimo, 6 votos: ele mesmo, ortónimo, 4 heterónimos (contando com o António Mora), e o semi-heterónimo Bernardo Soares.

Isto é mais do que curioso (ainda que perigoso e manipulável), sobretudo como pretexto para uma discussão quanto aos deficitários valores em uso na preguiçosa e dolente democracia hodierna e nunca esquecendo que Pessoa visava sobretudo um sistema que premiasse o mérito, um sistema antitradicionalista e anti-hereditário, e ao arrepio de interesses corporativos.

Eis um dos poucos democratas genuínos no século XX, um homem que vai ao cerne receptor da ideologia, o sujeito, e o esvazia, substituindo-o por uma pensamento que não se move por antagonismo dialéctico mas no trânsito entre polarizações. O que à partida torna impossíveis pulsões hegemónicas, autoritarismos e dogmas. Mais democrático é difícil.

Em 1936, quando morreu Fernando Pessoa, os serviços fúnebres ficaram a cargo da “Agência Barata”. É um simples pormenor, mas no caso de Pessoa nenhuma coincidência é um acaso. Sinaliza o despojamento de a quem já não resta um eu para morrer.

26 Fev 2021

A última refeição

Tencionava escrever outra crónica onde queria demonstrar como o comportamento dos canais televisivos, na dramatização do covid e na expulsão dos índices culturais da pólis mediática, corresponde ao fosso que se cavou e que separou definitivamente a Comunicação do Conhecimento, divórcio que se afigura trágico para a sustentação dos valores da dignidade humana e cujo discernimento hoje se revela fulcral. Ficará para a semana. Duas coisas impuseram uma mudança de rumos, uma pessoal e outra do orbe político mundial.

A pessoal é que acabei a peça de teatro que a Maria João Luís me encomendou para o Teatro da Terra. A peça já tem datas de estreia, em dezembro, no Seixal e em Lisboa, no S. Luís. Tenho agora a obrigação de me manter vivo até lá.
Aí vai a sinopse para A Última Refeição:

«Helene Weigel dispõe os ingredientes sobre a banca e deita mãos à obra: confeccionar uma última refeição para o Bert (Brecht). Frango na púcara com temperos à Mãe Coragem.
A estranha banca da cozinha, com gavetas de diversos tamanhos de um lado e de outro, está suspensa, presa ao tecto por cabos.

Na primeira parte da peça, Helene, enquanto cozinha, vai discorrendo sobre a sua vida com Bert: as grandes alegrias por partilharem de um transcendente sonho teatral e se confiarem incondicionalmente no palco, numa sintonia que os levou ao êxito, e, por outro lado o sofrimento com as traições conjugais e o carácter de pinga-amor do Brecht e a sua noção muito alargada de “família”; a dureza da vida no exílio; o difícil regresso a Berlim e o seu papel como “dama de ferro” para manter a administração de um teatro com 260 funcionários; o seu papel de “mãe” para manter Bert no equilíbrio propício às suas necessidades criativas.

À medida que se vai emocionando com os episódios que relata, vai mudando o seu modo de picar os legumes e de tratar os outros ingredientes, alterando o ritmo da confecção e oscilando entre e a delicadeza ou a rudeza na relação com os ingredientes, os temperos, etc. Por fim mete a púcara no forno, outra das gavetas embutidas na “banca”.

Há que “aguardar” que o fogo actue e o frango saia à altura da sua fama como cozinheira: algo que “ressuscite um morto”.

(para o começo da segunda parte:) Helene começa por mostrar-se arrependida por ter escolhido um prato feito no forno, e pede desculpa a Bert, por de repente lhe parecer que as chamas do forno se assemelham às do Inferno, que o recém-falecido pode pode estar prestes a enfrentar. Tem um momento de desvario, onde “ressuscita” o medo que agonizou Galileu quando se sentiu acossado pelo risco da fogueira da Inquisição, antes de se acalmar.
Bebe um chá e então Helene, gaguejando primeiro, relata o seu encontro com o agente do STASI que lhe anunciou com antecedência a morte de Bert, porque afinal era a Morte disfarçada.

E como esta lhe lançou o mais terrível dos desafios: já que ela foi a Mãe Coragem porque não encarnar outra grande figura da tragédia clássica, a Alceste, cuja qualidade humana assombrou os deuses, ao aceitar que a Morte a levasse no lugar do seu marido? A morte diz-lhe que sempre admirou o amor incondicional dela por ele e que a sente à altura do desafio.

Helene vacila. Bert já está no caixão, mas ela ficou de responder à morte na manhã seguinte, para o substituir ou não, e no primeiro caso a Morte ressuscitá-lo-ia. O dilema desespera-a e resolveu fazer o prato que Bert mais gostava e que considerava digno de “ressuscitar um morto” (- talvez assim ela não precise de sacrificar-se”, pensa.)

Quando o frango fica no ponto, Helene tira-o do forno e antes de o destapar limpa o tampo da banca (mete tudo o que lá estava noutra gaveta), e depois abre o tampo da mesa de cozinha, pois afinal era a urna onde está o corpo de Bert.

Então destapa a púcara para que ele sinta o cheiro inebriador do prato, e tem uma última conversa com Bert.
Em primeiro lugar quer discutir com ele uma determinada passagem de “A alma boa de Setsuan”. Quer discutir com ele, um certo matiz da Bondade, que ainda lhe faz espécie. Depois, então falarão sobre a Alceste. O que Helene decidir será de consenso entre os dois.
O intenso aroma do cozinhado invade a sala.»

Esta foi a primeira sinopse. No fim a peça ficou ligeiramente diferente, mas não revelo mais nada para que haja surpresas em cena, e serão bastantes. Foi uma peça de confecção demorada, tive de ler e reler quase tudo do Brecht, mais uns quantos livros sobre ele, para que não houvessem dedos apontados por parte dos “donos” do Brecht e porque, afinal, a complexidade da criatura pedia.

O segundo motivo prende-se com a perplexidade face ao resultado do Impeachment do Trump. Fica em risco a democracia em todo o mundo, com este mau exemplo, pois um dos mais convincentes argumentos dos acusadores Democratas, consistiu em lembrar como a absolvição do político criaria antecendentes para uma nova norma de actuação política que deitaria por terra todos os princípios. E acho que eles tinham razão. E o mistério impõe-se: que raio há de fascinante no grotesco solipsismo de Trump?

Só me resta fazer um comentário em modo teatral:
«A alma de Trump chega à Barca do Paraíso. Depois de ouvidos e discutidos os seus pecados, Trump é recambiado para a Barca do Inferno e o Anjo do Inferno manda-o embarcar com verdadeiro júbilo. O drama é que assim que o Trump entra na Barca do Inferno esta afunda com o peso das suas faltas. Há que encomendar outra Barca a um célebre armador grego, de quem o Trump se diz amigo, e de quem pode obter um abatimento nos custos finais…». O resto, imaginem vocês.

18 Fev 2021

Marcha dos cangalheiros

No último mês tenho assistido aos telejornais portugueses a que posso aceder (RTP e TVI), e estou atónito: a Cultura foi exterminada. Aliando isto à inexplicável proibição de comprar livros “presencialmente” e à suspensão de tudo o que seja espectáculo, confirma-se: para além de um imenso tecido profissional rasgado em pedaços por determinações do poder que pela metade são algo arbitrárias (não vejo a dificuldade das salas de teatro ou de espectáculos – se não convém ter orquestras em palco, divulge-se a música de câmara, por ex. – poderem abrir com restrições de lugares que salvaguardem as medidas sanitárias), regista-se uma profunda insensibilidade para o que seja e representa a cultura. O escandaloso? Que não haja um político revoltado contra “o estatuto de coisa decorativa e dispensável em que se confinou a cultura”; que os agentes da cultura não estejam unidos contra a vileza da miséria simbólica que permeia o actual “pensamento” político (cada sector indiferente aos demais); que os professores não sejam os primeiros a repudiar este estado de coisas. Veremos porquê.

No meu ensaio sobre o Bocage escrevi: «Bocage foi o artista possível num mundo intelectual que era a inúmeros títulos uma farsa. No tempo de Pombal, na ópera italiana da corte, “o primeiro dançarino era cego. Acostumavamo-nos a ver a medida dos seus passos regulada pelas proporções do palco”», e dizia-se «”(…) A representação nem sempre é de bom nível, excepto no caso das farsas”. É um povo que só dá para a farsa, desde que a mordacidade seja doce — e que não se quer creditar para além disso. Natural que os castratri e o travestismo durem em Portugal até ao último lustro do século XVIII, enquanto os actores eram menosprezados, no dizer de Cavaleiro de Oliveira, que daqui zarpou: “Os portugueses, a exemplo dos romanos, têm os actores em grande desprezo. A profissão de comediante é a mais vergonhosa de todas. Consideram-se ainda abaixo das que são realmente infames e criminosas.

Para nos convencermos disto, basta dizer-se que negam sepultura em sagrado aos actores, e que as dão aos salteadores e facínoras” (…) Ao mesmo tempo, segundo os testemunhos estrangeiros, na cidade denota-se um estulto orgulho em ser “mosca”, esbirro, servil, bufo (…) e veja-se esta observação de Eduardo Mascarenhas, biógrafo de Manique: “aos moscardos e moscas entretetidos a vigiar de longe e de perto os cafés (…) não lhes sobrava horas para outros serviços” — ó codiciosa e recompensada preguiça! Neste chão em que os ociosos eram recrutados como delatores, todos eles se viam, mediam e ajuizavam uns aos outros, comendo à vez da mesma gamela; uns pelo elogio e a hipocrisisa, outros pela vileza da denúncia. A dignidade não é ainda uma palavra com plena cidadania. » Daqui não saímos.

Para o filósofo e pedagogo José Antonio Marina, uma cultura fracassa quando, em confronto com um mundo mais complexo do que aquele em que crêem os seus políticos ou comunicadores, estes simplificam a realidade. É um vivo retrato do jornalismo actual, ocupado a simplificar a realidade e a encurrá-la num único índice: a morte. Passámos com exaltação das Indústrias Culturais para as Indústrias da Morte. E com a indignidade dos bufos, que num afã de controle, se esmeram em não falhar nenhum número, esquecendo outros pontos de vista da realidade e até qualitativos, os pivots vestem a pele dos gatos-pingados. É tão deslocado como recrutar Paulo Portas para comentar o Covid.

Um dos marcadores que faz esmorecer a inteligência colectiva é o medo.
Quatro desejos fundamentais motivam as actividades humanas (cf. JAM): sobreviver, desfrutar, vincular-se e ampliar as possibilidades. Para que esta última, a mais importante, se realize é necessário que a relação entre o indivíduo e a sociedade se paute por uma cada vez maior autonomia individual; dinamismo emancipador que faz nutrir a inteligência e essa capacidade desiquilibradora que é o pensamento crítico.

Só depois da terra estar remexida por estes dois instrumentos se semeia a liberdade, nem há desenvolvimento sem que isto se cumpra.

Vejo os telejornais e só me lembro da abertura de um ensaio sobre o Mal do Fernando Gil: «Venho falar-vos do mal. O bem está acima das minhas posses». Esta irónica inversão dá conta dos paradoxos do mundo: a loucura com que a humanidade se evade de interrogar a atracção para alimentarmos com o erário público fortunas instantâneas que nos exaurem, ou o desleixo de não interrogamos porque é que nenhum director de canal televisivo ou um pivot de renome (esses Novos Cangalheiros que passam por “influencers”) se lembrou de que, sendo uma das funções da arte a catarse, e, dada a Grande Anomalia em que vivemos, despontava uma óptima oportunidade para conciliar a arte e a cultura com novos públicos e para aumentar na programação televisão as horas dedicadas ao teatro, à música, à dança, aos livros, às artes plásticas. A questão é: porque é que nenhum se lembrou, desbaratando esta oportunidade histórica? O que os motiva?

Há um contínuo derrame de bens e recursos, como se, precisamente, o Bem estivesse acima das nossas posses enquanto pelo consentimento do Mal brilhasse a promessa de nos lambuzarmos com os restos do saque.

Outra frase, no ensaio de Gil: «A malignidade da natureza humana não é tanto a maldade… isto é… uma intenção de admitir o mal enquanto mal como motivo… como a perversão do coração» resume aquilo a que assistimos hoje: um encortiçamento geral do coração. E se onde há cortiça há vinho, neste caso, não é do que nos aquece o sangue mas é do que nos habitua ao sabor da ira e da cólera e alimenta os Venturas.

Os canais televisivos traíram o resguardo simbólico que só a cultura de um país pode vivificar. Os seus jornalistas aderiram à cobardia militante e já não desfrutam nem vinculam: colocando-se por escolha exclusiva do lado da morte, onde, como arautos desta, só enrolham.

11 Fev 2021

A pedra e a funda

Poucas coisas acontecem para além do que Drummond refere num dos seus poemas mais famosos, «No Meio do Caminho: No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra.// Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas./ etc.»

Há uma pedra no meio do caminho, uma pedra no olho, uma cristalização na mente, é tudo o mesmo: um inextricável desassossego. Pode também acontecer haver vidas monstruosas de aventurosas. São raras. O mais comum é serem pecas, inábeis, moverem-se em vagarosos ajustes. Haver poucas pedras para cada vida.

A Ulisses coube Tróia e a fidelidade de Penélope. Sem ela, seria como os troianos, um derrotado. É Penélope, quem o certifica como herói, na simetria invertida da traição de Helena. Pelo engenho com que Penélope se mantém fiel tece a memória em que se inscreve o amor. Ulisses e Penélope inventam o amor, até aí só havia o desejo e a paixão, a partir deles passam a ser indissociáveis o amor e a memória, eles selaram o pacto.

A pedra a meio do caminho de Ulisses foi essa incapacidade de esquecer o compromisso, de convertê-lo em uma mera e nova estria de intensidade, trivializando-o. A meio do caminho há sempre a pedra da trivialização que nos tenta. Como a Circe a Ulisses. No que diferimos é no que cada um faz disso.

Na epopeia homérica temos dois heróis, Ulisses e Aquiles. E leio, no magnífico Las pasiones según Rafael Argullol: Aquiles, quando lhe dão a escolher entre a vida e a glória escolhe esta última, já Ulisses perante a mesma questão prefere a vida.
Vou dizer algo em contracorrente às aparências: Aquiles foi simplesmente um cobarde.

Porque é simples gastar a caixa de fósforos de uma vez. É um puro acto de potlach. Mais complicado é chegar ao fim da vida sobrando alguns fósforos na caixa e sem nunca termos morrido de frio ou termo-nos evadido das pedras a meio do caminho. Aí foi preciso aliar a inteligência à atenção. A capacidade de atenção, eis o que substitui em Ulisses a heroicidade. Graças à atenção, Ulisses aprendeu a fazer o fogo sem ter de desbaratar fósforos e soube contornar as pedras que lhe apareciam no caminho.

Tenho por cada vez mais certo que a nossa vida, passado o ímpeto de paixão com que a galgámos nas primeiras décadas, depende da densidade da nossa atenção. E que reforçar a atenção é também uma forma de resistir à cobardia militante com que as nossas práticas sociais nos tentam.

A cobardia militante, gregária, está instalada. Pior, a cobardia do literato. Aquela contra a qual previne Mário de Andrade em carta a Drummond, a propósito de Anatole France:

«“Devo imenso a Anatole France – diz você -, que me ensinou a duvidar, a sorrir e a não ser exigente com a vida.” Mas meu caro Drummond, pois você não vê que é esse todo o mal que aquela peste amaldiçoada fez a você! Anatole ainda ensinou outra coisa de que você se esqueceu: ensinou a gente a ter vergonha das atitudes francas, práticas, vitais.

Anatole é uma decadência, é o fim duma civilização que morreu por lei fatal e histórica. Não podia ir mais pra diante. Tem tudo que é decadência nele. Perfeição formal. Pessimismo diletante. Bondade fingida porque não é desprezo, desdém ou indiferença. Dúvida passiva, porque não é aquela dúvida que engendra amcuriosidade e a pesquisa, mas a que pergunta: será? irônica e cruza os braços. E o que não é menos pior: é literato puro. Fez literatura e nada mais.

E agiu dessa maneira com que você mesmo se confessa atingido: escangalhou os pobres moços fazendo deles uns gastos, uns frouxos, sem atitudes, sem coragem, duvidando se vale a pena qualquer coisa, duvidando da felicidade, duvidando do amor, duvidando da fé, duvidando da esperança, sem esperança nenhuma, amargos, inadaptados, horrorosos. Isso é que esse filho da puta fez. , d, d,Foi grande? Foi. Foi talvez mesmo genial nalgumas páginas. Pouquinhas, graças a Deus. Foi elegante, fino, sutil? Foi, foi, foi. Mas também foi filho da puta, porque as grandezas que engendrou não bastam pra pagar um só dos males que fez. (…) O mal que esse homem fez a você foi torná-lo cheio de literatices, cheio de inteligentices, abstrações em letra de fôrma, sabedoria de papel, filosofia escrita: nada prático, nada relativo ao mundo, à vida, à natureza, ao homem.»

Tão simples, tão exacto. É o que vejo nos meus amigos liberais, que se agarram Aos aforismos do Cioran ou de qualquer outro céptico para justificarem a sua inércia, numa apropriação turística da tentação niilista. Nos meus amigos de esquerda que dizem ser igual estar Biden ou Trump no poleiro, auto-denunciando aí que os meios não lhes interessam, presos à mecânica dos supostos fins – a maldade do “imperialismo capitalista”, ou a bondade do “solidariedade socialista”, puras abstracções.

A ressaca que vivemos não é só a da decepção política. “Os espectadores de cinema, como as avestruzes, são animais realistas”, dizia Godard, “só creêm no que veêm”. O que é verdade. Vê-se como o cinema foi desautorizando as elipses. O que redundou numa depauperação do imaginário.

Falta por aqui “uma grande razão”, como diria o Cesariny, um compromisso. Sobretudo com a vida. Teríamos de voltar a andar por dentro dela como andava o Pollock, sem medo, no fulcro da gestualidade que lhe energizava as galáxias. Entretanto, convinha sermos conscientes de que poucas pedras nos serão dadas para aparecer a meio do caminho. Convém agarrar nalguma e transformar em funda. Seja a do amor ou a da rebeldia – perfazer um traço.

4 Fev 2021

O Ventura e nós

Há uma histeria colectiva em relação ao André Ventura que só lhe aumenta as metástases e o legitima como um novo David em luta contra os Golias do “sistema”. Não é apenas na comunicação social, esta ecoa o que ocorre nas redes sociais. É preciso desmantelar a pretensão do Ventura em ser “anti-sistema”, não reforçá-la. Não entender isto pode ser mortal.

O calafrio nasce do medo de que o calor não volte. Ora é impossível que o calor não volte pelo motivo mais simples: o sol não se deslocou. Evidencia-se um desejo não formulado nesta obsessão em dar forma ao medo, quando (lembrou muito bem Daniel Oliveira) ele é apenas o senhor doze por cento numa extensão de cem; e metade da fatia que lhe coube não lhe pertence, foi-lhe emprestada por quem votou não exactamente nele mas contra qualquer coisa, e cujo protesto volante, na próxima, recairá noutro oportunista.

O Alentejo terá virado o seu sentido de voto? O horror disso prende-se com a ideia arreigada de que “antigamente é que era bom”. Será agora mais útil analisar as causas: que erros se cometeram para que o cansaço face aos vícios com que a “idealidade” se foi inquinando se transformasse em ressentimento e canalizasse as suas parcas energias votando no inimigo? Quem deu os votos ao Ventura? As más políticas da esquerda.

O Ventura existe enquanto conseguir manter-se na esfera daquilo que à partida é «desqualificado». A sua força vem-lhe daí. Só se fala do Ventura para o desqualificar à priori: é fascista, o coiso, a besta, o grunho, etc. Talvez, mas é tão caricatural e redutor que o transforma numa vítima. E essa desproporção atrai os que ao intelecto preferem a “acção” e não entendem não se lhe dar uma chance “para mostrar o que é capaz!”. As massas são lerdas, quer se deixem manipular pela esquerda, quer se deixem manipular pela extrema- direita. Só muito raramente brilha a inteligência colectiva. Existe, sim, o irracional das emoções, como uma massa de bolo em que os demagogos metem a mão para a conformar.

É mais difícil de contrariar aquilo que, na verdade, é “fabricado” pelos seus detractores, porque se está a combater uma projecção – que tende a tornar-se monstruosa – e não a substância, afinal frágil. O Ventura vive dos medos alheios, o seu centro é oco.

Foi o que Marcelo denunciou no debate com ele, ao apontar-lhe a sonsice de oportunista. Ele não existe para além dessa manha.

O Ventura desmancha-se com paciência, pedagogia e humor, contrapondo serenamente argumentos, como quem, caridosamente, explica algo a um mau aluno, ou com o riso. Tomando tudo o que diz como bravatas. Se ele for tomado a sério mas como palhaço, ele próprio se exasperará e aí cai-lhe a máscara. Desqualificando-o à cabeça, sem lhe dar sequer o crédito de poder ser um bom palhaço, é o único método que lhe dá forças.

E deixemo-nos de ilusões: não haverá sempre, potencialmente, cinco, dez por cento de aprendizes de fascistas em qualquer sociedade democrática? Para que eles não cresçam só há dois caminhos: a educação (e também a política) e a uma regulação quanto à qualidade do fluxo televisivo. Porque é falso que o gosto não se discuta, o gosto tem regras e tradições, aprende-se.

Entretanto, leia-se o que Marcio Sotelo Felippe (um antigo procurador geral do estado de S. Paulo), escreveu a favor do impeachment do Bolsonaro:

«O fascista busca se legitimar por meio do apelo a certa massa suscetível ao ressentimento social e por meio do apelo à pequena-burguesia, ou classe média, perdida entre o pavor da proletarização (que se torna pavor dos proletários, de seus partidos e de seus movimentos) e a sua própria representação no imaginário da grande burguesia. O ressentimento transforma-se em ódio. Essa massa cresce com desqualificados, escroques, oportunistas, lúmpens, também amealhados entre os trabalhadores.

O discurso de um líder fascista expressa a ideologia que cimenta o irracional dessa massa. Por isso ele precisa dizê-la. Ele nada fará sem essa torpe legitimidade. Após dizê-la, tem que cumpri-la para que essa legitimidade se transforme em poderosa força social. A liderança e a massa se nutrem reciprocamente da anomia moral que daí surge.

É por isso que o fascismo, em regra, prescinde de golpes dados na calada da noite por tanques que irrompem pelas ruas e tropas que tomam os centros estratégicos do poder. Eles simplesmente chegam ao poder pelo voto, como Hitler e Mussolini, Trump e Bolsonaro. No poder, a sua base de massa paralisa, imobiliza a parcela sadia da sociedade. Uma combinação fatal entre coerção e consenso.

O fascismo é sempre possível porque em toda sociedade há uma massa que pode ser galvanizada pelo apelo à irracionalidade, que pode se mover fascinada pela anomia moral que lhe permite dar vazão a impulsos primários,(…) em uma sociedade que não lhe reserva lugar algum e que não consegue construir a racionalidade que lhe aponte caminhos.»

Uma «combinação fatal entre coerção e consenso» é o que encontramos hoje nas redes sociais, supostamente contra o Ventura. Fica socialmente tão mal não manifestarmos a nossa indignação imediata contra o Ventura que escolhemos os epítetos mais toscos para o desqualificarmos, competimos com ele na irracionalidade, sem perder tempo a desmanchar-lhe os argumentos. Juramos: o próprio senso comum se encarregará disso. Ora, o senso comum é uma batata, eis-nos na cilada: ele adora que renunciemos a raciocinar. Gostamos tanto de agir em manada que fomos “coactivamente cativados” – passe o óximoro. Dependemos dele para existir, ou, como se diz na economia: estamos a capitalizá-lo.

Ele não tem a importância que parece. Em vez do medo, melhoremos a educação, no lugar da ira, o riso. E só às quintas-feiras, entre as 9h45 da manhã e as 10h15. No resto do tempo há coisas extraordinárias a acontecer e que reclamam a nossa atenção.

29 Jan 2021

Quero é dançar na chuva

Horta Seca, Lisboa, sexta, 8 Janeiro

«Nós, em devir// oramos todos uns dias por um quinhão de alegria». Envolta em mãos desenhadas, simples à vista e outras quase ocultas a tocar corações e complexidades, chega-me «oração», de Isabel Baraona, em correio com carimbo de data e selo contem Amália na fronteira de serrilha. Leio a magnífica litania logo passando para a voz alta, seu indubitável lugar. O caderno que sobra para lá do invólucro de mãos acolhe com mestria gráfica a cadência dos versos em repetição acrescentada, como se fossem chegando para irem adensando até ao núcleo dispersando depois. Aspectos e segredos de mães e amantes, «um coração duas línguas», apanhados no ar para irem definindo corpo, de palavras que são matéria, e casa, de espaços que são respiração. «nós, plural feminino// nós, que somos apenas/ nós, que somos quase// nós, em devir, nós, plurais e por vezes repetitivas,/ as eleitas, mas não as mais jovens/ amantes, mas não as mais belas/ nós, à escuta do amor dos homens/ desejando neles a fêmea que também são/ nós, canhestras e porventura insolentes/ hirtas, entre músculo e ossatura frágil/ esfolamos os seios até ao coração.» A citação falha na aproximação à experiência, destrói o objecto, perfura a borboleta ainda viva. Leio vezes sem conta, «não dizendo angústia porque as palavras são desejos», mas celebrando-a. Um grito bordado em murmúrio. Uma pérola de carne e osso. Mais do que jardinagem de sinais poéticos, dizem-se as palavras que precisão ficar contíguas ao corpo e à casa para o definirem. O ícone não representa, faz-se presença. Uma afirmação de brutal carga eléctrica, indispensável para sobreviver «ao ícone desfeito em tempestade». Queria muito voltar a rezar assim: «nós,// oramos sempre e ainda por uma alegria leve e viva».

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 15 Janeiro

Cá está novo fechamento, anunciado à náusea, adiado ao limite. Ainda assim, as ruas não se esvaziam. A catástrofe está instalada à razão de um avião em queda por dia, mas nem isso acende as campainhas histéricas dos telexes virtuais. Ou antes, os alarmes são ignorados, por não querermos acreditar na impossibilidade de se viver como habitualmente. Arde-me a casa, mas na vez de tentar apagar todos os fogos, o fogo, entendo por bem arrumá-la.

Nem isso: escolho um gesto minimal repetitivo e nele me instalo, performance silenciosa no escuro. Melhor faria se observasse os mil modos do gato se espreguiçar, harmoniosas odes à potência do salto.

Parceiro de projectos postos em pausa, o João Francisco [Vilhena] desafia-me para um «Diário das nuvens», desconhecendo ainda assim a minha desmedida e diletante atracção por esses fugidios elementos. Que teriam para dizer essas imemoriais companheiras destes nossos pára-arranca? Um dos muito encantos das ditas massas suspensas de água e poeira está em nada dizer. Somos nós que nelas penduramos estados de espírito, tornando-as vestes da tristeza ou da melancolia. O João envia, a cada dia, fotografia de um caso, jogando com luz, composição e a sua leitura do dia. Estou a vê-lo a bater às portas para poder subir às varandas, aos telhados, identificando-se: «é para contar as nuvens». Para contar das nuvens só mesmo palavras, micro-histórias ao sabor da absoluta liberdade, perseguindo ideia ou descascando palavra, descrevendo objecto ou engendrando situação, observando, dentro e fora. Exercício de felino doméstico, arranhar sofás e espreitar visões do vizinho nenhures. As decisões urgentíssimas que continuem presas na sua desesperança prática. Topei logo a fala das portas dos últimos dias — estava capaz de criar uma religião. O Bernardo [Trindade] está a fechar com estrondo uma de vidro que permitia, mesmo nas madrugadas aflitas, ver as lombadas alinhadas a conservar saberes. Nem o gradeamento em losangos, arremedo securitário pintado de flores por estes dias, impede que nos assomamos ao miradouro. A da abysmo foi raspada e polida, caiu o verniz, perdeu brilho, portanto, para acolher entretons de laranja. Dá-lhe movimento, parece que acabou de se esfregar na pele na cidade, parou para descansar por instantes antes de continuar a roçagar-se pelas coisas do mundo. A do prédio aqui possui curiosa mistura de peso e transparência, momento distinto das artes aplicadas, com a fechadura próxima do chão, uma bela moral: tu que queres entrar, baixa-te para alcançar a abertura. Apanhei a tua nuvem, João, hesitando entre pára-quedas e metáfora. Entrada primeira:

«Estava capaz de jurar que era uma ideia. Foram as suas hesitações perante a porta que me despertaram. Era uma porta semelhante a tantas horas que se rasgam em rectângulo na face dos prédios. Umas são como canções, outras não. Umas são de abrir acessos, outras de os travar. Esculturas de ferro com transparências de vidro. Cegas na bruteza. Vendo bem, esta era distinta. Era a porta da rua. Não do prédio, mas da rua. O exterior, que costumava ser de todos, vedava-se. A ideia encontrava-se entalada no exacto espaço entre entrada e saída. Ainda bem que o desconforto térmico não era por aí além.”

27 Jan 2021

No Esmeralda Habitual

As águas estavam amenas e no esmeralda habitual, e Jaime matara saudades do Índico, com um prazer que Sara não lhe divisava desde criança. Nem quando um boer descuidado fez roçar a sua prancha de surf pelo ventre de Jaime que se levantava de um mergulho na água, o irmão se prestou a mais do que uma advertência amistosa, coisa impensável no passado. Recordaram até galhofeiramente disputas políticas e as zangas de outrora, macios e reconciliados.

Nesta visita de Jaime a Moçambique, a primeira em cinco anos, Jaime, que vinha em negócios e nem trouxera a família, parecia apaziguado e não tecera qualquer crítica ao que lhe era dado contemplar, elogiara até a nova ponte e a estrada para a Ponta do Ouro; também Saul, o seu marido, estava mais descontraído e foi ele quem, no caminho, antecipou aspectos patéticos da governação do país, o que – ao contrário do que acontecia antes – não foi aproveitado por Jaime para desferir o seu azedume e as suas ácidas sentenças políticas sobre os “grunhos” que governavam.

Iam a meio da reserva dos elefantes, quando Sara comentou:
Elefantes hoje nem vê-los… Lembras-te daquele conto de um tipo do leste, húngaro ou romeno, em que um elefante ascendia no ar da cidade como um balão?

Era o Mrozeck, um polaco… – esclareceu Jaime.
Pois é, um dia destes é mais fácil vermos um elefante a voar na cidade do que no seu habitat… Está tudo a saque. Já sabes que o dicionário da Real Academia Espanhola acabou de aceitar a expressão «filho da puta» como sinónimo para banqueiro? – perguntou Saul.

Ah, essa não sabia mas é muito boa… – anuiu Jaime.
Aqui só muda alguma coisa quando aceitarmos que Rapina seja sinónimo de Planeamento… – concluiu o cunhado.

O teu marido está muito desempoeirado, brincou Jaime, não fui eu quem o desencaminhou.
Não é? – concordava a irmã.
Avistavam a tabuleta que assinala Salamanga, Saul repetiu a piada de sempre,
Esta miséria só se desenvolve quando passar a chamar-se Salamanca:

O que teve a réplica habitual de Sara:
Até já têm fábricas de farinha, mudou muito…
Saul fez-se à curva descontraídamente. Em sentido contrário, vinham um camião e um fô by fô, a velocidades destemperadas, em despique, mordiam-se na curva. Saul teve de dar uma guinada brusca no volante e sair fora da estrada precipitando-se no barranco. O carro capotou e rolou, três quatro vezes, antes de estacar.
Quanto tempo depois despertou Saul?

O hematoma na cabeça latejava, mas apalpando-se confirmou: não tinha nada partido. Sara ao seu lado estava inanimada; pressionando com o indicador no pescoço dela encontrou-lhe as batidas cardíacas. Olhou para trás, Jaime não estava dentro do carro, fora cuspido.

Saiu do carro e procurou o corpo do cunhado. Jaime, estatelara-se num socalco de brita, quatro metros acima do carro. Estava consciente, embora de respiração ofegante e de olhos contraídos pela dor. Quando lhe perguntou se estava bem, Jaime, com dificuldade, acenou negativamente com o indicador.
Que tens?

Encostou a sua cabeça à boca de Jaime para o ouvir.
Co-lu-na, soletrou este.
Foda-se, reagiu Saul, não te mexas, vou chamar a ambulância. E aguenta-te, meu filho da mãe. Selou o pedido com um beijo na testa.

Subiu até à estrada. Começavam a chegar os curiosos. Uns metros à frente estava o camião, parado, o tipo do jipe tinha-se escapulido. Saul pediu um cell emprestado e ligou para ao seu amigo Igor, do Hospital do Coração. Depois gritou para os presentes, Ninguém vai lá abaixo, não se pode tocar naquele homem, só os enfermeiros é que o podem transportar, tem um problema na coluna… E encaminhou-se para o camião, abrindo a porta de rompante.

Um jovem, não teria mais de vinte anos, chorava desalmadamente, agarrado ao volante, e pedia-lhe perdão.
A mulher vinda de nenhures, do avesso de uma mafurreira, transportava à cabeça um saco de carvão. Era magra mas desembaraçada, apesar da idade via-se que subia sem esforço. Atrás dela saltitava um miúdo de cinco, seis, anos que levava uma gaiola de cana com um pássaro de cabeça amarela e peito muito verde. Iam vender para a berma da estrada, ela o carvão, o miúdo o pássaro.

Passaram pelo carro virado, examinado por ela num relance, isento de especial curiosidade. O miúdo é que espreitou nas janelas do carro e gritou, Tem uma mulher… mas, ela não abrandou, num gesto mecânico indicou que o caminho era em frente. Só parou no socalco onde Jaime amargava.

Este, por entre o novelo da dor, num calafrio, deu conta da mulher e do miúdo. Temeu que quisessem auxiliá-lo e o deslocassem, o que lhe seria fatal. Fez-lhes sinal de que seguissem em frente. Com susto, viu que a mulher pousava o saco de carvão e se inclinava para os seus pés. Temeu o pior. Que fazia ela? Não, tentou articular, a voz embargada. Pediu a Deus que a mulher não o mexesse. O semblante desta era pétreo, despido de emoção.

A mulher, vagarosamente, desatou-lhe os atacadores, e centímetro a centímetro, tirou-lhe os sapatos dos pés. Roubava-lhe os sapatos? Jaime com um olho, seguia os gestos delicados daquela operação e com o outro procurava o socorro de Saul, na berma da estrada. Entre ele e a estrada havia de permeio várias moitas, de cima não se veria o que a mulher lhe fazia. Esta, com a mesma mansidão, guardou os seus sapatos no saco de carvão.

Jaime olhou o céu e acudiu-lhe à mente a alcunha que a família da mulher ganhara no campo de reeducação, Nobody one, two, nobody three… and so one. Fora assim que aquela velha o tratara, fizera-lhe desaparecer os sapatos sem lhe tocar, como se ele fosse há muito apenas uma moeda perdida na irrelevância da areia. Só lhe podia estar grato.

21 Jan 2021

Gógou, a insubmissa

10/01/21

Falam em árabe, na mesa do lado, em voz muito alta, e parece-me que cada um deles só comunica ao outro o que lhe falta. Instala-se uma aspereza gutural que cospe caroços e recorta em modo rouco aquilo que é.
Falam e pressinto o ar desmembrado à navalhada ou palpita-me que estou prestes a surpreender esse insólito momento em que um coração se funde num cacto.
Lá fora, as folhas da acácia vermelha, finas como dedos, tocam ao vento um piano invisível.

11/01/21

«A tragédia do homem isolado interessa-nos naturalmente muito menos que aquela da coisa pública, causada pelo homem isolado», anotou Brecht, a propósito da peça de Shakespeare, Coroliano, em 20/05/51, nos seus Diários de Berlim. Fala do homem que se acoita no poder. Mas também Brecht, como Coroliano, pensava o seu papel insubstituível na esfera de acção cultural na RDA e a sua tragédia pessoal foi a merencória tristeza com que se foi apercebendo que a sua “liberdade” era cada vez mais um adorno do regime. Daí que, como defende Hannah Arendt, foi, paradoxalmente, quando reuniu as melhores condições de trabalho que a sua criatividade como dramaturgo diminuiu. Nos últimos anos, Brecht era claramente um homem esgotado. Embora sejam notáveis os poemas “mínimos” que foi escrevendo com uma limpeza e uma sabedoria “muito chinesas” e que constituiriam as Elegias de Buckow. Eis algumas:

DIA QUENTE

Dia quente. Com a pasta de escrita nos meus joelhos/ sento-me no caramanchão. Um barco verde/ cruza os prados à vista de todos. Na popa,/ uma freira gorda com vestes grossas. À frente dela,/ um homem idoso de roupa de banho, provavelmente um padre./ No banco de remo, remando com afinco,/ um rapazote. Como nos velhos tempos! Penso,/ como nos velhos tempos!

FUMAÇA/ A casita sob as árvores à beira do lago./ A fumaça sobe do telhado./ Em faltando,/ como ficariam desconsolados/ casa, árvores e lago.
ABETOS/ Pela manhã/ são acobreados os abetos./ Era já assim que os via/ há meio século atrás,/ duas guerras mundiais atrás,/ com olhos jovens.

12/01/21

Lembremo-nos de Nunca ao Domingo (1960), de Jules Dassin, uma variação, em farsa, do mito de Pigmalião.
No porto de Pireu, mora Ilya (Melina Mercouri), uma prostituta independente e popular, de espírito livre e generosa, que aos domingos convida os seus clientes para sua casa, apenas para entretê-los com comida, bebida e música, grátis.

Chega à cidade um intelectual americano, Homer Thrace (Jules Dassin), procurando as causas do declínio da Grécia de Platão e Aristóteles. Ao conhecer Ilya e seu modo de vida, conclui que ela é o símbolo vivo das causas do declínio, e propõe-se a uma campanha para “salvá-la” por meio de sua educação, o que permitirá que ela abandone a prostituição e encontre uma vida melhor.

Na luta entre o normativo e a “joie de vivre” é o educador quem acabará por ceder.
É um filme maravilhoso e desopilante e absolutamente anarca, e a força de Ilya, que mete de pantanas a propriedade privada e qualquer moral burguesa, arrasa tudo, como quem não quer a coisa. Neste filme, o desespero é o cancro social e a alegria ontológica.

Este filme devia ser vendido como complemento do livro de Katerina Gógou, Três Cliques à Esquerda… (Barco Bêbado), outra grega anarca, actriz e poeta, devastadora, inclemente e suicida, e onde tudo funciona absolutamente ao contrário: o cancro devém ontológico, posto que não se enxerga escapatória ao mandamento social.
Katerina (1940-93) propõe então o combate: «Sei que há areais infindáveis/ e árvores junto ao mar/ e que o amor é uma coisa maravilhosa./ Mas antes era preciso acabarmos com os porcos.», e avisa o rebelde que não espere descanso ou recompensas, de que só lhe restarão alguns pequenos prazeres sornas arrancados à voragem da rebelião: «A nossa vida é/ bofes de fora em vão/ em greves combinadas/ bufos e carros-patrulha./ Por isso é que te digo./ Da próxima vez que dispararem contra nós/ nada de dar à sola. É medir forças contra eles./ Nada de vender a nossa pele ao desbarato pá./ Não. Chove. Dá-me um cigarro.»

É um livro exasperador, sem um poro que não esteja betumado pelo desespero: «Enlouqueço dentro de um sonho/ meu e dos meus amigos, em sucessivos ataques de nervos/ choros histéricos, vómitos de bebedeira e nojo/ tentativas de suicídio e inúteis/ resoluções/ de mudar de vida.»

Quando este seu livro apareceu em 1978, propagou-se como uma labareda e vendeu mais de 40 000 exemplares. Neste momento, está a ser redescoberto e traduzida por toda a Europa. Talvez Katerina Gógou esteja para estes tempos de biopolítica como Maiakovski esteve para a revolução russa: puro arame-farpado, é um grito necessário porque nos coloca a nu. E, como a do russo (ou a de Brecht), esta não é uma arte blindada; truculenta, anti-retórica, não se imaginem aqui sentidos figurados, costuras, dependências ou auto-complacências que se acalentem ou fiquem por expôr:

« Bom dia doutor./ Não./ Não se levante. De resto, não tenho nada de grave./ O do costume./ Passe-me valium metaqualona triptizol — já sabe de cor —/ Torne-me socializável/ arrume-me, vá,/ junto dos seus semelhantes/ junto aos seus bufos/ foda-me se quiser/ bonitas as gravuras na parede./ Aqui tem uma nota de mil/ e dê-me lá a receita/ porque já perdi a paciência meu paneleiro de merda/ e dê por onde der vou rebentar./ Não. Não se levante doutor. Não é grave./ Obrigada./ Muito bom dia.»

Leia-se este livro como uma espécie de A Arte de Rebelião Para as Novas Gerações, na esteira do justamente famoso livro de Raoul Vaneigem. Sobreavisando: não se espere consolo, o livro detona, como um convite à decisão.
Esta edição da Barco Bêbado é, mais uma vez, belíssima, com desenhos fortes de Gonçalo Pena e um grafismo à altura, cheio de punch, de Paulo da Costa Domingos, a demonstrar que alguns mais velhos estão para durar.

14 Jan 2021

Trump, o ganso

É o homem mais admirado da América. Não tem segredos o sucesso do Donald. Basta reparar que ele usa a boca como se lhe faltasse o bico de ganso.

É uma criatura em falta, que queria ser acima de tudo um bípede com penas, e sente-se.
Nos comícios republicanos, o apoiante vai ver um político e sai-lhe um bípede fruste, que se desunha em caretas e esculpe com os lábios palavras que apanha no ar, porque lhe roubaram o bico com que podia grasnar.
Não há quem não queira voar, ter boas penas para a almofada, encontrar um igual num filho de famílias milionários que prima em ser reles como nós, e isso reconforta. Para além disso, finalmente, compreendi: além de desejar voltar à condição de ganso, Trump é o rei do karaoke.

E o sê-lo — rei do karake — justifica que a adrenalina lhe arme os esgares que quiser, à velocidade que quiser, inúmeras, infinitas caretas moldadas na plasticina do seu fácies, mais virtual que real. Contudo, o mistério é este: como pode um rosto vomitar tantas máscaras, sem extenuar-se e sem parar?
Trump tem tantas máscaras como a serpente do Paraíso escamas — é assustador.

Que mulher aguentará amar um “homem” que em nenhum momento desmancha a máscara? É preciso ter um coração de amianto. Amar um homem, digamos, que nunca está nu? Só pode ser possível a quem seja a ressurreição da Virgem.

Nos comícios, não demora mais, à segunda careta cai a ficha de Trump e mostra que os conteúdos não lhe interessam, e que voltou à adolescência e ao castelo escocês onde, em férias, assestava os binóculos sobre o monstro de Loch Ness e lia os diários da cruel Lady Macbeth, a mesma que sempre confundiu menstruação e os harpejos do poder.

Aliás, quem lhe confidenciou que a vitória na Georgia foi sua foi o Monstro de Loch Ness, um agente do MI7, a troco de uma malga de caldo verde, visto estar farto de salmão.

Também o cabelo de Lady Macbeth era daquele laranja confinado que dissimula sob palha queimada o gosto do sangue e que fazia as delícias das selfies de Trump, antes deste branquear a poupa para parecer ter menos energia e aproximar-se do rival Biden, disfarçando a ira com o semblante dos que mandam executar porque não tem sequer a grandeza de perpetrar os seus crimes.

Se lhe fixamos o rosto dez minutos seguidos, só vemos tiques, a esperteza saloia que lhe perpassa no olhar, aquele sorriso de quem está em cena e dela não sai. O Trump usa as palavras como um engraxador maneja os sapatos, pelo lado de fora, sendo de antemão postiça… ou pose, a menor aparência de seriedade, dado aos cinco minutos de qualquer discurso conspirarem os seus próprios músculos, à sucapa, contra si, querendo denunciar, pelo exagero, a mentira de tudo quanto diz.

Claro que as pessoas acreditam nele, porque precisam de acreditar, na caganita de uma cabra se for preciso. E quando esse é o único critério.

Hoje sabemos que metade dos Americanos acreditam na caganita de cabra que telefonou ao governador da Georgia e implorou por batota.

Desde que vi a foto que ilustra esta crónica que me divirto a imaginá-lo como um Moisés tão soberbo e gabarolas que Deus lhe dá uma tábua das leis em chumbo, que ele imediatamente deixa cair sobre os seus próprios pés, esmagando-lhe os cascos de bode…

Obama, todos os todos os dias estudava o Tucídedes e fazia exercícios de gargarejos, ele não, chapinha nos charcos e lastima o bico de ganso que lhe roubaram.

Mais ninguém viu porque ninguém quer acreditar e quando não se quer acreditar não se vê. Nem o próprio Ted Cruz acreditou, aliás, também já lhe crescem asas nas axilas… E desde há uma semana que toda a gente me toma por doido quando falo disto. Fui afastado compulsivamente de vários convívios, ameaçam-me com um psiquiatra, querem internar-me. Ora, eu vi, não há há nenhum palavra que ele diga que seja dele e lhe saia da cabeça: o Presidente americano só faz karaoke. De quê? Do discurso do presidente da câmara em City Light, de Chaplin. Por isso parece não pensar.

Mais, sofre por interiormente já se sentir transformado num ganso e ninguém mostrar que notou. Não há outra explicação para a agonia que ressalta desta foto. O lampejo no olhar desorbitado é o do ganso que viu partir os seus irmãos do gansaral para paragens mais quentes e teme ser agora transformado em foie gras. Todas as tripas se lhe revoltam. Até a gravata vermelha se mudou em azul: é o desesperado apelo a que o céu não lhe falte.

Que não lhe falte. Eu tenho no quintal uma gaiola com dois gansos africanos. Se hoje se confirmar a derrota e os seus piores pesadelos, deixem-no que cruze na oblíqua o Oceano Atlântico a caminho do cálido Índico.

Não o impeçam, peço-vos. Eu acolho-o no exílio. Entre os meus dois gansos, no melhor e no canto mais refrescante da minha gaiola. Juro que não “afogarei o ganso” e que o pouparei no próximo Natal – que todas as minhas filhas morram de saúde…

7 Jan 2021

Tornados & Réveillon

28/12/20

O ano termina. Não predigo nada. Sempre gatinhámos de crise em crise, só a identidade dos desafectos é que muda. A novidade que emergiu em 2020 é que os costumes de sermos servidos pela natureza a nosso bel prazer foram virados do avesso com a lotaria do vírus. Ficámos avisados. Temo que a partir de agora o Pai Natal nos traga o apetite devastador de uma praga virológica. Passámos de caçadores a presas.

Bom, isto é o problema de alguns, não o meu, pois, a partir do próximo ano, segundo o sonho que tive hoje, serei comissário de bordo na companhia aérea de Moçambique. Deve ter sido da ventoinha que me refrigerou a soneca, esta noite. Gostei de me ver todo pintas, de farda azul e botões dourados, a servir uísques embrulhados em guardanapo e no inglês desenvolto do filho de um diplomata do Burundi. Ninguém parecia dar pela minha idade e acordei convencido de que já estava em 2022 e estivera sempre a voar para destinos opostos aos dos surtos epidémicos. Mais: Deus existe e era uma bela hospedeira da Costa do Marfim, com quem partilhava uma suite em hotéis de todo o mundo. Há sonhos que tornam ingrata qualquer aterragem.

30/12/20

Esta semana tive uma conversa engraçada numa esplanada. O jovem empregado de mesa, avançava e recuava, vacilante, antes de se me dirigir:

Profe, posso perguntar-lhe uma coisa? Força. Estou a escrever um livro. Óptimo. Qual é o assunto central do teu livro? A águia. A águia? Bom, como trabalhas todo os dias nesta esplanada não será um livro sobre a observação das aves. É uma ficção? É real. É tudo o que me aconteceu, desde lá até aqui… Uma auto-biografia, por que não? E já terminaste? Estou com dificuldades em relação ao prefácio… Estás a sugerir que eu o possa fazer? Se o professor gostar. Why not? E tens a coisa muito desenvolvida? Tenho quatro páginas. Estás a ver aqui o Savana? Quatro páginas dá um artigo de meia página. É preciso mais para um livro. Quantas? Para um primeiro livro, se chegares às quarenta, não seria mau. Vou caprichar, profe… Não espero outra coisa…

Este diálogo só me faz lembrar um poema do Bertolt Brecht, A LISTA DOS PRECISOS, que diz assim:
«Muitos conheço que andam por aí com uma lista/ Em que está o que precisam./ O que vê a lista diz: É muito./ Mas o que escreveu diz: É o mínimo. // Mas muitos mostram com orgulho a sua lista/ Em que está pouco.»

O diálogo com o jovem aspirante a escritor recorda-me ainda como durante quinze anos redigi começos de narrativas que nunca acabei, enquanto, profissionalmente, escrevia diálogos para filmes, em cima das estruturas que eram construídas colectivamente. Sozinho não me atrevia a acabar qualquer narrativa.

Até que pelos trinta e cinco anos me saiu o primeiro conto, começado, continuado e acabado num jacto. Chamava-se O Milagre de Sevilha e está no meu primeiro livro de contos, Cegueira de Rios.

Era uma variante em torno do mito de Don Juan. Dois motoristas aguardam no parque de estacionamento pelos patrões. E um, intrigado, pergunta ao outro: É verdade que o teu patrão chegou às mil amantes? Confirmo.

Espanta-se o primeiro: Mas como, se o homem é cego? O que a partir daí se desenvolve é bastante delirante e relata o sucesso desse particular Don Juan até que numa visita a Sevilha, onde, coincidentemente, o cego se deslocara em negócios, o Papa faz o primeiro milagre do seu pontíficado e cura-lhe a cegueira. Isso perturbará para sempre o seu dom.

O conto é divertido, embora dê agora conta que ter como personagens dois motoristas empobrece-o. Devia ser assim: dia 24 de Dezembro, o Pai Natal, enfadado pela rotina do seu trabalho, vê o motorista do Don Juan num parque de estacionamento. Resolve “estacionar” por momentos as suas renas e ir interrogá-lo: Mas como, se é cego?

Também a bondade não é cega, pergunta-lhe o outro. O que se seguirá, a partir destas premissas, promete ser bastante delirante e ganhar em pedalada ao diálogo anterior. O tempo corrige sempre o informe.

31/12/2020

Há 22 anos escrevi um livro com a Maria Velho da Costa, Prémio Camões e uma das grandes escritoras portuguesas do século XX. Chama-se o livro O Inferno, eram três guiões cinematográficos sobre o Camilo Castelo Branco, e foi editado, por mim e pela Teresa Noronha, numa pequena editora que tivemos, a Íman. Agora, à Teresa acabou de ser atribuído o Prémio Maria Velho da Costa, patrocinado pela SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), por causa do seu romance Tornado (noto agora, à sua maneira, outro Inferno). O círculo completou-se. Alegram-me duas coisas:

a) tenho a certeza de que a MVC gostaria muito deste livro, b) este romance vai trazer boas novidades, formais e de conteúdos, à literatura moçambicana. Há quinze anos que assisto ao parto difícil deste livro, que teve, no mínimo, cinco versões. Mas valeu a pena a persistência. Já comprámos um champanhe de outra qualidade para festejar este auspicioso fim de ano.

Será publicado pela Exclamação, em Fevereiro Março deste ano, o romance, que assim começa:

«Soube anos mais tarde, quando vasculhava nos arquivos do Notícias à procura de alguma maldita crónica ou sinal daquele dia, com os jornais abertos à minha frente, que varri de trás para a frente e de frente para trás, sem encontrar qualquer indício especial e nem mesmo o menor traço necrológico, notícia ou fotografia, como se a tua morte fosse, mais do que anónima, ignorada. Mas soube aí, com surpresa – e talvez esse facto possa desenrolar o primeiro fio deste novelo que se emaranhou depois da tua morte – que o quarto dia do mês de outubro de 1983, em que decidiste pela enésima e derradeira vez deixar o mundo, pertenceu àquele estranho ano em que as acácias se esqueceram de florir.”

31 Dez 2020

Freud & Maradona Lda.

De papo para o ar, deixo que o domingo se instale e me entorpeça as flexões. Para não voltar a dormir, pego no livro Le Divan et le Grigi, a longa e maravilhosa entrevista de Catherine Clement a Tobie Nathan, o actual papa da etnopsiquiatria. Peço umas torradinhas e a manhã, o corpo e a vontade encaixam.

E chego à parte em que Tobie Nathan fala da sua descoberta de Freud, com 14 anos, e do seu fascínio inicial; parecia-lhe que o terapeuta propunha “verdades tecnicamente verificáveis”. Até que quando Tobie quis passar à prática e recapitulou por antecipação os passos de uma sessão: «Bom, o psicanalista, instala o paciente no seu divã e cala-se, porque espontaneamente – seria essa uma espécie de lei da natureza – a pessoa há-de entregar-se às associações livres!». E em boa fé, bateu à porta do psicanalista. E continua Nathan: «E bom, é falso! Alguém se deita no divã, tu calas-te e o paciente entrega-se a toda a espécie de coisas porque primeiro que tudo tenta integrar-te, a todo o transe, na conversação. Porque a situação é absurda e o paciente faz tudo para instaurar uma situação mais normal… e quanto às “associações livres”, terás, como psicanalista de ensinar-lhe como produzi-las. Produzir associações de ideias não é o funcionmento espontâneo do espírito, é um dispositivo artificial que os pacientes levam um certo tempo para aprender – alguns recusam-se mesmo, deliberadamente.»

Imediatamente me lembrei da batota que Michel Serres atribuía ao método de Sócrates, nos tais debates dialécticos que fizeram a posterior fortuna de Platão, pois, explicava, era Sócrates quem à partida estabelecia as regras da discussão, o que lhe dava logo vantagem. O que tem tanto de engenhoso como de embuste.

Nunca me ocorrera o que Nathan denuncia, embora baste pedir aos alunos para se entregarem ao jogo das associações livres para verificá-lo; não flui, rapidamente fica tudo emperrado. Para resultar terão de ser “instruídos” primeiro. Resultará melhor em aulas de escrita criativa, alunos que à priori se dispõem ao “artifício”. Diga-se o mesmo sobre alguma teatralização que se instalará na narração dos sonhos, da mesma forma que se detectou e estudou as raízes teatrais nos ritos de possessão.

A psicanálise identificou umas certas leis gerais do mecanismo psíquico de um modo oblíquo, fazendo uso de um certo embuste, do mesmo modo que, para alguns teólogos, primeiro induz-se a crença, depois logo se verá se Deus existe. Eis, na generalidade, a história da aventura do espírito humano. Investe em esquemas e embustes para tactear o que está ainda na sombra mas foi adivinhado antes de conseguir delimitar a sua realidade. Porque à realidade, simplesmente, só a conseguimos conhecer através de ficções, mediante conceitos ideais, por projecções de entes irreais ou por ou intuições criadas pela nossa inteligência. Às vezes capotamos, outras acertamos. E aqui, não é raro atribuirmos um grande papel à intuição.

Quanto a esta, Arthur Koestler usava uma imagem muito sugestiva para a definir: a intuição, dizia, é como uma cadeia montanhosa da qual só vemos os pináculos que se elevam acima das nuvens; se pudéssemos ver simultaneamente por baixo das nuvens, veríamos perfeitamente como esses cumes se enlaçam uns nos outros. Se pudessemos, conclui, assistir à cadeia de associações que se forma sob a consciência veríamos também como se enlaçam esses cumes que denominamos “intuições”.

Verdadeiras intuições tinha Goethe, que um dia escreveu: «Que precisamente o homem só pensa quando não pode conceber aquilo que pensa». É extraordinário que ele tenha escrito isto quase um século antes de Freud.

Esta asserção alude aos labirintos em que qualquer criatura que tenha por trabalho a imaginação mergulha, mas será preciso alguma robustez psíquica para deixar que o devaneio que o pensamento faz brotar desponte, nesse preciso momento em que tomamos consciência de estarmos perdidos no labirinto, em vez de nos esmagar o pânico. Consequentemente, só num assomo de serenidade reencontramos o fio de Ariadne.

Mas não é preciso sermos nem construtivistas nem realistas para entendermos que a realidade entronca num terceiro enfoque, aquele em que acredito: a realidade existe mas apresenta-se instável, movediça e irredutível a parâmetros fixos, de tal modo que desenha trajectórias no palco em que antes figuravam objectos e sujeitos. A realidade existe e devemos escutá-la para interagirmos com ela e penetrarmos nas suas ressonâncias.

De papo para o ar, sou servido de mais torradinhas e cismo outra vez nas flexões. Desta vez nas flexões de rins em que era especialista o Maradona e lhe permitia as fintas. Tantas delas magníficas. Mas é porque a realidade existe, antes e para além das representações que lhe apomos, que acho inaceitável a facilidade com que eregimos mitos.

Toda esta deificação em torno de Maradona é simplesmente patética. Gosto de futebol mas dou-lhe a importância que terão na minha vida as coisas triviais, são breves travesseiros, nos quais repouso a cabeça ou dos quais me sirvo como apoio a outros rins alheios e a outras sibilantes flexões morfológicas e afinal menos acessórias que uma sucessão de cantos falhados.

Além disso, em casos como o Cristiano Ronaldo, ou o de Zlatan Ibrahimović, eles introduziram novos paradigmas no desporto, no que respeita à metodologia dos treinos e aumentaram o tempo útil de duração do desportista em actividade, numa associação entre a plasticidade e a veterania, o El Pibo pelo contrário foi um homem que menoscabou o seu imenso talento e que chegou ao pleno da sua própria caricatura, como se a sua própria sombra fosse uma fasquia demasiado alta para manter.

Um jogador de paixão, disse dele Jorge Jesus, e acrescentaria eu, como Vítor Baptista. Dois jogadores de duas escalas diferentes, é verdade, mas que no melhor da sua exuberância técnica foram fascinantes, apesar de serem dois profetas absolutamente ocos e totalmente aquéns do mito.

2 Dez 2020

O buraco da agulha

Já reconheceram o camelo, no buraco da agulha? É o Trump a esforçar-se, a encolher a papada, a barriga, a apertar o espartilho, a submeter-se a regimes alimentares (menos dois hamburgers ao dia) para conseguir passar a prova da agulha. A cabeça já passou para o outro lado, já concedeu na transição, faltam-lhe os ombros. O coração, neste caso, admitem alguns, passará depois dos pés.

Também me acontece ser renitente às transições. Porque havia o foção Trump de passar tranquilamente a bola ao democrata, que o derrotou? E porque continua tão magro, dois mil anos depois, o buraco da agulha?

Imaginemos que ao titã Atlas – habituado, segundo o mito, a estar no topo da montanha, em Marrocos, a carregar com o mundo às costas e a separar o céu e a terra -, lhe dizem, Rapaz, sem deixares de carregar com o mundo às costas tens de passar agora por este buraco de agulha, mas, atenção, não se desprenda uma laranja da sua árvore no transbordo. É uma acrobacia excessiva.

Uma vez, na ginástica, eu estava quase a manter-me em Cristo, nas argolas, mas olhando em frente, para a miúda gira que treinava rodas na trave vi que lhe saiam uns pêlos púbicos do maillot e foi o suficiente para me desconcentrar, nunca mais estive tão perto de fazer o Cristo. E, reparem, a pressão sobre os ombros, sobre os músculos dos braços, nesse particular exercício nas argolas é similar à pressão gigantesca dos céus sobre Atlas, eu sei do que falo. Bom, mas Trump, o melhor de todos em tudo, há-de passar pelo buraco da agulha, só não esperem que dele escorra.

Ainda por cima, contaram-me, tem um braço ocupado a comer romãs, esse fruto que misteriosamente é associado ao Inferno. Embora as romãs sejam também um símbolo do amor e da fecundidade e tenha a romãzeira sido consagrada à deusa Afrodite, dado acreditar-se nos seus poderes afrodisíacos. A esperança do Trump é que a Melania dê por isso, pelas nódoas de romã na sua camisa Dior. O Trump ainda espera pôr três ovinhos nela.

É muito trabalho para um homem só, mesmo que presidente, segurar o mundo nos costados, comer romãs com uma mão, pôr ovinhos na Melania, jogar uma última partidinha de golfe e passar com destreza pelo buraco de uma agulha – tudo ao mesmo tempo, sem que um pomo caia da árvore e se desperdice. Há que ser pacientes.

E todavia atormentam-no todos os botões que não premiu, os códigos que não pôde activar, os mísseis nucleares que não desferiu, os ditadores a quem não pôde estreitar num abraço, a resistência da China, o carolo que não deu ao primeiro-ministro Trudeau por este lhe catrapiscar a miúda, o muro por acabar – apesar dos apóstolos da desgraça dizerem agora que o muro perturbou o eco-sistema e criou condições para a desertificação da zona.

Muita tormenta para quem o destino incumbe de realizar o impossível e de passar pelo buraco da agulha. E a dúvida fere-o: leva consigo uma Bíblia ou não? Ou escreve ele um Evangelho? Cabelo tem ainda para dar e vender (apesar das más-línguas), como o Sansão, e a bem dizer nunca encontrou a sua Dalila, portanto a esperança de ser reeleito em 2024 está intacta – e garantida fica a coisa se for o único camelo da história do mundo a ter passado pelo buraco da agulha. Ficarão assim demonstrados os seus poderes.

Porque, no fundo, adivinha que as eleições se perderam quando os seus assessores não o deixaram sair do hospital vestido de Super-Homem. Era uma ideia tão boa.

Desta vez, apesar dos tribunais não terem acreditado na sua palavra, contra a crença de 52% dos americanos numa fraude eleitoral, tudo parece conjugar-se. Não o querem como presidente? Passará pelo buraco da agulha. É canja, uma mera questão de tempo. Não queiram é apressá-lo, nem que sorria à morte.

Bendita a hora em que lhe contaram do tal rei Sebastião de Portugal e da profecia de voltar num dia de nevoeiro. E o nevoeiro não se dissipa desde que a vacina do Covid vai que vem e não chega. Porque o George Soros, aliado aos laboratórios de todo o mundo, conspirou para o tramar. Contudo, mesmo o nevoeiro ser-lhe-á favorável, e tudo tornará ao seu lugar quando ele transpirar, por inteiro, do outro lado da agulha; envolto na auréola de ter sido o único a passar pelo buraco da agulha. Nem que para isso leve quatro anos – os prodígios demoram.

Em 1999, o partido nacionalista hindu utilizou a epopeia do Mahabharata para a sua campanha eleitoral. Nessa altura, toda a Índia assistia à série do Mahabharata produzida pelos estúdios de Bombaim. E o presidente do partido nacionalista passeou por todo o norte da Índia disfarçado do legendário herói Arjuna, num carro adornado de grinaldas. E assim ganhou as eleições. A Trump negaram-lhe a fatiota de Clark Kent. Como é um homem de acção: resolveu passar pelo buraco da agulha.

Tolos os que acham que ele se submeteu à provação da parábola para passar a bola ao Joe Dorminhoco Biden, tendo já feito passar a sua cabeça muito oleada pelo buraco da agulha, desenganem-se. O que ele quer demostrar é a sua adequação quântica a todas as agulhas e produzir o Milagre que lhe capitalizará os créditos para 2024.

Depois, de novo presidente, finalmente irá a Marte e há-de implantar aí o “Hotel Trump – Miúdas em Barda”.
Será? Ou será como aquele homem que dormia com os seus braços e a quem um dia lhos amputaram, tenfo ficado desperto para sempre?

Tenhamos fé! Trump, amigo, o povo está contigo!

25 Nov 2020

A poesia como refúgio

Trump não é louco, está a experimentar até onde vai a tolerância dos americanos no jogo entre a verdade e a mentira, se ele se der como aval. Sente-se como um ratazana esperta a manipular uma enorme manada de elefantes que se porta como galinholas, enquanto ele faz manobras à esquerda e à direita.

Ou Trump é louco e está convencido de que é Moisés a separar as águas do Mar Vermelho.
As duas hipóteses são plausíveis.

A terceira hipótese é eu ser Crazy Horse e estar à beira da trombose, na véspera de Little Bighorn.
Por via das dúvidas, para me desviar da alucinação, abro A Bola, e leio o que pensa sobre Mohamed Salah, o goleador do Liverpool, a antiga estrela egípcia Mido:

«Salah cometeu o erro de marcar presença do casamento do irmão poucos dias antes do jogo da selecção do Egipto. Mostrou uma enorme negligência na prevenção contra o coronavírus e o resultado é que ficou infetado. A selecção também perdeu um jogador importante para um jogo decisivo e ainda arriscou a saúde dos companheiros de selecção. Ele não deveria ter estado no casamento e ainda por cima com 800 pessoas, das quais metade abraçaram e beijaram Salah. Outra crítica é o silêncio dos responsáveis sobre a atitude do jogador e que confirma que o jogador é maior do que a selecção…», afirmou Mido, em declarações à Imprensa local .

E apanho-me a pensar que o “mais velho” tem toda a razão e que esta cedência à vaidade deveria ser recompensada com o despedimento sumário. Salah devia a partir de agora ser retido na necrópole de Saqqara como manicurista e pedicurista de múmias.

Nas eleições do Brasil, Bolsonaro perdeu e o PT também, mas o Ciro Gomes não ganhou um palmo: uma honestidade comprovada em várias décadas de vida pública não faz vibrar um sino. Coitado, é dos poucos que estuda os dossiers e nunca fala barato, mas como ninguém lhe denuncia uma falcatrua parece um morrão de cinza num cinzeiro, i.é. um marrão pouco credível.

Esqueçamos a política do ventre. Consolemo-nos com quatro poemas de Louise Gluck, transcriados para ir fazendo a mão à sua voz.

O ESPELHO : Olho-te reflectido no espelho/ e interrogo-me como será ser-se tão bonito/ e por que ao invés de amares a ti mesmo/ te cortas, te barbeias como se fosses cego?/ E acho que me deixas observar-te/ para que te possas voltar contra ti mesmo/ com redobrada violência;/ precisas de me mostrar como arranhas/ a carne com desdém e sem hesitação,/ até te veja corretamente, como um homem ferido/ e não o mero reflexo que me engancha no desejo.

POEMA DE AMOR: A dor sempre serve para alguma coisa./ A tua mãe faz malha./ Despacha cachecóis em todos as gamas de vermelho./ Eram para o Natal, e mantinham-te quente/ enquanto ela casava, uma vez e outra, levando-te/ consigo. Como poderia ter dado certo/ se ela escondeu o seu coração de viúva todos esses anos,/ na ideia de que os mortos pudessem regressar?/ Não admira que sejas como és,/ a tua cagufa ao sangue, as tuas mulheres/ como tijolos um após o outro na parede fria.

F O R M A G G I O: O mundo/ estava inteiro porque/ se destroçou. Quando se destroçou
soubémos o que era.// Nunca se curou./ Mas nas fissuras profundas apareceram mundos mais pequenos:/ foi uma coisa boa que os seres humanos engendraram;/ pois os seres humanos sabem o que precisam/ melhor do que qualquer deus.// Na Huron Avenue multiplicaram-se/ num fartote de tendas; converteram-se/ em Fishmonger, Formaggio. Foram/ o que foram, venderam o que venderam,/ a sua função era semelhante: eram
imagens de segurança. Como/ um lugar de descanso. Os vendedores/ agiam como se fossem paizinhos; parecia/ terem sempre ali vivido. Em geral,/ mais gentis do que os próprios pais.// Afluentes/ que desembocavam num grande rio: eu tinha/ muitas vidas. Naquele mundo provisório/ abancava onde ficava a fruta,/ caixas de cerejas, clementinas,/ sob as flores de Hallie.// Vidas não me faltaram. Desembocavam/ num rio, o rio/ entroncava um grande oceano. Se o eu/ se torna invisível, é porque desapareceu?// Fui prosperando. Não vivia completamente só, sozinho/ mas não completamente – se estranhos/ me rodeavam.// Esse é o mar:/ existimos em segredo.// Tive vidas antes desta, hastes/ de um ramo de flores: convertidos/ numa única coisa, sujeita a um laço no centro,/ um laço visível sob a mão. Sobre a mão,/ o futuro ramificando-se, hastes/ que rematam em flores./ E o punho cerrado/ que seria o eu no presente.

O JARDIM: Não aguentaria fazê-lo novamente,/ dificilmente suportaria vê-lo;// no jardim, sob a chuva miudinha/ o jovem casal planta/ uma fileira de ervilhas, como se/ ninguém nunca tivesse feito aquilo antes:/ os grandes problemas todos ainda/ atirados para trás das costas.// Reveem-se até esse momento imaculados / de qualquer sujeira, como começar/ despidos de perspectivas/ se nas colinas ao fundo, verdes e pálidas,/ alastra a nuvem de pólen?// Ela deseja deter aquele instante;/ ele prefere chegar até o fim,/ permanecer nas coisas.// É ela quem ao acariciar-lhe uma face/ abre uma trégua, os dedos engelhados pela chuva primaveril;/ enquanto pela relva macia/ reponta o vermelho açafrão.// Mesmo aí, então no princípio do amor,/ a sua mão ao afastar-se da face/ dá uma impressão de despedida,// e eles julgam-se/ capazes de ignorar/ esta tristeza.

Nem tudo está perdido, mas temos um minuto para achar a chave e a escrivaninha tem oitenta gavetas.

18 Nov 2020

A reparação cósmica

A ideia de que Deus cria o mundo lendo um livro é da tradição judaica e encontramo-la no Jardim das Delícias, do Bosch, onde, a uma esquina do Terceiro Dia da Criação, se figura um velhito com um livro na mão, pondo em movimento essa gestação do mundo que lhe inspira a leitura da Torá.
Primeiro aspecto simpático: Jeronimus Bosch não ardeu na fogueira por ter representado Deus na sua senilidade, um sinal de tolerância.

E se nos reportarmos aos dias de hoje, às teorias da conspiração e à vileza desse balofo Capitão Gancho de cabelo encardidamente laranja, pode ocorrer-nos a ideia estremecedora de que o livro que Deus lê nesse cantinho de Bosch possa não ser a Torá mas o American Psicho, do Bret Easton Ellis, um retrato da insânia. O que tornaria o legado de Deus uma coisa intolerável.

Contudo, nesta semana, outra notícia me contundiu sobremaneira. Falhos de imaginação os que achavam que Marx, Nietszche e Freud tinham marcado o homem com feridas narcísicas (mesmo que Marx tenha voltado em farsa, na superstição populista de que também os socialistas comem crianças ao pequeno-almoço).

Aquilo que descobri esta semana, põe tudo isto de pantanas. Passo a citar: «O espaço sempre suscitou curiosidade e mistério (…) Os cientistas respondem agora que podem existir 300 milhões planetas potencialmente habitáveis na nossa Via Láctea. E estes mundos não estão assim tão distantes quanto se possa pensar, alguns estão a 30 anos luz.»

Trinta anos luz, é já aqui; trezentos milhões? Uau! A notícia deixa-nos em carne viva, escorchados, a escorrer sangue. Sabíamos que a modernidade começa com uma fogueira, aquela em que arde o corpo de Giordano Bruno, em 1600, mas não supunhamos que a multiplicidade dos mundos que ele defendeu no livro que o perdeu fosse de tal monta.

Esta multiplicidade é fascinante mas reabre o sulco da responsabilidade, sob risco de nos pulverizar a irrelevância. Bom, isto não é tanto um problema para mim como para as cabecinhas que temem a centrifugação simbólica, para quem os profetas têm de ser obrigatoriamente autoritários e mágicos, e para quem Deus escolhe os humanos como cobaias principais, ou é o dealer que fornece as 72 virgens.

Trezentos milhões, mesmo para um Deus não dá folga. A possibilidade de encontrar os dados do jogo esquecidos por um instante na mesa do universo – talvez no encarniçamento da discussão com Einstein, que lhe recriminava a ligeireza de brincar com o aleatório e o incerto – são ínfimas; aumentaram de tal modo as anfractuosidades do mundo que alguma coisa que ficou fora do foco da atenção um milionésimo de segundo pode estar perdido para a eternidade. Por outro lado, as hipóteses para que Deus encontre um mensageiro confiável e eficaz neste labirinto de vozes ilimitadas são reduzidíssimas, e mesmo a Deus, revejo-o agora como a esse velhito do Bosch mas vestido de polícia-sinaleiro numa encruzilhada entre galáxias e praticamente já sem trânsito.

E eis que igualmente o meu querido Shakespeare passa a ter o relevo de uma poda (que ninguém completou) numa videira, em vinha que entretanto secou.

Ah, mas Deus é ubíquo, objectarão alguns. Pois é, mas nós não, e somos nós quem têm de lhe captar a atenção, tal como uma das funções do espelho é apresentar-nos ao infinito.

Para Nietzsche, não nos libertamos de Deus se não nos libertamos da gramática. Em trezentos milhões e mundos habitados essa harmonia pré-determinada será uma mesma ou irradia em sucedâneos agramaticais que fundam diversas regras, milhões? Fica a dúvida, porém, só esta, inibe a simples ideia de usarmos uma sua gramática (qual?) ou de nos afincarmos na sua devida apropriação.

O que nos projecta para o território de uma escolha vital. Encaminhamo-nos para a radicalidade inabarcável do múltiplo, numa liberdade inerente a si e em contínua exterioridade à sua moldura, num fluxo que rompe categorias e delimites, e adquirimos a serenidade no meio dessa insegurança? O que é para raros e obriga a uma vigilância permanente. Ou desenvolvemos uma cegueira redutora, o que acontece a muitos, e queremos decalcar na laminada pele do universo a ilusão das tradições? Trata-se de escolher entre a intranquilidade do incognoscível e a tirania decapitadora.

Chega-me pela primeira vez a impressão de ceder à visão conspiradora dos agnósticos: o Mau Demiurgo faz o universo conspirar contra nós.

Não obstante, julgo que a irrelevância a que estamos submetidos não deve afundar-se ainda mais na estultícia de concedermos relevância a Trump. O político – o direito a pegar na pá e soterrar Trump – ganha aqui o sabor de uma reparação cósmica.

E quem se abstrai disso – chega-me a certeza indubitável – vai para o Inferno ou já vive nele. Como os setenta milhões que votaram em Trump.

A confirmar esta hipótese, astrónomos conseguiram finalmente decifrar um misterioso sinal de rádio repetido no espaço, rastreado há dez anos. E de acordo com a revista científica “Nature”, a suposta origem do sinal chega-nos de mais perto, estranhamente de Tebe, o quarto satélite natural, em termos de distância, de Júpiter, que se assemelha a uma orelha. Este foi descoberto pela Voyager 1 em 5 de março de 1979, e foi baptizado com o nome da ninfa Tebe que na mitologia grega era filha do deus Asop. Há, contudo, quem diga que a mensagem afinal vem do planeta Niburu, que surge sempre por detrás de Júpiter, esse planeta cujos habitantes nos visitam a cada 3.600 anos para, segundo os sumérios, fazer experiências transmitir ensinamentos e fornicar as militantes trumpistas. De qualquer dos modos, diz a estranha mensagem: “…apesar de gostarmos mais da Kamala que do velhote, damos os parabéns a Biden pela vitória nas eleições americanas. O Trump que vá para o Inferno…”

Feminismo? A mim parece-me uma mega reparação cósmica.

11 Nov 2020

Saltos na fé

A anedota é curta: um homem cai num poço e mergulha 30 metros antes de conseguir agarrar-se a uma magra raiz que detém a sua queda. A sua mão vai perdendo a força e, desesperado, grita: Há alguém aí em cima? Olha para o alto e vê um círculo de céu. De repente, as nuvens abrem-se, um raio brilha sobre ele, e uma voz profunda ecoa: Sou Eu, o Senhor, estou aqui. Solta-te da raiz e eu salvo-te. O homem pensa mais um minuto e grita: Tem mais alguém aí em cima?

Quando se está pendurado por um coto, um magro filamento de raiz, a tendência é de fazer a balança pesar para o lado da razão. Que se alimenta da dúvida: O Gajo existe ou a minha necessidade acabou de inventá-lo? Daí que René Descartes tenha preferido cultivar a razão em vez da fonte divina de conhecimento.

E a que fé se podia agarrar Kafka quando escreveu numa carta a Milena: «os beijos por escrito não chegam ao seu destino; são bebidos no caminho pelos fantasmas», afastando com isso qualquer possibilidade, a mínima fímbria (o beijo) de contacto?

O salto na fé, como lhe chamava Kierkegaard, é um dos grandes desafios do homem, sendo isto independente de acreditar-se em Deus ou não. Como fazer convergir a si a energia que só uma convicção indubitável engendra? O amor só se consolida e expande se houver um salto na fé, de contrário fenece como uma flor de época, narcísica.

Escrevi um prefácio para um livro do Christian Bobin e tive de reler La Lumière do Monde, um magnífico livro de entrevistas onde, como na Alice atrás do espelho, tudo parece estar invertido. E aí encontro um exemplo de como a ilogicidade aparente pode ser uma prova viva do mais verdadeiro: «O que me convence na cena do túmulo vazio, na manhã da Ressurreição, é que ninguém aí se detém: os evangelistas não lhe dedicaram mais do que duas linhas. Os falsificadores teriam escrito volumes e volumes sobre a Ressurreição. Eu acredito porque existem apenas duas linhas. É estranho que a coisa mais importante quase nunca esteja nos Evangelhos. É a mesma estranheza que me convence no caso de Maria: ela teve essa Graça de lhe ter sido anunciado a natureza divina de seu filho, e trinta anos depois ela esqueceu. É exatamente como a vida».
Bobin tem razão. Mesmo para um ateu, crer implica iluminar o que a vida omitiu por demora e esquecimento e encontrar aí novas texturas, trânsitos, inteligibilidades e uma sintaxe intersticial – outro foco, na narração da memória – que, ao modo das sinapses, active uma re-organimação do real e a festa do nosso reencontro com ele; visto que somos intermitentes, no contacto que lhe devemos.

É o nexo que encontro numa história espantosa de John Cage, que só agora julgo compreender. Escreveu o músico sobre a sua mãe, nos seus diários: «A minha mãe casou-se duas vezes antes de desposar o meu pai, mas nunca se referiu a isso, a não ser já próximo da morte. Ela não conseguia lembrar-se do nome do primeiro marido».

Esta passagem final mergulhava-me em tinhosas reflexões sobre os alçapões e os labirintos da memória. Psicanaliticamente, é um cliché dizer que só recordamos o que queremos e censuramos o que nos desagrada.

O facto é que as histórias felizes não imprimem enquanto o sulco das mágoas é muito mais duradouro. Não interessa quanto tempo durou esse primeiro casamento, é mais pertinente interrogar se há intensidades sem um nome que as transporte. Se tivesse sido uma relação traumática, das que deixaria uma cicatriz vertical na psique da mãe de Cage, os anos trariam aos seus lábios o nome do agressor, porque embora o tempo aja como uma momentanea amnésia paliativa e cauterize a dor, deslocando-a, levando-nos a perdoar, não nos faz esquecê-la  —  e ao mal, até por defesa, nós designamo-lo. Nós nomeamos a figura do mal como uma prova de superação, mas nenhum judeu de Auschewitz esqueceu o nome dos seus carrascos.

Porém, como falar da felicidade? A felicidade é como o tempo: podemos experimentá-la mas falar dela é um contra-senso e uma felicidade demasiado consciente, meta-relacional, seria o primeiro sinal de um défice.

O que me deixa desconcertado nesta curiosa amnésia da mãe do músico é a hipótese da senhora ter sido tão tremendamente feliz no seu casamento que, face ao que se sucedeu, lhe fosse insuportável atribuir um nome ao que, por qualquer motivo, perdera para sempre.

É uma hipótese nada descartável ainda que pareça pouco lógica — contudo, o que o escritor persegue não é a lógica mas as anfractuosidades do sentido, o seu esplendor indiciário; a lógica está para o escritor como o pé chato para o maratonista: é um empecilho. O escritor vive dos saltos na fé.
Por isso, na mesma lógica invertida, escreve Bobin:

«Cioran é um benfeitor, não pelo facto, como dizem os seus falsos discípulos, de ser um desencantado com o mundo, mas porque não deixa nenhum falso encantamento. É alguém que limpa o deserto. Com uma vassourinha, ele retira toda a porcaria das consolações fáceis, e é para mim, depois deste trabalho, que ele começa a ter uma palavra verdadeira. É preciso o trabalho de inverno: de retirar por fim os ramos mortos: a isto se chama preparar a primavera». Absolutamente.

Um salto na fé, igualmente, o que foi dado pelo museu de cera Madame Tussaud de Berlim, ao ter colocado a sua estátua de Donald Trump num contentor do lixo, nesta sexta-feira. Gente que não está só arreigada ao comércio.

4 Nov 2020

Perfumar a glande

Espanta nos diários de 1906 de Fernando Pessoa a sua confessada decisão de ler dois livros por dia, um de filosofia e outro de literatura, de preferência poesia. E esse ritmo só foi baixando porque a partir de 1913 se imiscui a decisão de aprofundar uma voz poética, ainda por cima em arquipélago e com uma clara propensão para em suaves declinações ensaísticas refinar uma espécie de mathesis universalis.

Ou seja, Pessoa desatou a escrever ele mesmo um livro por semana. Exagero e caricaturo, mas releve-se a sua enorme capacidade de trabalho.

Mas não é único, apesar de nos ser difícil acreditar (e, em Portugal, no século anterior basta pensar em Camilo). Depois de um delicioso livro de entrevistas e de um muito parcial mas cativante Diccionario De Literatura, pego numa biografia sobre o espanhol Francisco Umbral (1932-2007), outro omnívaro que escreveu cento e tal livros e muitos milhares de artigos e crónicas (só no El Mundo manteve uma crónica diária durante 40 anos). E conta Anna Caballé, a biógrafa-não-autorizada que fez em «Francisco Umbral/ El frio de una vida» o livro definitivo sobre o escritor de Diario de un escritor burguês:

«Consideremos qualquer semana de sua vida. Qualquer semana de 1977, por exemplo, um de seus anos mais fecundos. Encontramos Umbral publicando um artigo diário (secção “Diario de un snob”) no El País e outro artigo, também de jornal, para a agência Colpisa, que o distribuia entre os jornais associados. Tem um artigo semanal na Interviú (algumas “Horteras Cartas” em que ensaia várias fórmulas coloquiais) e outro, mais exigente, na Destino, semanal. A essas colaborações regulares deve ser adicionado um artigo mensal com conteúdo erótico para a revista Siesta e uma história erótica bimestral que aparece na mesma publicação.

Juntem-se a estas outras colaborações que ele espontaneamente concede em Diario 16, em Triunfo, em Hermano Lobo. Não levo em consideração os textos aleatórios que surgiram no decorrer da sua vida profissional, mas chamo à lista os livros que publicou naquele ano: La prosa y otra cosa, Diccionario para pobres, La noche que llegué al Café Gijón, Las jais, Teoría de Lola y otros cuentos e Tratado de perversiones.

Seis livros – quatro deles de criação. Ou seja, um livro a cada dois meses. E não se pode dizer que seja fruto de acaso editorial, já que em 1976 publicou onze livros, quase um por mês. Com razão, o hispânico Jean-Pierre Castellani, baseando-se apenas na intensidade de suas colaborações jornalísticas, considera-o um fenómeno único na Espanha e “talvez na imprensa europeia contemporânea”».

O que assombra, com flutuações naturais, é a qualidade média de cada livro, invejável. Cada pico em Umbral corresponderia ao melhor do dos seus colegas escritores, só que Umbral tem uma dúzia de picos. De entre os cinco que li, talvez escolhesse Mortal e Rosa (traduzido, e bem, em português por Carlos Vaz Marques) o livro que escreveu depois da morte do filho, de sete anos, com leucemia, ou El hijo de Greta Garbo. Noutra ocasião farei uma descida à “morfologia do estilo” de Umbral que foi um defensor e um dos mais bem sucedidos cultores do “romance lírico”. Aqui fica um parágrafo, breve, de Mortal e Rosa: «Outubro.

Aperfeiçoa-se a rotundidade do mundo. As árvores são violinos cuja música é o azul do céu. O bosque brinca com o meu filho como um tigre verde com um pintassilgo. Somos o âmago de uma lentíssima maçã caindo silenciosamente no tempo».

Sirva agora esta nota só para meter alguma humildade no toutiço de alguns jovens escritores que conheço, tão vaidosos como ignorantes, tão convencidos como improdutivos.

Ontem fiz o download do livro póstumo que reuniu toda a sua poesia, um livro de 200 páginas. Não é o seu melhor mas tem coisas que me divertiram, como o ciclo de poemas em prosa erótica que dedicou à Letícia/Lutecia. Vê-se que lhe era fácil e como isso lhe menorizava os poemas, nem resistindo, por vezes, ao mau gosto; por outro lado, são divertidíssimos e a espontaneidade do seu jacto denota que aos setenta (morreu com setenta e cinco, suponho que gasto) mantinha ainda um ímpeto juvenil. Aqui traduzo um poema desse ciclo: EL PERFUME

«Há sexos de mulheres que perfumam a glande durante uma semana. Há mulheres que têm na geografia da vulva, nas gargantas da vagina, na caverna das secreções, uma infinidade de jardins subaquáticos, uma pluralidade de peixes que antes foram flores e sonham em se cristalizar, silenciosamente, no sal.
Há sexos que deixam um perfume a mancebia babilónica e a armazém portuário, e do mesmo modo que o poeta passou anos sem lavar a testa, pois ali fora beijado por outro poeta, pode-se passar dias sem lavar a glande para que não perca, no freio do prepúcio, a sua aura de mulheres e flores, o seu halo de mar e porto, que é como uma coroa olorosa, essa fragrância que hesita em adoptar uma forma única mas se vai assemelhando ao desenho balístico da glande.

A rigor, havia que descer-se à rua com o erecto membro ao léu, circuncidado como o azul no céu, ou uma proa, ou a pequena e vermelha agressão perfumada que distribui fitas aromáticas pela vizinhança, como quando passa o peixeiro. Disse que era preferível não lavar-se, nesses casos, mas a verdade é que há também a mulher indelével, a que perfuma e perfuma, e ao cabo de numerosas e meticulosas lavagens, depois de repetidas esfregas e enxaguamentos, a coisa continua a cheirar ao mesmo, com aquela fidelidade dos cheiros, que é a única fidelidade no amor. Não há maneira.”

28 Out 2020

Encruzilhadas

Depois dos Mestres Cantores eis os Mestres Decapitadores: é uma fanfarra enleada em bosta de cão, na farsa deste século que tropeça nos próprios pés. O pai de uma aluna e um militante islamita radical emitiram uma “fatwa” contra Samuel Paty, o professor decapitado na sexta-feira na região de Paris. É um ver se te avias de fátuas e peregrinas arrogâncias, depois dos 15 segundos de Fama do Andy Warhol temos os 15 segundos de Empolamento do Poder Divino.

Dizem os testemunhos, Samuel tratou com deferência os seus alunos islâmicos e antes de mostrar as caricaturas de Maomé nas aulas explicou-lhes porque teria de as mostrar aos outros colegas, não os desrespeitou nem o seu gesto tinha um carácter denegridor.

Em 2006, por ingenuidade minha, na universidade em Maputo, querendo mostrar como as nossas escolhas quanto à identidade sexual que assumimos têm o seu quê de construção social, passei nas aulas o filme Crying Games/Jogo de Lágrimas, de Neil Jordan, um dos mais belos filmes que conheço sobre o amor e os conflitos que este pode gerar se toma uma feição desviante em relação à intratabilidade da educação que nos condicionou.

Fui depois chamado à direcção do departamento: para um grupo de estudantes islâmicos eu havia “pecado” ao mostrar um transsexual nas aulas e ao falar desassombradamente de sexo. Chocou-me não terem sido frontais, o espírito de baixa bufaria entranhado. Foram umas semanas de tensão no relacionamento com os alunos.

Chegado de outras coordenadas não imaginava que o filme chocasse jovens universitários e supus que as virtualidades do debate que o filme suscitaria seriam vantagens sobre qualquer melindre.

Tive sorte, o então coordenador do curso meteu-se do meu lado e “decapitou” logo a avançada moralista; estou incerto sobre se o resultado seria o mesmo agora – e este retrocesso é uma realidade descoroçoadora.
Hoje, na fronteira norte, supostamente a 3000 km de uma ilusória geografia, decapitam-se pessoas por dá aquela palha.

Esta semana, a minha amiga Aliete Matias, postou no fb esta fotografia de Jessica Antola, de uma Mãe Mursi (uma etnia da Etiópia) armada, e comentou “não encontro palavras para esta foto”. Também não encontro, mas aquela arma é para defender o filho nos portais do inferno com que aquela mulher se depara regularmente.

Agora que um filho da mãe de um burguês – a ouvir no leitor de cds de um Peugeot da última gama o mais recente disco da Fatoumata Diawara, baixado do Youtube – enquanto aguarda nos semáforos, decida lançar uma fatwa sobre um professor (tudo o indica) que não quis provocar, de modos delicados, num país que não reconhece a alegação da apostasia, é demasiado cínico e macabro.

“Um dos nossos compatriotas foi morto hoje porque ensinou a liberdade para acreditar e não acreditar”, acrescentou Emmanuel Macron. Como deve proceder a democracia diante de quem enfia o garfo no coração dos seus direitos mais profundos e o revolve? Como reagir face aos que usam a liberdade para negar a dos outros e não sabem viver senão em suposto apostolado?

Há um aforismo do poeta Wallace Stevens que talvez aqui caiba: «A intolerância a respeito da religião dos demais é tolerância comparada com a intolerância a respeito da arte dos demais». Ou seja: talvez não seja só a nossa liberdade que está em jogo como também a nossa arte, vista à luz dos radicais islâmicos. Lembremo-nos das estátuas dos Budas em Gandara.

Se o apelo da preservação da liberdade não for suficiente como reacção civilizacional que ao menos o da defesa da arte seja uma razão suficiente para a urgência de pensar e articular uma resposta para estes problemas, sem esquecer que é no vazio do pensamento que se localiza o ninho da víbora.
Sem isso, só se seguirá aquilo que Houellebecq previu: a obediência.

E já que chamei o poeta à liça aproveito para apresentar uma primeira selecção dos 289 adágios ou provérbios que o Wallace Stevens deixou e a que os organizadores, num livrinho póstumo, deram o nome de Adagia.  Esta é uma primeira selecção de entre os cento e cinco primeiros. A tradução é minha:

Cada era é uma casinha no pombal.
Dos vermes, faz o poeta trajes de seda.
Os poetas de mérito são tão aborrecidos como a gente de mérito.
O pensamento é uma infecção. No caso de certos pensamentos converte-se em epidemia.
Parece o poeta outorgar a sua identidade ao leitor. É mais fácil reconhecer isto quando se ouve música. Refiro-me ao seguinte: à transferência.
A imaginação deseja que a consintam.
A coisas vistas são as coisas como são vistas.
Tem em conta: I. Que o mundo inteiro é matéria para a poesia; II. Que não existe nenhuma matéria especificamente poética.
O poeta é o intermediário entre as pessoas e o mundo em que vivem, e também entre as pessoas entre si; mas não entre a gente e algum outro mundo.
A poesia não é o mesmo que a imaginação tomada isoladamente. As coisas são em virtude de interrelações ou de interacções.
A poesia deve ser algo mais que uma concepção da mente. Deve ser uma revelação da natureza. As concepções são artificiais. As percepções são essenciais.
Ler um poema deveria ser uma experiência, como quando se experimenta um acto.
A morte de um deus é a morte de todos.
Em presença da facticidade extraordinária, a consciência toma o lugar da imaginação.
Tudo tende a tornar-se real; o todo move-se na direcção da realidade.
(à suivre)

22 Out 2020