Hoje Macau Via do MeioDesmitificação da presença de uma civilização europeia superior em Hong Kong: a violência da colonização e a segregação social imposta pelos britânicos Texto de Ana Saldanha – Foi Professora Adjunta Convidada na Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Instrutora Sénior na Universidade de Macau (UM). Actualmente é docente na Universidade Normal de Hunan Hong Kong e Macau são, respetivamente, desde 1997 e 1999, duas Regiões Administrativas Especiais (RAE) da República Popular da China (RPC). Em 1997, Hong Kong tornou-se na Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK), deixando de estar sob a alçada britânica e passando para a jurisdição chinesa, no seguimento de um acordo estabelecido com os britânicos que estabelece as regulamentações do novo território, assim como os direitos e deveres dos seus residentes, numa Lei Básica. Seria, igualmente, este processo que serviria de exemplo para o acordo que a República Popular da China e Portugal estabeleceriam, o qual permitiria a criação, em 1999, da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Compreender as razões que subjazem à atual existência da RAEHK implica, contudo, compreender o porquê da presença britânica em território chinês. Hong Kong fica a leste do estuário do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, no Sul da China. O território é um dos mais densamente povoados do mundo, com uma população de quase 7.5 milhões de habitantes vivendo numa área de 1.104 km2: possui, deste modo, uma densidade de 6.300 pessoas por Km2 (World Population Review, 2019). A 1 de julho de 1997, Hong Kong deixou de estar sob a jurisdição britânica e passou para a jurisdição chinesa, tornando-se numa Região Administrativa Especial (RAEHK) da República Popular da China (RPC). No ato oficial de transferência de soberania, o Chefe do Executivo do novo Governo de Hong Kong, Tung Chee Hwa, formulou publicamente a política de Um País, Dois Sistemas, defendida em 1978, por Deng Xiaoping, na 13ª sessão do 11° Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC). Em 1999, esta formulação seria estendida à então nascente RAEM: garantia-se, deste modo, a convivência, no território chinês, de dois modos de produção distintos. Expansão do comércio do ópio: uma necessidade do modo de produção capitalista do Império britânico Recua ao século XIX a presença colonial britânica neste território, quando, na sequência das duas guerras do ópio em que saiu vencedor, o Império britânico procurou enfraquecer militar e economicamente a China, forçando-a a abrir-se às potências estrangeiras e a tornar-se dependente do comércio do ópio. Ora, ainda que a história do comércio e do consumo do ópio, na China, remonte à Dinastia Tang (618-907) – quando mercadores árabes o introduzem no território -, será na dinastia Qing (1644-1911) que os habitantes das zonas costeiras (nomeadamente de Fujian e de Guangdong) vão aperfeiçoando a forma de o consumir, fazendo com que, gradualmente, o seu consumo se estenda a todo o território chinês e se venha a tornar, a partir de 1813, numa fonte de receitas fundamental para a Coroa britânica. O desenvolvimento dos Country Trade – empresários privados anglo-saxões estabelecidos na Índia -, no início do século XIX, permitiria o alargamento da comunicação da rede comercial da Companhia das Índias quer com os canais de comércio, na Índia, quer com os traficantes britânicos de ópio, estabelecidos em Cantão, os quais viriam a inundar de ópio o território chinês. Contudo, perante os graves problemas de saúde pública e o profundo desgaste sofrido pela economia do país, a Corte Imperial Qing decide banir o ópio da China: é assim que, em 1839, a China confisca mais de 20.000 caixas de ópio a traficantes, sediados em Cantão, e exige aos mercadores estrangeiros a assinatura de um documento no qual se comprometem a renunciar ao tráfico do ópio. Na sua maioria britânicos, os traficantes ripostaram e exigiram à China o pagamento do valor total das suas mercadorias, o que o Império asiático recusou fazer. Perante a previsão de perdas de importantes fontes de receita cuja arrecadação o ópio permitia (as quais eram incomparavelmente superiores àquelas que as autoridades portuguesas, instaladas em Macau, alcançavam), a Grã-Bretanha desencadearia uma resposta militar à proibição lançada pela Corte Imperial e despoletaria a primeira Guerra do Ópio: o Império britânico exigia, então, obter um pedido de desculpas da China, uma compensação pelo ópio confiscado e garantias para a segurança dos comerciantes britânicos, cuja materialização deveria passar pela posse de uma ilha. Não é, desta forma, um acaso, o fato de um dos primeiros atos de guerra dos britânicos ser, precisamente, a ocupação de Hong Kong, uma ilha então pouco habitada do sudeste chinês. As Guerras do Ópio: a consolidação do poder colonial Depois de três anos de uma guerra em que sai perdedora, a China depara-se com uma situação econômica bastante frágil, vendo-se obrigada a assinar, em 1842, o Tratado de Nanking. Este tratado desigual obriga a China i) a entregar a ilha de Hong Kong aos britânicos, ii) ao pagamento de uma compensação de guerra de US$ 21 milhões, iii) à abertura de cinco portos ao comércio exterior (Guangzhou, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Shanghai) e iv) à limitação das tarifas alfandegárias. Convém referir que, não obstante o tratado nada referir em relação ao ópio, o seu comércio era, de fait, autorizado. A ilha de Hong Kong foi, desde logo, declarada como um porto livre, um estatuto que daria início ao crescimento económico posterior. No topo da administração do novo território colonial encontrava-se o Governador, autoridade máxima escolhida por Londres. Depois do Tratado de Nanking, os britânicos continuaram a pressionar a China no sentido de esta legalizar o ópio e recusavam cessar a sua importação. É, assim, lançada uma segunda guerra, desta vez conjuntamente pelo Reino Unido e pela França, em 1856, finda a qual, em 1860, a China, perdedora, assina o Tratado de Pequim, imposto pelas duas nações europeias vencedoras. Legaliza-se, a partir de então, o comércio do ópio e os chineses veem-se obrigados a abrir novos portos ao comércio com o estrangeiro e a entregar um novo território aos britânicos: a ilha de Kowloon. Em 1880, o tráfico do ópio representava 39% das importações chinesas, estimando-se, em 1905, que 10% dos homens adultos chineses fossem opiómanos. Em Hong Kong, em 1918, 46.5% das receitas governamentais advinham do comércio de ópio, num momento em que uma crescente população chinesa, no território, se tornava, também ela, dependente daquele narcótico. Vale a pena lembrar que seria, apenas, depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que o Império britânico tornaria ilegal a venda e o consumo do ópio, em Hong Kong. Em 1898, os Novos Territórios seriam cedidos, por aluguer, à Grã-Bretanha, por um período de 99 anos, juntando-se aos territórios coloniais de Hong Kong e de Kowloon. Leis de cidadania segregacionistas e uma cidade insalubre Logo no início da colonização de Hong Kong, os britânicos promulgaram uma legislação que, na prática, criava uma lei para europeus e outra para chineses. Foram, assim, aprovadas leis para garantir que nenhum chinês morasse nas áreas mais desejáveis de Hong Kong, as quais os britânicos pretendiam preservar como exclusivas. Num território onde a grande maioria da população falava, sobretudo, cantonês, o inglês constituía, no entanto, a língua oficial, ainda que incompreendida pela grande maioria da população. O chinês, aliás, só se tornaria língua oficial, conjuntamente com o inglês, num estádio avançado do colonialismo, em 1974. Relatórios oficiais do final do século XIX apresentam-nos uma cidade sem condições sanitárias, sem saneamento básico, com infraestruturas precárias e onde as famílias se concentravam em espaços diminutos. Em 1860 e 1861, um cirurgião colonial descreveria o horror das condições sanitárias em que viviam os chineses, em Hong Kong, assim como as prisões sobrelotadas da colônia: Hong Kong tornara-se num território de consumo e de comércio de ópio, de salas de jogo (o jogo seria legalizado em 1867) e de traficantes. Cidade insalubre (o que daria, aliás, origem a uma epidemia de peste bubônica, em 1894, originando um contexto em que os excrementos humanos se tornariam fonte de comércio), Hong Kong era, de facto, dominada por um apartheid que permitia a separação dos bairros dos brancos europeus dos bairros da restante população asiática (em 1904, um ato legislativo proibia os chineses de possuir terra ou de residir no Peak) e onde chineses sofriam castigos físicos (como o açoitamento) – permitidos pela lei. Paralelamente, assistimos à conformação de instituições que permitem a consolidação do capital financeiro e que tornariam Hong Kong, no início do século XX, num dos centros financeiros mundiais. Em 1964, em plena Guerra do Vietname, a China protesta contra a presença de navios de guerra estadunidenses, no porto de Hong Kong. Numa nota de 15 de maio de 1967, a China denuncia “o complot do governo britânico que colabora com o imperialismo americano contra a China” e que “continua a oferecer Hong Kong aos EUA como uma base para a sua agressão contra o Vietname” (apud Fischer, 1968, p. 317). Três anos depois, em maio de 1967, sucedem-se várias lutas operárias, enquadradas pelo Hong Kong Federation of Trade Unions (união de sindicatos próxima do Partido Comunista Chinês (PCCh), que se posicionava contra o domínio colonial), fortemente reprimidas pelo governo colonial e que deixou um legado de 51 mortos. Sucedem-se, neste contexto, incidentes na fronteira, protestos e um ultimato de Beijing. Um relatório do PCCh, desse ano, afirmava o seguinte: “O imperialismo britânico chegou à China através de navios piratas, provocou a criminosa guerra do ópio, massacrou numerosos chineses e ocupou o território chinês de Hong Kong. Mais tarde, apropriou-se do território chinês de Kowloon e dos Novos Territórios. Esta é uma enorme dívida de sangue que os britânicos têm para com os chineses” (apud Klein, 1995, p. 241). Segunda metade do século XX: exploração e recusa de direitos plenos de cidadania à população chinesa local O desenvolvimento industrial que se verificou em Hong Kong, na segunda metade do século XX, baseou-se numa política de baixos salários e de extensas jornadas de trabalho. Neste contexto, sucedem-se reivindicações laborais assim como uma reivindicação da população asiática de Hong Kong – que nunca seria acolhida pelo poder colonial: a plena cidadania britânica. Com efeito, os habitantes de Hong Kong eram considerados sujeitos da Coroa britânica, contudo não gozavam de todos os direitos, nem da completa cidadania de que gozavam os britânicos metropolitanos. Em 1948, num momento em que as colónias, no plano mundial, progressivamente, adquiriam a sua autonomia, o governo britânico decide que os membros da Commonwealth, ainda que pudessem permitir uma cidadania própria a cada domínio, guardariam o estatuto comum imperial de sujeitos britânicos. O colonialismo escondia-se, deste modo, por detrás de um neocolonialismo difuso, mascarado sob o desígnio de cidadão da Commonwealth (CUKC – Citizen of the United Kingdom and Colonies). Esta passa, então, a ser a designação para os habitantes asiáticos, nascidos em Hong Kong. Não obstante os CUKC gozarem de direitos distintos dos cidadãos de pleno direito britânico, até 1962 ainda podiam entrar e sair do Reino Unido, sem restrição. Esta situação vai, contudo, alterar-se a partir daquela data, quando os CUKC (incluindo os CUKC de Hong Hong) passam a estar sujeitos a restrições de movimento e de estadia. Em 1981, o Reino Unido vai, de novo, criar novas categorias de cidadania, quando, num revés linguístico que pretendia escamotear, na realidade, a perduração de uma situação colonial, substitui a denominação de territórios coloniais britânicos por territórios dependentes britânicos. O estatuto de cidadania CUKC desaparece e é substituído por novas categorias: para além da categoria de cidadão britânico (apenas para residentes do Reino Unido e de dependências da Coroa britânica), estabelecia-se o estatuto BDTC (Cidadão Britânico dos Territórios Dependentes) e o estatuto BOC (Cidadão Britânico Ultramarino). Esta última categoria constituía uma classe de nacionalidade não hereditária para todos aqueles que não poderiam aceder nem ao estatuto de cidadão britânico, nem ao estatuto de BDTC. A lei estabelecia, ainda, que todos os CUKC de Hong Kong e todos aqueles que nascessem no território, depois de 1983, tornar-se-iam BDTC. Em 1985, o Reino Unido vai criar, uma vez mais, outra categoria de cidadania adicional – BN(O) (Nacional Britânico Ultramarino) – que se aplicava, apenas, a Hong Kong, e à qual poderiam aceder os BDTC. Esta categoria estender-se-ia para além de 1997, contudo, continuava a não permitir aos seus detentores os direitos plenos de cidadania de que gozavam os cidadãos britânicos (não sendo, tampouco, hereditária). Os BN(O) não possuíam/possuem o direito de viver ou de trabalhar no Reino Unido e não são considerados cidadãos britânicos pela União Europeia. Atualmente, estima-se que 170.000 hongkonguenses possuam BN(O) válidos. No contexto atual de tentativas de desinformação permanentes eurocentradas e visões distorcidas da realidade chinesa, impulsionadas quer por meios de comunicação do auto-intitulado mundo ocidental quer por uma cosmovisão saudosista (neo)colonial, é fundamental não esquecer a divisão societal impulsionada e amparada legislativamente pelos britânicos, desde o início da ocupação da ilha de Hong Kong até ao retorno desta à República Popular da China. Escamotear a segregação racial que foi imposta no território constitui um exercício de memória histórica com vista a relembrar que nenhuma forma de colonização europeia, no mundo, foi levada a cabo respeitando as populações locais ou isenta de violência e opressão. Em suma, colónia britânica de 1842 até 1 de julho de 1997, Hong Kong é, hoje, uma RAE ao abrigo do princípio Um País, Dois Sistemas, mantendo o seu próprio sistema judicial, o seu quadro económico, legislativo e institucional. ____ Este artigo é uma adaptação de dois trabalhos publicados precedentemente: Regiões Administrativas Especiais da República Popular da China. In Dicionário do Socialismo com Características Chinesas. São Paulo: Expressão Popular/Tricontinental, 2026, pp. 230-235; Macau e Hong Kong: de colônias europeias a regiões capitalistas dentro da China. Brasil de Fato (Brasil), 6 de junho de 2020. Referências citadas: FISCHER, Georges (1968). “Hong Kong”. Revue française de science politique, n. 2, pp. 315-332. KLEIN, Richard Daniel (1995). “Law and Racism in an Asian Setting: an Analysis of the British Rule of Hong Kong”. Hastings Int’l & Comp. L. Rev, v. 18, pp 223-276. YIN, Zhongqing (2010). China’s Political System. Beijing: China Intercontinental Press.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Pássaro Jingwei Que Pretende Encher o Mar Sima Shao (299-325), que foi durante os dois últimos anos da sua curta vida o segundo imperador da dinastia Jin do Leste (317-420), com o título de Ming de Jin, deixaria a memória de um príncipe especialmente educado que estudou as artes do pincel, a caligrafia e a pintura com os mais célebres cultores do seu tempo, como o preclaro Wang Xizhi (303-361). E entre os registos dessa augusta recordação avulta o facto de o seu nome constar entre os vinte e sete nomes de pintores referidos na pioneira obra de análise crítica da pintura Guhua pinglu, «Registo e classificação de antigos pintores» de Xie He que viveu no século VI. Será difícil encontrar hoje exemplares das suas pinturas, mas uma tradição sustenta que o jovem imperador se notabilizou na pintura de aves (niao), em particular de aves de rapina contidas na expressão ying que inclui as águias e os falcões. Objectos datados da dinastia Shang, há três mil anos, mostram bronzes rituais e objectos esculpidos em jade com a forma de corujas ou mochos revelando a persistente associação do poder e prestígio da corte a figuras de pássaros que voam livres no céu. Em textos antigos são referidos ainda outros pássaros que emergem da imaginação, como a mais conhecida Fenghuang, traduzida muitas vezes como a fénix chinesa, uma figura que se observa em inúmeros suportes, especialmente têxteis e personificando a majestade da imperatriz. No texto Zhuangzi do século IV a. C. é referido o peng, uma ave simbólica da ilimitada capacidade da mente para imaginar a possibilidade. E como é descrita, a ave peng apareceu de uma transformação que relata uma metamorfose do peso bruto à diáfana leveza, com origem numa enorme criatura marinha designada kun. Da associação entre a largura do mar e o etéreo do azul celeste é referida na mitologia popular uma outra ave associada a um mito fundador envolvendo Nuwa, que segundo alguns relatos seria a criadora da Humanidade. De acordo com uma lenda o pequeno pássaro Jingwei é o renascimento de Nuwa, a filha mais nova do imperador Yan, após se ter afogado no mar do Oriente. Jiang Yinghao, um pintor e gravador activo no final do século XVI, retratou numa xilografia Jingwei, na edição de 1597 do Shanhai jing, o «Clássico das montanhas e dos Mares» tal como descrita no texto como semelhante a um corvo, cabeça matizada em padrões e garras ou patas vermelhas. No bico branco um raminho que, com pequenas pedrinhas, a ave vai levando num infatigável vaivém, desde as montanhas do Ocidente para o mar Oriental com intenção de o encher. Porque como se afogou no mar Jingwei, o «espírito protector», faz da sua dor um bem e deseja que mais ninguém possa sucumbir nas águas ao seu peso, afinal a própria matéria que nos permite habitar o tempo. No Shanhai jing diz-se que o pássaro faz um som semelhante ao seu nome: «jingwei, jingwei».
Julie Oyang Via do MeioUma obra histórica sobre tesouros ocultos da China ganha vida Dez mil obras-primas. Quinhentos coleccionadores. Setenta mil milhões de renminbi em tesouros culturais. E, pela primeira vez na história, o universo secreto do coleccionismo privado chinês prepara-se para sair da sombra e revelar-se ao mundo. A Enciclopédia das Colecções Privadas Chinesas (《中国民藏大典》) não é um livro comum. Trata-se de uma monumental obra editorial bilingue, composta por sete volumes, que se lê como uma história de investigação escrita em jade, bronze e porcelana — a história da civilização chinesa contada através do olhar dos coleccionadores privados que, ao longo de gerações, guardaram os seus maiores tesouros. Um mundo oculto revelado Durante séculos, os mais extraordinários tesouros da China nunca conheceram o interior de um museu. Permaneceram discretamente em mãos privadas, transmitidos de geração em geração, guardados em cofres familiares e envoltos em histórias que poucos tiveram oportunidade de conhecer. Agora, pela primeira vez, esse universo oculto está a ser documentado à escala global. A colecção abrange toda a magnificência da arte chinesa: esculturas budistas serenas, marcadas por mil anos de fumo de incenso; jades e cerâmicas de requinte incomparável; caligrafia e livros raros; meteoritos e bronzes arcaicos; joalharia imperial; e mobiliário que outrora adornou as residências dos imperadores. «É a primeira vez que um projecto desta natureza é desenvolvido em qualquer parte do mundo — a primeira vez que a tradição chinesa do coleccionismo privado é documentada, autenticada e apresentada a uma verdadeira escala global», afirma Michael Du, editor-chefe chinês do projecto. Monumental em todas as dimensões Os números, por si só, impressionam: aproximadamente 3.500 a 4.500 páginas, num imponente formato de grande fólio, com dimensões de 285 × 285 milímetros, integralmente bilingue em chinês e inglês. Cada um dos sete volumes será dedicado a uma importante categoria de coleccionismo. Os critérios de selecção são extremamente rigorosos. Cada peça incluída terá de ser uma «obra-prima entre obras-primas», segundo o princípio orientador que se tornou o lema do projecto: aquilo que a nação não tem, nós temos; aquilo que a nação tem, nós possuímos em qualidade superior. A ciência como guardiã da autenticidade Num domínio em que a falsificação é, ela própria, uma forma de arte, a Enciclopédia estabelece um rigoroso sistema de validação científica. Cada peça candidata terá de superar várias etapas: aprovação unânime do comité consultivo e do conselho editorial, análise por dois instrumentos científicos diferentes — cujos resultados deverão coincidir — e emissão de um certificado de avaliação profissional. «Cada objecto incluído nestes volumes não é apenas belo: é uma prova», afirma Du. «Estamos a recorrer à ciência para autenticar a própria história, permitindo que o mundo veja com os seus próprios olhos que a civilização chinesa é profunda, contínua e real. É isto que significa yi wu zheng shi: comprovar a história através dos artefactos.» Confiança cultural O projecto surge num momento decisivo, em que a China encara o seu património cultural como um dos pilares da identidade nacional. Como salientou o Presidente Xi Jinping: «Sem um elevado grau de confiança cultural e de prosperidade cultural, não haverá um grande rejuvenescimento da nação chinesa!» A Enciclopédia responde directamente a esse apelo, apresentando o património disperso da nação não como um conjunto de fragmentos isolados, mas como um testemunho unificado da profundidade da civilização chinesa. E o mundo está atento. Após a publicação, a Enciclopédia será oferecida a algumas das instituições mais prestigiadas do mundo, bem como a bibliotecas, universidades, institutos de investigação, à UNESCO e às embaixadas estrangeiras na China — numa ambiciosa iniciativa de diplomacia cultural. Contudo, a publicação será apenas o começo. As 10.000 peças autenticadas servirão também de base a futuras vendas privadas, exposições, leilões, operações de aquisição de conjuntos de ativos e iniciativas ligadas a ativos digitais. A missão Mais do que um projecto editorial, a Enciclopédia constitui um testemunho cultural, transformando tesouros familiares dispersos numa narrativa única e incontestável sobre a profundidade histórica e civilizacional da China. O projecto ganha rapidamente impulso. Na conferência editorial nacional, realizada a 30 de Maio de 2026, em Xi’an — cidade cujo próprio solo encerra três mil anos de história chinesa —, editores, consultores e coleccionadores reuniram-se para fazer avançar o trabalho de compilação e reafirmar a missão que partilham. «Tal como a antiga capital abriu outrora a Rota da Seda ao mundo, a Enciclopédia leva agora o património privado da China para além das suas fronteiras, através de novas rotas culturais», afirma Julie Oyang, editora-chefe internacional, radicada nos Países Baixos. «Numa época em que as narrativas culturais são cada vez mais objecto de disputa», acrescenta Oyang, «dez mil obras-primas autenticadas, provenientes das colecções de quinhentos particulares, podem falar em nome de uma civilização — e o mundo escutará e reconhecerá a força dos coleccionadores privados chineses». A Enciclopédia das Coleções Privadas Chinesas será lançada na Europa na Primavera de 2027, em três edições: uma edição de luxo, destinada a coleccionadores e a ofertas institucionais; uma edição impressa; e uma edição digital. Os tesouros estão prontos. O mundo está prestes a descobri-los.
Hoje Macau Via do MeioQuestão Agrária e Literatura na China: quando os Movimentos da Sociedade cruzam a Matéria Literária Por Ana Saldanha – Foi Professora Adjunta Convidada na Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Instrutora Sénior na Universidade de Macau (UM). Actualmente é docente na Universidade Normal de Hunan Ao longo de uma série de quatro artigos, procuraremos analisar o papel fundamental da questão agrária na formação socio-histórica da China, relacionando as transformações ocorridas no mundo rural com a sua representação na literatura chinesa. O conjunto destes quatro artigos pretende acompanhar o processo de reforma agrária desencadeado após a Revolução de 1949 e compreender de que modo as mudanças nas estruturas fundiárias e nas relações de produção foram transpostas para o universo literário. Embora cada artigo se concentre numa problemática própria, os quatro textos formam um percurso articulado, podendo ser lidos individualmente ou como partes de uma mesma reflexão. A presente análise procurará, assim, aproximar a história social e económica das expressões estéticas e ideológicas que acompanharam a transformação do campo chinês, recorrendo a uma seleção de obras e autores representativos. Partindo da modernidade de Lu Xun e chegando à literatura contemporânea de escritores como Mo Yan e Yu Hua, será acompanhada a evolução das imagens da terra, do campesinato e da vida rural, evidenciando de que forma a literatura registou, (re)interpretou e problematizou as profundas mudanças políticas, económicas e sociais que marcaram a China, ao longo do século XX, e que continuam a repercutir-se na literatura do século XXI. I Desigualdade histórica no campo chinês: uma assimetria que a República Popular da China viria alterar A fundação da República Popular da China e a consagração da lei de Reforma Agrária A necessidade de uma reforma agrária, na China, no século XX, resulta da interpretação que o Partido Comunista Chinês, desde a sua fundação, em 1921, fez da realidade rural do país, considerando indispensável transformar as relações de produção no campo para combater a profunda desigualdade e a situação de miséria que afetavam as populações rurais chinesas. Nas vésperas da Revolução de 1949, a China contava com mais de meio bilhão de habitantes, concentrados, maioritariamente, na região oriental do território, a leste e a sul da diagonal que se estende do norte da Manchúria até à fronteira com a Birmânia. Neste contexto, predominava uma agricultura intensiva e arcaica, marcada por recorrentes períodos de escassez alimentar generalizada e de fome, que obrigavam os camponeses a retirar o máximo rendimento possível de pequenas parcelas de terra. A grande maioria da população rural encontrava na agricultura a sua principal atividade, sendo a criação de animais uma prática pouco expressiva e de caráter residual. A ausência de pastagens constituía, assim, uma característica da paisagem rural chinesa —um hectare de pastagem pode alimentar, aproximadamente, até sete vezes menos pessoas do que uma área equivalente, dedicada ao cultivo de alimentos. Apesar da ausência de pastagens, vale relembrar que, com exceção do Norte da China, a geografia rural chinesa era, ainda assim, marcada por extensas áreas de cultivo de arroz, cuja presença marcava profundamente a paisagem agrícola do país (Bianco, 2016). Em 28 junho de 1950, menos de um ano após a fundação da República Popular da China, o governo chinês institui uma nova lei agrária (Tudi gaige fa), redistribuindo a terra por pequenos e médios camponeses. Em 1953, um movimento de coletivização de terras agrupa os camponeses em cooperativas, um processo que se aprofundará em 1955 (campanha que ficou conhecida, entre o outono de 1955 e a primavera de 1956, como a Alta Maré Socialista) e, mais tarde, em 1958, graças à criação das comunas populares (oficializadas por uma resolução do Comité Central do Partido, aprovada em 29 de agosto de 1958). A conceção de cooperativas será, posteriormente, reformulada, pelo que, gradualmente, é dado um espaço crescente às produções familiares e aos mercados livres rurais, sobretudo após o XI Congresso do PCC (realizado em agosto de 1977) e de novas orientações políticas terem sido aprovadas na III Sessão Plenária do XI Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC), realizado em dezembro de 1978. A reforma agrária de 1950 representou um ato histórico de justiça social e soberania nacional. A redistribuição da terra pelos camponeses contribuiu para desmantelar as estruturas fundiárias, anteriormente existentes, criando as condições para a posterior coletivização da produção agrícola. Neste processo, a constituição das comunas populares representou uma nova etapa na organização económica e social do campo, procurando integrar a produção agrícola com diferentes formas de prestação de serviços à população rural. Han Dongping (2010) destaca, neste contexto, os efeitos do sistema de comunas sobre a distribuição de determinados recursos, nomeadamente nos domínios da educação, da saúde e das infraestruturas rurais, bem como as formas de participação e de gestão comunitária que se desenvolveram em algumas localidades. A experiência das comunas deve, assim, ser entendida como parte de um processo mais amplo de transformação das estruturas económicas e sociais do mundo rural chinês, cuja evolução continuaria com as reformas iniciadas no final da década de 1970. 2. A desigualdade persistente no campo chinês Na sociedade chinesa pré-revolucionária existia uma concentração da propriedade rural nas mãos de uma minoria, o que criava uma situação de desigualdade entre, por um lado, uma minoria proprietária e, por outro, uma maioria camponesa, sujeita a uma exploração desmedida. Seria esta situação que o Partido Comunista Chinês (PCC) combateria e denunciaria. Por força das circunstâncias históricas, depois de 1927, o PCC deslocou, progressivamente, o centro da sua atividade das cidades para as zonas rurais, onde procurou construir bases revolucionárias, desenvolver a guerra de guerrilha e mobilizar as populações camponesas. Esta estratégia permitiria ao Partido, após mais de duas décadas de luta revolucionária, alcançar o poder, em 1949. Em 1 de agosto de 1927, sob a direção de Zhou Enlai (1898-1976) e de comandantes como He Long (1896-1969), Ye Ting (1896-1946), Zhu De (1886-1976) e Liu Bocheng (1892-1986), é desencadeado o Levante de Nanchang, que marcou o início da luta armada do Partido Comunista Chinês contra o Kuomintang. Em 9 de setembro do mesmo ano, Mao Zedong (1893-1976) dirige o Levante da Colheita de Outono, desencadeado na região fronteiriça entre as províncias de Hunan e Jiangxi. Perante o fracasso da ofensiva e a resistência das forças nacionalistas, as tropas de Mao retiram-se, progressivamente, para a região das montanhas de Jinggang, onde, a partir de outubro de 1927, começam a estabelecer uma das primeiras bases revolucionárias rurais do Partido Comunista Chinês. No final de abril de 1928, forças sobreviventes do Levante de Nanchang, sob a liderança de Zhu De e Chen Yi (1901-1972), chegam a Jinggangshan e juntam-se às forças de Mao, sendo, posteriormente, reorganizadas no Exército Revolucionário dos Operários e Camponeses. Esta junção contribui, decisivamente, para a consolidação da base revolucionária de Jinggangshan e para o desenvolvimento de uma estratégia assente na mobilização das populações rurais. A partir destas bases, o PCC procura fortalecer a sua influência entre os camponeses através da organização política, da mobilização social e da implementação de medidas de reforma agrária, fazendo da questão da terra um elemento central da luta revolucionária e da construção do poder rural. No contexto da guerra civil que, então, se travava, o Partido Comunista Chinês vai, assim, intensificar a implementação da reforma agrária nas zonas libertadas, procurando quer transformar as relações de propriedade no campo quer mobilizar as populações camponesas para a luta revolucionária. É neste contexto que, em 1947, ainda antes da vitória definitiva do Exército Popular de Libertação (EPL), o PCC aprova o Zhongguo tudi fa dagang (Programa de Lei Agrária da China), um documento de 16 artigos que estabelecia as principais orientações para uma reforma agrária, nas regiões sob controlo do PCC. Elaborado durante a Conferência Nacional de Terras, realizada entre julho e setembro de 1947, em Xibaipo, formalmente publicado pelo Comité Central do PCC em 10 de outubro desse ano, o documento defendia a abolição das formas de exploração fundiária de natureza feudal e semifeudal e a implementação do princípio de a terra a quem a trabalha. A reforma agrária assumia, deste modo, uma dupla dimensão: por um lado, procurava alterar profundamente as relações de propriedade existentes no campo; por outro, constituía um importante instrumento de mobilização política e social das massas camponesas, durante a Guerra de Libertação. Vejam-se, de seguida, os seus dois primeiros artigos: Art. I É abolido o sistema agrário de exploração feudal e semifeudal. Fica instituído o sistema agrário da terra para quem a trabalha. Art. II São abolidos todos os direitos de propriedade territorial dos latifundiários (Programa de Lei de Reforma Agrária de 1947) Em 1 de Outubro de 1949, é proclamada a República Popular da China e, em 28 de junho de 1950, é promulgada a lei de reforma agrária. Como o PCC defendera, as terras dos latifundiários são confiscadas e redistribuídas por camponeses pobres com pouca ou nenhuma terra, o que beneficiaria centenas de milhões de camponeses e alteraria profundamente a estrutura fundiária chinesa. Procurava-se, com este ato legislativo, que os grandes proprietários de terras fossem suprimidos, como classe, da sociedade e que o sistema da grande propriedade fosse substituído por um sistema de propriedade camponesa: “Uma reforma como esta foi, realmente, a mais grandiosa e a mais completa que a China conheceu na sua longa história milenar” (Li, 1950). Até 1952, foram distribuídos cerca de 47 milhões de hectares a, aproximadamente, 300 milhões de camponeses, o que corresponde a cerca de 43%-50% das terras cultivadas. Aos camponeses mais abastados foi permitido conservar uma parte das suas terras, dentro dos limites estabelecidos pela reforma, enquanto as terras dos latifundiários foram confiscadas e redistribuídas por camponeses sem ou com pouca terra. Ainda assim, a fragmentação agrícola, associada à escassez de animais de tração, ferramentas e outros meios de produção, dificultou o aumento da produtividade. Neste contexto, o PCC promoveu o desenvolvimento de equipas de entreajuda mútua, geralmente constituídas por quatro a seis famílias; embora os camponeses mantivessem a propriedade das terras e dos principais meios de produção, cooperavam na realização de trabalhos agrícolas e na utilização de determinados recursos, como animais de tração e ferramentas. Em dezembro de 1953, o Comité Central do PCC aprovou a resolução sobre o Desenvolvimento das Cooperativas de Produção Agrícola, a qual estabelecia a passagem progressiva das equipas de entreajuda para cooperativas de produção, de carácter semissocialista. Nestas cooperativas, os camponeses contribuíam com a terra e outros meios de produção para uma exploração unificada, recebendo rendimentos de acordo com o trabalho realizado e com a sua participação na produção. Em julho de 1955, o Presidente Mao Zedong defende uma aceleração do processo de cooperativização agrícola, pelo que, nesse mesmo ano, no mês de outubro, uma resolução do Comité Central do PCC preconiza o seguinte: “onde as condições estão prontas, serão estabelecidas, a título experimental, cooperativas de tipo avançado, inteiramente socialistas” (apud Trolliet, 1962). Estas cooperativas de tipo superior expandem-se, rapidamente, a partir de 1955-1956 e caracterizam-se pelo facto de substituir a propriedade privada da terra e dos principais meios de produção pela propriedade coletiva. Em 1957, segundo Pomar, “cada uma das 740 mil cooperativas de tipo superior possuía 168 famílias, com área média de 140ha” (2015, p. 99). Em 1958, a política económica chinesa passa a privilegiar, fortemente, a aceleração da industrialização, em particular da indústria pesada, enquanto procura aumentar a produção agrícola, nomeadamente através da mobilização das populações rurais, com Liu Shaoqi a anunciar a linha política que marcaria as opções económicas do PCC: “é necessário ir muito mais rápido e melhor” (apud Dumont, 1964, p. 383). Concede-se, a partir de então, prioridade à indústria pesada, em detrimento da indústria leve, e à indústria, em detrimento da agricultura: inicia-se, portanto, o Grande Salto em Frente. Neste contexto, surge a ideia de combinar a indústria, o comércio, a agricultura e a escola numa única estrutura organizativa: é assim que, em 29 de agosto de 1958, o Comité Central do PCC adota uma resolução a favor da criação, nas zonas rurais, das comunas rurais, formalizando, deste modo, a transformação das cooperativas agrícolas em comunas populares rurais (as quais constituíam uma unidade económica, social e administrativa de dimensão muito superior à das anteriores cooperativas). Resultado da fusão de várias cooperativas de produção agrícola, as comunas populares constituíam unidades de grande dimensão, reunindo vários milhares de famílias e extensas áreas de terras cultivadas. No final de 1958, existiam cerca de 26.500 comunas populares, as quais agrupavam, aproximadamente, 98% da população camponesa. Cada comuna reunia, em média, cerca de 4.750 famílias e a organização do trabalho assentava numa forte centralização da produção e na divisão dos trabalhadores em unidades de produção; a distribuição dos rendimentos, por seu lado, era determinada pelo trabalho realizado, assim como pelos chamados “pontos de trabalho” (embora o sistema também incluísse mecanismos de distribuição coletiva). A organização da vida quotidiana constituía, igualmente, uma dimensão importante das comunas, já que estas passaram a assumir funções que, anteriormente, pertenciam às famílias e às comunidades locais, nomeadamente através da criação de cantinas, creches, escolas e outros serviços sociais. Segundo Pierre Trolliet (1962), as cantinas populares tinham, aliás, alcançado uma ampla difusão, logo no final de 1958. Porém, depois de 1958, os resultados agrícolas deterioraram-se, rapidamente. Os anos de 1959 a 1961 foram marcados por uma forte quebra da produção agrícola e por uma crise alimentar, associada tanto a condições climáticas adversas como, provavelmente, a consequências de algumas das políticas postas em prática (como metas produtivas, em alguns casos, irrealistas e perturbações no sistema de distribuição). O sistema das comunas populares foi, deste modo, reorganizado e consolidado, nos anos seguintes, com alterações importantes na sua estrutura e no funcionamento das suas unidades de produção. René Dumont (1964) analisou, precisamente, esse processo de transformação das comunas populares, salientando a evolução das estruturas coletivas agrícolas e a sua reorganização, referindo que, em 1964, havia 70.000 comunas, número bastante superior às 26.500 comunas existentes em 1958. O período entre 1959 e 1961, embora marcado por desafios climáticos e complexidades na adaptação de um modelo económico inovador, serviu como uma etapa de aprendizagem fundamental para o aprofundamento das políticas agrárias. A resiliência da estrutura rural chinesa é analisada por Wen Tiejun (2009), que argumenta que a trajetória chinesa, ao priorizar a estabilidade social e o desenvolvimento endógeno, permitiu que o país evitasse a dependência externa que frequentemente fragiliza as economias em desenvolvimento, culminando na trajetória de sucesso soberano que vivemos no século XXI. No final da década de 1970, no âmbito das reformas económicas associadas à liderança de Deng Xiaoping, iniciou-se uma profunda transformação do sistema agrário chinês. No meio rural, começou a ser, progressivamente, introduzido o sistema de responsabilidade contratual familiar, através do qual as famílias camponesas passaram a assumir, mediante contrato, a exploração de parcelas de terra que continuavam a pertencer às coletividades. Embora a propriedade da terra permanecesse de natureza coletiva, os agricultores adquiriram maior autonomia na organização da produção e passaram a beneficiar de uma parcela mais significativa dos rendimentos obtidos. Este sistema, conhecido como household responsibility system ou sistema de responsabilidade contratual familiar, distanciou-se do modelo de produção coletiva das comunas populares, tendo sido, inicialmente, desenvolvido, de forma experimental, em algumas localidades. Foi, depois, progressivamente, reconhecido pelas autoridades centrais a partir do final da década de 1970 e generalizado no início da década de 1980, tornando-se numa das principais características da reforma económica, no meio rural chinês (Bochuan, 2007). A Constituição da República Popular da China, adotada em 1982, viria a estabelecer uma distinção entre duas formas fundamentais de propriedade da terra: a propriedade estatal, nas cidades, e a propriedade coletiva, nas áreas rurais. De acordo com o artigo 10, “a terra nas cidades é propriedade do Estado”, enquanto “a terra nas áreas rurais e suburbanas pertence às coletividades”, salvo as parcelas que, nos termos da lei, sejam propriedade do Estado. O mesmo artigo estabelece que o Estado pode, por razões de interesse público e nos termos da lei, proceder à expropriação ou requisição de terras, determinando, ainda, que os direitos de utilização da terra podem ser transferidos. É importante referir que a reforma rural não significou a privatização da propriedade fundiária, mas sim a separação entre a propriedade coletiva da terra e os direitos contratuais de utilização e exploração, atribuídos às famílias camponesas. A Lei de Administração da Terra, aprovada em 25 de junho de 1986 e em vigor desde 1 de janeiro de 1987, estabeleceu um quadro jurídico mais sistemático para a administração, utilização e proteção da terra, mantendo o princípio da propriedade pública e a distinção entre propriedade estatal e propriedade coletiva. A legislação não introduziu a propriedade privada da terra, mas contribuiu para uma diferenciação jurídica mais clara entre a propriedade e os direitos de utilização e exploração da terra: neste novo enquadramento, a propriedade permanecia nas mãos do Estado ou das coletividades, enquanto os direitos de utilização podiam ser atribuídos a unidades ou indivíduos – e, em determinadas condições, transferidos. A Lei de Administração da Terra foi alterada, em 1988, e profundamente revista, em 1998. Esta última revisão reforçou a estabilidade dos direitos de exploração das terras agrícolas, estabelecendo, para as terras pertencentes coletivamente aos agricultores, um período de contratação de trinta anos. Esta medida veio consolidar, juridicamente, uma orientação que já vinha sendo promovida pelas políticas rurais, desde o início da década de 1990, com o objetivo de conferir maior estabilidade aos direitos de exploração das famílias camponesas. A consolidação dos direitos de utilização da terra ocorreu em paralelo com o rápido processo de urbanização e industrialização, que marcou as décadas de 1980 e 1990. Durante este período, intensificou-se a conversão de terras rurais, incluindo terras de propriedade coletiva, para usos urbanos, industriais e de infraestrutura. As requisições de terras estiveram, assim, estreitamente relacionadas com a expansão das cidades, o desenvolvimento industrial, a construção de infraestruturas e as estratégias de desenvolvimento promovidas pelos governos locais. Embora estas transformações respondessem, em parte, ao crescimento efetivo das áreas urbanas e às necessidades de uma população urbana em expansão, a conversão de terras rurais para fins de construção tornou-se, também, uma importante dimensão das estratégias locais de desenvolvimento económico e de gestão do território. A transformação das terras agrícolas em terrenos destinados à construção constituiu, deste modo, uma das características marcantes das profundas mudanças económicas e espaciais que acompanharam a modernização da China, nas décadas seguintes1. É importante ressalvar que “requisição”, “transferência” e “privatização” não são equivalentes, no sistema chinês. Assim sendo, a legislação manteve a propriedade pública da terra enquanto criou e ampliou direitos de uso e contratação que podiam, em determinadas condições, ser transferidos. Poderemos, deste modo, apresentar as seguintes distinções terminológicas: 征收 (zhēngshōu) → expropriação; 征用 (zhēngyòng) → requisição; 土地使用权 (tǔdì shǐyòngquán) → direito de uso da terra; 土地承包经营权 → direito de contratação/gestão da terra rural.5 II Movimentos estéticos e realidade social: o Movimento 4 de Maio de 1919 e o contexto material do qual brota 1. O movimento de 4 de maio: quando a Arte reflete o momento histórico A literatura chinesa moderna conheceu dois períodos particularmente marcantes de florescimento: o primeiro, associado às décadas de 1920 e 1930 e às transformações desencadeadas pelo Movimento da Nova Cultura e pelo Movimento de 4 de Maio, conquanto o segundo corresponde às décadas de 1980 e 1990. O primeiro destes períodos deve ser compreendido no contexto das profundas transformações políticas, sociais e culturais que marcaram a China, no início do século XX: iniciado na década de 1910, em torno de intelectuais e publicações como a revista Nouvelle Jeunesse, o Movimento da Nova Cultura promoveu uma crítica das estruturas e valores tradicionais, defendendo novos princípios como a democracia, a ciência e a utilização da língua vernácula na literatura. Seria, no entanto, apenas após o Movimento 4 de Maio de 1919 que estas tendências adquiriram uma forte dimensão anti-feudal e anti-imperialista. Neste contexto, a literatura chinesa moderna desenvolveu-se em estreita relação com as transformações políticas e sociais do país, pelo que autores como Lu Xun (1881-1936), Mao Dun (1896-1981), Lao She (1899-1966), Ba Jin (1904-2005) e Shen Congwen (1902-1988) desempenharam um papel fundamental na consolidação da nova literatura. Lu Xun é frequentemente considerado uma das figuras fundadoras e mais influentes da literatura chinesa moderna, tendo desempenhado um papel central no desenvolvimento da literatura vernácula e no Movimento da Nova Cultura. Como observa Sen (1968, p. 256), Lu Xun foi um dos autores que demonstraram a possibilidade de uma criação literária profundamente distinta da tradição literária anterior, conciliando elementos da tradição chinesa com novas formas e ideias. Lu Xun nasceu em 25 de setembro de 1881, em Shaoxing, na província de Zhejiang, com o nome de Zhou Shuren (周樹人). Proveniente de uma família de letrados-funcionários, estudou, inicialmente, os clássicos chineses e recebeu uma formação tradicional, tendo, posteriormente, entrado em contacto com o pensamento e conhecimentos europeus. A experiência do declínio económico da sua família, assim como o contacto com as transformações sociais da China, do final da dinastia Qing, contribuíram para a formação de uma visão crítica da sociedade chinesa. As Guerras do Ópio (1839-1842; 1856-1860), a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), a ocupação alemã da baía de Jiaozhou (1897) e a Rebelião dos Boxers (1899–1901) constituem alguns dos principais episódios que evidenciam o crescente confronto entre a China da Dinastia Qing e as potências estrangeiras, ao longo do século XIX e no início do século XX. A Primeira Guerra do Ópio (1839–1842) e a Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), travadas, sobretudo, contra a Grã-Bretanha e a França, resultaram na imposição de tratados que ampliaram os privilégios comerciais e jurídicos das potências estrangeiras, na China, enquanto a derrota perante o Japão, na Primeira Guerra Sino-Japonesa, revelou a crescente fragilidade militar da dinastia manchu. Em 1897, após o assassinato de dois missionários alemães, em Shandong, a Alemanha ocupou a baía de Jiaozhou e obteve concessões na região; poucos anos depois, a Rebelião dos Boxers e a intervenção da Aliança das Oito Nações evidenciariam, novamente, a crescente pressão estrangeira sobre a China. Neste contexto, a China apresentava, no início do século XX, uma situação política, económica e social particularmente fragilizada, o que resultava quer dos sucessivos conflitos militares quer das rebeliões internas, das indemnizações impostas pelas potências vencedoras, da crescente penetração económica estrangeira, das concessões territoriais e jurídicas e da crise fiscal e política da dinastia Qing. A soberania da China encontrava-se, assim, progressivamente limitada pela intervenção de potências estrangeiras, o que contribuiu para o desenvolvimento de movimentos nacionalistas e para o nascimento de projetos de transformação política e cultural. A Revolução Xinhai (辛亥革命), iniciada em 1911, conduziu à queda da dinastia Qing e à fundação da República da China, em 1912. A instauração do regime republicano abriu um novo período de intensa transformação política e intelectual, embora não tenha resolvido os problemas de soberania, fragmentação política e instabilidade que afetavam o país. Foi neste contexto que, a partir de meados da década de 1910, se desenvolveu o Movimento da Nova Cultura, associado à defesa de novos valores intelectuais e culturais e à crítica das estruturas e tradições consideradas responsáveis pelo atraso da China. Através da publicação de revistas, da criação de associações e sociedades literárias e da renovação das formas de expressão, intelectuais e escritores procuraram construir uma nova cultura e uma nova literatura, impulsionando um processo fortemente influenciado pelo contacto com ideias, correntes artísticas e literárias estrangeiras, particularmente, europeias, norte-americanas e japonesas (sem que isso significasse, contudo, uma simples reprodução dos modelos ocidentais). Uma das mais importantes revistas literárias e culturais da China moderna, a Qingnian zazhi 青年杂志 (Revista da Juventude), foi fundada por Chen Duxiu (1879–1942), em Shangai, em setembro de 1915. A partir de 1916, a publicação passou a denominar-se Xin Qingnian 新青年 (Nova Juventude), mantendo, no cabeçalho, a designação francesa, La Jeunesse. A revista viria a desempenhar um papel central na transformação intelectual e literária associada ao Movimento da Nova Cultura. O primeiro número, publicado em 15 de setembro de 1915, incluía o artigo de Chen Duxiu «Jinggao qingnian» 敬告青年 (Chamado à juventude), no qual o autor apelava à juventude chinesa romper com valores e práticas tradicionais, defendendo seis princípios fundamentais: ser autónomo e não servil; progressista e não conservador; ativo e empreendedor e não passivo; aberto ao mundo e não isolacionista; orientado para a utilidade prática e não para o formalismo; científico e não baseado na imaginação. Em 1917, Hu Shi (1891–1962) publicou na revista o artigo «Wenxue gailiang chuyi» 文学改良刍议 (Sugestões preliminares para uma reforma literária), no qual defendia uma profunda renovação da literatura e, em particular, a utilização da língua vernácula (baihua), em detrimento da linguagem literária clássica. Nesse mesmo ano, Chen Duxiu publicou «Wenxue geming lun» 文学革命论 (Teoria da revolução literária), aprofundando a defesa de uma transformação radical da literatura chinesa. Todos estes textos contribuíram, decisivamente, para a formulação do programa da chamada Revolução Literária e para a consolidação das bases intelectuais do Movimento da Nova Cultura. Neste contexto, a literatura passou a ser entendida como uma forma de expressão artística e como um instrumento de transformação cultural e social. Como observa Siyuan (2004), a história da Nova Literatura Chinesa, impulsionada pelo Movimento da Nova Cultura, pode ser compreendida a partir da tensão entre, por um lado, a procura de um eu individual, capaz de afirmar a sua subjetividade e, por outro, a aspiração coletiva de criar um novo Homem (suzao xinren). A nova literatura desenvolveu-se, assim, num espaço de tensão entre a afirmação da subjetividade individual e a construção de uma nova consciência coletiva. Apesar da queda da dinastia Qing e da proclamação da República da China, a 1 de janeiro de 1912, a situação política interna permaneceu extremamente instável nos anos subsequentes, pelo que a jovem República enfrentou conflitos entre diferentes grupos políticos e militares, dificuldades de consolidação institucional e uma crescente pressão de potências estrangeiras. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o Japão posicionou-se ao lado dos Aliados e declarou guerra à Alemanha, em agosto desse ano. O conflito ofereceu ao Japão a oportunidade de expandir a sua influência na China, nomeadamente através da ocupação das posições alemãs em Jiaozhou e Qingdao, na província de Shandong. A Alemanha mantinha uma presença na região desde a ocupação de Jiaozhou, em 1897, e da posterior obtenção de uma concessão territorial, em 1898. O Japão procurava, assim, assumir os direitos e interesses anteriormente detidos pela Alemanha, em Shandong, pelo que, em janeiro de 1915, o governo japonês apresentou à China as chamadas 21 Exigências, as quais procuravam ampliar, significativamente, a influência política, económica e estratégica japonesa, no território chinês. Entre as exigências, encontravam-se disposições relativas à transferência, para o Japão, dos direitos alemães, em Shandong, à ampliação dos privilégios japoneses, na Manchúria do Sul, e à obtenção de novas concessões económicas. Algumas das disposições mais intrusivas – reunidas no chamado Grupo V – pretendiam, igualmente, ampliar a influência japonesa sobre assuntos políticos, financeiros e militares chineses. Embora tenha rejeitado as disposições mais controversas do Grupo V, o governo chinês, sob forte pressão, acabou por aceitar a maior parte das exigências, em maio de 1915. Em agosto de 1917, a China declarou guerra à Alemanha, procurando reforçar a sua posição internacional e assegurar um lugar nas negociações de paz que se seguiriam ao conflito. Entre os seus principais objetivos, encontrava-se a recuperação dos direitos e territórios alemães, em território chinês, nomeadamente em Shandong. Contudo, terminada a guerra, as expectativas chinesas não foram satisfeitas: na Conferência de Paz de Paris, as potências vencedoras decidiram transferir, para o Japão, os direitos alemães sobre Shandong, em vez de os restituírem à China, o que provocou uma forte reação interna e contribuiu, diretamente, para o desencadeamento do Movimento 4 de Maio de 1919, o qual viria a assumir uma dimensão política, patriótica e cultural. Traição histórica e tratados desiguais Não obstante o Tratado de Versalhes determinar a transferência, para a China, de diversos bens alemães, situados nas antigas concessões de Tianjin e Hankou, o artigo 156 estabelecia que a Alemanha renunciava, em favor do Japão, aos direitos, títulos e privilégios relativos ao território de Kiaochow, assim como às ferrovias, minas e cabos submarinos que haviam sido adquiridos pela Alemanha, na província de Shandong. A decisão das potências vencedoras de transferir, para o Japão, os antigos direitos alemães em Shandong – em vez de os restituir à China – contrariava as expectativas do governo e da opinião pública chineses e foi interpretada, por muitos intelectuais e estudantes, como uma violação da soberania e dos interesses nacionais chineses, pois consideravam que houvera uma traição aos princípios de autodeterminação e de justiça internacional. Em 4 de maio de 1919, milhares de estudantes, de diferentes instituições de ensino de Pequim, manifestaram-se contra a decisão estipulada no Tratado de Versalhes, contra a política japonesa e contra a incapacidade do governo chinês de defender os interesses nacionais. O movimento, rapidamente, ultrapassou o âmbito estudantil, tendo-se propagado a outras cidades e grupos sociais e adquirido uma dimensão patriótica e anti-imperialista. O Movimento 4 de Maio articulou-se, ainda, com as transformações intelectuais promovidas pelo Movimento da Nova Cultura, defendendo a renovação da sociedade chinesa, criticando determinadas estruturas e valores tradicionais e promovendo a ciência, a democracia, a emancipação individual e a transformação da condição das mulheres. No campo literário e linguístico, aprofundou-se a defesa do baihua 白话, a língua vernácula, em detrimento do wenyan 文言, o chinês literário clássico, reivindicação, como afirmámos, que antecedera o próprio Movimento 4 de Maio e que constituíra uma das principais bandeiras da Revolução Literária promovida por intelectuais como Hu Shi e Chen Duxiu, em 1917. A mobilização adquiriu, igualmente, uma importante dimensão económica. Em várias cidades, foram organizados boicotes aos produtos japoneses e, em Shangai, comerciantes e trabalhadores aderiram às manifestações e às greves, contribuindo para ampliar, significativamente, a pressão sobre o governo. A mobilização nacional acabaria por contribuir para que a China recusasse assinar o Tratado de Versalhes, em junho de 1919. Embora o Movimento 4 de Maio não possa ser entendido como causa direta e exclusiva da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921, constituiu um momento decisivo de radicalização política e intelectual, contribuindo para a difusão do marxismo e para a formação do ambiente político do qual surgiria o novo partido. Entre os intelectuais associados, simultaneamente, à Nova Cultura e ao processo de difusão do marxismo encontravam-se, por exemplo, Chen Duxiu e Li Dazhao. O Movimento 4 de Maio desencadeou, portanto, uma ampla mobilização social, marcada por manifestações, boicotes e greves, constituindo um momento decisivo para o desenvolvimento de novas correntes políticas, intelectuais e estéticas. Neste contexto, proliferaram associações, sociedades e círculos literários e políticos empenhados na defesa da soberania chinesa, bem como novos periódicos dedicados à discussão das transformações culturais e sociais, em curso. A circulação de ideias estrangeiras intensificou-se através da tradução de obras literárias e filosóficas europeias, norte-americanas, russas e japonesas, enquanto escritores chineses procuravam adaptar essas influências às condições históricas e culturais do país. No plano literário, consolidou-se uma nova literatura em língua vernácula, particularmente através da experimentação de novas formas de poesia, conto e romance, em diálogo com modelos literários estrangeiros. Como observa Sen (1968, p. 255), “O movimento de 4 de maio não foi um turbilhão político e patriótico sem importância. Foi a voz de alarme que abalou o mais recôndito da consciência dos chineses e quando tudo, na China, se começou a movimentar”. O Movimento 4 de Maio constituiu, assim, um momento de particular importância na transformação da consciência política e cultural chinesa, articulando reivindicações patrióticas e anti-imperialistas com propostas de renovação intelectual e literária que vinham sendo desenvolvidas desde a década de 1910. O Movimento de 4 de Maio deve, em suma, ser compreendido no âmbito de um processo intelectual e cultural mais amplo, frequentemente designado por Movimento da Nova Cultura, sem que, contudo, deva ser confundido com este. III O Movimento da Nova Cultura na China: primeiros passos para uma transformação socio-política e socioestética 1. O Movimento da Nova Cultura: quando a cultura subjaz a reivindições socioecómicas e políticas Um dos principais acontecimentos da história da China contemporânea ocorre no início da década de 1930: a invasão e subsequente ocupação japonesa da Manchúria, no nordeste da China. Iniciada em setembro de 1931, na sequência do Incidente de Mukden, a ocupação japonesa conduziu à criação, em 1932, do Estado de Manchukuo, o que teve profundas repercussões não apenas na vida política chinesa – agravando as tensões entre nacionalistas e comunistas – mas também no percurso político de Chiang Kai-Shek e na evolução das relações entre a China e o Japão.: Depois do incidente de Shenyang do ano 20 da República [1931], e depois da sangrenta luta de Songhu [Shanghai] contra os japoneses no ano 21 [1932] que se seguiu, todo o país, do governo às pessoas, proferiu um grito idêntico: “A ciência salva a nação!”, “Compense o tempo perdido sem perder tempo!”. A literatura é um reflexo de um tempo (…) passando a dar uma grande atenção à cultura científica geral, e levando a novas correntes (Chen Bochui apud Aloísio, 2016). O uso de formas literárias populares e simples, com o objetivo de popularizar e disseminar uma cultura científica geral, ganhou crescente importância durante este período. Por outro lado, ainda que o marxismo tivesse penetrado nos círculos intelectuais chineses, antes da década de 1930 (sobretudo depois do Movimento 4 de Maio de 1919 e aquando da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921), será, sobretudo, durante a década de 1930, que a influência do marxismo se aprofunda, como forma de análise da realidade. A circulação e tradução de obras de autores como Karl Marx (1818–1883), Friedrich Engels (1820–1895), Vladimir Lénine (1870–1924) e Nikolai Bukharin (1888–1938) contribuiu para a crescente influência do marxismo e de outras correntes do pensamento revolucionário, contribuindo para que parte significativa da literatura passasse, gradualmente, a ser concebida como uma arma ao serviço da Revolução. Ainda neste período, em março de 1930, é fundada a liga dos escritores de esquerda (中国左翼作家联盟), em reação à repressão do Kuomitang a intelectuais progressistas (de cuja direcção, aliás, Lu Xun faria parte), desde logo implantando-se como uma forma de organização de sectores progressistas e revolucionários e como foco de criação de uma literatura revolucionária. A Liga aproximou-se, progressivamente, das conceções da literatura proletária revolucionária sendo que, a partir de 1933, o conceito de realismo socialista começou a ser introduzido nos círculos literários, defendendo-se uma literatura comprometida com a representação da realidade social e com a transformação revolucionária da sociedade. Neste contexto, escritores e intelectuais chineses procuraram novos elementos, com vista à elaboração de novas propostas socioestéticas. Lu Xun encontrou alguns desses elementos na literatura ocidental, especialmente na literatura russa, valorizando o seu espírito realista e combativo, assim como novas formas e estruturas narrativas: “Da sua herança tradicional conservou o melhor: a linguagem coloquial e a inquietude pelos interesses do povo oprimido” (Sen, 1968, 262). Com efeito, ainda que a Revolução Literária que se desenvolveu a partir da década de 1910 tenha sido fortemente influenciada pelas literaturas europeias, a literatura soviética adquiriu uma influência crescente entre sectores de escritores chineses, a partir das décadas de 1920 e 1930, intensificando-se durante a década de 1940. Neste contexto, o eu deixa, progressivamente, de ocupar uma posição central na literatura revolucionária, dando lugar a uma conceção da escrita orientada para a consciência coletiva e para a transformação social, pelo que “a subjetividade não deve, apenas, se submeter à figura da consciência coletiva, mas, para além disso, dissolver-se, integralmente, no canto coletivo” (Siyuan, 2004). Esta dissolução do eu passa, deste modo, a assumir particular importância entre os escritores ligados às novas formas de expressão literária. Em 1946, a guerra civil retoma os conflitos entre nacionalistas e comunistas, os quais haviam sido temporariamente reduzidos durante a guerra contra o Japão. O Partido Comunista Chinês sairá, contudo, vitorioso, levando o governo nacionalista a transferir-se para a ilha Formosa (Taiwan). A 1 de outubro de 1949, é proclamada a República Popular da China (RPC), consolidando a vitória do Partido Comunista e encerrando a principal fase das guerras civis que haviam marcado a China, desde as primeiras décadas do século XX, e terminando com a ocupação estrangeira. A criação da RPC abrirá novas perspetivas que haviam sido antecipadas durante o Movimento 4 de Maio de 1919, nomeadamente o reconhecimento do papel da juventude, a emancipação das mulheres, a apropriação e difusão da ciência moderna e o uso da linguagem popular, na literatura. A modernização trará, igualmente, um novo modo de produção, a escolha de um novo modelo de desenvolvimento económico e novas relações com o mundo. Se, no final da Segunda Guerra Mundial, a China recuperara o controlo da Manchúria – anteriormente ocupada pelo Japão -, será necessário aguardar a Revolução de 1949 para que, finalmente, se efetive a reincorporação de territórios como o Xinjiang (Turquestão Chinês) e o Tibete (a qual ocorreria, sobretudo, a partir de 1950-1951). Em relação a Taiwan, depois de o governo nacionalista da República da China fugir, em 1949, para a ilha, a Sétima Frota dos Estados Unidos, em 1950 (em plena Guerra da Coreia) é enviada para o Estreito de Taiwan, cercando a ilha e protegendo as forças nacionalistas, enquanto ameaça, militarmente, a nova República Popular. Ainda em 1949, Mao Zedong apresenta a União Soviética como uma referência fundamental para o futuro desenvolvimento da China, defendendo o socialismo como via para superar, rapidamente, o atraso económico e social do país, acrescentando que o socialismo permitiria que a China alcançasse, em poucas décadas, o que as sociedades capitalistas alcançaram, em termos de desenvolvimento, num século. Hoje, em pleno século XXI, as suas palavras premonitórias lembram o quanto a luta e a organização podem construir novos rumos para uma sociedade próspera e mais igualitária. 5 IV A República Popular da China e a Arte Literária à luz da Questão Agrária 1. A literatura na recém-proclamada República Popular da China Durante a década de 1950, ainda que tenha havido uma produção importante de romances, contos e teatro, assumem uma posição de destaque tendências literárias sob a forma de poesia e de música popular e épica. Há, em particular, uma série de odes rituais cantando os louvores da nova era. Entre os poetas épicos, destacam-se Hu Feng (The Time Begins, 1949), He Jingzhi (Let’s Sing Aloud, 1956)e Guo Xiaochuan (Springing Headlong into an All-out Struggle – To Young Citizens, 1955). A segunda sessão do 8° Congresso do PCC, realizada em maio de 1958, impulsiona o já referido Grande Salto em Frente. Grandes projetos de construção e obras de infraestrutura são lançados, enquanto a coletivização da agricultura se intensifica. Entretanto, as comunas populares tornam-se numa forma central de organização da vida rural, procurando integrar a produção agrícola e diferentes serviços sociais e comunitários; em diversas localidades, são criados refeitórios coletivos, escolas, serviços de saúde e outras estruturas de assistência. Em 14 de abril de 1958, o Diário do Povo publicou um editorial intitulado Colecionando canções populares em larga escala. O Grande Salto em Frente é, deste modo, acompanhado por expressões artísticas, sobretudo através da poesia épica, apresentadas em todo o país em diferentes manifestações públicas: “Na província de Sichuan, em menos de dois meses, um grande exército artístico de 22.000 escritores foi montado. Na província de Jiangsu, mais de 5.000 sociedades de poesia nasceram em julho; na província de Hubei, mais de 24 mil grupos de artes populares surgiram em novembro. No distrito de Hongan existem 577 equipes de cantores populares” (Zhang et al., 1999, p. 43). Segundo os números divulgados pelo jornal New China, na província de Jiangsu, em menos de seis meses, 10 milhões de obras literárias foram produzidas, enquanto, em Shangai, equipes de arte reuniram 700.000 pessoas que escreveram 1.500.000 obras. Até ao final dos anos 1970, a literatura chinesa foi fortemente marcada por uma voz coletiva que procurava representar a nova organização social. Neste “novo mundo (…) todos os elementos heterogéneos devem ser substituídos e toda a vida individual dever-se-á alinhar com a norma coletiva” (Siyuan, 2004). A literatura que se segue à Revolução Cultural acompanha as profundas transformações políticas, sociais e económicas decorrentes da nova orientação adotada a partir do final da década de 1970, particularmente após o 3.º Plenário do XI Comité Central do PCC, em 1978, refletindo a transição do país para um modelo próprio de modernização. Esta nova produção literária consolidou-se como um exercício de reflexão sobre a própria identidade chinesa, abordando a memória, o sofrimento, a experiência individual e as profundas transformações da sociedade, destacando-se, ainda, em muitos casos, temas relacionados com a resiliência e a força moral do campesinato. Surge, a partir de então, quer uma literatura de cicatrizes quer uma literatura de reflexão ou de introspeção, visando analisar, respetivamente, o percurso histórico do país e refletir sobre a resiliência do espírito humano perante as profundas mutações socioeconómicas que marcaram o modelo de desenvolvimento moderno. Entre os autores que, posteriormente, explorariam estas transformações, destaca-se Mo Yan (n. 1956), distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, em 2012. A obra Huozhe (Viver, 1992), de Yu Hua (n . 1960), transcende a mera descrição das adversidades vividas pelos seus personagens para se afirmar como uma reflexão sobre a sobrevivência e a resistência do indivíduo, perante as grandes transformações da história chinesa. Embora marcada pela tragédia, a narrativa não reduz a experiência humana a uma visão fatalista, espelhando a força moral de indivíduos que, através de um profundo sentido de dever, constroem a sua própria superação, no contexto de grandes transformações nacionais. A transformação de Xu Fugui – de jovem pertencente a uma família abastada num camponês dedicado à família – evidencia a importância da responsabilidade familiar, do trabalho e da persistência como formas de enfrentar a adversidade. Como aponta Han Dongping (2010), ao analisar a vida nas comunidades rurais, a história do povo chinês é marcada por uma capacidade singular de adaptação e resiliência, onde a dignidade individual se entrelaça com a estabilidade coletiva, revelando a força interna que permitiu a modernização do país, sem perder de vista os valores fundamentais que sustentam a sua estrutura social. Ao acompanhar a trajetória de Fugui e da sua família, através da guerra, da fome, do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, Yu Hua articula a experiência individual com as profundas transformações políticas e sociais da China, ao longo do século XX. Neste sentido, a obra evidencia a tensão entre, por um lado, a fragilidade da vida individual e, por outro, a capacidade humana de persistir perante as sucessivas ruturas históricas, constituindo uma importante reflexão sobre a experiência dos indivíduos comuns, no processo de transformação da sociedade chinesa. Em meados da década de 1980, surgiu o movimento de busca das raízes (xungen wenxue), associado, sobretudo, a escritores como Han Shaogong (n. 1953), Ah Cheng (n. 1949), Zheng Yi (n. 1947) e Li Hangyu (n. 1957). Embora a sua emergência tenha sido preparada por obras anteriores de autores como Wang Zengqi (1920-1997), que valorizaram a cultura local, os costumes e a vida rural, o movimento afirmou-se, sobretudo, entre 1984 e 1985, no contexto da revalorização da cultura tradicional chinesa. Esta literatura procurava recuperar e reinterpretar tradições, mitos, costumes e culturas locais, articulando-as com uma consciência moderna e com a procura de uma identidade cultural própria. A experiência da geração dos jovens enviados para o campo, durante a Revolução Cultural, contribuiu, igualmente, para esta nova atenção à vida rural e às culturas locais. Já no século XXI, com particular intensidade nas décadas de 2010 e 2020, desenvolve-se, igualmente, uma literatura centrada na transformação do espaço rural e na chamada revitalização rural (xiangcun zhenxing 乡村振兴). Distanciando-se, parcialmente, da representação nostálgica ou exclusivamente crítica do mundo camponês, presente em algumas formas anteriores da literatura de raízes, esta produção procura acompanhar as profundas mudanças económicas, sociais e culturais, decorrentes da modernização do campo, da redução da pobreza, da inovação agrícola, da urbanização e da melhoria das infraestruturas e dos serviços rurais. Em muitos destes textos, a modernização é apresentada quer como rutura com a tradição quer como um processo capaz de articular a preservação da cultura local com novas formas de produção, tecnologia, empreendedorismo e organização comunitária. Entre os autores que se destacam nesta tendência encontram-se Zhou Daxin (n. 1952), Jia Pingwa (n. 1952), Zhao Defa (n. 1955) e Guan Renshan (n. 1963), cujas obras acompanham, de diferentes perspetivas, as transformações do mundo rural chinês. Esta literatura assume, assim, uma dimensão particularmente próxima da ideia de modernização, em curso, apresentando, frequentemente, novos agricultores, quadros locais e comunidades rurais como agentes de transformação, sem deixar de abordar as tensões e contradições produzidas por esse processo. Entre as obras que melhor representam esta nova orientação encontram-se Huguang shanse (湖光山色, 2006), de Zhou Daxin, que aborda as transformações de uma comunidade rural perante o desenvolvimento económico e turístico; Jingu Yinshan (金谷银山, 2018), de Guan Renshan, que acompanha o regresso de um agricultor à sua aldeia e os esforços de desenvolvimento económico e proteção ambiental; Jing Shanhai (经山海, 2019), de Zhao Defa, centrada numa jovem dirigente local que participa na transformação de uma comunidade rural, através do desenvolvimento da pesca, do turismo, da agricultura e da preservação ambiental. Mais recentemente, Baiyangdian shang (白洋淀上, 2022), também de Guan Renshan, amplia esta representação ao relacionar a revitalização das comunidades rurais com a urbanização e a construção da Nova Área de Xiong’an, articulando, desta feita, tradição e modernidade. 2. Breves estudos de caso: Lu Xun, Mo Yan, Yu Hua O primeiro conto de Lu Xun é publicado em maio de 1918, na revista Xin Qingnian. Intitulado Kuangren riji (狂人日记, O Diário de um Louco), o conto foi publicado no volume 4, n.º 5, da revista, em 15 de maio de 1918. A forma e alguns elementos narrativos da obra remetem para o conto homónimo do escritor russo Nikolai Gogol (1809-1852), embora os temas e os contextos sociais sejam distintos. Enquanto o louco de Gogol expressa, sobretudo, a alienação do indivíduo perante a sociedade e a burocracia, o protagonista de Lu Xun transforma-se numa figura de consciência crítica perante a ordem social e familiar tradicional chinesa. Através da metáfora do canibalismo, Lu Xun denuncia a violência e a opressão associadas ao sistema familiar e à ética confuciana, colocando em causa valores que haviam estruturado a sociedade chinesa, durante séculos. O louco pode, neste sentido, ser interpretado como uma figura de contestação e de renovação associada ao espírito do Movimento da Nova Cultura. Com este conto, “o autor lança-se diretamente contra a mentalidade feudal de uma civilização paralisada ao longo de muitos séculos. Esta obra foi uma bomba e conseguiu silenciar todos aqueles que se obstinavam em considerar impossível a criação de uma literatura nova, em rutura com a linha tradicional da literatura ortodoxa” (Sen, 1968, p. 262). O Diário de um Louco tornou-se, assim, uma das obras fundadoras da literatura chinesa moderna, tanto pela sua crítica da sociedade tradicional como pela utilização inovadora do chinês vernáculo (baihua) e de novas formas narrativas. Entre 1918 e 1922, Lu Xun escreveu vários contos, dos quais se destacam Kong Yi-ji, O Remedio, Amanhã, O Escândalo, Votos de Felicidade e A verdadeira história de Ah Q. Publicada, originalmente, em 1921, A Verdadeira História de Ah Q apresenta como protagonista um trabalhador rural pobre e itinerante, sem família conhecida, que vive no templo do deus guardião de uma aldeia distante e trabalha, ocasionalmente, para famílias abastadas. Ninguém na aldeia demonstra simpatia por Ah Q, exceto quando necessita dos seus serviços ou quando procura divertir-se, à custa dos seus infortúnios. Ah Q, contudo, não se sente verdadeiramente atingido pelo desprezo dos outros, encontrando uma forma peculiar de transformar as suas derrotas em aparentes vitórias, através daquilo que Sen (1968) designa como “muito melhor do que qualquer outro, uma vez que tem a sua própria forma de combater todos aqueles que o ofendem: a vitória espiritual” (p. 262). Através desta personagem, Lu Xun desenvolve uma crítica profunda de determinados comportamentos e valores presentes na sociedade chinesa do seu tempo, nomeadamente a passividade, a submissão, a autoilusão e a incapacidade de reconhecer a própria condição. Ah Q tornou-se, deste modo, numa representação emblemática daquilo que viria a ser designado como AhQísmo, associado à crítica de Lu Xun a determinados aspetos do chamado caráter nacional chinês, num momento em que a China, depois de ter sido derrotada, sucessivamente, por potências estrangeiras, em vez de buscar uma solução para renovar a sua supremacia, permaneceu, ao contrário, imersa no orgulho da sua civilização passada. A personagem representa, assim, não o povo chinês, no seu conjunto, mas determinados comportamentos e atitudes que, segundo Lu Xun, contribuíam para a manutenção de uma sociedade incapaz de se renovar perante as profundas transformações políticas e sociais, do início do século XX. Apesar das duras críticas tecidas neste conto, “desde o momento em que apareceu, A verdadeira história de Ah Q foi reconhecida pela maioria dos intelectuais como uma obra mestra da literatura realista e animou muitos corações a buscar seriamente o caminho que a China deveria tomar” (Huang, 1957, p. 67). A partir de 1925, num contexto de crescente agitação política e de intensificação das polémicas intelectuais, Lu Xun dedicou-se de forma particularmente intensa à escrita de ensaios, através dos quais passou a intervir diretamente nos debates políticos e sociais do seu tempo. A sua produção ensaística assumiu uma dimensão cada vez mais crítica, dirigindo-se contra as estruturas sociais e culturais tradicionais e contra as formas de dominação que condicionavam a sociedade chinesa; sensível ao destino dos homens e às condições de vida das camadas mais desfavorecidas, Lu Xun desenvolveu, deste modo, uma escrita de forte pendor realista. Embora muitas das suas narrativas se centrem em personagens provenientes do meio rural, a sua obra ficcional não se limita a esse universo, abrangendo, igualmente, diferentes espaços e grupos sociais, “onde a miséria golpeia com muito mais força do que nas cidades” (Sen, 1968, p. 266). Nascido em 1956 e distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 2012, Mo Yan constitui uma das figuras mais relevantes da literatura chinesa contemporânea. A sua obra articula o histórico e o sociocultural, incorporando elementos da tradição oral, da cultura popular e dos dialetos locais, particularmente associados à região de Gaomi, na província de Shandong, onde nasceu e cresceu. A sua escrita encontra, assim, uma importante fonte de inspiração na sua região natal e na turbulenta história da China: “renovando a herança literária chinesa e a tradição oral, Mo Yan faz viver os dialetos locais e orquestra, numa narrativa virtuosa, o encontro entre o autobiográfico, o histórico, o político e o sociocultural” (Baddoura, 2012). Embora afirme que as suas memórias de infância possam parecer estar fora de moda, no quadro da atual criação literária chinesa, Mo Yan considera que é, precisamente, o olhar profundo dos jovens chineses sobre a vida rural que contém o potencial para a criação de uma literatura de qualidade (Wang, 2016). A influência de Lu Xun, na sua criação literária, é, igualmente, reconhecida pelo próprio autor, que admite que os leitores podem encontrar algumas semelhanças entre determinadas narrativas dos dois escritores, sobretudo naquelas que “enfocam as questões mentais enfrentadas por intelectuais que retornam ao campo depois de viverem em áreas urbanas durante anos” (apud Wang, 2016). Mo Yan acrescenta que este tópico poderia ser mais explorado, “uma vez que este problema não apenas continua atual, como se complicou em consequência da urbanização” (apud Wang, 2016). Yu Hua, por seu lado, nasceu em 1960, em Hangzhou (Zhejiang). A Revolução Cultural, cujo início coincide com o seu sexto ano de vida, constituiu uma experiência marcante e deixou profundas marcas na sua produção literária. A memória da infância, as transformações políticas e sociais e as experiências vividas pela população chinesa constituem, com efeito, temas recorrentes, na sua obra. Em Crónica de um vendedor de sangue (1995), Yu Hua acompanha a trajetória de Xu Sanguan, um trabalhador que, em diferentes momentos de dificuldade, recorre à venda de sangue para sustentar a família. Através desta personagem, o autor representa a capacidade de resistência dos indivíduos, perante condições históricas e sociais adversas, articulando a experiência familiar com as profundas transformações da sociedade chinesa, ao longo do século XX. A dimensão autobiográfica está igualmente presente na sua obra ficcional: os seus pais eram médicos e, durante a infância, Yu Hua teve contacto com hospitais e com pessoas que recorriam à venda de sangue como forma de obter rendimentos, experiências que contribuíram para a construção do universo narrativo do romance. Em Viver! (1992), o mesmo autor centra-se nas décadas que se seguiram à fundação da República Popular da China. Viver! conta a história de Xu Fugui, filho de uma família proprietária de terras que desperdiça a fortuna familiar no jogo, circunstância que o obriga, posteriormente, a trabalhar a terra. Surpreendido de forma implacável pelas circunstâncias históricas, Xu Fugui perde o pai, ainda antes da fundação da República Popular da China, e, posteriormente, a mãe, o filho, a filha, o genro, a esposa e o neto. O romance é atravessado por acontecimentos políticos que marcaram a história recente da China, como a guerra civil, o estabelecimento da República Popular da China, o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural. Através da trajetória de Xu Fugui, Yu Hua articula a experiência individual e familiar com as grandes transformações políticas e sociais do país, mostrando, simultaneamente, a vulnerabilidade dos indivíduos perante a História e a sua capacidade de persistir perante a adversidade. A vida rural e as suas transformações constituem, deste modo, uma dimensão importante da literatura chinesa contemporânea que procura representar e reinterpretar as experiências decorrentes do processo histórico que conduziu a China tradicional à sociedade moderna. Em autores como Yu Hua, a representação do campo permite recuperar a memória de períodos de profunda transformação política e social assim como refletir sobre a capacidade dos indivíduos e das comunidades de se adaptarem às mudanças que acompanharam a modernização do país. No século XXI, a representação literária do campo chinês adquire uma nova dimensão, acompanhando o aparecimento de personagens que deixam de ser, apenas, vítimas das transformações históricas para se tornarem agentes de mudança. A literatura de temática rural passa a interessar-se, deste modo, por figuras como o agricultor que regressa à sua aldeia, depois de uma experiência urbana, o dirigente local que procura resolver problemas concretos da comunidade ou o jovem que encontra no desenvolvimento da própria região uma possibilidade de futuro. Em Jingu Yinshan (2017), Guan Renshan apresenta Fan Shaoshan, um trabalhador que, depois de passar pela cidade, regressa à aldeia natal e procura encontrar novas formas de desenvolver a economia local, conciliando a exploração dos recursos da terra com a proteção do ambiente. Em Jing shanhai (2019), Zhao Defa coloca no centro da narrativa Wu Xiaogao, uma jovem dirigente local que enfrenta os problemas quotidianos de uma comunidade costeira e procura dinamizar a pesca, o turismo e outras atividades económicas, enquanto procura preservar e valorizar os costumes e a cultura locais. Já Yewang (2018), de Fu Xiuying, centra-se na vida de uma comunidade rural e nas relações entre os seus habitantes, permitindo observar as mudanças nos modos de vida, nas relações familiares e nas expectativas das novas gerações. Estas obras revelam, portanto, uma alteração significativa na representação literária da ruralidade: o campo já não surge, exclusivamente, como lugar de pobreza, atraso ou nostalgia, mas antes como um espaço onde se disputam novas possibilidades de vida e onde os indivíduos procuram participar, ativamente, na construção do seu próprio futuro. A literatura sobre a revitalização rural constitui, deste modo, uma das expressões mais recentes da relação entre literatura e transformação social na China contemporânea, registando as mudanças do mundo rural através das experiências concretas daqueles que nelas participam. 3. Da terra à literatura: uma conclusão sobre a transformação da China A trajetória chinesa, por vezes interpretada de forma redutora a partir de perspetivas eurocêntricas, tem sido analisada por diferentes especialistas como resultado de opções políticas e económicas próprias, orientadas para a preservação da soberania nacional, para a estabilidade social e para a construção de um modelo de desenvolvimento adaptado às condições específicas do país. Wen Tiejun (2009) interpreta este percurso a partir da valorização do desenvolvimento endógeno e da capacidade de mobilização dos recursos internos, o que teria permitido que a China evitasse as instabilidades externas que, historicamente, afetaram outras nações. Complementarmente, Han Dongping (2010) demonstra que o período das comunas e as reformas subsequentes foram instrumentos cruciais para a democratização do acesso a bens essenciais, garantindo que o progresso técnico fosse acompanhado por uma elevação real da qualidade de vida e da coesão social, em todo o território nacional. As profundas mutações políticas, económicas e sociais atravessaram, igualmente, a produção literária, proporcionando aos escritores novos temas e novas formas de interpretar a experiência chinesa. A ruralidade ocupa, neste processo, um lugar particularmente relevante. A partir do final da década de 1970, a literatura passa a recuperar experiências individuais e memórias coletivas, procurando compreender as consequências das transformações que marcaram as décadas precedentes. As experiências do Grande Salto em Frente, da Revolução Cultural e das mudanças que se seguiram à morte de Mao Zedong tornam-se, assim, matéria de reflexão literária, permitindo aos escritores representar as consequências dessas transformações nas comunidades rurais, nas relações familiares e na vida dos indivíduos. A literatura das décadas de 1980 e 1990 acompanha, por sua vez, a profunda reorientação política e económica iniciada no final da década de 1970. Embora o XI Congresso do Partido Comunista Chinês, realizado em 1977, tenha assinalado o início de uma fase de reorganização política, foi, sobretudo, o 3.º Plenário do XI Comité Central, em dezembro de 1978, que marcou a mudança decisiva de orientação, com a transferência da prioridade política para o desenvolvimento económico, a modernização e a reforma e abertura. No domínio literário, esta mudança acompanhou-se do desenvolvimento da literatura de cicatrizes e, posteriormente, da literatura de reflexão, através das quais os escritores procuraram confrontar o passado recente e interrogar as consequências das grandes transformações sociais. Paralelamente, a literatura de busca das raízes recuperou tradições, culturas locais e formas de vida rurais, procurando compreender a relação entre a identidade cultural chinesa e a modernização. Já na literatura do século XXI, autores como Mo Yan, Yu Hua, Guan Renshan e Zhao Defa continuam a colocar o mundo rural no centro da representação literária, embora sob novas perspetivas: a memória histórica, as transformações familiares, a mobilidade entre campo e cidade, o desenvolvimento económico e, mais recentemente, a revitalização rural. A evolução da representação do campo permite, deste modo, acompanhar as sucessivas transformações da sociedade chinesa, assim como a forma como diferentes gerações de escritores procuraram compreender a relação entre tradição e modernidade, experiência individual e transformação coletiva, passado e futuro. A evolução do Homem e as transformações no campo têm, em suma, acompanhado o sucesso de uma China que reafirma a sua identidade, desde a modernidade de Lu Xun até à contemporaneidade. Bibliografia citada: Baddoura, R. (2012). Mo Yan ou l’art d’apprivoiser la censure. L’Orient Littéraire, (74), 12. http://www.lorientlitteraire.com/article_details.php?cid=7&nid=4030 Chen, B. (1949). Ertong duwu de jiantao yu zhanwang [儿童读物的检讨与展望]. In B. Chen (Org.), Ertong wenxue lilun xuanji 1913–1949 [儿童文学理论选集1913–1949] (pp. 324–325). Dongping, H. (2010). The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village. Monthly Review Press. Huang, S. (1959). Lu Hsün and the New Culture Movement of Modern China. The Journal of Asian Studies, 18(2), 288-289. René, D. (1964). Les communes populaires rurales chinoises. Politique étrangère, 29(4), 380-397. https://www.persee.fr/doc/polit_0032-342x_1964_num_29_4_2269 Siyuan, J. (2004). L’écriture subjective dans la littérature contemporaine. Perspectives chinoises, (83), 58-67. https://www.persee.fr/doc/perch_1021-9013_2004_num_83_1_3213 Tiejun, W. (2009). Ten Crises: The Political Economy of China’s Development (1949-2009). Wiley. Trolliet, P. (1962). Les communes populaires rurales. Revue Tiers Monde, 3(9-10), 229-269. https://doi.org/10.3406/tiers.1962.1311 Wang, D. (2016, 10 de maio). Mo Yan urges youths to develop new rural literature. China Daily. https://www.chinadaily.com.cn
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Pintor Yi Fujiu Que Foi ao Japão Vender Cavalos Ikeno no Taiga (1723-1776) que se tornaria um dos mais reconhecidos pintores literatos (bunjinga) em Edo (actual Tóquio) era filho de um trabalhador do campo. Quando o pai morre e a famíla se muda para a cidade ele, com apenas treze anos, abre uma pequena loja de venda de leques pintados onde no contacto com os clientes terá aproveitado para alargar a sua surpreendente vocação para a educação. Essa disponibilidade levá-lo-ia a descobrir com admiração as antigas artes do pincel que há séculos se praticavam na China e como reflexo imediato dessa afeição mudou o seu nome, seguindo a tendência chinesa dos nomes terem um só caracter, e passou a chamar-se Ike no Taiga. E cultivou essa afinidade através do conhecimento das obras de um igualmente improvável cultor da arte que viera de Ningbo para Nagasaki como comerciante de cavalos, chamado Yi Fujiu (1698-c.1747) que chegara pela primeira vez em 1720 num junco de noite à costa da Província de Satsuma, seguindo depois para Nagasaki com um livre-trânsito de comerciante emitido em nome de um irmão. A façanha era tanto mais temerária quanto se desenrolava num tempo de duas interdições. De um lado a proibição imposta pela corte Qing, que vigorava em Pequim desde 1644, de exportar cavalos para o estrangeiro; do outro a política sakoku, o «país algemado», do período Edo (1603-68) emitida pelos Tokugawa que só permitia o acesso a navios de comércio holandeses confinados na ilha artificial Dajima e de chineses, controlados no complexo fortificado Tojin Yashiki, junto ao porto de Nagasaki. Yi Fujiu de Wuxing (Zhejiang), não era de facto apenas o capitão de um junco de comércio de cavalos solicitados pelo shogun Tokugawa Yoshimune, com sete registos de entrada no Japão até 1747, mas transportava a carga intangível do conhecimento dos homens de artes e letras wenrenhua, que corresponde à palavra japonesa bunjinga, formatada e actualizada pelo influente teórico de Huating (actual Xangai), Dong Qichang (1555-1636). Yi Fujiu praticava nas suas pinturas um leque variado de estilos mas foi o modo sucinto e eloquente dos pintores da dinastia Yuan como Nizan ou Huang Gongwang que mais terá impressionado pintores locais como Ike no Taiga. Testemunho disso, em 1803, foi publicado um Manual de pintura só com paisagens dos dois pintores (I Fukio, Ike no Taiga sansui cafu, 2 volumes em xilogravuras a tinta sobre papel, 26,7 x 18,4 cm, exemplares no Metmuseum). Um rolo vertical de Ike no Taiga feito com economia caligráfica, ilustrando uma popular lenda medieval do Budismo Zen, revela o contínuo fascínio pela cultura que veio com a pintura. Em Tenjin viajando para a China (tinta sobre papel, 124,7 x 28,5 cm, no Metmuseum) vê-se a deificada figura deslocando-se na imaginação, séculos após a sua morte, para se encontrar com o mestre do Chan Wuzhun Shifan.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Pintura da Gruta de Jade Atribuída a Zhao Yong Du Daojian (1237-1318), um preclaro erudito daoísta, recebeu de Jiang Zongying (?-1281), o trigésimo oitavo patriarca da linhagem de Maoshan, o texto Dadongjing, a «Escritura da grande gruta», composto na sua versão mais comum por trinta e nove capítulos a partir de revelações de Yang Xi, um místico do século IV, que explicitam a cosmologia da escola Shangqing, referindo simultaneamente os mais altos paraísos celestiais e as câmaras interiores do corpo humano. Uma duplicidade que oferecia a perspectiva de um refúgio interior, especialmente apelativa para os altos funcionários que aceitaram fazer a transição do fim da dinastia Song para a dinastia Yuan. Desde1260 Du Daojian tornar-se-ia mestre espiritual de um desses funcionários, o influente pintor Zhao Mengfu (1254-1322) descendente da deposta família imperial e consciente do dever de actualizar os valores da cultura recebida. A noção de um refúgio interior espelhado em formas da natureza tornou-se comum durante a dinastia Song (960-1279) através da expressão dongtian, «grutas do paraíso», em que a palavra dong designa uma gruta mas também comunicar, penetrar ou discernir, servindo portanto como um portal de comunicação com a mais alta espiritualidade. Na pintura de Zhao Mengfu Paisagem espiritual de Xie Youyu (Xie Youyu qiuhe, «outeiros e regos», rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 27,4 x 117 cm, no Museu de Arte da Universidade de Princeton) vê-se uma figura sentada em pose de meditação, que também poderá ser Du Daojian, no meio de uma paisagem como se esta fora gerada pela sua concentração. Xie Youyu (280-322) o «ermita na corte», ficaria conhecido pela resposta que deu ao imperador Ming de Jin que o comparou a um dócil e metódico funcionário: «Quanto ao cumprimento dos deveres oficiais da corte não posso ser comparado, mas tratando-se de um único outeiro ou rego (qiuhe) imaginando-me longe da corte, encontrando repouso na natureza, nisso sou único.» O segundo filho de Zhao Mengfu, também funcionário imperial, interrogou-se em várias pinturas sobre a sua situação única. Zhao Yong (1289-c.1360) era igualmente filho da pintora e poeta Guan Daosheng e é possível que essa filiação num casal formado já na maturidade esteja referida no rolo vertical Um passeio na Primavera (Chunjiao youqi, tinta e cor sobre seda, 88 x 51,1 cm, no Museu do Palácio Nacional em Taipé) onde se vê um caçador com arco a cavalo detendo-se e voltando a cabeça para trás, olha perplexo para dois troncos de árvores que ao crescer se foram entrelaçando. Uma outra pintura que a certa altura lhe foi atribuída, mostra uma Convocação de imortais numa gruta de jade (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 28,9 x 301,3 cm, no Smithonian). As propriedades tácteis do jade faziam uma ponte, reforçando a ligação com a natureza e os espíritos que dela emanavam.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Sábio Que Flutuava Nas Ondas Numa Folha de Loto Zi Zhao, o rei Wu Ding (c. 1250-c. 1192 a. C.) da dinastia Shang, cuja existência e feitos foram sendo comprovados através de provas de carbono catorze e da leitura de inscrições em ossos de grandes animais e plastrões de tartaruga, terá cumprido de forma exemplar o amoroso dever ritual de respeito pela memória do seu falecido pai. Durante três anos permaneceu na pobreza de um silêncio humilde, eximindo-se de qualquer manifestação de alegria como casar ou sequer participar na direcção dos assuntos de Estado, deixando-os aos seus ministros. O período de três anos não era um acaso, como mais tarde Confúcio explicou: «Os filhos não conseguem deixar os braços dos pais senão depois dos três anos de idade, por isso os filhos deveráo permanecer de luto três anos após a morte dos pais.» Durante esse tempo, porém, o rei observava a nação. Passado o luto, o rei continuou a não falar mas fez saber que tinha tido um sonho: que o Céu lhe enviara o claro rosto de um sábio de nome Yue que o ajudaria a governar com sabedoria. Procurando o rosto entre os membros da sua corte e não o achando, fez com que fosse pintado um retrato com as exactas feições com que aparecera no seu sonho e enviou-o com emissários para encontrar a face correspondente ao retrato. E ele surgiu inesperadamente na forma de um condenado trabalhando na construção de uma estrada, chamado Fu Yue. As três fases; o sonho, o retrato e o encontro estão por exemplo, visualisados numa única pintura de cerca de 1700 no Museu Britânico (Pinturas de imperadores modelares, rolo vertical, tinta e cor sobre papel, 114 x 50,8 cm). E o relato, que consta de arquivos históricos como o Shangshu, o «Livro dos documentos» ou Shiji, os «Registos do grande historiador», está encapsulado na expressão idiomática Wu Ding de Fu Yue, que se refere ao divino direito e dever de um soberano encontrar pessoas de talento. Mais tarde o processo seria relatado de modo inverso, quando Jiang Ziya também no século XII a.C., antes de ajudar o soberano Wen de Zhou a derrotar o último rei tirano de Shang, esperou até aos oitenta anos pescando sem isco, até o rei perceber que ele era um sábio. Zhao Fu (ou Zhao Fei), um pintor de Jingkou (act. Zhenjiang, Jiangsu), por ter ficado conhecido pela habilidade de figurar «ondas agitadas rebentando em espuma branca como a neve», foi indicado como autor de uma insólita pintura de um sábio flutuando ao vento num rio revoltoso sobre uma folha de loto. Nessa pintura claramente datada já das posteriores dinastias Ming ou Qing, feita numa folha de álbum (tinta sobre seda,27.9 x 21,9 cm, no Metmuseum) um sábio alardeia a sua virtude e integridade moral de modo alegórico. Sentado sobre a folha de loto que se inclina para o proteger segue de olhos abertos indiferente às circunstâncias, um sábio como um rei sonharia encontrar.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Era Brilhante do Divino Pintor Yang Zihua Feng Xiaolian (-581), que foi uma talentosa e brilhante concubina de Gao Wei (565-577) o quinto e penúltimo imperador da dinastia Qi do Norte (550-577), por ser o centro da atenção do monarca cuja extrema extravagância e falta de habilidade para governar conduziu à queda da breve mas florescente dinastia, tornar-se-ia um exemplo do brilho que pode encadear um governante, distraindo-o das suas obrigações. Um episódio em particular é apontado. O que levaria ao derrube militar do seu governo, quando o imperador Wu da dinastia Zhou atacava a cidade de Pingyang, actual Linfen, e Gao Wei com a sua concubina que já elevara ao grau shufei, o mais alto do concubinato, estava numa caçada junto ao lago Qilian, actual Xinzhou (Shanxi). Regressando para combater os invasores, o monarca insistiu que ela observasse a batalha vestida com um brilhante uniforme militar. E foi o que o poeta Li Shangyin (813-58) recordou anos depois em dois poemas como uma admoestação, perante o receio de incúria imperial. No primeiro, escreve: «Sabendo que o seu sorriso astuto tinha o valor de dez mil assuntos de Estado, Uma beleza capaz de derrubar uma cidade, apresentava-se vestida com uniforme militar. Jinyang já tinha caído, mas ela pediu-lhe que não olhasse para trás, Rogando ao seu senhor, o imperador, que fizesse mais uma ronda na sua caçada.» A desgraça seria tanto mais trágica quanto a dinastia alardeava um inegável esplendor que ainda hoje se observa, por exemplo, no túmulo do aristocrata e alto funcionário Lou Rui em Taiyuan (Shanxi). Especialmente impressionantes são os murais que se estendem por cerca de duzentos metros quadrados que, entre outros objectos artísticos, acompanhariam o senhor na sua vida do além. Cenas de procissões militares e caçadas, pelo cuidado desenho das cabeças humanas e dos cerca de duzentos cavalos, são associadas a um ilustre pintor de quem o reconhecido Yan Liben (c.600-73) disse ser capaz de «captar na perfeição as subtilezas» da representação. Yang Zihua foi pintor na corte do imperador Wucheng, Gao Zhan (r. 561-65) e se dos murais do túmulo de Lou Rui apenas se deduz a autoria, auxiliada por assistentes, de outras pinturas só se conhecem cópias. A mais conhecida, data da dinastia Song (960-1279) e mostra Eruditos da dinastia Qi analisando textos clássicos (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 114 x 27,5 cm, no Museu de Belas Artes de Boston). Ilustra um momento de descontração dos eruditos que trabalhavam a pedido de Wenxuan, Gao Yang (r.550-59), o primeiro imperador de Qi do Norte. Do sentimento nostálgico que envolve a figura de Yang Zihua, dito huasheng, o «pintor divino», falam dois versos do poema que Su Shi escreveu quando visitava Changzhou (Jiangsu): «Desejariamos captar numa pintura a beleza incomparável desta cidade, Mas neste Mundo já não existe Yang Zihua.»
Sara F. Costa Via do MeioQiu Jin – Poesia chinesa traduzida 踏青記事四章(其一) Tàqīng jìshì sì zhāng (qí yī) 女鄰寄到踏青書 1, Nǚlín jì dào tàqīng shū, 來日晴明 2 定不虛。 Láirì qíngmíng dìng bù xū. 妝物隔宵齊打點, Zhuāngwù géxiāo qí dǎdiǎn, 鳳頭鞋子繡羅襦 3。Fèngtóu xiézi xiù luó rú. Excursão primaveril, I Da vizinha chegou um bilhete: amanhã, pisamos a primavera1. O céu há de abrir-se2 e a promessa não falhará. Desde a véspera preparo os meus adornos: fénix nos sapatos, seda bordada sobre o corpo3. Notas ¹ Tàqīng (踏青), literalmente «pisar o verde», designa a excursão primaveril realizada no campo. A data variou segundo os costumes regionais e acabou por se associar sobretudo aos dias próximos do Festival de Qingming. A expressão converte a estação numa superfície percorrida pelo corpo e sustenta a imagem «pisamos a primavera». ² Qíngmíng (晴明) significa «claro e luminoso» e descreve o estado do céu. A grafia distingue-se de Qīngmíng (清明), nome do período e do festival primaveril dedicado ao culto dos antepassados e associado às excursões no campo. A proximidade gráfica e sonora faz ressoar esse calendário sazonal. O verso conserva como referência imediata a luminosidade do dia. ³ Fèngtóu xié (鳳頭鞋) era um tipo de calçado feminino cuja ponta trazia a forma ou o ornamento de uma fénix. A imagem pertence à cultura material feminina e introduz, nos próprios pés, uma ave associada à elevação, à dignidade e ao poder auspicioso. Comentário Este poema começa com um gesto mínimo, um bilhete que chega. A partir desse objeto, o poema organiza o futuro imediato, o corpo e a saída. A escrita da vizinha põe a composição em movimento antes de aparecer qualquer caminho. A excursão primaveril constituía uma prática sazonal. O poema apresenta a primavera como uma matéria em que se entra e uma estação sentida sob os pés. A frase «amanhã, pisamos a primavera» converte o renascimento da paisagem numa ação do corpo. O bilhete atravessa a distância entre duas casas e cria uma passagem entre mulheres. A vizinha escreve. A destinatária recebe, acredita e prepara-se. Essa rede feminina torna possível a deslocação e sustenta uma pequena comunidade de desejo e confiança, formada ainda no interior das casas. O segundo verso abre o céu sobre essa promessa. A claridade anunciada pertence ao tempo meteorológico e adquire um valor simbólico. Depois do interior doméstico e da espera noturna, haverá luz, espaço e movimento. A certeza da voz confere ao poema a felicidade breve de um futuro que parece inteiramente disponível. Nos dois últimos versos, a atenção regressa ao quarto. A preparação da roupa compõe a mulher para entrar no mundo. Seda, bordado e adornos dão ao corpo uma presença escolhida pela própria mulher. A intimidade doméstica converte-se numa preparação para ocupar o exterior. A imagem decisiva encontra-se nos sapatos. A fénix, ave ligada à elevação e ao renascimento, aparece precisamente onde o corpo toca a terra. A potência do voo passa para os passos da mulher. O símbolo une a altura do mito ao chão de cada passo e confere ao movimento quotidiano uma dignidade inesperada. Esta posição da fénix contém uma bela inversão. O emblema do voo desce até aos pés da figura feminina e acompanha a marcha. A transformação começa no contacto entre o corpo e o caminho e nasce da ação da própria mulher. Lido à luz da vida posterior de Qiu Jin, o poema ganha uma ressonância particular. A autora tornar-se-ia revolucionária, defensora da educação e da emancipação das mulheres. Aqui, a liberdade assume uma forma íntima. Entra no poema através de uma amizade, de um convite e da decisão de sair. A composição apresenta quatro versos de sete caracteres. Shū (書), xū (虛) e rú (襦), no final do primeiro, segundo e quarto versos, formam a rima do original. A repetição sonora acompanha a progressão entre o bilhete, a promessa e a roupa, unindo aquilo que chama a mulher ao exterior àquilo que ela prepara para partir. O poema termina no limiar da manhã. O bilhete chegou, o céu promete abrir-se e a roupa está pronta. A liberdade possui já direção, companhia e corpo. Qiu Jin situa o começo da mudança nesse instante silencioso, junto de um par de sapatos à espera da manhã. Referências Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910. Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji Chubanshe, 1979. Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim], entradas tàqīng (踏青) e fèngtóu xié (鳳頭鞋). Huang, Yunte. «Nüxia and Footbinding: Forging the Female Knight-Errant». Chinese Literature: Essays, Articles, Reviews, vol. 43, 2021, pp. 45–68. Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977. 踏青記事四章(其二) Tàqīng jìshì sì zhāng (qí èr) 曲徑珊珊 1 芳草茸, Qūjìng shānshān fāngcǎo róng, 相攜同過小橋東。 Xiāngxié tóng guò xiǎoqiáo dōng. 一灣流水無情甚, Yī wān liúshuǐ wúqíng shèn, 不送愁紅送落紅 2。 Bù sòng chóuhóng sòng luòhóng. Excursão primaveril, II Pelo caminho curvo, passos de jade1 roçam a erva tenra, de mãos unidas, atravessamos a pequena ponte rumo ao nascente. Na curva, a água passa, alheia ao coração, leva o vermelho das flores caídas e deixa em nós o vermelho da tristeza2. Notas ¹ Shānshān (珊珊) pertence a um vocabulário poético antigo. Designa o tilintar de pendentes de jade e, por extensão, o andar lento e gracioso de uma mulher. A tradição lexicográfica regista ainda o brilho límpido da pedra. O termo reúne som, luz e movimento, ressonâncias concentradas em «passos de jade». ² Chóuhóng (愁紅) associa diretamente «tristeza» e «vermelho». Na linguagem poética, a cor das pétalas recebe assim uma qualidade afetiva e aproxima-se do rubor feminino. Luòhóng (落紅), literalmente «vermelho caído», constitui uma designação convencional das flores caídas. Qiu Jin coloca as duas expressões em paralelo e repete sòng (送), verbo que pode acompanhar uma partida ou entregar algo ao movimento da corrente. A água leva o vermelho que caiu e deixa junto das caminhantes o vermelho capaz de sentir. Comentário Este poema prolonga o movimento iniciado na primeira composição. O bilhete, os adornos e a expectativa pertenciam ao interior da casa. Neste segundo poema, as mulheres entram na paisagem. O caminho, a erva, a ponte, a água e as flores recebem os seus gestos e dão forma à experiência da primavera . O caminho curvo determina o ritmo do primeiro verso. A paisagem revela-se gradualmente, acompanhando a ondulação dos passos. A linha sinuosa oferece uma forma visível à liberdade das caminhantes. O passeio desenvolve-se através do desvio, da surpresa e da atenção aos sinais discretos do mundo natural. A expressão «passos de jade» confere aos corpos uma luminosidade mineral. O jade pertence à tradição chinesa como matéria de beleza, delicadeza e valor moral. O seu brilho atravessa aqui a erva tenra e deixa uma impressão sonora, como se os ornamentos das mulheres ressoassem no caminho. A primavera adquire uma presença tátil. A erva roçada pelos passos torna-se o primeiro lugar de contacto entre o corpo e a estação. As mulheres avançam de mãos unidas. O gesto exprime proximidade e amparo, enquanto converte a amizade numa imagem corporal. A união acompanha-as desde o caminho até à travessia da ponte. Cada uma participa no movimento da outra. A ponte ocupa o centro da composição e assinala uma mudança de espaço. Atravessá-la rumo ao nascente aproxima as caminhantes da luz que inaugura o dia. O leste reúne a primavera, a juventude e a possibilidade de renovação. A travessia adquire assim a delicadeza de um rito de passagem. A água introduz uma transformação no tom do poema. A sua curva responde à curva do caminho, embora pertença a uma ordem diferente. O caminho acolhe os passos das mulheres. A corrente segue o seu próprio curso e recebe apenas aquilo que já caiu. A expressão «alheia ao coração» converte a água numa figura do tempo, contínua e indiferente à duração dos sentimentos. O último verso concentra a imagem decisiva da composição. O vermelho divide- se entre as pétalas levadas pela corrente e a tristeza que permanece nas caminhantes. A cor circula entre a natureza e o corpo feminino. Nas flores, anuncia a beleza chegada ao instante da queda. Nos rostos e nos afetos, guarda a consciência dessa perda. A repetição do vermelho cria uma breve correspondência entre as mulheres e as flores. Ambas pertencem à primavera e à sua fragilidade. As pétalas entram na corrente. A tristeza permanece no corpo e converte a passagem das flores em memória. O mundo exterior e a emoção partilham a mesma cor. A amizade oferece uma forma de permanência dentro dessa paisagem móvel. As mulheres conservam o contacto das mãos enquanto a água dispersa as pétalas. O poema aproxima assim dois movimentos. A corrente separa e transporta. O gesto humano reúne e acompanha. A composição apresenta quatro versos de sete caracteres. Róng (茸), dōng (東) e hóng (紅), colocados no final do primeiro, segundo e quarto versos, formam uma rima muito nítida no mandarim contemporâneo. A proximidade sonora reúne a erva tenra, o nascente e o vermelho. O espaço do passeio, a direção da travessia e a cor da perda encontram-se ligados pela própria música do poema. A excursão decorre entre duas curvas. A primeira pertence ao caminho percorrido pelas mulheres. A segunda pertence à água que leva as flores. Entre ambas ergue-se a pequena ponte, lugar suspenso onde a amizade atravessa o tempo da primavera. A imagem final conserva as caminhantes de mãos unidas, com o vermelho da tristeza guardado dentro delas. Referências Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910. Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji Chubanshe, 1979. Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim]. Entradas shānshān (珊 珊), xié (攜), sòng (送) e luòhóng (落紅). Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977.
Julie Oyang Via do MeioÀ descoberta das civilizações perdidas da Rota da Seda Uma conversa electrizante entre Julie Oyang, o investigador independente Gong Bensong e Michael Du, presidente da Associação de Investigação das Civilizações Antigas da China Julie Oyang: Gong, passaste anos a segurar nas mãos fragmentos de mundos esquecidos. O que te mantém acordado à noite? Gong Bensong: O silêncio, Julie. Olho para a minha coleção e pergunto-me: por que razão nada disto foi encontrado pela arqueologia convencional? Essa pergunta perseguiu-me até às ruínas da cidade de Tangwang, em Tumshuq. Este foi um bastião da Rota da Seda — as tropas das dinastias Han e Tang marcharam por aqui outrora. Foi a capital do Reino de Weitou durante mil anos. Os nómadas esculpiram cenas de caça nas falésias. Os monges budistas esculpiram grutas segundo a tradição de Kizil. Depois, no início do século XX, surgiu Paul Pelliot — a saquear, a destruir e a enviar para França estátuas inteiras do Buda de Gandhara. Hoje, aquelas cabeças decepadas e aqueles murais roubados fitam os visitantes do Museu Guimet, em Paris. E ninguém no meu país sequer sabe que desapareceram. Julie: Isso é devastador. Então, foste tu próprio à procura de respostas? Gong: Tive de o fazer. Repetidamente — Tangwang, Bachu, Hotan. O que encontrei partiu-me o coração. As torres-faróis erguem-se como sentinelas solitárias no deserto. As ruínas dos templos desmoronam-se em pó. Fragmentos de cerâmica jazem espalhados como cartas esquecidas. E por todo o lado, a areia avança. Dentro de alguns anos, estes sítios simplesmente deixarão de existir. Não estamos apenas a perder pedras — estamos a perder a própria memória da civilização chinesa. Julie: Michael, passaste a tua carreira a proteger o património antigo da China. Como reages ao alarme lançado por Gong? Michael Du: Gong está a lançar um aviso que já não podemos ignorar. As Regiões Ocidentais eram o caldeirão cultural do mundo antigo — mas continuam a ser o ponto cego da arqueologia. A tragédia de Tangwang não é chinesa — é global. Cada artefacto em Paris é uma ferida. Mas o trabalho de Gong no terreno é exatamente o que precisamos para preencher o vazio deixado pelos atrasos institucionais. Julie: Gong, disseste-me que os aldeões locais te ajudaram. O que é que eles te mostraram? Gong: Tudo. Fragmentos de cerâmica, lâminas de pedra, pequenas esculturas — que datam desde o final do Neolítico até às dinastias Tang e Song. Não se trata de achados aleatórios. São a prova de que Hotan, Bachu e Tumshuq prosperaram durante milhares de anos. Tenho duas estatuetas de Wengzhong da dinastia Han, esculpidas em jade local, que são autênticas. Mas, sem proteção, estas pistas serão engolidas pelas dunas — e esquecidas para sempre. Julie: Michael, o que é que isto significa para a forma como vemos a China antiga? Michael Du: Isto reescreve a história. Durante demasiado tempo, olhámos para a história chinesa através da perspectiva das Planícies Centrais. Mas os 36 Reinos das Regiões Ocidentais não eram meros coadjuvantes — eram motores de intercâmbio. A Torre de Sinalização de Kuoxitunmu, os nichos budistas — não são ruínas. São testemunhos. Temos de apoiar guerreiros independentes como Gong antes que o deserto roube as provas para sempre. Julie: O tempo é curto. Qual é o plano de batalha? Gong: Três frentes. Primeira — resgate digital: digitalizar em 3D todas as ruínas expostas agora mesmo. Segunda — formar a população local para que se torne guardiã da sua própria história. Terceira — ultrapassar fronteiras para trazer de volta os artefactos saqueados, não como troféus, mas como parceiros na investigação. Michael Du: A nossa associação está pronta. Estamos a preparar expedições conjuntas com protocolos rigorosos para proteger cada camada de solo. O deserto não espera. Temos talvez dez anos. Julie: Última pergunta, Gong. Porque é que és tu? Porque é que isto é importante para um único homem? Gong: (longa pausa) Porque cada fragmento que apanho é uma voz. A voz de um pastor, de um monge, de um soldado, de um comerciante. Se eu não ouvir — se nós não ouvirmos — essa voz morre. E perdemos a verdade de que a China nunca nasceu de um único lugar. Foi tecida a partir de mil fios espalhados por mil desertos. Recuso-me a deixar que o último fio se parta em silêncio. Julie: Gong Bensong, Michael Du — obrigada por lutarem pelo nosso passado esquecido. Estaremos atentos.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioElogios da Passagem do Tempo Ashikaga Yoshimasa (1435-1490), o shogun de Quioto entre 1449-73, de acordo com a lenda, teria quebrado acidentalmente uma preciosa e estimada taça para chá de porcelana que viera da China e porque não a queria perder enviou-a de volta à origem para ser, mesmo assim, reparada e poder continuar a usufruir da sua beleza. Quando a peça de porcelana voltou, porém, o samurai não ficou satisfeito e encomendou a artesãos locais uma nova reconstrução da taça. E desta vez, com as linhas de junção dos pedaços partidos sublinhados com uma mistura de laca e pó de ouro, o poderoso governante aceitou por fim a reparação. É a história que a tradição utiliza para contar a origem da expressão japonesa kintsugi, a «reparação a ouro», parte da filosofia wabi-sabi, palavras que apontam à «simplicidade rústica» e à «beleza reconhecida pela passagem do tempo». Que é enquadrada na enunciação sanfayin do budismo chan, os «três carimbos do dharma», usados para verificar se um ensinamento ou experiência é de facto budista no seu entendimento da natureza da realidade e que falam da impermanência, do sofrimento e da ausência da auto-natureza. No entanto, no relato sobre o shogun esteta, que muito valorizou o wabi-sabi, está a indicação de que, de modo mais humilde e engenhoso, o elogio da imperfeição fazia há muito parte da vida doméstica chinesa. Uma vontade de reparar objectos de porcelana partidos que sublinhava a passagem do tempo. Designada juci pode vêr-se por exemplo na pintura da dinastia Song, Subindo o rio na altura do Qingming. Nela se notam artesãos itinerantes balançando uma vara sobre os ombros (biandan), numa ponta a caixa de ferramentas, na outra um banco ou o forno onde eram moldados os pequenos agrafos de metal usados para unir dois pedaços sem perfurar a parede dos objectos. A preservação das marcas da passagem do tempo já fora notória e admiravelmente referida num poema da esposa imperial Feng Xiaolian (-581?) que dedilhando a pipa, o instrumento musical cordofóne com caixa em forma de pêra, escreveu: «Se quiseres saber de que forma está o meu coração partido, repara como está emendada com cola esta corda de seda». Ren Xun (1835-93) um pintor de Xiaoshan (Zhejiang) recordou numa pintura (leque dobravél montado numa folha dourada, tinta e cor, 25,4 x 54,6 cm, no Museu de arte Samuel Harn da Universidade da Flórida) uma outra tocadora de pipa, protagonista de um famoso poema (Pipa xing) de 816 de Bai Juyi. Evocado em muitas pinturas o poema refere um inolvidável encontro num porto de rio, e nelas a tocadora surge geralmente sentada numa embarcação emergindo dos juncos. Nesta pintura, ao contrário, ela está de pé e a sua timidez revela-se no ligeiro voltar de cabeça para o poeta que, também de pé à sua frente se curva, chorando, perante tantas memórias da passagem do tempo que lhe trouxe a tocadora de pipa.
Hoje Macau Via do MeioUma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (3) Chenyang Li (continuação do número anterior) Uma diferença fundamental entre a virtude da IA e a virtude humana Tentei contornar questões tão complexas como a consciência das máquinas e a subjetividade moral na nossa discussão sobre a ética das máquinas de IA. A minha investigação centra-se em como as máquinas de IA podem ser virtuosas, em vez de se questionar se podem ter consciência, livre arbítrio ou tornar-se agentes morais no sentido kantiano. A visão de Aristóteles sobre a virtude, em relação à função própria de uma coisa, proporciona uma ponte útil entre a virtude humana e a virtude não humana, sendo que esta última categoria inclui a virtude das máquinas de IA. Para Aristóteles, a virtude (arete) de uma coisa baseia-se na sua função própria (ergon). Nesta perspetiva, uma coisa não tem de ser um ser consciente para ter uma função própria e ser excelente (arete) no seu desempenho. Na ética confucionista, o conceito de virtude (de) aplica-se tanto aos seres humanos como ao mundo não humano. Nestas perspetivas, os sistemas robóticos de IA podem, sem dúvida, ser virtuosos. A função adequada de um aspirador robótico, por exemplo, é limpar o chão. Se possuir qualidades como forte sucção, limpeza minuciosa, durabilidade, etc., limpa bem o chão e, por isso, é um aspirador robótico de qualidade. Os robôs de cuidados são concebidos para ajudar idosos ou pessoas com deficiência. Estão programados para demonstrar qualidades como compaixão, paciência e responsabilidade no seu papel de prestadores de cuidados. Dependendo dos objetivos específicos, também podem ser programados para se moverem devagar e com cuidado, garantindo segurança e conforto enquanto auxiliam em tarefas físicas, como ajudar o utilizador a levantar-se ou a andar. O Paro, por exemplo, é um robô terapêutico interativo avançado, concebido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada (AIST) do Japão com o objetivo de estimular doentes com demência, Alzheimer e outras perturbações cognitivas. É capaz de utilizar o reconhecimento de emoções para detetar o estado emocional de um utilizador, como a tristeza ou a ansiedade, e responder com palavras reconfortantes, um tom suave e ações de apoio. Funciona com virtudes como a paciência, a gentileza e a fiabilidade. O Paro tem sido utilizado em hospitais e instituições de cuidados como ferramenta terapêutica em cerca de 30 países.26 Alguns poderão argumentar que, embora os robôs com IA possam comportar-se de forma virtuosa, ainda assim não podem ser virtuosos porque não possuem agência moral — a capacidade de intenção, compreensão e raciocínio moral —, nem são capazes de envolvimento emocional. Tal argumento, no entanto, é circular, pois define a virtuosidade de uma forma restrita que exige essas qualidades.27 Além disso, a questão de saber se os sistemas robóticos de IA podem ter consciência e razão tem sido alvo de um debate aceso, sendo improvável que se chegue a um consenso sobre o assunto num futuro próximo, se é que tal consenso alguma vez será alcançado.28 De acordo com a perspetiva funcional adotada neste ensaio, baseada numa interpretação restrita da visão de Aristóteles sobre função e virtude, estas máquinas de IA são virtuosas na medida em que cumprem adequadamente as respetivas funções para as quais foram concebidas. A verdadeira questão é até que ponto a virtuosidade das máquinas robóticas de IA difere da da humanidade. Esta abordagem de incluir entidades não humanas como capazes de ser virtuosas levanta outras questões desafios à singularidade da humanidade no mundo. A singularidade humana sempre ocupou um lugar especial no coração da espécie humana. Durante muito tempo, acreditámos ser especiais porque pensávamos que a Terra estava no centro do universo. Esta ideia sugeria que o nosso lugar no cosmos era de uma importância única. No entanto, essa crença foi desfeita. A Revolução Copernicana do século XVI dissipou esta noção, quando Nicolau Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo, mas simplesmente um planeta em órbita à volta do Sol. A sua teoria enfrentou forte oposição por parte de grupos religiosos, que a viram como um desafio à importância atribuída à humanidade. Desde então, tivemos de aceitar que nunca fomos o centro do universo. Outra fonte da nossa perceção de singularidade era a crença de que fomos criados à imagem de Deus. No entanto, no século XIX, Charles Darwin abalou esta ideia reconfortante com a sua teoria da evolução. Darwin propôs que os seres humanos evoluíram a partir de espécies anteriores, tal como todos os outros seres vivos, e que a nossa forma física é o produto da evolução e não de um desígnio deliberado por parte de um poder superior. Para alguns, o impacto psicológico desta constatação aprofundou-se quando o filósofo alemão do século XIX Friedrich Nietzsche proclamou a famosa frase: «Deus está morto!» Esta afirmação sugeria que a humanidade já não podia confiar na autoridade divina para justificar o seu estatuto especial. Em vez disso, somos responsáveis por criar o nosso próprio sentido na vida. Durante algum tempo, a nossa capacidade de raciocinar pareceu ser a última característica definidora que nos tornava únicos. No entanto, até isso foi posto em causa. Sigmund Freud argumentou que a mente humana consiste em três camadas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Ele sugeriu que o pensamento racional, que reside na mente consciente, é apenas uma pequena parte de uma psique muito maior e mais complexa. Segundo Freud, o comportamento humano é em grande parte moldado por forças inconscientes, o que significa que a racionalidade desempenha um papel muito menor do que se supunha anteriormente. Consequentemente, ele questionou se os seres humanos poderiam realmente ser definidos como seres racionais. Quer aceitemos ou não a teoria de Freud, a sua perspetiva obriga-nos a reconsiderar o pressuposto de que a racionalidade é a nossa característica definidora — é algo que precisa de ser provado, em vez de ser dado como certo. A moralidade também tem sido considerada uma característica distintiva da humanidade. O Livro do Génesis diz-nos que Adão e Eva adquiriram o conhecimento do bem e do mal através da perda da sua inocência. Mencius e outros pensadores antigos defenderam que apenas os seres humanos nascem com sementes éticas e podem tornar-se seres éticos. Agora, temos de aceitar que as máquinas robóticas com IA também podem ser éticas, pelo menos no sentido de que podem ser virtuosas. Mas será que isso torna as virtudes das máquinas de IA indistinguíveis da virtuosidade dos seres humanos? seres? Existem diferenças evidentes. Por exemplo, os robôs com IA são fabricados para serem virtuosos de determinadas formas específicas, tal como se pretende que sejam. Quando os clientes adquirem um iRobot com defeito, que não cumpre a função para a qual foi concebido e, por isso, não é virtuoso, podem devolvê-lo ao fabricante para obterem uma substituição. Os seres humanos, no entanto, têm de tornar-se virtuosos, independentemente de possuírem ou não sementes inatas de virtude. Os seres humanos tornam-se virtuosos por habituação (segundo Aristóteles) ou por autoaperfeiçoamento (segundo Confúcio). No entanto, essa diferença pode não ser tão clara como parece. As máquinas robóticas com IA também podem aprender a ser (mais) virtuosas. Um novo aspirador robótico pode aprender e traçar um mapa do seu novo ambiente e, assim, melhorar o desempenho na limpeza do chão. Além disso, uma máquina robótica com IA pode até ser mais virtuosa no desempenho do seu papel do que os seres humanos. Os robôs equipados com IA, por exemplo, podem ajudar os cirurgiões a realizar tarefas com ainda mais precisão e consistência do que os próprios cirurgiões humanos, podendo também ajudar a evitar complicações. Estas fronteiras difusas, no entanto, não significam que não exista uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos e os seres humanos virtuosos. A seguir, defenderei que uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos, por um lado, e os seres humanos virtuosos, por outro, reside na capacidade distintiva dos seres humanos de se tornarem abrangentemente virtuosos. Tal como foi abordado na Secção 2 deste ensaio, para Confúcio, a virtude de uma pessoa concretiza-se em dois níveis. Um deles diz respeito às virtudes específicas. Uma pessoa pode ser inteligente, corajosa ou diligente. O discípulo de Confúcio, Zilu, por exemplo, era conhecido pela sua bravura, enquanto outro discípulo, Yanhui, se destacava pela sua dedicação à aprendizagem. O objetivo último da vida humana, para Confúcio, não é meramente possuir virtudes específicas ou servir apenas a um propósito específico (Analectos 2.12). Uma pessoa virtuosa, enquanto ser humano, não é virtuosa apenas numa dimensão da vida. O objetivo último da vida humana é, antes, tornar-se uma pessoa dotada da virtude abrangente do ren.29 Na perspetiva confucionista, ser humano, em última análise, significa ser ren (ren zhe ren ye 嬬簅嬣憟).30 Da mesma forma, para Aristóteles, viver a vida humana ideal não se resume a possuir virtudes específicas. Embora ser um bom flautista exija a posse de algumas virtudes específicas para tocar bem a flauta, e ser um escultor exija certas virtudes específicas para ser um excelente escultor, isso não faz deles seres humanos virtuosos. Ser um bom ser humano, alguém que leva uma boa vida humana, exige que se busque uma vida virtuosa de acordo com a razão. Essa é a vida de eudaimonia. Tal vida requer não apenas uma ou algumas virtudes específicas, como se verifica num bom flautista ou num bom escultor. Para Aristóteles, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas (NE 1.10 1101a 15–17), 31mas é mais do que uma mera coleção de virtudes específicas. Estas virtudes devem assentar num fundamento racional, característico do funcionamento adequado da humanidade. Uma vez que uma vida de eudaimonia exige que uma pessoa alcance a excelência no desempenho da sua função humana própria, podemos muito bem chamar a essa excelência «virtude», com base na definição de virtude de Aristóteles, mesmo que o próprio Aristóteles se recusasse a rotulá-la assim. Entendidas desta forma, apesar das suas diferenças noutros aspetos, as teorias éticas de Confúcio e de Aristóteles partilham uma estrutura comum de virtude em duas camadas. Numa camada, as virtudes são específicas; na outra, existe uma virtude abrangente, o «ren» ou a eudaimonia. Na perspetiva defendida neste ensaio, uma diferença fundamental entre os sistemas de IA robótica virtuosos, por um lado, e os seres humanos virtuosos, por outro, reside no facto de, embora ambos possam ser virtuosos de formas específicas, apenas os seres humanos poderem desenvolver a virtude abrangente. Um robô de IA é sempre concebido, desenvolvido e fabricado para um ou vários fins específicos. O seu objetivo é possuir virtudes específicas que lhe permitam funcionar bem de acordo com os fins para os quais foi concebido. Os seres humanos também têm objetivos específicos na vida. Alguns desses objetivos são escolhidos voluntariamente: ser flautista ou escultor, por exemplo. Outros objetivos são constituídos socialmente: ser filho ou filha, membro de um determinado grupo social. Para desempenhar bem esses papéis, é necessário desenvolver as virtudes correspondentes. A este respeito, existe um paralelo claro com os sistemas robóticos de IA. Entretanto, um ser humano, enquanto ser humano, não se define apenas nem se limita meramente a esses papéis. Possui um objetivo comum e uma virtude comum a cultivar. Em contrapartida, não existe um robô de IA, enquanto robô de IA, que transcenda os seus papéis específicos. Aí reside uma diferença fundamental entre sistemas robóticos de IA virtuosos e seres humanos virtuosos. Conclusão Vamos fazer um balanço e resumir. Para além das abordagens baseadas em princípios à ética das máquinas de IA, podemos também adotar uma abordagem baseada na virtude. A este respeito, as teorias éticas de Confúcio e de Aristóteles proporcionam-nos perspetivas valiosas. O argumento funcional de Aristóteles a favor da virtude permite-nos considerar os sistemas robóticos de IA como inequivocamente virtuosos, sem ter de debater o seu estatuto em relação à consciência e as questões da sua subjetividade moral. Seguindo esta linha de pensamento, uma coisa é virtuosa se desempenhar bem a sua função própria; os sistemas robóticos de IA podem desempenhar bem as suas funções e, por isso, podem ser virtuosos, tal como uma pessoa pode ser virtuosa de formas específicas quando desempenha bem o seu papel específico. Além disso, tanto para Confúcio como para Aristóteles, para além das virtudes particulares que os seres humanos desenvolvem ao desempenhar os seus respetivos papéis na vida, existe também a virtude abrangente a alcançar num nível superior. A virtude abrangente é designada por «ren» em Confúcio e por «eudaimonia» em Aristóteles. Enquanto os sistemas robóticos de IA podem possuir virtudes específicas em resposta às suas funções específicas, apenas os seres humanos podem desenvolver a virtude abrangente a um nível superior. Isto marca uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos e os seres humanos virtuosos.32 Notas Ver Chenyang Li, «The AI Challenge and the End of Humanity», em Intelligence and Wisdom: Artificial Intelligence Meets Chinese Philosophers, ed. Song Bing (Springer, 2021), pp. 33–47. Por exemplo, Michael Anderson e Susan Leigh Anderson (orgs.), *Machine Ethics* (Cambridge: Cambridge University Press, 2011). https://doi.org/10.1017/CBO9780511978036 . Num ensaio anterior, argumentei que uma série de avanços na autocompreensão humana tem vindo a minar, de forma gradual e contínua, a suposta singularidade privilegiada da humanidade — incluindo os avanços de Copérnico, Charles Darwin, Nietzsche e Sigmund Freud — e que o rápido avanço da tecnologia de IA, capaz de imitar as atividades humanas de uma vasta variedade de formas, está prestes a ser a gota de água que faz transbordar o copo. Ver Li, «The AI Challenge and the End of Humanity». Michael Anderson e Susan Leigh Anderson, «Machine Ethics: Creating an Ethical Intelligent Agent», AI Magazine 28:4 (2007): 15–26; ver também Anderson e Anderson, Machine Ethics. Brent Mittelstadt, «Principles Alone Cannot Guarantee Ethical AI», *Nature Machine Intelligence* 1 (2019), 501–7. https://doi.org/10.1038/s42256-019-0114-4 Mittelstadt, «Os princípios, por si só, não podem garantir uma IA ética», 501. Ibid. Thilo Hagendorff, «Um quadro baseado nas virtudes para apoiar a aplicação prática da ética da IA», Philosophy & Technology 35 (2022): 55. https://doi.org/10.1007/s13347-022-00553-z Hagendorff, «Um quadro baseado nas virtudes para apoiar a aplicação prática da ética da IA», 55. Ibid. As leis surgiram pela primeira vez no conto de Asimov «Runaround» (1942) e, posteriormente, tornaram-se extremamente influentes no género da ficção científica. Ver https://www.britannica.com/topic/ . Li, «O Desafio da IA e o Fim da Humanidade». David J. Chalmers, «Enfrentar o problema da consciência», Journal of Consciousness Studies 2 (1995), 202. Wendell Wallach e Colin Allen, «Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong» (Nova Iorque: Oxford University Press, 2008), Capítulo 4. Wallach e Allen, *Moral Machines*, p. 117. Michael Constantinescu e R. Crisp, «Can Robotic AI Systems Be Virtuous and Why Does This Matter?» International Journal of Social Robotics 14:1547–1557 (2022), p. 1552. https:// doi.org/10.1007/s12369-022-00887-w ; Os sistemas robóticos de IA podem ser virtuosos e por que é que isso importa? Constantinescu e Crisp, «Podem os sistemas robóticos de IA ser virtuosos e por que razão isso é importante?», 1555. Christine M. Korsgaard, *The Constitution of Agency: Essays on Practical Reason and Moral Psychology* (Nova Iorque: Oxford University Press, 2023), 152. Wing-tsit Chan, *A Source Book in Chinese Philosophy* (Princeton, Nova Jérsia: Princeton University Press, 1963), p. 22. Fang Ying-hsien 菾褔嫻, «磭嬬紶——簏蓏裛繨侹磾蒢» e «瘁©歶雰» (Sobre as origens do Ren: a sua evolução desde a era Shi-Shu até Confúcio). Dalu Zazhi ▲» (1976: 52.3): 22–34. Neng xing wuzhe yu tianxia, weiren ye“籗潛澼粹匽跦, 为嬬鋿”. A segunda parte da afirmação, «weiren», tem sido frequentemente traduzida como «é ren». Ver Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, 46. Defendi que «weiren» deve ser traduzido como «conduzir ao ren ou pode permitir ou fazer com que uma pessoa seja ren». Chenyang Li, «Li as Cultural Grammar: the Relation between Li and Ren in the Analects». Philosophy East & West 57:3 (2007), 311–29. Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, 40. Ibid., 104; alterado de «homem» para o termo neutro em termos de género «humanidade». A frase em chinês diz «ren zhe ren ye 嬬簅嬣憟», literalmente «ser ren é ser ren». O primeiro «ren» representa a virtude abrangente e o segundo representa os seres humanos. Assim, significa que possuir a essência do ren é o que define a humanidade. Terence H. Irwin, Ética a Nicómaco (com Introdução, Notas e Glossário, segunda edição) (Indianápolis: Hackett Publishing Co., 1999), 14. Irwin, Ética a Nicómaco, 10. https://robotsguide.com/robots/paro . Acedido em 12 de fevereiro de 2025. Ver Constantinescu e Crisp, «Os sistemas robóticos de IA podem ser virtuosos e por que é que isso importa?» Ver David J. Chalmers, Reality+: Mundos Virtuais e os Problemas da Filosofia (W. W. Norton & Company, 2022). Defendi que o «ren», enquanto virtude abrangente, é orientado para o cuidado e assenta no cuidado (ver Capítulo 2 de Chenyang Li, «Reshaping Confucianism: A Progressive Inquiry». Nova Iorque: Oxford University Press, 2023). Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, p. 104. Irwin, Ética a Nicómaco, 14.
Hoje Macau Via do MeioUma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (2) Por Chenyang Li (continuação do número anterior) Duas categorias de virtude No Ocidente, a tradição da ética da virtude remonta a Aristóteles. Adotando uma abordagem funcional da virtude, a teoria de Aristóteles salienta a utilidade da virtude para que o indivíduo leve uma vida boa. A teoria da virtude de Aristóteles pode ser interpretada tanto de forma «espessa» como de forma «fina». Numa interpretação «forte», para ser virtuoso, o sujeito deve (a) realizar as ações corretas, (b) pelas razões certas e (c) nas circunstâncias adequadas.16 Nesta perspetiva, Michael Constantinescu e R. Crisp estabelecem uma distinção entre ser virtuoso, por um lado, e comportar-se de forma virtuosa, por outro. De acordo com a sua análise, os robôs de IA podem ser capazes de se comportar de forma virtuosa, mas não podem ser virtuosos. Argumentam que: Apesar da sua capacidade de imitar ações virtuosas humanas e até de se comportarem de forma equivalente aos seres humanos, os sistemas robóticos de IA não conseguem realizar ações virtuosas de acordo com as virtudes, ou seja, de forma correta ou virtuosa; nem pelas razões e motivações certas; nem, através da phronesis, ter em conta as circunstâncias adequadas. E isto tem como consequência que a IA não pode ser genuinamente virtuosa, pelo menos não com os avanços tecnológicos atuais que sustentam o seu desenvolvimento funcional.17 A interpretação de Constantinescu e Crisp sobre o que é ser virtuoso pode muito bem refletir o que Aristóteles afirmou quando discutiu a pessoa virtuosa. No entanto, não está de acordo com o que Aristóteles disse sobre a função e a virtude em geral. Também é possível fazer uma interpretação restrita da teoria da virtude de Aristóteles, uma interpretação que não se baseia na capacidade do sujeito de usar a razão. Christine M. Korsgaard escreve: Os filósofos gregos parecem, em geral, ter acreditado que uma virtude ou excelência é uma qualidade que permite que uma coisa desempenhe bem a sua função. Tanto Platão como Aristóteles estabelecem uma ligação conceptual entre ergon e arete. Uma arete não é meramente um dos pontos positivos de uma coisa; é, especificamente, uma qualidade que torna uma coisa capaz de desempenhar bem a sua função.18 Os termos gregos para «função» e «virtude», ergon e arete, aplicam-se tanto às pessoas humanas como aos seres não humanos. Aristóteles atribui estas características tanto às pessoas humanas como às «coisas» (NE 6.2 1139a17, NE 2.6 1106a15–23). Ele defende que «a virtude de uma coisa está relacionada com a sua função própria» (NE 6.2 1139a17) e que «toda a virtude, por um lado, coloca em bom estado a coisa de que é virtude e, por outro, faz com que a função dessa coisa seja bem desempenhada» (NE 2.6 1106a15–23). Aristóteles recorre aos exemplos de um flautista, de um escultor ou de um artista para defender o seu argumento de que «para todas as coisas que têm uma função ou atividade, considera-se que o bem e o “bem feito” residem na função; assim pareceria ser também para o homem, se ele tiver uma função» (NE I.7, 1097b24 e seguintes). Numa interpretação restrita, as noções de função e virtude de Aristóteles podem ser aplicadas também aos sistemas robóticos de IA. Uma coisa pode ter muitas funções. Uma faca pode ser utilizada para cortar, para decoração e até mesmo como peso de papel. No entanto, a função própria de uma faca enquanto faca, segundo o raciocínio de Aristóteles, é cortar. Portanto, uma faca excelente, enquanto faca, é aquela que corta bem. É aí que reside a arete de uma faca, a sua excelência ou virtude. Como a função própria de uma faca é diferente da de, digamos, um martelo, a sua excelência ou virtude também é diferente da de um martelo. Para usar os próprios exemplos de Aristóteles, a função própria — a atividade característica — de um flautista é diferente da de um escultor. Um flautista, por exemplo, tem de ser capaz de soprar bem e de mover os dedos nas notas certas, enquanto um escultor cria esculturas esculpindo, modelando ou soldando os materiais adequados para transformá-los em obras de arte. Como têm funções diferentes, um excelente escultor pode ser muito mau a soprar ar num instrumento musical, e o inverso aplica-se a um excelente flautista. Por outras palavras, diferentes formas de ergon requerem diferentes tipos de arete. Na perspetiva de Aristóteles, no entanto, para além dos papéis específicos das pessoas na sociedade, os seres humanos, enquanto seres humanos, partilham também uma função comum na vida, que é exclusiva da humanidade. Aristóteles defende que a alma humana tem várias funções. Ela mantém a vida vegetativa dos nossos corpos, a vida da nutrição e do crescimento. A alma também mantém as nossas funções animadas, que nos permitem movimentar-nos e ir ao encontro das coisas. Mas estas funções, argumenta Aristóteles, não são a nossa função própria. A vida vegetativa pertence até às plantas; as funções animadas pertencem também aos animais. Para Aristóteles, o uso da razão é a função própria da humanidade (NE 2.7 1197b35-1198a7). Portanto, a virtude dos seres humanos é o que os leva a desempenhar bem a sua função distintiva (NE 2.6 1106a15–23). Assim, uma vida que segue a razão conduz à eudaimonia («florescimento humano»), permitindo-nos viver bem enquanto seres humanos. Viver uma vida de eudaimonia é o objetivo supremo da humanidade. Nas tradições filosóficas orientais, o conceito de virtude ocupa um lugar central na ética confucionista. A palavra para virtude em chinês é «de». O antigo dicionário chinês Shuowen Jiezi explica o seu significado através do seu homófono «», ou seja, adquirir, realizar. Explica ainda que isto significa «de shi yi ye» (謰燭鼫), nomeadamente, levar as coisas a bom termo de forma adequada. Trata-se de um poder ou capacidade que permite ao seu possuidor alcançar os seus objetivos. Tal qualidade é atribuída tanto aos seres humanos como aos objetos não humanos. O texto taoísta *Daodejing* afirma que tudo no mundo possui o seu *de* (*Daodejing*, Capítulo 51). Na tradição confucionista, *de* é aplicado principalmente às pessoas, mas também se aplica a objetos não humanos. Por exemplo, o Comentário Xi do Livro das Mutações afirma: «a maior virtude (de) do céu e da terra é gerar as coisas 蘢礜巃»»擯崵.» Confúcio disse: «um governante que governa o seu estado com virtude (de) é como a Estrela Polar do Norte, que permanece no seu lugar enquanto todas as outras estrelas giram à sua volta» “Para o ‘Fan’ e o ‘Yi’, a luz do sol brilha sobre a multidão.” (19)Ao dizer isto, Confúcio sugeriu que é a virtude (de) da Estrela Polar que permite que as outras estrelas se movam em harmonia à sua volta. Confúcio também disse: «Um bom cavalo não é elogiado pela sua força, mas pela sua virtude (de): “骥嫄称剢淛, 称剢适憟”» (Analectos 14:33). A afirmação de Confúcio sugere que a verdadeira virtude de um bom cavalo não é (meramente) a sua força, mas as suas outras capacidades que lhe permitem correr bem, presumivelmente tais como resistência e fiabilidade. Nestas utilizações, o conceito de «virtude» é aplicável tanto aos seres humanos como aos sistemas robóticos de IA. Pensadores clássicos como Confúcio, Mencius e Xunzi enfatizaram, todos eles, a necessidade de cada pessoa cultivar a virtude e tornar-se um ser humano virtuoso. A visão mais influente de Mencius na filosofia moral é o seu argumento de que as disposições inatas das pessoas podem transformar-se em virtudes morais através do autocultivo. Mencius defendia que todos os seres humanos nascem com quatro tipos de sentimentos inatos: o sentimento de compaixão, o sentimento de desdém, o sentimento de respeito e o sentimento de aprovação e desaprovação. Através do cultivo ativo, as pessoas podem transformar estes sentimentos naturais em disposições éticas, nomeadamente a virtude cardinal da humanidade (ren 嬬), da retidão (yi 义), da cortesia (li 礼) e da sabedoria (zhi 簹) (Mencius 6A6). Xunzi defendia que as pessoas nascem com uma tendência para fazem coisas egoístas e sem moralidade. Causarão o caos na sociedade. Ele defende que, através do estabelecimento de regras de decoro ritual (li) na sociedade, as pessoas podem alterar as suas disposições naturais e tornar-se seres humanos virtuosos. Ao praticar a correção ritual através do autocultivo, as pessoas desenvolvem virtudes como o respeito (gong jing 剉杶), a lealdade (zhong xin 蘙蝁), a civilidade e a retidão (li yi 礼义) e a preocupação com os outros (ai ren 爱嬣) (Xunzi, Capítulo 2). As teorias da virtude de Mencius e Xunzi constituem o seu desenvolvimento da teoria da virtude de Confúcio, embora coloquem ênfase em aspetos diferentes. A contribuição mais fundamental para a teoria da virtude da ética confucionista foi dada por ninguém menos que o próprio Confúcio. A ética da virtude de Confúcio centra-se no desenvolvimento do conceito de ren 嬬. O significado original do caractere ren 嬬 refere-se a um sentimento de ternura para com os outros.20 Confúcio articulou o significado de ren em termos de «amar as pessoas» (ai ren 爱嬣, Analectos 12.22). Tanto Mencius como Xunzi, tal como apresentado acima, herdaram este significado de «ren» de Confúcio. No entanto, Confúcio não se limitou a isso na sua articulação do «ren». Ele alargou ainda mais o conceito como uma virtude abrangente da humanidade. Confúcio disse: Quem conseguir praticar cinco coisas, em qualquer parte do mundo, pode tornar-se uma pessoa de ren.21 … Respeito (gong剉), tolerância (kuan宽), sinceridade (xin蝁), diligência (min睌) e bondade (hui). Se alguém for respeitoso, não será tratado com desrespeito. Se for tolerante, conquistará o coração de todos. Se for sincero, inspirará confiança. Se for diligente, alcançará os seus objetivos. E se for bondoso, poderá desfrutar do serviço dos outros. (Analectos 17.6) Aqui, «ren» não é uma virtude específica de cuidado para com os outros, mas sim uma virtude abrangente que pode ser adquirida através da prática de várias virtudes específicas. Ou seja, alcança-se o «ren» praticando as cinco virtudes específicas: respeito, tolerância, confiabilidade, diligência e bondade (Analectos 17.6). Essa lista, no entanto, não é exaustiva. Confúcio também disse: «As pessoas com ren ajudam os outros a prosperar se desejam prosperar elas próprias, e ajudam os outros a ter sucesso se desejam ter sucesso elas próprias (da 达). Ser capaz de julgar os outros com base no que nos é próximo é o método para se tornar ren» (Analectos 6.30). Ser capaz de inspirar-se no que nos é próximo é estender o nosso coração aos outros, compreender os outros pensando no que nós próprios sentiríamos. Seguindo esta linha de pensamento, Confúcio afirmou que o ren exige que não façamos aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem (Analectos 12.2). Para resumir a visão de Confúcio. O «ren», enquanto virtude, tem um significado específico e um significado mais amplo. Wing-tsit Chan afirmou: «Como virtude geral, o “ren” significa humanidade, ou seja, aquilo que faz do homem um ser moral. Como virtude específica, significa amor.» 22Para efeitos deste ensaio, gostaria de salientar que, na teoria de Confúcio, as virtudes dividem-se em duas categorias. A primeira é a das virtudes específicas. Esta categoria de virtudes inclui uma longa lista de traços morais específicos, tais como o respeito, a tolerância, a confiabilidade, a diligência, a bondade, etc. A segunda categoria é a da virtude abrangente da humanidade refinada. Uma pessoa dotada de «ren» neste último sentido, o da humanidade refinada, possui uma variedade de virtudes específicas. Neste segundo sentido, Confúcio afirmou, numa frase célebre, que «o “ren” é [a característica distintiva da] humanidade.»23 Na tradição confucionista, aqueles que possuem a virtude abrangente do ren podem ser chamados de junzi (珋磾, ver Analectos 4.5). Um junzi é uma pessoa virtuosa que possui uma variedade de virtudes. De acordo com os Analectos, essas pessoas não formam grupinhos (2.14); comportam-se com cavalheirismo quando competem (3.7); são cautelosas quando falam e diligentes quando agem (4.24); comportam-se com modéstia, tratam os superiores com respeito, são bondosas para com as pessoas e agem de forma adequada ao contratar pessoas (5.16); são cultas (6.27); são harmoniosas sem serem uniformizadoras (13.27); são corajosas (17.23). Entretanto, Confúcio também defendia que os junzi não são unidimensionais como um utensílio (junzi bu qi 珋磾嫄厞, 2.12). Ser como um utensílio é ser uma ferramenta destinada apenas a uma tarefa específica, fazer apenas uma coisa, ter apenas uma existência unidimensional. Um ser humano, na visão de Confúcio, deve desenvolver-se como uma pessoa completa e ser bom enquanto ser humano em si mesmo. Tais pessoas, ou junzi, possuem uma variedade de virtudes específicas, mas também não se limitam a essas virtudes específicas isoladas. São capazes de entrelaçar essas virtudes num todo equilibrado, alcançando a virtude abrangente do ren. Assim, parece existir um paralelo entre Confúcio e Aristóteles. Para Aristóteles, uma pessoa que vive em eudaimonia «é aquela cujas atividades estão em consonância com a virtude plena, com um suprimento adequado de bens externos, não apenas por um período qualquer, mas ao longo de uma vida completa» (NE 1.10 1101a 15–17).24 Por outras palavras, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas na vida. Aristóteles não considerava a eudaimonia em si mesma como uma virtude, mas sim como uma atividade virtuosa. Defendia que se trata de «um certo tipo de atividade da alma em conformidade com a virtude» (NE 2.9 1099b25). No entanto, Aristóteles aceitou que a sua visão é consistente com a ideia de que a eudaimonia «é a virtude [em geral] ou alguma virtude [particular]; pois a atividade em conformidade com a virtude é própria da virtude» (NE 1.7 1198b 30-32).25 Aristóteles reconhece que o conceito de virtude pode, por vezes, implicar a eudaimonia (NE 1.7 1198b 32-1099a 5). Se pudermos defender aqui uma interpretação de certa forma confucionista, podemos dizer que, na medida em que a função própria da humanidade é viver de acordo com a razão, e viver bem de acordo com a razão é eudaimonia, a eudaimonia encaixa-se na definição de virtude (arete) de Aristóteles. Independentemente de Aristóteles ter ou não chamado a eudaimonia de virtude, num sentido lato, uma vida de eudaimonia, segundo Aristóteles, é análoga a uma vida de ren (virtude abrangente) para Confúcio. Para Aristóteles, uma pessoa dotada de uma virtude específica pode não ser um ser humano excelente se não agir de acordo com a razão e não possuir outras virtudes específicas. Confúcio defendia uma visão semelhante. Ele defendia, por exemplo, que uma pessoa dotada de ren tem necessariamente de ser corajosa, enquanto que uma pessoa corajosa pode não ser ren (嬬簅, 饡膧曏; 曏簅, 嫄饡膧嬬; Analectos 14.4). Ser corajoso é possuir uma virtude específica; ser «ren», no sentido de virtude abrangente, é possuir a virtude abrangente da humanidade.
Hoje Macau Via do MeioUma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (1) Por Chenyang Li Introdução O grande avanço da tecnologia de Inteligência Artificial (IA) esbateu rapidamente as fronteiras entre a humanidade e o mundo não humano, tornando os dois cada vez mais indistinguíveis.1 Tradicionalmente, considera-se que apenas os seres humanos possuem virtudes morais, o que constitui uma característica única da humanidade; agora, as máquinas de IA também são consideradas moralmente virtuosas.2 Neste ensaio, procuro articular, numa perspectiva confucionista, uma diferença fundamental entre as virtudes humanas e as virtudes das máquinas de IA.3 A primeira secção deste ensaio aborda questões gerais sobre a ética da IA, a fim de estabelecer o contexto para a minha argumentação. Na segunda secção, defino e reconstruo duas categorias de virtudes — as virtudes específicas e a virtude abrangente —, numa perspectiva confucionista. Na terceira secção, defendo que uma diferença fundamental entre máquinas de IA virtuosas e seres humanos virtuosos reside no facto de, enquanto os objetivos dos robôs de IA são específicos e as suas virtudes também o são, de acordo com os objetivos para os quais foram concebidos, os seres humanos, independentemente dos papéis específicos que desempenham na vida — que exigem virtudes específicas —, também têm como objetivo alcançar uma vida virtuosa, o que requer a virtude abrangente da humanidade refinada. Abordagens baseadas em princípios e na virtude Com o rápido desenvolvimento da tecnologia de IA, a ética da IA tem vindo a tornar-se uma área em expansão da filosofia moral. A ética da IA, enquanto termo geral, pode referir-se a duas questões relacionadas, mas distintas. Em primeiro lugar, pode significar a ética profissional dos profissionais de IA, ou seja, das pessoas que criam e desenvolvem tecnologia de IA. Neste sentido, a ética da IA, tal como a ética médica ou a ética da engenharia, diz respeito ao código ético que os profissionais de IA devem seguir na criação de tecnologia de IA. Podemos questionar-nos sobre que tipo de código de ética profissional os profissionais da IA devem seguir no seu trabalho, em contraste com os profissionais de outras áreas. Em segundo lugar, a ética da IA também pode referir-se ao código de ética para máquinas robóticas de IA, tendo as próprias máquinas robóticas de IA como sujeitos.4 Neste segundo sentido, a ética da IA diz respeito a «agentes morais artificiais», ou seja, às formas como a robótica de IA deve comportar-se eticamente. Para maior clareza, podemos designar a ética da IA no primeiro sentido por «ética profissional da IA» e, no segundo sentido, por «ética das máquinas de IA». Em qualquer uma das áreas da ética da IA, em termos gerais, existem dois tipos de abordagens. Uma delas é a abordagem baseada em princípios, uma abordagem predominante neste campo. Na ética profissional da IA, por exemplo, a abordagem baseada em princípios procura definir princípios éticos relevantes para regulamentar o comportamento dos profissionais da IA. Um influente estudo de 2019, da autoria de Brent Mittelstadt, mostra que, até essa altura, pelo menos 84 iniciativas de ética da IA já tinham publicado relatórios que descreviam princípios éticos de alto nível, dogmas, valores ou outros requisitos abstratos para o desenvolvimento e a implementação da IA.5 De acordo com este estudo: Uma análise recente revelou que muitas iniciativas de ética da IA convergiram para um conjunto de princípios que se assemelham estreitamente aos quatro princípios clássicos da ética médica. Esta conclusão foi posteriormente endossada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)⁹ e pelo Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Inteligência Artificial da Comissão Europeia, que propôs quatro princípios para orientar o desenvolvimento de uma IA «confiável»: respeito pela autonomia humana, prevenção de danos, equidade e explicabilidade.6 Mittelstadt argumenta, no entanto, que, ao contrário da medicina, o desenvolvimento da IA apresenta lacunas em quatro áreas importantes: (1) objectivos comuns e deveres fiduciários, (2) história e normas profissionais, (3) métodos comprovados para traduzir princípios na prática e (4) mecanismos robustos de responsabilização jurídica e profissional. Estas diferenças, segundo Mittelstadt, sugerem que «ainda não devemos comemorar o consenso em torno de princípios de alto nível que ocultam profundas divergências políticas e normativas.»7 Nas práticas de desenvolvimento da IA, a abordagem baseada em princípios é limitada, em parte porque os princípios exigem especificação e equilíbrio em diferentes contextos de tomada de decisão. Um estudo mais recente de Thilo Hagendorff descreve uma viragem prática no desenvolvimento da ética profissional da IA, passando «do quê para o como».8 O autor defende que essa viragem prática, baseada no principialismo, é, no entanto, inadequada, porque «os quadros da viragem prática são, muitas vezes, apenas códigos de ética mais detalhados que utilizam conceitos mais específicos do que as orientações iniciais de alto nível».9 Como alternativa à abordagem baseada em princípios, Hagendorff defende uma abordagem baseada nas virtudes. Ele afirma: «Em vez de se concentrar apenas nos princípios, a ética da IA pode dar maior ênfase às virtudes ou, por outras palavras, às disposições de caráter dos profissionais da IA, a fim de se pôr efetivamente em prática.»10 Mais especificamente, Hagendorff propõe quatro «virtudes básicas da IA», nomeadamente justiça, honestidade, responsabilidade e cuidado, a serem complementadas por virtudes de segunda ordem, tais como prudência e fortaleza. Estas virtudes são importantes porque representam contextos motivacionais específicos que constituem a condição prévia para a tomada de decisões éticas no desenvolvimento da tecnologia de IA. Estas duas abordagens, a baseada em princípios e a baseada na virtude, também são utilizadas na área da ética das máquinas de IA. A abordagem baseada em princípios remonta às três leis fundamentais do romancista futurista Isaac Asimov (1920–1992) para orientar o comportamento dos robôs. São elas: Um robô não pode causar dano a um ser humano nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra dano. Um robô deve obedecer às ordens que lhe forem dadas por seres humanos, excepto quando tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.11 Num artigo de 2021, propus uma abordagem baseada em princípios à ética das máquinas de IA a partir de perspetivas confucionistas.12 Os pensadores confucionistas clássicos, Mencius e Xunzi, articularam diferentes interpretações sobre os fundamentos da ética. Mencius defende que os seres humanos são únicos, na medida em que nascem com um coração humano (xin 裶). Cultivar esse coração humano tornar-nos-á autenticamente humanos e conduzir-nos-á a uma vida humana moral. Assim, se seguirmos uma abordagem menciana em relação à ética das máquinas de IA, poderemos instalar nos robôs humanóides um princípio de «não causar dano» como mecanismo prioritário, garantindo que os robôs não possam realizar certas ações extremamente destrutivas que prejudiquem a humanidade ou outras formas de vida formas e uns com os outros. Em contrapartida, Xunzi defende que os seres humanos se tornam morais ao adquirirem normas sociais da sociedade. Os seres humanos não possuem moral quando nascem; são posteriormente «programados» para agir moralmente. Se seguirmos Xunzi, poderemos estabelecer regras para orientar as ações da IA sem um único princípio superior que proteja a humanidade, outras formas de vida no mundo e outros robôs humanóides. Poderemos dar-lhes regras a obedecer, tal como os carros sem condutor obedecem às regras de trânsito. Seguindo tais regras, as máquinas robóticas com IA terão como objetivo cumprir as metas que lhes forem atribuídas, independentemente da natureza dessas metas. As críticas à abordagem baseada em princípios da ética dos profissionais da IA aplicam-se também à ética das máquinas de IA. Pois, independentemente do tipo de princípios morais que imponhamos, há sempre a necessidade de os adaptar a contextos específicos. Por esta razão, são necessárias abordagens alternativas, pelo menos para complementar, se não para substituir, a abordagem baseada em princípios da ética das máquinas de IA. Uma questão relacionada, e talvez mais profunda, é se as máquinas robóticas com IA podem ser verdadeiramente consideradas sujeitos morais. A complicar ainda mais a questão está a questão de saber se as máquinas robóticas com IA possuem consciência. Se as máquinas não podem ter consciência, presumivelmente não têm subjetividade, para não falar de livre arbítrio, e, por conseguinte, não podem tornar-se sujeitos morais. No entanto, as opiniões estão divididas quanto à questão da consciência. Algumas pessoas negam que as máquinas possam ter consciência. Defendem que as máquinas com IA podem simular comportamentos semelhantes aos humanos, mas nunca serão verdadeiramente conscientes. Outras acreditam que as máquinas com IA poderiam alcançar a consciência. Defendem que, se forem concebidas com complexidade suficiente e com os algoritmos certos, as máquinas com IA poderiam desenvolver consciência. O debate gira frequentemente em torno da questão de como a consciência deve ser definida. David Chalmers designou a questão da natureza da consciência como «o problema difícil»: O que torna o «problema difícil» difícil e quase único é o facto de ir além dos problemas relacionados com o desempenho das funções. Para compreender isto, note-se que, mesmo quando tivermos explicado o desempenho de todas as funções cognitivas e comportamentais relacionadas com a experiência —discriminação percetiva, categorização, acesso interno, relato verbal—, pode ainda subsistir uma questão por responder: por que razão o desempenho destas funções é acompanhado pela experiência? (ênfase no original)13 Se nunca pudermos conhecer a natureza da consciência, como sugere Chalmers, então nunca poderemos saber se as máquinas de IA possuem consciência. No entanto, presumivelmente, ser um agente moral requer uma tomada de decisões consciente; caso contrário, essa designação torna-se sem sentido. Se os robôs de IA, enquanto máquinas, por mais avançados que sejam, não possuem consciência, faz sentido considerá-los agentes morais? Se os sistemas robóticos de IA podem ser agentes morais, como é que os responsabilizamos moralmente pelas suas ações? Estas questões não podem ser resolvidas facilmente. No seu influente livro *Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong*, Wendell Wallach e Colin Allen tentaram contornar a difícil questão da consciência adotando uma abordagem funcional.14 Defendem que as propriedades importantes da consciência são melhor compreendidas do ponto de vista funcional e que a equivalência funcional do comportamento é tudo o que pode realmente importar para as questões práticas da conceção de agentes morais artificiais. Esta funcionalidade pode ser observada no caso do voo. O voo, enquanto propriedade funcional, argumentam eles, pode ser alcançado de várias formas, desde que se consiga levantar voo e permanecer no ar durante um período de tempo razoável. Na sua opinião, no que diz respeito à questão dos agentes morais artificiais, é irrelevante se as máquinas de IA possuem a propriedade fenomenológica da consciência humana. No seu livro, Wallach e Allen discutem como a ética das virtudes pode ser aplicada aos agentes morais artificiais. Argumentam que as virtudes constituem uma aplicação híbrida que integra abordagens de cima para baixo e de baixo para cima. Na medida em que as próprias virtudes podem ser descritas explicitamente, trata-se de uma abordagem de cima para baixo. Entretanto, a aquisição de virtudes como traços de caráter moral é essencialmente um processo de baixo para cima.15 O seu objectivo é desenvolver um sistema ético viável para máquinas robóticas de IA. Neste ensaio, também adopto uma abordagem baseada na ética das virtudes para a ética das máquinas de IA, mas com um objetivo diferente. O meu objectivo é revelar uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e máquinas de IA virtuosas, e faço-o a partir de uma perspectiva confucionista. (continua)
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Intrigante Beleza da Deusa do Rio Luo Qu Yuan (c.349 – 278 a. C.), o celebrado poeta do inquietante tempo dos Estados Combatentes, é apontado como autor de uma série de cento e setenta e duas perguntas que fazem parte da recolha Chuci, «Elegias de Chu», o Estado em que nasceu e que serviu lealmente como seu ministro, mas que se distinguem pela forma, mais próxima de textos fundamentais como o Daodejing ou o Shijing. Nelas estão recolhidos conhecimentos populares e eruditos que se referem a eventos intrigantes da mitologia e antigas crenças religiosas, não evitando referências a contradições ou enigmas. Diz-se que o poeta começou a conceber essas «Perguntas ao Céu», Tianwen, após ter observado várias cenas pintadas em murais no templo dos ancestrais do Estado Chu. Uma dessas inquirições, que se lê como uma charada diz: «O imperador enviou Houyi para reformar o povo da primeira dinastia Xia, porque é que ele disparou uma seta contra Hebo e tomou para si a sua esposa Fufei?» Houyi é o lendário e heróico arqueiro que destruiu nove dos dez sóis que existiam no princípio dos tempos. Hebo, o «Senhor do rio» também conhecido como Heshen, a «divindade do rio», personifica o espírito impetuoso e benfazejo do grande rio Amarelo, Huanghe, uma figura que emerge como recompensa ao mortal Fengyi que se afogara ou se sacrificara nas águas do rio. Uma resposta ao enigma pode ser lida no Huainanzi, o Livro dos sábios de Huainan (escrito antes de 139 a. C.) que fala deste carácter dúplice do rio que tanto fertiliza, irrigando as margens, como causa inundações devastadoras. Numa dessas catástrofes foi chamado o herói arqueiro que lhe acertou uma flecha no olho esquerdo obrigando-o a fugir. O prémio que Houyi se atribuiu foi levar a esposa do deus do rio, filha de Fuxi, o primeiro mítico imperador, uma mulher fascinante conhecida por nomes diversos como Fufei, a «Consorte Fu» ou Luoshen, a «Divindade do rio Luo», um longo rio que nasce na Província de Shaanxi e desagua no rio Huanghe em Henan. Uma deusa deslumbrante e inesgotável fonte de inspiração. Wei Jiuding, um pintor de Tiantai (Zhejiang) que viveu no século XIV, ao contrário da mais célebre pintura sobre ela, o rolo horizontal de Gu Kaizhi (c.345-406) que inclui e ilustra o poema de Cao Zhi (192-232), que mostra o encontro em sonhos da deusa com o poeta, concebeu um retrato da deusa isolada. Usando o método da linha clara baimiao, num rolo vertical (tinta sobre papel, 90,8 x 31,8 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) a pintura na escassez de referências espaciais sublinha o inefável da visão deslizante sobre as águas, numa brisa tão leve que apenas faz esvoaçar as longas tiras do seu vestuário. Que o poeta-princípe Cao Zhi descreveu como: «leve como um cisne em alvoroço, flexível como um dragão a nadar, radiante como um crisântemo no Outono, viçosa como um pinheiro na Primavera.»
Sara F. Costa Via do MeioQiu Jin – O pincel e a espada Tradução, comentário e notas por Sara F. Costa 題《芝龕記》八章(其七、其八) Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí qī, qí bā) VII 結束戎妝貌出奇, Jiéshù róngzhuāng mào chūqí, 個人如玉錦駝騎。Gèrén rú yù jǐn tuó qí. 同心兩女肩朝事, Tóngxīn liǎng nǚ jiān cháoshì, 多少男兒首自低。 Duōshǎo nán’ér shǒu zì dī. VIII 肉食朝臣盡素餐, Ròushí cháochén jìn sùcān, 精忠報國賴紅顏。 Jīngzhōng bàoguó lài hóngyán. 壯哉奇女談軍事, Zhuàng zāi qínǚ tán jūnshì, 鼎足當年花木蘭。 Dǐngzú dāngnián Huā Mùlán. O Registo do Nicho de Zhi (poema VII e VIII de VIII) VII Pelo traje de guerra, há um porte que assombra,¹ a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha.² Num só coração, duas mulheres levam o reino aos ombros,³ quantos homens, perante elas, baixam a cabeça.⁴ VIII Fartos de carne, comem os ministros da corte sem servir,⁵ de rosto rubro repousam as mulheres inteiras.⁶ Magníficas, as mulheres singulares transacionam a guerra entre si,⁷ como a Hua Mulan de outrora, perfazem a grande tríade feminina.⁸ Notas ¹ 結束 (jiéshù) conserva aqui o sentido clássico de «vestir-se», «compor o traje» ou «aprontar-se». 戎妝 (róngzhuāng) designa o trajo militar, em particular a figura revestida de armadura. O verso apresenta as duas mulheres depois de se armarem. A tradução «Em trajo de guerra» evita a leitura moderna de 結束 (jiéshù) como «terminar», que levaria ao sentido incorreto de despir ou abandonar a indumentária militar. 貌出奇 (mào chūqí) caracteriza a sua aparência como extraordinária. «Um porte que assombra» converte essa singularidade numa impressão visual (Qiu, 2020, notas 289–291). ² 個人 (gèrén) possui aqui o valor clássico de «aquela pessoa» ou «aquela figura», frequentemente aplicado a alguém contemplado com admiração, e não o sentido moderno de «indivíduo» ou «pessoal». 玉 (yù), «jade», evoca beleza, luminosidade e valor. Em 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 錦 (jǐn) sugere o brocado e 駝 (tuó) funciona como verbo, «carregar às costas», num uso equivalente a 馱 (tuó). 騎 (qí) designa a montada. A imagem apresenta, portanto, uma figura semelhante a jade, envolta em brocado e transportada pelo animal. Este valor verbal de 駝 (tuó) encontra-se registado no Dicionário Revisto de Mandarim do Ministério da Educação de Taiwan. A tradução preserva a compactação visual do verso e afasta a leitura literal de «camelo», estranha ao contexto. ³ 同心 (tóngxīn), literalmente «com o mesmo coração», exprime união de propósito. 肩(jiān) funciona como verbo, «carregar aos ombros» ou «assumir», enquanto 朝事(cháoshì) designa os assuntos da corte e, por extensão, os negócios do Estado. «Levam o reino aos ombros» conserva a metáfora corporal e torna perceptível o peso político confiado às duas mulheres. ⁴ 首自低 (shǒu zì dī) significa que as cabeças dos homens «se baixam por si mesmas». O gesto reúne vergonha, reconhecimento e submissão perante a evidência do mérito feminino. «Perante elas» explicita a relação implícita no verso chinês. ⁵ 肉食 (ròushí), literalmente «comer carne», designa os titulares de cargos elevados e evoca a frase 肉食者鄙,未能遠謀 (ròushí zhě bǐ, wèinéng yuǎn móu), «os que comem carne são de visão estreita e incapazes de conceber planos distantes», do Zuǒ zhuàn 左傳 (Zuǒ zhuàn). 素餐 (sùcān) significa receber sustento ou remuneração sem prestar serviço e remete para a expressão 不素餐兮 (bù sùcān xī), «não come em vão», do poema 伐檀 (Fátán) do Shījīng 詩經 (Shījīng). Qiu Jin funde as duas alusões numa sátira aos ministros que vivem dos privilégios da corte sem cumprirem o dever correspondente. «Comem sem servir» procura conservar a relação entre alimento, remuneração e inutilidade pública (Qiu, 2020, notas 292–294; Ruan, 1980). ⁶ 精忠報國 (jīngzhōng bàoguó) exprime o serviço da pátria com lealdade inteira. 賴(lài) significa «depender de» ou «contar com». 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rubro», constitui uma designação convencional da mulher, associada à juventude e à beleza. «Rostos de mulher» conserva a metonímia corporal e a tonalidade cromática do original. A frase transfere para as mulheres a virtude política que os ministros do verso anterior abandonaram. ⁷ 談軍事 (tán jūnshì) significa falar, deliberar ou tratar de assuntos militares. O verso reconhece às mulheres uma autoridade estratégica e discursiva, além da coragem demonstrada no combate. «Tratam da guerra» preserva essa amplitude. ⁸ 鼎足 (dǐngzú) alude aos três pés do dǐng 鼎 (dǐng), vaso ritual cuja estabilidade depende de três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan formam assim uma tríade de heroínas colocadas em plano de igualdade. Hua Mulan 花木蘭 (Huā Mùlán) é a guerreira da tradição literária que ocupa o lugar do pai no exército. A versão mais antiga conservada da lenda encontra-se na Balada de Mulan, embora a personagem tenha adquirido formas distintas ao longo dos séculos (Idema & Kwa, 2010). «Perfazem o tripé» reproduz a estrutura ternária da imagem e o gesto de consagração que encerra o ciclo. Comentário As duas composições finais encerram o ciclo através de três movimentos sucessivos. O sétimo poema dá corpo às figuras cuja representação pictórica fora desejada no sexto. O oitavo transforma esse retrato em acusação política e termina com a inscrição de Qin Liangyu e Shen Yunying numa genealogia heroica presidida por Hua Mulan. A imagem, o juízo e a memória convergem no fecho. O primeiro verso do poema VII exige particular cautela. Embora na contemporaneidade, 結束 (jiéshù) signifique habitualmente «terminar», o uso clássico presente no poema corresponde a vestir-se, compor o traje e preparar o corpo para a ação. A cena começa, portanto, com a assunção da armadura. A tradução «Pelo traje de guerra » fixa esse momento e impede a inversão narrativa por oposição a versões que imaginam as mulheres depois de despirem o uniforme. 戎妝 (róngzhuāng) reúne dois campos semânticos. 戎 (róng) pertence à guerra e às armas. 妝 (zhuāng) pertence ao adorno e à composição da aparência. O eu poético conserva no mesmo vocábulo a feminilidade e o equipamento militar. A guerreira surge como uma figura construída pela convergência desses códigos. A armadura integra a sua aparência e transforma-a num corpo público, preparado para comandar. 貌出奇 (mào chūqí) assinala o efeito produzido por essa aparição. 出奇 (chūqí) descreve aquilo que excede o habitual e provoca espanto. «Um porte que assombra» desloca a ênfase da fisionomia para a presença inteira. O assombro nasce da figura armada e da perturbação das expectativas sociais que nela se tornam visíveis. O segundo verso aproxima matéria, cor e movimento. 玉 (yù), o jade, oferece uma imagem de brilho contido, pureza e valor. 錦 (jǐn), o brocado, acrescenta cor, textura e distinção. A montada introduz o movimento que faltava ao retrato imaginado no poema VI. As duas mulheres deixam a imobilidade de uma pintura ausente e atravessam agora o verso como figuras equestres. A sequência 錦駝騎 (jǐn tuó qí) apresenta uma sintaxe muito comprimida. 駝 (tuó) pode designar o ato de transportar sobre o dorso. A leitura que melhor se articula com a cena entende a montada como suporte da figura revestida de brocado. «a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha» conserva o fulgor mineral, a riqueza do tecido e a elevação do corpo. No segundo dístico, o poema abandona a contemplação e revela a dimensão política dessas figuras. 同心 (tóngxīn) apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como uma unidade de vontade. O coração comum substitui a exceção individual por uma aliança feminina. As duas mulheres partilham a responsabilidade pelo destino coletivo. O verbo 肩 (jiān) converte o ombro em ação. Os assuntos da corte adquirem peso e repousam sobre corpos femininos. «Levam o reino aos ombros» amplia 朝事 (cháoshì) sem dissolver a sua origem política. O último verso do poema VII responde a essa elevação com um movimento descendente. As mulheres assumem o peso do reino, enquanto as cabeças masculinas se inclinam. O contraste espacial produz a inversão hierárquica. Torna-se visível na postura dos corpos. 首自低 (shǒu zì dī) contém ainda uma forma subtil de inevitabilidade. As cabeças baixam-se «por si mesmas». Nenhuma autoridade exterior ordena o gesto. O mérito das duas mulheres força os homens ao reconhecimento. A tradução «perante elas» torna explícita essa relação e conserva a ambiguidade entre homenagem e vergonha. O poema VIII abre com a imagem mais satírica de todo o ciclo. 肉食 (ròushí) e 素餐 (sùcān) pertencem ao mesmo campo alimentar, embora apontem para tradições textuais distintas. Os ministros comem carne porque ocupam posições privilegiadas. Ao mesmo tempo, «comem em vão», recebendo honras e remuneração sem serviço correspondente. A abundância da mesa converte-se em prova de esterilidade política. Em português, o verso convoca o ato de pôr comida à mesa e o dever de servir o Estado. A mesa farta e a ausência de serviço tornam-se faces da mesma corrupção. O verso seguinte opõe à inércia dos ministros a lealdade das mulheres. 精忠 (jīngzhōng) designa uma fidelidade levada ao grau máximo. 報國 (bàoguó) associa essa virtude à obrigação de retribuir, proteger ou servir o país. O verbo 賴 (lài) torna a dependência explícita. A ordem política sustenta-se nos «rostos rubros» que a sua própria hierarquia afastava do poder. «Nos rostos de mulher repousa a inteira lealdade à pátria» preserva a imagem corporal de 紅顏 (hóngyán). O rosto feminino, associado pela convenção à beleza, torna-se o lugar onde subsiste a virtude pública. A cor deixa de ornamentar o corpo e passa a iluminar uma falência masculina. Esta inversão conserva uma tensão histórica. O ciclo celebra valores de lealdade e piedade filial herdados da ordem confuciana e ligados, no enredo do Zhīkān jì, ao serviço da dinastia Ming. O eu poético apropria-se desse vocabulário para demonstrar a capacidade política das mulheres. A tradição fornece-lhe os próprios termos com que ela contesta a distribuição masculina da autoridade. Hsieh (2021) observa que as narrativas sobre Shen Yunying legitimaram frequentemente a sua ação militar através da piedade filial e da lealdade. O terceiro verso concede às mulheres um poder adicional. 談軍事 (tán jūnshì) abrange a discussão, a deliberação e o tratamento dos assuntos militares. Qin Liangyu e Shen Yunying possuem força no campo de batalha e voz na esfera estratégica. «transacionam a guerra entre si» mantém aberta essa dupla capacidade. A guerra surge como ação e como conhecimento. O adjetivo 奇 (qí), «singular» ou «extraordinário», acompanha as figuras femininas desde o início do poema VII até ao penúltimo verso do ciclo. Primeiro, o porte causa assombro. Depois, as próprias mulheres recebem o nome de «singulares». A repetição transforma a diferença socialmente imposta numa marca de grandeza. Aquilo que escapava à norma torna-se critério de excelência. O último verso condensa a genealogia numa imagem arquitetónica. O dǐng 鼎 (dǐng) permanece de pé graças a três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan ocupam essas posições equivalentes. A comparação abandona o modelo em que uma mulher excecional recebe licença para entrar numa história masculina. As três mulheres formam uma estrutura autónoma de memória heroica. Hua Mulan desempenha uma função decisiva nesse fecho. A sua história circulou durante séculos como paradigma da filha que assume o lugar do pai no exército. Qin Liangyu e Shen Yunying pertencem ao domínio da história dinástica, enquanto Mulan chega através da balada e das suas sucessivas reelaborações literárias. O passado feminino adquire, assim, uma forma ampla, feita de arquivo, teatro, poesia e imaginação. Xia Xiaohong (1998) relaciona a leitura do Zhīkān jì com a formação do imaginário heroico de Qiu Jin. Esta relação torna-se especialmente evidente nas duas composições finais. O retrato das comandantes contém uma dimensão de autorreconhecimento e de desejo. Ao contemplar mulheres armadas, capazes de carregar o reino e de fazer baixar as cabeças masculinas, a autora ensaia a figura pública que procuraria construir para si própria. A sequência completa progride do reconhecimento histórico para a criação de uma comunidade. Nos primeiros poemas, Qin Liangyu e Shen Yunying aparecem como exemplos de fama e capacidade militar. Nos poemas centrais, a sua lealdade e piedade filial expõem a falência dos generais masculinos. Os poemas VII e VIII dão-lhes corpo, voz política e posição numa genealogia. O ciclo termina quando a exceção se converte em linhagem e a linhagem em medida do heroísmo. Referências Chen, S.-C. [陳素貞 Chén Sùzhēn]. (2002). Xìngbié, biànzhuāng yǔ yīngxióng mèng: Cóng Míng-Qīng nǚ shīrén de xiězuò chuántǒng kàn Qiū Jǐn shīcí zhōng de zìwǒ biǎoshù 性別、變裝與英雄夢:從明清女詩人的寫作傳統看秋瑾詩詞中的自我表述 [Género, transformação do vestuário e sonho heroico: A expressão do eu na poesia de Qiu Jin à luz da tradição das poetas Ming e Qing]. Dōnghǎi Zhōngwén Xuébào 東海中文學報, 14, 129–163. https://doi.org/10.29726/TJCL.200207.0006 Hsieh, H.-C. [謝曉菁 Xiè Xiǎojīng]. (2021). Nánxìng wénrén bǐxià de cóngjūn nǚxìng: Yǐ Míngmò nǚjiàng Shěn Yúnyīng wéi héxīn 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming]. Nǚxué Xuézhì: Fùnǚ yǔ Xìngbié Yánjiū 女學學 誌:婦女與性別研究, 48, 1–27. https://doi.org/10.6255/JWGS.202106_(48).01 Idema, W. L., & Kwa, S. (Eds. & Trans.). (2010). Mulan: Five versions of a classic Chinese legend, with related texts. Hackett Publishing Company. Página da obra Qiu, J. [秋瑾 Qiū Jǐn]. (1979). Qiū Jǐn jí 秋瑾集 [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shànghǎi Gǔjí Chūbǎnshè 上海古籍出版社. Qiu, J. [秋瑾 Qiū Jǐn]. (2020). Qiū Jǐn xuǎnjí: Zēngdìng běn 秋瑾選集:增訂 本 [Obras escolhidas de Qiu Jin: Edição aumentada] (G. Yanli [郭延禮 Guō Yánlǐ] & G. Zhen [郭蓁 Guō Zhēn], Eds.). Rénmín Wénxué Chūbǎnshè 人民文學出版社. Ruan, Y. [阮元 Ruǎn Yuán] (Ed.). (1980). Shísānjīng zhùshū: Fù jiàokānjì 十三經注疏:附校勘記 [Comentários e subcomentários aos Treze Clássicos, com notas de crítica textual]. Zhōnghuá Shūjú 中華書局. (Reimpressão da edição de 1816) Wang, L. [王力 Wáng Lì]. (1977). Shīcí gélǜ 詩詞格律 [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhōnghuá Shūjú 中華書局. Xia, X. [夏曉虹 Xià Xiǎohóng]. (1998). Shǐ xìn yīngxióng yì yǒu cí: Qiū Jǐn yǔ Zhīkān jì 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se crê que o heroísmo também é mulher: Qiu Jin e o Zhīkān jì]. Wénxué Pínglùn Cóngkān 文學評論叢刊, 1(2), 227– 236. Nota textual. A transcrição segue a p. 55 de Qiū Jǐn jí 秋瑾集 (Qiū Jǐn jí), de 1979, que apresenta as formas 戎妝 (róngzhuāng), 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 肩朝事 (jiān cháoshì) e 精忠 (jīngzhōng). Algumas transcrições modernizadas substituem 戎妝 (róngzhuāng) por 戎裝 (róngzhuāng), variante semanticamente próxima. Outras apresentam 盡忠(jìnzhōng) em lugar de 精忠 (jīngzhōng). A edição consultada sustenta a leitura 精忠(jīngzhōng), que preservo na tradução.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Grito Pungente do Gibão e o Som Deleitoso do Veado Sidarta Gautama, o Supremo Buda, é protagonista de uma série de histórias que relatam os seus sucessivos nascimentos que prepararam e precederam o seu surgimento como Buda, «o desperto». Entre essas chamadas Jataka, «Histórias do nascimento», em que ele pode encarnar como um macaco, um elefante, um pária ou um rei, e que servem para a sua alma ir aprendendo lições de bondade e fortalecer-se, há uma em que encarna um cervo chamada O rei veado ou O veado de nove cores. Nela se conta como um homem que estava desesperado, em risco de morrer afogado nas rápidas águas de um rio, foi salvo por um veado cuja pele tinha nove cores. Quando o homem lhe perguntou como lhe poderia agradecer, o veado pediu-lhe apenas que não revelasse que o tinha visto nem onde. Mas o homem contou. A rainha daquele país ouvindo falar de um veado com uma pele de nove cores, desejou logo vestir-se com tão soberba pele, pelo que o rei logo partiu com os seus caçadores para o capturar. Quando se percebeu cercado, o veado calmamente explicou o que tinha acontecido e o rei ao saber da ingratidão do homem, o coração cheio de remorsos, não só poupa o veado como promete proteger todas as criaturas vivas. O ingrato sofre logo uma terrível doença como castigo. A história que está figurada na parede da gruta 257 de Mogao, nos arredores de Dunhuang (Gansu) numa pintura datada da dinastia Wei do Norte (386-534) ilustra apenas uma das ligações do Buda ao esquivo cervideo. Dois veados em templos a ele dedicados surgem por vezes joelhados ladeando a roda do dharma, numa alusão ao Parque dos veados, o lugar onde o Buda proferiu o seu primeiro sermão. A sua elegante e assombrosa aparição no meio da floresta terá contribuido para a percepção do secreto e nobre carácter que lhe é atribuído. No Shijing, o Clássico da Poesia, o seu balido (you you) é referido como metáfora da hospitalidade, de encontros felizes, como o que encenou o pintor Ma Yuan (c.1160- 1225) numa folha de álbum (tinta e cor sobre seda, 33,7 x 39,3 cm, no Museu de Arte de Cleveland) em que se vê um literato observando um veado num rio à sombra de um pinheiro, num intenso e emocionante cenário de harmonia. Yi Yuanji, (1000-64),um pintor de Changsha (Hunan), também no íntimo formato de uma folha de álbum (tinta e cor sobre seda, 25 x 26,4 m, no Museu do Palácio Nacional em Taipé), juntou gibões pendurados num carvalho, símbolo da sabedoria da vida longa à presença de um veado, correspondendo ao fonograma dos seus nomes a pintura constitui um voto de promoção para o receptor da pintura. Porém a forma como os dois se manifestam acentua a raridade do cervo. Dois versos do poema Alojado na montanha no Outono precoce, de Wen Tingyun (801?-866), sublinham essa estupefacção: «Frutos caídos, terá passado um gibão,/ Resfolhar de folhas secas,vai passando um veado».
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Tempo Que Passou na Montanha Lanke Wang Zhi, um lenhador que vivia junto do poço Taibai na cidade Qu em Zhejiang, saíu um dia para cortar lenha quando, já na montanha Lanke para onde se dirigiu, escutou um estranho som na floresta. Quando se aproximou viu dois homens velhos, as barbas brancas, sentados em rochas, um de cada lado de uma mesa de pedra sobre a qual num tabuleiro estavam dispostas peças que eles iam lentamente movimentando. Naturalmente distraído pelo inédito acontecimento ficou junto deles observando, esquecido da passagem do tempo. Lembrou-se que tinha fome mas um dos jogadores deu-lhe um caroço de jujuba, que ao colocá-lo na boca lhe saciou totalmente a fome. No fim de um tempo que não saberia quantificar, pensou que tinha que voltar para casa e por isso levantou a mão para segurar o seu machado (fu) mas notou com espanto que a pega de madeira estava completamente desfeita. Regressou então a casa mas chegando à aldeia não reconheceu nenhum dos seus vizinhos. Perguntando-lhes se não sabiam quem ele era, disse-lhes o nome. Os mais velhos lembravam-se vagamente de um certo Wang Zhi que há muitos anos desaparecera na floresta. O relato, ilustrando a possibilidade de o tempo se desdobrar subitamente até ao infinito está presente, com pequenas variações, em muitos outros lugares até ao longínquo Japão. Deste também existem outras versões descrevendo o que estavam a jogar como weiqi, o jogo de estratégia praticado pelos literatos ou o que identifica os velhos como dois dos «Oito imortais», Baxian, Li Tieguai e Lu Dongbin ou a que está no livro Zhi Lin de Yuxi, que viveu na dinastia Jin (345-356) que diz que não eram dois velhos mas dois rapazes que, cantando, chamaram a atenção do lenhador. O nome da montanha, Lanke, onde o episódio decorre traduz-se como «Pega de madeira do machado apodrecida» aludindo ao relato. E o lugar do encontro, a «Caverna das flores de pessegueiro», antigo simbolo da longevidade e a povoação próxima é Longyou, dois caracteres que se lêem como «passeio do dragão» parecendo aludir a algo muito antigo que ali se passara. Em 1992, com efeito ali foi redescoberto um misterioso labirinto de cavernas. Jiang Zai, um pintor com actividade conhecida nos primeiros anos da dinastia Qing, originário de Longyou, é autor de uma pintura de 1682, intitulada Encontro de literatos sob um pinheiro (rolo vertical, tinta e cor sobre papel, 153 x 82 cm, à venda na Sothebys). Numa composição equilibrada pela sábia disposição das «veias de dragão», longmo, um conceito da pintura de paisagens, shanshui, que permitem o fluxo natural do qi, a energia vital que determina o seu dinamismo interior. Nela se notam dois literatos sentados, escutando o marulho incessante de uma cascata, como quem ouve o muito antigo som da natureza. Um dos nomes de pincel que o pintor Jiang Zai usava era «o lenhador da montanha Lanke».
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Sol Vermelho e a Tartaruga de Zhang Gui Wu Wei (1459-1508), um pintor profissional de Nanquim que serviu na corte de três imperadores da dinastia Ming, é autor de uma pintura que encena uma persistente lenda que acompanha a figura do pintor Wu Daozi (activo c. 719-60), que fazia impressionantes pinturas murais na dinastia Tang. Nela se vê o pintor ainda com o pincel na mão, rodeado de três homens, um dos quais segura um tinteiro, que assistem atónitos ao momento em que a figura de um dragão que acabava de ser pintada na superficíe de uma rocha dela se solta e voa para o céu (rolo vertical, tinta sobre seda, 139,5 x 94 cm, no Museu Britânico). A arte de Wu Daozi, que o influente autor Zhang Yanyuan (c.815-c. 877) caracterizou, partindo da concepção literata da pintura, como «tendo pleno controlo do seu espírito concentrava-se no Um e assim trabalhava em harmonia com a Criação» podia rapidamente, na disponibilidade do olhar popular, dar lugar à irrupção do improvável maravilhoso. Das pinturas que hoje lhe são atribuídas e que se distinguem pela linha firme da pincelada chamada «cabo de ferro» ou «nuvem flutuante» não restam senão esfregaços, tayin, que confirmam a sua fama de perscrutador do inverosímil com um significado espiritual. Como aquele que está no Museu Britânico figurando uma cobra entrelaçada numa tartaruga negra (rolo vertical, tinta sobre papel, 142,5 x 79,5 cm), dois animais conhecidos por hibernar no Inverno e que juntos são Xuanwu, o popular e misterioso «guerreiro negro», que em pinturas colocadas em paredes de casas protegem os lares. A figura da tartaruga (gui) ou cágado, animais da família testudinata, são desde a mais remota antiguidade consideradas um bom augúrio, descritos em textos como a enciclopédia Erya (séc. 3 a. C.) ou o Huainanzi (antes de 139 a.C.) que conta como Nuwa, a deusa com corpo de serpente que criou a vida humana, cortou as quatro patas de uma tartaruga gigante dos mares para servir de suporte ao céu após um grande desastre cósmico. Zhang Gui, que terá vivido durante a dinastia Jurchen dos Jin (activo c. 1156-61) é identificado como o autor de uma surpreendente pintura de uma tartaruga com estranhos sinais daoístas na carapaça, que numa margem de água exala um sopro que subindo no céu se torna em nuvens auspiciosas. Na pintura figura uma «tartaruga divina», shengui ou «tartaruga espiritual», linggui (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 26,5 x 53,3 cm, no Museu do Palácio, em Pequim) e como marca do seu prestígio, apresenta-se hoje com um carimbo da era da «talentosa mutação» do imperador Chenghua (r.1464-87) e está referida no «Catálogo da preciosa colecção do canal de pedra», Shiqu baoji, do imperador Qianlong. No céu, sobre a tartaruga, observa-se um sol vermelho como o sangue ou o fogo, capaz de afastar fantasmas ou espíritos malévolos, fazendo da própria pintura um talismã.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Cipreste Que Confúcio Terá Plantado Mi Fu (1051-1107), o pintor e poeta da dinastia Song, envergando deliberadamente as sumptuosas vestes de funcionário imperial que lhe conferiam um carácter grave, curvou-se um dia numa vénia perante uma rocha de aspecto especialmente bizarro pela erosão causada pelos elementos, visível testemunho da passagem de um tempo longo. Noutra ocasião, em Qufu (Shandong) no templo dedicado ao sábio Confúcio (551-479 a. C.), admirado perante uma antiquissíma árvore que sempre se disse ter sido plantada pelo próprio mestre, escreveu um poema numa rocha adjacente, que não sobreviveria ao desgaste causado pelo clima porém graças ao engenho do espírito, as suas palavras viveriam em esfregaços feitos em frágeis folhas de papel preservadas como inestimáveis tesouros. A árvore que ele homenageava e que hoje de forma inacreditável ainda persiste, designa-se hui, vocábulo que nomeia tanto o zimbro como o cipreste mas pela descrição se associa mais facilmente a este último. Duas outras árvores de longevidade excepcional denominadas yin xing, mais conhecidas pela palavra japonesa ginkgo, persistem hoje como cicatriz de um lugar onde estariam desde a dinastia Sui (589-618) enterrados o barrete e o manto usados por Confúcio. Ali outrora foi um oratório dedicado à memória do mestre nos arredores de Xangai chamado Kongzhai, a «residência de Confúcio», destruído durante a Revolução cultural. O louvor ao cipreste que Mi Fu escreveu em 1103 em Qufu, Huishu zan pode ser assim traduzido: «Radiante como uma via imperial, alimenta o sol brilhante,/ Aproveitando o Sopro primordial ilumina a suprema unidade./ Ao ser plantado, este cipreste agitou-se com o mecanismo criativo do universo,/ Erecta, a sua moldura heróica é torcida como um dragão em sobressalto./ Durante dois mil anos rivalizou com metal e pedra,/ Emendando a ordem e o caos como se fora apenas um único dia passado./ Transmitido por cem gerações, lança a sua sombra sobre tábuas de jade e ceptros.» Zhang Zhao (1691-1745), um alto funcionário imperial pintor e calígrafo da corte que ocupou duas vezes o cargo de ministro da justiça, transcreveu respeitosamente este poema numa face de um leque desdobrável (35,3 x 58 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) que na outra face ostenta uma pintura de um cipreste que terá sido executado pelo pincel do imperador Qianlong (r.1735-96). A escolha do poema reflecte a própria eleição como árvore exemplar por Confúcio. Nos Analectos (9, 28) está escrito: «Quando o ano está frio, sabe-se que o pinheiro e o cipreste são os últimos a perder as suas folhas.» E o calígrafo escolhido, reconhecido pintor de flores de ameixieira símbolo do combate contra a adversidade, daria um derradeiro testemunho de piedade filial, a confuciana raíz das virtudes humanas, ao acabar os seus dias quando corria apressado para o funeral do seu pai.
Sara F. Costa Via do MeioQiu Jin – a poesia e a espada 題《芝龕記》八章(其一、其二) Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí yī, qí èr) 一 Yī 今古爭傳女狀頭, Jīngǔ zhēng chuán nǚ zhuàngtóu, 紅顏誰說不封侯? Hóngyán shuí shuō bù fēng hóu? 馬家婦共沈家女, Mǎ jiā fù gòng Shěn jiā nǚ, 曾有威名振九州。 Céng yǒu wēimíng zhèn Jiǔzhōu. 二 Èr 撐持乾坤女土司, Chēngchí qiánkūn nǚ tǔsī, 將軍才調絕塵姿。 Jiāngjūn cáidiào juéchén zī. 靴刀帕首桃花馬, Xuē dāo pà shǒu táohuā mǎ, 不愧名稱娘子師。 Bù kuì míngchēng niángzǐ shī. O Registo do Nicho de Zhi (poema I e II de VIII) I Desde sempre se celebram as primeiras entre as mulheres (1): quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado? (2) A esposa da casa Ma e a filha da casa Shen (3) fizeram ressoar pelas Nove Províncias a sua fama guerreira. (4) II A chefe tusi (5) sustém o Céu e a Terra, (6) general de génio e porte sem igual. Punhal na bota, lenço na cabeça, cavalo flor de pessegueiro: (7) bem merece o nome de Exército da Senhora. (8) NOTAS 女狀頭 (nǚ zhuàngtóu), expressão formada a partir de 狀頭 (zhuàngtóu), antiga designação do primeiro classificado nos exames imperiais, aqui adaptada ao feminino. 封侯 (fēng hóu), literalmente ser investido como marquês, designa a atribuição de um título nobiliárquico por mérito político ou militar. 馬家婦 (Mǎ jiā fù), a esposa da casa Ma, refere-se a Qin Liangyu; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», a Shen Yunying. 九州 (Jiǔzhōu), «Nove Províncias», designação tradicional e poética da totalidade do território chinês. 土司 (tǔsī), título atribuído a governantes hereditários locais reconhecidos pela administração imperial chinesa. 乾坤 (qiánkūn), literalmente «Céu e Terra», representa o universo e a ordem do mundo. 桃花馬 (táohuā mǎ), literalmente «cavalo flor de pessegueiro», designa uma montada cuja pelagem evocaria as tonalidades dessa flor. 娘子師 (niángzǐ shī), literalmente «exército da senhora», designa uma força militar comandada por uma mulher. Comentário Estes dois poemas pertencem ao ciclo de oito composições escritas por Qiu Jin a propósito de Zhīkān jì, drama histórico do género chuanqi composto por Dong Rong (1711–1760) em meados do século XVIII (題《芝龕記》八章). A obra, concluída por volta de 1751 e publicada pouco depois, organiza acontecimentos dos últimos reinados da dinastia Ming em torno das figuras de Qin Liangyu e Shen Yunying. O seu programa moral assenta na celebração da lealdade política e da piedade filial das duas guerreiras, apresentadas como protagonistas de uma história da qual as mulheres haviam sido habitualmente afastadas (Tu, 2005, pp. 1–17; Wang, 2014, pp. 61–72). Cada uma das duas composições apresenta uma quadra de sete caracteres. Os versos rimam segundo o esquema tradicional em que a rima ocorre no primeiro, segundo e quarto versos: 頭(tóu), 侯 (hóu) e 州 (zhōu) no primeiro poema; 司 (sī), 姿 (zī) e 師 (shī) no segundo. Estes poemas devem ser lidos com alguma cautela histórica. Pertencem à fase inicial da escrita de Qiu Jin e ainda valorizam formas imperiais de reconhecimento, como o título nobiliárquico e a consagração oficial do mérito. A sua força crítica nasce da apropriação desses valores: Qiu Jin não recusa aqui a linguagem da honra, da lealdade ou do poder militar; recusa o monopólio masculino sobre ela. A leitura de Zhīkān jì oferece-lhe uma linhagem de mulheres guerreiras na qual começa a projetar a sua própria aspiração a tornar-se uma 奇女子 (qínǚ), uma «mulher extraordinária». Xia Xiaohong mostrou como esta identificação com Qin Liangyu e Shen Yunying participa na formação do imaginário heroico que acompanharia Qiu Jin ao longo da vida, embora o seu pensamento político viesse depois a ultrapassar o horizonte imperial presente nestes primeiros poemas (1998, pp. 227–236). O primeiro poema apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como figuras de exceção inscritas numa genealogia feminina do heroísmo. 女狀頭 (nǚ zhuàngtóu) adapta ao feminino uma designação associada ao primeiro classificado nos exames imperiais. A expressão atribui às duas mulheres uma primazia formulada através do vocabulário institucional do mérito. «As primeiras entre as mulheres» preserva essa ideia de excelência, embora atenue a referência concreta ao sistema de exames. A pergunta 紅顏誰說不封侯? concentra o núcleo provocatório da quadra. 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rosado», é uma designação convencional da mulher jovem e bela. 封侯 (fēng hóu) significa ser investido no título de 侯 (hóu), habitualmente traduzido por «marquês». O verso aproxima deliberadamente dois campos que a ordem social mantinha separados: a feminilidade codificada através da aparência e o reconhecimento político ou militar reservado aos homens. A opção «quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado?» sacrifica a imagem do «rosto rosado», mas torna explícito o desafio lançado à exclusão feminina da honra pública. 馬家婦 (Mǎ jiā fù), «a esposa da casa Ma», designa Qin Liangyu através da família do marido, Ma Qiancheng; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», identifica Shen Yunying pela linhagem paterna. Qiu Jin conserva as formas tradicionais de nomeação feminina e faz com que sejam elas a ocupar o centro do poema. A tensão é significativa: as protagonistas continuam linguisticamente relacionadas com estruturas familiares masculinas, mas são os seus feitos que fazem ressoar o nome pelas 九州 (Jiǔzhōu), as «Nove Províncias», designação simbólica da totalidade do território chinês. A abertura 今古 (jīngǔ), «o presente e a Antiguidade», e o fecho 九州 ampliam a fama das duas mulheres em duas direções complementares, através do tempo e do espaço. O segundo poema concentra-se sobretudo em Qin Liangyu. 女土司 (nǚ tǔsī) identifica-a como mulher investida na estrutura hereditária de autoridade local conhecida como tusi. A tradução mantém o termo porque «governante» apagaria a especificidade histórica e territorial do cargo. 撐持乾坤 (chēngchí qiánkūn), literalmente «sustentar o Céu e a Terra», eleva essa autoridade a uma escala cósmica. A mulher deixa de ocupar uma posição marginal: é apresentada como força capaz de sustentar a ordem do mundo. 將軍才調絕塵姿 reúne aptidão e presença. 才調 (cáidiào) pode abranger talento, capacidade e qualidade pessoal; 絕塵 (juéchén) sugere alguém que deixa os restantes para trás ou se eleva acima do «pó» do mundo comum. «General de génio e porte sem igual» torna o elogio inteligível em português, embora abandone a imagem concreta do pó. A perda parece-me preferível à opacidade de «figura acima do pó», que dificilmente permite ao leitor português reconstruir a expressão chinesa. O terceiro verso é construído como uma sequência nominal, quase um retrato em movimento: 靴刀, o punhal levado na bota; 帕首, a cabeça envolta num lenço; 桃花馬, o «cavalo flor de pessegueiro». A ausência de verbos acelera a visão e reúne arma, indumentária e montada numa única imagem. «Cavalo flor de pessegueiro» conserva a dimensão cromática e pictórica de 桃花馬, possivelmente associada à pelagem da montada. A delicadeza floral permanece dentro da representação militar, sem neutralizar a força da guerreira. 娘子師 (niángzǐ shī) designa um exército comandado por uma mulher. «Exército da Senhora» mantém a estranheza e a dignidade do nome, evitando sugerir que se trataria necessariamente de uma tropa composta por mulheres. O verbo 稱 (chēng), «chamar», «designar», confere ainda ao verso final uma dimensão de legitimação: a autoridade feminina torna-se reconhecível porque pode ser nomeada. Referências bibliográficas: Xia, X. [夏晓虹](#). (1998). 始信英雄亦有雌——秋瑾与《芝龛记》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文学评论丛刊, 1(2), 227–236. Hsieh, H.-C. [謝曉菁](#). (2021). 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming](#). 女學學誌:婦女與性別研究, 48, 1–27. https://doi.org/10.6255/JWGS.202106_(48).01 Tu, S.-M. [涂淑敏](#). (2005). 《芝龕記》傳奇敘錄 [Introdução ao drama chuanqi Zhīkān jì](#). 通識教育學報, 8, 1–17. https://doi.org/10.7107/JGED.200512.0001 Wang, A.-L. [王璦玲](#). (2014). 「雖名傳奇,卻實是一段有聲有色明史」: 論董榕《芝龕記》傳奇中之演史、評史與詮史 [A representação e interpretação dramáticas da queda da dinastia Ming no Zhīkān jì de Dong Rong](#). 戲劇研究, 13, 61–98. https://doi.org/10.6257/JOTS.2014.13061 Xia, X. [夏曉虹](#). (1997). 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文學評論叢刊, 1(2), 227–236.
Hoje Macau Via do MeioA chávena de chá – Um objecto entre a história, a etiqueta e a memória familiar Por Tan Yuanyun Na vida quotidiana chinesa, os objectos comuns raramente se limitam à sua função prática. Uma chávena serve para beber, evidentemente, mas essa evidência é quase insultuosa, como dizer que uma biblioteca serve para guardar papel ou que uma avó serve para dar conselhos com uma precisão ligeiramente assustadora. Em muitos lares chineses, uma chávena de porcelana guarda calor, hábitos, hierarquias afectivas, pequenas normas de convivência e memórias que passam de geração em geração sem necessidade de proclamação solene. No meu caso, a chávena de porcelana branca que existe em casa da minha família tornou-se um desses objetos discretos que parecem nada dizer e, precisamente por isso, dizem quase tudo. Desde criança, lembro-me de haver sempre uma chávena de chá a fumegar algures em casa. Quando chegavam visitas, preparava-se chá; quando a família descansava depois das refeições, alguém segurava uma chávena em silêncio; quando surgia uma conversa difícil, o chá aparecia antes das palavras mais graves, como se tivesse sido convocado para impedir que os adultos transformassem um pequeno conflito doméstico numa tragédia clássica. Beber chá, nesse contexto, nunca significou simplesmente matar a sede. Significava criar uma temperatura comum, oferecer uma pausa, acolher o outro dentro de um gesto reconhecível. Sempre me intrigou o facto de uma chávena branca, simples, sem decoração exuberante e sem qualquer pretensão estética evidente, poder ocupar um lugar tão persistente na memória familiar. Ao contrário de objectos luxuosos, que parecem exigir admiração, esta chávena nunca pediu atenção. Permanecia ali, modesta, ligeiramente desgastada pelo uso, com uma autoridade silenciosa que nenhum copo novo, brilhante e moderno conseguia substituir. Este texto nasce dessa pergunta: como pode um objecto tão pequeno condensar história, etiqueta, corpo, afecto e continuidade familiar? A minha memória mais antiga remete para a chávena de porcelana branca que o meu pai usa há muitos anos. O seu desenho é simples, quase austero, e o tempo deixou nela sinais discretos de uso. Desde pequeno, reparei que as nossas chávenas eram pequenas e não tinham pega. Esse detalhe parecia-me, na infância, uma falha de design, talvez até uma espécie de conspiração contra os dedos das crianças. Num mundo ideal, pensava eu, uma chávena deveria ter uma asa evidente, generosa, civilizada, uma espécie de corrimão para mãos inexperientes. A minha avó, porém, ensinou-me que a ausência de pega possuía uma lógica própria, muito mais subtil do que a minha indignação infantil permitia perceber. O uso destas pequenas chávenas exige uma técnica corporal específica. Seguram-se com a ponta dos dedos, junto à borda, sentindo a temperatura antes de beber. A chávena comunica através do tacto: se estiver demasiado quente para ser segurada, o chá ainda não está pronto para ser levado à boca. A minha avó repetia isto com a serenidade de quem não precisava de grandes teorias para demonstrar uma verdade. O calor da porcelana torna-se uma forma de aviso, uma pequena pedagogia material. A espera deixa de ser uma ordem moral — “tem paciência” — e transforma-se numa evidência física: a mão compreende aquilo que a criança talvez ainda não aceitasse ouvir. Esse gesto pertence ao que se poderia chamar conhecimento corporal, ou shēntǐ zhīxìng (身体知性): um saber incorporado, aprendido pela experiência directa, pela repetição e pela sensibilidade táctil. A cultura transmite-se muitas vezes assim, sem manuais, sem discursos monumentais, sem que ninguém se sente à mesa para declarar: “Hoje vamos estudar a epistemologia da porcelana.” Felizmente. Aprende-se porque se toca, porque se espera, porque se queima ligeiramente a ponta dos dedos uma ou duas vezes e se descobre que a sabedoria tradicional, afinal, tinha razão. A minha avó também me ensinou uma regra que seguimos sempre em casa: chá mǎn qī rén (茶满欺人). A expressão significa que encher a chávena de chá até ao topo pode ser interpretado como um gesto rude, quase uma forma de pressionar o convidado. Quando eu era pequeno, esta regra parecia-me misteriosa. Na minha lógica infantil, mais chá significava mais generosidade; se meio copo era bom, um copo cheio seria uma espécie de prémio. A avó explicou-me que, ao servir os mais velhos ou os convidados, se deve deixar um pequeno espaço na chávena. Esse intervalo vazio exprime respeito, delicadeza e consideração pelo conforto do outro. Uma chávena demasiado cheia é difícil de segurar, pode queimar as mãos e sugere pressa, excesso, falta de atenção. A chávena ensina que a hospitalidade chinesa não reside na abundância descontrolada, mas na medida justa. Servir bem implica observar o outro, prever o seu gesto, proteger-lhe os dedos, permitir-lhe beber sem perigo e sem constrangimento. Há aqui uma ética minúscula, quase invisível, mas muito exigente. A delicadeza começa no espaço que se deixa por preencher. Curiosamente, a chávena confirma uma verdade que muita gente só aprende tarde: o excesso raramente é elegância. Na concepção chinesa da vida quotidiana, a chávena de chá relaciona-se também com o conceito de hé (和), harmonia. A sua forma arredondada sugere suavidade, continuidade e conciliação. Em criança, naturalmente, eu não pensava em harmonia cósmica ao olhar para uma chávena; pensava apenas que ela era menos agressiva do que outros objectos e que, quando não estava demasiado quente, cabia bem na mão. Só mais tarde compreendi que essa forma circular, sem ângulos violentos, participava de uma sensibilidade cultural na qual a convivência deve procurar equilíbrio, contenção e fluidez. Lembro-me de que, quando havia pequenos desentendimentos em casa, ou quando eu chorava depois de uma repreensão, alguém me trazia uma chávena de chá e dizia suavemente: xiān hē kǒu chá (先喝口茶), “bebe primeiro um gole de chá”. A frase funcionava como um botão de pausa, uma tecnologia doméstica de regulação emocional muito anterior às aplicações de meditação e provavelmente mais eficaz do que muitas delas. O chá não resolvia o problema, mas impedia que o problema ocupasse todo o espaço. Criava alguns segundos de respiração, baixava a temperatura da voz, devolvia ao corpo uma medida suportável. Com o tempo, percebi que essa era uma das formas concretas da harmonia familiar. A vida doméstica não é um território livre de conflitos; nenhuma família chinesa, portuguesa ou marciana vive permanentemente num anúncio de chá verde ao pôr-do-sol. Existem mal-entendidos, cansaço, irritações, palavras ditas depressa demais. A diferença está, muitas vezes, nos gestos que impedem a ruptura. Em minha casa, a chávena cumpria essa função: introduzia uma pausa entre a emoção e a resposta, entre a ferida e a palavra, entre a tristeza e a reconciliação possível. Há uma cena que nunca esqueci. Num Ano Novo Lunar, o meu avô veio visitar-nos. O meu pai escolheu, de propósito, a velha chávena de porcelana branca para lhe servir chá. Ao verter a água, a mão dele tremeu ligeiramente, e algumas gotas caíram sobre a mesa. O meu avô não fez qualquer comentário de reprovação. Pegou na chávena, bebeu um gole e disse, com calma: “Esta chávena continua a ser a mais confortável de usar.” Na altura, eu era demasiado jovem para entender o alcance daquela frase. Parecia uma observação banal, quase técnica, sobre ergonomia familiar. Hoje percebo que o meu avô falava da casa, da permanência, da continuidade de um afecto que se exprime melhor através de objectos usados do que através de declarações solenes. Aquela chávena dizia que a família continuava a reconhecer-se nos mesmos gestos. Dizia que o tempo tinha passado, mas alguns sinais permaneciam inteligíveis. Dizia que a tradição, quando é verdadeira, raramente precisa de se anunciar como tradição. Vive na escolha de uma chávena, no modo de servir, na mão que treme um pouco, no silêncio de quem recebe e compreende. Durante muito tempo, pensei que as pequenas chávenas de porcelana sem pega fossem apenas objetos vulgares. Essa percepção mudou quando, no primeiro ano do ensino secundário, visitei um museu e vi pequenos zhǎn (盏), taças da dinastia Song, ainda menores do que as chávenas usadas actualmente em minha casa. A guia explicou que, naquela época, era comum praticar o método do diǎn chá (点茶), no qual o chá em pó era batido até formar espuma, de modo parcialmente comparável ao matcha japonês contemporâneo. Fiquei surpreendido ao perceber que os antigos possuíam modos de beber chá bastante diferentes dos nossos e que um objecto aparentemente banal podia abrir uma porta para séculos de transformação cultural. Mais tarde, pesquisei sobre a evolução das chávenas chinesas e compreendi que o seu tamanho, a sua forma e o seu uso acompanharam mudanças profundas nas técnicas de preparação do chá. Na dinastia Tang, eram comuns taças mais largas; na dinastia Song, os pequenos zhǎn adequavam-se ao diǎn chá, que exigia uma bebida batida, concentrada e saboreada em pequenos goles; nas dinastias Ming e Qing, tornou-se mais popular o pào chá (泡茶), a infusão de folhas em água quente. Apesar dessas transformações, as chávenas conservaram geralmente dimensões reduzidas, porque o centro da experiência chinesa do chá reside no pǐn chá (品茶), isto é, no acto de degustar lentamente, distinguindo aromas, temperaturas, texturas e variações subtis de sabor. Aquilo que me parecera um simples detalhe de design revelava-se, afinal, parte de uma longa história do paladar, da técnica e da sensibilidade. A pequena chávena da minha casa não surgira do nada. Estava ligada a uma genealogia de práticas, materiais, gestos e preferências que atravessaram dinastias, transformações sociais e mudanças de gosto. O meu pai nunca pensava nestas origens históricas quando a usava; sabia apenas que aquela chávena lhe parecia confortável, familiar e tranquila. E talvez seja assim que muitas tradições sobrevivem: não através de discursos grandiosos, mas através da teimosia afetuosa de quem continua a usar o mesmo objeto porque ele já aprendeu a forma da mão. Hoje, bebemos café, chá com leite, bebidas geladas, infusões aromatizadas e líquidos com nomes tão modernos que quase exigem passaporte. Existem copos bonitos de todos os estilos, garrafas térmicas inteligentes, canecas com frases motivacionais e recipientes que prometem transformar a hidratação numa experiência de personalidade. Apesar disso, a pequena chávena tradicional nunca foi definitivamente guardada no armário da minha família. Sempre que regresso a casa dos meus pais, a minha mãe serve-me chá numa chávena semelhante, como se esse gesto bastasse para restituir, por instantes, a ordem íntima do regresso. Não sei explicar inteiramente por que razão ela me transmite tanta serenidade. A chávena não é particularmente bonita, não possui decoração preciosa e, por vezes, continua a ser quente demais para segurar com dignidade. Ainda assim, quando a tenho nas mãos, lembro-me do meu pai a beber chá em silêncio, da minha avó a corrigir a forma de servir, do meu avô a reconhecer a velha porcelana, das tardes lentas, dos pequenos conflitos apaziguados, dos regressos a casa e dessa continuidade discreta que a vida familiar constrói sem pedir aplauso. Para mim, a chávena não é um símbolo grandioso. Não precisa de o ser. A sua grandeza está precisamente na modéstia com que acolhe o quotidiano. É casa, família, gesto, temperatura, espera, memória e educação sensível. É uma pequena peça de porcelana branca onde cabem a história do chá chinês e a história privada de uma família. E talvez os objectos verdadeiramente importantes sejam assim: parecem pequenos porque não precisam de se exibir; permanecem connosco porque aprenderam, em silêncio, a guardar aquilo que somos.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioSonhos de Luxo Nas Montanhas Azuladas de Yang Sheng Li Longji (685-762) não estava destinado a ser como foi o imperador Xuanzong (r.712-756) que pela sua sábia capacidade de discernimento foi capaz de aproveitar e ainda mais impulsionar o extraordinário e florescente tempo da dinastia Tang, mas de modo igualmente surpreendente também foi ele que moveu as peças que levariam à impiedosa e abrupta queda do seu reinado. Sendo o terceiro filho do imperador Ruizong e da sua concubina, a consorte Dou, uma série de maquinações orquestradas pela implacável imperatriz Wu Zetian (624-705), que dirigia de facto o império quando ele nasceu, e condições naturais do seu carácter acabariam de o levar a ocupar o trono do dragão. Um período que de forma ousada ao assumir o poder designou Kaiyuan, a «origem de uma nova era» a que as gerações posteriores acrescentariam dois caracteres shengshi, a «geração próspera, abundante». A memória do governante, que viveu rodeado pelo luxo, perduraria na imaginação de cultores das artes, que no seu tempo ele muito protegeu e animou. Um elucidativo exemplo é o rolo horizontal do pintor Ren Renfa (1255-1327) onde figuram Cinco príncipes ébrios regressando a casa, um dos quais é Li Longji (tinta e cor sobre papel, 35,5 x 212,5 cm, no Museu Long de Xangai) em que a riqueza se vê na opulência dos cavalos. O pintor literato Zhang Ning (1426-1496) escreveria: «Pretos, amarelos, vermelhos, brancos e mosqueados: cada cavalo tem o valor de mil taels (liang) de ouro». Debruçados sobre as montadas não se distinguiriam as feições do futuro imperador e outros retratos coevos não chegariam até hoje mas há registos de um, elogiado pela semelhança feito por um pintor hodierno. Chamava-se Yang Sheng, de actividade conhecida entre 714 e 749, e a ele estão associadas figurações de montanhas de sonhos que mais acrescentam à sensação do luxo vivido na era de Xuanzong. Yang Sheng seria lembrado em duas expressões da pintura shanshui: o estilo mogu, «sem ossos» em que a tinta é aplicada antes dos contornos da forma, e a paisagem qinglu, «verde azulada», em que os minerais utilizados a azurite e a malaquite por serem raros e usados em alquimia, remetem o observador para a possibilidade espiritual e a imaginação poética. Pintores posteriores ao usarem o nostálgico método juntaram-lhe muitas vezes o nome do pintor da corte do imperador que elegeu o general que o iria trair. O poeta Du Mu (803-852) que viveu ainda na dinastia dos Tang, reflectiu em muitos poemas sobre as inopinadas acções finais do reino do imperador Xuanzong que levariam ao impensável fim. Um dos que escreveu num templo, designado por decreto imperial de 738, Kaiyuan, para que em todo o império fossem feitas orações pelo seu bom governo, expressa a tristeza desse entardecer, «Tonto pelo vinho gasto o meu tempo escutando o som do vento e da chuva batendo na janela.»
Hoje Macau Via do MeioO vazio na pintura e na estética chinesa Por Sun Weiqi Quando era criança, passava muitas tardes em casa da minha avó, diante de uma parede coberta de pinturas tradicionais chinesas, e havia nelas qualquer coisa que me inquietava profundamente: grandes extensões de papel permaneciam brancas, suspensas, intactas, como se o pintor tivesse interrompido o gesto antes de concluir a obra ou como se tivesse decidido abandonar metade do mundo ao silêncio. Na minha imaginação infantil, uma boa pintura deveria estar inteiramente preenchida, cada fragmento da superfície ocupado por uma montanha, uma árvore, uma ave, uma casa, uma figura humana ou qualquer sinal visível que justificasse a existência daquele espaço. O branco parecia-me falta, hesitação, incompletude. A minha avó, que aprendera caligrafia e pintura desde os sete anos, nunca me respondeu com uma explicação longa, nem tentou converter a minha curiosidade de criança numa lição formal de estética. Pegava simplesmente no pincel, deixava cair uma gota de tinta preta sobre a água e observava comigo a forma como essa mancha se abria, se dissolvia, se espalhava lentamente, até já não ser ponto nem linha, mas uma respiração escura dentro da transparência. Depois dizia-me: “O que não se vê é o que respira na pintura. O vazio é o lugar onde a alma da obra mora.” Durante muitos anos, guardei essa frase sem a compreender inteiramente. Hoje, quando estudo a estética chinesa e volto, pela memória, à parede da casa da minha avó, percebo que ela falava de uma das intuições mais profundas da arte chinesa: o vazio, ou kōng (空), ocupa o centro da experiência estética, porque abre a obra à circulação do sopro, da imaginação e do tempo. O espaço branco da pintura chinesa não corresponde a um intervalo morto, a uma zona abandonada ou a uma ausência de execução; pertence à própria estrutura espiritual da obra, como o silêncio pertence ao poema e como a pausa pertence à música. Este texto nasce, por isso, de uma dupla experiência: por um lado, a reflexão sobre uma tradição estética antiga, atravessada pelo taoísmo, pela pintura de paisagem, pela caligrafia e por uma conceção muito particular da relação entre forma e invisível; por outro, a memória íntima de uma aprendizagem familiar, feita sem tratados, sem definições rígidas, sem a arrogância das palavras que querem possuir aquilo que apenas se pode contemplar. Escrevo sobre o vazio como quem regressa a uma casa, a uma parede, a uma tarde lenta, a uma avó que ensinava através do gesto e que sabia, talvez melhor do que muitos livros, que a pintura começa precisamente onde a tinta se retira. Para compreender o vazio na pintura chinesa, é necessário abandonar a ideia de que a totalidade da obra coincide com aquilo que se oferece imediatamente ao olhar. Em muitas tradições pictóricas ocidentais, a superfície da tela tende a ser concebida como um campo a preencher: a moldura delimita um mundo, e o artista organiza dentro dela formas, volumes, cores, perspetivas, corpos e objetos, criando uma representação mais ou menos fechada da realidade. Na pintura chinesa de montanhas e águas, shān shuǐ huà (山水画), a lógica é outra: o vazio não encerra a obra, abre-a; não interrompe a paisagem, prolonga-a; não empobrece a composição, permite que ela respire para além dos limites materiais do papel. Recordo-me de uma tarde em que a minha avó me mostrou uma pintura atribuída a um antigo mestre da dinastia Song. No canto inferior esquerdo, via-se apenas um pinheiro, desenhado com traços secos, firmes e contidos. O restante espaço permanecia branco, amplo, quase vertiginoso. Perguntei-lhe o que havia ali, apontando para aquela extensão sem tinta. Ela respondeu: “Névoa. Ar. O silêncio da montanha ao amanhecer. Se o pintor tivesse desenhado a névoa, a névoa desapareceria.” Essa resposta acompanhou-me durante anos, porque continha uma verdade difícil de apreender: há realidades que a representação excessiva destrói, há presenças que só sobrevivem quando a mão aceita deter-se. O vazio, na pintura chinesa, constitui uma modalidade subtil de presença. Ele carrega o qì (气), o sopro vital que atravessa os seres, anima a paisagem e liga o visível ao invisível. Quando um pintor deixa uma área sem tinta, realiza uma escolha estética e espiritual, abrindo espaço para que a energia circule dentro da obra e para que o olhar do espectador participe na sua formação. Uma paisagem demasiado cheia torna-se imóvel, sufocada pelo excesso de informação; uma paisagem atravessada pelo vazio conserva o movimento secreto da água, do vento, da névoa, do tempo e da distância. Vi essa lógica na prática quando a minha avó me ensinou a pintar bambus. Eu queria desenhar todas as folhas, todas as nervuras, todos os detalhes do caule, como se a fidelidade dependesse da acumulação minuciosa de traços. Ela corrigia-me com paciência: “Se pintares tudo, o bambu morre. Deixa espaço entre as folhas. Deixa o ar passar. O bambu vive também no vento que não consegues pintar.” Nesse momento, comecei a perceber que a pintura chinesa não procura copiar a aparência exterior das coisas, mas captar a sua respiração interna, a tensão entre presença e retirada, a forma como cada ser existe em relação com aquilo que o envolve. Esta conceção encontra raízes profundas no pensamento taoísta. No Dao De Jing (道德经), Laozi afirma que a utilidade da roda depende do vazio do seu centro, a utilidade do vaso depende do espaço oco que pode receber, a utilidade da casa depende da abertura que permite habitar. A forma visível oferece contorno; o vazio oferece possibilidade. Aplicada à pintura, esta intuição significa que o branco do papel participa ativamente na construção do sentido, pois torna possível a respiração dos traços, a profundidade da paisagem e a liberdade do olhar. Sem o espaço vazio, a tinta perderia a sua ressonância; sem silêncio, a cor perderia a sua vibração. O vazio, porém, ultrapassa a esfera da teoria estética e inscreve-se numa maneira de ver, de estar e de aceitar o mundo. Durante a adolescência, vivi durante algum tempo como se todo o espaço disponível tivesse de ser ocupado: música nos ouvidos, telemóvel na mão, conversas contínuas, tarefas sucessivas, uma espécie de medo da interrupção e da pausa. Quando olhava para uma pintura chinesa, o espaço branco parecia-me monótono, demasiado silencioso, quase pobre. Hoje, estando longe da China, em Portugal, longe da casa da minha avó e da parede onde aquelas pinturas repousavam, sinto falta precisamente desse branco que antes me parecia vazio; sinto falta de uma lentidão que acolhe, de uma montanha quase invisível, de uma névoa que não precisa de se explicar, de um espaço onde o pensamento possa assentar sem ser imediatamente substituído por ruído. A pintura chinesa ensinou-me que o vazio pode ser um lugar de encontro. Diante de uma paisagem com grandes zonas brancas, o espectador não recebe uma imagem totalmente determinada; entra na obra, completa-a com a sua memória, com a sua solidão, com o seu próprio modo de sentir a distância. O branco torna-se uma zona de hospitalidade. Nele cabem a névoa vista pelo pintor, o silêncio imaginado pelo observador, a montanha que se ergue sem ser desenhada, o rio que corre fora do papel, o tempo que separa quem pintou de quem contempla. Assim, a obra atravessa os séculos porque conserva um espaço disponível para cada olhar. A estética chinesa distingue-se precisamente por essa confiança na participação do observador. A pintura não impõe uma leitura única, nem oferece uma realidade totalmente fechada sobre si mesma; deixa zonas de indeterminação onde a imaginação pode mover-se, como alguém que caminha numa paisagem envolta em bruma e descobre, a cada passo, a sua própria forma de ver. Lembro-me de ter levado uma amiga portuguesa a ver as pinturas da minha avó. Ela deteve-se diante da pintura do pinheiro e comentou que parecia faltar alguma coisa. Sorri, porque me reconheci imediatamente naquela observação, a mesma que eu própria teria feito em criança. Respondi-lhe que talvez faltasse apenas o olhar dela, a sua memória, a sua presença diante do branco. A pintura esperava por isso. Esse vazio estende-se a outras dimensões da cultura chinesa. Na caligrafia, a força de um carácter depende tanto da densidade da tinta como da distribuição dos espaços que o rodeiam; na música tradicional, o silêncio entre as notas permite que cada som se prolongue para dentro do ouvinte; na organização da casa, a sobriedade dos objetos cria uma atmosfera de repouso; na conversa, as pausas podem transmitir respeito, delicadeza ou pensamento. A cultura chinesa conhece, de modo profundo, o valor da suspensão. Falar menos pode significar escutar melhor; ocupar menos pode significar permitir mais; retirar pode ser uma forma de oferecer. Esta relação com o vazio implica também uma ética. Num mundo habituado ao excesso, à velocidade e à acumulação, a estética chinesa recorda que a plenitude pode surgir da contenção e que a beleza nem sempre coincide com abundância. A pintura de paisagem, quando deixa metade do papel sem tinta, afirma uma confiança rara: a confiança de que o invisível participa na construção do real. O artista não precisa de controlar tudo, nem o espectador precisa de receber tudo pronto. Entre ambos existe uma zona de respiração, um intervalo sensível onde a obra continua a acontecer. Há, portanto, uma sabedoria existencial no vazio. A vida humana, tal como a pintura, perde vitalidade quando todos os espaços são preenchidos por obrigações, ruídos, explicações, desejos e medos. Precisamos de margens interiores, de zonas brancas, de momentos sem função imediata, de silêncios onde as emoções possam decantar-se. A minha avó compreendia isto sem precisar de o formular como tese. Talvez por isso pintasse devagar, talvez por isso deixasse sempre espaço suficiente para que uma ave pudesse atravessar a paisagem sem ser desenhada, para que uma montanha pudesse permanecer escondida na névoa, para que a obra tivesse um lugar onde respirar. Hoje, a parede da casa da minha avó continua a existir na minha memória com uma nitidez quase física. Já não olho para aquelas zonas brancas como quem encontra uma falha. Vejo nelas a névoa da montanha, o vento no pinheiro, o silêncio do amanhecer, a mão antiga do pintor, a voz baixa da minha avó e a minha própria transformação: a criança que queria preencher tudo deu lugar a uma mulher que aprendeu a reconhecer a intensidade do que permanece suspenso. O vazio na pintura chinesa constitui uma forma de pensamento sensível, uma filosofia encarnada no gesto, uma maneira de compreender a relação entre mundo, olhar e interioridade. A sua força reside na capacidade de ensinar sem declarar, de abrir sem ocupar, de sugerir sem aprisionar. A lição da minha avó permanece comigo: aquilo que não se vê pode sustentar o que aparece; aquilo que se cala pode dar profundidade ao que é dito; aquilo que fica em branco pode guardar a respiração mais íntima da obra. Quando observo uma pintura chinesa, vejo tinta, papel, montanha, água, memória, cultura e família. Vejo também a minha própria aprendizagem do silêncio. O espaço branco que em criança me parecia monótono tornou-se o lugar onde tudo se reúne sem se confundir: a paisagem, a avó, a China, a distância, o tempo e a minha forma de olhar. O vazio não equivale ao nada. O vazio é a morada invisível da respiração.