Poesia de Lu Xun traduzida – 他 Tā

他

Tā

「知了」不要叫了, zhī liǎo bú yào jiào le 他在房中睡著;

tā zài fáng zhōng shuì zháo

「知了」叫了,刻刻心頭記著。

zhī liǎo jiào le, kè kè xīn tóu jì zhe

太陽去了,「知了」住了,還沒有見他,

tài yáng qù le, zhī liǎo zhù le, hái méi yǒu jiàn tā

待打門叫他,一銹鐵鏈子繫著。

dài dǎ mén jiào tā, yí xiù tiě liàn zi jì zhe

秋風起了,

qiū fēng qǐ le

快吹開那家窗幕。

kuài chuī kāi nà jiā chuāng mù

開了窗幕,會望見他的雙靨。

kāi le chuāng mù, huì wàng jiàn tā de shuāng yè

窗幕開了,一望全是粉牆,

chuāng mù kāi le, yí wàng quán shì fěn qiáng

白吹下許多枯葉。

bái chuī xià xǔ duō kū yè

大雪下了,掃出路尋他;

dà xuě xià le, sǎo chū lù xún tā

這路連到山上,山上都是松柏,

zhè lù lián dào shān shàng, shān shàng dōu shì sōng bǎi

他是花一般,這裏如何住得!

tā shì huā yì bān, zhè lǐ rú hé zhù de

不如回去尋他,一呵!回來還是我的家。

bù rú huí qù xún tā, yì hē, huí lái hái shì wǒ de jiā

Ele

«Cigarra»,

não cantes mais.

Ele dorme dentro de casa.

«Cigarra»,

cantas sem cessar,

e o meu coração lembra-se dele. O sol desapareceu.

A cigarra calou-se. E eu ainda não o vi.

Quero bater-lhe à porta, chamá-lo,

mas uma corrente enferrujada prende-a.

Ergue-se o vento de outono. Abre aquela cortina.

Abre-a depressa.

Se a cortina se abrir,

talvez eu veja as suas covinhas. A cortina abre-se.

Olho.

Há apenas um muro rosado. Em vão o vento derruba folhas secas.

Cai a neve.

Abro caminho para o procurar. Esta estrada sobe à montanha.

Na montanha

há apenas pinheiros e ciprestes. Ele é como uma flor.

Como poderia viver aqui?

Talvez seja melhor voltar a procurá-lo.

Ah…

Quando regresso, continua a ser

a minha casa.

Comentário da tradutora

Publicado a 15 de abril de 1919 na revista Nova Juventude (Xin Qingnian 新青年), vol. 6, n.º 4, sob o pseudónimo Tang Si (唐俟), este poema debruça-se sobre o motivo da procura de uma figura idealizada, designada apenas por “ele” (他). A indeterminação do pronome abre o texto a uma leitura amplamente simbólica. “Ele” pode ser uma pessoa amada, uma forma de beleza, um ideal espiritual ou uma promessa de renovação que permanece sempre próxima e inacessível.

A construção do poema aproxima-se de uma pequena cena dramática. A voz dirige-se primeiro à cigarra (知了), pedindo-lhe silêncio, como se o canto insistente impedisse o repouso ou amplificasse um sentimento de vazio causado por uma ausência. A cigarra, associada ao verão, adquire a função de uma voz exterior que ativa a memória interior. O seu canto fixa “ele” no coração do sujeito, instaurando uma tensão entre som, desejo e impossibilidade de encontro.

A procura organiza-se em três momentos sazonais. O verão aparece no canto da cigarra e no desaparecimento do sol. O outono surge através do vento, da cortina e das folhas secas. O inverno manifesta-se na neve, no caminho aberto à força e na montanha coberta de pinheiros e ciprestes. A primavera permanece ausente, precisamente a estação da flor, do encontro e da renovação. Esta ausência dá ao poema uma estrutura de frustração contínua.

A casa (房, 家) constitui o primeiro espaço da procura e também o ponto de retorno

enquanto a corrente enferrujada (銹鐵鏈子) parece assumir a função do objeto que impede o acesso ao interior, convertendo, assim, a proximidade em clausura. É como se a figura procurada estivesse dentro mas a porta bloqueada transformasse essa possibilidade numa forma de distância. Ou seja, a busca começa perante uma suposta presença e termina numa amargura associada ao mesmo espaço doméstico.

A cortina (窗幕) parece introduzir uma promessa de revelação. A voz espera ver as covinhas de “ele” (雙靨), detalhe corporal delicado que confere à figura uma presença quase amorosa. Quando a cortina se abre, surge apenas o muro rosado (粉牆). O gesto de desvelamento revela uma superfície vazia. A cor preserva uma delicadeza aparente, mas a presença esperada dissolve-se numa parede.

A última deslocação conduz à montanha, espaço de frio, de distância e de permanência. Os pinheiros e ciprestes (松柏), associados à resistência e também ao imaginário fúnebre, contrastam com a natureza floral de “ele”. A afirmação “ele é como uma flor” (他是花一般) torna explícita a incompatibilidade entre a figura procurada e o lugar encontrado. A flor exige outro clima, outro tempo, outra possibilidade de vida.

O verso final fecha o poema em círculo. O regresso não produz reencontro nem uma descoberta. A casa permanece a mesma e o sujeito retorna ao ponto de partida, trazendo apenas a consciência da ausência. A procura revela-se, assim, simultaneamente movimento e clausura, desejo de saída e impossibilidade de abandonar verdadeiramente o próprio lugar.

A tradução procurou acentuar a dimensão vocal e dramática do texto original, preservando os chamamentos, as interrupções e as frases breves. A divisão versal procurou tornar audível a respiração ansiosa da busca e consequente sucessão de expectativas frustradas. A linguagem mantém a simplicidade do chinês vernáculo, enquanto as imagens sazonais, a flor, a cortina, a corrente e a casa sustentam uma atmosfera de sugestão próxima de uma sensibilidade simbolista.

Nota

¹ Recolhido em Ji wai ji shiyi bian (集外集拾遺補編, Suplemento aos Escritos Recolhidos Fora das Coletâneas), incluído em Lu Xun quanji (魯迅全集, Obras Completas de Lu Xun), vol. 8, pp. 109–110.

18 Jun 2026

Uma fronteira no meio das montanhas de Fan Kuan

Cen Shen (715-770), o poeta da dinastia Tang reconhecido pelos seus «poemas da fronteira», biansai shi, quando esteve habitando num desses lugares de passagem olhando para o outro lado onde não se sabe ao certo o que lá está, ter-se-á apercebido de como é fácil fazer a travessia, como em tantas outras situações tudo pode subitamente ser outra coisa.

Como no poema que escreveu quando cumpria as suas funções de funcionário destacado na distante Luntai, perto da actual Urumqi (Xinjiang), para se despedir do ajudante de campo Wu, na altura em que este regressava a casa e deixou de o ver numa curva da montanha onde a estrada vira, ficando «na neve apenas as marcas dos cascos do seu cavalo».

Nessa Canção da neve branca notou como «Um vento selvagem do Norte açoitava a terra fazendo estalar a rija relva branca/ Já na oitava lua e o céu dos bárbaros enviava a neve rodopiante para o chão, / Como se a quente brisa primaveril tivesse regressado de súbito e, numa única noite,/ Fazendo despontar em milhares e milhares de pereiras as suas flores brancas (…)»

Pintores literatos contemplando a rudeza de escarpadas montanhas observaram como na sua aparente imobilidade, a pristina paisagem na sua lenta mudança era um limiar, um lugar onde se podiam espelhar e acompanhar com atenção as mais amenas mutações. Nas pinturas de montanhas monumentais de Fan Kuan (c. 950- c.1030), um dos três mestres da pintura da dinastia Song do Norte (960-1279) é notória a consoladora sensação de estar num lugar onde se pode morar ou passear despreocupadamente. Como se diz que seria o carácter descontraído de Fan Kuan, disponível para achar o desconhecido. Talvez não seja um acaso que na única pintura que lhe é indiscutivelmente atribuída, o rolo vertical Viajantes entre montanhas e regatos (tinta e cor sobre seda, 206,3 x 103,3 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) se vê, aninhado entre as copas das árvores junto de uma cascata, um abrigo para viandantes numa passagem de fronteira.

Fan Kuan utilizou para mostrar a ancianidade das montanhas pequenos traços de tinta chamados yudian cun, «rugas de textura de gotas de chuva», uma evolução das rugas em forma de grãos de arroz ou sésamo empilhados (zhima cun), usadas por pintores da dinastia Tang. Porém não é a chuva mas a neve que caracteriza outras pinturas atribuídas ao mestre de Huayuan (Shaanxi). Como o rolo vertical Cenário de neve, árvores de Inverno (tinta sobre seda, 160,3 x 193,5 cm, no Museu de Tianjin) atravessado na vertical por nuvens e neblinas, afectando inexoravelmente a vida das pessoas. Dir-se-ia ecoando a dor de uma despedida penetrando pelas soleiras das portas, como no poema de Cen Shen: «Flocos esvoaçando empapavam cortinas de pérolas e tecidos de seda,/ Casacos de pele de raposa não aqueciam e sob os finos edredãos bordados sentia-se o frio.»

16 Jun 2026

A influência do pensamento confucionista na formação individual e social chinesa

Por Zhang Wen Jiao张文姣

Introdução

A cultura confucionista encontra-se profundamente enraizada na sociedade chinesa. Após milénios de evolução histórica, os seus princípios continuam a manifestar-se na educação familiar, na organização escolar e nos valores sociais dominantes. Cresci imersa neste sistema cultural, recebendo desde a infância orientações assentes no estudo diligente, no cumprimento das regras e no esforço contínuo. Os meus pais aconselhavam-me a dedicar-me integralmente aos estudos, a obter bons resultados no gaokao — o exame nacional de admissão ao ensino superior — e a ingressar numa universidade de prestígio. Após a conclusão da licenciatura, esperava-se que prosseguisse estudos de pós-graduação ou que me candidatasse a funções públicas, de modo a integrar o sistema estatal, considerado um percurso de vida seguro, estável e socialmente valorizado. Além disso, era-me recomendado que evitasse relações amorosas durante a universidade, a fim de concentrar a minha energia apenas em atividades consideradas produtivas.

Ao refletir sobre a minha experiência, compreendo que este planeamento de vida e estas normas de comportamento constituem, em grande medida, uma continuidade das tradições confucionistas na sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo, revelam algumas das limitações deste pensamento: a valorização da ordem coletiva, da disciplina e da estabilidade social tende, frequentemente, a sobrepor-se à atenção dedicada ao mundo interior do indivíduo, às suas emoções e à sua realização pessoal.

Desenvolvimento

O pensamento confucionista surgiu no contexto da civilização agrícola tradicional. Neste modelo de produção, o rendimento dependia diretamente da quantidade de trabalho investido, razão pela qual a diligência, a perseverança e o empenho eram considerados virtudes fundamentais, enquanto a ociosidade era socialmente condenada. Por essa origem histórica, o confucionismo sempre incentivou os indivíduos a serem trabalhadores, prudentes e orientados para objetivos socialmente úteis. O seu ideal educativo consistia na formação do junzi, isto é, da “pessoa de bem”, caracterizada pela autodisciplina, pela obediência às normas e pelo respeito pela hierarquia.

O principal objetivo desta doutrina era assegurar a estabilidade social. Contudo, ao privilegiar a ordem e a harmonia coletiva, o confucionismo raramente conferiu centralidade às necessidades emocionais, ao bem-estar psicológico ou à procura da satisfação individual. Ao longo do tempo, esse sistema de pensamento transformou-se, em muitos contextos, num conjunto de normas que regulam não apenas o comportamento social, mas também a própria forma como os indivíduos pensam, sentem e se percecionam.

Esta disciplina manifesta-se em diferentes dimensões da vida quotidiana. Nas relações entre professores e alunos, por exemplo, o respeito tradicional pelos mestres pode ser levado ao extremo. Mesmo perante críticas injustas ou tratamentos inadequados, espera-se muitas vezes que o aluno aceite a autoridade sem a questionar. No contexto familiar, os jovens são frequentemente pressionados a aceitar as decisões dos mais velhos, sendo qualquer forma de contestação interpretada como falta de respeito. Assim, a hierarquia, inicialmente apresentada como mecanismo de organização social, pode converter-se num instrumento de limitação da autonomia individual.

O gaokao constitui uma das expressões mais evidentes da educação utilitarista influenciada por esta tradição cultural. Desde a infância, muitos estudantes aprendem que este exame representa a principal via para transformar o seu destino social. Por essa razão, o gaokao funciona, simultaneamente, como promessa de mobilidade e como mecanismo de pressão. Gerações de estudantes são levadas a competir intensamente por um lugar numa universidade de prestígio. Para indivíduos provenientes de famílias com recursos modestos, como é o meu caso, o risco de falhar ao abandonar o percurso convencional é demasiado elevado, o que torna difícil escolher caminhos alternativos.

A vivência neste ambiente contribui também para a formação de determinados traços psicológicos coletivos. A valorização da discrição e da modéstia pode gerar dificuldades de expressão pessoal e uma certa resistência em afirmar a própria identidade. Muitos indivíduos sentem desconforto perante a atenção alheia e desenvolvem uma perceção diminuída do seu próprio valor. Além disso, torna-se comum adiar a felicidade para um futuro indefinido, acreditando que a realização pessoal só será possível depois de alcançadas determinadas metas académicas, profissionais ou sociais. Deste modo, a vida passa a ser organizada em torno da conquista permanente de objetivos, em detrimento da apreciação do presente.

Na sociedade chinesa, existe ainda uma crença amplamente difundida segundo a qual suportar o sofrimento constitui uma virtude. No entanto, a minha experiência leva-me a questionar esta ideia. O sofrimento, por si só, não produz necessariamente crescimento, maturidade ou sabedoria. Pelo contrário, muitos sofrimentos desnecessários resultam apenas em esgotamento mental, desgaste físico e empobrecimento da experiência individual.

Para além disso, a sociedade tende a rejeitar aqueles que decidem afastar-se das normas estabelecidas. Quem abandona o percurso de vida considerado convencional torna-se frequentemente alvo de julgamento, crítica ou troça. Mais problemático ainda é o facto de, neste sistema de valores, apenas aqueles que alcançam sucesso segundo critérios socialmente reconhecidos parecerem adquirir legitimidade para falar sobre as suas dificuldades. Sem conquistas valorizadas pela sociedade, muitos indivíduos não encontram espaço para expressar o seu sofrimento, as suas dúvidas ou os seus desejos.

Conclusão

Em suma, o pensamento confucionista, nascido no contexto da civilização agrícola, contribuiu para a construção de um sistema social e educacional centrado na ordem, no trabalho, na hierarquia e nos interesses coletivos. A sua influência foi determinante na formação de uma sociedade diligente, disciplinada e orientada para a estabilidade. Contudo, os aspetos desta tradição que reprimem a individualidade, negligenciam a saúde mental e impõem um modelo único de realização pessoal revelam-se cada vez menos adequados às exigências da sociedade contemporânea.

Do ponto de vista individual, torna-se fundamental reconhecer a ambivalência da cultura tradicional. O confucionismo possui elementos historicamente relevantes, mas também limites que devem ser criticamente analisados. Libertar-se de normas ultrapassadas, cuidar da vida interior e aceitar a própria singularidade são atitudes essenciais para que os indivíduos possam construir percursos mais livres, conscientes e saudáveis.

zhangwenjiao280@gmail.com

12 Jun 2026

Mitos de Amor

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Neste artigo procura-se responder à seguinte questão: há mitos e lendas que nos relatem histórias de amor bem-sucedidas? E, sem querer abusar da paciência dos leitores, a uma outra: qual ou quais as condições para um amor que acabe bem?

Diz Luc Ferry (1951-), um dos filósofos contemporâneos que mais se tem dedicado ao tema do amor, em 7 Lições para ser feliz ou os paradoxos da felicidade, que entre as sete lições se encontra a de amar, porque como sabemos, desde que nos conhecemos enquanto humanidade, o amor produz verdadeiros milagres, enobrece o/a amante e o/a amado (a), quanto mais não seja aos olhos do/a amante. Pode até ser o/a maior estupor, mas nunca o é na relação amorosa, ou melhor, para o alvo dos seus amores. Deixe-se falar o autor: “enquanto o amor, o amor real ou mesmo somente possível, subsistir nesta vida, ela ainda vale a pena ser vivida” (Ferry 2017 107).

A principal questão é que quem preside a este sentimento amoroso parece ter-se esquecido das suas consequências na humanidade, seja Jesus Cristão, o Eros grego ou o Velhinho ao Luar (月老 Yuèlǎo) chinês. Jesus ensinou-nos a amar e morreu na cruz por amor à humanidade Eros, dada a sua natureza misturada: divino do lado do pai, Grandes Meios ou Astúcia (Poros), mas mortal do lado da mãe, a Miséria (Pénia), aspira constantemente à imortalidade e ao que lhe falta da sua natureza divina, só o Velhinho ao Luar parece mais tranquilo por estar solidamente ancorado na ideia de destino e sua consequência existencial, a predestinação que, como veremos adiante, garante um amor feliz aos casais unidos pelo invisível fio vermelho. Este segue o Livro dos Casamentos, no qual estão registados os nomes e endereços dos casais predestinados (Wang, Alves 2009, 113). Ainda assim, quer na China quer no Ocidente as histórias de amor infelizes sucedem-se a rápido ritmo sendo de resto as mais cantadas, talvez porque os amores bem-sucedidos não tenham história. Ou talvez não.

Quanto aos amores infelizes, quem não os conhece: Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Sansão e Dalila, os Amantes-Borboleta (梁山伯与祝英台), Afrodite (Vénus) e Ares (Marte), enfim todos eles aspiram a uma imortalidade que só conseguem vencida a morte ou ultrapassados obstáculos insuperáveis.

Na verdade, se apenas a imortalidade garante um amor feliz para sempre e, tal falta aos mortais, aos quais estará vedada a suprema felicidade, há ainda um outro obstáculo que estes têm de vencer para assegurar amores bem-sucedidos: ultrapassarem a inconstância da própria natureza humana. Esta mal tem o alvo dos seus amores, sacia-se e, como tal, o impulso erótico que conduz à procura de união com o outro vai esmorecendo, a menos que suceda um milagre, ou se sustente o amor em Deus e no casamento, como bem viu o flósofo Luc Ferrry, quando relata a história feliz de Eros e Psique, quando Zeus eleva Psique â esfera da imortalidade “para apaziguar Vénus que se queixava que o filho se casava com uma simples mortal.” (Ferry 2026, 263).

Ao casar Eros, o amor, com Psique, a alma, o amor “nunca mais será estragado pela morte” (Ferry 2026, 264). Eros está perdidamente apaixonado por uma alma bela. Mas não será isso que sucede igualmente na lógica cristã do Antigo Testamento com Jacob e Raquel agora com a mediação do tempo e do trabalho persistente para revelar as almas belas?

Atente-se na história (Gn, 29, 9-30). Jacob serviu sete anos graciosamente o seu tio Labão para poder casar com Raquel, bela pastora, que logo o encantara, mas o tio, que tinha duas filhas, sendo a mais velha Lia de belos olhos meigos, porém sem a graciosidade da mais nova, não atraía pretendentes. Quando terminado o prazo, Labão deu ao sobrinho Lia e não Raquel, porque sabia que teria dificuldade em casar a mais velha. No entanto, a esperteza de Labão afigurou-se uma bênção para a consolidação do amor de Jacob por Raquel, que teve de trabalhar mais sete anos por ela “Jacob uniu-se a Raquel, e amou Raquel mais do que a Lia. E serviu em casa do seu tio outros sete anos” (Gn, 29.30).

Deixe-se o quadro da bigamia, que pode levantar suspeitas, e veja-se que no interior de um casamento monogâmico sucede a mesma bênção amorosa aliada à persistência, cuja virtude necessita absolutamente do tempo para se revelar. Recorde-se o caso do casal estéril, Abraão e Sara, que apenas na velhice, após longo tempo, consegue conceber Isaac, quando ele nasceu já Abraão tinha 100 anos (Gn, 21, 1-7.)

Recorde-se aqui o belo soneto de Camões “Sete anos de pastor Jacob servia”:

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,

Passava, contentando-se com vê-la:

Porém o pai usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

começou de servir outros sete anos,

dizendo: Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

  

(Camões, 1980,168)

Quanto aos heróis gregos, encontra-se também o tempo e a persistência favorecida por ele como condição essencial de um amor realizado e tão feliz quanto possível na esfera humana, já que os protagonistas são obrigados a atravessar muitos obstáculos para o alcançarem. Considere-se o amor de Ulisses/Odisseu e Penélope. Muito sofreram Ulisses e Penélope para alcançar uma vida alegre e harmoniosa, como diria Ferry (2026,44). Resumindo, Ulisses dedicou dez anos da sua vida à guerra de Troia, da qual, graças à artimanha do cavalo de Troia, os gregos saíram vencedores. Prestes a regressar a casa, voltando para o seu mundo e para os braços de sua rainha de Ítaca, Penélope, Ulisses desafia inadvertidamente o deus do mar, Poseidon, por arrancar um olho a um dos seus filhos, o ciclope Polifemo. É castigado com mais dez anos de andanças e obstáculos levantados pela divindade na sua viagem de regresso a casa. Enquanto isto, Penélope vai fiando para afastar os incómodos pretendentes. Ela estava sem alternativa, ou persistia no duro trabalho que se tinha proposto, ou teria de casar com um dos solícitos aspirantes à sua mão. Só casaria quando acabasse de tecer um sudário para o velho Laerte, pai de Odisseu (Johnston, 2025, 415). Foi esticando a tarefa até ao regresso do marido, entretanto o seu truque de desfazer à noite o que fazia de dia, para alargar o tempo, foi descoberto por uma escrava e ela deixou de conseguir protelar a escolha. Felizmente, o destino jogou a seu favor e, eis senão quando, o marido chegaria a tempo de a resgatar. Sobrepondo-se a todos os pretendentes em astúcia e excelência bélica, recuperava definitivamente a mão da mulher. E o resto já sabemos, terminaram as suas vidas bem e juntos.

À persistência, ao trabalho e ao tempo, acrescentam os chineses a predestinação, um fator fundamental para o verdadeiro amor na China. Aqui há um Livro dos Casamentos onde estão registados os nomes e endereços dos casais predestinados e há até uma história que ilustra o poder deste livro divino e dos cordéis vermelhos, invisíveis a olhos humanos com que o Velhinho ao Luar ata pés de noivo e noiva. Este, certa vez, foi abordado por um jovem de nome Wei Gu (韦固) que viveu no início do século IX durante a dinastia Tang. Ele perguntou ao Velhinho por que razão por mais que fizesse não se conseguia casar, ao que ele retorquiu que teria de esperar pois a noiva tinha apenas 3 anos. Disse-lhe ainda que havia de casar com ela passados 14 anos, quando ela fizesse 17 anos. O rapaz quis ainda ir espreitar a futura noiva, tendo sido informado que era filha de uma vendedora de hortaliças, a Velha Chen (陈婆). Achando mãe e filha muito feias, tentou interferir com o destino, enviando um lacaio para matar a menina com uma faca. Felizmente, este não teve coragem para o fazer, tendo apenas ferido a pequena entre as sobrancelhas. Entretanto, Wei Gu fugiu para outra terra com medo de que lhe descobrissem a tentativa de homicídio. Exatamente 14 anos depois foi nomeado conselheiro do governador de Xiangzhou, que muito apreciou o seu trabalho. Teve então como recompensa pelos bons serviços prestados a mão da filha, a menina Wang, extremamente bonita, embora andasse sempre com um adorno que lhe tapava o espaço entre as sobrancelhas. Ela não era filha, mas sobrinha adotada pelo governador como filha depois de ter ficado orfã. (Wang, Alves, 2009, 114). E como ninguém foge ao seu destino na China, o marido veio a descobrir que recebera a predestinada noiva, ditada em casamento pelo Velhinho ao Luar.

No caso de se aceitar a teoria da predestinação, parece ser mais fácil justificar os amores bem-sucedidos. Ainda assim, também é preciso tempo para que a ação divina se concretize. Há que esperar, mesmo sem consciência de que se está a fazê-lo, a fim de dar uma oportunidade ao destino chinês, à vontade dos deuses grega, ou à graça divina judaico-cristã para atuarem. É necessário persistir e mostrar belas almas, bondosas, esforçadas e pacientes, como as de Jacob e Raquel ou de Abraão e Sara, ou inteligentes, fortes e astutas, se pensarmos em Penélope e Ulisses, ou então trabalhadoras e leais ao seu senhor ao jeito chinês de Wei Gu.

Nada acontece por acaso no amor, nem mesmo fora do quadro da teoria da predestinação amorosa. O amor em Deus, justificado pela religião judaico-cristã, consumado através do casamento, o amor divino, sustentado pelo destino chinês, ou o amor, enquanto poder demiúrgico manifestado pelas divindades e heróis gregos é a grande força, virtude à maneira grega, que comanda o mundo. Portanto, podemos e devemos cantar os amores que acabam bem, dentro do quadro harmonioso e tensional humano, com a consciência, cultivada inclusive pela literatura, do quanto tiveram de penar para atingir o seu ponto de equilíbrio.

Referências Bibliográficas

Baidu.Baike (ed). 2026. “月下老人” (Velhinho ao Luar) Baidu.Baike. Disponivel em: https://baike.baidu.com/item/%E6%9C%88%E4%B8%8B%E8%80%81%E4%BA%BA/571658, acedido a 31 de maio de 2026.

Camões, Luís de. (1980). Lírica Completa II. Sonetos. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Edições Paulus (Ed) (1997).Bíblia Sagrada. Paulus.

Ferry Luc. (2026). A Mitologia Grega de A a Z. Guerra e Paz.

Ferry Luc. (2017). 7 Lições para ser feliz ou os paradoxos da felicidade. Temas e Debates e Círculo de Leitores.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. (2009). Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Caminho.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

10 Jun 2026

O Herói Predestinado e o Pintor Que Foi um Bandido

Yue Fei (1103-1142), que foi mais do que um preclaro militar da dinastia Song, emergeria do lamentável Jingkang shibi, o «incidente de Jingkang» em 1127 que levaria à queda da dinastia Song no Norte, como uma figura unanimemente reconhecida, admirada por historiadores e literatos e até na fértil imaginação popular, recordado como a arquétipa figura do herói possuidor de uma lealdade inabalável.

E nisso não fazia senão responder a um fabuloso destino previsto pelos seus pais ao notar que, logo na altura do seu nascimento um grande pássaro como um cisne pousara sobre o telhado da sua casa. Reconheceram nele o mítico Peng descrito por exemplo logo no início do capítulo Xiaoyaoyu, «Vadiagem livre e descontraída», do clássico Zhuangzi, que surgira da transformação do grande peixe Kun, «tão grande que nem sei quanto ele media» e que habitava na escuridão do Norte. Por isso lhe deram o nome Fei, «voar».

Após a captura do imperador e da família real às mãos dos Jurchen, o jovem Yue Fei seguiu Zhao Gou (1107-1187), o nono filho do imperador Huizong e futuro imperador Gaozong (1127-1129) para o Sul até estabelecer a nova capital dos Song do Sul em Lin’an, a actual Hangzhou, onde ainda hoje existe um templo honrando a sua memória.

Dado o seu forte, estudioso e disciplinado carácter que o tornaria um exemplo nas wushu, as «artes marciais», não se limitou a seguir o herdeiro do trono e em diversas batalhas enfrentou os invasores do Norte. Respondia assim aos quatro caracteres que trazia tatuados nas costas: jin zhong bao guo, «servir o país com a mais alta lealdade».

Mas se Yue Fei permaneceu ligado aos exércitos imperiais, outros súbditos leais no meio do ambiente caótico da guerra organizaram-se em grupos de rebeldes, alguns dos quais seguindo um exemplo da dinastia Han, refugiaram-se na escarpada cordilheira Taihang, que por se ter tornado num abrigo de soldados foragidos e camponeses deslocados também passou a ser chamada Heishan, a «Montanha negra». São famosos diversos desses grupos que combatiam nas montanhas, compostos por indivíduos insubmissos, epítomes da revolta contra a autoridade.

Xiao Zhao, um pintor de Houze (actual Yangcheng, Shanxi) activo entre 1130 e 1162, tinha esse passado de rebelde, vivendo como um bandido acoitado nas veredas sinuosas da montanha Taihang mas diz-se que no decurso de um ataque encontrou o pintor Li Tang (c. 1050-1130) e pinturas que dele viu mudaram a sua vida. Seguiu-o para a capital do Sul, seguindo igualmente o seu estilo de pintura. Na pintura intitulada Viajantes numa passagem de montanha (p. 10 do álbum de Colecção de Pinturas dos tempos antigos, tinta e cor sobre seda, 25,2 x 24,2 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) nota-se a pequenez de uma caravana que vem subindo um caminho diante de uma imensa serrania, quiçá a montanha Taihang.

8 Jun 2026

Poemas de Lu Xun #18

自題小像

zì tí xiǎo xiàng

靈臺無計逃神矢

líng tái wú jì táo shén shǐ

風雨如磐暗故園

fēng yǔ rú pán àn gù yuán

寄意寒星荃不察

jì yì hán xīng quán bù chá

我以我血薦軒轅

wǒ yǐ wǒ xuè jiàn xuān yuán

Inscrição no meu retrato

A alma curva-se à flecha do céu oculto

vento e chuva toldam a pátria como véu pesado

às estrelas frias confio um lume que ninguém decifra no sangue aceso ergo a oferenda a Xuanyuan

Notas

靈臺 (líng tái) designa o espaço interior do espírito, frequentemente associado ao coração enquanto sede da consciência moral. A expressão remete para uma tradição filosófica em que interioridade e ordem ética se articulam.

神矢 (shén shǐ) refere uma flecha divina, associada à ação inevitável de uma força superior. A imagem pode ser interpretada como destino ou impulso inescapável que orienta o sujeito.

風雨如磐 (fēng yǔ rú pán) constitui uma expressão idiomática que descreve uma situação de grande adversidade. A comparação com uma massa pesada intensifica a sensação de opressão política e histórica.

故園 (gù yuán) designa o lugar de origem, com forte carga afetiva e simbólica. A tradução por pátria preserva a dimensão coletiva implícita no contexto do poema.

寒星 (hán xīng) corresponde a estrelas frias, imagem associada a distância e indiferença. 荃 (quán), planta aromática ligada à tradição clássica, surge aqui como referência a destinatários ideais que não reconhecem a intenção do sujeito.

薦 (jiàn) significa oferecer em contexto ritual. A expressão 我以我血薦軒轅 indica um gesto de sacrifício dirigido a uma figura fundadora.

軒轅 (Xuān Yuán) refere o Imperador Amarelo, figura mítica associada à origem do povo chinês. No contexto do poema, designa a pátria enquanto entidade simbólica.

Comentário da tradutora

Este poema apresenta uma estrutura condensada composta por quatro versos que articulam uma progressão conceptual rigorosa. Cada verso constitui um núcleo semântico autónomo, integrado numa sequência que conduz da interioridade à afirmação sacrificial.

O primeiro verso introduz o domínio da interioridade através de 靈臺 (líng tái), termo que designa o espaço do espírito ou da consciência. A impossibilidade de escapar à 神矢 (shén shǐ) estabelece um princípio de inevitabilidade que orienta a ação do sujeito. Este enquadramento define uma relação entre vontade individual e determinação superior. A tradução recorre a uma solução lexical que preserva a dimensão abstrata do termo, optando por uma formulação que mantém a abertura interpretativa e a intensidade simbólica.

O segundo verso desloca a enunciação para o plano exterior. A expressão 風雨如磐 (fēng yǔ rú pán) constrói uma imagem de adversidade intensa, associada a contextos de crise histórica. O termo 故園 (gù yuán) introduz uma dimensão afetiva e coletiva, remetendo para o espaço de origem enquanto lugar de pertença. A obscuridade que recai sobre este espaço sugere desordem e tensão. A tradução privilegia uma construção sintática concisa que torna perceptível o efeito de opacidade, mantendo a articulação entre fenómeno natural e condição histórica.

O terceiro verso introduz uma relação problemática com o destinatário do discurso. A expressão 寄意 (jì yì) implica projeção do sentimento para um outro. 寒星 (hán xīng) evoca distância e frieza. 荃 (quán), associado à tradição clássica, reforça a dimensão intertextual. A formulação 不察 (bù chá) indica ausência de reconhecimento. Este conjunto estabelece uma tensão entre expressão e receção.

O quarto verso condensa o movimento anterior numa formulação de caráter sacrificial. A repetição de 我 (wǒ) em 我以我血 (wǒ yǐ wǒ xuè) intensifica a implicação do sujeito. O verbo 薦 (jiàn) remete para um gesto ritual de oferenda. 軒轅 (Xuān Yuán) introduz uma referência mítica à origem da civilização chinesa. A associação entre sacrifício individual e figura fundadora estabelece uma ligação entre identidade pessoal e destino coletivo. A tradução mantém o nome próprio Xuanyuan (軒轅), assegurando a preservação da referência cultural e do seu valor simbólico.

No conjunto, o poema articula três eixos fundamentais. Um eixo histórico marcado pela representação da pátria em crise que culmina na oferenda sacrificial.

A dimensão intertextual desempenha uma função estruturante. Referências como

靈臺, 荃 e 軒轅 inscrevem o poema numa continuidade com a tradição clássica.

O poema pode ser lido como uma afirmação de responsabilidade individual num contexto de crise coletiva. A impossibilidade de evasão, a falha de reconhecimento e a decisão de sacrifício configuram um percurso que conduz à inscrição do sujeito no plano da história e do mito. A tradução procura reproduzir esta articulação através de uma construção sintática linear e de uma economia expressiva que sustenta a unidade do texto.

20 Mai 2026

O homem de pé diante das montanhas frias de Gao Yan

Liu Zhangqing (c.709-785), que foi funcionário imperial e poeta durante um período de grande perturbação política que abalou a dinastia Tang, como a revolta de An Lushan, foi também no seu percurso biográfico acompanhado de sucessivas acusações e condenações que o levaram a contínuas deslocações até chegar ao importante posto de governador de Suizhou (Hubei) em 780, a partir do qual passaria também a ser conhecido como Liu Suizhou como se finalmente encontrara o seu lugar.

Numa dessas deambulações, descreveu de forma breve e eloquente como foi acolhido numa noite de vento e chuva numa Montanha dos Hibiscos, um nome comum a várias montanhas:

«A noite descendo e as montanhas verdes surgem na sua vastidão de caminhos infinitos, No meio do frio gelado uma humilde cabana surge na sua pobreza. Subitmente por trás de uma porta, feita de ramos entrelaçados, oiço um cão a ladrar, Nessa noite de chuva e neve fui recebido como se fora da família.»

Muitos anos depois, um outro poeta, também pintor, deixou-se tocar pela mesma impressão contrastante de sentida tristeza perante a irrecusável beleza diante de seus olhos. Chamava-se Gao Yan (1492-1542) e também ele vivia tempos inquietantes, com a abrupta mudança dinástica de Ming para a estrangeira Qing que parecia vir para fazer esquecer tantas e tão acarinhadas tradições e convicções. Não sucederia assim mas o pintor de Guangdong ainda não sabia e num dia em que de súbito o tempo começou a mudar, tornando-se mais frio e escuro guardou a memória dessa mutação indesejada numa pintura e num poema.

A pintura (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 169 x 92 cm, no Museu de Arte da Universidade Chinesa de Hong Kong) mostra a amplidão das montanhas cobrindo-se de branco com pequenos povoados aninhados sob um céu cinzento e um homem só, entrando no canto inferior esquerdo.

Gao Yan desenhou esse homem que parece ouvir um rumor interior com um tecido preto sobre a cabeça, o daojin que distingue os viajantes errantes e ermitas daoístas. O preto, entendido como a reunião de todas as cores associado ao elemento água, a força flexível dos que buscam o Dao, o bem maior separado de qualquer autoridade secular.

Cruzando o espaço da pintura numa recta oblíqua, no canto superior direito, o autor escreveu o poema como se fora ele o homem que vem entrando, deparando-se com a brancura da neve branda que caracteriza o vigésimo período, xiaoxue, de vinte e quatro da divisão tradicional dos tempos do ano.

E como tudo o que cai, desperta-lhe a intuição de escutar um som e a suavidade do silêncio que se segue: «O céu azul como num sonho fecha-se numa névoa primordial, Numa só noite uma incrível extensão de nuvens vermelhas esvazia-se. Colinas e vales tornam-se num ápice num mundo prateado, O homem de pé, sozinho, está imerso nos mais desventurados pensamentos.»

18 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

Tradução Rui Cascais

越中逢天台太一子

仙穴逢羽人

停艫向前拜

問余涉風水

何事遠行邁

登陸尋天台

順流下吳會

兹山夙所尚

安得聞靈怪

上逼青天高

俯臨滄海大

雞鳴見日出

每與仙人會

來去赤城中

逍遙白雲外

莓苔異人間

瀑布作空界

福庭長不死

華頂舊稱最

永願從此遊

何當濟所屆

Em Yue, Encontrando ao Acaso Um Mestre Taoista de Tiantai

Junto a uma gruta dos Imortais encontrei um homem emplumado; 1

Desembarcando, dirigi-me a ele para prestar respeito.

Perguntou da minha travessia sobre as águas batidas pelo vento:

De que serve embarcar em viagens longínquas?

“Podem-se cruzar desertos em busca de Tiantai,

Ou seguir corrente abaixo até Kuaiji em Wu.

Essa montanha reverenciei toda a vida,

Mas como saber dos seus numinosos prodígios?

Erguendo-se, enche as alturas do céu azul;

Em baixo, olha a extensão do mar turquesa.

Ao cantar do galo vê-se o sol aparecer,

Estamos sempre acompanhados pelos Imortais.

Vão e vêm no Pico da Falésia Vermelha,

Livres e leves além das nuvens brancas.

Líquen e musgo são diferentes dos do reino da morte,

E um lençol de espuma delineia os limites do espaço.

De entre os pavilhões a que a morte nunca vem

O mais elogiado sempre foi o da Crista Florida.

Peço poder partir de onde estou,

Para me ir até onde quero chegar um dia.”

Nota – Uma pessoa emplumada é alguém que transcendeu este “mundo de pó” e viaja pelo espaço como se tivesse asas. A residência terrena destas pessoas é em “grutas celestes (洞天), nas profundezas de montanhas sagradas, como Tiantai, que dão acesso a outros mundos, a mundos paralelos.

POEMA

早發漁浦潭

東旭早光芒

渚禽已驚聒

臥聞漁浦口

橈聲暗相撥

日出氣象分

始知江路闊

美人常晏起

照影弄流沫

飲水畏驚猿

祭魚時見獺

舟行自無悶

况值晴景豁

Saindo Cedo da Enseada do Pescador 1

Primeiros raios da estrela d’alva a oriente;

As aves na ilhota guincham surpresas.

Deitado escuto, na boca da enseada,

O som dos remos começando a bulir na obscuridade.

Com o sol erguendo-se, percebem-se formas ténues;

Agora fico a saber a vastidão da estrada líquida.

Formosas mulheres, a pé sempre tarde,

Remiram-se na água e brincam com a correnteza.

Temo espantar os gibões que bebem na margem;

Vê-se às vezes uma lontra a catar um peixe.

O barco voga e eu vogo de coração livre,2

Nesta cena que se descerra luminosa.

Na margem do Rio Zhe, a sudoeste do actual distrito de Xiaoshan (蕭山), no Zhejiang.

Nota – “Coração livre” traduz 無悶 (wú mèn); o caracter 悶, com a sua tremenda visualidade, pode traduzir-se por “enfado”, “tédio”, “melancolia”, “aperto”, sendo, por sua vez, composto por dois carateres, “porta” 門 (mén), e “coração” 心 (xīn).

15 Mai 2026

O Convidado da Noite Que Veio da Montanha de Yongjia

Xie Lingyun (385-433), o poeta que fez das montanhas e dos cursos de água descritos nos seus poemas lugares onde o leitor podia habitar, durante um exílio amargo em 422-3, em Yongjia (Zhejiang), descreveu como lá subiu à sua montanha Cangyan, da «Encosta verde» como quem sabia que sair de casa era já voltar e a verdadeira morada era no caminho. «Levo pouca comida, um bastão leve e vou caminhando até minha casa numa quietude inexplicável, o caminho ao longo de ribeiros ziguezagueando a perder de vista vai até ao topo das serranias.

Não tem fim esta maravilha nas suas águas silenciosas de uma beleza gelada e bambus cintilando por dentro com o gelo, cascatas espalhando uma profusão de salpicos e grandes florestas aglomerando-se em penhascos distantes (…)» Toda essa região, que se estendia atrás das grandes metrópoles à volta do delta do «Grande rio» Changjiang, com a impressionante cordilheira Huangshan, a «Montanha amarela» no Sul de Anhui, tornar-se-ia no século XVII, o motivo e a inspiração de muitos pintores igualmente desiludidos e amargurados.

Esses pintores, da designada «Escola de Anhui», reconheciam na paisagem de cumes escarpados e sendeiros serpenteando pelas encostas, uma afinidade com a sua própria inquietação espiritual. Anos antes, durante a dinastia Tang, um monge de Yongjia que tomou o nome do lugar para si próprio, Yongjia Xuanjue (665-713), encarnara essa inquietude percorrendo cerca de oitocentos quilómetros, atravessando a região em direcção a Caoxi no Sul, a Norte de Guangdong, para no mosteiro Baolin onde residia o mestre do Budismo chan Huineng (638-713), lhe fazer uma pergunta sobre o incessante renascimento da alma. Apressado o monge viajante, obtida a confirmação da sua súbita iluminação quis voltar logo para casa, à região do seu nome, porém Huineng e os discípulos que o rodeavam, convenceram-no a ficar com eles até ao dia seguinte, por essa razão Yongjia Xuanjue seria conhecido como o «convidado da noite». A região continuaria a atrair poetas e pintores com a desconcertante sedução de um espelho.

Liu Yu (1632-depois de 1717) em duas pinturas (no Metmuseum) feitas em rolos horizontais que ao serem desenrolados exigiam a intimidade do corpo do observador, abrindo-lhe os olhos como se fora de noite, retratou esses lugares como se neles viajara.

Numa delas (tinta e cor sobre papel, 27 x 366,1 cm), que um autor designou num colofóne como «Vales remotos, sons de cascatas, densas florestas», citando um verso de Li Bai, outro autor (Xi Ying, séc. XVIII?) reflectiu sobre a memória do caminho. Referindo um álbum que vira do mesmo autor e desde então habitava os seus sonhos, escreve sobre a presente pintura, descrevendo-a como de «ilimitadas maravilhas, inumeráveis transformações» que, a partir de agora, os seus pensamentos tinham mais uma via onde morar.

14 Mai 2026

Velhos Mitos, Novos Heróis

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

2 de maio de 2026

Desde a mais remota antiguidade que somos alertados contra os perigos do excesso, aliado à ambição. Seja excesso de inteligência e criatividade, seja de beleza ou de força.

O melhor exemplo, para o excesso de beleza, em uníssono com uma ambição desmedida encontramo-lo no mundo judaico-cristão no Antigo Testamento e em dois livros proféticos, o primeiro em Isaías e o segundo em Ezequiel.

 No livro de Isaías há uma descrição sucinta do que aconteceu a Lúcifer, o anjo da luz, o mais belo e radioso de todos, cuja ambição era ultrapassar Deus em poder e esplendor, valendo-lhe tal desígnio a queda no reino da trevas para toda a eternidade:

“Tu que pensavas: «Vou subir até ao céu, vou colocar o meu trono acima das estrelas de Deus; vou sentar-me na montanha da Assembleia, no cume da montanha celeste. «Subirei até às alturas das nuvens e tornar-me-ei igual ao Altíssimo.» E agora estás precipitado na mansão dos mortos, nas profundezas do abismo.” (Is 14, 13-15)  

 No livro de Ezequiel (28, 14-19) acrescentam-se mais pormenores à queda de Lúcifer, o querubim de asas abertas, que passeava entre pedras de fogo na montanha de Deus, sendo perfeito até ter entrado a maldade nele, por causa do esplendor da sua beleza, que o tornou tão orgulhoso a ponto de desejar competir pelo trono de Deus. Foi, sem dúvida, o excesso de beleza e ambição que o perdeu.

 Melhor sorte o pai de Ícaro, Dédalo, não esperava no mundo grego cujo engenho e inteligência o levaram a construir uma armação feita de penas de gaivota que lhe custaria a vida do próprio filho, jovem desobediente, incapaz de seguir os conselhos do pai.

 Dédalo estava retido em Creta pelo rei Minos, que muito prezava o seu engenho por lhe ter construído um labirinto, entre tantas outras invenções maravilhosas. O rei não o queria deixar regressar à Atenas, donde se evadira por ter tentado matar o sobrinho, Pérdicas, salvo por Atena no último instante que o transformou numa perdiz.

Mas Dédalo estava decidido a regressar com o seu filho Ícaro à terra natal, pelo que inspirando-se no voo das gaivotas e nas penas que largavam em seu redor, passou dias a reunir as penas, conforme os tamanhos e com ajuda da cera de abelhas e madeira de cedro construiu umas asas maiores para si e umas mais pequenas para Ícaro, advertindo o filho: “não voes demasiado alto, Ícaro; se o fizeres, o sol vai derreter a cera que segura as penas à moldura de madeira, e despenhas-te sem penas no mar.” (Johnston, 2025, 156).

Dédalo pagou o maior dos preços pelo seu excesso de inteligência criativa, perdeu o filho, já que este, atraído pela beleza dos céus e movido a curiosidade infantil, se despenharia, por se ter aproximado demasiado do sol, tendo sido encontrado o seu corpo numa ilha que hoje se chama Icária.

Também na China antiga, a hybris/húbris, confiança arrogante e o orgulho desmedido, se pagavam com uma morte trágica e pouco famosa, como sucedeu ao titã Kuafu (夸父) no mito “Kuafu persegue o sol” (夸父逐日kuāfù zhú rì), como Wang Suoying e eu tivemos oportunidade de descrever em Mitos e Lendas da Terra do Dragão.

Kuafu era um ser titânico neto do Deus da Terra, que vivia numa longínqua montanha do deserto. Adorava brincar com cobras, ostentando duas em cada orelha, outras duas em cada mão. Este gigante de força desmedida resolveu certa vez competir com o astro-rei, tentando alcançá-lo antes de ele se retirar dos céus. “Quando finalmente estava prestes a abraçar o sol no abismo Yu, sua última passagem, sentiu tanta sede que se precipitou para o Rio Amarelo. Bebeu-o todo, mas o corpo a abrasar pedia-lhe mais água. Foi então que se lembrou de ir ao Grande Lago do Norte (北方大泽Běifāng dàzé), só que morreu de sede antes de chegar ao destino. ” (Wang, Alves, 2009, 93).

Esta é a versão tradicional do mito “Kuafu persegue o sol”, na qual o

O herói mitológico tem um fim trágico, devido à sua arrogância e autoconfiança, desafiadora das forças divinas e do destino. Porém, hoje aposta-se numa outra leitura para este mito, naturalmente possível dada a amplitude polissémica do mesmo.

 No presente, na enciclopédia chinesa, Baidu. Baike (2026), Kuafu é apresentado como um titã muito benigno e patriótico. Na versão atual, o excesso compensa inteiramente. Kuafu é o chefe de uma tribo de gigantes, descritos do seguinte modo “他们身强力壮,高大魁梧,意志力坚强,气概非凡。而且还心地善良,勤劳勇敢,过着与世无争,逍遥自在的日子。” (Eles tinham compleição corpulenta,eram muito altos, dotados de grande força de vontade e espírito extraordinário. Além disso, eram bondosos e trabalhadores, pouco conflituosos despreocupados.

No entanto, como a zona em que moravam era deserta e o calor intenso, em certo dia em que o sol estava mais abrasador, o líder destes gigantes resolveu persegui-lo para acabar com o sofrimento do seu povo. Embora avisado dos riscos que corria, resolveu tentar prestar um bom serviço à comunidade. Quanto ao resto da história já é conhecida, primeiro bebeu o Rio Amarelo todo, depois ainda tentou chegar ao Grande Lago, mas, entretanto, morreu de sede.

Desconhecia-se era a explicação para a sua morte, aliada a um louvor que em nada se coaduna com a mundividência das culturas tradicionais: “夸父逐日的故事向人们展现了夸父为了族人的幸福而勇于献身的精神,充分地反映了古代先民勇敢地与自然灾害做斗争的事实。这个世界正是有了夸父和无数个与夸父一样勤劳、勇敢、坚定不移、不怕牺牲的人们,前仆后继和奋勇向前,才有了社会的进步、人类文明与科技的发展。(A história da perseguição do sol por Kuafu demostra o espírito de sacrifício dele para benefício da seu povo, refletindo a corajosa luta dos nossos antepassados contra as calamidades naturais. É por haver tanta gente tão trabalhadora, corajosa, persistente e com espírito de sacrifício como Kuafu que este mundo avança, servindo de exemplo a sua coragem aos outros em prol do progresso da sociedade, da civilização e do desenvolvimento científico)” (Ibidem)

Mudam-se os tempos, mas os mitos permanecem, recebendo os protagonistas e as tramas novas leituras, mais consentâneas com o espírito contemporâneo. Mergulhados numa era de apogeu científico e tecnológico, os chineses, à semelhança de tantos ocidentais, acreditam no ideal fáustico e na resposta científica para salvar as sociedades humanas através do conhecimento, ainda que para tal muitos heróis percam a vida pelo caminho, esgotados pelo esforço.

Ora como todos havemos de morrer, cabe a cada um de nós decidir se deseja partir cansado e excessivo ou repousado e seguindo a via do meio enquanto a sua linha da vida o permitir.

Bibliografia

Baidu (ed). 2026《夸父逐日[kuā fù zhú rì]》. In Baidu. Baike (百度百科) https://baike.baidu.com/item/%E5%A4%B8%E7%88%B6%E9%80%90%E6%97%A5/79883, acedido a 1 de maio de 2026.

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

13 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

自潯陽泛舟經明海作

大江分九派

淼漫成水鄉

舟子乘利涉

往來逗潯陽

因之泛五湖

流浪經三湘

觀濤狀枚發

吊屈痛沉湘

魏闕心常在

金門詔不忘

遙憐上林鴈

冰泮已回翔

Escrito Com o Meu Barco a Atravessar o Lago Brilhante Desde Xunyang 1

Aqui, o grande Jiang divide-se em nove braços,

Enchente e vaga formam uma província de águas.

Aproveita, barqueiro, a travessia favorável. 2

Indo e vindo, param em Xunyang,

E, seguindo-os, vogo nos Cinco Lagos, 3

Sobre o branco das ondas até aos Três Xiang. 4

Os vagalhões confirmam os Incitamentos de Mei Sheng; 5

Dói fazer luto por Qu Yuan, que se afogou no Xiang. 6

O meu coração vive sempre entre as colunas do palácio;

Não se deve ignorar um chamamento à Porta Dourada. 7

Por isso invejo de longe o ganso selvagem voando,

Quando o gelo se funde, para casa no Bosque de Sua Alteza. 8

1.Xunyang, actual Jiujiang (Nove Rios), em Jiangxi, a norte do Lago Pengli (actual Poyang). O Lago Brilhante é, muito provavelmente, o Lago Pengli.

2. Referência ao hexagrama 5 do Yijing, sobre atingir objectivos.

3. O Lago Tai 太湖, em Jiangsu, e quatro outros de nome diferente ao longo do tempo.

4. O Rio Xiang, em Hunan, e dois braços de nome diferente ao longo do tempo.

5. Mei Sheng’s 枚乘 (defunto ca. 140 a.C.), no seu poema Sete Incitamentos 七發, descreve o macaréu do Rio Qiantang.

6. Jia Yi escreveu o poema De Luto por Qu Yuan no lugar junto ao Rio Xiang em que aquele poeta, e cortesão mal-amado, se terá afogado.

7. O Zhuangzi fala do príncipe Mouzi 牟子 que se lamentava pelo seu coração ainda residir entre as colunas do palácio apesar do seu corpo deambular por rios e lagos. A Porta Dourada era onde os vassalos imperiais se alojavam no tempo de Han Wudi (regnavit 141–87 a.C.).

8. O grandioso parque imperial conhecido por Bosque de Sua Alteza situado fora do palácio (no tempo de Han Wudi). Quando o gelo começa a fundir na capital, os gansos selvagens ali regressam.

6 Mai 2026

O Mestre Daoísta Que Conversou Com Gengis Khan

Li Zhichang (1193-1256), um sacerdote daoísta escreveu a minuciosa narrativa de uma extraordinária viagem de mais de dez mil quilómetros que fez com o seu mestre partindo de Shandong, as «montanhas do Oriente», até à cordilheira Hindu kush, um nome de significação instável mas a que o viajante árabe Ibn Battuta deu o sentido de «montanha matadora de hindus», dada a quantidade de escravos hindus conduzidos por mercadores muçulmanos que nelas morriam na dificílima tarefa de as atravessar.

A razão por que o seu mestre fez tão incrível jornada foi para responder a uma pergunta que lhe queria fazer o mais temível guerreiro da História, chamado Gengis Khan (1162-1227). E o seu mestre, que nessa altura contava já setenta e dois anos, era Qiu Chuji (1148-1227) cujo inesperado percurso vital, orfão desde muito cedo, e vivendo isolado na montanha Gongshan, segundo uma descrição vivia aí «usando flores de pinheiro na cabeça, alimentando-se de nozes de pinheiro, bebendo a brisa dos pinheiros que passava sob a lua e sobre o rio dos pinheiros», o levaria a fundar a famosa «escola» da Porta do Dragão do daoísmo.

Foi conhecido como Qiu Changchun, o da «eterna Primavera», denotando a sua vibrante energia e incansável vitalidade e é por esse nome que é designado no texto de Li Zhichang; Changchun zhenren xiyouji «Relato das deambulações ao Ocidente do mestre espiritual Qiu Changshun». Munido de uma «credencial de tigre», yin hufu, um instrumento em forma de um tigre dourado dividido em dois que autenticava a autoridade do chefe guerreiro, e um édito selado que lhe permitiu atravessar o império acompanhado de dezoito discípulos, respondendo a uma carta de convite que lhe entregou um enviado. Chega em 1222 a uma área da Àsia Central, perto do rio Amu Darya no actual Afeganistão. A pergunta seria formulada de forma ardilosa: preocupado com a estabilidade e a ordem no seu vasto império, Gengis Khan queria saber se existia um meio de prolongar para sempre a sua vida. Porque a necessidade de uma sociedade bem ordenada sob um governo equilibrado era uma preocupação geral.

Cheng Qi na dinastia Yuan, por exemplo, foi autor da pintura Cultivo do arroz (rolo horizontal, tinta e cor sobre papel, 32,7 x 1049,8 cm, no Smithonian) que no século XIII recriava uma ideia do funcionário Lou Shou que no século anterior propunha a visualisação da produção da seda ou os vinte e um passos da do arroz como incentivo à estabilidade que se desejava para que a população vivesse habitualmente. A resposta que Qiu Chuji deu a Gengis Khan mostraria que ele era um verdadeiro sábio. Não, ele não possuía um elixir que prolongasse a vida mas sabia como a proteger. Recomendava-lhe uma dieta de vegetais e a contenção dos desejos mas sobretudo que minimizasse o uso da violência e purificasse o coração através do respeito pelo povo.

5 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

越中逢天台太一子

仙穴逢羽人

停艫向前拜

問余涉風水

何事遠行邁

登陸尋天台

順流下吳會

兹山夙所尚

安得聞靈怪

上逼青天高

俯臨滄海大

雞鳴見日出

每與仙人會

來去赤城中

逍遙白雲外

莓苔異人間

瀑布作空界

福庭長不死

華頂舊稱最

永願從此遊

何當濟所屆

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Em Yue, Encontrando ao Acaso Um Mestre Taoista de Tiantai

Junto a uma gruta dos Imortais encontrei um homem emplumado; 1

Desembarcando, dirigi-me a ele para prestar respeito.

Perguntou da minha travessia sobre as águas batidas pelo vento:

De que serve embarcar em viagens longínquas?

“Podem-se cruzar desertos em busca de Tiantai,

Ou seguir corrente abaixo até Kuaiji em Wu.

Essa montanha reverenciei toda a vida,

Mas como saber dos seus numinosos prodígios?

Erguendo-se, enche as alturas do céu azul;

Em baixo, olha a extensão do mar turquesa.

Ao cantar do galo vê-se o sol aparecer,

Estamos sempre acompanhados pelos Imortais.

Vão e vêm no Pico da Falésia Vermelha,

Livres e leves além das nuvens brancas.

Líquen e musgo são diferentes dos do reino da morte,

E um lençol de espuma delineia os limites do espaço.

De entre os pavilhões a que a morte nunca vem

O mais elogiado sempre foi o da Crista Florida.

Peço poder partir de onde estou,

Para me ir até onde quero chegar um dia.”

Uma pessoa emplumada é alguém que transcendeu este “mundo de pó” e viaja pelo espaço como se tivesse asas. A residência terrena destas pessoas é em “grutas celestes (洞天), nas profundezas de montanhas sagradas, como Tiantai, que dão acesso a outros mundos, a mundos paralelos.

29 Abr 2026

Quem Subia e Descia Montanhas Guiando Carros de Bois

Liu Xiang (77-6 a. C.), que foi astrónomo, historiador, bibliotecário e escritor entre outras competências, e viveu durante a dinastia Han do Oeste, recolheu no seu livro Shuoyuan, o «Jardim de histórias», uma antiga lenda que está relatada no livro V (Tang wen) do texto daoísta Liezi (séc. 4 a. C.) atribuído a Lie Yukou, que fala de um «velho louco que removeu montanhas», Yugong yishan.

Nele se conta que um homem que vivia frustrado por se encontrar a viver encafuado entre as duas montanhas, Taihang e Wangwu, na Província Yu, já nos seus noventa anos tomou a decisão de as separar. Para isso tomou uma enxada e um balde e começou pacientemente a remover a terra de uma das montanhas. A passantes que o viram executar a insana tarefa e lhe perguntaram se achava realmente que a iria conseguir terminar respondeu, com implacável discernimento que se não ele, os seus filhos, os netos e gerações seguintes a iriam certamente terminar; alguém porém tinha que tomar a decisão inicial.

Diz-se que os deuses, impressionados pela sua tenacidade e dedicação ao trabalho, ordenaram a separação das montanhas, como hoje se podem ver. De uma dessas montanhas, Taihang, na verdade uma cadeia montanhosa que se estende por mais de quatrocentos quilómetros pelas Províncias de Shanxi, Henan e Hebei, fala um poema de Liu Ji (Liu Bowen, 1311-1375) da dinastia Song, que confirma a vocação do lugar para suscitar o esforço humano:

«Carros de bois vão subindo e descendo as colinas, mil vezes por dia: nunca deixam as encostas da montanha Taihang. Os carros vão cheios até cima com sal da Província de Wu e grão da de Shu; como são fortes e saudáveis os bois. Mercadores valorizam os seus bens e lucros sem medo dos tigres: alimentam os bois e dormem noite após noite junto das carroças.»

Nessa dinastia Song (960-1279) tornava-se popular um género de pintura designado panche tu, «pinturas de carros de bois em viagem», que correspondiam ao elogio do esforço feito no abastecimento, sob precárias condições de terreno, de grão às guarnições ameaçadas pelos Jurchen nas fronteiras a Norte que haveriam de separar a dinastia em duas: Norte e Sul.

Zhu Rui, um pintor de Hebei com actividade conhecida entre 1119-1125, destacou-se nesse género, fazendo nas suas pinturas a agreste e inóspita paisagem de Inverno equivaler à dificuldade de bois e boieiros subindo e descendo montanhas alcantiladas. Na folha de álbum (tinta sobre seda,26,2 x 27,5 cm, no Museu de Xangai), Viajando por rios e montanhas, vê-se indómito esse engenho a vencer obstáculos. Quando a derrotada dinastia teve que se refugiar no Sul, todo esse zelo se tornaria numa melancólica lembrança mas as pinturas de Zhu Rui seriam preservadas. E a montanha Taihang, deslocada pela longanimidade do espírito do «velho louco», é testemunha de que afinal nada se perderá.

28 Abr 2026

Tradução de poesia de Lu Xun – 20

#20

哀范君三章·其二

āi fàn jūn sān zhāng · qí èr

海草國門碧

hǎi cǎo guó mén bì

多年老異鄉

duō nián lǎo yì xiāng

狐狸方去穴

hú lí fāng qù xué

桃偶已登場

táo ǒu yǐ dēng chǎng

故里彤雲惡 gù lǐ tóng yún è 炎天凜夜長

yán tiān lǐn yè cháng

獨沉清澈水

dú chén qīng chè shuǐ

能否滌愁腸

néng fǒu dí chóu cháng

Elegia a Fan II

Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria longos anos a envelhecer em terra alheia mal a raposa abandona a toca

já a marioneta sobe ao palco

na terra natal, vejo as nuvens vermelhas e o calor pesa, e a noite alonga-se fria mergulho solitário na água límpida poderá ela lavar a dor que entranha?

Notas

A imagem “Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria” retoma uma alusão a Li Bai, onde o reverdecer das plantas junto ao litoral indica a passagem do tempo e o afastamento do sujeito poético da terra onde nasceu. A expressão guó mén (國門) sugere fronteira e pertença, sendo reinterpretada para indicar a permanência prolongada fora da pátria.

A referência a “envelhecer em terra alheia” corresponde à experiência de exílio prolongado de Fan Ainong no Japão, onde a distância física se associa a um desgaste temporal e afetivo.

O termo 狐狸 (hú lí), “raposa”, é frequentemente interpretado como alusão à

imperatriz Cixi. A imagem da raposa que abandona a toca remete para a queda do poder imperial. A sequência seguinte introduz “a marioneta sobe ao palco”, táo ǒu (桃偶) expressão que se relaciona com o ato de manipular alguém. A justaposição destas imagens traduz a instabilidade política após a queda dos Qing, marcada pela substituição de um poder por outro igualmente precário. Para além disso, as marionetas de madeira possuem uma função exorcística na tradição chinesa, o que acrescenta uma dimensão simbólica à imagem.

彤雲 (tóng yún), “nuvens vermelhas”, surge como metáfora de uma atmosfera

política opressiva. A cor intensifica a perceção de ameaça e densidade.

A oposição entre 炎天 (yán tiān), “calor intenso” ou “calor que pesa”, e lǐn yè 凜夜, “noite glacial” ou “noite que se alonga fria”, constrói uma tensão térmica que traduz a experiência de um tempo hostil. A extensão da noite reforça a ideia de duração e dificuldade.

滌愁腸 (dí chóu cháng), “lavar a dor que entranha”, articula um gesto de purificação

com a impossibilidade de dissolver plenamente o sofrimento.

Comentário

O poema organiza-se em torno de uma progressão que articula deslocação geográfica, transformação política e intensificação afetiva. A abertura, marcada pela imagem das “portas da pátria”, estabelece uma relação entre espaço e memória, situando o sujeito poético numa condição de afastamento prolongado. Esta dimensão espacial prolonga-se no verso “longos anos a envelhecer em terra alheia”, onde o tempo se inscreve diretamente no corpo.

A sequência central introduz imagens de natureza alegórica que traduzem uma mudança de regime. A “raposa” (狐狸) e a “marioneta” (桃偶) configuram uma leitura crítica da transição política, sugerindo substituição e continuidade de mecanismos de poder. A tradução preserva estas figuras sem substituição cultural, garantindo a manutenção da densidade simbólica e permitindo a sua explicitação no aparato crítico.

A imagem “e o calor pesa, e a noite alonga-se fria” traduz a tensão entre extremos climáticos, convertendo-a em expressão da experiência histórica. A escolha lexical privilegia concisão e intensidade, assegurando continuidade com a economia expressiva da poesia portuguesa.

A imagem final concentra o movimento do poema num gesto individual. O verso “mergulho solitário na água límpida” mantém a estrutura do original, onde a ação de mergulho sugere simultaneamente isolamento e tentativa de purificação. A formulação “poderá ela lavar a dor que entranha?” traduz diretamente preserva a dimensão corporal da dor.

A estratégia tradutória deste poema assenta, assim, na manutenção da parataxe, permitindo que as imagens se articulem por justaposição.

23 Abr 2026

A Exemplar He Xiangu Que Concilia a Humanidade

Wu Zetian (625-705), que de humilde concubina do imperador Taizong (r. 626-649) se tornaria, depois de casar com o seguinte imperador, na única mulher de facto imperatriz, procurou instituir mutações nas mais variadas áreas do seu poder. A começar pela alteração da grafia do caracter do seu nome próprio Zhao, que significa «brilhar» para passar a significar «o sol e a lua no céu iluminam tudo».

Desse olhar desperto, atento a tudo sob o céu, terá surgido a lenda que fala do seu descobrimento de que algures no império, em Zhengcheng (Guangdong), existia uma jovem chamada He Qiong, um nome que se pode traduzir com «tal como o jade fino», que conhecia os segredos da imortalidade através de uma dieta de mica e raios de luar.

Sendo algo que sabia não ser capaz de alcançar sozinha, chamou-a à corte. E ela veio, só que a meio do caminho percebendo a imoralidade da desmedida ambição de poder da imperatriz e perante o assombro dos atónitos membros do séquito que a trazia, elevou-se no ar em pleno dia e desapareceu entre as nuvens.

Essa jovem, mais tarde conhecida como He Xiangu, «a imortal donzela» era, também ela, a única mulher de um grupo de «oito imortais», baxian, que nessa dinastia Tang (618-907) se ia consolidando em exemplos de seres de edificante cáracter que influíam nas forças do além e a quem se podia recorrer para alcançar os bens de uma vida plena como a prosperidade ou a longevidade.

Acarinhadas personagens do folclore, foram amiúde figuradas nos mais diversos suportes artísticos ou decorativos. Um pintor da dinastia Ming que usou o método da «escola Ma-Xia» de figurar pessoas com origem no estilo dos pintores Ma Yuan e Xia Gui da dinastia Song, representou-os de modo inesperadamente próximos uns dos outros num rolo vertical exaltando a clareza que se deduz da alegria, igual para todos em todo o lado.

Zhang Chong (1593-1665), nesse rolo de 1644, Reunião dos imortais em Yaochi (tinta e cor sobre seda,171,8 x 36,4 cm, no Museu Britânico), refere o salgado «Lago de jaspe» nas montanhas Kunlun na Província Qinghai, conhecido como Heihai, o «Mar negro», a morada de Xi Wangmu, a «Rainha-mãe do Oeste». É aí que os imortais vão celebrar o seu aniversário, renovando a imortalidade ao comer uns inefáveis pêssegos. Estando tão próximos uns dos outros, o pintor também aproxima do observador as personagens que fazem o trânsito para a eternidade.

He Xiangu fá-lo especialmente sendo primeiro uma devota cuidadora dos pais e depois, como imortal, resolvendo dificuldades, ajudando os que estão em perigo. E se face a Wu Zetian ela representa um dinamismo oposto ao excesso egoísta de poder pessoal, no grupo dos imortais ela fornece o yin que equilibra o excesso de yang de Lu Dongbin, o líder informal dos oito. Na pintura, face aos outros, a sua única face branca brilha, iluminando os outros.

20 Abr 2026

#17 – Poema em forma de pagode: introdução

Em 1903, Lu Xun encontra-se em Tóquio, onde estuda japonês no Instituto Kobun. Shen Diemin (1878–1969), colega de turma e companheiro de habitação de Lu Xun nessa época, recorda que existia em Tóquio uma escola militar do exército imperial chinês, designada Escola Chengcheng. Este nome deriva de um provérbio, zhòngzhì chéngchéng (眾志成城), que pode ser traduzido como “corações determinados erguem uma muralha”, expressão adotada como lema pela instituição.

Os estudantes desta escola, selecionados pelo representante-inspetor militar da corte Qing, eram maioritariamente conservadores favoráveis ao regime imperial, em oposição aos revolucionários chineses. Observando esses grupos a marchar em formação nas ruas, Lu Xun compôs este poema de caráter irónico no fundo da sala de aula, após o término das aulas.

A ausência do poema na edição das Obras Completas de Lu Xun (鲁迅全集)

introduz uma questão de natureza filológica relativa à sua autoridade textual. Esta exclusão indica que o texto não integra o corpus estabilizado e editorialmente validado, o que sugere uma circulação periférica ou não canonizada. A atribuição a Lu Xun apoia- se, neste caso, em testemunhos secundários, como o de Shen Diemin, cuja memória retrospetiva não substitui critérios de fixação textual baseados em documentação direta. Este desfasamento entre tradição de transmissão e canonização editorial evidencia a existência de uma zona intermédia no estatuto dos textos, situada entre o documento histórico e a obra reconhecida. A análise deste poema implica, assim, uma abordagem crítica que considere simultaneamente as condições de produção, os modos de circulação e os processos de legitimação que definem o lugar de um texto no interior de um corpus autoral.

Poema chinês

兵bīng 成城

chéng chéng

大將軍dà jiāng jūn 威風凜凜

wēi fēng lǐn lǐn

處處有精神

chù chù yǒu jīng shén

挺胸肚開步行

tǐng xiōng dù kāi bù xíng

說什麼自由平等

shuō shén me zì yóu píng děng

哨官營官是我本分

shào guān yíng guān shì wǒ běn fèn

Tradução

Soldados formam muralha diante

do general, altivos

na parada, em toda a parte vigilante, peito erguido, ventre

firme, marcham que cantais vós liberdade igualdade, ser oficial é meu dever, ser oficial basta-me!

Notas

成城 (chéng chéng) remete para a expressão 眾志成城, associada à ideia de coesão coletiva enquanto força defensiva. A imagem da muralha traduz a transformação do grupo em estrutura compacta e disciplinada.

威風凜凜 (wēi fēng lǐn lǐn) designa uma atitude de imponência e rigor marcial. A expressão associa aparência exterior e autoridade simbólica, compondo uma figura de poder visível.

處處有精神 (chù chù yǒu jīng shén) indica vigilância constante e energia

distribuída no espaço. A noção de 精神 articula presença física e disposição mental.

挺胸肚開步行 (tǐng xiōng dù kāi bù xíng) descreve uma postura corporal codificada, associada à disciplina militar. O gesto traduz interiorização de normas através do corpo.

自由平等 (zì yóu píng děng) corresponde a conceitos de origem política moderna. A sua inserção neste contexto produz um efeito de contraste entre discurso ideológico e prática hierárquica.

哨官營官 (shào guān yíng guān) designa funções intermédias na estrutura militar. A referência a 本分 (běn fèn) indica aceitação de um papel definido no interior de uma ordem estabelecida.

Notas e comentário da tradutora

A forma do poema organiza-se segundo uma disposição gráfica de expansão progressiva que corresponde ao modelo designado como pagode. A sequência inicia-se com unidades lexicais isoladas e evolui para estruturas sintáticas progressivamente mais extensas. Esta configuração visual não constitui um elemento decorativo, mas integra o funcionamento semântico do texto, articulando crescimento formal e intensificação

discursiva. A tradução preserva esta estrutura através de uma distribuição escalonada dos segmentos, assegurando a correspondência entre disposição gráfica e desenvolvimento do enunciado.

A expressão muralha (成城) inscreve o poema numa tradição retórica associada à coesão coletiva e à defesa do corpo político. A sua presença no início da progressão formal estabelece um princípio de agregação que se prolonga na representação dos corpos alinhados. A figura do general (大將軍) introduz um eixo de hierarquia que organiza o espaço e determina a orientação do movimento. A sequência de descrições corporais, centrada na postura e na marcha, traduz a interiorização de normas disciplinares através da repetição gestual.

A intensificação formal culmina na introdução dos termos liberdade e igualdade (自由 平等), que surgem integrados num contexto marcado pela obediência e pela função. A posição destes termos no ponto de maior expansão do verso acentua o seu valor crítico. A justaposição entre vocabulário político moderno e estrutura militar produz um efeito de tensão semântica que sustenta a dimensão irónica do poema. A formulação final, centrada na noção de dever (本分), condensa o percurso anterior e fixa o enunciado numa afirmação de adesão à ordem instituída.

Do ponto de vista tradutório, a estratégia adotada privilegia a manutenção da progressão formal e da economia lexical. A organização do texto em unidades crescentes permite reproduzir a dinâmica do original, evitando a introdução de conectores que comprometeriam a leitura contínua. A escolha de termos como muralha (成城) e dever (本分) assegura a transmissão de núcleos semânticos centrais, enquanto as notas garantem a contextualização dos referentes culturais. A tradução procura, deste modo, preservar a articulação entre forma visual, estrutura sintática e densidade simbólica que caracteriza o poema.

15 Abr 2026

A oração de Su Xun diante de uma pintura

Su Shi (1037-1101), o irrequieto poeta da dinastia Song que caracterizaria a sua acidentada existência, semelhante a «um mero insecto flutuando na vastidão do Universo», em sucessivos ideais. Que, na liberdade da juventude o aproximavam do desprendimento daoísta, na clareza do meio da vida, do cumprimento do dever confuciano e na idade avançada o reconciliavam com a serenidade do desapego budista.

Segundo o seu pai Su Xun (1009-1066), devia toda essa agradecida intensidade vital a uma oração proferida diante de uma pintura. Como conta num texto escrito numa pedra e de que existe um esfregaço a tinta sobre papel no Museu de Arte de Princeton (rolo vertical, 74 x 33,2 cm) no décimo quinto dia do primeiro mês lunar do ano 1030, dirigiu-se ao mosteiro Yuju guan, a Norte de Chengdu (Sichuan) «trazendo uma oferta para parar uma dificuldade de ter filhos». Foi lá que viu «um retrato pintado com elegância e um especial trabalho de pincel representando o imortal Zhang xian», do qual se dizia que as orações realizadas diante dele seriam atendidas.

Logo ofereceu por ele um huang de jade, um artefacto em forma de anel usado pendente à cinta e que quando a pessoa que o usava se movimentava, produzia um agradável tilintar. A prece foi ouvida.

O retrato, que também faz parte do esfregaço, mostra a personagem do folclore daoísta, famosa por disparar o seu arco contra o negro «cão do céu» tiangou, que figura no Clássico dos mares e das montanhas, Shanhai jing, como uma força que, quando negativa, era capaz de comer o sol ou a lua causando eclipses e atemorizando crianças. Está sentado sobre uma rocha à maneira das personalidades budistas, só um pé tocando o chão, as vestes de mares e nuvens de um poderoso. À sua volta crianças; à direita uma, segura um ceptro ruyi, dois acocorados parecem brincar com o sapo de três pernas, o jinchan, o quarto segura um prato com pedrinhas redondas de que o quinto, de pé junto de uma árvore, segura uma na mão direita, na outra o arco de Zhang xian; no céu esvoaça o tiangou. Figuras de crianças tornaram-se muito populares nessa dinastia Song mas nunca deixariam de o ser.

Xia Kui (act. c. 1405-45) na dinastia Ming, faria uma inesperada inversão do auspicioso tema dos «cem meninos» que é preciso proteger, mostrando-os como se foram adultos. Mas no tempo de Su Shi, como escreveu num empolgante poema que compôs no meio da vida quando era governador em Mizhou (1074-76), parecia mais importante a protecção dos outros. Aí também refere um arco e um cão, o tianlang xin, «a estrela do cão celeste», o astro sirius que é o luzeiro mais brilhante no céu nocturno, entendido como um sinal de aviso à possibilidade de invasão pelas tribos do Norte. O poeta promete: «Assestarei o meu arco lavrado até à forma da lua cheia, farei pontaria ao Noroeste e acertarei na estrela tianlang.»

14 Abr 2026

Poemas de Meng Haoran traduzidos

Tradução de Rui Cascais

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

示孟郊

蔓草蔽極野

蘭芝結孤根

眾音何其繁

伯牙獨不喧

當時高深意

舉世無能分

鐘期一見知

山水千秋聞

爾其保靜節

薄俗徒云云

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Para Mostrar a Meng Jiao 1

Heras e ervas infestam tudo pela remota província,

Mas o eupatório e o cogumelo crescem a sós. 2

Emaranhadas, as melodias criam igual cacofonia.

Porém, a sós, Bo Ya nunca destoa. 3

Quando o seu sentido profundo

Ainda não era acessível ao mundo,

Zhong Ziqi logo discerniu

Mil Outonos de montanhas e rios.

Que possas suster a tua sóbria serenidade

Entre o zum-zum dos reles e vulgares.

NOTAS:

A autenticidade/autoria do poema é duvidosa, pois o poeta Meng Jiao (751–814) só nasceria onze anos após a morte de Meng Haoran.

O Eupatorium cannabinum e os cogumelos políporos são, curiosamente, uma planta e um tipo de fungos, usados na medicina tradicional pelas suas potentes qualidades purgativas. A sua presença aqui, em comparação à desarmonia, ou cacofonia, das infestantes, serve para exemplificar os aspectos virtuosos de solidão e amargura (ou “melancolia”) em que se pode fundar um encontro salubre e profícuo entre duas pessoas embebidas no remédio da rectidão. Também é interessante que Meng Jao tenha ficado conhecido como um dos poetas “amargos” (juntamente com Li He, apesar deste ser tudo menos sóbrio), o que reforça não só a natureza anacrónica e espúria do poema – um provável acrescento ao cânone de Meng Haoran–, mas também a sua singularidade. Alguém, seguramente apreciador dos dois poetas, terá tentado, assim, estabelecer um elo/diálogo entre eles através do tempo, “gizando” este poema.

Bo Ya, o lendário tocador de cítara (qin), e o seu amigo e auditor ideal, Zhong Ziqi (figura lendária do fertilíssimo Período da Primavera e Outono e um simples lenhador conhecido por distinguir as mais finas nuances da musicalidade natural das montanhas e torrentes); o entendimento entre os dois daria origem à expressão 知音 (zhīyīn), “conhecer o tom”, que descreve a mais intima, imediata compreensão entre amigos.

(五言古體詩)

遊雲門寺寄越府包戶曹徐起居

我行適諸越

夢寐懷所歡

久負獨往願

今來恣遊盤

台嶺踐嶝石

耶溪溯林湍

捨舟入香界

登閣憩旃檀

晴山秦望近

春水鏡湖寬

遠行佇應接

卑位徒勞安

白雲去久滯

滄海竭來觀

故國眇天末

朋在朝端

遲爾同攜手

何時方挂冠

Visita ao Templo da Porta da Nuvem; Enviado ao Oficial de Finanças Bao e ao Tabelião Xu da Administração Yue1

As minhas viagens trouxeram-me agora a Yue,

Onde mesmo a sonhar recordo quem me é querido.

Há muito desejava viver a expensas próprias;

Hoje posso partir e vaguear à vontade.

Numa crista de Tiantai vou pelas pedras marcadas;

No Ribeiro de Ruoye subi contra a corrente veloz pelo bosque.

Deixando o barco, entrei num reino de incenso;

Após subir a um pavilhão, descansei entre volutas de sândalo.

Eis os gentis montes, onde a vista de Qin parece já ali,

E as águas primaveris, onde o Lago do Espelho se espraia.

Nesta viagem longínqua anseio pelo nosso encontro;

Apesar de baixa condição, posso entretê-los relativamente bem.

As nuvens brancas foram-se, estão há muito presas algures;

Ao mar vigiado cheguei por fim para divisar.

O meu velho estado natal, demasiado longe para avistar, fica no fim do céu,

Mas velhos amigos estão aqui, à beira da manhã.

Há muito de devíamos estar já de braço dado,

Pendurando os chapéus de oficial quando aprouver.

O mosteiro situava-se na Montanha da Porta da Nuvem, algumas léguas a sul de Shaoxing, no Zhejiang.

10 Abr 2026

O Rumor Que se Escuta Nos Pinhais de Shen Zongjing

Li Bai (699-762), o radioso e desventurado poeta da dinastia Tang, depois de condenado à morte por traição, acabou sendo poupado e sentenciado ao exílio para a distante Yelang, actual Tongzhi, Guizhou, mas antes de chegar recebe a notícia de que foram perdoados todos os seus delitos e por isso regressa, descendo o rio Changjiang em direcção a Dangtu (Anhui), onde o acolherá o seu tio Li Yangbing naquele que será o seu destino final.

Segundo a lenda terá morrido abraçado ao reflexo da lua nas águas do rio mas, já doente, compôs um poema cuja forma breve faz parte do que pretende dizer e omitir ao parar diante de uma famosa montanha situada a norte da cidade de Xuancheng nessa mesma Província de Anhui.

Sentado sozinho na montanha Jingting, Jingting duzuo, escreve:

Um bando de pássaros voa alto no céu,

Uma nuvem solitária flutua livre.

Olhamo-nos, a montanha e eu não nos aborrecemos,

Até que dos dois só permaneça a montanha Jingting.

Ao longo dos anos uma torrente de palavras brotou do poema tão pobre delas e da multiplicidade de interpretações, avulta uma que o toma como exemplar de uma prática do Budismo chan designada zuochan, «sentado em meditação», em que o praticante sentado, abstraído das sensações do corpo, se liberta da constante corrente dos pensamentos e entra em total comunhão com a natureza.

Na arte do pincel designada shanshui, a «pinturas dos rios e das montanhas», que também é um gesto espiritual e de harmonia com o mundo natural, pintores inquiriram montanhas como a Jingting, como forma de se juntarem ao fluxo dos que saborearam o Dao.

Como Shitao que em 1671 evocou a montanha Jingting, grandiosa e estranhamente irrequieta como o seu carácter, no tempo da grande mudança do Outono (rolo vertical, tinta sobre papel, 86 x 41,7 cm, no Museu Guimet).

Shen Zongjing (1669-1735), que além de funcionário imperial foi pintor, poeta, calígrafo e músico no tempo dos imperadores Kangxi e Yongzheng, tinha um especial apreço pelas palavras, como mostra o facto de ser um dos três autores de uma compilação de caracteres organizada como uma espécie de «dicionário de sinónimos», chamado Pianzi leibian, publicada em 1728.

Uma pintura que fez em 1705 (rolo vertical,tinta sobre papel, 144,6 x 49,6 cm, no Instituto das Artes de Minneapolis) tem um título que se lê como um verso ou um vaticínio: O múrmúrio do vento nos pinheiros ecoa a melodia da Primavera. Nela, em baixo à direita, por uma ponte vem caminhando um homem, subindo o olhar pela montanha dois homens sentados conversam até que o olhar sobe até ao alto da montanha tocando o céu. Será a visualização de um caminho descrito como chenghuai weidao, «purificando a mente para saborear o Dao», como quem sabe que tudo passará, até nós que usufruímos da consolação da sua beleza mas ela, a montanha, permanecerá inspirando outros.

9 Abr 2026

Ponto de Convergência: Clássicos, Esquecimento e Renascimento no 15.º Festival Literário de Macau

O Festival Literário de Macau através da perspectiva de Harold Bloom

Por Lam Kongchuen

O famoso crítico literário Harold Bloom, nas suas reflexões sobre a relação entre a literatura e a cidade, nunca considerou a cidade simplesmente como um pano de fundo para a literatura. Para ele, as grandes cidades — Alexandria, Londres, Paris, Nova Iorque — remodelam com uma força irresistível cada escritor que entra no seu espaço. A cidade impõe uma «ansiedade de influência», obrigando os criadores posteriores a procurar a sua própria voz à sombra dos clássicos. Se Bloom ainda estivesse vivo, talvez entrasse com um olhar diferente na 15.ª edição do «The Script Road — Festival Literário de Macau». Este grande evento cultural, que estabelece pontes entre o Oriente e o Ocidente, Portugal e a China, a tradição e a contemporaneidade, ilustra precisamente uma teoria central à maneira de Bloom: quando um festival literário tem como objetivo o «intercâmbio» e o «diálogo», estará a mobilizar a essência da literatura?

1/ A Sombra de Pessanha

A homenagem prestada neste festival ao centenário da morte do poeta português Camilo Pessanha oferece o texto mais rico para uma leitura à maneira de Bloom. Pessanha, um poeta simbolista que passou os últimos 30 anos da sua vida em Macau, cuja obra «Clepsidra» é aclamada como uma das mais requintadas da língua portuguesa, ocupa, no entanto, uma posição especial em ambas as tradições culturais. Visto através de Bloom, Pessanha é precisamente aquele «fraco forte» — na tradição clássica portuguesa, herdou a ansiedade de Pessoa; em Macau, enfrentou uma tradição literária chinesa que ainda não o tinha totalmente absorvido.

A nova obra de Yao Feng, “Encontro dos Extremos”, narra a história do intercâmbio literário entre Portugal e a China; esta narrativa do «encontro» é precisamente o mito que Bloom sempre procurou desconstruir. Para Bloom, o verdadeiro encontro literário nunca é um diálogo moderado, mas sim um confronto direto com a interpretação errada, a competição e a superação. A poesia de Pessanha merece ser celebrada não porque ele tenha conseguido «intercambiar» algo, mas porque criou, na franja entre duas tradições, uma ansiedade única — uma voz que não é nem totalmente portuguesa, nem totalmente macaense.

O passeio histórico «Nas Pegadas de Pessanha», organizado pelo Festival de Literatura de Macau, foi conduzido pelo escritor Christopher Chu. Esta peregrinação espacial, se analisada pela perspectiva de Bloom, não é apenas uma reminiscência do passado, mas um ritual através do qual um «tardio» tenta aliviar a sua ansiedade de influência, revisitando as pegadas físicas de um clássico. A questão é: quando caminhamos pelas ruas por onde Pessanha passou, estamos a dialogar com ele ou apenas a procurar consolo para o nosso atraso?

2/Livros de Mulheres e Linguagem Secreta

Em 1973, Bloom publicou “A Ansiedade da Influência”, que «abalou os nervos de todos», mas a sua teoria da formação clássica tem sido há muito acusada pelas críticas feministas de ser cúmplice do patriarcado — os «poetas dominantes» aos seus olhos são quase exclusivamente homens, e a «ansiedade da influência» que descreve é uma competição de masculinidade. No entanto, o foco deste festival literário na «escrita feminina» oferece precisamente uma alternativa à análise de Bloom.

O documentário de Feng Du, “The Whisperers”, narra a história de «Nüshu», uma escrita exclusiva para mulheres de Jiangyong, na província de Hunan — um alfabeto criado por mulheres para escapar à compreensão masculina, escrito em leques dobráveis e bordado em lenços, que se desenvolveu como forma de poesia e de expressão de afecto. Se Bloom tivesse assistido a esta secção, talvez tivesse revisto a sua teoria: não se trata de uma tradição feminina excluída da literatura clássica que está a ser «recuperada», mas sim de uma manifestação paralela à literatura clássica. A própria existência do «Nüshu» é um protesto silencioso contra a literatura clássica dominante (seja em chinês ou em português) — não procura o diálogo, cria o seu próprio espaço.

O Festival de Literatura organizou o workshop de «Nüshu» e a exibição no mesmo dia, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher. Esta lógica curatorial tenta apresentar a «narrativa feminina» como uma unidade temática. Mas uma crítica ao estilo de Bloom salientaria: a verdadeira tradição literária feminina não precisa de ser «tematicizada»; o que precisa é de ser reconhecida como um sistema clássico completo, dotado de competição interna e de tradição. Quando a literatura feminina é trazida das aldeias de Hunan para o recinto do Festival Literário de Macau, corre o risco de ser transformada numa peça de exposição de «diversidade cultural», em vez de uma tradição literária viva, que continua a gerar inquietação.

3/ Macau como texto urbano: do ponto de convergência ao campo de irradiação

Esta edição do Festival Literário enfatiza uma palavra-chave: Macau como «ponto de encontro das culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente». Por trás desta formulação está aquilo a que Bloom chamaria de «ilusão académica» — como se o encontro entre culturas pudesse ser harmonioso, complementar e mutuamente enriquecedor, sem distinções.

No entanto, Bloom lembra-nos que o verdadeiro espaço literário urbano nunca é um ponto de encontro, mas sim um campo de batalha. A Paris do século XX não foi grande por ter permitido o «encontro» entre Hemingway e Joyce, mas porque obrigou cada um a procurar a sua própria voz à sombra dos outros. Da mesma forma, o potencial literário de Macau não reside na sua capacidade de «ligar» a China e o mundo lusófono, mas sim na sua capacidade de se tornar um local onde surgem novas ansiedades, novas interpretações erradas e novos clássicos.

A exposição do arquiteto José Maneiras — uma retrospectiva sobre este arquiteto macaense que projetou o Complexo de São Francisco — oferece uma metáfora espacial. A arquitetura é a manifestação mais física do clássico: um edifício ergue-se ali, e os arquitetos que se seguem têm de decidir se o imitam, o destroem ou estabelecem um diálogo silencioso com ele. O colóquio organizado pelo Festival de Literatura procura «homenagear o seu contributo para a paisagem urbana», um ritual de canonização. Mas Bloom questionaria: quem é o «poeta dominante» do mundo da arquitetura de Macau, capaz de reinterpretar José Maneiras e, a partir daí, criar uma nova linguagem urbana?

4/Manifestações Multidisciplinares

O cartaz desta edição do Festival de Literatura é verdadeiramente estrelado: o vencedor do Prémio Pulitzer Hernán Díaz, o romancista Amitav Ghosh, os mestres da literatura chinesa Bi Feiyu e Xiao Bai. Ao mesmo tempo, o evento estende-se ao cinema (A Mulher do Mar), ao teatro (a versão portuguesa de À Primeira Vista), à música (o concerto de Rodrigo Leão) e às artes visuais. A literatura manifesta-se em múltiplos domínios. Por um lado, há um esforço para alargar o público da literatura; por outro, à medida que o festival literário se torna cada vez mais um evento público, a autonomia da literatura é amplamente mobilizada, expandida e difundida. «À Primeira Vista» é uma excelente peça teatral, e a actriz Margarida Vila-Nova regressará a Macau para a apresentar. A peça, da autoria da dramaturga australiana Suzie Miller, já foi apresentada em Londres, Nova Iorque e cerca de trinta cidades em todo o mundo, incluindo Xangai e Hong Kong. A sua versão produzida em Portugal está em sintonia com o cerne do «Festival de Literatura de Macau». O concerto do músico português Rodrigo Leão tornou-se um capítulo à parte no intercâmbio literário sino-português.

Bloom passou a vida a defender a autonomia estética — ele considerava que o valor da literatura não reside na sua correção política, representatividade cultural ou utilidade social, mas sim na intensidade da sua imaginação única e irredutível. Desta perspetiva, os dois encontros dedicados à poesia no festival, sendo o último deles o ponto alto de todo o evento, constituem o momento mais «bloomiano». A poesia — esse meio que possui, por natureza, as características de «transdisciplinaridade» e «intercâmbio», mas que, ao mesmo tempo, é o mais obstinadamente fiel à própria linguagem — foi colocada no final, como se fosse uma reflexão no desfecho de toda a celebração literária. Bloom diria: é aqui que o festival literário, ao chegar ao fim, recomeça, tal como o mar começa no fim da terra.

5/ Assim, a literatura imortal

«A Imortalidade da Palavra», este nome em si está repleto da ironia bloomiana. O que é a imortalidade? Para Bloom, a imortalidade não é ser lembrado, mas sim gerar ansiedade de forma contínua — fazer com que os escritores posteriores não consigam dormir à noite por causa da tua existência, fazer com que os leitores sintam, perante as tuas palavras, os limites e a transcendência da linguagem.

A «ponte cultural» que o Festival de Literatura de Macau procura construir tem a sua necessidade e valor, especialmente numa cidade ainda marcada pela intersecção e coexistência de uma história diversificada, da política linguística e da identidade. Mas Bloom lembrar-nos-ia: o significado da ponte não reside em tornar esta margem e aquela margem idênticas, mas sim em tornar as diferenças atravessáveis, confrontáveis e passíveis de interpretação errada. A imortalidade de Pessanha não se deve ao facto de ter conseguido transmitir alguma informação entre Portugal e a China, mas sim ao facto de a sua poesia se recusar a ser totalmente absorvida por qualquer tradição — o que ele deixou em Macau não foram vestígios de uma convergência, mas sim marcas de ansiedade. É a ansiedade contínua que traz novos impulsos à criação literária.

Ao sairmos da Fundação Oriente, encerrando este banquete literário de onze dias, a verdadeira questão não é «quanto trocámos», mas sim «se gerámos uma nova ansiedade» — uma ansiedade capaz de impulsionar uma nova geração de escritores e artistas de Macau a criar, à sombra de Pissarro, das Mulheres-Livro, de Masua e de todos esses clássicos, uma linguagem literária própria, forte e inquietante. Só assim Macau poderá, no sentido literário, tornar-se verdadeiramente «imortal».

8 Abr 2026

O Abissal

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Quantos foram os que tentaram domar as águas, interiores e exteriores? E os que venceram dilúvios?

Numa cultura tão antiga como a chinesa, há um grande imperador mitológico, gerado apenas por ventre paterno, tal como a deusa Atena, que havia de nascer da cabeça de Zeus. O Grande Yu (大禹), filho de Gun (鯀), nasceu do pai na forma de dragão e tinha poderes superiores aos do progenitor. Este procurava controlar as cheias com a terra reprodutora, aquele fê-lo com a mesma terra reprodutora milagrosa, mas com o auxílio suplementar de dois animais sagrados, o Dragão Ying (应龙) e a Tartaruga Xuan (玄龜). Apesar da oposição do Deus da Água, venceu-o e passou à história chinesa como o “Imperador que dominou o dilúvio”(大禹治水 Dà Yǔ Zhì Shuǐ) e, além disso, para impedir o avanço das águas construiu canais e dragou rios. As cheias, obra de deuses maldispostos ou de demónios perversos, foram controladas pela força do trabalho de um governante com poderes sobrenaturais, que se sacrificou a si e à sua família a bem da terra chinesa. Por isso se diz que ele casou com Nujiao (女娇), uma donzela da tribo Tushan (涂山氏) e “quatro dias depois do casamento, saiu de casa para retomar os seus afazeres. Esperavam-no trabalhos sem fim. Durante treze anos, passou três vezes pela sua casa, mas nunca entrou.” (Wang, Alves, 2009, 86).

 À sua imensa virtude e força de trabalho se ficou a dever a salvação da China e, como esta era à época o centro do mundo, da própria terra.

 Será ainda em luta e desafio às águas que outros heróis, divinos e humanos, vão exercitar as suas virtudes e, através delas, salvar a humanidade.

 Também na Grécia houve uma grande inundação provocada pela fúria de Zeus, contra uma humanidade cada vez mais impiedosa, violenta e corrupta. Conta-se que o deus supremo do Olimpo primeiro ainda pensou em desferir o seu raio contra os homens, deixando a terra toda em chamas, mas como o fogo poderia chegar aos céus, resolveu que o castigo seria perpetrado através das águas. Prometeu, que era vidente e muito amigo da humanidade, resolveu avisar o seu filho Deucalião, que morava em Ftia com a esposa Pirra, sendo esta filha de Pandora e Epimeteu. Ora como eles eram modelos de virtude foram os únicos a escapar ao dilúvio grego. “O casal tinha uma vida exemplar: eram muito trabalhadores, cumpriam as leis e eram piedosos. Por esse motivo, bem como pela afeição paternal, Prometeu quis garantiu que Deucalião e Pirra sobreviviam ao Dilúvio, que ele sabia que Zeus ia enviar um dia, e tinha dito ao filho para se preparar.” (Johnston, 2025, 83).

 Quando os céus escureceram, Deucalião percebeu que era tempo de se proteger, bem como à mulher. Preparou uma arca de madeira, isolou-a, encaixando as juntas e calafetando-as com alcatrão, depois equipou-a com alimentos necessários para se manter vivo com a sua mulher durante algum tempo. Passados nove dias e nove noites, a arca do casal encalhou no monte Parnaso. Perceberam que estavam sozinhos no mundo e para o repovoar procederam de acordo com os conselhos avisados de Témis, avó de Deucalião e mãe dos titãs Prometeu e Epimeteu, deusa que organiza o cosmos, conselheira e consorte temporária de Zeus. Não foi com o barro de Nϋwa (女娲), mas quase, foi com pedras, ossos maternos de Gaia, que repovoaram a terra: das mãos de Deucalião rolavam pedras que se transformavam em homens e das de Pirra eram atirados seixos que em contacto com o solo amoleciam e se metamorfoseavam em mulheres.

Assim foi salva a humanidade por um casal, meio divino, meio humano, totalmente exemplar. Eram de facto os únicos que se aproveitavam naqueles tempos antigos e, através deles, as gentes tiveram a sua segunda oportunidade.

Episódio semelhante sucedeu na tradição judaico-cristã. Depois de ter sido atingido o auge da corrupção “Javé viu que a maldade do homem crescia na Terra e que todo o projecto do coração humano era sempre Mau” (Gen, 6, 5-7) . Só havia um justo, de nome Noé, e esse preservou a vida, bem como a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos. Para tal, e porque o castigo do dilúvio se aproximava, também ele construiu uma arca, com as dimensões exatas ditadas por Deus, cento e cinquenta metros de comprimento, vinte e cinco de largura e quinze de altura. Era ampla para que nela coubesse um casal de cada ser vivo. Tinha à época este justo Noé 600 anos. Ao cabo de um ano de aventuras, já atingira os 601 anos, pôde sair com toda a família e companheiros da barca para se multiplicar e encher a terra, sob a proteção de Deus, que assim falou: “Estabeleço a minha aliança convosco; de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra.” (Gen, 9, 11).

Bastou um justo para salvar toda a sua família, os outros seres vivos e recomeçar a história da humanidade e do mundo. Mas o dilúvio, o banho purificador, também na tradição judaico-cristã, foi essencial, sem ele a terra continuaria poluída e corrupta.

 O que nos diz a tradição filosófica chinesa sobre a Água? Para obter uma resposta há que remontar ao Clássico das Mutações (易经), no qual se encontram entrelaçadas a poesia e a filosofia. Este é composto por oito trigramas (八卦 bāguà) básicos, sendo um deles a Água (坎 kǎn). Os oito trigramas combinam-se de modo a constituírem os 64 hexagramas. Quando o trigrama da Água de base se encontra com o trigrama da Água do topo, está-se rodeado de água e este hexagrama, o 29º (坎卦第二十九 kǎn guà dí èr shí jiǔ), denomina-se, numa tradução possível pelo seu atributo, o Abissal.

O perigo é enorme e repetido, de nada serve ao/à filósofo/a tentar escapar, porque está no meio de um dilúvio, que quando não é exterior, é interior, ou até simultâneo. No entanto, caso se observe a disposição das linhas, há esperança, já que o trigrama da Água é formado por duas linhas descontínuas yin, sombrias e aquáticas, mas ao centro contém uma linha contínua yang, solar, onde reside a alma. Quer dizer, ao todo, o hexagrama do abismo, ou numa interpretação ousada, do dilúvio, é constituído por quatro linhas sombrias e duas solares. Há então saída para o grande mergulho nas águas, mas essa deve ser encontrada no interior, o que liga a mente ao espírito, aquele capaz de se elevar, ainda que por vezes só em pensamento, para escapar ao perigo abissal.

 O/a sábio/a deverá cultivar uma determinada atitude, prática e muito concreta, se quiser ter a mesma sorte de Da Yu, Noé ou Deucalião, apontada pelo juízo do hexagrama, que resume e condensa a leitura atenta das seis linhas. No 29º hexagrama está-se perante: “O Abismal repetido, mas com sinceridade e confiança no coração, ser-se-á bem-sucedido em tudo o que se fizer.” (習坎,有孚,維心亨。行有尚) (Zhang, 1995,127). Será decisiva a sinceridade ,que nos tempos antigos também se dizia “pensar com o coração” (維心 wéi xīn).

 Assim, na leitura da primeira linha, aquela em que se dá a repetição das águas (o dilúvio), devem ser evitadas as armadilhas, porque caso se caía numa, dada a adversidade das condições circundantes, não há saída possível. Na segunda linha, yang contínua, surge a compreensão da situação e a tentativa de avançar aos poucos, com pequenas ações. Na terceira linha, yin descontínua regressa a atmosfera de água sobre água, pelo que a não-ação é a melhor resposta. Na quarta linha, também ela yin descontínua, experimenta-se um certo bem-estar usufruído nos pequenos prazeres da vida, como uma jarra de vinho ou uma vasilha gui2 de arroz, passados pela janela, a ser recebidos sem culpas. (六四;樽酒,簋貮、用缶,納約自牖,終無咎) (Zhang, 1995,129). A sinceridade do sentir e a comunhão desta com as ações é essencial para preparar a entrada na quinta linha yang contínua, solar e apta à compreensão e ao exercício da via do meio, seguida sem excessos de ambição que provoque uma cheia incontrolável. O/a sábio/a é então confrontado com a necessidade de se autocontrolar, sendo de ultrapassar o abismo interior. As águas do dilúvio são desafiadas e controladas por dentro, e quando se construiu a barca interna, está-se preparado para enfrentar a adversidade, mas caso não tenha havido essa preparação, segue-se uma sexta linha yin aquática, na qual todos os que não se cultivaram, ou melhor, não exercitaram a sua sinceridade, vão padecer por um período, segundo a linha de topo do hexagrama, “conhecendo a desgraça por três anos” (三歲不得,兇) (Zhang, 1995,130).

Na filosofia chinesa mais antiga, a pessoa de saber é igualmente confrontada com o dilúvio, só que o perigo abismal, ainda que possa ser provocado por condições externas, só será vencido, caso seja adotada a atitude correta, que implica ultrapassar os obstáculos como boa preparação e sinceridade. A arca transportamo-la nós.

 

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Tradução de Luís Filipe Pontes. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.

張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Gui (簋) é uma vasilha, de grande antiguidade, usada, por exemplo, no Paleolítico chinês para efeitos rituais, de culto ás divindades nos templos e nas casas dos grandes senhores do país.

2 Abr 2026

O Cavaleiro Estrangeiro a Galope de Chen Juzhong

Zhu Gang, o princípe Gong, o «reverente», de Jin (1358-1398), o terceiro filho de Hongwu, o fundador da dinastia Ming, seria recordado nos memoriais históricos pelas suas qualidades de guerreiro e líder da fronteira e pela sua quase excessiva energia de líder político.

Mas da esmerada educação que o pai de origem camponesa lhe proporcionou haveria de resultar uma verdadeira vocação de princípe, apoiando mosteiros da religião budista na região onde governou e claramente visível no faustoso palácio que mandou erigir em Taiyuan, na actual Província de Shanxi.

Hoje esse palácio já não existe mas na altura albergou uma rara colecção de pinturas e caligrafias, de que é testemunho o seu carimbo aposto nalgumas pinturas resgatadas da sua destruição. Como é o caso de uma folha de álbum, na altura já antiga, que está no Museu Britânico (tinta e cor sobre seda, 24,8 x 26,3 cm) que mostra a figura de um cavalo e um homem que segura na mão direita um falcão.

Olhando o semblante da estranha figura de pé vestido de verde, percebe-se que é uma pessoa da fronteira, um homem da etnia khitan (qidan), da dinastia Liao (915-1125) ou talvez jurchen. Atrás dele, uma chibata presa no cinto qualifica-o como um cavaleiro. Entre os dois, cavalo e cavaleiro, parece estabelecer-se através do olhar fixo uma intensa cumplicidade, como se a separação entre os dois fosse coisa de momento, mal esperando a hora em que juntos partiriam a galope.

Sabe-se que a cada Primavera o princípe de Jin soltava águias e falcões para caçar cisnes e patos selvagens em voo para o Sul, o que fazia da velha pintura a ilustração do cumprimento actual de uma augusta tradição. Na pintura está a assinatura, possivelmente falsa, do seu suposto autor, um pintor da academia de pintura da corte do imperador Ningzong (1168-1224) que reinou entre 1195 e 1224 na dinastia Song, chamado Chen Juzhong com actividade conhecida entre cerca de 1201-30. A ele são atribuídas outras pinturas que aludem à vida estranha das estepes da fronteira Nordeste.

Chen Juzhong é, por exemplo, autor de uma pintura (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 147,4 x 107,7 cm, no Museu do Palácio Nacional em Taipé) que mostra um momento da história de Cai Wenji (162-229), uma talentosa poetisa e música que foi raptada pelos nómadas Xiongnu, a quem é atribuído o poema Canções de uma flauta nómada. Nesse melancólico relato percebe-se como após doze anos sofrendo no exílio, lá criou dois filhos que, ao ser resgatada pelo chefe guerreiro Cao Cao, teve de deixar para trás, tornando infindável o seu sofrimento.

Noutra pintura que está no mesmo Museu (tinta e cor sobre seda, 36,8 x 54,9 cm) mostra um cavaleiro caçador com o torso voltado para trás montado no seu cavalo, as patas todas no ar, em alta velocidade mostrando como eram vistos aqueles intrigantes estrangeiros.

Nota

No distante ano 1990, em Pequim, o meu irmão Luís mostrou-me uma pintura de um cavaleiro montado no seu cavalo correndo a toda a brida, as patas todas no ar, sem qualquer referência ao lugar onde. Para meu espanto, ele disse-me que o pintor que a fizera lhe disse que era o seu retrato. Vivi com ele as alegrias da infância em Luanda e a juventude em Lisboa mas depois de uma breve estada em Macau foi viver para Pequim onde durante quase quarenta anos trabalhando na embaixada de Portugal viveu como um estrangeiro. Poderia dizer que foi por causa dele que criei uma proximidade afectiva com a nação que o acolheu e me faz estar sempre a escrever sobre ela mas seria dizer pouco. Para nós os seus seis irmãos, foi o mais límpido exemplo de coragem e generosidade que fez com que a nossa vida fosse mais vida. Está ser dificíl aceitar que desde esta segunda-feira, 23 de Março, já não seja possível ligar o Wechat e conversar com o nosso querido irmão Luís.

30 Mar 2026

Meng Haoran (689–740) – (Pentâmetros ao Estilo Antigo)

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

書懷貽京邑故人

惟先自鄒魯

家世重儒風

詩禮襲遺訓

趨庭紹末躬

晝夜常自強

詞翰頗亦工

三十既成立

嗟吁命不通

慈親向羸老

喜懼在深衷

甘脆朝不足

簞瓢夕屢空

執鞭慕夫子

捀檄懷毛公

感激遂彈冠

安能守固窮

當塗訴知己

投刺匪求蒙

秦楚邈離異

翻飛何日同

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Ao Escrever os Meus Pensamentos; Para Um Velho Amigo no Distrito da Capital

Sim, os meus percursores vêm de Zou e Lu,

De uma casa que prezou o modo de Ru por gerações. 1

Os Poemas e Ritos eram legado inato,

“Apressar-se no pátio” estendia-se à minha modesta pessoa. 2

Dia e noite tentava “fortificar-me,” 3

E era muito hábil de frase e pena.

Aos trinta anos, tinha já uma firme fundação, 4

Mas o meu destino era falhar.

Minha mãe está fraca e velha,

E eu estou cheio de alegria e temor. 5

As comidas “doces e frescas” não lhe bastam às manhãs, “

Mas o “cesto de arroz e a cabaça de bebida” estão vazias ao serão. 6

De chibata de domador na mão emularia o Grande Mestre,

Mas chamado ao gabinete, teria no coração a Mao. 7

Grato, deveria então “sacudir o capote,” 8

Ou conseguiria manter “perseverança na inquietação”?

A quem anda na alta estrada, digo como ao mais querido amigo:

Não és tu quem “procura o imaturo.”9

Qin e Chu são tão diferentes e distantes;

Em que dia vogaremos juntos? 10

Meng Haoran diz que Mencius, originário de Zou, também partilha o seu apelido, e Confúcio, originário de Lu, são os seus antepassados espirituais e que a sua família tem uma tradição de estudar os ensinamentos de Ru [Confúcio].

Quando o filho de Confúcio passava por ele no pátio a correr, Confúcio perguntava-lhe como iam os estudos e dava-lhe conselho.

Lê-se no Yijing, “O homem de carácter nobre fortificar-se-á incessantemente.”

Confúcio disse que aos trinta já tinha uma forte fundação; isto tornar-se-ia um objectivo padrão.

Confúcio disse que relativamente à idade dos pais era impossível não estar ciente da sua morte, sentindo alegria pela sua longa vida e temor pela sua partida iminente.

Citando da “Biografia do Senhor Cinco Salgueiros”, de Tao Qian, que alude indirectamente a um comentário aprovador de Confúcio sobre o estilo de vida frugal do seu estudante favorito Yan Hui.

Confúcio disse que se fosse certo enriquecer estaria disposto a usar o chicote (como um domador) para o alcançar. Caso contrário seguiria aquilo de que gostava. Mao Yi (meados do século I d.C.), era um exemplo de filialidade, tendo aceite uma nomeação baixa de modo a sustentar a mãe

Wang Ji e Gong Yu, da dinastia Han do Oeste, eram de tal forma amigos que, quando Yu foi oficial, Ji “sacudia-lhe o capote”, sabendo que o amigo o promoveria. Confúcio aconselhava o homem de carácter nobre a perseverar mesmo se inquieto.

A análise do hexagrama 4 do Yijing (“Imaturidade”) diz, “Não sou eu que busco o imaturo; é o imaturo que me busca.’

Qin, onde a capital Chang’an e o destinatário se encontravam; e Chu, onde Xiangyang e o poeta se encontram.

27 Mar 2026