As fontes sobre Fu Xi 伏羲

Na China, no início do terceiro milénio antes da nossa Era viviam as personagens da História Fu Xi e Nu Wa quando ainda se fazia a mudança da sociedade matriarcal para a patriarcal e se ia realizando a união entre as milhares de tribos então existentes.

Confúcio (Kong Fu Zi, 孔夫子, 551-479 a.n.E.) ao compilar o Livro da História (书经, Shu Jing) começou com Yao (尧, Yao de Tang, que chegou ao trono em 2357 a.n.E. e governou por 70 anos), o quarto dos Cinco Ancestrais Imperadores (Wu Di, 五帝), sem fazer referência aos anteriores Três Ancestrais Soberanos (San Huang, 三皇). Mas na secção Xi Ci (系辞) dos Dez Asas (十翼) com que complementou o Livro das Mutações (易经, Yi Jing), Confúcio referia o grande Rei Fu Xi como o inventor dos oito trigramas (bagua, 八卦). Interessante é o livro Memórias Históricas (史记, Shi Ji) redigido por Sima Qian (司马迁, 145-87 a.n.E.) começar os registos por Huang Di (黄帝, o Imperador Amarelo), o primeiro dos Cinco Ancestrais Imperadores da China, [considerado por vezes também o terceiro Ancestral Soberano, tal como escreveu o padre Álvaro Semedo, que os designa por Fôk Hei (Fu Si, 伏羲, em mandarim Fu Xi) e o data de 2852 a.C., Sân Nông (Xen-Nông, 神农, Shen-Nong) em 2737 a.C. e Uóng Tái (Uáng-Ti, 黄帝, Huang Di), em 2697 a.C.], admitindo haver registos sobre uma figura [Fu Xi] que viveu anteriormente ao Imperador Amarelo. No entanto, nas Memórias Históricas existem comentários de Taishigong, feitos por Sima Qian, que de outro modo não os poderia deixar registados nos acontecimentos da História e assim, no Shi Ji – Tai Shi Gong zi xu 《史记,太史公自序》 está escrito: “eu escutei o que os anciãos dizem sobre Fu Xi; ser ele um homem puro, simples e honesto, que criou o conceito de Yi (易, mutação) e do Bagua.”

Se não existem dúvidas quanto a dois dos três Ancestrais Soberanos da Civilização Chinesa, Fu Xi (Imperador do Ser Humano, 2852-2738 a.n.E.) e Yan Di (炎帝, Imperador da Terra e como Deus da Agricultura Shen Nong), já para o outro, o livro Shang Shu Da Zhuan (尚书大传) diz ser Sui Ren (燧人, 2737-2697 a.n.E., Imperador do Céu, que controlava o fogo) e no BaiHuTong (百虎通) refere-se Zhu Rong (祝融), também Oficial do Fogo. Para Bu Shi Ji San Huang ban ji (补史记 三皇本纪), escrito na dinastia Tang por Sima Zhen (司马贞, c.697-c.732) a complementar o livro Memórias Históricas de Sima Qian, é Nu Wa o outro dos três Ancestrais Soberanos.

Todos os livros escritos ao longo dos tempos que deles falam não duvidam ser Fu Xi o primeiro dos três Huang. Já as datas da sua existência variam desde o ter nascido entre 2953 e 2852 a.n.E. e ter deixado a Terra entre os anos de 2838 e 2738 a.n.E..

 

 

A divindade de FU XI

 

Sobre a mãe e o pai de Fu Xi, Di Wang Shi ji (帝王世纪) escrito no século III por Huang Fu Mi (皇甫谧) na dinastia Jin diz: “A mãe Hua Xu colocou o pé numa grande pegada, em Lei Ze (雷泽), e daí nasceu Pao Xi (庖牺), em Cheng ji” (hoje Tianshui). Pao Xi foi outro dos nomes de Fu Xi, este ligado ao cozinhar os alimentos. Também o Livro da Estrada (Lushi – 路史), escrito na dinastia Song por Luo Mi (1131-?), refere que Hua Xu Shi um dia, inadvertidamente, ao pisar uma grande pegada ficou grávida em Hua Xu Zhi Yuan (华胥之渊), local referido no livro TaiPingYuLan (太平御览) como sendo Lei Ze (雷泽), significando Lei (雷) Trovão e Ze (泽) charco. Lenda escutada a Tang Shaoyou e registada no seu livro Follow Me to the Fairyland of Langyuan (edição do autor de 2009) que conta ser esse lugar Langzhong, na actual província de Sichuan, onde a mãe de Fu Xi foi fecundada ao pisar uma pegada ali deixada pelo deus do Trovão, (Lei Gong, 雷公) que governava a região com raios e trovões.

Como acontece normalmente ao falar dos locais onde as ancestrais histórias se desenrolavam, estes são denominados por os nomes das tribos que os habitavam, o mesmo para os apelidos dos habitantes. Assim, a mãe de Fu Xi, Hua Xu Shi, da tribo Hua Xu cujo totem era uma ave pernalta, vivia num lugar chamado Hua Xu Zhi Yuan, ou mais especificamente Lei Ze, onde hoje se situa Langzhong. Hua Xu aí terá engravidado, mas a criança foi nascer em Tianshui, actual província de Gansu.

O totem da tribo Feng (Vento, 风), a qual o pai de Fu Xi chefiava, era uma serpente que deu o tronco do Dragão e habitava na parte Sudeste de Gansu. Fu Xi, nascido de Hua Xu Shi, ficou com o apelido Feng por parte do pai, constatando-se assim a passagem da sociedade matriarcal para a patriarcal através do processo de união entre as duas tribos, a matriarcal Hua Xu a viver em terras de Sichuan e em Gansu, a patriarcal Feng.

Outro conto da mitologia chinesa acerca dos progenitores deste lendário soberano refere ser o pai de Fu Xi o deus do Trovão e a mãe Hua Xu Shi (华胥氏), a única filha de um casal que habitava no Noroeste (Sichuan), no lugar de Lei Ze (雷泽), junto ao Rio do Trovão, próximo do lago com o mesmo nome, onde o deus vivia. A rapariga Hua Xu, um dia, farta dos maus humores do deus, que constantemente infligia inundações às povoações ribeirinhas, resolveu ir falar-lhe e perguntar qual a razão deste não ir habitar o Céu como os outros deuses. Perante tal desplante, mas rendido à beleza da rapariga, acordou retirar-se para o Céu [Tianshui, Gansu] se ela com ele casasse. Passado um ano teve um filho e como a ela lhe estava vedado o regresso à sua terra, resolveu que o filho deveria crescer em Hua Xu Zhi Yuan (华胥之渊). Um dia, aproveitando a ausência do deus do Trovão, colocou a criança dentro duma enorme cabaça e deixou que o rio a levasse. Aconteceu encontrar-se o pai de Hua Xu a pescar e ao ver a enorme cabaça, retirou-a do rio e levou-a para casa. Quando o casal a talhou, dela saiu uma criança vestindo uma camisola bordada com flores, que reconheceram ser da camisa da filha. Deram-lhe o nome de Fu Xi, que significa oriundo de uma cabaça. Esta criança cresceu rapidamente, distinguindo-se das outras por ser muito alta, inteligente e corajosa, para além de poder subir ao Céu pela escada celeste por ser filho de um Deus. E seguindo esta história pelo livro Mitos Antigos da China, (edição Livros de Fênix, 1989, Beijing): “Segundo uma lenda dos tempos mais remotos a Terra e o Céu estavam ligados por uma gigantesca árvore chamada Jian Mu que, colocada no centro da Terra, era como uma ‘escada’ natural. Esta árvore, ao contrário de todas as outras, não produzia sombra sob os raios do Sol e ao longo do seu tronco caíam milhares de lianas bíparas em forma de cordas que constituíam a ‘escada celeste’ por onde os deuses desciam do Céu à Terra e vice-versa. No entanto, os seres humanos não tinham a habilidade de trepar ao Céu por esta ‘escada’. Fu Xi, sendo filho de um deus, podia subir e descer facilmente por ela.” Esta a versão apresentada normalmente sobre a mitológica história do nascimento de Fu Xi, que nos dá a entender andar a tribo Feng em conquista por Sichuan e com o acordo feito para parar a guerra e retirar-se, levou Fu Xi a nascer em Tianshui, província de Gansu.

22 Nov 2021

Fu Xi e Nu Wa o casal divino

Escrever sobre personagens que viveram num período anterior aos registos escritos e cujas histórias chegaram até aos nossos dias, ou pelas letras de canções, ou oralmente transmitidas em forma de mitos e só muito mais tarde, milénios depois, registadas nos livros, traz-nos o problema de interligar todas essas informações para criar uma inteligível e coerente imagem, que represente os seres aqui a tratar. Fu Xi (伏羲, em cantonense Fok Hei) e Nu Wa (女娲, Nôi-Vó), figuras lendárias e da mitologia chinesa, contam com poucos trabalhos académicos e nos livros antigos aparecem apenas esparsas referências às suas pessoas como as feitas por Kong Zi (Confúcio), Sima Qian, o historiador da dinastia Han do Oeste e Sima Zhen.

Fu Xi transportando o conhecimento das culturas existentes no Paleolítico para a Era do Neolítico deu início à Civilização Chinesa, tornando-se o seu primeiro Soberano e por isso, também conhecido por Tian Huang Shi (天皇氏, Tin Wong Si), Imperador Celeste. Conjuntamente com Nu Wa, após um grande dilúvio tornaram-se as únicas pessoas mas, como irmãos que eram não podiam casar e ter filhos por receio de desagradar ao Céu. Então resolveram subir à montanha sagrada Kunlun (em Qinghai), fazendo cada um uma fogueira e como o fumo de ambas se uniu, interpretaram favorável esse sinal e casaram, ficando a ser considerados o casal divino, o Pai e a Mãe dos Seres Humanos.

O Ser Humano tomara consciência da sua existência há 65 mil anos e se nessa primitiva sociedade não havia distinções de classes, famílias e propriedade privada, entre o L e o XL milénio antes da nossa Era foi substituída por uma comunidade baseada na família com a formação gradual de uma sociedade matriarcal há 30 mil anos. Por volta do VI milénio antes da nossa Era o sistema de crenças mudou e a sociedade matriarcal começou a dar lugar à patriarcal, substituindo-se a Deusa da Fertilidade por o Deus da Guerra, aparecendo as classes e o conceito de propriedade devido ao movimento adquirido pela caça a reorientar um novo estar. Assim, a sociedade patriarcal iniciou-se há cinco mil anos, quando na China as tribos se começaram a unir entre si.

Como ponto de partida deveremos questionar se Fu Xi e Nu Wa tiveram existência real? Se sim, quando viveram e quem foram? Questões que para tais figuras nunca poderão ter respostas formais mas, como representação de uma imagem feita pelo espaço de consciência, em função de onda preparam o além da realidade. Por isso não se consegue em projecção realizar tal estudo, sendo apenas na reflexão que este toca espaços fora dos limites da matéria. Por outro lado, como figuras lendárias que ocupam um lugar na História da China, elas foram o espírito e a substância de muitos arquétipos para a construção da Civilização Chinesa.

 

ANCESTRAIS SOBERANOS

 

Num túmulo da dinastia Han do Leste em Pixian (província de Sichuan) e do mesmo período, no mural do templo de Wuliang em Jiaxiang (província de Shandong), encontram-se representações de Fu Xi e Nu Wa, ambos com cabeça humana mas corpos de dragão e entrelaçados pelas caudas, a representar a união entre os dois, simbolizam o poder e quando ligados com a tartaruga perpetuam-se pela eternidade.

Fu Xi, considerado Imperador do Ser Humano conjuntamente com Nu Wa são o casal divino. Fu Xi, deificado como Taihao (太昊), ou o Imperador Verde, representa o Leste e contém a virtude da madeira, simbolizando a Primavera e Nu Wa, encarregue da reprodução de todas as coisas vivas, é a deusa primitiva da fertilidade. Para alguns estudiosos ambos não eram Seres Humanos, mas representantes de um período, Nu Wa a sociedade matriarcal e Fu Xi, a patriarcal.

Quando considerados pela História como figuras históricas chegam-nos integradas no grupo San Huang Wu Di, isto é, os ancestrais dos chineses conhecidos pelos Três Soberanos e os Cinco Imperadores. Apesar de irmãos eram de diferentes tribos e como os “únicos” sobreviventes de um grande Dilúvio, Fu Xi e a sua consorte Nu Wa ficaram considerados os primeiros seres humanos e para que estes se reproduzissem e fosse criada a Humanidade tornaram-se patronos dos casamentos.

Já quanto às datas da existência histórica de Fu Xi variam desde o ter nascido entre 2953 e 2852 a.n.E. e ter deixado a Terra entre os anos de 2838 e 2738 a.n.E., mas há autores a referir ter o lendário chefe tribal reinado durante 115 anos, de 4477 a 4362 a.n.E.. Nascera em Tianshui, hoje província de Gansu e numa jornada para Leste como chefe levou a sua tribo Yi até às Planícies Centrais, actual província de Henan, onde se instalou em Huaiyang e aí se encontra o seu mausoléu, como Kong Zi atestou. A sua meia-irmã Nu Wa nasceu três meses depois em Loncheng, a Norte de Tianshui, tendo ambos o apelido Feng (风, Vento) do pai. Acompanhou Fu Xi na procura de terras férteis e em Henan, após promoverem casamentos, separaram-se. Nu Wa seguiu para Norte, onde na povoação de Wihua se encontra o seu mausoléu.

Fuxi era um observador atento, tanto do Céu, como do que se passava na Terra, e ao olhar para o Céu observou os fenómenos celestes vendo-os espelhados na Terra. Assim atingiu a ideia do todo inserido nas mudanças sazonais e na geografia, descobrindo ser dentro de si o mesmo do que se passava no seu exterior. Ao viajar por muitos lugares conheceu outras formas de estar e fazer, assim como outros objectos. Apercebeu-se das diferentes qualidades e propriedades dos materiais e dos solos. Terá usado nós numa corda para fixar certos factos e criou um método de fazer redes de pesca inspirando-se nas teias de aranhas. No entanto, a maior das suas contribuições foi a criação dos oito trigramas a representar os oito estados da natureza usados depois no mais antigo livro existente, o Livro das Mutações (Yi Jing, 易经) cuja versão actual, o Zhou Yi é da dinastia Zhou e tem três mil anos.

Segundo refere Kong Zi nos dez Asas (Xi Ci), que complementam o Livro das Mutações, deve-se ao sábio Rei Fuxi a imagem do dragão de onde retirou os oito trigramas (bagua), criando o desenho do Tai ji pelo pulsar yin-yang da vida. O dragão é yang e terá sido escolhido como totem por Fu Xi, conhecido por isso como o rei Dragão, para representar o seu povo da tribo Yi. Explicou aos seres humanos a essência de todos os aspectos universais contidos nos oito trigramas que inventou, e as inter-relações entre eles. Pelo conhecimento dos oito estados da Natureza e seu domínio poderiam, tal como os deuses, evitar muitos prejuízos causados pelas calamidades naturais e utilizar todas as coisas ao serviço da harmonia para com o que nos rodeia.

Considerado o primeiro dos Três Ancestrais Soberanos (San Huang, 三皇), que deram origem à Civilização Chinesa, transportou os conhecimentos de uma Era em que a Terra ainda se reflectia pelo Céu e talvez por essa razão, Fu Xi e a sua meia-irmã e consorte Nu Wa, considerados os primeiros seres humanos, são o Pai e Mãe, que significam o Céu e a Terra e representam-se no yang e yin de todas as coisas.

8 Nov 2021

Os 150 Anos do Hospital Kiang Wu

Há sensivelmente um século e meio, o Governo de Macau aprovou a instalação do Hospital Kiang Wu, respondendo a uma antiga e fundamental necessidade da comunidade chinesa que se via arredada do acesso à saúde, entregue a mezinhas. José Simões Morais apresenta ao HM a história de uma instituição incontornável na vida de Macau

 

Organizada pela elite chinesa de Macau, a Associação designada de Hospital Kiang Wu nasceu em 1869 para criar um hospital que servisse gratuitamente a comunidade chinesa mais desfavorecida, mas também para abrir escolas gratuitas, dar de comer a quem tivesse fome, socorrer os necessitados e enterrar os mortos cujas famílias eram pobres ou, sem ninguém para deles cuidar. “A nova instituição foi, logo de início, mais do que Hospital, em rigor deveria ser chamada – Casa de Beneficência, pois, se o seu objectivo primário era, na verdade, socorrer doentes, tanto pela hospitalização, como dispensário e consultas, nem por isso deixava de incluir, também, a instrução em escolas elementares e o socorro com outros subsídios, sobretudo em épocas anormais de epidemias, fomes, cataclismos vários, mesmo no território da China ou em locais afastados, mas onde houvesse população chinesa.

Tinha ainda como função responder pelos ritos culturais e mais cerimónias fúnebres, assim como de certa maneira representar também a principal sede do Hong (Grémio) dos vários comerciantes generosos, que por eleição escolhiam entre si os seus delegados representativos, até com carácter social”, refere José Caetano Soares, em Macau e a Assistência.

Macau, na altura, apenas tinha dois hospitais, um militar (no antigo Convento de S. Agostinho) e outro pertencente à Santa Casa da Misericórdia (Hospital de S. Rafael). Esta era a assistência médica que os portugueses usufruíam, no entanto, os doentes chineses continuavam esquecidos, entregues às mezinhas que de memória traziam de família, sem poder contar com bons profissionais de medicina tradicional, os quais só a Casa de Beneficência Sam Kai-Hui-Kun tinha capacidade de contratar, devido à pobreza extrema em que a maioria dos chineses em Macau vivia. Esta tinha a sua sede no Pagode das Três Ruas, o único edifício poupado pelo incêndio de 6 de Junho de 1818, que destruíra a maior parte do Bairro de S. Domingos, vulgarmente conhecido como Bazar Grande.

Sob a hegemonia do Mandarim de Heong-Shan (Casa Branca), a Casa de Beneficência chinesa Sam Kai-Hui-Kun (Assembleia dos habitantes das três ruas) começou a perder poder quando em 1847 o Governador Ferreira do Amaral tomou posse de todas as terras da península e expulsou os mandarins de Macau em 1849. Os novos aterros feitos para o lado do porto interior com a abertura de novas ruas e o enorme aumento da população chinesa retirou o soberano poder político à sob a comunidade chinesa, levando a uma cisão, aproveitando o governo de Macau para ajudar os dissidentes, que eram mais a favor dos portugueses, “doando-lhe uns lotes de terreno então suburbano.

Para aí foi a nova sede e nesses terrenos, mediante subscrição pública veio, também, a ser construído o primitivo Hospital Keng-Wu (Hospital de Macau) (1872). A designação Keng-Wu [Kiang Wu significa lagoa em espelho] traduz a forma literária do nosso termo – Macau”. Nesse aspecto, José Caetano Soares refere que “nunca houve propriamente Sociedade devidamente organizada à face de regulamentos superiormente aprovados [por isso nenhuma informação consta no Boletim da Província de Macau e Timor dos anos de 1870 e 1871 e só no Boletim Oficial da Colónia de Macau de 12 de Setembro de 1942, é referida a História da criação do Hospital Kiang Wu] mas o facto de ser para lá eleito, muito embora os cargos fossem sem remuneração, significou sempre prova já de distinta honorabilidade por parte da opinião geral. Pela sua feição assim honrosa e de respeito, não raro, ia servir às nossas autoridades de agente conciliador em ocasiões de atrito ou só discordância com elementos chineses, mesmo oficiais.”

EDIFÍCIOS DO COMPLEXO HOSPITALAR

A Associação do Hospital Kiang Wu, proveniente da cisão na Sam Kai-Hui-Kun, foi constituída como meio para ter voz perante o governo colonial português, e era composta por 152 influentes chineses, sendo muitos representantes dos Grémios estabelecidos na cidade.

Em 21 de Junho de 1870, o Governo de Macau aprovou a instalação do Hospital Kiang Wu, requerida pela comunidade chinesa de Macau, representada pelos senhores Sam Wong, Chou Iao, Tak Fong e Wong Lok. O Governo estipulou o foro anual de uma pataca e autorizou a angariação de fundos necessários para a construção do Hospital, num terreno de 75.000 m² na zona de San Kiu. Este era um dos locais mais doentios de Macau, onde os mortos mal enterrados, muitas vezes com partes do corpo a descoberto, e sem sepulturas, se encontravam espalhados pela encosta do monte, sendo o primeiro trabalho o de transferir os ossos dos corpos para WanZhai.

No 10.º ano do reinado do Imperador Tong Zhi da dinastia Qing, a 28 de Outubro de 1871 foi fundado o Hospital Kiang Wu, administrado por cidadãos chineses e no início, aí apenas se preparava e cozinhava os medicamentos, distribuídos gratuitamente. Só em 1874 foi no local criado o departamento de Medicina Tradicional Chinesa.

No museu da História da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, instalado na Casa Memorial e aberto todos os sábados das 15 às 18 horas, encontramos explicativos placards, onde num se refere que em 1871 o Hospital consistia numa construção ao estilo antigo de arquitectura chinesa [semelhante à do templo de Kun Iam Tong, tendo três pavilhões centrais]. Refere que na porta principal do primeiro edifício, [o da entrada] havia uma tabuleta a dizer Hospital Kiang Wu, sendo o átrio. No segundo edifício era o salão para as reuniões da Associação e no terceiro encontravam-se estátuas dos deuses da medicina para os pacientes orarem e pedirem-lhes ajuda no restabelecerem-se das doenças. [Nos altares aos deuses encontravam-se Hua Tuo, Guang Gong, Bao Gong, Liu Zu e Hong Sheng.]

Um outro placard adita, no original Hospital, na ala direita do terceiro edifício era o lugar onde se providenciava o gratuito tratamento médico e onde havia dentro também uma farmácia. Nesses dias, o Hospital apenas tinha o departamento de tratamento médico chinês, isto é, era de Medicina Tradicional Chinesa e todos os médicos e farmacêuticos vinham nomeados de outros locais da China para providenciar tratamento médico aos pacientes.

Ao lado um desenho com uma planta do recinto muralhado do Hospital, que apresenta semelhanças com a forma e área [de 75.000 m²] ocupada por o actual complexo hospitalar, encontrando-se representados esses três edifícios, sendo eles ladeados por outros dois de cada lado e mais recuado um alpendre e no meio do terreno o que parece ser um tin, espécie de local coberto para repousar o espírito e seguindo, ao fundo do lado esquerdo encostado ao muro, que o separa da Estrada do Repouso, três edifícios onde se colocavam os doentes graves e no lado oposto, junto à Rua Tomás Vieira, o local onde eram colocados os defuntos e guardados os caixões, assim como os edifícios de farmácia.

Ainda dentro do museu encontramos cinco bei/tabuletas tendo uma os nomes das 152 pessoas e grémios que sugeriram criar o hospital; a segunda tabuleta é o documento escrito em caracteres chineses pelo Governo português de Macau onde consta a aprovação da criação do Hospital chinês. A terceira e quarta tabuleta referiam as razões por que havia necessidade de fazer o Hospital e a quinta explicava o porquê da existência da farmácia de produtos de medicina tradicional.

Os cuidados médicos eram realizados apenas numa casa situada no lado direito dos três pavilhões, contando no terreno do Hospital com um total de 60 quartos, onde eram gratuitamente prestados serviços clínicos aos doentes e um asilo. No recinto havia ainda a casa mortuária e um armazém de caixões, que em 1933, para permitir ao hospital expandir-se, passaram para a colina de Mong Há (Colina de Lótus), onde ainda hoje se encontra na Avenida Lacerda a casa funerária da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu.

Inicialmente o Hospital era dirigido por uma Comissão Administrativa, onde havia quatro directores. Teve como contabilista nos anos de 1871 e 72 Chan Zi Chen e em 1873 Choi Ian San e entre 1871 e 1880 conseguiu angariar 49.900 taéis de prata ($69.000,00) e recebia o dinheiro das ofertas de todos os templos de Macau. Em 1874 passou a ter uma direcção constituída por doze pessoas escolhidas entre os diferentes grémios.

AS ESCOLAS

A Associação do Kiang Wu em 1892 criou em Macau cinco escolas de instrução gratuita para crianças chinesas dos dez aos quinze anos, onde se ensinava pelo antigo sistema de educação chinesa, que na China preparava para os exames imperiais, usando-se os “Quatro Livros” (Si Shu) publicados em 1190 por Zhu Xi, que deveriam ser entendidos e decorados e o “Clássico dos Três Caracteres”, (San Zi jing) composto também na dinastia Song por Wang Yinglin. As cinco escolas situavam-se, uma em Mong-há, outra em San Pu Tau (Rua da Madeira), em San Pa Mun (Rua de S. José), em Mai Chou Tei (Rua da Palha) e por fim, em San Kiu (talvez na actual Rua Tomás Vieira).

Em 1905 as escolas foram reunidas numa só, dentro do recinto na ala direita do Hospital, que passou a chamar-se Escola Primária Kiang Wu com o sistema de educação Ocidental e a ensinar o inglês, havendo três classes e 150 alunos. Essa escola em 1950 juntou-se à Escola Primária Ping Man e tornou-se a Escola Keang Peng, cujo edifício da secção do Secundário foi inaugurado em 1997.

“Em 1917, verificando-se a exiguidade das instalações do hospital, foram estas ampliadas mercê do auxílio do Governo de Macau, de pessoas caritativas, de todas as classes sociais e de diversas entidades chinesas”, segundo refere o B.O. de 1942.

No ano 1919, num novo edifício próprio dentro do espaço do Hospital, os pacientes tratados pela Medicina Ocidental passaram a poder ficar aí internados e por isso, houve a necessidade de treinar pessoas para permanentemente deles cuidar. Tal levou à criação do curso de enfermagem, montando assim em 1923 a Escola de Enfermagem e Partejamento Kiang Wu de Macau, que em vinte anos graduou 48 enfermeiras. Em 1933, a casa mortuária e o armazém de caixões deixaram o recinto do Hospital, e para aí passaram as salas de aulas de enfermagem e o dormitório, possibilitando um permanente acompanhamento dos doentes. Os enfermeiros foram reconhecidos em 1945 como um grupo profissional, podendo para além de trabalhar no hospital, exercer a profissão noutros locais.

Em 1948, a escola começou a treinar as enfermeiras no ajudar ao nascimento das crianças, aparecendo a especialidade de obstetrícia e em 1956 foi construído o edifício para albergar essa Escola de Enfermagem.

Desde 1994, os cursos de enfermagem e obstetrícia ficaram com as habilitações oficialmente reconhecidas e designada Instituto de Enfermagem Kiang Wu de Macau foi convertido em instituição privada de ensino superior em Novembro de 1999, dedicando-se à formação de quadros qualificados na área de enfermagem. Segundo o Livro do Ano de 2013, “No ano lectivo de 2012/2013, o Instituto ministrou um total de três cursos de licenciatura (incluindo cursos complementares) e diploma profissional, contando nesse ano com 32 docentes e 305 estudantes matriculados em cursos de nível superior.” No ano anterior, com mais cinco docentes, mas menos 36 estudantes ministraram dois cursos de licenciatura.

NOVA FASE

Nos primeiros tempos o hospital oferecia apenas assistência no âmbito da medicina tradicional chinesa. Em finais de Setembro de 1892, Sun Yatsen (Sun Wen ou Sun Zhongshan, 1866-1925) após se licenciar em Medicina em Hong Kong veio para Macau convidado por Chen Xi Ru para criar um departamento de Medicina Ocidental no Hospital Kiang Wu e aí trabalhar. Chen Xi Ru em 1892 era o maior financiador do Hospital. Sun Yatsen foi o primeiro clínico licenciado em Medicina a ser contratado e como médico serviu no Hospital Kiang Wu em regime de voluntariado entre Outubro de 1892 e Setembro de 1893. Aí praticou medicina e cirurgia, ajudado nas grandes operações pelo seu professor da Universidade de Hong Kong, Dr. James Cantlie, que vinha a Macau expressamente para esse fim.

O jornal Echo Macaense, que publicava um Sumário em chinês no qual Sun Yatsen colaborou, a 19-12-1893 referia: .
Como Sun era formado em Hong Kong e segundo as leis portuguesas ninguém podia em Macau exercer legitimamente medicina sem possuir um diploma português, teve de abdicar da prática dessa profissão.

O Hospital Kiang Wu deixou de prestar assistência médica de carácter ocidental até 1935, quando foi contratado como médico licenciado o doutor Or Lun (Ke Lin, 1900-1991), que nesse mesmo ano obteve a permissão de efectuar cirurgias. Estudara na Universidade Zhongshan de Guangzhou e aí leccionou, atingindo o grau de Professor. Mais tarde passou por Xiamen onde criou um hospital e depois abriu uma farmácia em Hong Kong. Com a função de vir tratar o capitão Ye Ting (herói de Guerra chinês) veio para Macau e um ano mais tarde, em 1936 começou a trabalhar gratuitamente como professor na Escola de Enfermagem e médico no hospital. Em 1940 tornou-se membro da farmácia do Hospital Kiang Wu, conselheiro sobre assuntos de Medicina Ocidental e responsável pelo trabalho da Escola de Enfermagem. Em 1943 tornou-se Director da Escola, superintendente do Hospital e Vice-Presidente da Associação do Hospital Kiang Wu.

Durante o período da Guerra do Pacífico, o Hospital em 1943 acomodou 74.590 doentes e providenciou gratuitamente tratamentos a 89.238. Acolheu e ajudou com tratamentos médicos mais de dois mil refugiados de Hong Kong e em 1945 esses serviços gratuitos cresceram em número chegando a mais de cem mil.

Em 1941, a Associação fundou um asilo para crianças abandonadas, que só em dois anos acomodou e educou mais de 380 crianças refugiadas, tendo fechado em 1946, com o fim da Guerra do Pacífico.

Em 1941, no Hospital deixou-se de praticar Medicina Tradicional Chinesa e só nos finais dos anos 70 do século XX, esta regressou, providenciando actualmente tantos serviços de Medicina Ocidental como da Tradicional.

A sala de operações cirúrgicas, que se pretendeu construir em 1941, só a 20 de Maio de 1945 passou a existir devido às dificuldades nesse período. Em 1946, o Dr. Or Lun como superintendente do Hospital aperfeiçoou a instituição e começou a ensinar e a empreender as regras sanitárias e de saúde pública, conseguindo bons resultados para debelar a cólera, equipando o hospital com novos meios para melhorar as condições.

Em 1979 ascendeu a Presidente Honorário do Directório dos Directores, devido aos 38 anos como Director do Hospital, tendo voluntariamente durante 55 anos ajudado a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. Foi uma das figuras com maior prestígio de Macau, tanto a nível social, como político e sobretudo profissional.

28 Out 2021

A Fábrica de Vinho Chinês Tai Cheong

Quando em 2010 pretendemos escrever sobre a loja de vinho chinês Tai Cheong, situada ao fundo da Estrada do Repouso, pouca informação obtivemos do funcionário que aí trabalhava e apesar de por três vezes a visitarmos, nem o nome lhe conseguimos saber e tão pouco quem era o patrão. Ao centro do acanhado compartimento da loja encontrávamos sempre uma mesa com pessoas idosas a jogar majong e na parede do fundo, um conjunto de antiguidades colocadas entre o altar a Kuan Tai e por cima, a tabuleta com o nome do estabelecimento. Já numa das laterais paredes, prateleiras cheias de garrafas, entre elas de cerveja Tsingtao cujo rótulo referia ser vinho de arroz glutinoso de original fermentação, tendo os caracteres em baixo a dizer “Tai Cheong antiga fábrica de vinho”. A última prateleira fazia de balcão e escondia enormes potes antigos gravados com dragões a armazenar o vinho, acessíveis por buracos no tampo de madeira fechados por rolhas.

Aberta ao passeio, daí fomos assistindo em silêncio ao ritual da venda quando os clientes entravam na loja para comprar vinho e o funcionário abria a caixa de metal que guardava as várias medidas e só depois o vendia já engarrafado ou, mediante o pedido, escolhia uma das quatro conchas de alumínio nela existente com diferentes capacidades e mergulhando-a num dos potes, vertia o líquido com a ajuda de um funil para o vasilhame trazido pelo cliente. Finda a transacção, voltava a fechar a tampa da caixa e recebia o dinheiro. Duzentas patacas era o imposto que a loja pagava por ano para vender vinho, como aparecia num papel exposto na parede.

Para facilitar um início de conversa compramos uma garrafa, perguntando se o vinho era feito em Macau e a resposta foi ser produzido em Panyu, província de Guangdong. Aproveitando então o degelo na comunicação, questionamos sobre a pequena fotografia exposta na parede a mostrar um jovem a andar de bicicleta, referindo o funcionário com um ligeiro orgulho ser ele o protagonista, já lá iam mais de 50 anos.

Em superficiais pesquisas, percebemos ser esta a última das lojas de vinho de arroz que em Macau permanecia aberta, após o encerramento em 2010 da Cheóng Ón na Rua de S. Paulo.

Em 1950, Macau só em lojas de venda a retalho de vinho de arroz tinha 118 e fábricas havia 44. Com a lista de 1981, que registava 27 fábricas, deambulamos pela cidade na esperança de ainda existir alguma. Sem nada encontrar, voltamos à loja Tai Cheong para tentar conseguir mais informações.

Em 2021 regressamos à loja, mas fechara em 2019, sendo-nos revelado ter sido esta fábrica de vinho chinês uma das mais importantes de Macau. Com vontade de conhecer a sua História soubemos poder encontrar na cidade um dos filhos do fundador, dono da loja de chá Va Lun, na Rua 5 de Outubro. Assim, durante uma manhã aí escutamos do Sr. Chang Chi Fai, amável e interessante personagem, as informações que até então nos falhavam sobre a fábrica Tai Cheong.

História da fábrica

O seu pai, Chang Hin Meng era natural de Jiujiang, Nanhai província de Guangdong, e quando em 1939 esta província foi invadida pelos japoneses fugiu com a família para Hong Kong. Enquanto aí vivia, abriu em Macau uma fábrica de palitos, Dai Wa e outra de châu peng (fermento para fazer vinho de arroz), criando assim empregos aos seus conterrâneos.

Em 1941 veio para Macau e nessa década de 40 fundou a Fábrica de Vinho de Arroz “Tai Cheong”, na Estrada do Repouso n.º 129, onde se situava a loja e atrás desta encontrava-se a fábrica a ocupar a área traseira de sete espaços comerciais, tendo no outro lado da rua mais três lojas para armazenar o arroz.

A tomar conta da fábrica ficou o irmão Chang Chan Wa, que era o segundo filho. O vinho na altura era produzido num recipiente de estanho com capacidade de 15 kg onde o arroz cozia durante uma hora, sendo depois submetido à fermentação. Na primeira cozedura a vapor fazia-se o vinho para cozinhar de pouco teor alcoólico e só após uma segunda cozedura este atingia os 31,5º. Com essa dupla destilação (seóng chêng) o vinho transparente era colocado em garrafas de meio litro pois os habitantes de Guangdong gostavam de o beber a acompanhar as refeições. No entanto, o estanho dos recipientes deixava resíduos de chumbo levando o governo de Singapura a proibir a importação do vinho de arroz de Macau.

Em 1954, Chang Chi Fai após complementar o curso secundário com 18 anos foi trabalhar para a fábrica. Como a produção continuava a usar o antigo método decidiu desenhar e fazer de aço inoxidável a panela alambique para substituir a de estanho, aumentando-lhe a capacidade a fim de poder cozer 45 kg de arroz. Sendo preciso grande quantidade de água abriu-se um poço e para a conseguir fria foi-se buscar mais fundo pois necessária para cortar rapidamente o levedar com o novo bolo de vinho, que desenvolveu através do arroz glutinoso importado da Tailândia.

Este era triturado até ficar em pó, depois colocado em água e após seco dividido em bolinhas. Tai Cheong era a única fábrica a produzir desta maneira o vinho e em 1957 começou a vender esse châu pêng às outras de Macau. A juntar aos já bons resultados, inovou com a técnica de esterilização durante a fermentação usando luz ultravioleta para eliminar possíveis contaminações bacterianas e para purificar o vinho mandou vir de UK um filtro especial.

Se até então, com meio quilo de arroz se produzia quatro leong (1kg = 32 leong) de vinho, agora com a mesma quantidade de arroz conseguia-se 24 leong (¾ kg = 750ml de vinho). A qualidade também aumentou pois a fermentação era completa e assim conseguiu baixar o preço da produção.

Na década de 60 a fábrica precisava por dia entre uma a duas toneladas de arroz e por isso começou a importá-lo directamente da China, tornando-se o maior agente em Macau de todos os produtos necessários para a feitura do vinho de arroz. Tinha mais de 300 enormes potes, armazenando cada um 400 litros, havendo ainda um recipiente feito de aço inoxidável com a capacidade de 1750 litros.

Assim em três anos a fábrica de média tamanho tornou-se a maior e a número um de Macau. Em 1965 Chang Chi Fai deixou a fábrica e virou-se para o negócio do chá.

O vinho produzido em Hong Kong pagava 0,9 HK$ por cada meio litro, enquanto o importado tinha uma taxa de 1,1 HK$, mas mesmo assim o preço do vinho de Macau continuava aí a ser mais barato. Nessa altura, Macau exportava 80% do seu vinho de arroz cozido duas vezes para o Sudeste Asiático, Canadá e USA.

Na década de 80, alguns negociantes de HK usando álcool industrial e tornando-o transparente venderam-no como vinho de arroz, provocando a cegueira e morte a quem o consumiu. Tal levou à queda da confiança dos consumidores, que optaram por cerveja e uísque, dando-se assim o declínio do vinho de arroz.

Com a enorme diminuição de consumo, a fábrica fechou por volta do ano de 1987 e o último patrão, Chang Chan Wa, antes de deixar Macau vendeu a loja ao antigo empregado Tang Gan, o nosso primeiro co-locutor.

25 Out 2021

Os 60 anos da casa de chá Long Wa

Para saborear a atmosfera das antigas casas de chá de Cantão, aí já inexistentes, há ainda em Macau a possibilidade de usufruir esse estar na casa de chá Long Wa, situada no primeiro andar do n.º 3 da Rua Norte do Mercado Almirante Lacerda, aberta todos os dias das sete da manhã às duas da tarde.

O prédio amarelo de dois andares, por detrás do Mercado Vermelho, chama a atenção do exterior pelos bonzais colocados ao longo da varanda a circundá-lo e nas suas sempre abertas janelas encontram-se nostalgicamente dependuradas algumas gaiolas já sem pássaros. Subindo as escadas para o primeiro andar, um mundo completamente fora do espectável. De frente, o balcão sem caixa registadora, mas onde repousa um ábaco e lateralmente abrem-se duas amplas salas, agora completamente atafulhadas de antiguidades, esculturas e mobílias, tendo nos últimos tempos aparecido, a substituir as cadeiras de madeira, inúmeras de plástico azul cerúleo a desfazer o ambiente. Nas paredes, entre as verdes janelas, relógios, quadros de caligrafia e pinturas, e o poster com o retrato de Mao Zedong.

Desde a nossa última visita passaram quase dez anos pois, devido à fama alcançada não conseguimos em várias tentativas arranjar mesa para sentar. Sentíamos falta da saborosa comida, da qualidade do chá e daquele ambiente, que ao longo da nossa estadia em Macau foi desaparecendo com o fecho da maior parte das casas de chá então existentes, devido a irem paulatinamente fechando umas atrás das outras, deixando a cidade sem inúmeras das que nos anos 70 tinham aparecido.

Abrira em 1962 com capital de Hong Kong, sendo o prédio construído de raiz para ser uma casa de chá e teve como gerente Ho Fong, nativo de Deqing, Guangdong, que viera da então colónia britânica para Macau em 1952. O negócio era florescente, chegando a ter mais de 60 empregados a trabalhar nas salas dos dois andares, ocupando a cozinha a metade do segundo andar, fora da vista dos clientes, onde num fogão a lenha se preparavam as iguarias da casa, a massa frita, carne de porco assada e pato à Cantão, sem faltar o famoso dim sam.

Na década de 70, o gerente Ho Fong comprou-a ao seu patrão e Ho Meng Te, que estudara em Inglaterra, em 1976 veio trabalhar para ajudar o pai no negócio.

CONVÍVIO COM OS PÁSSAROS

Conhecia-a ao seguir um homem transportando três gaiolas e curioso, quis ver onde ia. Já nessa altura era só usado o primeiro andar para casa de chá, com uma virtual separação das duas distintas e airosas salas, recheadas de arte chinesa. As janelas estavam sempre abertas, pois nunca teve ar-condicionado, e por baixo delas as mesas dispostas ao longo das paredes com bancos corridos para duas pessoas em cada um dos lados. Junto ao local da água a ferver, uma estante guardava, além de chá, livros e catálogos, inúmeros diferentes bules e chávenas, parecendo pertença dos clientes que aqui quotidianamente passavam as manhãs num uníssono convívio com os seus pássaros, cujo tagarelar entre eles se juntava ao dos comensais, dando grande animação à sala. Nesse embriagante ambiente de um todo envolvente, o volume de som sustentava-se harmonioso e ia aumentando acompanhado pelo chilrear dos pássaros que na sua sensibilidade se ligava ao som das vozes até atingirem um clímax. Ao se dar pelo barulho da sala, repentinamente tudo se calava e o ruído suspenso perdia pé, imperando um monumental silêncio. Aos poucos uma voz animada se elevava e outra e mais outra, acompanhadas por um piar e mais um e outro e o avolumar da sala voltava a entrar em ebulição até ao momento de se atingir a atenção e então quebrava. Era o respirar da casa.

Na fictícia divisão das salas, junto às escadas para o segundo andar da cozinha, num carrinho coziam a vapor as iguarias do dim sam, confeccionadas nos cestos redondos de bambu, com bolas de carne e de peixe, pão chinês não fermentado, carne de porco e o bolo de canela cantonense. Numa panela ao lado aquecia a sopa de arroz, o canji.

As salas estavam divididas; a reservada para comer e conversar num convívio com o chá, sem a presença de pássaros, contava com os peixes dourados da boa sorte num enorme aquário. Na outra, dependuradas nas janelas as gaiolas dos pequenos chivit (de pelugem verde e um bico longo para o tamanho desta ave) que exibiam constantemente os seus atributos, tanto no canto como em voos com cambalhotas. Já nas mesas do centro da sala, dispostas de uma maneira desordenada, repousavam as gaiolas com os wa men, chamados também de olhos de long-ngán, com uma pelugem preta e junto aos olhos um traço branco, eram constantemente mudadas para obterem os lugares de privilégio mediante o movimento do ar. Durante os meses de Março, Abril e Maio realizavam-se frequentes combates entre estes pássaros. De um momento para o outro notava-se uma movimentação estranha na sala, deslocando-se as mesas para dar lugar no chão a duas gaiolas, cada uma com um macho, cobertas com um pano branco. Uma em frente à outra e ao lado de ambas era colocada a gaiola com uma fêmea. Em redor, a tensão dos espectadores em silêncio era transmitida aos machos que vendados sentiam a presença da fêmea. Aos poucos, já com os machos assanhados, era retirada a gaiola da donzela e os panos a envolver-lhes as gaiolas. Ainda separados pelas grades tentavam com bicadas atingir-se e abertas as portas, o mais assanhado atacava, entrando para a gaiola do adversário. Durante alguns minutos as bicadas sucediam-se e com as patas se agarravam entre eles, até que por fim, um fugia e o combate terminava.

NOVOS TEMPOS

Em 2003, na sala de chá foram os pássaros proibidos de entrar pois tornaram-se potenciais transmissores do H5N1 e assim muitos dos habituais clientes matinais com as suas aves deixaram de aparecer. A sala de chá Long Wa passou a ser então local de encontro de fotógrafos e onde se realizaram exposições de fotografia, não fosse o dono Ho Meng Te um apaixonado por arte.

Com a abertura dos novos casinos apareceram clientes de todos os cantos do mundo e sobretudo da Malásia e Singapura, em busca das memórias antigas que já não encontravam nos seus países. O ambiente encantava e amplamente divulgado por artigos de jornal e programas de televisões em 2010 chegaram os turistas chineses do continente, sendo o filme Du cheng feng yün (O Mestre dos Jogos, ou From Vegas to Macau) de 2014 do realizador Wong Jing a catapultar a fama que atraiu para aqui verdadeiras multidões.

Hoje, apenas um lado da sala é usada e os quatro trabalhadores e o jovem patrão dão conta do recado, garantindo à casa uma maior estabilidade, já que sem grandes encargos, mesmo neste período difícil como o que passa desde 2020, consegue manter-se aberta. Findo o dia de trabalho e após a sala limpa, às duas e meia, três da tarde, Ho Meng Te senta-se à roda da mesa com os seus empregados e tomam a refeição em conjunto.

A casa de chá Long Wa guarda ainda as características e um ambiente das existentes antigamente e conseguiu sobreviver sem perder o charme.

11 Out 2021

Pan Fong – Bom sabor a perpetuar-se na memória

Nos constantes passeios pela Rua 5 de Outubro, um ‘pai pin’ numa vitrina de uma loja de bolos sempre atraiu-nos pelo excelente trabalho em madeira dourada e foi ele a levar-nos a entrar e adquirir uns quantos ‘kuóng sou pêng’.

Após prová-los, descobrimos um sabor nunca encontrado em semelhantes bolinhos comprados noutras lojas de Macau. Assim, tornamo-nos clientes da Pan Fong, nome dado por Chan Heng Yam à loja de bolos criada em 1936, a significar bom sabor a perpetuar-se na memória.

Há 50 anos aí trabalha Chan Tai Min, o neto do fundador, e enquanto na cozinha do primeiro andar numa grande panela de cobre coze durante dez horas o feijão preto, sendo essa massa mexida por uma pá mecânica a girar para ganhar grande consistência, relata-nos a história da loja e da família.

Proveniente da aldeia de Choi Hang, no distrito de Zhongshan, o avô Chan Heng Yam aproveitando o conhecimento familiar na confecção de bolos, ao chegar com o irmão a Macau nos anos 30 do século XX estabeleceram uma loja comercial na Avenida Almeida Ribeiro, uma padaria onde faziam bolachas na Rua dos Faitiões 44 e a loja na Rua Cinco de Outubro n.º 80.

Quando separaram os negócios, Chan Man Long, pai do nosso interlocutor e o irmão mais novo ajudaram o avô que ficou com a loja Pan Fong da Rua 5 de Outubro, mas em 1971, a morte do tio num acidente levou o pai a precisar de alguém para o ajudar. Nascido em 1953, Chan Tai Min acabara o curso secundário e foi chamado a trabalhar na loja, pois o irmão mais velho estudava na Universidade em Taiwan e o mais novo era ainda muito jovem. Daí não ter continuado os estudos. No início também faziam pão mas sendo o pessoal escasso optaram por produzir apenas ‘kuóng sou pêng’, os bolinhos feitos de farinha e açúcar vermelho de cana, ou de normal açúcar branco. Até hoje continua a fazê-los à mão e sem usar conservantes a produção é para o dia, atraindo muitos clientes pois só aqui os encontram com este sabor.

Na loja vende-se trinta a quarenta tipos de produtos de confeitaria, sendo 40 por cento para Macau e 60 por cento destinados a Hong Kong e ao continuar tantos anos sem sofrer com a concorrência numa cidade tão competitiva neste ramo mostra a qualidade do fabrico. Com clientes fidelizados já de três gerações, a marca mantém-se na memória das famílias, conquistando a preferência quando precisam de bolos para celebrar as grandes festas. A confiança dos produtos reside na qualidade, na segurança alimentar e por serem feitos com amor.

Bolos lunares

A Festividade do Outono, Tchông-Tch’âu Tchit (中秋节), cuja celebração ocorre no dia 15 da oitava Lua, é o momento do ano de maior negócio com a venda dos bolos lunares (yü pêng), redondos pois a Lua Cheia parece apresentar-se na sua maior dimensão e daí a forma dos bolos.

Três meses antes inicia-se a preparação, quando são feitas as grandes encomendas e se compram os ingredientes. Nos bolos lunares, os mais tradicionais usam como recheio o lótus, o feijão vermelho e o mungo, e só mais recente o feijão preto, sendo todo o feijão importado do Nordeste da China e o lótus de Hunan.

A faltar um mês começa o árduo trabalho na feitura das diferentes pastas, levando quatro horas a cozer a de feijão vermelho (hong tau-sa) e a de mungo (feijão verde chamada Loc tau), e mais de dez horas as de feijão preto e de sementes de lótus; após arrefecerem são guardadas em latas cobertas de azeite vegetal para as preservar, pois não vão para o frigorífico. No início apenas fazia as pastas para o recheio dos bolos lunares, vendendo-as a famosas lojas e como o sabor cativava os clientes, quiseram-lhe comprar a fórmula, levando-o a ensinar a confecção a muita gente, mas ninguém atingia o sabor especial que ele conseguia, pois o segredo está em quem a faz e não numa especial receita.

Colocado na vitrina lateral à entrada da loja, o pái pin de madeira dourada tem na parte superior imagens esculpidas com os deuses da Lua, do Sol e entre ambos, o da Riqueza e no centro, caracteres alusivos ao bolo lunar da festividade do Outono. Com mais de cem anos, foi oferecido em 1936 ao avô por um amigo aquando da inauguração e era proveniente de uma pastelaria de Guangzhou. A sua forma foi escolhida como logótipo do estabelecimento e antigamente encontrava-se no meio da loja, refere a esposa de Chan Tai Min, a Sra. Cheang que toma conta das vendas.

Faltam duas semanas quando regressamos para assistir à feitura dos bolos lunares, onde na parte traseira da loja o Sr. Chan vai com as mãos modelando os bolos feitos à medida das encomendas, pois não se usam químicos para os preservar. A massa de farinha, proveniente da Coreia, é esticada com um rolo e já na palma da mão coloca a pasta escolhida e dividida em pequenas parcelas, onde em algumas séries junta-lhe pedaços de noz ou casca de tangerina, sendo no final a pasta toda envolvida pela massa. Na etapa seguinte essa bola é colocada por um empregado numa forma, já não de madeira como antigamente se usava fazer e por isso se deixou de bater pau para desenformar.

Formado o bolo com o desenho dos caracteres a referenciar o ingrediente, é colocado num tabuleiro para ser levado ao forno, havendo um terceiro empregado a controlar a cozedura e após sair, pincelá-los com um banho de gema.

Diariamente são produzidos à mão trezentos a quatrocentos bolos lunares para a Festividade do Outono, mas já não pode ser chamado bolo bate-pau como conhecido em Macau. Segundo Luís Gonzaga Gomes, “estes bolos manipulados com farinha acinzentada, de cor da lua, são recheados com toucinho e presunto (kam-t’oi); com massa negra de feijões (tau-sa); com estranha miscelânea de pevides, amêndoas, pinhões, cascas de tangerina e açúcar (ung-ian); ou com pasta amarelada de sementes de lótus (lin-iong).” O Sr. Chan prefere não fazer os de toucinho por não conseguir agora encontrar no mercado carne de porco com a necessária gordura entre a pele e a carne.

Situada numa zona de inundações, a loja em 1979 sofreu muitos estragos com a passagem do tufão Hope, mas muito mais terríveis foram os provocados a 23 de Agosto de 2017 por o tufão Hato, tendo a água dentro do estabelecimento atingido os dois metros, destruindo os equipamentos e produtos, assim como antigos objectos. Para recuperar contraiu um empréstimo de meio milhão de patacas ao governo que, apesar de não terem juros, terão de ser pagos em dez anos. No entanto, logo em Setembro de 2018 passou por Macau o tufão Mangkhut voltando a inundar, desta vez com um metro e meio de altura.

A loja apresenta diariamente apenas dez dos seus quarenta diferentes produtos pois para os haver sempre frescos prefere não ter uma grande variedade. Com a feitura dos bolos lunares, deixam de aparecer nas prateleiras os restantes produtos e por isso, contentamo-nos com um bolo lunar de duas gemas de ovo dentro da pasta de lótus, mas o sabor dos ‘kuóng sou peng’ aguarda na memória por ser avivado.

20 Set 2021

O taufu da loja Ving Kei

Em 2010 procedemos a uma recolha de informações sobre antigas lojas de produtos pertencentes a um quotidiano que então começava a desaparecer substituídas por um novo estar cuja mudança de gostos as deixavam sem clientes. Passados dez anos voltamos a fazer a ronda por Macau para registar as que tinham resistido e quais as mudanças apresentadas.

Daí voltarmos à loja de sopa de fitas Ving Kei na Rua da Tercena 47, onde já não encontramos a senhora Lei, que nos seus 85 anos se mostrara nessa primeira visita com uma vigorosa energia e nos relatara os primórdios da loja. “Naturais de Panyu, Lei Kwong Meng emigrara para Hong Kong e em 1950 veio para Macau quando ela aqui chegou.

O marido, sem conseguir arranjar emprego, adquiria diariamente um pouco de taufu, andando pela rua a vendê-lo e depois, ainda ia ajudar a quem lhe deva a mão. Limpava e seleccionava os feijões de soja, lavava a cozinha e tudo o que havia para fazer na loja onde se fazia o taufu sem nada pedir por tal trabalho. Após um ano, o dono da loja tomou-o como aprendiz, ensinando-o a fazer queijo de soja. Foi em 1958 que começou a vender pela rua o seu próprio produto. Se no início carregava os dois baldes de madeira com dois tipos de taufu ao ombro, equilibrados na vara de bambu em cada um dos lados, em 1966 adquiriu um carrinho. Tal veio facilitar o negócio no inverno, altura em que as pessoas não consomem muito tofu e por isso, com a cozinha ambulante podia dedicar-se às sopas de fitas.

A loja foi comprada em 1973 por 78 mil patacas, tendo a residência no andar superior. Ao tirar a licença para se estabelecer por conta própria, o carácter明 (Meng) do nome do marido foi por engano escrito 榮 (Ving), ficando assim a ser Lei Kwong Ving. Como o significado de Ving – próspero, florescente, glorioso, agradou, não viram necessidade de o mudar, tomando assim com agrado o novo nome.”

豆腐, tâufu

A soja é originária da China e está agora espalhada por todo o mundo. Taufu tem uma história que vem desde 164 a.n.E., quando o neto do primeiro imperador Han estando a trabalhar ansiosamente no encontrar um medicamento para a imortalidade, acidentalmente juntou um palito de gesso no leite de soja que bebia. Ao meter o copo à boca, o leite encontrava-se já em pasta e provando-o gostou, tendo sido essa a origem. Serviu durante a Grande Guerra como um dos alimentos mais consumidos para colmatar a falta de víveres que nesse tempo se fazia sentir e devido a ser rico em gorduras e proteínas substituiu muito bem a escassez tanto de cereais como de carne e peixe. A soja apresenta-se em diferentes variedades, aspectos e cores e apesar de necessitar de um clima com alguma humidade dá-se em quase todo o lado.

Tâufu (豆腐, em mandarim dòufu), cujo significado para tâu é grão/feijão e para fu (腐) decomposto, chegou ao Japão no tempo da dinastia Tang ficando aí conhecido por tofu, sendo em português denominado queijo de soja.
Como alimento muito yin não deve ser diariamente consumido.

Os chineses adoram taufu e sendo bom para a saúde encontra-se constantemente entre os vários pratos apresentados nas suas mesas. Alimento versátil pode ser cozinhado de várias maneiras, frito ou assado, sendo numa sopa com vegetais que muitas vezes aparece. Com ele também se confeccionam molhos.

O taufu é feito com feijões de soja amarelos que, após demolhados durante horas para ficarem com mais sumo, são depois moídos e exprimidos para deles sair o leite de soja. Esse leite muito espesso, após se adicionar um pouco de água, leva-se ao lume brando durante dez a vinte minutos onde tem que ser constantemente mexido para não pegar ao fundo do recipiente. Fervendo vai libertando uma espuma que após a cozedura é retirada. Passado através de um pano, o leite é vazado para um recipiente alto de alumínio. Assim se obtém um leite fino, ficando no pano as borras, que não são aqui aproveitadas.

Produção

Após a morte da idosa senhora há sete anos, o negócio de família está actualmente sob a gestão de três dos quatro filhos, pois um emigrou para o Canadá e conta com cinco lojas, três na península de Macau e duas na Taipa. A da Rua da Tercena continua a ser a principal e é onde se produz o taufu distribuído depois pelas outras duas lojas de Macau e na Taipa, também se faz taufu na situada no prédio jardins Nansan, Estrada do Governador Albano Oliveira.

Iat Wa trabalha há mais de 40 anos na loja de Macau e diariamente com a ajuda do irmão Iat Cheong às 8 da manhã iniciam a confecção dos produtos de taufu para as três lojas de Macau, processo que os ocupa até às 11 horas.

Durante a manhã é por duas vezes realizado este processo, sendo usados feijões amarelos de soja provenientes do Canadá. Feito o leite é depois vazado para várias caixas rectangulares de alumínio de pequena capacidade e após refrigeradas em água corrente, são guardadas no frigorífico. Está assim confeccionado o leite de soja (tau cheong), que substitui o leite animal, sendo grande parte também guardado em enormes bilhas de alumínio para ser enviado às outras lojas.

Na segunda vez e após o processo acima descrito, é retirado um pouco de leite onde se adiciona gipso (gesso), uma substância solidificadora conhecida em cantonense por sêk kou, que depois é misturado ao leite quente contido no grande recipiente de alumínio. O leite de soja rapidamente coalha e retirada a espuma que se forma por cima, é espalhado por caixas quadradas de madeira com baixas paredes e cobertas previamente com um pano fino.

Preenchido o espaço pelo queijo de soja, envolve-se por um pano e por cima, a tapar a caixa coloca-se uma placa de madeira a pressionar para agregar toda aquela massa. Sobre essa tampa ainda se põe baldes cheios de água para prensar, ficando a repousar durante uma hora. Estão feitos os grandes tabuleiros de taufu, que são cortados em pequenos quadrados para serem depois servidos.

Já para sobremesa, o taufu fa (豆腐 花, doufu hua=flôr) é feito com uma menor percentagem de gipso, dando-lhe um sabor mais macio. A seguir é transferido para pequenas malgas que vão para o frigorífico e antes de ser servido é-lhe adicionado um adoçante.

A loja está aberta das 8 da manhã até às 20 horas e ao provar um copo de leite de soja somos tentados a experimentar o delicioso taufu e para sobremesa o taufu fa. Na parede deste pequeno estabelecimento, além de fotografias antigas a registar o casal no tempo inicial do negócio, está um retrato da visita do ex-presidente da República portuguesa Jorge Sampaio.

O delicioso sabor do taufu da loja Ving Kei foi conquistado pela alquimia de quem soube retirar das dificuldades iniciais o segredo para a prosperidade com que hoje se apresenta a loja de sopa de fitas, mas tal como acontece com outros negócios, a nova geração parece já não estar predisposta a nele continuar a trabalhar.

13 Set 2021

电话 Telefones em Macau

Os telefones, existentes em Macau desde 1887, nem sempre funcionavam bem, principalmente em tempo de humidade, havendo quarenta anos depois ainda muitas queixas dos Serviços Telefónicos como refere o jornal O Combate de 28 de Janeiro de 1926: “A comunicação telefónica é em toda a parte uma das coisas mais importantes sobretudo para a população comercial. Times is money – dizem os ingleses. E quanto tempo se não perde em consequência não só das péssimas condições em que funcionam os telefones, mas também da insuficiência deles em relação às exigências locais? Até aqui o sistema adoptado tem sido dos piores e pouquíssimos são os indivíduos que podem ter um telefone em suas casas ou nos seus estabelecimentos. E a maior parte desses poucos telefones são reservados para as repartições públicas.

Já em Junho do ano passado circulava a notícia da encomenda de um novo aparelho com 400 números. Parece que o aparelho já aí está, mas até ao presente nenhuma comunicação ao público, nem mesmo àqueles que há tanto tempo necessitam de uma instalação telefónica e que nem um despacho tem obtido aos requerimentos que fizeram! (…) Até parece indiscrição perguntar-se à Repartição dos Serviços Telefónicos qual o número dos assinantes e quem são eles! A resposta é que ‘se não pode dizer’!…

Em toda a parte, ao instalar-se o telefone em qualquer morada ou estabelecimento, fornece-se logo ao assinante um livro com a relação de todos os assinantes e os respectivos números, e para se obter a ligação basta dizer para a estação central o número do assinante, e pronto. Em Macau é mister dizer-se para lá: -Poderia fazer-me o favor de ligar para a casa do sr. Fulano de tal? E fica-se à espera de que o sr. Fulano dê tal toque para cá; torna-se a tocar para lá; de lá toca-se para cá segunda vez, e então é que se fala… quando se fala, porque não é rara a vez em que se não ouve senão um zumbido ou uma mistura de muitas vozes. E tem que se repetir o toque de campainha de cá para lá e de lá para cá! (…) Aqui ainda é preciso, às vezes, inquirir previamente da estação se o sr. Fulano tem telefone em sua casa, ou no seu escritório, ou na sua loja; o que não seria preciso se, como lá fora, onde o serviço é bem organizado, cada assinante possuísse o tal livro, em que encontrasse, num relance, o nome e o número da pessoa ou estabelecimento com quem desejasse falar.

E não poucas vezes se dá também o caso de que, quando A está a falar para B, este não ouve senão aquele zumbido desagradável, e quem tudo ouve é C, com quem D pretende falar! É porque , explicam lá da central. Pois que tenham o cuidado de as conservar sempre desligadas e em boa ordem. Assim é que não pode continuar. Oxalá que o Governo se digne providenciar para que esse ramo de serviço se reorganize de tal modo que dele resulte benefício para o comércio e comodidade para o público em geral”.

Lista telefónica

Apesar da queixa do jornal e assunto de muitos artigos em diferentes datas noutros periódicos, a lista telefónica fora de novo divulgada no Boletim Oficial de 1913, com muitos acrescentos e algumas modificações como a ocorrida a 1 de Junho de 1910 a pedido da casa de fantan Sze-vo, que mandara desligar da rede telefónica a estação de serviço particular n.º 69, número em 1913 da residência do Dr. Camilo A. Pessanha.

Em 1913, a Rede de Macau na Estação de S. Domingos (central) tinha cem números no quadro das estações de serviço, a Rede da Taipa, com a central no Quartel do destacamento e apenas dois números: 1 – Fortaleza da Taipa e 2 – Administração do Concelho. Já a Rede de Coloane, com Estação múltipla, tinha uma sediada no Quartel do destacamento, onde constava 1 – Administração do Concelho e 2 – Posto de Hac-sá e a Estação múltipla de Hac-sá no Quartel do Destacamento com 1 – Posto de Coloane, 2 – Posto de Ká-hó, 3 – Posto de Seac-Pae-Van.
Seguiam as instruções para uso dos aparelhos: A) Estações simples, para expedir um despacho: – Quando qualquer estação quiser comunicar com outra faz soar a campainha, tira o auditor do seu lugar, coloca-o ao ouvido e logo que da central ouvir diz com qual das estações deseja comunicar, citando de preferência o seu número na tabela. Em seguida coloca o auditor no seu lugar, espera novo sinal na campainha, coloca o auditor no ouvido e fala. Acabada a conversação depõe o auditor no seu lugar e por duas voltas rápidas na manivela faz cortar a comunicação.

A) Estações simples, para receber um despacho: -Assim que qualquer estação ouvir tocar a campainha do seu aparelho responde imediatamente fazendo soar a mesma e aplica em seguida o auditor respondendo . Acabada a conversação coloca o auditor no seu lugar sem tocar a campainha.

B) Estações múltiplas. Para expedir um despacho: -Introduz-se a chave do aparelho no orifício da fileira superior do número correspondente à estação com que se deseja falar: faz-se girar a manivela esperando sinal da estação chamada; tira-se o auditor e fala-se. Para receber um despacho: – Logo que soar a campainha eléctrica, introduz-se a chave no orifício da fileira superior correspondente ao número do disco que cai; faz-se girar a manivela e tira-se o auditor e atende-se. Para dar comunicação: -Quando lhe for pedida comunicação duma estação para outra, chama esta fazendo girar a manivela e liga logo as duas estações por meio dum par de chaves que estão colocadas por baixo do comutador introduzindo-as nos orifícios dos números que correspondem a essas estações. Por sinal rápido é indicada o fim da conversação. N.B. Para se fazer uso das chaves deve observar-se o seguinte: A da estação que chama usa-se no orifício de baixo e a outra no de cima, não aplicando nunca chaves com cordões de cores diferentes.

C) – Ligação com terra: -Em ocasião de trovoada iminente coloca-se a chave metálica suspensa do aparelho no orifício do pequeno disco onde passa o fio da terra; aperta-se bem a fim de ser assegurada a ligação. É perigoso não atender a esta indicação. Observação. Aos aparelhos deve falar-se sempre em voz natural.

Observações: a) Para uma estação conseguir arranjo do seu aparelho basta comunicar este desejo, pelo seu ou outro aparelho, à Estação Central de S. Domingos. b) Aos particulares subscritores assiste o direito de reclamação, que sempre será devidamente atendida, de quaisquer desatenções ou irregularidades no serviço de chamadas e comunicação por intermédio da Estação Central em S. Domingos.

Anexa a Tabela das Tarifas do serviço: Estações de uso particular, quota mensal – $5,00. Redução nos termos do art.º 23.º: Leal Senado, funcionários e subscritores antigos – $3,00. Redução nos termos do art.º 24.º: até cinco estações – $4,00; além de cinco estações – $3,00. Conversação nas estações públicas: pelos primeiros cinco minutos ou fracção – $0,20 e por cada um dos cinco minutos ou fracção que se seguir, até final da conversação – $0,10. Era chefe do serviço telefónico José Agostinho de Sequeira.

30 Ago 2021

Aviso de incêndio por telefone

Durante muitos anos fomos colectando pelos jornais as notícias sobre os incêndios em Macau, mas nunca apareceram outros avisos senão os dos sinos e os dos dois tiros seguidos de pólvora seca provenientes da Fortaleza do Monte.

Assim acreditámos serem estes os únicos meios de alerta da população até que, a 12 de Novembro de 1916 n’ O Progresso, um artigo com o título “O Sinal de Incêndio” escrito por um assinante deste jornal nos alertou para a existência de outro aviso, mas como esse não ecoava pela cidade nunca era referido. Ainda a 10 de Setembro esse jornal referia: o telefone do subúrbio da Areia Preta não funciona como reclamam os habitantes daquele subúrbio. Se um dia acontecer alguma desgraça, por falta de comunicações rápidas…; não entendemos onde queria chegar.

Mas ao ler “O Sinal de Incêndio”: “Como se sabe, a maior parte da população de Macau é chinesa e entre ela lavra grande descontentamento por não se fazer na Fortaleza do Monte o sinal de incêndio como era costume. Eles querem saber quando há incêndio e qual o local, a fim de ali correr e observar, pois estão convencidos de que, pelo actual sistema, os incêndios não têm pronto socorro e as casas ardem com grande prejuízo dos haveres dos seus proprietários. Dizem eles e com razão, que os telefones nem sempre funcionam bem, principalmente em tempo de humidade, havendo mesmo ocasiões em que não respondem ao aviso nem à pergunta e por isso, a notícia do incêndio não pode ser tão rápida como os tiros na Fortaleza do Monte, que estando no centro da cidade e em ponto elevado domina toda a cidade e dá por isso, com maior rapidez conhecimento a todos do incêndio e do local; desta falta resulta a convicção de que ardem muitas casas sem o devido socorro. Quem restabelecer, pois, o antigo sinal de incêndios, conquistará a simpatia da população chinesa e de parte do resto dos seus habitantes, por saberem que a notícia é mais rápida não só do incêndio como da sua localização, com o sinal de tiros no Monte.” Ainda a 12 de Novembro, o jornal referia um estudo para o estabelecimento de uma rede telefónica em Macau destinada apenas aos estabelecimentos militares e das estações policiais e de incêndios, mas para as repartições públicas continua tudo como dantes.

“O Progresso”, a 26 de Novembro congratulava-se: “Consta-nos que foi restabelecido o antigo costume de dar sinal de incêndio por meio de tiros na fortaleza do Monte”, terminando assim o conflito entre Governo e população chinesa.

TARDIO SINAL

O telefone (电话, electricidade – falar, Tin-vá em cantonense) foi inventado por volta de 1860 por António Meucci, e usado apenas dentro de sua casa. Mais tarde, em 1870 vendeu o aparelho a Alexander Graham Bell, que o patenteou a 14 de Janeiro de 1876 nos Estados Unidos da América. Um ano depois aparecia já em Portugal e a primeira rede de telefones pública foi inaugurada em Lisboa a 26 de Abril de 1882, data em que na China a Great Northern Telegrafh Company da Dinamarca criou para Xangai a primeira rede de telefones manuais.

Em Macau é publicado o Regulamento geral para o serviço da linha telefónica a 2 de Outubro de 1887 assinado pelo Governador Firmino José da Costa e logo no Boletim da Província de Macau e Timor de 10 de Novembro de 1887 o bacharel António Marques de Oliveira, procurador dos negócios sínicos e administrador da comunidade chinesa, referia em Edital: “Tendo S. Exa. o Governador da província adoptado convenientes providências, para que os sinais de incêndio, sejam feitos com prontidão, aproveitando-se para os avisos o vantajoso serviço da rede telefónica; e convindo que todos os habitantes da cidade tenham conhecimento dos locais em que há estações telefónicas, a fim de poderem, logo que tenham notícia de se manifestar qualquer incêndio ir aí dar parte, como é de esperar que não deixe de fazer todo o indivíduo dotado de sentimentos benfazejos, ao menos, quando não encontre guarda, patrulha, oficial de diligências administrativo, ou china de quarto, para os quais este serviço é obrigatório: por isso faço público que as estações telefónicas são as seguintes: Quartel de Santo Agostinho (estação central), Palácio do Governo, Quartel dos Mouros, Quartel da Flora, Quartel de S. Francisco, Portas do Cerco (no quartel do destacamento), Monte (na fortaleza desse nome), fortalezas da Guia, Bomparto e Barra e Capitania do Porto. Macau, 2/11/1887”.

Na mesma página aparecia o Edital de Leôncio Alfredo Ferreira, administrador do concelho de Macau, a referir: “Por ordem superior, faço saber: Que tendo sido sempre tardio o sinal dado pela fortaleza do Monte, por ocasião de incêndios na cidade e seus subúrbios, são por isso avisados todos os moradores deste concelho, que, logo que tenham conhecimento de qualquer incêndio, o comuniquem à primeira patrulha que encontrarem, ou o participem à estação policial, ou telefónica mais próxima”.

No Boletim da Província de 8 de Dezembro de 1887 lê-se, vir a Inspecção de Incêndios de Macau Ainda antes da chegada a Macau de Abreu Nunes, registou-se a 15 de Novembro de 1893 um incêndio que deflagrou no Bairro de S. Domingos; as casas queimadas foram 17, além de quatro alpendres com 99 divisões, que serviam de açougue, ardendo o Mercado de S. Domingos. Era inspector dos incêndios o Sr. Pessoa e provou-se não estarem os serviços de incêndio devidamente organizados e o material muito deteriorado pois, as mangueiras deitavam esguichos por vários pontos, perdendo-se muita água.

Sobre os primórdios dos Bombeiros em Macau, assunto aqui tratado há já alguns artigos, muito fica por escrever, restando por agora prestar homenagem a estes beneméritos lutadores que, nas palavras de Carvalho e Rego, “para salvar os seus semelhantes se sacrificam heroicamente expondo por vezes a própria vida contra a força e violência dos terríveis elementos.” Não só no combate aos incêndios, como no socorro em casos de sinistro “o bombeiro acode; lá o vemos na derrocada, nas ruínas que o desmoronamento produziu soterrando em seus escombros pobres vítimas.”

Percebíamos agora o silêncio nos jornais sobre o aviso de incêndio feito por telefone desde 1887, pois apenas por via interna era comunicado e assim, não escutado pela população e jornalistas em Macau e daí ficar sem ser noticiado a existência deste silencioso meio.

16 Ago 2021

Criação oficial do Corpo de Bombeiros

O Governador Carlos Eugénio Corrêa da Silva (1876-1879) referia na Portaria N.º 18 publicada no Boletim da Província de Macau e Timor de 25 de Janeiro de 1879: Tendo vagado o lugar de inspector da repartição dos incêndios desta cidade, pela exoneração pedida pelo major Augusto César Supico, [Portaria N.º17 de 20 de Janeiro de 1879], hei por conveniente nomear para exercer o mesmo cargo, o major do corpo do estado-maior do exército Raymundo José de Quintanilha, director das obras públicas desta província, que tomará conta hoje mesmo.

Vindo de Lisboa, chegara no dia 19 de Janeiro no transporte de guerra África e logo a 24 foi mandado tomar conta da respectiva repartição das obras públicas para a qual fora nomeado por decreto de 27 de Setembro de 1878. Ainda em 1879 o Major Quintanilha tentou submeter um regulamento à aprovação do Governador Correia da Silva, segundo refere Beatriz Basto da Silva.

Seria ele, por decreto de 23 de Março de 1881, exonerado do lugar de director das obras públicas de Macau pelo Governador Joaquim José da Graça, Visconde de S. Januário, que nomeou para o referido lugar o capitão do estado-maior de engenharia do exército de Portugal, Constantino José de Brito. Este, já promovido a Major, foi nomeado inspector da repartição dos incêndios por Portaria N.º 84 de 14 de Novembro de 1881.

Com esta nomeação, o Governo da província achou “conveniente ordenar, que o sub-inspector da mesma repartição o alferes António d’ Azevedo e Cunha Júnior [desligado das obras públicas como condutor em 1879] faça dela entrega hoje mesmo, ficando eu satisfeito pela maneira porque o referido sub-inspector desempenhou o serviço da inspecção durante o tempo que esteve interinamente a seu cargo.” Assim agradecia o Governador Graça ao alferes Azevedo e Cunha Jr., que interinamente exercera o cargo na Inspecção de Incêndios (Kao-fô Kúng Kun).

“À medida que os serviços de incêndio se tornaram cada vez mais complexos, em 2 de Maio de 1883, o governador assina o Regulamento do Serviço dos Incêndios em Macau, apresentado pelo então director das Obras Públicas e inspector de incêndios, major de engenharia do Estado Maior Constantino José de Brito, que foi aprovado por portaria de 10 de Agosto do mesmo ano. Com a promulgação do Regulamento, os bombeiros de Macau seguem os caminhos normalizados e marca a criação do Corpo de Bombeiros de Macau”, segundo o excelente livro Corpo de Bombeiros, edição comemorativa do 130.º Aniversário do Estabelecimento do Corpo de Bombeiros da RAEM.

REGULAMENTO DO SERVIÇO DE INCÊNDIOS

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 9 de Agosto de 1883, o Regulamento do Serviço de Incêndios datado de 2 de Maio desse ano foi elaborado por Constantino José de Brito e mandado executar por Portaria n.º 93 de 10 de Agosto refere: . Ainda a 10 de Agosto, o Governador Thomaz de Souza Roza por Portaria n.º 94 exonerou o major do estado-maior de engenharia Constantino José de Brito do cargo de inspector dos incêndios, para que fora nomeado a 14 de Novembro de 1881.

Regulamento do Serviço dos incêndios em Macau a que se refere a portaria supra. Capítulo I – Organização e pessoal – Artigo 1.º A inspecção dos incêndios tem por fim superintender o serviço dos incêndios e prover a tudo quanto lhe diga respeito. Artigo 2.º – A inspecção dos incêndios forma um corpo activo de bombeiros que terá o seguinte pessoal [com vencimento anual]: um inspector (216$000 réis); um patrão-chefe (102$000); três primeiros-patrões (71$400 réis cada); 2 segundos-patrões (61$200 cada); 2 sotas (51$000 cada); 20 condutores e 34 moços (recebem gratificações anuais de 51$000). Artigo 3.º -O fornecimento da água nos casos de incêndio será feito pelos indivíduos pertencentes às companhias de carregadores desta cidade, nos termos das posturas e regulamentos policiais e pela forma designada nos artigos 27.º e 48.º deste regulamento. (Quando o número dos carregadores das companhias for insuficiente para o fornecimento da água, o inspector poderá contratar outros dentro da respectiva verba do orçamento). Artigo 4.º -A inspecção deverá ter pelo menos 4 bombas, sendo duas em Macau, uma na Taipa e outra em Colovan. Artigo 5.º -O inspector é o chefe da repartição dos incêndios e incumbe-lhe toda a direcção do serviço… Artigo 6.º -O inspector deve acudir com a possível rapidez a todos os incêndios, e tomar a direcção suprema e exclusiva dos trabalhos, obrigando todos os seus empregados a cumprir pontualmente as suas ordens, e não consentindo que pessoas estranhas intervenham num serviço cuja responsabilidade é toda sua, devendo por isso também tomar a direcção das bombas particulares que concorram nos incêndios. Artigo 7.º -De todos os incêndios o inspector remeterá ao governo da província uma parte em que mencione a causa do incêndio, o local, a hora, quais as duas bombas que primeiro se apresentaram no incêndio para serem premiadas (…) esta comunicação será publicada no Boletim da província.

Os artigos de 8.º a 14.º referem-se aos deveres do inspector, responsável pela conservação de todo o material dos incêndios, pela disciplina do corpo de bombeiros, que será por ele escolhido e a quem deverá dar instrução. A nomeação do patrão-chefe e dos primeiros patrões será feita pelo governo sob proposta do inspector e remeter ao governo o mapa das despesas anuais da sua repartição.

Sobre o patrão-chefe, nos artigos 15.º a 19.º, refere-se ter por obrigação fiscalizar e vigiar todo o pessoal seu subordinado e o estado do material que está sob a sua responsabilidade na estação em que estiver aquartelado.

Antes do inspector estar presente no local de incêndio é ele que toma a direcção dos trabalhos. Para chegar a patrão-chefe é preciso ser homem experimentado no serviço dos incêndios, ter servido pelo menos um ano como patrão, ter bom comportamento, idade apropriada e disposição física para o serviço.

Nos artigos 20.º a 23.º refere-se sobre os primeiros patrões, que terão a seu cargo as bombas da estação em que residirem. Terão a seu cargo a bomba da vila da Taipa e outra da vila de Colovan e para ser primeiro patrão terá de ter servido pelo menos durante três anos como segundo patrão e conhecer os poços, cisternas e quaisquer outros depósitos da água.

Sobre os segundos patrões os artigos 24.º e 25.º referem, ter servido pelo menos durante dois anos como sota e coadjuvarão os primeiros patrões na direcção e serviço das suas bombas e os substituirão em todas as suas faltas ou impedimentos. Assim, a 2 de Maio de 1883 nasceu oficialmente o Corpo de Bombeiros.

2 Ago 2021

Tabuletas e bombas d’incêndio

Os incêndios apareciam relatados nos Boletins Oficiais e as condecorações por actos heróicos eram neles também publicadas, como no B.O. de 2/11/1872 quando o cabo de esquadra n.º 83 da primeira companhia do batalhão de infantaria de Macau, Joaquim Coelho da Rocha recebeu uma medalha de prata, (sem necessidade de pagar direitos de mercê nem de selo) pelos serviços que prestou por ocasião do incêndio ocorrido a 27 de Abril 1872 em Sá-com, salvando com grande risco de vida dois chineses que se achavam sem sentidos dentro de uma barraca já presa das chamas.

Num dos Editais no Boletim da Província de Macau e Timor, de 20 de Março de 1875, João Hyndman, procurador interino dos negócios sínicos fazia saber aos habitantes chineses que o Governador, querendo melhorar o serviço de incêndios para melhor segurança dos habitantes, determinava: 1.º Que por conta do governo serão afixadas nas portas das casas que tiverem poços tabuletas com a palavra poço; 2.º Que todas as vezes que houver incêndio de noite, as lojas e casas em cujas portas estiverem afixadas as tabuletas mencionadas no artigo antecedente, deverão colocar uma lanterna ao lado dessas tabuletas; 3.º Que, nos lugares próximos ao sítio de incêndio, as casas que tiverem poços deverão franqueá-los ao pessoal do serviço de incêndios, na certeza de que o governo dará toda a protecção para que essas casas tenham toda a segurança e não sofram prejuízo algum.

A 22 de Fevereiro de 1877, o mesmo procurador João Hyndman por Edital fazia saber: Tendo sido retiradas em algumas casas as tabuletas designativas da existência de poços, o que causou graves inconvenientes por ocasião do último incêndio que teve lugar na travessa do Tintureiro na madrugada de 13 do corrente mês, e convindo em semelhantes ocasiões de desastre que as pessoas que concorrerem para prestar socorros tenham meios de reconhecer facilmente quais são as casas onde existem poços, vão ser, por ordem do Governador, substituídas as tabuletas acima indicadas, pela letra P acompanhada do carácter sínico que significa poço, sendo ambas as letras [de altura de dois decímetros] de cor branca e pintadas a óleo sobre um quadro preto, o que pelo presente edital se faz público para o conhecimento dos habitantes chineses, os quais são também avisados que os proprietários das casas em que forem pintadas essas duas letras serão responsáveis pela conservação delas, ficando sujeitos a uma multa além da obrigação de pagar as despesas da reparação, quando por culpa ou negligência dos mesmos proprietários ou inquilinos forem deterioradas as ditas letras. Ao mesmo tempo faço saber aos habitantes chineses que o governo lhes garante toda a segurança, quando em ocasiões de incêndios for necessário que eles abram as portas de suas casas para se poder utilizar dos poços que possuírem, pois que serão então colocadas sentinelas para evitar todo e qualquer abuso, de modo que não haverá razão para que em ocasião de semelhantes calamidades procurem os chineses dificultar o acesso dos poços de suas casas; por isso todos que para futuro assim fizerem serão processados e punidos rigorosamente como desobedientes à autoridade.

O lugar de inspector dos incêndios encontrava-se vago por falecimento do capitão da guarnição Frederico Guilherme Freire Corte-Real, o que levou o Governador José Lobo d’ Ávila a publicar no B.O. de 25/9/1875 a Portaria N.º 94, onde o major d’ engenharia, director das obras públicas, Augusto Cezar Supico, era nomeado inspector dos incêndios, pois considerava que do melhor desempenho de tal serviço resultará maior facilidade aos proprietários que desejem segurar as suas casas, nas companhias estabelecidas em Hong Kong. Já a Portaria N.º 95 refere: Já no B.O. de 17/2/1877, o Inspector dos incêndios, Cesar Supico narrava: Os primeiros a comparecer no local foram o comandante e alguns oficiais e praças do corpo de polícia e guarda da cadeia por eles foram empregadas as primeiras diligência para o extinguir. A falta de meios próprios e a grande quantidade das matérias inflamáveis, que existiam no prédio, tornou infelizmente ineficazes aqueles bons serviços e por isso o fogo comunicou-se rapidamente a toda a casa. Nestas circunstâncias tratei principalmente de evitar a sua passagem para os prédios vizinhos, o que felizmente se conseguiu. Compareceram todas as corporações, notando-se a boa vontade e diligência com que trabalharam os piquetes da polícia de terra e mar, e a companhia da limpeza conduzida pelo seu fiscal.

Dentre os indivíduos particulares que prestaram serviços sobressaem, como dignos do maior elogio, os cidadãos António Carlos Brandão e filho José Brandão, trabalhando com uma bomba sua desde o princípio. Ganhou o primeiro prémio a bomba n.º 1 desta inspecção, cujo pessoal foi auxiliado por um soldado da guarda do quartel de S. Domingos e outro da guarda da cadeia. Tendo-se partido uma escada foram precipitados da altura do telhado dois chineses da companhia de limpeza e um da bomba Men-Ki, ficando este último gravemente contuso. Por esta inspecção lhe mandei prestar todos os socorros que foram indispensáveis para o seu tratamento.

A relação das bombas particulares existentes em Macau foi publicada na Procuratura dos negócios sínicos a 17/11/1879, com indicação da cor das cabaias que devem trajar os dois encarregados de cada uma dessas bombas.

Tendo os proprietários das bombas particulares pertencentes a estabelecimentos industriais chineses concordado em dar aos encarregados das mesmas bombas trajos especiais para poderem distinguir-se umas das outras. Assim com cabaia branca apresentavam-se as bombas, de Menki (do hão de chá) com borda azul; da Rua dos Ervanários (ou Quartel Velho) com borda preta; da Rua da Caldeira (Ven-Lum-Fong) com borda vermelha; de Sankiu com borda azul; do Bazar com borda verde; e da Pat-Coc-Tong (Rua da Barca da Fruta) com borda amarela. A cabaia azul era usada pelas bombas de Ch’eongki, (fábrica de tabaco) com borda branca; da Rua do Infante (Simão-Kai) com borda branca; e a de Patane com cabaia azul-claro e borda azul-escura. A bomba de Matapao (Siun-Ho-Hao) trajava cabaia amarela com borda azul.

26 Jul 2021

Obras públicas e incêndios

Quando a 26 de Outubro de 1866 o Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) tomou posse, as circunstâncias determinavam a urgência de reformas nos vários serviços da Administração da colónia e por isso, logo começou a nomear uma série de comissões para estudar e elaborar as necessárias a empreender.

A 14 de Setembro de 1867 o Governador por Portaria N.º 51 determina: , publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 16 de Setembro de 1867.

Logo a 18 de Setembro de 1867, a Comissão nomeada por portaria de 14 do corrente mês e composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C.C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C., enviou o relatório ao Governador, publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas. Refere no Artigo 1.º referente ao pessoal do Corpo d’ obras públicas: : §1.º- É composto do inspector, do director e do engenheiro; e, na falta de qualquer um destes, entra, em primeiro lugar, o chefe da secção d’ estatística, e, em segundo, o condutor de trabalhos, por forma que nunca resolve com menos de três membros. §2.º- Este conselho é consultivo, mas tem iniciativa de proposta, para o governo da colónia e §3.º- Por intermédio dele, e com responsabilidade de todos os indivíduos que o compõem, são feitos os ajustes, contratos e a compra de materiais. §4.º- Sempre que o governo da colónia o indicar, ou que o inspector o julgue conveniente, serão ouvidos, o chefe da secção da estatística e o condutor de trabalhos, ficando então o conselho composto de cinco membros. Já o Artigo 3.º : §1.º- Há uma repartição de obras públicas que se divide em duas secções: secção d’ obras públicas e secção d’ estatística. §2.º- É chefe da repartição o inspector, e sub-chefe o director. §3.º- O director é também chefe da 1.ª secção; o chefe da 2.ª é um funcionário nomeado especialmente para este fim. §4.º- Fazem igualmente parte da repartição, o condutor de trabalhos, que além dos trabalhos do campo tem o encargo de arquivista das plantas, memórias, desenhos, &c.; o amanuense, que exerce também as funções de arquivista do expediente e dos documentos de contabilidade; o intérprete; e o engenheiro, que também deve ter ali a sua mesa de trabalho. §5.º-

Este pessoal é comum às duas secções da repartição. §6.º- Toda a correspondência é feita por intermédio da repartição; a esta são remetidas todas as ordens do governo da colónia; e delas partem todas as propostas e consultas para o governo. §7.º- O inspector e o director substituem-se, no impedimento um do outro, tanto nos trabalhos da repartição, como nos de campo. Artigo 4.º- § único: O sistema de escrituração de registo, de arquivo, de expediente, d’ escrituração, da contabilidade, etc., é considerado parte regulamentar e deve ser o primeiro encargo do conselho d’ obras públicas.

A comissão foi dissolvida com louvor do Governador a 24 de Setembro de 1867, publicado a 30 de Setembro no Boletim da Província de Macau e Timor.

Ataque ao fogo

No Bazar, as casas e lojas chinesas são tão unidas e contíguas umas às outras que parecem antes ser uma e mesma propriedade, refere o Inspector de Incêndios Senna Fernandes no resumido relatório de 19 de Fevereiro de 1868 para o Governador.

O Governador António Sérgio de Sousa a 12 de Março de 1872 exonerou por motivos de saúde o major Honorário Bernardino de Senna Fernandes de inspector dos fogos, nomeando para o cargo o capitão Frederico Guilherme Freire Corte Real, sem vencimento enquanto exercer as funções de capitão fiscal do Corpo de Polícia.

Em Setembro de 1875, o capitão Frederico Corte Real faleceu e o então Governador José Maria Lobo de Ávila por Portaria de 25 de Setembro nomeou o Major Eng. Augusto César Supico, então Director das Obras Públicas a exercer esse cargo desde 23 de Fevereiro, como inspector dos fogos, assim como para seu ajudante, o condutor das Obras Públicas António de Azevedo e Cunha Jr. – que já em tempos serviu com louvor como imediato do inspector dos incêndios. Desde então, o cargo de inspector dos fogos ficou por muitos anos adstrito à Direcção das Obras Públicas.

O aviso de incêndio continuava a ser feito pelo toque dos sinos, mas para os accionar era preciso ir buscar a chave da caixa, que fechada protegia as cordas dos sinos, guardada na Estação de Polícia de cada zona e conhecer o número estipulado de badaladas correspondentes a cada uma onde ocorria o incêndio.

19 Jul 2021

Água para incêndios

O aumento da população de Macau em meados do século XIX levou a problemas com a água, poluída que estava a Ribeira do Patane, (inicial local de abastecimento da população e de aguada para os barcos), servindo-se os habitantes na sua maioria da dos poços públicos e da água da Fonte do Lilau que, apesar de não ser tratada, era boa para beber e onde os aguadeiros se abasteciam. Muitos donos de propriedades mandaram então abrir poços, sendo a água da maior parte deles de fraca qualidade. Já a da chuva, que num clima tropical cai torrencial, era nos pátios recolhida em grandes potes, colocados sob a junção dos telhados. Nos incêndios no Bazar, a água do Ribeira do Patane e do Rio Oeste era utilizada para complementar a dos poços próximos do fogo.

O Governador José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) a 27 de Dezembro de 1866 por Portaria n.º 45 nomeava o Major Comandante do Corpo de Polícia de Macao Bernardino de Senna Fernandes como Inspector de Incêndios, cargo que exercia já antes de 1862 e por Portaria n.º 46 determinava: Cumprindo-me organizar quanto em mim caiba e como melhor for, o serviço respectivo à extinção dos incêndios na colónia de Macau: hei por conveniente determinar que o Sr. inspector dos fogos inspeccione incontinente todos quantos poços assim públicos como particulares existirem na cidade, informando-se por sua própria inspecção e visita da quantidade d’ água aproximada que esses poços oferecerem, devendo de tudo isso dar-me minuciosa conta, e bem assim ordeno que as lojas maiores do bazar tenham permanentemente uma barrica d’ água em reserva, a qual deverá ser mudada todos os três dias por conta dos inquilinos. E que servirá para com ela se ocorrer às primeiras necessidades dos incêndios, quando estes se manifestarem nas vizinhanças dessas mesmas lojas: e determino também que nos cantos d’alguma das ruas do bazar, n’aquelas ao menos onde a água for mais escassa existam depósitos do mesmo líquido, que servirão para o mesmo fim, e que ficarão inteiramente sob a vigilância da polícia. Outro sim tenho por conveniente ordenar que o Sr. inspector dos fogos passe uma revista cuidadosa a todas as bombas da cidade, a fim de se informar do seu número e estado, da gente que as guarnece, da quantidade de baldes que as completam, do nome dos seus chefes, e enfim de género de responsabilidade que actualmente cabe a quem dirige e superintende o trabalho de cada uma d’essas bombas: devendo o mesmo sr. inspector instruir-me se convirá, acaso, o pôr à testa de cada bomba da cidade, um empregado seu que entenda o chinês, ou se por meio de um alistamento regular, e com penalidades, se logrará obter que cada bomba desempenhe com todo o seu pessoal o trabalho que lhe for determinado no momento do incêndio. Outro sim determino que o sr. inspector dos fogos auxiliando-se para esse fim da polícia, se tanto for necessário, faça visitas domiciliárias aos estabelecimentos industriais do bazar, e procure remover do centro da população china para outros pontos da cidade mais afastados, ou menos povoados, aquelas indústrias que reconhecidamente forem tidas por perigosas, e isto a bem do grande número de cidadãos chineses que actualmente habitam o centro do bazar. Ordeno também, que o sr. inspector dos fogos, logo que rebente algum incêndio em qualquer ponto da cidade mande imediatamente franquear por via da polícia, que ficará responsável pela segurança da propriedade dos cidadãos, aquelas lojas ou edifícios particulares da vizinhança do lugar atacado, onde existirem poços ou depósitos d’água, que possam servir no abastecimento das bombas, empregadas no trabalho da extinção do incêndio.

Determino mais, que o sr. inspector dos fogos organize, sem demora, uma brigada de homens de machado e de grampos, destinada a operar com prontidão nos casos em que seja necessário isolar, pela força, os edifícios atacados d’aqueles que se lhe acharem contíguos ou mui próximos; devendo a mesma autoridade aproveitar-se para este fim dos elementos que já hoje a colónia oferece com relação a este ponto>, Boletim Oficial de 31 de Dezembro de 1866.

Melhoramentos

A 19 de Fevereiro de 1868, o Inspector de Incêndios seguindo essas directivas apresentava o relatório ao Governador e antes, já entregara outro sobre o número de poços e de bombas para apagar os fogos, referindo agora Senna Fernandes: . Mandei assinalar as lojas que tinham poço com uma tabuleta afixada na parte exterior, a indicar haver ali água para se recorrer em caso de incêndio.

Entre as lojas que não haviam contribuído para a compra de bombas, que as lojas do Bazar têm a expensas suas, mandei fazer com o produto de uma subscrição voluntária um certo número de . Mandei reparar as bombas avariadas e . O prémio estabelecido pelo governo para as duas primeiras bombas a comparecer no lugar do incêndio, é um poderoso incentivo para apressar ao lugar do sinistro o principal meio para o extinguir.

Pago pela Fazenda havia apenas um empregado para cuidar das bombas e mais objectos pertencentes à repartição, falta suprimida por voluntários paisanos que se têm prestado a dirigir o trabalho das bombas na ocasião d’ incêndio, sendo Fermino Machado o mais assíduo a prestar este serviço.

Não só as bombas da Fazenda mas também as do Bazar e San-Kio usam acudir ao incêndio, dando-se o sinistro em qualquer ponto da cidade; e as bombas pertencentes às lojas chinesas são transportadas e trabalhadas pelos serventuários das mesmas lojas; por isso julguei conveniente mandar pôr um distintivo na cabaia, chapéu e lanterna dos dependentes de todas as lojas, a fim de os poder distinguir de outros chineses que não têm quem os garanta; e que por conseguinte são excluídos do lugar do incêndio ou presos em tais ocasiões, não trazendo o distintivo por mim dado.

Com prévia autorização de V. Exa., ordenei a todas as lojas do Bazar para que tivessem um dependente seu, armado, e postado na porta da rua durante o incêndio; e este expediente tem concorrido muito para evitar roubos, e para manter a ordem e sossego público, ficando por este modo o Bazar bem guardado e bem policiado.

12 Jul 2021

O sino como sinal de aviso

O Governador Izidoro Francisco Guimarães (1851-1863), que em três anos reverteu o enorme défice das finanças de Macau sem impor nenhum tributo, apenas fiscalizando com rigor os existentes e em severa economia conseguiu depois aumentar as despesas anuais com as obras públicas. Efectuou ainda durante a sua governação a reconstrução do Bazar, destruído por os incêndios de 1856 e de Dezembro de 1862, aproveitando com aterros sobre o rio torná-lo maior e melhor arranjado. Mas já no ano seguinte Marques Pereira referia, “No Bazar, há uma acumulação de casas e habitantes, muito e muito além do que o local permite.”

Era então Inspector dos Incêndios o macaense Bernardino de Senna Fernandes (1815-1893), organizador da Polícia e promovido a Major Comandante do Corpo de Polícia de Macao, quando este foi criado por Portaria de 11 de Outubro de 1861 pelo Governador Guimarães, que determinou a formação dessa Força da Polícia, proveniente do Corpo de Polícia do Bazar e inicialmente formado em 1857 com 50 portugueses por o chinês Aiong-Pong. Sobre o assunto, o padre Manuel Teixeira prova com um documento de 25 de Agosto de 1862: . A 30 de Agosto, o Conselho do Governo declarou ser isso verdade. Daqui se vê que, já antes de 1862, Senna Fernandes era Inspector de Incêndios, tendo reorganizado esse serviço, exercendo o cargo gratuitamente. Num dos seus relatórios dizia: . Aqui temos um corpo de bombeiros já organizado.

Sino em vez de canhão

O coronel de Engenharia José Rodrigues Coelho do Amaral (1808-1873), como Governador tomou posse a 22/6/1863, quando Macau, após 19 anos fora do domínio do Estado da Índia, voltou a ficar a ele subordinada. Iniciava-se a modernização com a iluminação da cidade, dando nome às ruas e números às casas, havendo em 1864 uma regulamentação urbanística com o cadastro de todas as ruas divididas pelas zonas da cidade, freguesias da Sé, S. Lourenço e Sto. António e o Bazar, assim como das povoações da península, mas fora da muralha da cidade. Na altura, as muralhas começaram a ser desmanteladas para permitir rasgar novas ruas e colocar canos de esgoto.

O Governador Coelho do Amaral convenceu-se ser o sinal de incêndio por meio de tiros na Fortaleza do Monte inconveniente e alarmante e fez adaptar o sistema usado em Portugal, com o sinal por meio de badaladas nos sinos das freguesias; porém, não deu bom resultado, pois os chineses revoltados por não ter a cidade aviso e não se prestar grande atenção ao referido sinal, cortavam as cordas que prendiam os badalos dos sinos, a manifestar o seu desagrado. Os pedidos dos chineses eram constantes para se restabelecer o antigo sinal de incêndio por meio de tiros no Monte. No Boletim Oficial de 23 de Maio de 1870 apresentava-se a solução encontrada para proteger as cordas dos sinos, que passaram a estar fechadas por uma caixa, sendo a chave guardada na Estação de Polícia de cada zona e estipulado o número de badaladas correspondentes a cada uma onde ocorria o incêndio. Assim, se o incêndio fosse na freguesia da Sé, a chave encontrava-se no Quartel de S. Domingos e davam-se 12 toques no sino.

Na zona de S. Lázaro badalava-se por 13 vezes, estando a chave na Estação de S. Lázaro. Para as freguesias de Santo António, tocava-se 14 vezes e 15 na de S. Lourenço, estando a chave na Guarda do Hospital. Já o Bazar, dividido para Norte, entre rua dos Coulaus e Patane, era preciso ir à Estação de Santo António ou à de S. Lázaro para ter a chave e badalava-se 16 vezes, enquanto no Bazar Sul, entre a Rua dos Coulaus e a Ponte da Rede (Estrada Marginal), ia-se à estação mais próxima das acima indicadas e tocava-se por 17 vezes.

O Capitão comandante F. J. de Souza Alvim do Quartel da Polícia de Macau no Bazar, no Boletim do Governo de Macau de 24 de Dezembro de 1866 fez saber pela Repartição dos Incêndios, .

Serviço de incêndios oficializado

O Governador José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) tomou posse a 26 de Outubro de 1866 e três meses depois tornava oficial o serviço de Inspector de Incêndios. Era este já antes de 1862 realizado de forma particular por Bernardino de Senna Fernandes e o Governador por Portaria n.º 45, de 27 de Dezembro de 1866 nomeou-o para o lugar de inspector dos incêndios como Major Honorário com a gratificação de 30 mil réis. Aceitou o cargo, mas não a gratificação, segundo o padre Manuel Teixeira, que refere, entre os seus colaboradores, cita [num relatório de 19/2/1868] Fermino Machado, e o tenente Frederico G. Freire Corte Real, ajudante do Corpo da Polícia, têm acudido a todos os incêndios e além deles, os voluntários António Romero e Manuel Martins do Rego, tendo este último corrido grave risco de vida pelo abatimento dum muro que teve lugar durante o sinistro.

Ainda no Boletim do Governo de 31 de Dezembro de 1866, por Portaria N.º 46 o Governador determina, que o mesmo Sr. inspector dos fogos compenetrando-se bem da valiosa significação e séria importância do seu lugar, haja de me propor todas quantas medidas julgar necessárias e oportunas, assim como o for entendendo e experimentando no desempenho sucessivo da sua importante comissão.

O Major Honorário Bernardino de Senna Fernandes, por motivos de saúde pediu a sua exoneração de inspector dos fogos a 11 de Março de 1872, aceite no dia seguinte pelo Governador António Sérgio de Sousa (1868-1872), que exarou a Portaria n.º 11, onde refere ter ficado muito satisfeito pelo modo desinteressado como exerceu semelhante lugar por espaço de cinco anos. Na mesma data, o Governador nomeou interinamente inspector dos fogos o capitão Frederico Guilherme Freire Corte Real, sem vencimento enquanto exercer as funções de capitão fiscal do Corpo de Polícia.

Assim, a fundação oficial da Repartição do serviço de incêndios e a nomeação oficial do seu primeiro inspector data de 27 de Dezembro de 1866.

5 Jul 2021

Os serviços de incêndio

Até meados do século XIX, a cargo dos mandarins de Xiang-shan estavam as ordens e medidas para evitar incêndios, como a de 7 de Novembro de 1829 onde se ordenava, a demolição de todas as barracas de palha, as lojas serem obrigadas a ter baldes com água à porta e em vez de archotes devia-se andar de noite com lanternas. Contava-se com os habitantes da cidade, avisados por o repicar dos sinos dos templos, sobretudo os das igrejas, e mais tarde, em simultâneo com dois tiros de pólvora seca dados a partir das fortalezas, para comparecerem com baldes de água a combater os frequentes incêndios.

Após tomar posse da terra de Macau, o Governador João Ferreira do Amaral (1846-1849) afastou da península os mandarins e para resistir a qualquer ameaça, em 1847 criou o Batalhão Provisório (de segunda linha) destinado a auxiliar o Batalhão de Artilharia de Primeira Linha, como Força mista de 1ª linha.

Em 1851 os serviços de incêndio foram atribuídos às forças militares portuguesas e da Fortaleza de Nossa Senhora do Monte dava-se aviso de incêndio à cidade, disparando do canhão dois tiros seguidos de pólvora seca. Os serviços de extinção de fogo eram assegurados por um piquete do Batalhão de Artilharia com a bomba existente, aquartelado no antigo Convento de S. Francisco [demolido em 1864 para ser construído o Quartel] e também por pessoal em serviço para ir atacar os incêndios do Batalhão Provisório, instalado no extinto Convento de S. Domingos.

A 4 de Janeiro de 1856 houve um incêndio como nunca se viu em Macau, talvez o mais devastador de sempre na cidade. Refere Luís Gonzaga Gomes, “Teve princípio à 1 h 45 m, numa das boticas chinesas [no centro] do Bazar.

Ajudado pelo vento norte, o fogo espalhou-se com grande rapidez, mas às 5.00 horas, mudando para leste, fez avançar o incêndio sobre as boticas do Matapau. Às 6.30 horas, voltando, outra vez, para o norte, fez com que a terrível conflagração seguisse pela Travessa de S. Domingos, Rua do Quintal e Travessa do Tronco, escapando, por pouco, o antigo convento de S. Domingos [que esteve em risco]. O incêndio durou toda a noite, destruindo 420 boticas (lojas) e 400 residências de famílias chinesas, subindo a mais de meio milhão de patacas o valor de propriedades destruídas. Os cidadãos de Macau auxiliaram, por toda a forma possível, a combater o incêndio, tendo prestado valiosos socorros as guarnições das fragatas francesas Virginie e Constantine.” No Bazar o incêndio só não destruiu algumas lojas dos limites Norte e do Sul, tudo o resto devastou.

A companhia

Com a cidade a expandir e cheia de emigrantes chineses, estava na altura de melhorar os serviços e a 30 de Outubro de 1858 foi criada a Companhia de cules chineses para carregos [carga, encargo] para cada um dos bairros de Macau.

Em cada bairro existiam três companhias de cules, cada com um chefe, usando chapéus de bambu numerados e de cores diferentes, sendo obrigados a apresentar-se no Largo do Senado para o serviço de bombas sempre que houvesse deflagração de incêndio e os aguadeiros tinham o dever de comparecer no local para acudir, e quem não cumprisse corria o risco de pagar uma pataca de multa. Os aguadeiros passaram assim a fazer parte de um conjunto organizado – a Companhia – deixando de proceder individualmente à venda de água para passarem a distribui-la segundo normas e princípios estipulados pela Companhia. Deste modo os aguadeiros perderam o seu carácter de vendilhões para se transformarem, sobretudo, em cules distribuidores ou simples carregadores de água ao serviço da Companhia para quem trabalhavam e por quem eram pagos. Se, por um lado, este facto lhes trouxe vantagens no sentido de lhes proporcionar maior segurança, por outro, e a partir daí, passaram a conhecer um certo número de obrigações que, para garantia do seu emprego, deviam cumprir. A mais importante de todas as obrigações foi a prestação de serviço de incêndios, o que veio a constituir um grande apoio para a Administração que, frequentemente, via a cidade ser assolada por fogos e não possuía meios eficientes para os combater.

A partir de 13 de Novembro de 1858, a complementar com os dois tiros de pólvora seca de canhão disparados da Fortaleza do Monte, aí se colocava no mastro sinais, à noite por luzes e durante o dia por balões e bandeira vermelha, a dar a conhecer o local do fogo.

A cidade estava dividida em sete zonas e por sinalização indicava-se cada uma. Colocado no mastro o anúncio de incêndio, se fosse no Patane, durante o dia hasteava-se uma bola e à noite, duas luzes amarelas. Se ocorria no Bazar, durante o dia duas bolas e à noite, uma luz amarela em cima e por baixo uma vermelha. Em S. Lourenço, durante o dia, no topo uma bola e por baixo a bandeira e à noite, uma luz vermelha e por baixo uma amarela. Se fosse em Santo António, durante o dia, a bandeira e por baixo uma bola e à noite, no mastro duas luzes vermelhas. Sendo o incêndio na freguesia da Sé, durante o dia duas bolas e entre elas a bandeira e à noite duas luzes amarelas com uma vermelha entre elas. Já para Mong-Há, duas bolas e por baixo delas a bandeira e à noite, duas luzes vermelhas com uma amarela entre elas. Se o incêndio era na Barra, a bandeira encontrava-se em cima, tendo por baixo duas bolas e à noite apareciam três luzes vermelhas. Na Fortaleza do Monte, a sinalética colocada no mastro, visualizado de toda a cidade, permitia localizar o incêndio.

O vento ajudou

A 19 de Dezembro de 1862, pelas 15 horas deu-se sinal de fogo no Bazar. O incêndio manifestou-se com rapidez na Rua da Barca de Lenha, num lugar apertadíssimo, onde só existiam estâncias de lenha, carvão e madeira, e estendeu-se até Pun-Pin-Vai. Como na ocasião o vento soprava fresco de Norte, o incêndio desenvolveu-se intenso, apresentando feio aspecto, e, ameaçando consumir as casas das ruas próximas, porém a felicidade de rondar o vento para o nordeste e leste-nordeste, abonançando consideravelmente, e ser quase praia mar, o que forneceu água em abundância, e os socorros prontos que se administraram, com a boa direcção dos trabalhos, cortando-se o incêndio a ponto tal que se isolou o foco das chamas dos prédios e ruas contíguas, fez com que ele não progredisse, ficando extinto pelas 9 horas da noite. O fogo proveio d’ um descuido numa loja de colchoeiro e arderam 57 prédios, sendo destruídas quatro casas nos cortes que se fizeram, e vítimas houve apenas uma rapariga de 10 anos e uma criança recém-nascida, segundo o Boletim do Governo de 20/12/1862.

“Depois do grande incêndio do Bazar, em 1856, foi este um dos maiores que se deu na cidade”, refere Gonzaga Gomes, mas o ocorrido em 1860 na Travessa do Armazém Velho causou a morte de 30 trabalhadores chineses.

A 31 de Dezembro de 1862 foram isentos do pagamento de décimas e licenças, pelo período de um ano, os donos das propriedades do Bazar, que arderam no dia 19 de Dezembro deste ano, sendo os mesmos obrigados a começar com a reconstrução dentro de três meses.

29 Jun 2021

Violentos incêndios em Macau

Camilo Pessanha está já em Macau quando no jornal Echo Macaense de 16 de Maio de 1894 é noticiado o incêndio ocorrido no sábado, dia 12, pelas 19 horas no Tarrafeiro, onde quatro prédios foram devorados pelas chamas. O vento nessa noite soprara com força e o fogo teria tomado maiores proporções não fosse os socorros prestados pelas bombas e corpo de marinheiros que ali compareceram. Trabalharam ainda activamente as bombas a vapor da Inspecção dos Incêndios e da Companhia do Ópio e várias outras bombas particulares. Fora fogo posto e o criminoso está já preso e processado. No entanto, não é referido como foi dado o sinal de incêndio e só com a leitura de outros incêndios, registados nos jornais, começamos a entender a forma normal de avisar a população de Macau. De referir ser Director das Obras Públicas o Major de Engenharia Augusto César de Abreu Nunes, que chegara a Macau a 21 de Dezembro de 1893 e desde 12 de Janeiro de 1894 era Inspector dos Incêndios. À data, no edifício do velho Convento de S. Domingos encontra-se a Direcção das Obras Públicas, o Corpo de Bombeiros e a Estação Central dos Telefones.

Contra as casas de madeira

Nos primórdios de Macau, os edifícios tinham paredes de taipa ou bambu com telhados de colmo ou madeira e, com o amuralhar da cidade cristã a partir de 1622, passaram aí a ser construídos em tijolo. Mas as barracas de bambu e palha perduravam no Bazar ainda no início do século XIX e daí o constante badalar em alvoroço dos sinos das igrejas e mais tarde, em simultâneo com tiros de pólvora seca dos canhões das fortalezas, a avisar os habitantes para acudirem com baldes de água a debelar as chamas. E tantos foram os incêndios e seguidos que as descrições se confundem e as datas se misturam. “Em 1817 ao que parece, tinham destruído também tendas de um importante pagode – aliás aquele onde se instalava o mandarim quando descia à cidade – levou a que fosse ordenada a substituição desses quarenta ou cinquenta estabelecimentos improvisados, por outros de tijolo, com arruamentos bem definidos, estrutura que em pouco tempo ficou concluída”, segundo Pedro Dias.

Beatriz Basto da Silva (BBS) refere-se talvez a esse grande incêndio na Praia Pequena a 6 de Junho de 1818, “pelas 9 da noite e atingindo o Bazar, com origem nas barracas clandestinas que serviam de habitação e botica a uma franja da população chinesa entre o vadio e o tendeiro. Arderam também boticas chinesas, algumas de boa seda. Talvez um prejuízo de 1 milhão de patacas.

O Convento de S. Domingos esteve em perigo.” Marques Pereira complementa ao dizer, a 20 de Julho de 1818, o “Edital do mandarim cso-tang de Macau, por apelido Chen, em que, atendendo a ser o pagode Sien-fung (Lin Fong, o pagode novo) muito venerado pelos chineses, e o lugar de hospedagem dos mandarins superiores que vinham a Macau, e considerando mais que os bonzos dele se achavam privados de rendimentos, pois que algumas lojas que tiveram no bazar, um incêndio as destruíra: constitui foreiras do dito pagode 67 lojas recentemente fabricadas de tijolo nos sítios da Praia Pequena e Matapau.”

O Dr. Caetano Soares referindo-se a esse ou a outro incêndio: “destruiu a maior parte do Bairro de S. Domingos, vulgarmente conhecido como Bazar Grande, sendo a Casa de Beneficência chinesa Sam Kai-Hui-Kum”, cuja sede era o Pagode das Três Ruas, o único edifício poupado. Refere BBS, “Na ocasião, o Procurador da Cidade escreve ao Suntó de Cantão pedindo-lhe apoio que não encontra nos Mandarins de Casa Branca, para fazer valer, junto desses ciosos chineses, a lei que proíbe tais barracas, que são também couto de ladrões e jogadores, mesmo chegadas a casas vizinhas dos portugueses. O Procurador Pereira participa ainda que, para evitar a propagação de mais incêndios, a cidade vai abrir uma rua larga, cercada por uma parede entre os dois focos habitacionais.”

Descuidos

A 31 de Dezembro de 1824, o Mosteiro de Sta. Clara, onde viviam em clausura 31 religiosas franciscanas clarissas, foi completamente devorado pelo incêndio ocorrido às 20 horas e 45 minutos. Devido ao vento, as luzes do presépio pegaram fogo e em três horas o vasto edifício ficou reduzido a cinzas. Como o capelão morava perto, ainda pôde salvar o Sacrário e os principais moradores da cidade correram logo a salvar as religiosas, morrendo queimada a Madre Florentina de 90 anos e outras duas faleceram mais tarde.

O mandarim Tchó-T’óng (tso-tang, com residência na península, mas fora da cidade cristã), de apelido Im, a 7 de Novembro de 1829 ordenou, para evitar incêndios, em vez de archotes andar-se de noite com lanternas, serem as barracas de palha demolidas e todas as lojas obrigadas a ter baldes com água à porta.

Após a destruição de 500 moradias no violento incêndio de 5 de Novembro de 1834, o Procurador da Cidade António Pereira pedia em ofício ao Tchó-T’óng o ser proibida a construção de barracas e casas de madeira na Praia Pequena, a fim de evitar o perigo de incêndios.

Mas foi a lenha amontoada na cozinha do Colégio de S. Paulo, utilizado então como quartel do Batalhão de Voluntários do Príncipe Regente, que pegou fogo a 26 de Janeiro de 1835. Eram seis e meia da tarde. O Chinese Repository descreve com tradução do padre Manuel Teixeira: “Uma descarga de canhões do forte de S. Paulo deu o alarme de incêndio. Este sinal foi imediatamente correspondido pelos canhões dos outros fortes, pelo repicar dos sinos das igrejas e pelo rufar de tambores.

As autoridades principais, a tropa e muitos dos habitantes de Macau depressa se puseram em movimentos. Mas, excepto aqueles que estavam perto da igreja, durante alguns momentos houve dúvidas sobre qual era o edifício que ardia; – o estado da atmosfera era tal que o fumo não podia subir, mas levado por uma breve brisa de noroeste, envolveu toda a parte oriental da cidade. Porém, não tardou muito que as chamas, irrompendo através do tecto, não deixassem dúvidas sobre o ponto donde saíam. Todos os compartimentos, que constituíam a ala esquerda da igreja, e que eram outrora ocupadas pelos padres, mas recentemente pelas tropas portuguesas, começaram logo a arder.

Por um momento, houve alguma esperança de que a parte principal da igreja – a capela, pudesse ser salva. Mas, antes das 8 horas, o fogo atingiu a parte mais alta do edifício e também a sacristia atrás do altar-mor. Um denso fumo de mistura com chamas depressa irrompeu pelas janelas de todos os lados, e então, subindo através do tecto, apresentava um aspecto sinistramente grande.

As chamas subiram muito alto e toda a cidade e o porto interior ficaram iluminados, justamente neste momento o relógio [oferecido por Luís XV e colocado na igreja em 1734] bateu 8 e um quarto. Até ali, tinham-se feito esforços para controlar o avanço das chamas; mas”, tornando-se evidente mais nada se poder fazer, cada qual ficou-se a contemplar o fogo. O incêndio devorou o edifício do antigo Colégio e a Igreja Mater Die, deixando-a reduzida à monumental frontaria de pedra.

21 Jun 2021

Iniciais incêndios em Macau

O primeiro incêndio registado por os portugueses em Macau ocorreu em Dezembro de 1565 na Ermida de St.º António, construída com bambu e palha pelos Jesuítas, situada onde hoje é o Largo de S. António. 29 de Julho de 1563 é a data do estabelecimento permanente dos Jesuítas em Macau, sendo em Setembro do ano anterior que Luís Fróis, S.J. e Baptista de Monte, S.J. “dão início a um projecto de residência, instalando-se em divisões sumárias, [casinhas térreas junto da ermida de St.º António] numa propriedade do comerciante Pedro Quintero”, refere Beatriz Basto da Silva. E continuando na sua Cronologia, em 1565 dá-se por oito padres da Companhia de Jesus nesta Cidade a “fundação da primeira residência jesuíta na China, em Macau, com a construção a cargo do Pe. Francisco Perez, perto de St.º António, da Casa dos Jesuítas” em imóvel próprio. Uma pobre casa feita para hospício dos missionários que passavam do Japão e essa Casa, em conjunto com a Capela, ardeu em 1565.

Reconstruída a Casa dos Jesuítas, aí em 1572 foi aberta a escola de primeiras letras. No local da anterior capela, o Capitão-Mor de Macau D. António Vilhena mandou em 1573 erguer às suas custas a nova igreja em madeira (taipa) e coberta de telha, já com o nome de Madre de Deus. Foi-lhe lançada fogo em 1582, tendo os jesuítas a abandonado e o Superior Pe. Pedro Gomes mudou-a para o actual local no sopé do Monte de S. Paulo, cobrindo-a de telha.

Crescendo o ensino até ao nível universitário, a “30 de Novembro de 1594, a Casa da Companhia de Jesus passou a denominar-se Colégio dos Jesuítas”, segundo Beatriz B. da Silva, que refere, a 1 de Dezembro “a escola criada pelos jesuítas passou à categoria de Colégio Universitário. O Colégio de São Paulo foi a primeira Universidade ocidental no Extremo Oriente”, sendo devorado em 1595 por um grande incêndio.

Já desde 1594 se reedificava o Hospício, o Colégio e a Cerca que “passaram a ocupar o terreno que, hoje, se estende pela Horta da Companhia. A fachada desta nova construção ocupava o espaço entre a actual igreja de Santo António e a Travessa de S. Francisco Xavier. No edifício e esquina que dava para a Rua de Santo António, ficavam os aposentos destinados aos mandarins que vinham frequentemente a Macau (Artur Levy Gomes)”, citação de Ana Maria Amaro. A construção do edifício do Colégio, Casa e Seminário de São Paulo, terminou em 1602. Já a Igreja da Madre de Deus voltaria a arder em 1601, sendo então construída uma nova e imponente igreja inaugurada no Natal de 1603 e a fachada, obra realizada por mestres japoneses, só ficaria pronta em 1640.

VISÃO CHINESA DOS PORTUGUESES

Para perceber as razões da pouca vontade chinesa para com a Companhia de Jesus em Macau e pegarem fogo às suas casas, escolas e igrejas, convém iniciar por historiar o percurso dos mercadores portugueses no Mar da China e mais tarde, ligados aos jesuítas, que misturados com eles entravam clandestinos na China.

Às ilhas chinesas da costa de Guangdong anualmente aportavam de Abril a Outubro marinheiros e comerciantes, vivendo a bordo dos barcos e esperando as sedas aí trazidas pelos mercadores chineses.

O Édito Imperial de 1522, que proibia quaisquer relações com os Fu Lan Ki, os desacreditados portugueses considerados na China homens de corações sujos, ladrões e alevantados, por andaram fora da obediência do seu Rei, resultou de duas batalhas navais entre os mercadores portugueses e a armada imperial chinesa.

Com tal má fama foram os portugueses colocados fora de Guangdong. Continuavam pela costa chinesa, agora para Norte a fazer comércio aliados com a pirataria japonesa pelas províncias de Fujian e Zhejiang, ficando os mandarins de Guangdong sem as taxas cobradas aos mercadores chineses e a não receber as peitas dos estrangeiros, sendo os lucros auferidos muito reduzidos. Assim, em 1554 por ‘Assentamento’ entre o Capitão-mor Leonel de Souza e Wang Bo, o haidao (subintendente dos Assuntos de Defesa Costeira), os mercadores portugueses puderam usar a península Haojing, onde a Sul, na Barra estavam instalados ao redor do Templo de A-Má os pescadores de Fujian e na parte Norte, na colina de Mong-Há os agricultores eruditos descendentes da dinastia Song do Sul. Eram administrados por o mandarim de Hiang-shan, que respondia ao Vice-Rei de Guangdong Guangxi e este ao Imperador.

A vinda dos portugueses para a Baía de A-Má (AMáGau) trouxe aos pescadores locais mais negócios por estarem ligados com a sua província de origem, levando as mercadorias para Fujian, de onde se fazia comércio com as Filipinas.

Em 1557, os portugueses têm permissão oficial de se estabelecer em habitações permanentes no fanfang, situado na área central da península e então, a viver a Norte os agricultores de Mong-Há, ao verem instalar-se cada vez mais estrangeiros ficaram desinquietados. Em 1561, eram entre 500 e 600 moradores permanentes e em Dezembro de 1562, o número dos portugueses andava perto de 800, muitos provenientes de Lampacau, ilha a encerrar aos portugueses. Em 1563 viviam cerca de 900 portugueses, excluindo crianças, mil escravos e quatro mil chineses, sendo no total perto de 6 mil habitantes. Segundo Tien-Tsê Chang, “vários milhares de malaquenhos, indianos e africanos”, alguns comerciantes, mas muitos criados e escravos. Os chineses eram os estabelecidos em torno de Mong-há e A-Má.

A MATERIAL IDADE

Os jesuítas encontravam-se em Amagao desde 1555. “Postados geralmente ao lado dos moradores, (…) os padres jesuítas lutavam pela preservação do seu papel fulcral na sociedade macaense. Cabia-lhes gerir e resolver os conflitos pessoais e de grupo no seio da comunidade e as pendências com as autoridades chinesas. (…) De resto, pertencia à Companhia de Jesus a responsabilidade da construção da maior parte das escassas estruturas defensivas da cidade, bem como a constituição da única e verdadeira milícia”, segundo Jorge dos Santos Alves, que refere “Era prática corrente os portugueses declararem os navios mercantes como navios de escolta, de guerra, para fugirem ao pagamento de direitos”, confirmando os chineses o pensamento bélico dos estrangeiros e os japoneses trazidos pelos padres do Japão lembrava-lhes os problemas com os piratas mercadores japoneses (wokou).

A aquisição da Ilha Verde pelos jesuítas em 1603, levou as tropas chinesas dois anos depois a aí destruir as casas e a igreja, propriedade ocupada sem permissão do mandarim de Hiang-shan, que avisava não querer em Macau japoneses. Em 1606 houve pânico em Guangdong, pois constou pretenderem os jesuítas invadir a China com a ajuda dos japoneses.

Perante tal cenário compreende-se a preocupação chinesa sobre a Companhia de Jesus, árbitro da política local, acusada de propagar uma ideologia heterodoxa incitadora à revolta contra a dinastia Ming. Impotentes, os locais chineses tinham o fogo como único recurso contra tão poderosa organização, que construía muros e edifícios fortificados e se ali só havia mais os chineses, então era contra eles.

7 Jun 2021

Circum-navegação da Victória

Nas Molucas os portugueses controlavam o comércio na ilha de Ternate e os espanhóis Tidore desde a sua chegada a 8 de Novembro de 1521, quando foram bem acolhidos por o sultão Almanzor.

Como capitão da armada Gonzalo Gómez de Espinosa ia ao comando da nau Trinidad e a Victoria tinha como capitão Sebastián de Elcano, um dos revoltosos em San Julian, perdoado por Magalhães. Para haver sucesso e pelo menos um chegar a Espanha combinaram, a Victoria seguiria para Oeste e a Trinidad retornaria por águas espanholas, como inicialmente fora planeada a viagem. Mas a 18 de Dezembro, com as naus bem carregadas de especiarias à saída do porto de Tidore, a Trinidad começou a meter água e por isso foi adiada a partida. A sua reparação iria demorar meses e a Victória, após reforçar a calafetagem e aliviar 60 quintais de cravinho da carga, com acordo de Espinosa partia a 21 de Dezembro de 1521, aproveitando o vento favorável.

A nau Victória, além do capitão Sebastián de Elcano e o piloto Francisco Albo, contava com uma tripulação de 47 tripulantes, oficiais e marinheiros, treze malaios e dois pilotos locais para os guiar por aqueles mares. Ao passar por o Arquipélago da Indonésia fundearam à frente de algumas ilhas para se abastecerem, chegando a 1 de Janeiro de 1522 à ilha de Amboíno e uma semana depois a Timor, onde procuraram adquirir sal, sem o conseguir. Já ao largo de Sumatra, apanhados por uma violenta tempestade voltaram para trás, refugiando-se na ilha Mallua (Ombay), onde estiveram duas semanas e a 25 de Janeiro, guiados por um idoso piloto local seguiram de novo para Timor. Aí, a tripulação amotinou-se ao conhecer o plano da viagem, que seria directa até Espanha sem paragens no percurso para abastecer nos portos dominados por os portugueses. Cansada de andar embarcada a vaguear sem rumo certo e com a perspectiva de no Índico vir a passar novamente os tormentos ocorridos na travessia do Pacífico, mais certa era a morte durante a viagem do que atingir Espanha, alguns aproveitaram para fugir.

Na primeira metade de Fevereiro, com a nau abastecida partiam de Timor levando a precaução de escapar aos portugueses e por pouco não se cruzaram com os barcos de António de Brito, que ali próximo, na ilha de Banda esperavam por bom tempo para ir às Molucas, afim de construir uma fortaleza e capturar a armada de Magalhães, se ela aí chegasse.

UM DIA A MENOS

Pelo Mar de Timor entraram no Oceano Índico e fora da rota portuguesa, dirigindo-se para Sul singraram em latitudes abaixo dos 30º Sul atravessando-o em mar aberto. Com muito frio e fome, só tinham arroz e água, pois a carne, sem sal para a conservar, apodrecera. Optou-se seguir directamente para dobrar o Cabo da Boa Esperança mas, a cinco léguas Sul deste cabo vão ficar dois meses com as velas recolhidas devido aos ventos de Oeste e que terminará numa tempestade. Na altura, a nau Trinidad já reparada partia de Tidore a viajar para Leste.

Passando o Cabo da Boa Esperança a 6, ou a 18 de Maio de 1522, subindo a costa Ocidental de África sem dela se aproximar e ainda sem escalas desde Timor, no início de Julho junto a Cabo Verde pelas provações encontravam-se num alto grau de exaustão. Por conselho decidiram aventurar-se e ir ao porto da ilha de Santiago pedir ajuda, pois toda a tripulação estava moribunda. A 9 de Julho, um esquife foi a terra apresentando-se como uma nau apanhada numa tempestade e que se perdera da armada espanhola regressada das Índias Ocidentais e os portugueses acreditaram. Alimentaram e deram-lhes água e produtos frescos para levar para a nau, que pagaram com três quintais de cravinho, segundo mais tarde Elcano relatou ao Rei.

Em Santiago perceberam estar algo errado ao ver ser a missa celebrada num sábado e estranhando perguntaram em que dia estavam. Ao contrário do que pensavam, era Domingo 13 de Julho e na nau, cada um revendo os registos da viagem, verificaram faltar a todos um dia. Durante a viagem de circum-navegação tinham perdido um dia.

Na manhã seguinte voltaram a terra a continuar o abastecimento, regressando ao meio-dia à nau e para fazer o último carregamento, de tarde foram de novo à ilha num esquife com doze homens a comprar escravos. Como passou a noite e não apareciam, a Victoria aproximou-se do porto, quando viram uma barcaça cheia de soldados portugueses e ainda de longe exigiam subir a bordo. Logo os 22 tripulantes da nau levantaram as âncoras e soltando as velas fugiram, navegando em grande dificuldade com um imenso trabalho para bombear a água que entrava por todos os lados. Avistaram os Açores a 4 de Agosto e um mês depois o Cabo São Vicente. A nau com 21 homens, entre eles três malaios, chegava a 6 de Setembro ao porto Sanlúcar de Barrameda, onde foram socorridos.

Levada Rio Guadalquivir acima, a Victoria aportava em Sevilha a 8 de Setembro de 1522, três anos e um mês após daí ter partido. No dia seguinte, em procissão toda a tripulação descalça com uma vela acesa foi da beira-rio à Catedral para agradecer a Santa Maria da Vitória, a quem na partida se tinham encomendado.

Um dos sobreviventes da viagem era o aventureiro António Pigafetta (1491-1534?), fidalgo italiano de Vicenza, que aproveitara a boleia para viajar e escreveu o Relazione: Il Primo Viaggio Intorno al Mondo. Chegara a Barcelona no séquito do representante papal na corte de Carlos V e ao ouvir falar da expedição, que estava prestes a sair, pediu ao Rei para nela ser integrado.

LUCRATIVA VIAGEM

Ao basco Juan Sebastián Elcano (1476-1526) coube a glória de terminar a viagem de circum-navegação, mas Fernão de Magalhães e o seu escravo Henrique já em Cebu a teriam realizado.
Dos iniciais 265 homens, a Espanha voltaram 35 que deram a volta ao mundo e os 55 da San Antonio, sendo libertado então Álvaro da Mesquita.

Em Sevilha, os oito milhões de maravedis investidos na armada de Magalhães consideravam-se já perdidos, pois ninguém acreditava na sobrevivência das três naus que a San Antonio deixara no Estreito de Magalhães. Assim ao aparecerem, “os 520 quintais de especiarias (cerca de 26 toneladas) que a Victória trouxe das Molucas dão, depois de pagar as despesas, um lucro de cerca de 500 ducados de oiro”, segundo Stefan Zweig. (1 ducado = 375 maravedis)

A questão entre Portugal e Espanha sobre a posse das Molucas estava por resolver devido ao cálculo das longitudes ser então muito impreciso. Já quanto às ilhas de São Lázaro, as futuras Filipinas, encontravam-se no espaço do mar português, mas estes não as reivindicaram por não haver meios suficientes para tomar conta de todo esse espaço no Pacífico. Importante era para os portugueses o valioso monopólio das especiarias das Molucas e convencidos pertencerem estas a Espanha, deixaram cair o direito sobre as Filipinas. Também ficou provado ser o caminho espanhol pelo Ocidente até às Molucas muito longo, fora de mão e de extrema dificuldade para os navegantes, levando Carlos V a vender por 350 mil ducados de ouro o direito de posse dessas ilhas a D. João III.

31 Mai 2021

Das Molucas a Espanha

Conduzidas por um junco chinês desde a ilha de Mindanao, as duas naus espanholas já nas Molucas ao passar por Mean e Zoar avistaram as montanhas vulcânicas nas ilhas de Ternate e Tidore. Chegaram a 8 de Novembro de 1521 a Tidore e no dia seguinte visitaram o sultão Almanzor a bordo do seu grande barangai, que muito bem os acolheu.

Como resultado, encheu-lhes as naus de cravinho a troco de bugigangas e indígenas capturados por corso, entre os quais três mulheres a pedido do sultão.

Os portugueses desde 1512 ligavam a Europa às Molucas pela rota oriental e agora, em 1521, eram as ilhas das Especiarias alcançadas desde Espanha pelo caminho ocidental, ficando assim o mundo englobado num todo.
Gómez de Espinosa ia como capitão da armada e da nau Trinidad e a Victoria era comandada por Sebastián de Elcano. Em Ternate visitaram a viúva e os filhos de Francisco Serrão e aí souberam terem os portugueses enviado António de Brito para aprisionar as naus de Magalhães, se estas chegassem às Molucas. Assim, para haver sucesso na viagem e pelo menos um chegar a Espanha, os dois capitães combinaram a Victoria seguir para Oeste, pelo mar português a dobrar o Cabo da Boa Esperança e a Trinidad retornaria por águas espanholas, como fora planeada a inicial viagem.

Com as naus bem carregadas de especiarias, a 18 de Dezembro de 1521 saiu do porto de Tidore primeiro a Victoria e como a Trinidad de repente estalou, começando logo a meter água, foi abortada a partida. A Victória aproveitou reforçar a calafetagem, mas a Trinidad teria de permanecer longo tempo a reparar e por isso, decidiu o capitão-mor Espinosa dar aval à partida de Elcano, o que ocorreu com vento favorável a 21 de Dezembro.

Espinosa, ficando com os cerca de cinquenta tripulantes em terra acolhidos com agrado por o sultão Almanzor, aproveitou para estabelecer contactos com outras ilhas vizinhas, onde em Gilolo, a troco de ajuda militar para aí controlar uma revolta, rapidamente solucionada pela precisão dos tiros de artilharia feitos por Pedro de Bruxelas, o soberano tornou-se também súbdito do Imperador Carlos V.

As especiarias eram trazidas em abundância e Almanzor disponibilizou-lhes homens para ajudar no reparo da Trinidad e na construção de um armazém para guardar a mercadoria. Concebendo-o para feitoria espanhola, Espinosa preparou-a, colocando-lhe torres de vigia e em frente, peças de artilharia provenientes da Concepción. A 14 de Fevereiro de 1522 em Tidore morria João Lopes de Carvalho.

Naquele paraíso, com uma população afectuosa passaram sem preocupações deliciosos tempos a recuperar das tormentas da já realizada meia viagem e a prepararem-se animicamente para o restante percurso, vivendo aí sem o medo de uma emboscada por parte dos locais. Como referido: .

Tentativa falhada

Após cinco meses, deixando uma pequena guarnição a tomar conta da feitoria de Tidore e ajudar militarmente os súbditos sultões das Molucas, a 16 de Abril de 1522 partia enfim a Trinidad para Leste. Estava então a nau Victória já em frente ao Cabo da Boa Esperança.

O capitão Espinosa, para a navegação da Trinidad tinha o mestre genovês Juan Bautista de Punzorol e o piloto León Pancaldo, que se tornou o cronista da viagem desta nau. Fizeram aguada durante uma semana em Halmahera, a maior ilha das Molucas também na dependência de Almanzor, e depois, rumando a Nordeste perceberam ter perdido o vento favorável para os levar ao continente americano, pois soprava agora para Oeste, sentido contrário ao que precisavam. Tal levou a mudar-se o rumo para Norte e sem o saber, estavam novamente na ilha dos Ladrões (Marianas). Avançaram ainda mais para Norte na procura de ventos favoráveis e a 43º Norte foram apanhados durante doze dias por um tufão, que destruiu todo o velame da nau.

Em Julho ainda pouco tinham avançado para Leste do Pacífico e já a fome, o frio e os enfermos apelavam ao retorno a Tidore, pois teriam o vento de feição. “Entre Setembro e Outubro morriam 25 tripulantes e entre eles estava o médico Juan de Morales”, segundo Núñez de la Fuente, de onde provem a maior parte das informações deste artigo. Sete meses a lutar contra condições adversas e já sem metade da tripulação encontravam-se a trinta léguas de Tidore, onde souberam por um barco de Gilolo que uma expedição portuguesa vinda de Ternate prendera a guarnição espanhola da feitoria de Tidore e roubara todo o cravinho.

Desesperado, sem meios para levar a nau para Tidore, Espinosa por carta pedia aos portugueses que os viessem salvar e por isso, António de Brito enviou primeiro uma embarcação a remos (caracoras) e depois a caravela São José para recolher a tripulação da Trinidad e aprisionar a sua preciosa carga, exigindo a rendição de Espinosa. Na nau a situação era de total calamidade, pois inanimada pela doença a tripulação moribunda não se conseguia levantar, metendo medo aos portugueses, quando ao pretender nela entrar se lhes deparou tal cenário, crendo-a empestada.

Confiscaram tudo o que encontraram na capitã nau, toda a documentação e registos da viagem, tal como o diário de Fernão de Magalhães ficou na posse dos portugueses. Levada para Ternate, a nau desfez-se contra as rochas no dito porto e a tripulação, que já nela não vinha, presa foi usada para construir o forte dos portugueses em Ternate, juntando-se aos três espanhóis capturados na feitoria de Tidore, pois um quarto conseguira fugir. Em finais de Fevereiro de 1523 foram transferidos para uma ilha de Banda, daí para Sunda e por fim levados para Malaca, seguindo depois para Goa, onde ficaram presos por ordem do Vice-Rei Vasco da Gama. Chegavam cinco a Lisboa a 24 de Julho de 1526, entre os quais Espinosa, onde permaneceram sete meses no cárcere, sendo libertados a pedido do Imperador Carlos V ao Rei de Portugal D. João III; D. Manuel morrera em Lisboa a 13 de Dezembro de 1521.

De Alguazil a Capitão

O espanhol Gonzalo Gómez de Espinosa (1474-1540?) partira de Sevilha na armada de Fernão de Magalhães como responsável da justiça (alguazil) e a ele se deveu o volte face da revolta dos capitães castelhanos na baía de San Julián a 2 de Abril de 1520, quando foi à nau Victoria para que o capitão Luís de Mendonza se rendesse e por este ter reagido mal o matou. Tal ocorreu ainda a armada navegava no Atlântico e durante a travessia do Pacífico, até à morte de Magalhães, foi de todos os tripulantes quem mais apoiou o capitão-general, provando-lhe sempre a sua grande dedicação. A ele muito se deve a viagem ter alcançado o objectivo, apesar da sua participação directa e já como capitão da armada ter-se ficado pelas Molucas. Resgatado aos portugueses, Carlos V numa Audiência em 1528 fez-lhe muitas mercês.

Solicitando à Casa de Contratación de las Indias o vencimento acordado no início da viagem em Sevilha de 800 maravedis por mês, os oficiais nas contas descontaram-lhe do salário os meses em que estivera preso dos portugueses.

24 Mai 2021

Em Espanha, no México e Molucas

A nau San Antonio comandada por o capitão Jerónimo Guerra chegava a 6 de Maio de 1521com 55 tripulantes ao porto das Muelas em Sevilha, após ter-se perdido da armada durante a procura do Estreito. História bem arquitectada e ensaiada ao longo da travessia do Atlântico, que acusava Magalhães de mandar matar os capitães Mendonça e Quesada, e abandonar Juan de Cartagena e o padre na praia de San Julián.

Sabendo do pacto feito ainda em Sevilha entre os capitães castelhanos, Diego de Barbosa, ao ver preso o capitão Álvaro da Mesquita, homem de confiança e primo de Fernão de Magalhães, como genro na Casa de Contratación de las Indias tentou sem êxito contestar a versão apresentada.

Por o Imperador Carlos V estar ausente de Espanha, era regente o Bispo Rodriguez da Fonseca, que sabendo o ocorrido ao seu provável filho Juan de Cartagena, logo enviou um barco para o ir buscar. Sob cárcere manteve o caído em desgraça da Mesquita e colocou a esposa de Magalhães em prisão domiciliária com o filho Rodrigo, o qual viria a falecer em Setembro de 1521 e sua mãe Dona Beatriz em Março de 1522. Tudo devido ao venenoso português Estêvão Gomes, que referia estar Magalhães a pensar atraiçoar o Rei de Espanha e trabalhar para Portugal. Fora um dos instigadores da revolta da tripulação do San Antonio a 8 de Novembro 1520, durante a travessia do Estreito, quando preso o capitão Álvaro da Mesquita, a nau maior e a mais abastecida fugia da armada e retornava, decorrendo a viagem pelo Atlântico sem problemas.

Fim do Império Azteca

Já no México, Hernán Cortês a 26 de Maio de 1521 preparava o cerco à capital dos Aztecas, Tenochtitlán, com 844 soldados, 84 cavaleiros e 50 mil tlaxcaltecas.

Os espanhóis em 1492 abordaram o continente americano nas primeiras viagens de Cristóvão Colombo, ficando pelas ilhas das Antilhas onde ergueram povoações, mas essas colónias eram atacadas e arrasadas pelo guerreiro povo maia, ao qual pertenciam os aztecas.

O povo maia habitava a Meso-América desde 2500 a.n.E. e a sua gloriosa cultura manteve-se até ao século XIII, quando constantes lutas internas dentro da Confederação marcaram o início do declínio de um dos mais civilizados povos do mundo. Florescera quatro mil anos, numa confederação de cidades independentes ligadas na religião, cultura e escrita comum. Cada cidade possuía um governo próprio, fazendo alianças quando o perigo aparecia.
Colombo ao explorar a costa das Caraíbas chegava a 28 de Outubro de 1492 à ilha de Cuba, mas só em 1511 os espanhóis a conquistavam, instalando aí o poder administrativo do Novo Mundo.

No entanto, sondagens à costa mexicana só foram feitas em 1518 por Juan de Grijalba, não descobrindo um bom local para aportar. Tivera uma resistência feroz dos índios, que mataram muitos dos seus, mas trouxe um bom carregamento de ouro e notícias das riquezas existentes. Instou o Governador de Cuba Diego Velásquez a realizar aí uma nova expedição e este escolheu Hernán Cortês, pois acompanhara-o nas missões de pacificação de São Domingos e na conquista de Cuba.

A 23 de Outubro de 1518, Cortês nomeado capitão recebeu as instruções para a perigosa missão de explorar o continente, mas a hesitação de Velásquez levou Cortês à ruptura. À revelia partia a 18 de Fevereiro de 1519 em direcção à costa do Golfo do México com onze barcos, cem marinheiros, 500 soldados, doze canhões, 18 cavalos e uma matilha. Em Abril, no lugar de Vera Cruz desembarcaram e daí marcharam pelo litoral para Norte, onde Cortês mandou fundar a Vila Rica de La Vera Cruz a 22 de Abril de 1519 e como quartel-general ergueu um forte, casas e a igreja. Daí escreveu a Carlos V a pedir carta régia para a cidade e a ruptura com o governo de Cuba, afim de estabelecer um novo poder. Para ter suporte legal criou o cabildo (associação de famílias nómadas) a 8 de Julho, a quem Cortês delegou os poderes que Velásquez lhe entregara. No dia seguinte, o novo poder fazia de Cortês o alcaide, chefe de justiça e capitão general.

A tentativa de sublevação de alguns espanhóis a pretender regressar a Cuba, levou-o a encalhar e desmontar os navios e daí, com eles empreendeu a marcha para o interior até Tenochtitlán, capital dos Aztecas (actual cidade do México).

A 8 de Novembro de 1519, o Imperador Azteca Moctezuma II, aconselhado pelos sacerdotes a não os confrontar, foi recebê-los e convidou-os como hóspedes para ficarem no centro da cidade, num enorme palácio com espaço para alojar os exércitos espanhóis e seus aliados índios. Dias depois, convidava Cortês a visitar a capital, que contava com 300 mil habitantes.

A situação para os espanhóis piorou bastante no ano de 1520 e após grandes mortandades e acontecimentos tristes, encontrava-se agora Cortês, a 26 de Maio de 1521 a cercar Tenochtitlán. Sitiada por 79 dias, a resistência terminou a 13 de Agosto, com a capital em total ruína. Assim, o Império Azteca, existente desde 1325, expirava três anos após a chegada de Cortês.

Até às Molucas

Morto Fernão de Magalhães em Mactán a 27 de Abril de 1521 e em Cebu degolados os capitães Duarte Barbosa e Juan Rodriguez Serrano a 1 de Maio, a expedição não foi abandonada apesar dos trágicos acontecimentos. Fugiam agora a caminho das Molucas, mas com uma insuficiente tripulação a rondar os 115 e a Concepción incapacitada para navegar, foi a nau desmontada, retirando-lhe o aproveitável, como os pregos, e queimada no dia seguinte. Restavam dois dos cinco barcos iniciais, comandando o piloto João Lopes de Carvalho a nau capitã Trinidad e Gómez de Espinosa a Victoria, mas em vez de seguirem directos para Sul, pois as Molucas ficavam na linha do Equador, desorientados, vaguearam em ziguezague e afim de obter mercadoria para as trocas, dedicaram-se ao corso. Daí chegarem ao Brunei a 9 de Julho, fazendo apenas breves saídas a terra para abastecer, mas vinte dias depois estavam as naus cercadas por dezenas de barcos indígenas. Na refrega, foram as armas de fogo a salvá-los, conseguindo capturar o filho do Rei de Luzon (a maior ilha das Filipinas) que por ali andava. Perderam-se alguns tripulantes, então em terra e entre outros o filho brasileiro de Lopes de Carvalho, preteridos por ouro na troca com o príncipe, querido do sultão do Brunei. A 16 de Setembro, devido aos desatinos como piloto e capitão, Carvalho foi substituído por Gómez de Espinosa, que passou a comandar a armada e cedeu a nau Victoria a Juan Sebastián de Elcano.

Partiam a 27 de Setembro para Sudeste, desfazendo o errado rumo até então tomado e daí dar à baía de Butuán, na parte Norte da ilha de Mindanao, onde encontraram um junco chinês que ia para Maluco e os levaram à ilha de Tidore, onde chegaram a 8 de Novembro de 1521, sendo bem acolhidos por o sultão Almanzor.

Meses antes aí morrera envenenado Francisco Serrão, que vivia nas Molucas em Ternate e como homem de armas desse sultão viera em guerra à inimiga Tidore. Na mesma altura, encontrava Magalhães a morte, ficando assim por realizar o encontro combinado entre ambos para as Molucas.

17 Mai 2021

V Centenário da morte de Fernão de Magalhães

Descobrira o Estreito para passar do Atlântico ao Pacífico e a 26 de Novembro de 1520, já nesse oceano com três naus iniciou a travessia, crendo ser a sua imensidão dois terços menor e daí, a fome e escorbuto a dizimar a tripulação. Em 16 de Março de 1521 avistou o Arquipélago Poente, chamando-o de São Lázaro devido à rápida convalescença dos homens, de novo com acesso a boa água doce, vegetais frescos e fruta, trocadas por bugigangas à passagem por as inúmeras ilhas. Quando aportou em Mazaguá (Massava) a 28 de Março, o intérprete Henrique no seu malaio compreendeu a fala local e estabeleceu entendimento e como prova de amizade, à delegação foi oferecido um lauto banquete. Quebravam assim o forçado jejum de Quaresma, apesar de ser Sexta-feira Santa. Ao inteirarem-se estar próximo do destino, a saúde da tripulação ressuscitou, tal como o ânimo de Fernão de Magalhães ao entender encontrar-se a Norte das Molucas.

No Domingo de Páscoa saía da nau pela primeira vez o capitão-mor para assistir à missa realizada na praia, onde se colocou o altar. Em cortejo triunfal, à frente com pompa iam os porta-bandeiras em trajes cerimoniais, seguindo o imponente Fernão de Magalhães envergando uma reluzente armadura. Realizadas as celebrações, imitando os indígenas os gestos, logo ali todos se converteram. Tamanha adesão entusiasmou-o a procurar novos fiéis e territórios para a coroa espanhola e daí chegar à ilha de Cebu, maior e de mais importância, a 7 de Abril. Para aportarem foi exigido o pagamento da taxa, mas um mercador muçulmano ali a negociar, conhecendo a fama guerreira dos europeus, desaconselhou o Rei Humabon a afrontá-los, pois sofreria terríveis consequências. Dez dias depois, numa grandiosa cerimónia converteu-se o rei e o povo. Embriagado com os sucessos e para provar a sua invencibilidade, Magalhães assumiu o comando de uma acção a obrigar o vizinho regedor de Mactán Lapulapu a pagar tributo ao Rei de Cebu, já súbdito de Carlos V. Prescindindo de ajudas, com apenas sessenta homens em três batéis atravessou o pequeno estreito e foi atacar os milhares de nativos que na praia os esperavam com dardos e lanças de bambu.

Estava maré baixa e uma barreira de pedras impossibilitou a aproximação dos botes à costa, ficando sem distância suficiente para a varrer à chegada com tiros de arcabuz e bestas. Assim desembarcaram para a água quarenta e nove soldados com pesadas armaduras e no penoso caminhar para terra logo sobre eles caiu uma multidão com pedras, setas e lanças, irada ao ver as suas cabanas incendiar. Rodeados e com dificuldades de manobra, apesar de matarem alguns com lança e à espada, muitos iam conseguindo feri-los pelos pontos vulneráveis das armaduras. Vendo a batalha perdida, ordenou o embarque e para travar a perseguição, deixou-se para trás com mais seis que o vieram socorrer e na água combateram, possibilitando aos outros escapar e recolherem aos batéis. Reconhecido o chefe inimigo, sobre ele viraram todas as atenções, o que permitiu a fuga aos já feridos companheiros, sem possibilidade de ajudar o capitão-mor. Sobre Magalhães caíram com grande ferocidade os guerreiros e após lhe acertarem com uma seta no rosto, colérico este trespassou a lança no corpo do atirador, mas ela ficou presa e sem conseguir desembainhar a espada, por ter o braço direito ferido, ficou desarmado. Derrubaram-no e caindo de bruços, sem se levantar devido ao peso das vestes e ferimentos, ficou indefeso à mercê dos nativos.

A 27 de Abril de 1521, sacrificando a própria vida para proteger e salvar os companheiros, morria Fernão de Magalhães na ilha de Mactán, Arquipélago de S. Lázaro (hoje Filipinas). Numa luta não sua e sem interesse para a importantíssima viagem que realizava, com ele morreram oito homens, sendo-lhe cortada a cabeça e colocada sobre uma lança como troféu.

Perdida a áurea de invencibilidade, o desânimo instalou-se na tripulação. Não se ponderou fazer uma expedição de retaliação e apenas se procurou conseguir, em troca de sinetas, contas de vidro e veludos, resgatar o cadáver de Fernão de Magalhães, o que até isso foi recusado.

Desastre total

Desapareceu , lamentou o fidalgo aventureiro italiano de Vicenza António Pigafetta, autor de uma das crónicas da viagem e que em Mactán saíra ferido por uma seta envenenada.

Sem capitão-mor, de volta a Cebu foram então os cargos redistribuídos, mantendo-se Serrano capitão da Concepción, agora com a chefia da armada, voltando Barbosa a capitão da Trinidad e a nau Victoria capitaneada por o português Luís Afonso de Góis.

Duarte Barbosa logo para si tomou o escravo Henrique, que segundo o testamento de Fernão de Magalhães, por sua morte ficaria livre. Mal tratado, para se libertar Henrique urdiu um plano com o Rei de Cebu, desacreditado da invencibilidade dos intrusos e também descontente com o comportamento dos europeus, que piorou com a falta de Magalhães. A ideia era usar o manjar preparado para receber o capitão-mor após a vitória e convidar os espanhóis para um banquete, a homenagear o defunto e entregar-lhes os presentes.

A 1 de Maio de 1521, em Cebu comparecendo 26 da tripulação, confiantes e sem temor saltaram para terra, seguindo a confraternizar. O convite para alguns entrarem na zona de vegetação mais densa e uma estranha movimentação observada por Gómez de Espinosa, levou-o a avisar João Lopes de Carvalho. Ambos se esgueiram para o batel e foram para a nau capitã, ficando aí alerta. Mal subiram a bordo, logo se ouviu grande gritaria em terra e confirmada a emboscada, Carvalho levantou a âncora, aproximando a nau da costa à distância do tiro das bombardas. Na praia apareceu conduzido Serrano, atado e ferido, suplicando que parasse o fogo para lhe pouparem a vida e questionado sobre os outros, referiu terem sido todos degolados, excepto Henrique, que se juntara aos ilhéus, segundo narrou Pigafetta, que da nau assistiu. Sem dar ouvidos, Carvalho mandou içar as velas e deixou o seu compadre capitão Juan Rodriguez Serrano em terra. Assim, nesse dia 1 de Maio de 1521, em Cebu morreram mais de vinte tripulantes, entre os quais Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães.

A 6 de Maio de 1521 chegava a Sevilha a nau San Antonio, que durante a travessia do Estreito a 8 de Novembro 1520 desertou da armada, trazendo preso o capitão Álvaro da Mesquita, e sob comando de Jerónimo Guerra retornou ao porto das Muelas com 55 tripulantes; já o patagão que vinha nessa nau não resistiu à viagem.

Não muito longe do Arquipélago de S. Lázaro, na China por essa altura o Imperador Zhengde falecia a 20 de Abril de 1521, o Embaixador Tomé Pires saía de Beijing e na costa ocidental do Pacífico, a 27 de Junho os mercadores portugueses enfrentavam numa batalha naval a armada imperial chinesa. Jorge Álvares, o primeiro português que em 1513 viera de barco à China, ficou ferido e onze dias depois falecia a 8 de Julho de 1521 na ilha de Lin Tin, no delta do Rio das Pérolas.

10 Mai 2021

500 anos da morte de Fernão de Magalhães

A 27 de Fevereiro de 1521 morreu Fernão de Magalhães no Arquipélago de S. Lázaro (Filipinas). Até tal ocorrer, falta relatar a etapa para a qual se realizara a viagem e nunca feita por nenhum europeu, atravessar o Pacífico.

Ainda no Atlântico, a armada estava em San Julián (49º 30’ Sul) a 31 de Março de 1520 e o Inverno fazia-se já sentir, com intenso frio e vento, prognosticando dificuldades logo no início do desconhecido da viagem.

Três capitães castelhanos, liderados por Gaspar de Quesada e Juan de Cartagena, revoltaram-se contra a autoridade de Fernão de Magalhães e na madrugada de 2 de Abril, após prenderem o capitão Álvaro da Mesquita, tomando a nau San Antonio, exigiram ao capitão-mor o retorno a Espanha. No final do dia os amotinados estavam controlados, Mesquita libertado e além da morte às mãos do oficial da justiça de Luís de Mendonza, capitão da Victoria, foram agrilhoados os outros dois capitães e presos quase cem tripulantes.

Enquanto decidia os castigos, Magalhães a 5 de Abril voltou a entregar a Mesquita o lugar de capitão da San Antonio, passou Duarte Barbosa a capitão da Victoria e Estêvão Gomes a piloto na Concepción.
Sendo os principais culpados espanhóis colocados pela Coroa na armada, o Capitão-mor estava num dilema com o julgamento. De fácil condenação por ter puxado de arma e morto um piloto, Quesada foi executado a 9 de Abril, decapitado à espada pelo seu criado, que assim salvou a própria vida. Já a Juan de Cartagena, fidalgo da corte nomeado pelo Rei, e ao padre que sempre o acompanhava, não ousou castigá-los com a condenação à morte.

Sentenciou abandoná-los ali com alguns mantimentos e entregues à vontade de Deus. Para poder prosseguir a viagem, Magalhães comutou as penas de traição aos amotinados tripulantes.

Em prospecção para Sul, a Santiago, a mais hábil e rápida nau, capitaneada por Juan Rodriguez Serrano, explorava a costa quando naufragou perto do Rio de Santa Cruz (50º Sul) a 22 de Maio. Um homem afogou-se, conseguindo os restantes chegar à costa e enviar dois emissários a pé a avisar do ocorrido. Onze dias caminharam até San Julián, enquanto aí, os tripulantes do resto da armada se divertia com dois homens gigantes que apareceram e por amistoso inicial contacto, ganha a confiança, foram capturados afim de os levar para Espanha. Devido aos grandes pés deram-lhes o nome de Patagão e daí essas terras se chamarem Patagónia.

Abandonando Cartagena e o sacerdote em San Julián, a 24 de Agosto partiam as quatro naus para Santa Cruz, onde recolheram os náufragos da afundada Santiago e o seu capitão Serrano passou a comandar a Concepción. Prosseguiam, mas um temporal obrigou a aí se resguardarem o resto do Inverno.

Três dias de navegação e a 21 de Outubro de 1520 estavam no Cabo das Onze Mil Virgens (52º 22’ S). Na imensa enseada, feita a prospecção pelas costas do estuário, encontraram um estreito com águas a correr de um lado para o outro. Nessa passagem, que ficaria conhecido como Estreito de Magalhães, entrou a armada a 25 de Outubro e após percorrer 110 léguas, a 26 de Novembro atingia o Mar do Sul.

Na travessia, a 8 de Novembro a armada dividiu-se, seguindo Serrano na Concepción e Álvaro da Mesquita na San Antonio em prospecção a um braço de água surgido a bombordo. Magalhães na Trinidad e a Victoria prosseguiram ao longo da costa e contornando-a, encontraram um rio de água doce e cheio de sardinha. Aproveitaram para abastecer e enviar um batel explorar mais além, para se saber onde abria o Mar do Sul e de um alto monte se visualizou a passagem a seguir. Regressaram ao ponto de encontro a 13 de Novembro, mas faltava a nau San Antonio, a maior e a mais abastecida, que procurada não apareceu.

Após desembocar do estreito patagónico, ainda nessa península a 22 de Novembro reabasteciam-se no Rio das Sardinhas e perante inúmeros canais, a 26 as três naus seguiram para Norte, entre as ilhas e a costa.

Atravessar o Pacífico

A 28 de Novembro de 1520, deixando de ter a bombordo o Cabo Deseado (52º1/3 Sul), em mar calmo navegaram para Norte vinte dias ao longo da costa, protegidos por as montanhas dos fortes ventos. A 18 de Dezembro, aos 46º Sul viravam a Noroeste mar dentro e nos 110 dias, “quase 20 mil km do oceano aberto, não encontraram uma única tempestade. Iludidos por essa experiência única, chamaram-lhe o Pacífico”, segundo Daniel J. Boorstin em Os Descobridores, que adita, “Se Fernão de Magalhães não tivesse sido um mestre dos ventos, não teria conseguido atravessar o Pacífico. Ao sair do estreito, não rumou directamente a noroeste para chegar às suas desejadas ilhas das especiarias; navegou primeiro para norte ao longo da costa ocidental da América do Sul. O seu objectivo devia ser apanhar aí os ventos alísios nordestais predominantes que o levariam não para as Molucas, onde constava que os Portugueses dominavam, mas sim para outras ilhas de especiarias ainda livres para serem tomadas pelos Espanhóis.”

Calculada a travessia do Pacífico em algumas semanas, julgou-se suficientes os víveres existentes para três meses, mas, com as distâncias subestimadas, revelaram-se muito parcos ao quarto mês. Os mantimentos escasseavam, a água estava podre e para comer colocavam a demolhar em água salgada durante dias o couro das vergas amolecido com serrim e pagou-se ouro por ratos, tal a falta de comida. As gengivas inchavam com o escorbuto e além do gigante patagónio, vinte tripulantes morreram de fome.

Até cruzar a linha do Equador encontraram duas pequenas ilhas desabitadas, sem abastecimento. Com vento largo e correntes favoráveis chegaram a 6 de Março de 1521 a Guan, nas ilhas Marianas, ou dos Ladrões, onde, para parar com os roubos mataram sete indígenas e abastecidos de arroz, água e fruta, partiram.

A 16 de Março de 1521 avistou-se a ilha de Samar, era o Arquipélago do Poente, a que Fernão de Magalhães deu o nome de São Lázaro, mas só no dia seguinte parou na ilha de Humunu (Homonhon). Seguindo para Sul, aportou na ilha Mazaguá (Massava) a 28 de Março e enviou Henrique como intérprete, que compreendeu a fala local pois baseada no seu malaio. Estabelecida grande amizade, foram lautamente banqueteados nessa Sexta-feira Santa e no Domingo de Páscoa, na praia montou-se um altar e realizaram as celebrações. Os nativos, repetindo os gestos, logo se quiseram converter.

Magalhães, animado ao saber estar a Norte das Molucas e perante a enorme adesão dos locais, procurou para a coroa espanhola novos territórios e fiéis. De maior importância era a ilha de Cebu, onde chegou a 7 de Abril e dez dias depois, numa grandiosa cerimónia converteu-se o Rei Humabon e todo o povo. Para mostrar o poder, numa guerra que não era sua, Magalhães vai apenas com sessenta homens à ilha de Mactán obrigar o chefe local a pagar tributo ao de Cebu. Crendo-se imbatível com a armadura e poder de fogo, imprudente, subestimou o adversário e nas águas do Pacífico lacerado e cravejado de setas morria a 27 de Abril de 1521 Fernão de Magalhães.

26 Abr 2021

Fernão de Magalhães ao serviço de Espanha

Após oito anos na Índia e em África, Fernão de Magalhães apresentou-se ao Rei D. Manuel I para lhe reconhecer os préstimos e aumentar a tença. Despeitado pelo Rei e sua corte com falsas acusações caluniosas, ainda foi despedido.

Ofendido e revoltado, deixou Portugal e entrava em Espanha a 20 de Outubro de 1517, seguindo para Sevilha onde se instalou na residência de Diego Barbosa, que desde 1503 ocupava o cargo de tenente alcaide dos Reais Alcáceres e Arsenais. O português Diogo Barbosa incompatibilizara-se com o Rei de Portugal D. João II e refugiando-se em Sevilha, casara em 1490 com uma nobre da alta sociedade local, D. Maria Caldera.

Na Casa da Contratación de las Indias eram apresentados para aprovação os projectos, mas o de Magalhães, apesar de apoiado por Barbosa, recebeu um rotundo não, devido a ser estrangeiro e traidor ao seu país. Compreendeu ter de se preparar e esperar.

Três meses após chegar a Sevilha, com 38 anos Fernão de Magalhães casou-se em Dezembro de 1517 com Beatriz, filha de Diego Barbosa e de D. Maria Caldera e irmã de Duarte Barbosa, cuja amizade com Magalhães vinha do tempo da Índia.

A Casa da Contratação aprovou no início de 1518 o projecto de Magalhães, após averiguar em Lisboa sobre a sua experiência, e crucial foi o parecer anterior favorável do Cardeal Cisneros e o investimento do Bispo de Burgos Rodriguez da Fonseca, cuja família, entre outras firmas, patrocinava a inaugural viagem, para nas seguintes poder recolher os fabulosos lucros das especiarias.

Audiência Real

A morte do Rei Fernando, o Católico, a 23 de Janeiro de 1516, levou o Cardeal Jiménez de Cisneros a assumir a regência de Espanha e quando, proveniente da Flandres Carlos, o futuro Rei, com 18 anos desembarcou nas Astúrias a 4 de Novembro de 1517, o Cardeal, apesar de muito doente, foi ao seu encontro, falecendo a 8 de Novembro.

As Cortes reuniram-se na capital Valladolid e a 7 de Fevereiro de 1518 era Rei de Espanha Carlos I, que recebeu em Audiência a 8 de Março Fernão de Magalhães, acompanhado por o escravo malaio Henrique, mostrando-o como um indígena proveniente das terras onde a viagem chegaria. Para explicar o projecto usou um planisfério, fabricado por Pedro Reinel, onde apontou a localização do estreito, 42º de latitude Sul, a dar entrada no Mar do Sul e a posição das ilhas das Especiarias, a passar no meridiano oposto ao de Tordesilhas, na zona espanhola. O acordo foi firmado a 22 de Março, sendo nomeado capitão-mor da armada.

O Bispo de Burgos arranjou cinco velhas naus, que precisaram de uma total reparação. Os preparativos prolongaram-se, sendo difícil encontrar marinheiros pois, a viagem era incerta e o soldo pequeno, não atraindo os espanhóis a embarcar numa aventura de inúmeros perigos. Eram precisos 234 tripulantes e para colmatar essa falta, apareceram homens de muitas nacionalidades, dos quais 36 portugueses. Para o bem-estar na viagem, além do abastecimento normal, Magalhães aprovisionou barris de Jerez.

Embarcaram contrariados os castelhanos, capitães, contadores, responsáveis da justiça e a gente principal, por terem a dar-lhes ordens um português como capitão-general e pessoa de maus fígados.

A armada era composta por a nau capitã Trinidad, de 110 toneladas, onde seguia Magalhães e como piloto da sua confiança Estêvão Gomes, sendo acompanhado do cunhado Duarte Barbosa e do primo Álvaro de Mesquita. A San António, a maior das naus era comandada por Juan de Cartagena, que substituíra Rui Faleiro, então demente, sendo familiar do Bispo de Burgos tornou-se também feitor-mor da armada; a Concepción, de 90 toneladas, tinha como capitão Gaspar de Quesada; a Victoria, de 85 toneladas, capitaneada por Luís de Mendonza e a Santiago, a nau mais pequena de 75 toneladas, entregue a Juan Rodriguez Serrano. Estabelecidas regras como navegar em conserva, afim de não se perderem uns dos outros, deveriam seguir a nau Trinidad, que durante o dia hasteava a bandeira de capitã e à noite levava acesa um tocha.

Singrar ao vento

Do porto de mar de San Lúcar de Barrameda partia Fernão de Magalhães a 20 de Setembro de 1519 com a armada sob a protecção de Santa Maria da Vitória.

Seis dias navegaram as cinco naus e ao amanhecer de 26 de Setembro atingiram o porto de Santa Cruz na ilha de Tenerife, Canárias, a 28º Norte do Equador. Após troca de alguns marinheiros, levantaram de Tenerife a 3 de Outubro.

Em conserva singraram em bom mar dias, passando à esquerda de Cabo Verde (15º N) levando o vento pela popa cruzaram as costas da Guiné até que em frente a Serra Leoa, 7º Norte, caiu uma calmaria. Retidos, num clima tropical com torrenciais chuvas, dias passaram, senão semanas, até chegarem os ventos de Leste-nordeste e desfraldando as velas, após atravessar o Equador rumaram as naus firmes para Sudoeste. Então o fidalgo capitão Juan de Cartagena, altivo e desrespeitoso questionou o capitão-mor sobre a escolha do errado rumo.

Insubordinação contra a sua autoridade, Magalhães não admitiu e logo o destituiu, colocando-o preso na nau Victoria à guarda de Luís de Mendonça. Nomeou António de Coca para capitão do San António, substituído por Álvaro de Mesquita após aportarem a 13 de Dezembro na baía de Guanabara, Rio de Janeiro. João Lopes de Carvalho aí passara na feitoria cinco anos e vinha buscar o filho mestiço, agora com 7 anos. Duas semanas em descanso e abastecidos, no dia seguinte ao Natal continuaram para Sul, atingindo o Cabo de Santa Maria, na foz do Rio de La Plata, a 10 de Janeiro de 1520. Ficaram um mês a percorrer em vão por onde Solis julgara estar a passagem para o Mar do Sul.

Partindo a 2 de Fevereiro, alcançaram a baía de San Julián (49º 30’ Sul, a meio da Patagónia) a 31 de Março. No dia seguinte foi celebrado o Domingo de Páscoa com uma missa e na madrugada de 2 de Abril duas naus amotinaram-se. Magalhães fora avisado pelo sogro em Sevilha para ter cuidado com os capitães castelhanos, pois traziam um acordo entre eles de se revoltarem se fossem despeitados pelo português Capitão-mor.

Seguia agora Cartagena preso na Concepción, cujo capitão da nau Gaspar de Quesada o libertou e num batel com trinta homens armados foram à San Antonio e apanhando todos a dormir, prenderam o capitão Mesquita. Ficou Quesada como capitão da San Antonio e Cartagena passou a comandar a Concepción. Os rebeldes controlando três das naus, enviaram à capitã Trinidad um batel com a missiva a apelar à desistência do capitão-general de continuar a viagem e retornarem a Espanha. Prendendo os quinze homens do batel, Magalhães mandou nele embarcar o responsável da justiça (alguazil) Gómez de Espinosa a levar à Victoria uma carta para Luís de Mendonza se render. Este ao reagir mal foi morto, sendo logo a tripulação desarmada por os homens de Barbosa, que se apoderaram da nau.

Fernão de Magalhães, agora em superioridade, bloqueou a entrada da baía às duas naus amotinadas. Surpreendidos, sem poder fugir, os revoltosos renderam-se ainda a 2 de Abril de 1520.

19 Abr 2021

Fernão de Magalhães em Goa e Malaca

A nomeação do estratega e génio militar Afonso de Albuquerque para Governador da Índia permitiu assentar, ente 1509 e 1515, supremacia política, militar e comercial portuguesa no Índico, mais à base das armas e não como o seu antecessor, por diálogo e tratados de cooperação comercial. As reprimendas que o Vice-Rei D. Francisco de Almeida lhe dera quando ainda estava sob o seu comando, levaram-no como Governador a temperar o carácter e agressividade.

Devido à escassez de portugueses, surgiu-lhe a ideia de criar um sistema em rede formando um império por portos com feitorias e fortalezas espalhados estrategicamente pelo Oceano Índico e tornar vassalos os soberanos, dividindo com eles os lucros. Para minimizar a pouca população portuguesa necessária para ocupar esses lugares, Albuquerque fomentou o casamento dos seus homens com nativas locais. Já o sistema de Cartaz provinha de 1502 e o mare clausum, que, “segundo parece, já vigorava antes da hegemonia portuguesa naquele oceano, impedia o trânsito de qualquer embarcação não cristã que não fosse portadora de um salvo-conduto, passado e autenticado pelas autoridades portuguesas”, refere Joaquim Candeias Silva.

Escapando de Malaca, Fernão de Magalhães e Francisco Serrão chegaram a Cochim, já o Governador Afonso de Albuquerque tomara posse a 29 de Outubro de 1509 e preparava-se para ir conquistar Goa aos muçulmanos de Bijapur. Ambos participaram nessa expedição e o êxito inicial em Fevereiro de 1510 só foi total a 25 de Novembro, dia de Santa Catarina, padroeira dos marinheiros. Goa era a primeira conquista territorial na Índia feita pelos portugueses e logo se tornou a capital do Estado Português do Oriente.

Após Goa tomada, seguiram os dois amigos na armada de Albuquerque com seiscentos portugueses para Malaca, onde, resgatados os companheiros aprisionados desde 1509 e recebido o pagamento das compensações, dizimaram os navios ali ancorados, conquistando o porto de Malaca a 10 de Agosto de 1511. Afonso de Albuquerque aí mandou erguer o forte ‘A Famosa’, deixando nele trezentos portugueses.

Em Malaca, Magalhães comprou o escravo Henrique (o malaio Panglima Awang, que traduzido significa chefe dos moços, segundo Luís Filipe Thomaz), com quem passou a viajar, seguindo ambos com Albuquerque para a Índia, pretendendo regressar ao reino.

AS MALUCO

Em 1511, o Oceano Pacífico abria-se assim aos portugueses pelo Estreito de Malaca e se a atracção material no comércio seria ir à China, mais importante era realizar uma “expedição destinada ao descobrimento das Molucas, ou ilhas da especiaria. António de Abreu, que a comandava [partiu em Dezembro de 1511 de Malaca com Francisco Serrão], esteve primeiro num porto de Java, depois em Amboina, e visitou em seguida as ilhas de Banda, donde regressou a Malaca. O seu companheiro Francisco Serrão foi mandado prosseguir na mesma empresa; naufragou numa das ilhas do arquipélago de Banda; tendo salvo, porém, as armas, conseguiu intimidar os naturais, e fazendo-se à vela numa embarcação indígena, chegou finalmente a Ternati e a Tidor, das Molucas propriamente ditas, onde pouco depois os Portugueses se estabeleceram”, segundo António Sérgio. Já C. R. Boxer refere, a exploração que os portugueses “souberam fazer da inimizade endémica entre os sultões de Ternate e de Tidore lhes permitiu alcançar uma posição dominante no comércio de cravo-da-índia das Molucas.”

Maluco, como na altura os portugueses chamavam às Molucas, era a fonte do cravo e da noz-moscada e em Ternate, uma das suas cinco ilhas principais, Francisco Serrão fez residência e tornou-se feitor. Daí enviava missivas ao amigo Magalhães dizendo ser esta uma viagem de muitos proveitos. Adiantava, pelos seus cálculos, estarem estas ilhas das Especiarias na parte de Castela. António Sérgio complementa, “Das viagens contínuas entre Malaca e as Molucas, resultou o conhecimento de numerosas ilhas. Foram assim conhecidas Bornéu, Celebes, (Gomes de Sequeira, 1518), e Papuásia (D. Jorge de Meneses, 1527). Em 1518 mandou o Governador da Índia a D. João da Silveira que visitasse a costa de Coromandel, seguindo para o Norte, chegou às bocas do Rio Ganges; de aí desceu pela contracosta, tocando em vários dos seus portos.” Era o reconhecimento do Mar de Bengala, no Oceano Índico.

Com lugar comprado num junco de mercadores chineses em Pegu (hoje em Myanmar, na costa do Mar de Bengala), o feitor Jorge Álvares saiu de Malaca em Junho de 1513 para os mares da China até Lin Tin, ilha no delta do Rio das Pérolas. Do outro lado do Oceano Pacífico, no já baptizado continente Americano, a imensidão de água foi visualizada a 25 de Setembro desse ano por Nuñez de Balboa ao subir ao cume de uma montanha em terras do actual Panamá. Dias depois molhava os pés nessas águas que baptizou de Mar do Sul. Faltava encontrar a passagem marítima a ligá-lo ao Atlântico.

INVEJAS E CALÚNIAS

Fernão de Magalhães recebia mil réis por mês como escudeiro de D. Manuel antes de embarcar para o Oriente, onde entre 1505 e 1512 se revelara um valente soldado e marinheiro exemplar, e “regressado à metrópole, conquistou um lugar na corte, andando no livro dos moradores da casa de El-Rei [D. Manuel] com bons foros”, segundo António Sérgio.

Pouco depois de chegar a Portugal, alistou-se na armada do IV Duque de Bragança D. Jaime, que pretendia no Norte de África conquistar Azamor e custeava a expedição para se penitenciar de em 1512, num acesso de ciúmes, ter apunhalado a esposa Dona Leonor de Gusmão. Para ser representada à partida, Gil Vicente escreveu a tragicomédia Exortação da Guerra e a batalha ocorreu a 3 de Setembro de 1513, saindo vitoriosos os portugueses que aí construíram uma fortaleza.

Em Marrocos, numa das constantes e diárias escaramuças, Magalhães foi ferido numa perna, ficando coxo para o resto da vida. Nomeado quadrilheiro-mor, caiu em desgraça devido à distribuição em Março de 1514 de despojos, sendo acusado de se apropriar de parte do gado e o vender aos mouros. Regressou a Portugal e apresentou-se em 1515 a D. Manuel, acompanhado por o escravo malaio Henrique, pedindo um aumento da pensão por os serviços prestados. Na audiência, o rei, rodeado por delatores a espalhar falsidades sobre o íntegro e leal soldado marinheiro, tratou-o mal, sem consideração alguma e despediu-o do serviço de Portugal.

Sem reconhecimento e despeitado por D. Manuel e sua corte, Fernão de Magalhães a 20 de Outubro de 1517 chegou a Castela zangado e magoado com o seu país. Após anos ao serviço na Índia Portuguesa, vinha oferecer a sua experiência e conhecimento a Espanha com o projecto de navegar pelo Oeste até às ilhas das Especiarias. Era regente de Castela o Cardeal Jiménez de Cisneros, cuja idade e sabedoria o colocaram à frente dos assuntos de Espanha.

Fernão de Magalhães resumia a sua vida até então com duas frases: desde miúdo andei perto de corvos com plumagem de pomba e sempre tive ao meu lado a honra e a miséria, mais que a desonra e o luxo.

29 Mar 2021