O Sacrifício dos Deuses

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

O mito de origem popular “Pangu Separa o Céu” (盘古开天Pángǔ kāi tiān) remonta ao Período dos Três Reinos (三国, 220-280) e ao seu Registo do Calendário Três Cinco (《三五历纪》)2, de acordo com os dados da enciclopédia online Baike.Baidu, onde surge exposta a teoria cosmológica Hun Tian (“浑天说”), que significa «teoria do Globo Celestial» ou, numa tradução menos literal, «teoria do ovo cósmico»”3 :

No Registo do Calendário Três Cinco pode ler-se “O Céu e a Terra estavam ligados como um ovo, tendo originado Pangu. Na teoria Hun Tian, a esfera celeste envolve a terra, e o centro onde o Céu e a Terra se encontram é conhecido como «o centro geográfico». Foi em Luoyang que Pangu nasceu, nessa altura o Céu e a Terra ainda não se tinham separado, o universo era uma mistura caótica. Pangu dormiu neste caos por 18 mil anos. Certo dia, de repente acordou. À volta, reinava um escuro de breu. Ele ergueu um grande machado com o qual lutou contra a escuridão. Esta foi-se dissipando com um estrondo imenso. O que era leve começou aos poucos a subir, transformando-se no Céu; o que era pesado foi descendo progressivamente e tornou-se a Terra.

Depois de o Céu e a Terra se terem separado, o titã temeu que eles se voltassem a unir, para que tal jamais fosse possível, firmou a cabeça contra o Céu, deixando os pés bem assentes na Terra. E foi assim que o Céu subiu para o alto, afastando-se todos os dias três metros e pouco da Terra. Também ele acompanhou durante muitos anos o crescimento do Céu, cada vez mais alto e distante. Quando o Céu e a Terra já estavam totalmente formados, Pangu tombou exausto.

Após a sua queda, o corpo dele sofreu as maiores alterações: A respiração transformou-se no vento e nas nuvens das quatro estações; a voz em estrondosos trovões; os olhos no sol e na lua, os quatros os quatro pontos cardeais da Terra, leste, oeste, sul e norte; os músculos e a pele na vasta extensão da Terra; o sangue em pequenos e grandes rios sempre a fluir e o suor, na chuva e orvalho que nutrem os dez mil seres.

据《三五历纪》记载,“天地浑沌如鸡子,盘古生其中” 。浑天说中,球壳状的天包着地,天与地的中心就是“地中”,即洛阳 ,盘古生于此。当时天和地还没有分开,宇宙 一片。盘古在这个混沌的宇宙中睡了一万八千年 。有一天,盘古突然醒了。他见周围一片漆黑,他就抡起大斧头,朝眼前的黑暗猛劈过去了。只听一声巨响,一片黑暗的东西渐渐分散开了。轻清的东西缓缓上升,变成了天;重浊的东西慢慢下降,变成了地 。

天和地分开以后,盘古怕它们还会合在一起,便头顶着天,脚蹬着地。天每天升高一丈,盘古也随着天越长越高。这样不知过多少年,天和地逐渐成形了,盘古也累得倒下来了。

盘古倒下后,他的身体发生了极大的变化。他呼出的气息,变成了四季的风和云;他发出的声音,化作了隆隆的雷声;他的双眼变成了太阳和月亮;他的四肢,变成了大地上的东、西、南、北四极;他的肌肤,变成了辽阔的大地;他的血液,变成了奔流不息的江河;他的汗,变成了滋润万物的雨露。

 João Marcelo Martins em A Gramática Universal do Mito (2023, 142) chama a atenção para os vários sentidos etimológicos do nome de Pangu (盘古),que, numa leitura possível se aproxima da fonética da palavra «cabaça», Páohù (匏瓠), tendo esta na cultura chinesa o sentido simbólico de reprodução de vida, há ainda outras possibilidades interpretativas em torno do nome deste grande titã, como a de uma «antiguidade espiralada» (Ibidem), por causa de um dos sinogramas ser 古 (gǔ), que significa «antigo», enquanto o outro 盘 (pán), pode ser traduzido por «espiralar».

A verdade é que este mito chinês do ovo cósmico se encontra em várias mitologias, como por exemplo na órfica da Grécia antiga, nas quais se enfatiza a imagem de um grande ovo do qual brotaram, quais pintos, todos os seres do universo, incluindo as próprias bases do mesmo – o Céu e a Terra. Panorama idêntico nos apresenta a mito de génese chinês. Neste mito de criação, é-nos facultada uma imagem que apela a uma mistura caótica, na qual está imerso o universo numa escuridão total. Depois, assiste-se ao sacrifício do titã, que consegue separar e constituir as duas forças básicas, representantes do princípio masculino Yang (阳), o Céu e do princípio feminino Yin (阴), a terra.

Toda a criação é um ato de sacrifício do portentoso, que começa nos milhares de anos em que a força divina separa os elementos e culmina com a exaustão do titã. É do corpo de Pangu e, por transformação, que surgem todos os seres vivos, celestiais e telúricos. Há uma energia imanente, viva e animada que mantém um universo ligado, como num só corpo.

Os generosos sacrifícios não se ficam por aqui. Nem na China, nem na Grécia antiga, tornam-se muito claros quando se pensa nas descrições encontradas para a criação da humanidade pela Deusa Nϋwa (女娲), que numas versão do mito “Nϋwa cria os seres humanos” (女娲造人Nǚ wā zào rén) depois de criar a humanidade com o auxílio da terra e de encher de gente adormece profundamente, tal era o estado de cansaço e fica-se sem saber se não terá acordado no paraíso para não mais regressar ao mundo. A Deusa, após ter criado os animais, continuava a sentir-se sozinha, pelo que “no sétimo dia, chegou a um lago. Pegou num pouco de barro e misturou-o com água. Ao ver a sua imagem refletida fez um pedaço de barro parecido com ela” (Wang, Alves, 2009, 16). Para que se mexesse, bastou colocar o boneco e a todos os outros que se haviam de seguir, em contacto com a terra. A energia desta, animava-os, sendo por si só indispensável na passagem dos bonecos para a criação da humanidade.

Tal como sucedeu no mundo grego antigo, o cosmos surge do vazio e do Caos primordial, depois, por geração espontânea, conta-se na teogonia de Hesíodo, manifesta-se a Mãe- Terra Gaia, Eros, o Deus do Amor, e a partir desta todos os elementos deificados: o Céu ou Urano, o Mar e as Montanhas, etc. Gaia, com a ajuda de Urano, gera os restantes filhos, alguns deles criaturas colossais e deformadas como os ciclopes, com cinquenta cabeças e cem braços, além dos titãs, dos gigantes, bem como dos restantes deuses, aos quais Cronos, o deus do tempo chamava titãs, que significava na sua ideia “criaturas arrogantes e ambiciosas”.

Os Deuses gregos tinham todos os defeitos e virtudes humanas eram maus, ciumentos, vingativos, mas também bondosos e dadivosos, dependendo o modo como se comportavam dos seus humores. Na Grécia antiga não era a humanidade forjada à semelhança dos deuses, mas, pelo contrário, eram os deuses concebidos à imagem e semelhança da humanidade.

Pobres daquelas forças divinas que por amor à humanidade tentaram ludibriar os seus pares, como sucedeu com o titã Prometeu que foi ao Olimpo roubar o fogo dos deuses para dotar a humanidade duma arma poderosa. O episódio sucedeu na sequência de Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu, cujo nome significa “o que pensa depois”, ter dotado os animais, quando os criou com as melhores virtudes que retirou do alforge preparado pelos deuses mais novos: garras, presas, asas, tentáculos, bicos, ferrões, velocidade e tudo o resto que os animais possuem de bom.

Prometeu, cujo nome significa “pensador previdente”, ao concluir nada ficar para si na terra que distinguisse a humanidade, foi ao Olimpo, ludibriar e extorquir o fogo dos deuses, dotando assim os seres humanos de inteligência para que se pudessem defender de animais com capacidades físicas muito superiores às deles. Para tal, teve de apanhar distraída Héstia, a deusa virgem do lar, mas o mesmo não sucedeu a Zeus, o líder supremo dos deuses, que não se deixou enganar. Puniu o que considerou ser a suma arrogância do titã ladrão com um suplício terrível. Agrilhoou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e mandou que Hefesto, deus da forja e de outras artes, fabricasse na sua fornalha os grilhões para o acorrentar. O criador da humanidade foi preso pelo Poder e pela Força a um penhasco, de braços e pernas esticadas, agarrado pelos pulsos e tornozelos, sendo visitado diariamente por uma águia voraz, que lhe despedaçava o diafragma e lhe comia o fígado.

Ésquilo (525- 456 a.C), o grande dramaturgo grego relata o suplício, inspirado pela Teogonia de Hesíodo, na tragédia Prometeu Agrilhoado, deixando o herói desabafar no final da peça que relata a sua aventura da dádiva do fogo à Humanidade:

(…) Eis a rajada

que, para sobre mim trazer terror,

foi mandada por Zeus.

Oh Majestade! Oh minha mãe!

Éter divino! ―

Que, pelo mundo além,

fazes rolar maravilhoso hino :

a Luz ― supremo bem,

a iluminar o trágico destino

de toda a gente !

Vê como é grande a minha desventura,

A dor que me tortura ―

Injustamente!…

(Ésquilo, 1946, 115)

 O sacrifício de Prometeu terá eco no mundo cristão, no qual o filho de Deus, Jesus Cristo, também se sacrifica por amor à Humanidade. Morre na cruz para salvar os homens, que invariavelmente se portam mal. Mas há uma grande diferença na maneira de encarar o cosmos de chineses e cristãos, com a Grécia antiga a estabelecer a ponte entre ambas as mundividências. Na perspetiva cristã, Deus criou o mundo a partir do nada (Creatio ex nihilo) . É uma criação transcendente, pessoal e com assinatura de artista. O fruto da criação talvez não tenha sido o melhor, mas ficará sempre por explicar como entrou o mal no mundo, mesmo com Santo Agostinho a defender a teoria do livre-arbítrio humano.

 Aqui fica o relato da criação ex nihilo no livro do Génesis do Antigo Testamento (Gn 1):

No princípio Deus criou o Céu e a Terra. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus disse: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou «dia» e às trevas chamou «noite». Houve uma tarde e uma manhã, foi o primeiro dia.

Depois seguiu-se a criação do firmamento, ao qual Deus chamou céu no segundo dia. No terceiro dia, criou a terra, o mar e as plantas. No quarto dia foram criados o sol, a lua e as estrelas. No quinto dia, os peixes, os pássaros e todos os seres vivos. No sexto dia, os animais foram divididos em espécies e foi ainda criado o homem. No sétimo dia descansou.

Relativamente à criação da humanidade, Deus numa das versões cria-as diretamente e à sua imagem e semelhança (Gn 1, 27-31), na outra cria primeiro o homem e depois a mulher partir da costela deste (Gn 2,18-23). Após o que, é percorrido um longo caminho até se chegar ao Novo Testamento e ao sacrifício de Jesus Cristo, morto na cruz por amor à humanidade.

Há uma grande diferença, do ponto de vista filosófico, entre as cosmologias imanentistas chinesa e grega e a transcendente cristã. As primeiras obedecem ao princípio da transformação de elementos que estiveram desde sempre imersos no caos primordial e, portanto, apresentam uma imagem cosmológica interrelacionada, em que os elementos ou os dez mil seres possuem afinidades de raiz que lhes permitem comunicar e transmutar-se sempre que necessário. Os deuses gregos, por exemplo, assumem as formas que desejarem, tal como as divindades e imortais chineses. Já no Ocidente cristão a ausência de um ovo cósmico ou de um caos primordial dificulta e impede a transmutação. Os seres estão todos separados e numa posição exterior em relação à divindade, já que se é feito à imagem de deus, não se é o próprio divino e para se alcançar esse estatuto supõe-se uma união mística com o mesmo. O profano exterior, cindido, distante terá de percorrer um longo caminho, que talvez implique o martírio e o sacrifício já anteriormente vivido pelo filho de Deus.

De qualquer modo, mesmo no âmbito de filosofias imanentistas, guiadas pelo princípio da transformação, o sacrifício também está sempre presente, quando aliado ao amor à humanidade, como no caso de Prometeu ou, em parte de Nϋwa; ou sem amor, mas por essência natural, quando a aliança é feita com o tempo, se for considerado o exemplo de Pangu. Os deuses são sacrificados, porém não estão sozinhos. O sacrifício é universal, porque as criaturas naturais são também martirizadas por amor ou pelo tempo nas três cosmogonias apresentadas, imolam-se às divindades, umas mais distantes, outras tão próximas que só de dentro conseguem ser intuídas.

Referências

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Ésquilo. 1946. Prometeu Agrilhoado. Tradução de Eduardo Scarlatti. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, Lda

“浑天说” (teoria Hun Tian) In Baidu. Baike.

https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink, acedido a 25 de fevereiro de 2026.

“盘古开天” (Pangu separa o Céu). In Baidu. Baike.

https://baike.baidu.com/item/%E7%9B%98%E5%8F%A4%E5%BC%80%E5%A4%A9/74007,2008年6月7日, acedido a 24 de fevereiro de 2026.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros

Martins, João Cancelo. 2023. A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, Universidade de Macau.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Notas:

I Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

De acordo com o estudioso João Martins em A grmática Universal do Mito. Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem (2023, 143, nota 100) O Calendário Três Cinco diz respeito aos registos históricos já perdidos das Três Divindades Soberanas e dos Cinco Deuses.

iii A teoria Hun Tian, fundada por Zhang Heng (张衡), um astrónomo da Dinastia Han, é uma teoria astronómica entre as teses geocêntrica e heliocêntrica, na qual se defende que o universo é infinito, o movimento dos corpos celestes é regular, a luz da lua é o reflexo da luz solar e os eclipses lunares são causados pela Terra bloqueando a luz solar.

Para comprovar a sua Teoria Hun Tian, Zhang Heng construiu a primeira “esfera armilar movida a água”, inaugurando uma era de observação astronómica mais precisa. Utilizou então dados de observação astronómica mais rigorosos para corroborar a sua teoria na explicação de diversos fenómenos celestes, influenciando a astronomia por mais de 1500 anos. (cf https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink)

3 Mar 2026

Quando Foi Perigoso Falar de Peónias Vermelhas

Shen Deqian (1673-1769), a quem o imperador Qianlong (r. 1736-95) chamou o «ilustre velho erudito de Jiangnan», foi um notável e influente alto funcionário, poeta, ensaísta e mestre do pensamento com um percurso marcado por sucessivas surpresas, como o facto invulgar de só ter passado no dificíl exame jinshi em 1739, depois de dezassete tentativas e quando tinha já sessenta e sete anos. Mas logo a seguir assumiria importantes funções como vice-ministro no Ministério dos Ritos ou Grande tutor do Príncipe real. Função que há muito exercia para particulares.

Do reconhecimento que Qianlong lhe demonstrou fez parte não só o «favor imperial» que lhe permitia passear nos jardins imperiais como o raro privilégio de ter um templo erigido em seu nome para o qual o imperador escreveu com o seu pincel a frase: «Venerável decano do mundo da poesia».

Muitos decretos e memoriais foram escritos com a autoridade que possuía o seu pincel, como o que estabelece que em 1699, «o imperador Kangxi declarou que a partir de agora, Aurora de Primavera sobre o aterro de Su (Shi) será o primeiro nome na lista das Dez Vistas do Lago do Oeste.» Na altura da sua morte o próprio imperador lhe compõe uma elegia.

Ninguém negaria o persistente e valoroso percurso exemplar do mestre. Mas subitamente em 1778, já ele tinha morrido há oito anos, os títulos honoríficos são-lhe retirados, o templo comemorativo abolido, o nome póstumo revogado, a pedra tumular derrubada, até o seu corpo exumado e esquartejado, entre outras punições. E tudo por causa da referência a uma flor.

Durante um período de inquisições literárias, foi descoberta numa obra de Xu Shukui (1703-1763) Ode da peónia púrpura, Yongzi mudan shi, uma subtil referência à perenidade da anterior dinastia. Que Shen Deqian, seu biógrafo e conterrâneo de Jiangsu, onde se notava uma irrefreável resistência ao poder Manchu, elogiara e citara nos versos: «Nada senão a cor vermelha poderá ser a verdadeira,/ Mesmo que variedades estrangeiras se auto-proclamem «raínha das flores» (huawang, um nome popular para peónia). Foram os dois severamente condenados, mesmo se post-mortem.

Wang Jiu (1745-98), um pintor que Wang Yu no fim do séc.XVIII incluiu no seu Manual de pintura da Herdade oriental, Dongzhuang hualun, como um dos Quatro pequenos Wang, recordou versos de Shen Deqian no ano anterior à sua condenação, num pequeno álbum (tinta sobre papel, 13,8 x 20,5 cm, à venda na Christie’s). Numa das páginas apenas um salgueiro, ondulante emblema da saudade, e sob ele um pescador numa embarcação evocando a vontade de navegar livre sobre o perigo das águas. Que às vezes vinha só numa alusão a peónias vermelhas, e até podia ter um castigo brutal mas se fora hábil, como escreveu Shen Deqian a propósito da poesia de Meng Haoran, «a linguagem será simples, mas o sabor permanecerá.»

2 Mar 2026

Futebol: um jogo de origem chinesa

Por Miguel Lenoir

Há cerca de 2500 anos, os chineses criaram um desporto em que uma bola é jogada com os pés e se quer dentro de uma baliza. Chamaram-lhe CUJU.

Cuju (tsu-dju, em português), pontapear uma bola, foi a forma mais antiga de um desporto a que hoje se chama futebol. A sua origem remonta ao final do Período Primavera e Outono (770-481 a.E.C), início dos Reinos Combatentes, quando foram estabelecidas regras e a bola do jogo se tornou algo semelhante às que hoje rolam pelos estádios. Inicialmente, essa bola era recheada com penas ou palha de grãos, sendo mais rija do que as bolas modernas.

O cuju foi mencionado pela primeira vez nos textos históricos Anais dos Reinos Combatentes (Zhan Guo Ce) e Registos da História (Shi Ji), de Sima Qian, nos quais o desporto foi claramente referido como uma forma de treino físico para tropas militares. “Cu” significa literalmente chutar e “ju” significa bola. De acordo com outro texto antigo, Taiping Qing Hua, a bola na dinastia Han passou a ser recheada de penas e envolta em couro. Na dinastia Tang, seria substituída por uma bola cheia de ar com uma camada dupla de pele.

A Origem do Jogo

O estabelecimento do cuju, com regras e objectivos, ocorreu em Linzi, a capital do poderoso reino de Qi, um dos estados dominantes durante esse período, uma cidade extremamente rica e populosa, talvez pela mão de um homem famoso dessa época, Guan Zhong, primeiro-ministro do reino de Qi. Essa prosperidade económica permitia que os seus habitantes, para além das classes militares, tivessem tempo e recursos para se dedicarem a actividades de lazer e entretenimento.

Contudo, acredita-se que a forma mais competitiva do cuju foi desenvolvida como um método de treino militar para os soldados e cavaleiros do exército do reino de Qi. O objectivo era melhorar a condição física, a agilidade e o trabalho de equipa dos guerreiros. Esta prática remonta a cerca de 685 a.E.C., quando o primeiro-ministro Guan Zhong, ao serviço do Duque Huan de Qi, a terá implementado para fortalecer as forças armadas. Portanto, Linzi ofereceu o cenário perfeito: uma cidade rica com uma cultura de lazer florescente e um estado poderoso com necessidade de treinar um exército forte. Esta combinação única fez com que o cuju, que já existia como uns simples pontapés numa bola, evoluísse para um desporto com regras e objectivos claros.

Devido ao seu valor militar, o cuju era muito apreciado na dinastia Han. Além de ser usado como um meio formal de treino físico, os jogos de cuju foram padronizados e regras estabelecidas para ajudar a aumentar a resistência e a disciplina militar.

Um livro de regras e preceitos

Uma discussão aprofundada sobre o jogo cuju foi escrita pela primeira vez por Li You, (李尤), um poeta e funcionário da corte da Dinastia Han Oriental (25-220), que descreve o jogo de cuju com um detalhe notável. Trata-se do “Ju Cheng Ming” (鞠城铭) , que pode ser traduzido como “Inscrição no Muro do Campo de Jogo” ou “Ode ao Campo de Futebol”. No livro, lê-se o seguinte poema:

Esta obra é considerada a primeira descrição detalhada das regras e da filosofia de um jogo desportivo na história mundial. Ali se detalham o local e as regras do jogo — o campo era um rectângulo (fāng qiáng -muro quadrado), cercado por muros, o que lhe valia o nome de Ju Cheng (Cidade do Jogo), construído especialmente para partidas de cuju, com traves em forma de crescente em cada extremidade e com seis jogadores de cada lado. A bola deveria redonda (yuán jū). Havia duas equipas com seis jogadores cada (èr liù xiāng dāng), num total de doze jogadores, que se opunham e procuravam marcar golos. O jogo era dirigido por um árbitro principal e um assistente (zhǎng), que existiam para garantir a equidade (lì píng) e o cumprimento de regras fixas e imutáveis (qí lì yǒu cháng) que todos deveriam seguir.

Mas o aspecto mais notável do texto de Li You é a sua ênfase na moralidade e na justiça, tanto dentro como fora de campo. O autor não fornece apenas detalhes sobre o local e as regras do jogo: Li You menciona especialmente os requisitos morais para o árbitro e os jogadores: “Como árbitro, não deve haver favoritismo ou parcialidade (bù yǐ qīn shū, bù yǒu ā sī)”. Este é um dos primeiros códigos de conduta para árbitros na história do desporto. “Como jogador, é importante jogar de forma justa, sem reclamações ou acusações. Os jogadores devem manter uma atitude correcta e calma, aceitando as decisões sem se queixarem dos erros (duān xīn píng yì, mò yuàn qí fēi).”

Finalmente, Li You vai mais longe e termina com uma poderosa mensagem política e filosófica. Se um simples jogo exige regras justas, árbitros imparciais e jogadores disciplinados, quanto mais a arte de governar um país (kuàng hū zhí jī)? O cuju tornava-se, assim, uma metáfora para a harmonia social e a boa governação, reflectindo a visão confucionista de que a ordem e a rectidão em pequenas coisas são o fundamento para a ordem no mundo.

Enquanto os textos do Zhan Guo Ce e do Shi Ji nos mostram a popularidade do jogo, a inscrição de Li You revela a sua sofisticação e organização durante a dinastia Han, consolidando a importância do cuju na cultura chinesa antiga.

Ainda durante a dinastia Han, a popularidade do cuju espalhou-se do exército para as cortes reais e as classes altas. Diz-se que o imperador Wu gostava muito deste desporto. De acordo com o Livro de Han, o imperador frequentemente organizava lutas de galos e partidas de cuju no palácio imperial, a que assistia com grande prazer.

O cuju melhorou muito durante as dinastias Tang e Song. A bola cheia de ar era muito mais leve e saltitante, o que significava usar um conjunto diferente de técnicas e estratégias nas partidas. Os Tang tornaram o jogo mais divertido e ele espalhou-se para o Japão naquela época.

Os ministros fundadores da dinastia Song eram em grande parte oficiais militares. A sua preferência por desporto como forma de entretenimento ajudou a impulsionar o avanço técnico, o nível de diversão e a popularidade do cuju. O jogo floresceu durante a dinastia Song como resultado do desenvolvimento social e económico da nação, e a sua popularidade estendeu-se a todas as classes da sociedade.

Como marcar golos

Durante a Dinastia Han, o período em que o jogo foi padronizado, marcar um golo era um desafio de pontaria e precisão completamente diferente do futebol moderno. De acordo com as descrições, o campo tinha nas suas extremidades estruturas de golo muito particulares: seis postes em forma de meia-lua, com uma pequena rede era amarrada, a cerca de 10 a 20 metros do chão.

A abertura por onde a bola tinha de passar era surpreendentemente pequena, com apenas 30 a 40 centímetros de largura. O objectivo, portanto, era chutar a bola para que ela passasse por aquela pequena abertura e ficasse presa na rede elevada. Mais do que potência, este tipo de golo exigia uma enorme precisão e técnica apurada. A forma de lua crescente dos postes e a bola redonda eram vistas como uma representação do equilíbrio cósmico entre o yin e o yang.

Com o passar dos séculos, o jogo evoluiu. Na dinastia Tang (618-907), surgiram mudanças significativas: a bola passou a ser oca e cheia de ar, com um invólucro de duas camadas, o que permitia um melhor controlo e mais dinamismo no jogo. As balizas também foram modificadas. Ao lado do modelo com postes em meia-lua, surgiram dois novos tipos: balizas com rede, ou seja, postes com uma rede esticada entre eles, semelhantes às balizas do futebol moderno; ou um único poste colocado ao centro do campo, que parecia ser o alvo a acertar.

Na Dinastia Song marcar golos torna-se opcional. O jogo dividiu-se em duas modalidades principais :

— o Zhuqiu (Jogo Competitivo): Esta era a variante que mais se assemelhava ao futebol de equipas. Realizava-se em ocasiões especiais, como banquetes imperiais, com duas equipas de 12 a 16 jogadores de cada lado. O objectivo principal continuava a ser marcar golos na baliza adversária. Quando um golo era marcado, era celebrado com redobrar de tambores e bandeirinhas.

— o Baida (Jogo de Habilidades): Esta tornou-se a forma dominante de jogar cuju na dinastia Song e representou uma ruptura total com a ideia de golo. Sem Balizas, os golos tornaram-se obsoletos. O campo de jogo era simplesmente delimitado por uma corda. Os jogadores, em número variável (de 2 a 10), revezavam-se para manter a bola no ar, dentro dos limites da corda, usando qualquer parte do corpo excepto as mãos. O vencedor não era quem marcava mais golos, mas sim o jogador com menos faltas ou com a melhor performance técnica. Perdia pontos quem, por exemplo, não passasse a bola com a distância ou precisão suficiente para alcançar outro jogador, chutasse a bola para fora dos limites da corda ou chutasse a bola demasiado baixa. Portanto, numa partida de Baida, a “marcação” não existia no sentido de colocar a bola numa baliza, mas sim na acumulação de pontos positivos através de um controlo de bola hábil e esteticamente agradável. Ganhava quem demonstrasse maior domínio técnico e cometesse menos erros.

A história do cuju mostra-nos como um jogo pode evoluir de uma simples atividade de treino militar para um desporto complexo com regras variadas, onde o acto de “marcar” podia ser um pontapé preciso a uma rede a 10 metros de altura ou uma demonstração de equilíbrio e técnica individual.

Aliás, ao longo dos séculos, foram escritos vários manuais sobre o cuju, alguns dos quais sobreviveram até aos dias de hoje. Estes manuais oferecem uma visão fascinante sobre a vasta gama de pontapés que podiam ser utilizados, bem como sobre os vários movimentos e posturas corporais envolvidos. Havia pelo menos 16 tipos básicos de «pontapé», embora o significado de alguns ainda não tenha sido decifrado:

1 – O lian (com a parte superior do pé)

2 – O xi (com o joelho)

3 – O guai (com o tornozelo)

4 – O da (com a ponta do pé)

5 – O bazi (com o pé aberto)

6 – O banlou

7 – O deng (com o calcanhar)

8 – O chao

9 – O nie/nian (com o peito do pé)

10 – O jian (com o ombro)

11 – O zhuang (com a ponta do sapato)

12 – O xiudai

13 – O zuwo/zugan

14 – O pai (com o peito)

15 – Zati (pontapés mistos)

16 – O kong (bloqueador)

Havia também regras e regulamentos relativos ao movimento do corpo e às posturas permitidas. Por exemplo, um manual de cuju dizia:

“O corpo erecto como um pincel,

como se carregasse uma pedra nas mãos,

o coração livre e à vontade,

os pés numa postura móvel.

O corpo erecto, e não curvado,

as mãos pendentes, e não voando,

os pés baixos, e não altos,

os pontapés lentos, não apressados.”

Os primeiros profissionais

Havia muitos bons jogadores de cuju na dinastia Song e até associações formadas para o desporto, como o famoso Clube Qi Yun, também conhecido como Clube Yuan, o clube de futebol mais antigo da China e o primeiro do mundo. Esses clubes tinham como objectivo promover o cuju, oferecendo aulas de treino de habilidades e organizando competições para equipas masculinas e femininas. As partidas eram tão espectaculares e calorosamente recebidas quanto as que assistimos hoje. Os seus membros eram como os jogadores de hoje, também podiam ser transferidos para outro clube, mas não era fácil, pois tinham de preencher formulários com os seus dados básicos, tais como nome, local de origem, nome do seu professor e carreira anterior.

E tinham de passar em exames de aptidão. Por exemplo, era-lhes pedido que chutassem a bola para cima pelo menos 100 vezes com cada pé sem que ela caísse no chão. A obra “Os Esplendores da Capital Oriental” (Dongjing Meng Hua Lu) descreve a vida em Kaifeng por volta de 1120 e menciona a existência de clubes profissionais de cuju, com patrocinadores, treinadores e capitães.

Os clubes de cuju viam-se como uma força para a harmonia social, reunindo jovens de várias origens e adoptando um estilo de vida comunitário, com os membros a partilharem roupas, dinheiro e comida. Não há evidências de que as mulheres fossem autorizadas a participar. As sociedades também produziam manuais de instruções que não só explicavam as técnicas do desporto, mas também o promoviam como benéfico para a saúde física e mental. A sua crença de que o jogo ajudava a construir músculos, reduzir o peso e retardar o envelhecimento não pareceria fora de lugar num manual de futebol actual.

A importância do cuju, durante a dinastia Song, também levou alguns jogadores a tornarem-se famosos pelas suas habilidades com a bola. Meng Xian e Lu Bao são dois jogadores que alcançaram proeminência nacional e cujos nomes foram registados para a posteridade. Um campeonato nacional conhecido como Shan Yue Zheng Sai também era realizado, embora não se saiba como era organizado ou quem podia participar.

A crescente popularidade do cuju também ficou evidente com a contratação de instrutores pelos clubes para ensinar o jogo e com o surgimento de jogadores profissionais. Assim como outros artistas profissionais, tais como músicos, actores e dançarinos, os profissionais do cuju viajavam pelo país fazendo exibições das suas habilidades e ensinando-as a outras pessoas. O nível de organização do desporto era tal que os jogadores só podiam se qualificar como profissionais após passar por exames, nos quais tinham que demonstrar o domínio de uma ampla variedade de chutos sem cometer erros.

O treino era intensivo e árduo, ocorrendo ao longo de muitos anos. Essa não era a única maneira pela qual os jogadores podiam ganhar a vida com as suas habilidades. Os membros da nobreza também mantinham os seus próprios jogadores profissionais. O cuju era associado ao prazer e à felicidade. O jogador de cuju «não aspira à fama e ao lucro, mas deleita-se em passear à vontade», segundo um escritor do período Song. Outro afirma que o desporto «liberta a tensão, eleva o ânimo e ajuda a esquecer as dores e os problemas do mundo agitado. Dissolve o qi endurecido e faz com que o coração virtuoso se torne gentil e belo».

O cuju parece ter sido considerado uma espécie de panaceia para todos os tipos de males, com um impacto profundamente positivo a nível físico, mental e até espiritual. O jogo também parece ter tido um aspecto moral e ético. A maioria das sociedades de cuju promovia as principais virtudes confucionistas de benevolência, decoro, cortesia, sabedoria e sinceridade.

No entanto, um manual de cuju aponta para os perigos de «conversas, jogos de azar, brigas e lutas, arrogância, grosseria, falsidade, mau humor, litigiosidade, devassidão, álcool e sexo», o que sugere que esses podem ter sido problemas associados ao jogo. Há também exemplos de cuju associado a entretenimento e bebida, e a literatura revela que havia muitos jogos informais, que talvez fossem mais parecidos com uma partida de futebol, entre amigos no parque.

O cuju continuou a ser popular na China durante a dinastia Ming. Funcionários públicos e membros da realeza ficaram obcecados pelo jogo, a tal ponto que o imperador Hongwu ordenou que fosse proibido, pois era uma distração do trabalho e do treino militar. Aqueles que fossem apanhados a jogar podia-lhes ser aplicada uma pesada pena: ter um pé cortado.

No entanto, certos estabelecimentos continuaram a ter jogadoras femininas que realizavam proezas de cuju para atrair clientes. O governo Qing aprendeu com o erro do governo anterior, decidiu proibir o cuju de uma vez por todas, e esse foi o fim do futebol, outrora muito popular na China.

Reconhecimento internacional

Na Europa existem desde o século XVIII relatos de um jogo de rua em que duas equipas andavam atrás de uma bola pontapeando-a e que, sem regras claras, acabava invariavelmente em confronto com todos os elementos aos murros e pontapés. No final, todos recolhiam a casa esmurrados e a sangrar, mas satisfeitos e bem-dispostos pois tinham libertado as energias condensadas de um dia de trabalhos. Terá sido esta a origem do moderno jogo de futebol, desporto como hoje o conhecemos, que em meados do século XIX, em Inglaterra, passou a ser mais disciplinado e com regras, tendo-se formado clubes.

Quando nos anos 70 do século XX, a Inglaterra se proclamou como o país onde se iniciara o desporto-rei, a FIFA achou necessário criar um grupo de investigadores para recolher informações arqueológicas e apreciar os registos históricos. Assim, foram encontrados muitos locais com possibilidade para serem declarados como a pátria do futebol. Só entre 9 e 11 de Julho de 2004, foi feita uma votação entre os 36 estudiosos investigadores que, por unanimidade, declararam Linzi, como o local da origem do Futebol.

Na comemoração dos 100 anos da Federation International de Football Association (FIFA), em 2004, o presidente Joseph S. Blatter reconheceu, finalmente, ter sido na China, mais propriamente em Linzi, pertencente a Zibo, actual província de Shandong, que se iniciou o jogo com bola usando os pés. 完

26 Fev 2026

Confúcio, Matteo Ricci e a questão dos Ritos

O jesuíta Matteo Ricci (1552-1610) numa primeira abordagem interpretou como supersticiosos os ritos chineses, mas para os compreender melhor estudou a doutrina de Confúcio, na qual se baseava a sociedade chinesa e o seu sistema político com os princípios de Ordem, Paz e Harmonia.

O nome de Confúcio foi dado por Ricci a Kong Fu Zi (孔夫子, 551-479 a.n.E.), mestre Kong (Kongzi), que nascera no Período Primavera-Outono (770-476 a.n.E.), havia dois mil anos. Viveu durante a Dinastia Zhou do Leste, quando centenas de pequenos reinos até então federados começaram a ser conquistados e grande instabilidade surgia pelas contínuas guerras entre os reinos cada vez maiores e mais fortes. Sem governantes capacitados para esse novo espaço de gestão estratégica, apareceram muitos ilustrados mestres, entre eles Kongzi, que ofereciam os seus conhecimentos, colocando-os ao serviço do rei para a governação.

Kongzi reorganizou os conhecimentos antigos e sendo um grande educador transmitiu-os aos discípulos. Incutiu o respeito pelos Antepassados, como modo de vida propunha o aperfeiçoar da ética pela rectidão, benevolência e virtudes. Como filosofia, o caminho da sabedoria prática pela harmonia na vida social, na educação e na política, atribuindo grande importância à Paz, Harmonia e Ordem como princípio do bem governar e organizar o Estado. Após a sua morte em 479 a.n.E., os ensinamentos, apesar de no tempo terem passado à margem, tiveram seguidores confucionistas, administradores exímios e poderosos. Em 213 a.n.E. boa parte dos escritos foram destruídos pelo fogo, mas reproduzidos de memória perpetuaram-se na sociedade chinesa a partir da dinastia Han (206 a.n.E-220).

Kongzi advogava o conceito de Harmonia: um Universo ordenado, em que o ser humano deve procurar manter as relações harmoniosas com a Natureza, consigo mesmo e com o próximo. Regulou as relações humanas, para as quais encontrou cinco fundamentais: soberano e súbditos, pais e filhos, marido e mulher, irmão mais velho e os mais novos e entre amigos. “Observados os deveres entre uns e outros há harmonia; de contrário, reina a desarmonia. A relação mais importante é a do pai e filho e a virtude central que a governa é a piedade filial (孝, xiao). Sobre esta virtude e as que a acompanham – obediência, respeito e serviço – construiu-se a estrutura da sociedade chinesa.” Entre aspas está o que creio ser do Padre Benjamim Videira Pires, mas poderá ter outro autor e por esta falta me penitencio e agradeço a quem corrija e nos desfaça tal dúvida. O artigo a partir daqui está estruturado sobre esse texto, de onde provêm as citações, pois creio merecer o assunto importância suficiente para ser publicado.

O kow-tow nos ritos

“A piedade filial não deve cessar com a morte dos pais; o filho deve continuar a servi-los como se vivessem, e este dever estende-se a todos os antepassados da família. Confúcio ao estender a piedade filial aos mortos fomentou essa virtude em vida”, levando as acções a serem realizadas como mostra de respeito aos antepassados e desejo de alcançar as suas perfeições com a ajuda do exemplo, imitando-os; – a melhor maneira de honrar a família.

Em memória dos Antepassados realizavam-se rituais nas casas onde se encontravam as tabuletas em madeira inscritas com os nomes dos defuntos antepassados masculinos, pai, avô e bisavô, pois chegando a trisavô passava a tabuleta a ter direito a constar no Templo de Família, até entrar ao fim de algumas gerações no dos Ancestrais. Às tabuletas dirigiam-se expressões de reverência e respeito, num ambiente com flores, velas, incenso, pois a intenção é “arranjar um certo lugar ou termo para onde possam elevar as suas mentes; e para o qual, como para uma pintura, possam dirigir as costumadas honras, como se eles estivessem presentes.” Nesta cerimónia fazia-se “o kau-táu (bater cabeça), em que uma pessoa se ajoelha e inclina profundamente até tocar com a testa no solo. É o costume chinês do respeito: nove prostrações ao trono nas recepções imperiais; prostrações nos tribunais perante os magistrados e dos filhos perante os pais e sogros. Assim, nada há de religioso nas prostrações nos funerais diante do caixão e não se podia afirmar que se tratava de adoração dos mortos.”

Tudo isto levou Ricci a modificar a primitiva opinião: “o que ao europeu parecia superstição e adoração, para o chinês era apenas uma expressão simbólica da piedade filial. O facto de usarem as mesmas cerimónias para os vivos levava a crer que não se tratava de actos religiosos quando aplicados aos mortos. Tal era o caso da queima do incenso (…). As pessoas educadas costumavam receber os hóspedes com incenso, que era parte do cerimonial da etiqueta, que dava graça e harmonia às relações sociais, sendo um sinal de respeito. Não havia, pois, razão para lhe dar um significado religioso quando era usado nos funerais, perante as tabuletas ou nas salas de Confúcio.”

Após longas discussões com os amigos chineses, Ricci concluiu nada haver de idólatra nos ritos ancestrais nem talvez de supersticioso e “submeteu estas opiniões a Valignano, que as discutiu com os seus consultores. A conclusão foi ser permitido participar nos ritos solenes em honra dos antepassados da família com a condição de não se queimar o papel-dinheiro, mas não era permitido tomar parte nas cerimónias solenes em honra de Confúcio com o sacrifício duma vítima, porque, segundo dizia Furtado, “cheiram fortemente a superstição>” (Cit. por Dunne, Generation of Giants).” Em dias prescritos pelo ritual, com aparência de sacrifícios religiosos, oferecia-se aos antepassados um animal (imolado no local), vinho, seda…, seguindo um banquete familiar. Segundo os jesuítas, “Devia-se repudiar a ideia de os espíritos tomarem alimento da comida oferecida; e de não se fazer orações ou pedidos aos mortos”.

Outras cerimónias os jesuítas permitiam e até observavam. “Por ocasião da morte de alguém, os amigos, que vinham dar os pêsames, envergavam, como luto, uma veste de seda branca; ao entrar no quarto, faziam quatro vezes o kau-t’au diante do defunto; os filhos do defunto repetiam então o mesmo gesto; o visitante, aproximando-se mais do caixão, voltava a fazer a mesma cerimónia.

Os ritos em honra de Confúcio eram apenas praticados pelos letrados e não diferiam no essencial das cerimónias ancestrais,” sendo após a “passagem nos exames feitas prostrações perante a tabuleta de Confúcio numa sala dedicada ao mesmo. Iguais ritos, prostrações e queima de incenso eram observados pelos oficiais e letrados nos dias da lua nova e lua cheia.”

O confucionismo baseia-se nos ensinamentos de Kong Fuzi, reformador que a partir dos ritos dos Zhou reorganizou a ordem da sociedade e estruturou na China o pensamento humano pelos conceitos de virtude, justiça, tolerância e generosidade. Para a sabedoria prática, a importância da Astronomia e na preparação do Calendário, pois qualquer incorrecção perturba o balanço entre o Céu e a Terra. 完

25 Fev 2026

Os Sonhos de Xu Xianqing Com a Mãe e Com Confúcio

Confúcio (c.551-c.479 a. C.), segundo o que está escrito nos Analectos (Lunyu), terá exclamado um dia: «Que mal tenho andado! Há quanto tempo não sonho com o duque de Zhou», o que seria apenas inicialmente entendido como um lamento sobre a perda de ideais mas mais tarde tomado à letra, dado o modo como o seu nome capturou a imaginação das gerações seguintes.

Ji Dan, o duque de Zhou, ou Zhou gong Dan, o filósofo que foi regente no início da dinastia Zhou (r.1042-1035 a. C.), seria já então uma idealizada figura de um mestre de pensamento que teria contribuído na elaboração de conceitos basilares como o Mandato Celeste para justificar o poder imperial ou participado nos mais importantes textos que exprimem a singular perspectiva nacional sobre o Mundo e a correcta conduta humana nele, como o I Ching, o Clássico da poesia (Shijing) ou o livro dos Ritos de Zhou (Zhouli).

O seu nome também surge como autoria inicial simbólica, para lhe conferir autoridade, ligado a um manual de interpretação de sonhos Zhougong Jiemeng, que seria no início um auxiliar para a tomada de decisões dos dirigentes mas cuja versão actual datará já da dinastia Tang (618-907) nele se agregando adivinhação, filosofia e cultura popular.

Aí se encontram métodos de oneiromancia como fanmeng que faz a interpretação inversa de um sonho; se este tem um conteúdo angustiante obterá resultados favoráveis, ou chaizi, o jogo de palavras que destas deriva sentidos ocultos. Se foram muitas vezes descartados como superstição, em certos períodos os sonhos tomaram especial relevo.

Durante a dinastia Ming, um alto funcionário da corte chamado Xu Xianqing (1537-1602) quis deixar para a posteridade a sua autobiografia de um modo preciso e concreto, solicitando para tal o auxílio de dois pintores conhecidos pelo seu apurado método realista de retratar edifícios, vestuários e situações e da qual constam dois sonhos.

Yu Shi e Wu Yue fizeram com esse álbum de 1588 (vinte seis folhas duplas, tinta e cor sobre seda, 62 x 58,5 cm, no Museu do Palácio em Pequim) um elucidativo documento sobre a vida e os lugares por onde se movimentava um alto funcionário naquele tempo. Cada situação mostrada é acompanhada de poemas, comentários ou reflexões escritas pelo próprio biografado, que diz com exactidão a idade que tinha quando ela ocorreu. Na primeira, tinha então doze anos, morreu a sua mãe e vê-se o menino despertado ao lado do pai adormecido, sonhando com a mãe de pé junto à porta. Na décima quinta situação o título diz: «Sonhando com Confúcio e convalescendo», está o funcionário com 45 anos deitado na cama de onde sai, como um balão, outra situação onde está representado Confúcio num carro. Sonhos volitivos que falam do amor filial e da lealdade aos Ming, o objectivo afinal expresso no título Huanji, «Traços de um servidor público».

23 Fev 2026

O Que Wei Zhike Viu Numa Viagem Saindo de Nanquim

Zhu Yuanzhang (1328-1398) estabeleceria a sua capital numa florescente metrópole da região do delta do rio Yangzi, uma cidade que ele conhecera pelo nome Jiqing mas que, no ano de 1356 mudara para Yingtan, «em resposta ao Céu», ainda antes de ser o imperador Hongwu (r.1368-98) o fundador da dinastia Ming (1363-1644).

Nessa cidade, hoje conhecida como Nanjing, a «capital do Sul» na Província de Jiangsu, mandou erigir uma monumental muralha com cerca de quarenta e oito quilómetros que impressionava os candidatos que vinham de toda a área de Jiangnan, «ao Sul do Grande rio Changjiang», uma região onde hoje estão as três Províncias de Anhui, Jiangsu e Xangai, para o exame trienal jinshi que os habilitava a exercer funções na burocracia imperial.

Ao longo da dinastia Ming a fama literária e artística da cidade foi-se expandindo dada a presença de tantos homens instruídos na milenária cultura que habitualmente na Primavera se dirigiam ao Jiangnan Gongyuan, «o Palácio dos exames» e depois vinham saber os resultados, o anúncio fangbang, a «publicação do rol».

Inspirados por reminiscências do seu augusto passado, evocando figuras que lá viveram como o calígrafo Wang Xizhi ou o celebrado pintor Gu Kaizhi, a vitalidade da cidade e a sua atractividade de que também fazia parte a efervescente vida urbana ao longo do rio Qinhuai, não esmoreceu. Nos últimos anos, quando o fulgor da dinastia iluminava mais, um letrado dedicado à pintura de modo profissional fez num rolo uma descrição de um caminho que ia em sentido inverso. Contrariando a sensação de sufoco na buliçosa metrópole e para ser observada de modo individual e lento. Num rolo horizontal com Paisagens das quatro estações e nos estilos de antigos mestres (tinta e cor sobre papel, 32,1 x 1183,6 cm, no Metmuseum) o pintor Wei Zhike (activo c. 1600 – depois de 1635) a representação inicia-se com reconhecíveis monumentos da cidade. Como a torre liulita, o «pagode de cerâmica vidrada», que de dia reflectia a luz solar e de noite luzia à claridade de cerca de cento e quarenta luminárias.

Wei Zhike, realizando a ideia que está na expressão woyou, enunciada pela primeira vez por Zong Bing (375-443) de «viajar reclinado», mostra a seguir uma porta da muralha, atraindo o olhar do observador para sair, estendendo o rolo, numa viagem por caminhos desconhecidos e de constante adaptação a mudanças climáticas e de estilo de representação.

Mas onde é reconhecível uma ondulante linha com quem o espectador vai, ajustando-se a rios com e sem ondas, montanhas que surpreendentemente se derramam e nuvens delineadas ou figuradas apenas como espaço em branco. E também evocando a forma como o engenho humano gentilmente se foi espelhando no carácter adaptativo da água, com diversos formatos de pontes para a ultrapassar ou noras que aproveitam a sua força.

16 Fev 2026

Cavalo de Fogo

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Ao escutar a Palestra Sobre o Ano do Cavalo da Professora Wang Suoying no Centro Científico e Cultural de Macau relativa à astrologia chinesa e, especificamente, o Cavalo de Fogo, que vai inaugurar um novo período zodiacal a partir de 17 de fevereiro de 2026, pude recordar algumas das características essenciais do equídeo, transmitidas pela sabedoria popular chinesa.

Assim o cavalo começa por se conjugar mitologicamente com o dragão em Cavalo-Dragão (龙马Lóngmǎ). Esta é conjugação ideal, tanto ao nível mental como estético. Do ponto de vista espiritual, o par permite o acesso à organização do mundo pautado pela sabedoria intuitiva, já que foi no dorso deste animal que o primeiro imperador lendário chinês Fuxi (伏羲) descobriu os oito trigramas, fundamentais para a compreensão do mundo. Recordemo-los: o Céu Criativo (乾 Qián), a Terra Recetiva, (坤 Kūn), a Água abissal (坎Kǎn), o Fogo aderente(离 Lí), o Trovão ou Raio despertante (震 Zhèn), O Vento gentil e penetrante (巽 Xùn) , o Lago Alegre (兑Duì) e a Montanha tranquila (艮 Gě) . Estes oito trigramas, com as qualidades já mencionadas, deram origem aos 64 hexagramas que compõem o Clássico das Mutações, como já tive oportunidade de referir, por exemplo, no texto A Mulher na China (2007) ou no trabalho poético Visitações (2022). Pela composição dos trigramas em hexagramas se expõe um mundo que poeticamente se desvenda, consoante as capacidades intuitivas e imaginativas de cada um, com preceitos abertos às experiências existenciais passadas, mas também presentes e futuras. Cada qual poderá encontrar aquilo procura ao mesmo tempo que se cria e recria com o auxílio dos elementos reais do Céu, da Terra, do Fogo, da Água e todos os outros que considerar úteis ao seu caminho existencial, também traçado com a ajuda da mente e, sobretudo, da imaginação.

Ainda na sua ligação com o dragão na expressão proverbial “o Espírito do Cavalo-Dragão” (龙马精神Lóngmǎ jīngshén) representa a concretização de um ideal estético repleto de energia, beleza e poder de transformação, tal como são estes animais para os chineses.

Parte-se, no entanto, de um chão concreto para depois voar. A terra da sabedoria popular diz-nos que o cavalo é um animal nobre e leal, que conhece o caminho (老马识途Lǎomǎ-shítú), já que a experiência é nele a mãe da sabedoria, mas não é uma vivência qualquer: é enérgica, boa amiga e leal. Esta lealdade e energia não podia ser mais nobre, até porque desde a antiguidade chinesa os equídeos eram os fiéis companheiros dos nobres. Por isso, também o cavalo (马mǎ) surge associado na linguagem à nobreza (侯hòu) e, por um jogo de homofonias, ao macaco (猴hóu), daí que se numa pintura o macaco aparecer em cima do cavalo, significa a possibilidade de se receber um título honorífico, ou seja, de se elevar a condição.

 Um cavalo pode desenvolver muita energia, sendo os mais aptos aqueles que percorrem mil milhas (千里马Qiānlǐmǎ), sejam equídeos ou humanos, porque também há gente a transbordar de capacidade e energia, à semelhança destes animais, estando em posição mais favorável para cultivar o entusiasmo e o dinamismo os que tiveram a bênção de nascer sob os bons auspícios do Cavalo. Este ano de Fogo.

 A sugestão é a de regressar ao Clássico das Mutações (易经Yì jīng), para se procurar perceber o que tem para oferecer o hexagrama do Fogo, que é aderente e brilhante, composto por dois trigramas de Fogo (离下、离上 Lí Xià, Li Shàng), portanto a representação do elemento em estado puro, possibilitando deste modo a compreensão das características fundamentais do Cavalo de Fogo que entra a meio de fevereiro. Lê-se na interpretação de Richard Wilhelm, traduzido para inglês por Cary F. Baynes (1989, 118-121), que o fogo é dependente, está sempre condicionado a algo ou outrem, por exemplo à combustão da Madeira, só assim consegue ser tão vivo e brilhante, e quanto mais arde, mais se eleva da terra rumo ao céu. No juízo das linhas é-se informado que caso adira com perseverança tal como uma vaca, terá o sucesso garantido (離,利貞,亨。畜牝牛,吉。2) (Zhang, 1995,131). No que respeita a sua imagem, surge a iluminar e duplamente, já que quando brilha o faz para si e para os outros (《象》明兩作,離;大人以繼明,照於四方) (Zhang, 1995,135)., tal como o sol ao longo do dia brilha e aquece a terra. Sendo um elemento condicionado, como afinal todos os outros, num mundo em interdependência, tudo o que não for arder pela positiva e para o bem deve ser abandonado, tal como os antigos chefes chineses dos finais das dinastias que deixavam de ser modelares e se tornavam caprichosos e destrutivos.

 A energia positiva do Cavalo de Fogo é como um sol benfazejo que a todos inspira.

 Caso se pergunte a o maior de todos os poetas chineses, Li Bai (701-762), aqui na tradução de António Graça de Abreu, em Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首 quais as virtudes a que associa ele ao cavalo, lemos em resposta, por exemplo, em “O teu cavalo baio 君马黄” que é à amizade e à experiência de vida, com os seus altos e baixos, mas sempre merecedora de ser vivida na companhia de bons amigos:

君马黄,我马白。

马色虽不同,人心本无隔。

共作游治盘,双行洛阳陌。

长剑既照曜,高冠何赤3赫。

各有千金裘,俱为五侯客。

猛虎落陷阱,壮士时屈厄。

相知在急难,独好亦何益。

O teu cavalo é baio

o meu cavalo é branco.

Diferente a cor dos cavalos,

semelhante o coração dos amigos.

Pelas ruas de Luoyang

conhecemos dias felizes,

espada à cintura, chapéus altos,

valiosos casacões de pele.

convidados de cinco marqueses.

Mesmo os tigres caem na armadilha.

Hoje fortes e valentes,

Amanhã sujeitos às desventuras da sorte.

Se tal um dia acontecer,

A ajuda de um amigo.

(Abreu, 2021, 174)

 Num salto até aos tempos contemporâneos, vai-se encontrar no poeta Yao Feng (1958-), em Palavras Cansadas da Gramática (2014) a mesma leitura tradicional e uma identificação interessante com o cavalo, em “Cavalo Velho”, preservando a ideia da amizade que se estende ao longo dos séculos chineses, mas numa apresentação ao avesso da condição livre do animal, que surge, tal como sucede mutatis mutandis a tantas pessoas, triste e aprisionado, contranatura, a uma carroça, ou seja, a uma condição social, traduzida na prestação de serviços a outrem:

  Habituado ao cocheiro, aos transeuntes, aos carros

  Esquecido de como é galopar

  Pele suja e flácida, sombria como o fim do dia

  Os cascos ferrados tornam o trilho na planura

  Ainda mais longo

  Sentado numa ruidosa taberna da vila

  Vi um cavalo vergado ao peso da carroça

  Encosta acima e gostaria

  De lhe dizer na sua língua:

  Entre cá velho amigo, pago-te um copo!

  (Yao, 2014, 122)

É por certo contra a natureza essencial dos equídeos deixarem-se aprisionar, eles que amam correr em liberdades pelas pradarias e estepes, pelas montanhas e vales, podem ser domesticados por amizade, sofrendo e participando no lugar da ordem social que os humanos lhes destinaram. E à semelhança das pessoas, também eles envelhecem perdendo muito do vigor e energia com que nasceram, o que se reflete na pele que larga o brilho e que descai flacidamente. Mas enquanto estão na força da vida, e se têm a sorte de se manterem em liberdade, não há maior dinamismo do que o deles.

Para concluir, o meu tributo poético ao Ano do Cavalo que galopa em nossa direção a transbordar de força, entusiasmo e alegria:

Cavalo de Fogo

Belo, veloz, sonhador,

Corre contra a dor,

Crescendo em vento ou brisa

na esteira das flores,

Elas dançando à passagem,

das patas carregadas de terra e calor.

Belo, veloz, sonhador,

carrega o macaco,

E no dorso o dragão,

chamam-lhe o Espírito

do Cavalo-Dragão.

龙马精神

Horse-Dragon Spirit,

Em ano que traz o brilho

e a luz como arautos,

soando forte e bem alto.

Bibliografia

Abreu, António Graça de. 2021 (Org. e Trad.). Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim.

Alves, Ana Cristina. 2022. Visitações. Fafe: Labirinto.

________________. 2007. A Mulher na China. Lisboa: Editorial Tágide.

Wang Suoying. 2026. Palestra sobre o Ano do Cavalo. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau. Palestra proferida a 8 de fevereiro.

Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.

Yao Feng. 2014. Palavras Cansadas da Gramática. Lisboa: Gradiva.

張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Texto em chinês tradicional.

Há um sinograma arcaico para vermelho que alia vermelho a cor, e que está no texto original, mas que não consegui encontrar, pelo que fica o registo em separado: 赤+色, assim como a sugestão de aproveitar a ocasião para consultar o poema no original.

12 Fev 2026

Poemas de Lu Xun

Poucos conhecidos, marginais à obra do grande escritor da primeira metade do século XX, mas essenciais para nos proporcionarem uma proximidade ao homem e aos interstícios da sua obra. A Via do Meio inicia hoje a apresentação dos poemas de Lu Xun, nunca antes vertidos em língua portuguesa, com tradução e comentários de Sara F. Costa.

Longe dos Irmãos

別諸弟
Bié zhū dì

(庚子二月) 1
(Gēngzǐ èr yuè)

謀生2 無奈日奔馳,
Móu shēng wú nài rì bēn chí,

有弟偏教各別離。
Yǒu dì piān jiào gè bié lí.

最是令人淒絕3處,
Zuì shì lìng rén qī jué chù,

孤燈4 長夜雨來時。
Gū dēng cháng yè yǔ lái shí.

Longe dos Irmãos

(Segundo mês do ano Gengzi)

Para ganhar a vida, corro sem escolha,
tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles.
O que mais faz sofrer até à desolação
é a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária.

Contextualização e comentário

O poema 〈別諸弟〉 (Longe dos Irmãos), datado do segundo mês do ano Gengzi (庚子二月, 1900), integra a produção poética juvenil de Lu Xun, escrita em chinês clássico (文言文) e formalmente inscrita na tradição canónica do jueju (绝句) de cinco caracteres. Embora esta vertente da sua obra seja menos conhecida do que a produção ensaística e ficcional em baihua (白话), o poema revela já um conjunto de tensões éticas, afetivas e existenciais que atravessarão toda a sua escrita posterior.

À data da composição, Lu Xun tinha dezanove anos e encontrava-se numa fase marcada por dificuldades económicas e por sucessivas separações familiares. Após a morte do pai, ocorrida três anos antes, recaíram sobre si responsabilidades materiais e morais em relação aos irmãos mais novos, de acordo com a ética familiar tradicional. O afastamento para Nanquim, onde frequentou primeiro a Escola Naval e depois a Escola de Minas e Caminhos-de-Ferro, não resultou de uma vocação idealizada, mas de uma necessidade concreta: assegurar a subsistência da família através do acesso ao ensino gratuito e às bolsas de estudo. A inscrição temporal do poema no calendário tradicional chinês ancora esta experiência individual num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, reforçando o conflito entre dever, sobrevivência e afastamento.

O poema apresenta a forma concisa e altamente condensada do jueju, recorrendo a procedimentos sintáticos característicos do verso regulado e a um vocabulário de forte densidade semântica. O primeiro verso — “Para ganhar a vida, corro sem escolha” — introduz o núcleo ético do texto. O sintagma móu shēng (謀生), “ganhar a vida”, surge aqui despojado de qualquer valor vocacional ou edificante, remetendo para a dimensão estritamente material da existência. A opção tradutória pelo verbo correr traduz o valor dinâmico de bēnchí (奔馳), intensificando a ideia de urgência, desgaste e movimento contínuo. A vida não se apresenta como algo que se sustenta passivamente, mas como algo que se persegue num ritmo forçado, sem margem de escolha nem possibilidade de pausa.

No segundo verso — “tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles” — a separação é formulada como divergência de trajetórias. A manutenção do plural preserva a referência concreta ao núcleo familiar, enquanto a imagem dos “caminhos distintos” desloca o poema para uma reflexão mais ampla sobre a assimetria dos destinos na entrada na vida adulta. A existência dos irmãos não atenua a separação; pelo contrário, torna-a mais consciente e mais pesada. O afastamento não é apresentado como rutura súbita, mas como consequência inevitável do próprio movimento da vida, inscrito no tempo e nas escolhas impostas pelas circunstâncias.

O dístico final concentra o núcleo emocional do poema numa imagem de forte tradição literária: “a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária”. A lâmpada (gū dēng 孤燈) é um símbolo recorrente da vigília, do estudo e do isolamento do letrado, enquanto a chuva noturna remete para a nostalgia e a melancolia de quem se encontra longe de casa. Esta imagem, presente desde a poesia da dinastia Song — nomeadamente em autores como Lu You (1125–1210) — articula espaço exterior e interior, fazendo coincidir a persistência da chuva com a duração da consciência desperta. A dor não se exprime por enunciação direta, mas pela insistência do tempo noturno e pela solidão iluminada.

A tradução portuguesa acentua esta dimensão ao optar por uma sintaxe fluida e por imagens que preservam a contenção do original, sem empobrecimento expressivo. O verso “O que mais faz sofrer até à desolação” recupera a fórmula intensificadora zuì shì lìng rén qī jué chù (最是令人淒絕處), recorrente na tradição poética chinesa para condensar o grau máximo da dor num ponto preciso do poema. A escolha lexical privilegia a continuidade emocional e a progressão interna do texto, evitando tanto a literalidade rígida como a amplificação retórica.

Este poema juvenil revela já um traço central da escrita de Lu Xun: a preferência por imagens densas e estruturalmente carregadas em detrimento da expressão direta do sentimento. A experiência da separação familiar, da necessidade material e da solidão noturna surge articulada com clareza e economia, sem apelo ao consolo nem à reconciliação. A divergência dos caminhos afirma-se como dado constitutivo da vida adulta, assumido com lucidez e sustentado por uma imagética capaz de concentrar, em poucos versos, uma experiência de perda que não se resolve, mas se aprende a suportar à luz frágil de uma lâmpada.


Gengzi (庚子) corresponde ao ano de 1900 segundo o calendário tradicional chinês, baseado no sistema sexagenário que combina os Dez Troncos Celestes (天干) e os Doze Ramos Terrestres (地支). O “segundo mês” refere-se ao segundo mês lunar, e não ao mês civil ocidental, situando o poema aproximadamente entre fevereiro e março de 1900. A utilização desta datação tradicional inscreve o texto num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, em contraste com o calendário gregoriano de uso administrativo.

謀生 (móu shēng), “ganhar a vida”, é um termo forte, quase impróprio para um jovem estudante. No contexto de Lu Xun, designa a necessidade de escolher estudos técnicos e utilitários como único meio de sustento, não como realização pessoal.

淒絕 (qī jué), “tristeza cruel, desolação extrema”. A sequência zuì shì lìng rén… (“o que mais faz sofrer…”) é uma construção poética recorrente para exprimir o grau máximo da dor.

孤燈 (gū dēng), “lâmpada solitária”, pode designar tanto uma lâmpada a óleo como uma vela. Na tradição poética chinesa, associa-se ao estudioso isolado, ao exilado ou ao viajante afastado do lar.

6 Fev 2026

Starmer em Pequim e a visão ampla da História

Por Xu Zeyu

Enquanto Sir Keir Starmer passeava pela Cidade Proibida, o monumento de seis séculos do poder dinástico chinês, as redes sociais fervilhavam com comparações sarcásticas à visita de Donald Trump em 2017, quando o presidente dos EUA foi pessoalmente acompanhado por Xi Jinping pelos mesmos salões e pátios com toda a pompa de um dignitário. Os críticos de poltrona criticaram avidamente a presença relativamente discreta de Starmer: sem multidão isolada por cordas, sem líderes proeminentes ao seu lado.

Bem em frente ao Salão da Harmonia Suprema, onde Starmer parou para apreciar a grandiosidade, Trump questionou uma vez a reivindicação da China à antiguidade: «Acho que a cultura mais antiga, dizem eles, é a do Egipto, com 8.000 anos.» Xi respondeu: “O Egipto é um pouco mais antigo. Mas a única civilização que continua ininterrupta é a China.” Mais cedo naquele dia, durante conversas formais antes da visita de Starmer à Cidade Proibida, Xi tocou um tema histórico semelhante com o primeiro-ministro britânico, invocando o que chamou de “visão ampla da história”.

Ao contrário do que as ridicularizações online sugerem, Pequim estendeu o tapete vermelho para o primeiro líder britânico a visitar a China em oito anos, que foi recebido sucessivamente pelas três principais figuras da política chinesa: o presidente Xi Jinping, o primeiro-ministro Li Qiang e o presidente do Congresso Nacional do Povo, Zhao Leji. A reunião formal com o presidente Xi, originalmente programada para 40 minutos, se estendeu por 80 minutos, resultando em trocas produtivas que as autoridades de ambos os lados descreveram como “calorosas e construtivas”. Foi nessa ocasião que Xi disse a Starmer: “A China está pronta para trabalhar com o Reino Unido na defesa de uma visão ampla da história, superando as diferenças e promovendo o respeito mútuo, a fim de transformar o potencial promissor da cooperação em realizações notáveis, abrir novas perspectivas para as relações e a cooperação entre a China e o Reino Unido, para melhor beneficiar os dois povos e o mundo em geral.”

A formulação é particularmente pouco ortodoxa num contexto diplomático. Xi Jinping abordou o conceito de «visão ampla da história» em fevereiro de 2021, quando exortou uma sala cheia de altos funcionários do Partido a estudar história antes do próximo centenário do Partido Comunista Chinês. Na conferência, ele observou: «Devem ser envidados esforços para educar e orientar todo o Partido a ter em conta a estratégia de rejuvenescimento nacional da China num contexto de mudanças globais de uma escala nunca vista num século, desenvolver uma grande visão da história, examinar a dinâmica da mudança e identificar padrões históricos a partir do longo curso da história, da maré dos tempos e do panorama global, formular estratégias e políticas correspondentes e avançar o nosso trabalho com uma abordagem holística, perspicaz e inovadora.»

Como uma terminologia distintamente partidária enraizada na ideologia marxista, a “visão ampla da história” raramente tem sido invocada em público, mesmo quando o líder máximo se dirige aos quadros do partido. Utilizar tal termo ideológico durante uma reunião com um chefe de governo estrangeiro em visita foi, portanto, uma jogada altamente calculada, codificada com subtexto.

No voo para Pequim, Starmer advertiu que as relações sino-britânicas não devem desviar-se de uma “era de ouro” para uma “era glacial”. Mas as observações sobre uma “visão ampla da história” pareciam refletir a perspectiva de Pequim sobre essa trajetória — ou seja, o abandono por Londres do seu compromisso com a “era de ouro” assumido há uma década.

Quando Xi fez a sua primeira visita de Estado à Grã-Bretanha em 2015, fazia pouco mais de uma década que os dois países haviam estabelecido uma “parceria estratégica abrangente”. Na época, a Grã-Bretanha era o segundo maior parceiro comercial da China e o principal destino de investimentos na Europa. Londres posicionou-se como pioneira em finanças, tornando-se o primeiro país ocidental a emitir títulos soberanos em RMB e a primeira grande potência ocidental a aderir ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, iniciado por Pequim. Barbara Woodward, então embaixadora britânica na China, anunciou que a visita estabeleceria «uma parceria global para o século XXI e daria início a uma década dourada nas relações entre a China e o Reino Unido».

A «década dourada» que se seguiu, no entanto, desenrolou-se precisamente na direção oposta. Meses depois da visita de Trump à Cidade Proibida em 2017, Washington lançou a primeira ronda da guerra comercial contra a China. A Grã-Bretanha, seguindo os passos de Washington na estratégia de contenção, adoptou uma postura cada vez mais adversária em relação a Pequim em questões como os distúrbios em Hong Kong, o algodão de Xinjiang, a «redução de riscos» nas cadeias de abastecimento e o bloqueio tecnológico contra a China, desmantelando efetivamente a visão comum de aprofundamento das relações bilaterais.

Hoje, enquanto os EUA lançam olhares cobiçosos sobre a Gronelândia, denigrem a memória dos soldados britânicos mortos e ameaçam uma ofensiva tarifária contra a parceria transatlântica sob a chamada “Doutrina Donroe”, a iniciativa de Londres de restabelecer as relações com Pequim parece menos uma mudança estratégica e mais uma proteção desesperada contra a “Discordia Americana”.

Do ponto de vista de Pequim, este súbito aquecimento diplomático parece lamentavelmente desprovido de uma visão histórica genuína a longo prazo. As aberturas da Grã-Bretanha parecem a mais recente oscilação política impulsionada pelos caprichos inconstantes de Washington. Isto levanta naturalmente uma questão: se um presidente menos idiossincrático entrar na Casa Branca em 2029, será que o número 10 voltará a considerar aceitável um regresso à «era glacial» com a China?

Este cepticismo é ainda mais profundo. Um importante estudioso chinês de política americana certa vez comparou a relação entre os EUA e a Europa a um casamento: eles podem “brigar na cabeceira, mas reconciliam-se nos pés da cama”. Esta expressão chinesa captura o sentimento predominante nos círculos estratégicos chineses: apesar de todos os atritos recentes, o Ocidente continua a ser um clube exclusivo, mesmo que temporariamente disfuncional.

Enquanto políticos ocidentais como Mark Carney se preocupam com uma «ruptura» na ordem pós-Guerra Fria, para grande parte do Sul Global, não há sinais de uma ruptura — apenas a continuação de uma hegemonia liderada pelos EUA sob a qual eles vivem há muito tempo. A “nova ordem mundial” é simplesmente um caso de um novo rei que começa a abusar dos nobres da mesma forma que antes abusava dos plebeus. Os nobres agora clamam contra ele como um tirano, não porque consideram a hierarquia injusta, mas porque perderam suas prerrogativas de agir com impunidade.

A «visão ampla da história» pode muito bem servir como um lembrete incisivo aos líderes europeus para que não sucumbam à amnésia na sequência dos choques trumpianos. A Europa nunca foi igual a Washington, e Pequim não tem intenção de servir de alavanca para a Europa comprar o seu regresso a um passado «liberal».

A visita de Starmer revelou este realismo económico sem retoques. Ao aterrar em Pequim com uma comitiva de titãs dos negócios, ele twittou que seu objectivo era “cumprir com o povo britânico”. Certamente, Pequim acolheu a iniciativa de expandir os laços comerciais, estendendo acordos sobre uísque escocês, produtos farmacêuticos e viagens sem visto — acordos que, compreensivelmente, despertaram a ira de Trump. No entanto, a China espera que a Grã-Bretanha seja mais do que “estranhos à porta” obcecados pelo comércio.

O que Pequim realmente busca é que a Grã-Bretanha actue como uma “grande potência” nos assuntos globais, um termo que Xi usou repetidamente durante sua visita de Estado em 2015. Ele usou-o novamente na última quinta-feira, embora em termos cautelosos: “O direito internacional só pode funcionar quando todos os países o obedecem, e as grandes potências devem liderar pelo exemplo, ou o mundo voltará à lei da selva”.

A China não procura um aliado na Grã-Bretanha; em vez disso, procura um parceiro com pensamento estratégico independente, capaz de injectar certeza no sistema global cada vez mais volátil. No entanto, mesmo essa expectativa modesta parece exceder as ambições da Grã-Bretanha. Durante a década outrora anunciada como a «década dourada», a Grã-Bretanha parece ter renunciado voluntariamente à identidade de «grande potência» invocada por Pequim.

A natureza autodepreciativa da política externa britânica diverge acentuadamente da forma como a maioria dos chineses vê o papel histórico do país insular — algo que até os próprios britânicos não compreendem. A Guerra do Ópio de 1840, iniciada pela Grã-Bretanha, é amplamente considerada como o ponto de partida do «século de humilhação» da China. O objectivo geral do Partido, o “grande rejuvenescimento da nação chinesa”, visa restaurar a posição internacional da China ao que era antes da chegada dos navios de guerra britânicos. Referido nos livros didáticos chineses como “o império sobre o qual o sol nunca se põe”, o legado colonial da Grã-Bretanha não se reflecte apenas nos artefactos chineses saqueados e exibidos no Museu Britânico, mas também continua a manifestar-se nas disputas fronteiriças entre a China e a Índia e na agitação em Hong Kong.

No entanto, a China vê a Grã-Bretanha não apenas como uma potência outrora formidável, que deixou uma marca indelével na sua história moderna e no panorama geopolítico, mas também como uma nação autónoma e pragmática que demonstrou visão histórica no envolvimento global. A Grã-Bretanha foi a primeira potência ocidental a reconhecer a República Popular da China, no segundo ano da sua fundação, para ser exacto — três décadas antes dos EUA seguirem o exemplo. Essa decisão continua, aos olhos dos chineses, a ser uma rara demonstração de independência estratégica e pragmatismo para um império em declínio.

Como Winston Churchill disse uma vez, «quanto mais longe se consegue olhar para trás, mais longe se consegue ver para a frente». Esta pode ser agora uma oportunidade rara, e talvez definitiva, para a Grã-Bretanha e outras nações europeias, que despertaram para a dura realidade de que a «ordem liberal» liderada pelos Estados Unidos não abraça valores liberais genuínos nem proporciona uma ordem previsível. Têm a oportunidade de se afirmar como um «pólo» verdadeiramente autónomo num mundo multipolar emergente, em vez de simplesmente dançar ao som dos caprichos dos Estados Unidos com reviravoltas diplomáticas.

Quando Donald Trump esteve na Cidade Proibida em 2017 não compreendeu ou optou por ignorar a subtil metáfora histórica transmitida pelo seu anfitrião chinês: a necessidade imperativa de evitar um “choque de civilizações” por meio do diálogo e do respeito mútuo. Em vez disso, em poucos meses, o seu governo arrastou o mundo inteiro para uma era de intensificação do confronto entre os EUA e a China, embora o desenrolar dos acontecimentos tenha ficado muito aquém da Guerra Fria que ainda está viva na memória.

A forma como Sir Keir Starmer interpretará a «ampla visão da história» durante a sua própria caminhada por esses mesmos salões imperiais pode ainda revelar-se um momento crítico — um momento que os historiadores do futuro citarão com admiração ou comiseração ao emitir o seu veredicto sobre o destino da Grã-Bretanha e da Europa.

5 Fev 2026

Fu Shan, o Daoísta Protegido Pelo Traje Cor de Cinábrio

Jiang Shinian, também conhecido como Shennong, o «Agricultor Divino», patrono dos praticantes da medicina tradicional (zhongyi), é também conhecido como Yandi, o «imperador das chamas» e por aí capaz de controlar o «vento em chamas», o excesso de calor que provoca sintomas como tremores, confusão ou a febre súbita.
Na prática religiosa, esse «fogo no vento» é entendido como o fumo que resulta da queima de incenso ou papéis que levam até aos céus orações, ofertas ou mensagens para os deuses, antepassados ou espíritos. Esse fogo, figurado pela cor vermelha, é associado entre outras à imortalidade, às forças positivas de energia ou à protecção contra o mal.
Tonalidades da cor vermelha foram adoptadas de forma notória pelos imperadores da dinastia Ming que tinham Zhu, «vermelhão ou cinábrio» como seu nome de família. Um dos exemplos mais publicamente manifestos foi pintar de púrpura os muros da «Cidade imperial proíbida», Zijincheng, como forma de protecção dos ocupantes no seu interior ou atribuir às vestes dos funcionários letrados a cor do cinábrio.
Quando a dinastia caíu e para muitos literatos se tornou intolerável obedecer aos novos imperadores, alguns adoptaram as mais diversas e subtis estratégias de resistência. Um letrado do Norte que, na pluralidade dos seus saberes e vocações chegou a usar mais de trinta nomes de pincel, engendrou para si o nome Zhuyi daoren, o «Daoísta vestido de cinábrio» como se ao usar essa cor protectora, só reconhecia como única fronteira ou muro o seu próprio corpo.
Na vida comum chamava-se Fu Shan (1607-1684), nascido em Yangqu, Shanxi, e da recusa em servir os novos senhores, que prejudicaram o seu dia-a-dia, despontariam inúmeros talentos celebrados ainda hoje em dois jardins da cidade de Taiyuan, a capital provincial. E embora fosse de todos os literatos que o conheceram, reconhecidas as suas qualidades de calígrafo, pintor ou poeta, os mais próximos viam-no como praticante da medicina tradicional, em particular como conhecedor de doenças de senhoras.
Fu Shan preferia que a sua caligrafia fosse «grosseira, não habilidosa; feia, não sedutora; deformada, não fina; espontânea, não premeditada». E tal como em pinturas gostava dos formatos verticais longilíneos como se pode ver num dístico que está no Smithonian (tinta sobre papel, 226 x 45,5 cm) onde, reflectindo a sua dupla preocupação com o espírito e o corpo, escreveu:

«Se o espírito está tranquilo, a mente naturalmente alcança a distância;
Quanto mais o teu corpo está descontraído, mais da vida poderás apreciar».

É-lhe atribuída a criação de uma «sopa de oito tesouros», feita com oito ingredientes que restabelecia os mais debilitados. E, no entanto, quando foi obrigado a ir à corte em Pequim para o ritual de obediência à nova dinastia, atirou-se para o chão afectando incapacitante moléstia.

Caminhando na margem do rio, apreciando as flores, 6 (de 7):

O acesso à casa dos sogros de Huangsi
está repleto de flores por todos os lados,
São mil, dez mil flores pressionando
os ramos, de tão plenos, dobrados.
Repetidamente convidam as borboletas a ficar
constantemente a dançar,
Escuto os papa-figos: como são afinados
no seu delicado piar.

Du Fu (712-770)

19 Jan 2026

Poemas de Meng Haoran 孟浩然 (689-740)

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

 

春初漢中漾舟

 羊公峴山下
神女漢皋曲
雪罷冰復開
春潭千丈綠
輕舟恣來往
探翫無厭足
波影搖妓釵
沙光逐人目
傾杯魚鳥醉
聯句鶯花續
良會難再逢
日入須秉燭

 

 

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Tradução Rui Cascais

 

Vogando no Rio Han ao Começar a Primavera

 

À ilharga do Monte Xian de Lorde Yang Hu, [1]

Num meandro do Han, dito das donzelas celestes,[2]

Agora que a neve cessou e o gelo se abre de novo,

Por águas de Primavera verdes e longas,

O meu barco vai onde quer,

Buscando prazer sem fadiga ou tédio.

Há reflexos de ondas no cabelo da concubina

E o brilho das areias queima-nos a visão.

Inclinamos as taças – estão ébrios os peixes e as aves;

Encadeamos versos – papa-figos e flores imitam-nos.

Encontros destes são difíceis de repetir;

Quando o sol se retira, devemos pegar numa vela.[3]

 

 

 

 

[1] Yang Hu foi governador militar da cidade de Xiangyang em meados do século III. No Monte Xian, alguns quilómetros a sul da cidade, e sobranceira ao Rio Han, existia uma estela em sua homenagem.

[2] Diz-se que um tal Zheng Jiaofu teria encontrado aqui duas donzelas que se banhavam e lhe ofereceram os seus pendentes quando se despediram. Voltando-se para trás, Zheng reparou, com sobressalto, que haviam desaparecido sem rasto, concluindo que se tratavam de seres sobrenaturais.

[3] Referência a uma copla da dinastia Han tardia: “Curto é o dia, longa a noite amarga. /Melhor pegar numa vela e irmos folgar”.

 

 


 

 

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

宿來公山房期丁大不至

 夕陽度西嶺 群壑倏已暝 松月生夜凉 風泉滿清聽

樵人歸欲盡

煙鳥棲初定

之子期宿來

孤琴候蘿逕

 

 

 

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Tradução Rui Cascais

 

 

Pernoito e Espero na Casa de Montanha de Lai, mas o Velho Ding Não Chega[1]

 

A incandescência do sol já só lambe a cumeeira a ocidente;

As inúmeras ravinas de súbito cinzeladas a negro.

Atrás de um pinheiro a lua traz o fresco da noite;

Soa uma nascente batida pelo vento, derramando limpidez.

Regressando a casa, já quase se foram os lenhadores;

Pássaros nevoentos pousam agora nos galhos.

Vim ter contigo nesta noite combinada –

Uma cítara solitária, vigiando a vereda que as trepadeiras tolhem.

 

 

[1] Há aqui um jogo óbvio, mas delicioso, entre lái (來, o verbo “vir”, neste caso feito nome do proprietário da casa na montanha) e zhì (至, o verbo “chegar”).

17 Jan 2026

Por onde dançou o pincel de Zou Zhilin

Huang Gongwang (1269-1354), o mestre da dinastia Yuan que viveu como um andarilho daoísta, um «convidado dos lagos e das montanhas», foi viver durante três anos entre 1347 e 1350, para junto do rio Fuchun (actual Qiantang) a Oeste de Hangzhou onde, com total desprendimento, sem contar com elogios, comentários ou críticas, foi criando um dos rolos horizontais mais prezados pela posteridade. Tinha setenta e oito anos quando começou a pintura conhecida como Retiro nas montanhas Fuchun, da «Primavera abundante», que respondia à urgência do seu método de capturar o espanto, apreço e admiração que sentia perante a natureza visível:

“O pintor deve levar sempre consigo alguns pincéis numa sacola para que quando se lhe deparem árvores surpreendentes num belo cenário, ela possa de imediato fazer esboços delas para preservar as suas características naturais. Deve subir a altos edifícios, contemplar o qiyun, «o movimento do espírito», e diante das vistas abertas olhar as nuvens. Essas vistas chamam-se paisagens de cumes de montanhas. Tanto Guo Xi como Li Cheng praticaram este método e Guo Xi pintou mesmo pedras como nuvens.”

Mas após Huang Gongwang terminar a sua pintura, ela própria se tornaria um objecto de intensa estima e assombro por aqueles que a possuíram. Um letrado no fim da dinastia Ming que teve o privilégio de a contemplar escreveu no rolo um comentário: «O seu proprietário vive com o rolo há dezenas de anos, coloca-o na mesa-de-cabeceira quando vai dormir, junto da sua cadeira quando vai comer, dia e noite, onde quer que vá a pintura vai com ele.» E justificou «A pintura de Huang é como as caligafias do grande Wang Xizhi – uma verdadeira obra-prima. Nesta pintura o pincel dança com vida, tal como a caligrafia do Prefácio do Pavilhão das orquídeas – divino e sublime.» Quem era esse conhecedor a quem foi concedida a honra de pousar o seu pincel sobre o inestimável rolo?

Zou Zhilin (c.1585-c.1654) era amigo da família de Wu Zhiju que possuiu a pintura, depois de ela pertencer a egrégios pintores como Shen Zhou ou Dong Qichang, e era isso que lhe permitia a intimidade com o rolo. E a pintura era para ele também um modo de expressão. Passado o exame jinshi em 1606 por pouco tempo serviu a administração imperial, retirando-se para aquela peculiar forma de habitar solitário entre a gente, designado por vezes como yinshi, que era a via de tantos literatos insubmissos. Fazia parte dessa forma de relacionamento com os outros a troca de pinturas como uma, à venda na Sotheby’s, com caligrafias e pinturas contendo um leque montado num álbum de onze folhas a tinta e cor sobre papel dourado, onde numa das folhas escreve: «Para onde escapar? Suspeito que para lado nenhum senão para montanhas profundas ou florestas densas. E onde encontrar essas montanhas e florestas densas senão sob o meu pincel?»

13 Jan 2026

Filosofias religiosas comparadas

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Simone Weil nasceu em Paris a 3 de fevereiro de 1909 e faleceu a 24 de agosto de 1943, viveu pouco e intensamente num tempo conturbado, atravessado por duas grandes guerras mundiais, a primeira entre 1914 e 1918, e a segunda, entre 1939 e 1945, particularmente marcante na sua vida. Foi uma destacada filósofa francesa, de origem judia, professora, política e ativista. Depois voltou-se para o pensamento místico tendo-nos deixado reflexões profundas sobre a sua relação com Deus. Morreu aos 34 anos de falha cardíaca a quase jejuar, restringindo a alimentação ao mínimo, diz-se, numa leitura possível, por uma França ocupada num gesto de solidariedade para com os compatriotas que viviam mal e sob a tutela dos Nazi, enquanto se encontrava a trabalhar para o governo francês no exílio da Grã-Bretanha.

Aprendeu grego antigo para falar em código com o seu irmão mais velho, o matemático André Weil, para que os pais não os pudessem entender. Mais tarde iniciou-se no sânscrito, a fim de poder ler Bhagavad Gita no original e, na altura dos seus furores revolucionários, era também pacifista e sindicalista, concentrando a atividade em aulas de literatura às classes trabalhadoras, por considerar que a literatura francesa era o caminho certo para a educação do espírito dos trabalhadores e revolução de acordo com a tradição cultural eles.

Mais tarde visitou o pensamento anárquico, mantendo a sua vocação pacifista até que foi confrontada com o regime Nazi e com a ocupação de França. Reagiu, juntando-se à Resistência Francesa, mas havia de sentir um forte chamamento espiritual, pelo que a par do ativismo político, desenvolveu um profundo misticismo, apesar de ter crescido num ambiente agnóstico.

O chamamento relativo à fé cristã começou em 1935, em Portugal, tendo sido tocada pela beleza das nossas igrejas, enquanto esteve de férias na Póvoa do Varzim. Mais tarde, em 1937 havia de sentir um êxtase religioso em Assis na pequena capela românica de Santa Maria degli Angeli, onde São Francisco costumava rezar. Porém, é preciso ter em mente que ela se interessou por várias tradições religiosas que incluíam os mistérios gregos e egípcios, o Hinduísmo, o Budismo Mahayana, entre as experiências religiosas que culminaram na sua relação não com o Catolicismo, mas com a Cristandade, sem nunca advogar qualquer tipo de sincretismo religioso.

Passe-se à apresentação do segundo pensador deste artigo, Byung-Chul Han, um dos pensadores sul-coreanos mais conhecidos do Ocidente, nascido em Seul em 1959. Estudou Metalurgia, radicou-se posteriormente na Alemanha, onde cursou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique, ensinando atualmente Filosofia na Universidade de Artes de Berlim. O filósofo traz-nos Conversas sobre Deus – Um Diálogo com Simone Weil, numa publicação de 2025, muito bem traduzida por Ana Falcão Bastos em Relógio D´Água Editores.

A sua conversa com a filósofa Simone Weil desenvolve-se em torno de uma reflexão sobre Deus, conjugando as suas leituras e interpretação do pensamento dela, com ele fortemente herdeiro da tradição imanentista oriental, pelo que no último capítulo, intitulado Inatividade afirma com fervor: “Simone Weil imagina uma espécie de pampsiquismo. Tudo é vivo e animado. Sem a espiritualidade do universo não é possível qualquer relação entre ele e o espírito humano” (Han, 2025, 81).

De acordo com a sua perspetiva, que acredita sempre partilhar com Simone Weil, para poder conversar com Deus é necessária uma postura ética adequada, analisada nos sete capítulos em que divide a obra. É então necessário cultivar e aceitar a Atenção, a Descriação, o Vazio, o Silêncio, a Beleza, a Dor e a Inatividade. Eis os ingredientes interiores e exteriores certos para manter uma relação próxima de Deus, que não está morto, como apregoava Nietzsche, mas antes bem presente a uma humanidade que não parece ser capaz de o escutar ou contemplar. “Não é Deus que está morto, mas sim o homem a quem Deus se revelou” (Han, 2025, 11) , pelo que há que cultivar a atenção do espírito, voltá-lo para Deus e isso faz-se antes de mais com os ensinamentos de Simone Weil: ela que terá morrido de coração, num corpo exausto, tuberculoso e exangue, ou por solidariedade, ou por crença de que quanto menos comesse, mais e melhor alcançaria a união com Deus. Note-se a seguinte reflexão: “Duas aves, companheiras inseparáveis, poisam na mesma árvore. Uma come os frutos da árvore, a outra observa sem comer.” (Weil apud Han, 2025, 11).

O mundo, de acordo com ambos os pensadores, abarrota de informações, programas, e atitudes erradas, por exemplo, o binge watching, que significa “devorar programas de televisão”, além de todo o tipo de distrações, entretenimentos e alimentos. Assim, advoga-se à maneira budista ou taoista, que é preciso ser frugal, em sentido literal e metafórico, jejuar para que a alma desencadeie um processo de “autofagia” conducente a Deus, porque “Só esta autofagia da alma salva e conduz até Deus.” (Han, 2025, 12). Deste modo, o organismo comerá a sua própria carne, transformando-a em energia. Esta filosofia prática levada às últimas consequências implica a morte, tal como terá sucedido a Simone Weil, quando já muito enfraquecida, vê o coração a dar de si.

Há, no entanto, um meio-termo, que será necessário ter em conta para desenvolver a atenção do espírito, já que este mergulhado em carne se torna incapaz de se concentrar. Se o jejum absoluto é perigoso, como descobriu Buda Histórico sentado debaixo da Ficus Religiosa, o jejum relativo, ou melhor a simplicidade alimentar pode estimular “a atenção contemplativa” essencial para ver Deus. Esta visão requer uma atenção profunda, que tanto pode ser empregue na resolução de um problema científico ou artístico, como na visão Deus, porque “Deus é atenção sem distração” (Han, 2025, 14).

A atenção será assim exercitada em concentração total, semelhante à que se emprega numa oração, em ligação ao sagrado, que é ao mesmo tempo o bem supremo, recordando as duas forças de amor e do ódio do filósofo pré-socrático Empédocles. Estas operam no cosmos, tornando-o organizado, ligado, atento e amoroso, ou desligado, distraído e odioso. “O bem une e reconcilia, enquanto o mal separa e divide. O mal é multifacetado. O bem, pelo contrário, baseia-se numa única verdade.” (Han, 2025, 17). É então natural que se promova no quadro de ambos os pensadores, uma “ética da atenção” ou uma ética da misericórdia/compaixão (Han, 2025,74), pois só por meio dela se consegue a ligação com o os outros e, sobretudo, com o Outro, numa conexão empática, espontânea e profunda.

É muito interessante o modo como Byung-Chul Han define a virtude cristã: “A virtude cristã não é uma procura, não é uma ação, mas sim um esperar e observar (…) o papel da futura esposa é esperar” (Han, 2025, 18). Creio que, embora seja uma leitura autorizada desta virtude, a ênfase dada à atenção contemplativa e à espera encontra a sua razão de ser no interior de muitas das filosofias asiáticas, que privilegiam a não-ação e mesmo inatividade, como sucede no sétimo capítulo da obra, sendo descrita em termos do modo correto de contacto com o sagrado, numa postura obediente, humilde e silenciosa. Diz-nos o autor, excluindo a vontade, tanto quanto é possível: “É a inatividade que dá asas à alma” (Han, 2025, 19) Talvez por isso, a primeira definição etimológica de religião oferecida no texto remeta para a atenção e o termo religo para “relegere (reler)” (Han, 2025, 20). Há que, antes de mais, saber ler os sinais e orar ou, numa nomenclatura mais oriental, meditar. E continuando nesta linha que cruza oriente e ocidente, para cultivar devidamente a atenção é necessário “esvaziar” a alma para a preparar à ligação ao sagrado, que permitirá introduzir, já no último capítulo, a segunda definição etimológica mais comum no Ocidente, “A religião enquanto religare, significa ligar, prender ou unir” (Han, 2025,84) num “voltar a ligar” o que se desligou, o sagrado e o profano ao jeito das filosofias taoista e budista.

Nesta lógica do pensamento do filósofo sul-coreano, que conversa com a filósofa francesa, o vazio é fundamental, não para dar ânimo à vida, como refere o capítulo quarto do Livro da Via e da Virtude (《道德经》), e recorde-se: “o Tao é um vaso vazio/usa-se e jamais fica cheio. /Fonte insondável das dez mil coisas” (道冲而用之或不盈/渊兮似万物之宗)(Abreu, 2013,34-5), mas, mais à maneira budista ou platónica, para favorecer a morte. Cultivar o vazio é aprender a ser nada, a descriar-se ou perder o eu, a renunciar: “O vazio significa, em última análise, aprender a morrer, entregar-se à morte: «Rezar é como uma morte»” (Han, 2025,51).

A esta leitura muito devedora da tradição oriental, contrapõe-se a de uma virtude cristã ocidental ativa, que encontra Deus não na atenção contemplativa, ainda que também aí se possa estar presente, mas na vida ativa, na relação com os outros no exercício de uma compaixão ou amor permanente para que o reino de Deus desça o mais possível à terra. A definição de amor avançada por Han, através de Weil, é a de um “olhar da alma”, ou seja, “o amor baseia-se no olhar enquanto atenção da alma.” (Han, 2025, 22). O cultivo da contemplação, da espera, do silêncio e do vazio pode conduzir à presença de Deus, sendo uma leitura possível do Sermão da Montanha, no qual Jesus ensina que os lírios do campo e as aves do Céu não precisam de trabalhar nem fiar, Deus oferece a vida por dom e graça divina.

Porém, se o ser nada, se a obediência, o silêncio e a renúncia podem conduzir a uma teodinâmica do amor, há que ter o cuidado e a atenção de que esta seja dirigida e concentrada na relação com Deus, porque na sociedade humana domina uma avassaladora termodinâmica do poder e de acordo com a tradição ocidental nós não podemos correr o risco de cair na armadilha do poder, porque, como o autor bem vê, embora não retire as últimas consequências do que escreve: “Quem tem poder tem a sensação de que cresce espacialmente. Expande-se ou estende-se. O aumento de poder manifesta-se com um aumento do eu” (Han, 2025, 42). O ser “re-ligado” terá de distinguir com todo o cuidado entre o sagrado e o profano, assegurando-se de que a sua conexão é verdadeira, ou caso contrário transforma-se num nada silencioso e renunciante perante o seu semelhante, o que é absolutamente intolerável para todos os filhos de um mesmo Pai, bem como para os herdeiros da tradição filosófica ocidental.

Obviamente, não é advogar uma relação de poder termodinâmica, quer dizer repleta de energia e sempre em expansão, que o autor tem em mente. Pelo que do ponto de vista concreto e humano, aconselha relações de trabalho à margem da conexão senhor/escravo, tão denunciada por Nietzsche no seu ataque à religião cristã.

Na esfera mundana, Han propõe que se escape quer das relações laborais criadas pelas sociedades capitalistas industriais, nas quais “o ser humano é treinado para se tornar gado de trabalho mecânico” (Han, 2025,78), quer pelas sociedades neoliberais de desempenho em que as pessoas acreditam ser autênticas e criativas, mas na realidade embarcam num frenesim produtivo em que se tornam “escravas de si mesmas” (Ibidem).

Então qual parece ser a melhor solução para os seres humanos que estão num mundo em que o trabalho é fundamental? Confesso que a resposta do autor me surpreendeu e cativou. A solução é tornar o trabalho num processo teodinâmico amoroso, ou seja, não o realizar sem sentido, mas dedicar as suas ações a Deus, o que para um cristão significa, trabalhar por amor ao próximo, executando um ato simbólico, no sentido etimológico do termo, como união e mais um modo de penetrar na esfera sagrada. Poetize-se, pois, o labor, tornando-o criativo, à maneira de Simone Weil ou de Byung-Chul Han: “Trata-se, portanto, de conferir ao trabalho um caráter contemplativo e espiritual. Elevando-o «ao ponto mais alto, o da plenitude da atenção, que é a plenitude da oração.” (Han, 2025, 85)

Referências Bibliográficas

Abreu, António Graça de (trad.). 2013. Laozi. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude. Edição Bilingue. Lisboa: Vega.

Biblia Sagrada. 1988. Difusora Bíblica.

Lourenço, Frederico (trad.). 2016. Biblia. Vol. 1. Lisboa: Quetzal.

Han, Byung-Chul. 2025. Conversas sobre Deus – Um Diálogo com Simone Weil. Tradução de Ana Falcão Bastos. Lisboa: Relógio D´Água.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

12 Jan 2026

Poemas de Meng Haoran 孟浩然 (689-740)

Tradução e notas Rui Cascais

(五言古體詩)

宿天台桐柏觀

海行信風帆

夕宿逗雲島

緬尋滄洲趣

近愛赤城好

捫蘿亦踐苔

輟棹恣探討

息陰憩桐柏

採秀尋芝草

鶴唳清露垂

雞鳴信潮早

願言解纓紱

從此去煩惱

高步陵四明

玄蹤得二老

紛吾遠遊意

學此長生道

日夕望三山

雲濤空浩浩

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Pernoitando no Templo de Tongbai em Tiantai1

A vogar ao rés da água confiei a minha vela ao vento,

Para vir passar esta noite a vagar numa ilha-nuvem.

Num anseio pelo distante Arquipélago Cerúleo,

Fui arrebatado pela vizinha Muralha Vermelha2.

Roçando trepadeiras, pisando o musgo, de remos

Recolhidos, dou-me agora ao luxo da busca.

Abrandando por fim na sombra, repouso em Tongbai,

Apanhando flores, procurando a planta da imortalidade.

Quando uma garça grita, cai orvalho imaculado.

Quando o corvo crocita, a maré chega mais cedo.

Quem dera pudesse desatar faixas e atacadores,

Descartar todos os cuidados a partir de agora.

Andando ao alto, subirei além do Quádruplo Brilho3,

Por trilhos ocultos, descobrirei os Dois Laos4.

Tão repleto de vaguear distante está o meu pensar…

Estudarei fundo este Tao de alongar a vida.

Ao ocaso, fixo longe as Três Montanhas

E volutas de nuvens se espalham por toda a parte.

Templo nas Montanhas de Tiantai mandado contruir em 711 por ordem imperial para servir de sede ao influente mestre taoista Sima Chengzhen 司馬承禎 (647-735). Meng Haoran terá visitado o templo no final da década de 730; o templo ainda estava a funcionar, mas mestre Sima já não residia nele.

O Arquipélago Cerúleo: ilhas paradisíacas taoistas situadas nas águas esverdeadas do Mar Oriental (tal como as Três Montanhas referidas em baixo). Os rochedos róseos da Muralha Vermelha erguem-se na encosta sul das Tiantai.

A chamada Montanha do Quádruplo Brilho ergue-se a noroeste das Tiantai.

Aqui, os “Dois Laos” são Laozi e Lao Laizi, o fundador do Taoismo e, o último, um contemporâneo de Confúcio (durante o Período da Primavera e do Outono), suposto autor do “Tratado de Lao Laizi”.

宿終南翠微寺

翠微終南裏

雨後宜返照

閉關久沈冥

杖策一登眺

遂造幽人室

始知靜者妙

儒道雖異門

雲林頗同調

兩心喜相得

畢景共談笑

暝還高䆫眠

時見遠山燒

緬懷赤城標

更憶臨海嶠

風泉有清音

何必蘇門嘯

Pernoitando no Templo de Cuiwei em Zhongnan1

Fiapos de bruma azulada nos Montes de Zhongnan,

Cujo brilho volta logo radiante passada a chuva.

Depois de um longo retiro afundado a contemplar,

De cajado na mão logo trepei aqui a ver a vista.

Chegando ao refúgio que construiu,

Entendo agora a qualidade da sua quietude.

Apesar de Ru e Dao divergirem2,

Nuvens e bosques são-lhes os mesmos.

De mentes ligadas apreciamos a nossa descoberta;

Ido o dia, falamos e rimos juntos.

Adormecendo junto a alta janela,

Lobriguei um incêndio num monte distante.

Lembrou-me o augúrio no adeus à Muralha Vermelha

E também as fragas aguçadas de Linhai.

Se as fontes e o vento soam límpidos,

Para que serviria o assobiar de Mestre Sumen? 3

O nome do local refere-se à bruma verde-azulada (翠微, cuì wēi) que frequentemente o rodeava. Os Montes Zhongnan situavam-se a sul da capital de Chang’an e o local fora usado pelos primeiros imperadores Tang para escapar ao calor estival, tendo sido depois convertido, já ao tempo da visita do poeta, num eremitério budista.

Confucionismo (儒, rú) e, neste contexto, a Via (道, dào) búdica.

Diz-se que, certa vez, o poeta Ruan Ji (阮籍, 210–263) visitou um mestre taoista no Monte Sumen. Incapaz de obter resposta para os vários temas de que lhe falou, Ruan emitiu um silvo de desdém ao partir. A meio da encosta, para seu embaraço, ouviu, subitamente, um monumental assobio solto pelo mestre. “Assobiar” (嘯, xiào) envolvia várias vocalizações destinadas a gerar uma sintonia com o qi do mundo natural.

7 Jan 2026

Permanecer Humano: Giacometti, Miró, Calder

Por Caroline Pires Ting

Há momentos na história da arte em que a resistência importa mais do que o progresso. Momentos em que permanecer de pé, ver com atenção e mover-se com cuidado tornam-se gestos radicalmente significativos. Alberto Giacometti, Joan Miró e Alexander Calder trabalharam a partir de um desses momentos. Sua arte é depurada, hesitante, viva. Ela não promete certezas. Oferece algo mais raro: uma forma de permanecer humano quando as formas se fragmentam, os sentidos se deslocam e o equilíbrio precisa ser continuamente renegociado.

A arte moderna costuma ser narrada como uma história de ruptura: novas formas substituem as antigas, tradições se quebram, linguagens colapsam para logo serem reinventadas. No entanto, ao observarmos atentamente a trajetória desses três artistas, outro enredo se impõe. Não o da ruptura como gesto heroico, mas o da insistência silenciosa: uma tentativa persistente de manter a arte ancorada na experiência humana em um mundo marcado pela instabilidade histórica, política e existencial (Arendt, 2007; Agamben, 2009).

Nenhum deles buscou a eternidade por meio do monumento ou da grandiosidade. Suas perguntas eram mais discretas, quase frágeis. Como um corpo persiste após o colapso das certezas. Como o sentido se forma antes de se fixar em linguagem. Como o equilíbrio pode sobreviver em um mundo submetido à mudança constante.

Giacometti: a ética da presença

As figuras de Giacometti parecem carregar consigo a memória de um acontecimento anterior ao olhar do espectador. Estreitas, gastas, reduzidas ao essencial, foram frequentemente interpretadas como emblemas do desespero existencial do pós-guerra. Contudo, como observam Jean-Paul Sartre e James Lord, essas figuras não encenam a ausência, mas a persistência da presença humana em condições extremas (Sartre, 1949; Lord, 1985).

O que Giacometti esculpe não é a falta, mas a recusa. A recusa em desaparecer.

Seus corpos não ocupam o espaço de forma afirmativa ou triunfante; antes, o atravessam com dificuldade e dignidade. Eles caminham, permanecem de pé, aguardam. Após a guerra, o exílio e a falência das narrativas totalizantes, Giacometti abandona as proporções ideais e os corpos heroicos, esculpindo aquilo que Maurice Merleau-Ponty identificaria como a condição encarnada do existir: um corpo vulnerável, exposto, irredutível (Merleau-Ponty, 1999).

Sua obra formula, assim, uma proposição ética contundente: permanecer humano não significa ser íntegro, completo ou poderoso, mas simplesmente estar presente. A eternidade, em Giacometti, não é transcendência. É resistência.

Miró: as origens do sentido

Miró afasta-se do realismo não como fuga da realidade, mas como retorno às suas camadas mais profundas. Suas pinturas são habitadas por estrelas, olhos, pássaros, linhas flutuantes e formas fragmentadas. Esses elementos não operam como símbolos estáveis, mas como uma espécie de pré-linguagem: uma gramática da percepção anterior à fixação conceitual do sentido (Miró, 1978; Dupin, 1993).

Frequentemente associada ao lúdico ou ao infantil, a obra de Miró é, em sua essência, rigorosa e profundamente crítica. Seu gesto consiste em desfazer a violência da hiperracionalização moderna, recuperando um estado em que o ver antecede o nomear. Como sugeriu Theodor W. Adorno, a abstração moderna, quando levada ao limite, não representa o mundo, mas tensiona suas condições de possibilidade (Adorno, 2008).

As constelações de Miró não descrevem o universo; ensaiam o instante inaugural em que o sentido começa a emergir. Nesse contexto, a abstração assume uma função ética: ela protege a fragilidade, mantém o sentido em suspensão e convida o olhar do outro a participar da produção de significado (Didi-Huberman, 2015). A eternidade, em Miró, não se apresenta como permanência da forma, mas como recomeço incessante.

Calder: equilíbrio como visão de mundo

Ao introduzir o movimento na escultura, Calder não transformou apenas a forma artística, mas sua lógica interna. Seus móbiles respondem ao ar, à gravidade e ao acaso. Nunca se repetem exatamente, mas tampouco se desintegram em desordem. Como observa Rosalind Krauss, trata-se de uma redefinição radical da escultura enquanto sistema relacional, e não como objeto estático (Krauss, 1977).

Calder não organiza hierarquias nem impõe centralidades. Ele compõe relações. Cada elemento depende dos demais para que o conjunto se sustente. O equilíbrio que emerge é dinâmico, provisório, vivo. Observar um móbile é assistir a um microcosmo em negociação contínua (Calder, 1966).

Em um século profundamente marcado pela obsessão com o controle, Calder propõe outra ética: baseada na confiança, na escuta e na adaptação mútua. Sua obra afirma que a estabilidade não exige rigidez. A eternidade, aqui, manifesta-se como continuidade em meio à transformação.

Três modos de permanecer humano

Considerados em conjunto, Giacometti, Miró e Calder delineiam três dimensões fundamentais da experiência humana contemporânea:

Ser: o corpo que persiste, mesmo fragilizado (Giacometti)

Significar: o sentido antes de se cristalizar em linguagem (Miró)

Relacionar-se: o equilíbrio que se constrói no movimento (Calder)

Eles não ilustram teorias nem propõem sistemas fechados. Encarnam atitudes diante da vida após a perda das certezas, após a devastação histórica, após o colapso das ilusões de totalidade. Cada um, à sua maneira, recusou o espetáculo e escolheu a contenção, apostando que a simplicidade poderia sustentar profundidade.

Por que ainda importam

Em uma época marcada pela aceleração, pela proliferação de imagens sem densidade e pela redução dos corpos a dados e métricas, esses artistas revelam uma atualidade inesperada. Eles nos lembram que a arte não precisa gritar para permanecer. Precisa manter-se próxima daquilo que não pode ser otimizado, traduzido ou plenamente capturado (Cassin, 2004).

Permanecer de pé.
Ver com atenção.
Mover-se com cuidado.

Isso não é nostalgia do modernismo. É a lembrança de que, talvez ainda hoje, o gesto mais radical seja simplesmente permanecer humano.

Referências Bibliográficas

Sobre Alberto Giacometti

Lord, James. Giacometti: A Biography. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1985.

Genet, Jean. L’Atelier d’Alberto Giacometti. Paris: Gallimard, 1957.

Sartre, Jean-Paul. “La Recherche de l’absolu.” In: Situations III. Paris: Gallimard, 1949.

Bois, Yve-Alain. Giacometti: Sculpture, Painting, Drawing. London: Thames & Hudson, 1991.

Sobre Joan Miró

Miró, Joan. Écrits et entretiens. Paris: Daniel Lelong, 1978.

Dupin, Jacques. Joan Miró: Life and Work. New York: Abrams, 1993.

Adorno, Theodor W. Teoria Estética. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008.

Breton, André. Le Surréalisme et la Peinture. Paris: Gallimard, 1965.

Sobre Alexander Calder

Calder, Alexander. An Autobiography with Pictures. New York: Pantheon Books, 1966.

Krauss, Rosalind E. Passages in Modern Sculpture. Cambridge, MA: MIT Press, 1977.

Sweeney, James Johnson. Alexander Calder. New York: The Museum of Modern Art, 1951.

O’Doherty, Brian. Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space. Berkeley: University of California Press, 1999.

Referências Teóricas e Contextuais

Arendt, Hannah. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

Cassin, Barbara (org.). Vocabulaire européen des philosophies: dictionnaire des intraduisibles. Paris: Seuil / Le Robert, 2004.

Didi-Huberman, Georges. Diante do Tempo. Trad. Vera Ribeiro. Belo Horizonte: UFMG, 2015.

Merleau-Ponty, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Agamben, Giorgio. O Que é o Contemporâneo? Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

Catálogos e Fontes Museológicas

Fondation Giacometti. Alberto Giacometti: Le Sculpteur. Paris, 2018.

Centre Pompidou. Joan Miró: L’échelle de l’évasion. Paris, 2019.

Calder Foundation. Calder: Hypermobility. New York, 2021.

Carolina Ting escreve em Português do Brasil.

6 Jan 2026

Qi Zhijia regressou ao Inverno para recordar Nizan

Mo Shilong (1537-87) referindo-se a um dos mais acarinhados mestres do cânone da história da pintura, conhecido pelo nome Ni Yunlin zi, o «Mestre da floresta das nuvens», o pintor Nizan (1306-1374), que se foi revelando quando, no tumulto da violenta transição dinástica, disse «não» aos seus mais próximos, passando a viver como um recluso, anotou que «quando as pessoas comuns tentam imitar uma pintura original, como podem transmitir o seu espírito para a posteridade?»

Mais tarde o influente teórico Dong Qichang (1555-1636) acrescentou: «Aqueles que estudam os velhos mestres e não introduzem mudanças estão como presos atrás de uma cerca. Ao imitar modelos demasiado perto está-se muitas vezes ainda mais longe».

E as pinturas de Nizan, porventura ainda mais que muitas outras, no seu sereno aspecto austero serão as mais difíceis de imitar porque dependem intimamente da pessoa do seu autor e da forma como nelas conseguiu fazer correr o «ritmo espiritual» (qiyun). E no entanto muitos tentaram reproduzir a elegante e insípida (dan) aparência daquelas visões que estavam mais próximas do seu espírito que do visível exterior.

Mais tarde, numa outra transição dinástica, da dinastia Ming para a dos Qing, um pintor tentou seguir por dentro, em semelhantes circunstâncias, a via de Nizan. Pertencia a uma família de sete irmãos, oriunda de Shanyin (hoje parte de Shaoxing, Zhejiang). Um dos irmãos, o ilustrado funcionário imperial Qi Biaojia (1603-45), deixaria um singular registo da sofisticação dos literatos do fim da dinastia Ming, de modo significativo através da memória do seu jardim Yu, na encosta da colina do mesmo nome.

Na «Antologia da colina Yu», Yushan zhi, uma obra colectiva em três volumes escrita por ele, seus amigos e familiares estão guardadas notas de viagens, explicações de vistas do jardim, narrativas, inquirições, sonhos de personalidades que interpretavam o seu presente com o conhecimento da riqueza das artes e da literatura do passado, constituindo um relevante arquivo histórico. Que se encontrava de forma expressiva em pinturas.

Qi Zhijia (1594-c.1682), outro dos irmãos, além de poeta, dramaturgo, calígrafo, gravador de carimbos, atleta e cantor amador possuía a memória das pinturas, como mostrou em diversas obras feitas ao estilo de grandes mestres. Se, face à disrupção do novo governo estrangeiro, Qi Biaojia se suicidaria no seu jardim, como o fizeram, segundo um registo do tempo de Qianlong, quatro mil e quarenta e três altos funcionários, Qi Zhijia resistiria através da calma contemplação, aceitando a impermanência, como no rolo vertical de 1651, Paisagem a partir de Nizan (tinta sobre papel, 116 x 50,8 cm, no Metmuseum). Nele as «veias de dragão», longmo, revelam a profundidade da sua experiência de solidão e serenidade, a compreensão do espírito do Inverno.

5 Jan 2026

O Rapaz Que Conduz o Búfalo na Paisagem de Outono

Xiao Yan (464-549), o imperador Wu de Liang (r.502-549) que muito promoveu o Budismo, perplexo pela decisão do sábio Tao Hongjing (456-536) de se retirar da cidade em 492, com apenas trinta e seis anos, e ir viver para longe no meio das montanhas em vez de ficar na corte, onde a sua sabedoria e os seus conselhos seriam abundantemente reconhecidos e recompensados, enviou-lhe uma missiva perguntando-lhe porquê.

Segundo a tradição, o sábio, que se dedicara ao estudo do Dao, não lhe respondeu, remeteu-lhe um desenho com dois bois; um livre a pastar o outro preso e com um freio. Xiao Yan compreendeu.

O facto de Tao Hongjing ter escolhido o corpulento animal, que parece agir sem esforço nem pressa, para expôr a sua situação, ecoa a compreensão da vontade de união com a natureza que certos adeptos do Chan mostravam com a figura de Laozi (c.371-477 a.C.) montado num boi (niu) ou um búfalo (shuiniu) a caminhar em direcção ao pôr-do- sol, afastando-se da civilização, das suas inúteis guerras e confrontos.

Anos depois, durante a dinastia Song do Sul (1127-1279), pintores usaram diversas vezes a figura do paciente boi, aproveitando o seu múltiplo sentido simbólico. O pintor da corte Yan Ciping (act. 1164-1187) seria autor de obras particularmente expressivas em que a figura do búfalo surge associada a rapazes jovens.

Como na pintura em que se desprende a sensação da «paz dócil», como insinua o seu nome ciping, e a relação táctil com a terra mostrando dois rapazes sentados um a pentear o outro junto de uma árvore, atrás de dois búfalos, um grande e um pequeno também sentados, descansando (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, no Museu Sen-oku, Hakukokan, em Quioto).

Noutra, feita num leque montado numa folha de álbum, um Rapaz e um búfalo numa paisagem de Outono (tinta e cor sobre seda, 23 x 21 cm, no Museu de Arte de Cleveland) vê-se, entre nevoeiros, enquanto se vai desenrolando o tempo da transformação outonal, um jovem sentado sobre um búfalo, conduzindo-o pela rédea, exprimindo na figura do búfalo o «verdadeiro eu» sendo o rapaz condutor, o praticante do Chan de aparência mais frágil, vai abandonando o mundo condicionado por ilusões.

Yan Ciping, como outros da corte da dinastia Song, como o célebre Ma Yuan (c.1160-1225), provinha de uma família de pintores que apuravam o seu próprio estilo familiar. Em certas pinturas, como em Hospedaria numa falésia coberta de pinheiros (leque montado como folha de álbum, tinta e cor sobre seda, 21,4 x 23 cm, no Metmuseum) é dificíl distinguir qual dos dois irmãos, filhos do pintor Yan Zhong, Ciyu ou Ciping é o autor. Nela, uma grande parte do espaço da pintura é deixado em branco, sugerindo a concepção do Budismo Chan de que a matéria emerge do vazio. Olhando a pequena pintura, o observador podia partilhar o sentimento de retirada objecto da obra.

30 Dez 2025

A Suave Descida Dos Gansos De Lin Xue

Li Liufang (1575-1629), o pintor e poeta que viveu por um tempo retirado no seu Jardim da madeira de sândalo, perto do Lago do Oeste, valorizava o afecto entre amigos alongando-se aos que viviam distantes e até mesmo àqueles que já não viviam mas deixaram impressivos traços da sua relação afectuosa com o mundo.

De entre os viventes, alguns eram eminentes funcionários e eruditos apreciadores das artes como Dong Qichang (1555-1636) mas também considerava seus pares mulheres que claramente exprimiam com o pincel as mais subtis emoções. Entre elas estava uma antiga cortesã com quem se correspondia, nascida em Min (Fujian) mas que se mudara para Hangzhou junto ao Lago do Oeste, onde haveria de se casar e viver no seio de uma família tradicional.

Chamava-se Lin Xue, também conhecida como Lin Tiansu, e nesse início do século XVII, o seu nome de talentosa poetisa e pintora seria notoriamente referido pelo respeitado Dong Qichang: «Ouvi falar de senhoras capazes na arte da pintura; a primeira foi Lin Tianxu e depois Wang Youyun.Tiansu mostrou uma beleza sem rival e Youyun, à vontade num estilo próprio.» Ao contrário do habitual em senhoras que se dedicavam à pintura, ela atreveu-se a realizar pinturas de montanhas e águas correntes (shanshui) como se observa no longo e cadenciado rolo horizontal que mostra um Cenário de Jiangnan (tinta e cor sobre papel, 33,7 x 447,5 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) que se vai desenrolando como uma peregrinação.

A sua vocação e engenho na arte da pintura também podem ser confirmados em obras como no rolo ousadamente vertical de 1621, Ameixeira e bambu (tinta e cor sobre papel, 86 x 18,6 cm no Instituto de Arte de Chicago). Nele está figurada a ideia da longanimidade; na base, o bambu que resiste às forças do vento, da chuva e da neve e, subindo irresistivelmente, a ameixeira cuja flor desponta ainda antes do fim do Inverno. Plantas gratas a poetas e pintores letrados, tal como um tema que se vê num rolo vertical que ecoa uma tradição com origem no século onze.

Lin Xue mostra nessa pintura de Gansos descendo nas areias das margens (tinta e cor sobre seda, 185,1 x 99,5 cm, no Smithsonian), as aves aquáticas surgindo no espaço pintado a partir do limite superior da página num ondulante e seguro movimento vertical até pousarem na areia. O tema Pingsha luoyan, associado à mudança da estação «quando o yin aumenta», que é parte da memória de várias artes, é referido numa introdução a uma notação para uma música no guqin, que se diria um comentário adequado à pintura de Lin Xue: «Face ao claro céu do Outono o ar é nítido e fresco enquanto a brisa se demora calma nas areias tocadas pela água. Por entre as nuvens estendendo-se na distância, voando e cantando, bandos de gansos encarnam as altas aspirações dos que vivem isolados por um excesso de sensibilidade.»

20 Dez 2025

Os Jardins Satisfatórios de Yan Hongzi

Li Jie, o funcionário poeta e pintor do século XII, imaginou o lugar tranquilo em meio à natureza em que, enfim disponível, poderia dela receber tanto quanto nela pudesse perceber e sentir. Num rolo horizontal que fez em 1170, representou esse sítio do Pavilhão do Pescador no monte Xisai para onde um dia de facto se iria retirar catorze anos depois.

Esse persistente desejo de comunhão com o lento mundo natural, partilhado por tantos atarefados letrados, já levara alguns, muitos anos antes, a recriar nas cidades símiles em miniatura desses locais ainda não alterados pela mão humana, designados penjing, «paisagens num vaso», onde podiam ir observando a misteriosa mutação.

Para outros, poetas, pintores nada substituía a experiência de estar lá, no espaço cercado de um jardim. No século dezoito, para fazer o retrato de uma personalidade, para mostrar o seu carácter, pintores figuravam-na muitas vezes num jardim, de preferência no seu jardim. Um pintor da corte chamado Yan Hongzi, activo cerca de 1751 – depois de 1760, no retrato que fez em 1759 de Jingweng (1710- depois de 1759), um funcionário da corte, mostrou-o no seu jardim com um ambíguo nome Yiyuan, o «Jardim natural, apropriado, satisfatório» (rolo horizontal, tinta sobre papel, 34,5 x 348 cm, no Museu Angewandte kunst de Frankfurt). E nele inscreveu um comentário, jogando com a ambiguidade do sinograma yi: «Conheci o velho senhor Jingweng de Beihai na repartição oficial distrital do seu chefe, o senhor Hu. Nossas camas estavam frente a frente e vivemos juntos, felizes e alegres, um mês inteiro. Quando o mestre me pediu para lhe fazer uma pintura intitulada «Yiyuan», olhei em volta e disse com uma gargalhada: «Não haverá só nesta expressão, satisfação apropriada?» Ele disse: «Satisfação apropriada como esta é já completa satisfação.» Ah! Embora não haja nada para este senhor que não seja satisfação adequada, ele encontra natural satisfação neste jardim. Por isso fiz esta pintura dele.»

Yan Hongzi faria uma outra visita a um jardim mítico, que no passado terá proporcionado tanta satisfação a sete sábios. Desde o século terceiro que era contada a história de sete literatos que se refugiaram num bosque de bambu, perto da morada de um deles, Ji Kang (c.223-262) em Shanyang (actual Henan). Retirados da hipocrisia e dos perigos do mundo da política, os sete poetas e filósofos, Zhulin qixian, dedicavam-se às artes. No rolo horizontal (tinta sobre papel, 33,3 x 67,6 cm, no Museu de Arte da Universidade de Princeton) de Yan Hongzi, eles são mostrados nas suas ocupações de inspiração daoísta, escrevendo nas faces lisas das rochas, pintando, recitando poesias para o ar. No fim do rolo, caminhando em sentido oposto fazendo o olhar recuar, vão dois jovens com rolos para escrever ou pintar, um pote de vinho: os sábios continuariam satisfeitos.

10 Dez 2025

Que Fazem Literatos Junto às Águas Correntes de um Rio

Cui Zizhong (1574-1644), o pintor de Laiyang (Shandong), que viveu em Pequim na iminência do fim da dinastia Ming foi, no Norte, uma figura notável no ressurgência da pintura de figuras que no Sul, com Chen Hongshou (1599-1652), protagonizavam esse ressurgimento com estranhas representações de figuras humanas e dos seus ambientes.

Adjectivos como «bizarro», «excêntrico», «peculiar» mas também «arcaico», foram atribuídas às suas pinturas. Esta última, no entanto, aponta já para uma vontade comum aos pintores literatos: se eram anacrónicas elas continuavam a corresponder ao desejo de fazer da pintura um veículo para referir elevados sentimentos e fluidos pensamentos.

As figuras de Cui Zizhong pareciam por vezes exprimir esse esforço. Olhando as suas vestes desalinhadas alguns notaram como pareciam pessoas chegadas de noites insones em conversas longas que não deixaram sequer um tempo para descansar. Outros pintores, em suas obras, seguiram estas visões extravagantes provando que as reuniões figuradas talvez correspondessem a diálogos autênticos.

Tal será o caso de um literato amigo de Cui Zizhong que depois dos sessenta anos se dedicou só à pintura na corte, na Academia imperial de pintura de Pequim, restaurada na dinastia Ming, chamado Wang Chongjie (1605-1667). Para o retrato que Wang Chongjie fez no Verão de 1657 do pintor de Suzhou, Wang Jian (1598-1677) que está na Galeria de Arte Kaikodo, no Havai (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 43,3 x174 cm) contribuiriam outros importantes autores que participavam nesses diálogos: Wang Wu (1632-90), de acordo com um colofóne, fez a paisagem à volta do retratado, com um rio onde nadam dois patos, e ao lado da pintura, o celebrado pintor Wu Weiye (1609-71) que viveu com mágoa a transição dinástica, escreveu um poema.

Wang Chongjie ao fazer o retrato de Wang Jian dir-se-ia estar a fazer uma síntese do estado da arte no seu tempo. Não só ele era neto do célebre e venerado pintor Wang Shizhen (1526-90) como o cuidadoso tratamento das sombras do rosto poderá indiciar a apropriação de uma nova forma de fazer resultante do contacto com pintores europeus que se encontravam na corte no fim dos Ming.

Num álbum que mostra literatos junto a cursos de água (tinta e cor sobre seda, 25,5 x 31,3 cm, no Museu Angewandte kunst de Frankfurt) quando há montanhas são apenas esquemáticas. Se, como disse Confúcio, as montanhas agradam ao coração e as águas correntes ao pensamento, poder-se-á deduzir que era esse fluir das águas que os inspiravam. E sobre o que versavam esses diálogos no meio da pristina natureza, Zhang Yanyuan no séc. IX, escrevendo sobre o carácter edificante da pintura, disse: «ela é um meio através do qual eventos são preservados, de maneira tal que servem como modelos (para os virtuosos) e avisos (para caminhos errados)».

2 Dez 2025

O Oceano taoista

Por Ana Cristina Alves, Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau1

A filosofia taoista dos primórdios, a de Laozi e do Livro da Via e da Virtude (《道德经/經》) , escolherá a água do oceano e do mar como imagem privilegiada do Tao (道 Dào), aquele que não pode ser dito, sem forma, de que dependem o próprio universo e os dez mil seres (万物 wânwù) que nele habitam, bem como os primeiros princípios da existência, o vazio (無/无 wú), o masculino yang (陽/阳 yáng) e feminino o yin (阴/隂yīn).

Esta escolha de uma filosofia autóctone da China encontra o seu eco na linguagem e filosofia populares, por exemplo em expressões como “capacidade enorme” (海量Hǎiliàng), que tanto pode ter uma interpretação afetiva e social de portentosa generosidade ou magnanimidade, como ainda física e concreta, aplicando-se a alguém que consiga ingerir amplas quantidades de álcool. O mar encontra-se, ainda, ligado à palavra boa e constante, por exemplo na “jura de amor eterno tão enérgica como o mar e firme como a montanha”, onde montanha empresta acrescida firmeza à promessa (海誓山盟 ou 山盟海誓Hǎishì-Shānméng ou Shānméng-Hǎishì).

O oceano, o mar, mas também os grandes rios são constituídos por água dadivosa, tanto na filosofia popular como na erudita taoista. Aqui a água é o modelo figurado do Tao, como se lê no Livro da Via e da Virtude e na melhor sinologia, pelo que se aconselha a leitura adicional de Alan Watts Tao: The Watercourse Way.

Vale a pena dedicar especial atenção aos capítulos em que a água surge como a figuração mais aproximada do Tao no Livro da Via e da Virtude, a saber: os capítulos 8, 14, 34, 66 e 78.

No capítulo 8 é-se informado que o Tao é o bem supremo “como a água” (上善如水) (Abreu, 2014, 43), mas não é a própria água. Portanto, será pela semelhança de funções que ambos são comparados. Ora a água é generosa, concedendo a vida a todos os seres, sem estabelecer qualquer distinção entre eles, a sua dádiva alcança mesmo aqueles de quem ninguém gosta e penso, por exemplo, nos parasitas. Ela mantém-se junto da terra para a fertilizar, é profunda, simples, verdadeira, justa e correta e muito oportuna, quando lava e limpa no tempo certo.

Assim é também o Tao. Nos primeiros versos do capítulo XIV, a respeito do Tao, volta a surgiu uma imagem aquática:

Olha-se e não se vê,

Chama-se Indistinto.

Escuta-se e não se ouve,

Chama-se Silencioso.

Toca-se e não se apanha,

Chama-se Subtil.

Este trio não é decifrável

Pois funde-se numa unidade

(視之不見名曰夷/聽之不聞名曰希/搏之不得名曰微/此三者/不可致詰/故混而為一)2 (Ribeiro, 2004, 32-33)

E um pouco adiante é-nos dito que ele é inominável e ininterrupto (繩繩不可名) (Ibidem)

O Tao é como um oceano, uma unidade ininterrupta e inesgotável em que alguém se imagina facilmente a nadar numa água não demasiado luminosa nem sombria, como viria a suceder a Michael Saso na sua 14ª meditação sobre o Tao, em A Taoist Cookbook. with Meditations from the Laozi DaodeJing, à qual denominou “Nadar no Tao” (Saso, 1994,47), meditação que ele faz acompanhar por uma receita de espinafres, pasta de soja e sésamo, já que o sábio é aquele que “esvazia a mente e enche o ventre” (虛其心實其復) (Ribeiro, 2004, 10-11), aqui se sente como o autor está imerso no grande Tao seguindo ao sabor da corrente.

A água pode ainda ser figurada num grande rio, como sucede no capítulo 34:

O grande Tao inunda como um rio,

Para a esquerda, para a direita,

Dele dependem os dez mil seres.

(大道泛兮/其可左右/万物恃之而生)

(Abreu, 2013, 94-95)

No mesmo capítulo é-nos dito que o Tao não só dá vida como nutre e alimenta, sendo porto de abrigo essencial no regresso às origens, não para a morte, mas para a vida eterna diluída na grande unidade, sendo por isso ele grande, tão grande como o mar, ou melhor o grande mar, que é o oceano.

Quem queira estar como deve ser na existência ou até governar corretamente o mundo, deve seguir o modelo da água dos rios e dos mares, como se lê no capítulo 66:

Rios e mares são superiores a cem vales

Porque permanecem abaixo deles,

e assim são príncipes, dominando cascatas e correntes.

(江海所以能为百谷王者/以其善下之/故能为百故王)3

(Abreu,2013, 158-159)

O comportamento do sábio distingue-se pela maleabilidade e espontaneidade. Não se impõe, pelo que é respeitado por todos, só ele deve então governar, porque age bem naturalmente, sem oprimir, sem magoar deixando que todos sigam o seu curso o mais livremente possível, como é reiterado no capítulo 78:

Nada no mundo é mais maleável e flexível

quanto a água,

mas no ataque ao que é duro e rijo

nada consegue ultrapassá-la

e nada há que a substitua.

(天下莫柔弱於水/而攻堅強者莫之能先)

(Ribeiro, 2004 160-161)

A água taoista de Laozi é entre os Cinco Elementos Chineses (Água, Madeira, Fogo, Terra, Metal) aquele que evoca grande unidade oceânica fonte de vida de tudo o que existe, mas também de morte, ou melhor, de regresso às origens e à vida eterna, quando esta imagem representa o princípio filosófico Tao. E se a água, doce e salgada, é o supremo bem do mundo, o Tao é a origem, o supremo bem, inclusive do Céu. Enquanto raiz ou fêmea misteriosa (cap 6) é a raiz do cosmos tal como o conhecemos e experienciamos. Ele é fonte de vida espiritual e material, mas a água também, já que o seu modelo deve ser seguido em todas as circunstâncias desde a fonte material dos seres à complexa conduta humana. As pessoas que agem corretamente e, sobretudo os sábios e santos taoistas, têm presente o modelo físico e concreto da água que os auxilia a praticar um outro invisível, o do Tao. Serão então maleáveis e adaptáveis, capazes de se nutrirem por dentro e de darem vida a qualquer forma por fora. Saberão como transformar-se para melhor nutrir e vivificar.

O modelo oceânico taoista difere daquele que animou ao longo da história os portugueses que olharam para o mar como o seu oceano. A água taoista não é desafiante nem chama à conquista, não possui cabos da tormenta ou da esperança a dobrar, não solicita armas nem embarcações, nem mapas, nem instrumentos náuticos. Ela é o elemento dominante, conquistador por dentro de todos os seres, que se vão adaptar a este elemento maximamente maleável, sem que para tal necessitem de desenvolver o seu espírito inventivo. A filosofia a que conduz não pede vigilância nem espírito crítico, mas adaptação ao mundo tal como ele é e generosidade para o aceitar com o mínimo de sofrimento e o máximo de alegria.

Referências Bibliográficas

Laozi. 2013. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude.Tradução der António Graça de Abreu. Edição Bilingue. Lisboa: Vega.

Laozi. 2013. Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Tradução de Cláudia Ribeiro. Edição Bilingue. Mem Martins: Publicações Europa-América.

Saso, Michael. 1994. A Taoist Cookbook. With Meditations from the Laozi DaodeJing. Tokyo, Boston, Massachussets: edição de autor.

Watts, Alan. 1975. Tao: The Watercourse Way. New York: Pantheon Books.

NOTA: Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Texto em chinês clássico.

Texto em chinês simplificado.

1 Dez 2025

Guardião da Profecia do Jade

Entrevista com James Yanzhao Xing, coleccionador particular chinês residente em Xi’an, especializado em Jade da Antiguidade (Jade Arcaico)

Há quatro anos, em 2021, James herdou mais de 300 peças de antiguidades do seu pai idoso. A herança familiar remonta à dinastia Song (séculos X-XIII) e a coleção inclui itens requintados de jade, porcelana, artigos de bronze, queimadores de incenso e joias de alto valor de vários períodos. Durante os anos turbulentos da guerra, esses tesouros ficaram enterrados num buraco no quintal durante décadas. Agora, através do seu projecto de curadoria interdisciplinar, eles estão prestes a entrar num diálogo dinâmico com os mundos da moda, da arte e do desporto.

Joy: Como se sentiu quando recebeu a herança familiar?

Fiquei completamente surpreendido! Os meus irmãos e eu não fazíamos ideia de que a nossa família possuía tais coisas. Éramos ignorantes sobre a nossa história familiar.

Joy: Fale-me sobre a história da sua família.

James: O nosso apelido original era Zhao e pertencíamos à família imperial da dinastia Song. As nossas raízes estão no coração da civilização chinesa. A história chinesa tem sido complicada e turbulenta e a minha família não conseguiu preservar os detalhes dos nossos altos e baixos específicos. Tudo o que sei é que, em 1931, para fugir da ocupação japonesa, a minha avó levou o meu pai e outros membros da família e, juntos, caminharam até Chongqing, no sul. O meu pai ainda era um menino. Para sobreviver e cuidar melhor do filho e da família, a minha avó decidiu casar-se novamente com um clã local chamado Xing. A família Xing aceitou a proposta, desde que a minha avó lhes pagasse 300 taéis de prata, uma quantia significativa na China durante a guerra. Foi assim que mudámos o nosso apelido imperial Zhao para Xing. Depois de se casar novamente, a minha avó pediu ao meu pai para cavar um buraco no quintal. Foi aí que a herança da família ficou guardada, até que o meu pai decidiu passá-la para mim. O meu pai não queria dividir a colecção entre os meus irmãos, pois sabia que eu era o único que poderia apreciar o seu verdadeiro valor. Para retribuir a apreciação do meu pai por mim, dei imediatamente um nome à minha coleção particular: Jade Ambience, 琼华幸境 em chinês.

Joy: Porquê esse nome?

James: Sinto que sempre tive sorte na vida, como se sempre tivesse sido protegido por alguma força sobrenatural com a qual eu poderia curar doenças estranhas e salvar pessoas. Sabe, adoro ajudar as pessoas e não suporto ver tristeza e injustiça no mundo. Desde criança, salvava vidas durante as inundações anuais do rio Yangtze, em Chongqing. Não temia pela minha própria vida, porque sabia que estava protegido. Será um dom? Gostaria de acreditar que sim. Até abandonei a carreira de empresário de sucesso e decidi que queria ser soldado, para poder contribuir de verdade para o meu país, em vez de ganhar muito dinheiro. Cheguei a recusar uma oportunidade de ir para os EUA e dirigir uma empresa lá. Isso foi em 1989. As experiências no exército tornaram-me mais forte, tanto física quanto mentalmente. Eu valorizo as experiências da vida, pois elas fazem-me entender melhor o mundo humano e dão-me energia positiva para apreciar cada dia. De alguma forma inexplicável, atribuo tudo isso aos itens de jade da minha coleção (risos).

JOy: De facto, o povo chinês acredita que a pedra de jade irradia energia positiva. Desde os tempos antigos, o jade tem sido associado ao poder protetor, ao poder de cura e à imortalidade. Qual é o verdadeiro valor da sua coleção, na sua opinião?

Como disse, o jade tem um lugar muito especial na cultura chinesa. O jade simboliza a integridade moral e a virtude, que é o valor simbólico central da pedra.

O confucionismo ligou inextricavelmente o jade ao ideal da «pessoa exemplar» (junzi 君子), que deveria incorporar as virtudes reflectidas nas qualidades físicas do jade, incluindo benevolência, rectidão, sabedoria, coragem («É melhor ser um jade quebrado do que um azulejo intacto») e pureza.

O jade servia como expressão material de autoridade e era transformado em objectos rituais usados para comunicar com forças divinas e simbolizava o poder imperial — mais notavelmente através do lendário Selo Imperial feito de jade. Para o povo chinês comum, o jade oferece protecção e boa sorte e há muito tempo é considerado um talismã contra forças maléficas. As esculturas em jade também carregam significados auspiciosos: morcegos para bênçãos, pêssegos para longevidade e peixes para abundância. Nos sistemas de crenças antigos, acreditava-se que o jade preservava o corpo e a alma após a morte. Esse conceito encontrou sua expressão máxima nos trajes funerários de jade da dinastia Han, intrincadamente montados a partir de milhares de peças de jade para garantir a imortalidade. O jade também era visto como a essência do cosmos — uma fusão das energias vitais do céu e da terra. A língua chinesa é rica em expressões relacionadas ao jade que transmitem admiração e virtude! Portanto, os itens de jade são símbolos atemporais de amor, simbolizando afeto duradouro e sincero. Hoje, o jade continua sendo uma herança preciosa, um investimento sólido e um poderoso emblema de identidade cultural — conectando os chineses contemporâneos à nossa herança. Dessa forma, o jade contém vida antiga e nova! O jade não é apenas uma pedra preciosa cheia de vitalidade. É um marco cultural — uma ponte entre a China antiga e a China nova.

Joy: O que pretende fazer com a sua coleção?

James: Neste momento, estou a planear organizar uma exposição itinerante em Pequim, Xangai e talvez Macau. Como disse antes, o jade é cheio de vitalidade. O jade é uma ponte entre a China antiga e a China moderna. Por isso, não quero limitar a minha coleção aos círculos antigos habituais. Estou a pensar em fazer exposições cruzadas com moda, arte e desporto. Quero que o jade tenha um diálogo animado com o público chinês contemporâneo, jovem e moderno!

29 Nov 2025

O Tranquilizante Caçador na Noite Fria de Gu Deqian

Xiao Yi (508-555), o imperador Yuan de Liang (552-555), mandou fazer um rolo de pinturas documentando, através dos retratos dos respectivos embaixadores, a quantidade de Estados vassalos que nas quatro direcções eram tributários do seu reino. Assim mostrando como eram diversas as faces e as vestimentas daqueles que viviam para lá das fronteiras.

Com a passagem do tempo e os imprevistos das deslocações das cortes imperiais, esse rolo ter-se-á danificado mas durante a breve dinastia Tang do Sul (937-976) o seu terceiro e último imperador Li Yu (r. 961-976), que cultivava as artes do pincel descurando o governo do reino, ordenou que fosse feita, só a tinta, uma cópia. O uso da cópia como método permitiria a continuidade no tempo de ideias e percepções contrariando a fragilidade – dos limites da deterioração dos suportes e das próprias vidas dos autores.

Ao pintor da corte em Jiankang (actual Nanquim, Jiangsu) escolhido para fazer essa Cópia dos convidados estrangeiros entrando na corte do imperador Yuan de Liang (Liang Yuandi fanke ruchao tu, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) são atribuídas outras duas pinturas que aludem de modos distintos à circulação e passagem de limites. No rolo vertical a tinta e cor sobre seda que lhe é atribuído, Lago de lotos e aves aquáticas, no Museu Nacional de Tóquio, está figurado o ciclo natural da flor de loto, desde o botão à flor até ao murchar das folhas e flores. Noutro rolo vertical designado Caçador de noite regressando a casa numa noite de neve (tinta e cor sobre seda, 114 x 61 cm, no Museu de Arte Aplicada de Francoforte, Angewandte Kunst, Frankfurt) vê-se a figura de um homem de aspecto zangado, para exprimir poderoso, de vestes requintadas para dizer que é nobre, com uma arma insólita, um tridente, de onde pendem dois animais mortos que podem ser dois arminhos. Vem caminhando na neve sob um penhasco acompanhado por um cão cuja coleira mais parece um colar. Na verdade essas figuras podem estar a contar outra história.

Gu Deqian terá feito nessa pintura a reconhecível figura da religião popular e do daoísmo designada Erlang Shen, a «Divindade do segundo rapaz» com as suas vestes azuis de imortal, um cuidador e confiável protector, com o seu tridente sanchaji ou sanjian liangren qiang, «lança de três pontas de lâmina dupla» que xamãs manchus usavam para derrotar os espíritos maus que queriam atravessar a fronteira do outro Mundo. Aqueles que, como os arminhos (mustela erminea), eram vistos como errantes capazes de roubar e substituir as almas das pessoas. Erlang shen pode ver-se em várias representações, como aqui, acompanhado pelo cão preto xiaotian quan, o «uivante cão celestial». A neve vai derreter mas não haverá inundações porque Erlang shen não permitirá, no frio da noite o temível caçador é afinal uma figura de quietação.

26 Nov 2025

A Substância da Primavera na Visão de Yin Hong

Zhuangzi, no século IV a. C., entendia o tempo como um contínuo em transformação que não deve ser contrariado mas aproveitado numa «vadiagem feliz», xiaoyao you, fluindo com ele e para o comprovar não cessava de observar as mutações do mundo da natureza.

Os letrados adeptos das artes do pincel que o leram não deixaram de testemunhar esse incessante olhar. Na dinastia Ming, por exemplo, uma das formas de expressar essa atitude, convocando o envolvimento do observador, pode ser vista em pinturas como no engenhoso rolo das Quatro estações (Sishi shanshui, rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 35,1 x 569,9 cm, de autor desconhecido, no Metmuseum) em que ao ser desenrolada da direita para a esquerda, a pintura vai revelando sucessivamente reconhecíveis cenários que distinguem as estações do ano.

O pintor Japonês Sesshu Toyo (1420-1506), que durante dois anos foi conhecer a pintura da dinastia Ming, interpretou mais do que uma vez o tema da mudança das estações e de forma admirável em quatro rolos verticais (tinta e cor sobre seda, 149,5 x 75,6 cm, no Museu Nacional de Tóquio).

Pintados no depurado estilo então muito admirado dos mestres da antiga dinastia Song, Ma Yuan e Xia Gui, tudo neles tem o sabor da nostalgia. No primeiro, o da Primavera por exemplo, mostra a reconhecível figura de um poeta sentado de costas sobre uma mula ao deixar a casa de um amigo. Desde o início da dinastia, pintores tratavam a grandiosidade da paisagem acentuando o que é particular a cada estação do ano, revivendo esse estilo chamado «escola de Ma-Xia».

Outros, nesse tempo, exibiam de forma diferente a passagem das estações, detendo-se em meticulosas figuras de animais e plantas que são a distinta matéria de cada estação. Um membro de uma família de pintores ligados à corte, de quem hoje se conhecem poucas pinturas, numa delas figurou assim expressivamente a Primavera, quando porventura mais se sente um recomeço.

Yin Hong (c.1430-c.1500) no grande rolo vertical Encontro de pássaros sob um salgueiro na Primavera (Chunliu juqi, tinta e cor sobre seda, 240 x 195,5 cm. no Museu de Arte de Cleveland) mostra, com minúcia, na margem de um rio sob um salgueiro e à volta de uma ampla gongshi, «pedra de literatos», uma variedade de flores e aves, onde se destaca pela dimensão e exuberância um casal de pavões. A pavoa, à frente, parece estar a empurrar um dente-de-leão pugong ying, sinal de determinação e boa sorte, assim como o salgueiro é de novos inícios, de renascimento e fertilidade. E com a água abundante do rio, são todas figuras apropriadas para representar a Primavera.

Quem soubesse interpretar a cena poderia deixar-se embalar e, fluindo, dizer como o poeta Zhu Yunming (1461-1527): «Se há flores e há vinho para celebrar, cantando,/ Como é bom ser um literato e habitar a abundância preciosa do tempo!»

18 Nov 2025