Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Que Wei Zhike Viu Numa Viagem Saindo de Nanquim Zhu Yuanzhang (1328-1398) estabeleceria a sua capital numa florescente metrópole da região do delta do rio Yangzi, uma cidade que ele conhecera pelo nome Jiqing mas que, no ano de 1356 mudara para Yingtan, «em resposta ao Céu», ainda antes de ser o imperador Hongwu (r.1368-98) o fundador da dinastia Ming (1363-1644). Nessa cidade, hoje conhecida como Nanjing, a «capital do Sul» na Província de Jiangsu, mandou erigir uma monumental muralha com cerca de quarenta e oito quilómetros que impressionava os candidatos que vinham de toda a área de Jiangnan, «ao Sul do Grande rio Changjiang», uma região onde hoje estão as três Províncias de Anhui, Jiangsu e Xangai, para o exame trienal jinshi que os habilitava a exercer funções na burocracia imperial. Ao longo da dinastia Ming a fama literária e artística da cidade foi-se expandindo dada a presença de tantos homens instruídos na milenária cultura que habitualmente na Primavera se dirigiam ao Jiangnan Gongyuan, «o Palácio dos exames» e depois vinham saber os resultados, o anúncio fangbang, a «publicação do rol». Inspirados por reminiscências do seu augusto passado, evocando figuras que lá viveram como o calígrafo Wang Xizhi ou o celebrado pintor Gu Kaizhi, a vitalidade da cidade e a sua atractividade de que também fazia parte a efervescente vida urbana ao longo do rio Qinhuai, não esmoreceu. Nos últimos anos, quando o fulgor da dinastia iluminava mais, um letrado dedicado à pintura de modo profissional fez num rolo uma descrição de um caminho que ia em sentido inverso. Contrariando a sensação de sufoco na buliçosa metrópole e para ser observada de modo individual e lento. Num rolo horizontal com Paisagens das quatro estações e nos estilos de antigos mestres (tinta e cor sobre papel, 32,1 x 1183,6 cm, no Metmuseum) o pintor Wei Zhike (activo c. 1600 – depois de 1635) a representação inicia-se com reconhecíveis monumentos da cidade. Como a torre liulita, o «pagode de cerâmica vidrada», que de dia reflectia a luz solar e de noite luzia à claridade de cerca de cento e quarenta luminárias. Wei Zhike, realizando a ideia que está na expressão woyou, enunciada pela primeira vez por Zong Bing (375-443) de «viajar reclinado», mostra a seguir uma porta da muralha, atraindo o olhar do observador para sair, estendendo o rolo, numa viagem por caminhos desconhecidos e de constante adaptação a mudanças climáticas e de estilo de representação. Mas onde é reconhecível uma ondulante linha com quem o espectador vai, ajustando-se a rios com e sem ondas, montanhas que surpreendentemente se derramam e nuvens delineadas ou figuradas apenas como espaço em branco. E também evocando a forma como o engenho humano gentilmente se foi espelhando no carácter adaptativo da água, com diversos formatos de pontes para a ultrapassar ou noras que aproveitam a sua força.
Ana Cristina Alves Via do MeioCavalo de Fogo Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau Ao escutar a Palestra Sobre o Ano do Cavalo da Professora Wang Suoying no Centro Científico e Cultural de Macau relativa à astrologia chinesa e, especificamente, o Cavalo de Fogo, que vai inaugurar um novo período zodiacal a partir de 17 de fevereiro de 2026, pude recordar algumas das características essenciais do equídeo, transmitidas pela sabedoria popular chinesa. Assim o cavalo começa por se conjugar mitologicamente com o dragão em Cavalo-Dragão (龙马Lóngmǎ). Esta é conjugação ideal, tanto ao nível mental como estético. Do ponto de vista espiritual, o par permite o acesso à organização do mundo pautado pela sabedoria intuitiva, já que foi no dorso deste animal que o primeiro imperador lendário chinês Fuxi (伏羲) descobriu os oito trigramas, fundamentais para a compreensão do mundo. Recordemo-los: o Céu Criativo (乾 Qián), a Terra Recetiva, (坤 Kūn), a Água abissal (坎Kǎn), o Fogo aderente(离 Lí), o Trovão ou Raio despertante (震 Zhèn), O Vento gentil e penetrante (巽 Xùn) , o Lago Alegre (兑Duì) e a Montanha tranquila (艮 Gě) . Estes oito trigramas, com as qualidades já mencionadas, deram origem aos 64 hexagramas que compõem o Clássico das Mutações, como já tive oportunidade de referir, por exemplo, no texto A Mulher na China (2007) ou no trabalho poético Visitações (2022). Pela composição dos trigramas em hexagramas se expõe um mundo que poeticamente se desvenda, consoante as capacidades intuitivas e imaginativas de cada um, com preceitos abertos às experiências existenciais passadas, mas também presentes e futuras. Cada qual poderá encontrar aquilo procura ao mesmo tempo que se cria e recria com o auxílio dos elementos reais do Céu, da Terra, do Fogo, da Água e todos os outros que considerar úteis ao seu caminho existencial, também traçado com a ajuda da mente e, sobretudo, da imaginação. Ainda na sua ligação com o dragão na expressão proverbial “o Espírito do Cavalo-Dragão” (龙马精神Lóngmǎ jīngshén) representa a concretização de um ideal estético repleto de energia, beleza e poder de transformação, tal como são estes animais para os chineses. Parte-se, no entanto, de um chão concreto para depois voar. A terra da sabedoria popular diz-nos que o cavalo é um animal nobre e leal, que conhece o caminho (老马识途Lǎomǎ-shítú), já que a experiência é nele a mãe da sabedoria, mas não é uma vivência qualquer: é enérgica, boa amiga e leal. Esta lealdade e energia não podia ser mais nobre, até porque desde a antiguidade chinesa os equídeos eram os fiéis companheiros dos nobres. Por isso, também o cavalo (马mǎ) surge associado na linguagem à nobreza (侯hòu) e, por um jogo de homofonias, ao macaco (猴hóu), daí que se numa pintura o macaco aparecer em cima do cavalo, significa a possibilidade de se receber um título honorífico, ou seja, de se elevar a condição. Um cavalo pode desenvolver muita energia, sendo os mais aptos aqueles que percorrem mil milhas (千里马Qiānlǐmǎ), sejam equídeos ou humanos, porque também há gente a transbordar de capacidade e energia, à semelhança destes animais, estando em posição mais favorável para cultivar o entusiasmo e o dinamismo os que tiveram a bênção de nascer sob os bons auspícios do Cavalo. Este ano de Fogo. A sugestão é a de regressar ao Clássico das Mutações (易经Yì jīng), para se procurar perceber o que tem para oferecer o hexagrama do Fogo, que é aderente e brilhante, composto por dois trigramas de Fogo (离下、离上 Lí Xià, Li Shàng), portanto a representação do elemento em estado puro, possibilitando deste modo a compreensão das características fundamentais do Cavalo de Fogo que entra a meio de fevereiro. Lê-se na interpretação de Richard Wilhelm, traduzido para inglês por Cary F. Baynes (1989, 118-121), que o fogo é dependente, está sempre condicionado a algo ou outrem, por exemplo à combustão da Madeira, só assim consegue ser tão vivo e brilhante, e quanto mais arde, mais se eleva da terra rumo ao céu. No juízo das linhas é-se informado que caso adira com perseverança tal como uma vaca, terá o sucesso garantido (離,利貞,亨。畜牝牛,吉。2) (Zhang, 1995,131). No que respeita a sua imagem, surge a iluminar e duplamente, já que quando brilha o faz para si e para os outros (《象》明兩作,離;大人以繼明,照於四方) (Zhang, 1995,135)., tal como o sol ao longo do dia brilha e aquece a terra. Sendo um elemento condicionado, como afinal todos os outros, num mundo em interdependência, tudo o que não for arder pela positiva e para o bem deve ser abandonado, tal como os antigos chefes chineses dos finais das dinastias que deixavam de ser modelares e se tornavam caprichosos e destrutivos. A energia positiva do Cavalo de Fogo é como um sol benfazejo que a todos inspira. Caso se pergunte a o maior de todos os poetas chineses, Li Bai (701-762), aqui na tradução de António Graça de Abreu, em Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首 quais as virtudes a que associa ele ao cavalo, lemos em resposta, por exemplo, em “O teu cavalo baio 君马黄” que é à amizade e à experiência de vida, com os seus altos e baixos, mas sempre merecedora de ser vivida na companhia de bons amigos: 君马黄,我马白。 马色虽不同,人心本无隔。 共作游治盘,双行洛阳陌。 长剑既照曜,高冠何赤3赫。 各有千金裘,俱为五侯客。 猛虎落陷阱,壮士时屈厄。 相知在急难,独好亦何益。 O teu cavalo é baio o meu cavalo é branco. Diferente a cor dos cavalos, semelhante o coração dos amigos. Pelas ruas de Luoyang conhecemos dias felizes, espada à cintura, chapéus altos, valiosos casacões de pele. convidados de cinco marqueses. Mesmo os tigres caem na armadilha. Hoje fortes e valentes, Amanhã sujeitos às desventuras da sorte. Se tal um dia acontecer, A ajuda de um amigo. (Abreu, 2021, 174) Num salto até aos tempos contemporâneos, vai-se encontrar no poeta Yao Feng (1958-), em Palavras Cansadas da Gramática (2014) a mesma leitura tradicional e uma identificação interessante com o cavalo, em “Cavalo Velho”, preservando a ideia da amizade que se estende ao longo dos séculos chineses, mas numa apresentação ao avesso da condição livre do animal, que surge, tal como sucede mutatis mutandis a tantas pessoas, triste e aprisionado, contranatura, a uma carroça, ou seja, a uma condição social, traduzida na prestação de serviços a outrem: Habituado ao cocheiro, aos transeuntes, aos carros Esquecido de como é galopar Pele suja e flácida, sombria como o fim do dia Os cascos ferrados tornam o trilho na planura Ainda mais longo Sentado numa ruidosa taberna da vila Vi um cavalo vergado ao peso da carroça Encosta acima e gostaria De lhe dizer na sua língua: Entre cá velho amigo, pago-te um copo! (Yao, 2014, 122) É por certo contra a natureza essencial dos equídeos deixarem-se aprisionar, eles que amam correr em liberdades pelas pradarias e estepes, pelas montanhas e vales, podem ser domesticados por amizade, sofrendo e participando no lugar da ordem social que os humanos lhes destinaram. E à semelhança das pessoas, também eles envelhecem perdendo muito do vigor e energia com que nasceram, o que se reflete na pele que larga o brilho e que descai flacidamente. Mas enquanto estão na força da vida, e se têm a sorte de se manterem em liberdade, não há maior dinamismo do que o deles. Para concluir, o meu tributo poético ao Ano do Cavalo que galopa em nossa direção a transbordar de força, entusiasmo e alegria: Cavalo de Fogo Belo, veloz, sonhador, Corre contra a dor, Crescendo em vento ou brisa na esteira das flores, Elas dançando à passagem, das patas carregadas de terra e calor. Belo, veloz, sonhador, carrega o macaco, E no dorso o dragão, chamam-lhe o Espírito do Cavalo-Dragão. 龙马精神 Horse-Dragon Spirit, Em ano que traz o brilho e a luz como arautos, soando forte e bem alto. Bibliografia Abreu, António Graça de. 2021 (Org. e Trad.). Cem Poemas de Li Bai 李白诗一百首. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim. Alves, Ana Cristina. 2022. Visitações. Fafe: Labirinto. ________________. 2007. A Mulher na China. Lisboa: Editorial Tágide. Wang Suoying. 2026. Palestra sobre o Ano do Cavalo. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau. Palestra proferida a 8 de fevereiro. Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group. Yao Feng. 2014. Palavras Cansadas da Gramática. Lisboa: Gradiva. 張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚. Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. Texto em chinês tradicional. Há um sinograma arcaico para vermelho que alia vermelho a cor, e que está no texto original, mas que não consegui encontrar, pelo que fica o registo em separado: 赤+色, assim como a sugestão de aproveitar a ocasião para consultar o poema no original.
Hoje Macau Via do MeioPoemas de Lu Xun Poucos conhecidos, marginais à obra do grande escritor da primeira metade do século XX, mas essenciais para nos proporcionarem uma proximidade ao homem e aos interstícios da sua obra. A Via do Meio inicia hoje a apresentação dos poemas de Lu Xun, nunca antes vertidos em língua portuguesa, com tradução e comentários de Sara F. Costa. Longe dos Irmãos 別諸弟 Bié zhū dì (庚子二月) 1 (Gēngzǐ èr yuè) 謀生2 無奈日奔馳, Móu shēng wú nài rì bēn chí, 有弟偏教各別離。 Yǒu dì piān jiào gè bié lí. 最是令人淒絕3處, Zuì shì lìng rén qī jué chù, 孤燈4 長夜雨來時。 Gū dēng cháng yè yǔ lái shí. Longe dos Irmãos (Segundo mês do ano Gengzi) Para ganhar a vida, corro sem escolha, tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles. O que mais faz sofrer até à desolação é a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária. Contextualização e comentário O poema 〈別諸弟〉 (Longe dos Irmãos), datado do segundo mês do ano Gengzi (庚子二月, 1900), integra a produção poética juvenil de Lu Xun, escrita em chinês clássico (文言文) e formalmente inscrita na tradição canónica do jueju (绝句) de cinco caracteres. Embora esta vertente da sua obra seja menos conhecida do que a produção ensaística e ficcional em baihua (白话), o poema revela já um conjunto de tensões éticas, afetivas e existenciais que atravessarão toda a sua escrita posterior. À data da composição, Lu Xun tinha dezanove anos e encontrava-se numa fase marcada por dificuldades económicas e por sucessivas separações familiares. Após a morte do pai, ocorrida três anos antes, recaíram sobre si responsabilidades materiais e morais em relação aos irmãos mais novos, de acordo com a ética familiar tradicional. O afastamento para Nanquim, onde frequentou primeiro a Escola Naval e depois a Escola de Minas e Caminhos-de-Ferro, não resultou de uma vocação idealizada, mas de uma necessidade concreta: assegurar a subsistência da família através do acesso ao ensino gratuito e às bolsas de estudo. A inscrição temporal do poema no calendário tradicional chinês ancora esta experiência individual num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, reforçando o conflito entre dever, sobrevivência e afastamento. O poema apresenta a forma concisa e altamente condensada do jueju, recorrendo a procedimentos sintáticos característicos do verso regulado e a um vocabulário de forte densidade semântica. O primeiro verso — “Para ganhar a vida, corro sem escolha” — introduz o núcleo ético do texto. O sintagma móu shēng (謀生), “ganhar a vida”, surge aqui despojado de qualquer valor vocacional ou edificante, remetendo para a dimensão estritamente material da existência. A opção tradutória pelo verbo correr traduz o valor dinâmico de bēnchí (奔馳), intensificando a ideia de urgência, desgaste e movimento contínuo. A vida não se apresenta como algo que se sustenta passivamente, mas como algo que se persegue num ritmo forçado, sem margem de escolha nem possibilidade de pausa. No segundo verso — “tenho irmãos — e sigo por caminhos distintos dos deles” — a separação é formulada como divergência de trajetórias. A manutenção do plural preserva a referência concreta ao núcleo familiar, enquanto a imagem dos “caminhos distintos” desloca o poema para uma reflexão mais ampla sobre a assimetria dos destinos na entrada na vida adulta. A existência dos irmãos não atenua a separação; pelo contrário, torna-a mais consciente e mais pesada. O afastamento não é apresentado como rutura súbita, mas como consequência inevitável do próprio movimento da vida, inscrito no tempo e nas escolhas impostas pelas circunstâncias. O dístico final concentra o núcleo emocional do poema numa imagem de forte tradição literária: “a chuva da noite longa, junto à lâmpada solitária”. A lâmpada (gū dēng 孤燈) é um símbolo recorrente da vigília, do estudo e do isolamento do letrado, enquanto a chuva noturna remete para a nostalgia e a melancolia de quem se encontra longe de casa. Esta imagem, presente desde a poesia da dinastia Song — nomeadamente em autores como Lu You (1125–1210) — articula espaço exterior e interior, fazendo coincidir a persistência da chuva com a duração da consciência desperta. A dor não se exprime por enunciação direta, mas pela insistência do tempo noturno e pela solidão iluminada. A tradução portuguesa acentua esta dimensão ao optar por uma sintaxe fluida e por imagens que preservam a contenção do original, sem empobrecimento expressivo. O verso “O que mais faz sofrer até à desolação” recupera a fórmula intensificadora zuì shì lìng rén qī jué chù (最是令人淒絕處), recorrente na tradição poética chinesa para condensar o grau máximo da dor num ponto preciso do poema. A escolha lexical privilegia a continuidade emocional e a progressão interna do texto, evitando tanto a literalidade rígida como a amplificação retórica. Este poema juvenil revela já um traço central da escrita de Lu Xun: a preferência por imagens densas e estruturalmente carregadas em detrimento da expressão direta do sentimento. A experiência da separação familiar, da necessidade material e da solidão noturna surge articulada com clareza e economia, sem apelo ao consolo nem à reconciliação. A divergência dos caminhos afirma-se como dado constitutivo da vida adulta, assumido com lucidez e sustentado por uma imagética capaz de concentrar, em poucos versos, uma experiência de perda que não se resolve, mas se aprende a suportar à luz frágil de uma lâmpada. Gengzi (庚子) corresponde ao ano de 1900 segundo o calendário tradicional chinês, baseado no sistema sexagenário que combina os Dez Troncos Celestes (天干) e os Doze Ramos Terrestres (地支). O “segundo mês” refere-se ao segundo mês lunar, e não ao mês civil ocidental, situando o poema aproximadamente entre fevereiro e março de 1900. A utilização desta datação tradicional inscreve o texto num tempo cíclico e ritual, associado à ordem familiar e cultural, em contraste com o calendário gregoriano de uso administrativo. 謀生 (móu shēng), “ganhar a vida”, é um termo forte, quase impróprio para um jovem estudante. No contexto de Lu Xun, designa a necessidade de escolher estudos técnicos e utilitários como único meio de sustento, não como realização pessoal. 淒絕 (qī jué), “tristeza cruel, desolação extrema”. A sequência zuì shì lìng rén… (“o que mais faz sofrer…”) é uma construção poética recorrente para exprimir o grau máximo da dor. 孤燈 (gū dēng), “lâmpada solitária”, pode designar tanto uma lâmpada a óleo como uma vela. Na tradição poética chinesa, associa-se ao estudioso isolado, ao exilado ou ao viajante afastado do lar.
Hoje Macau Via do MeioStarmer em Pequim e a visão ampla da História Por Xu Zeyu Enquanto Sir Keir Starmer passeava pela Cidade Proibida, o monumento de seis séculos do poder dinástico chinês, as redes sociais fervilhavam com comparações sarcásticas à visita de Donald Trump em 2017, quando o presidente dos EUA foi pessoalmente acompanhado por Xi Jinping pelos mesmos salões e pátios com toda a pompa de um dignitário. Os críticos de poltrona criticaram avidamente a presença relativamente discreta de Starmer: sem multidão isolada por cordas, sem líderes proeminentes ao seu lado. Bem em frente ao Salão da Harmonia Suprema, onde Starmer parou para apreciar a grandiosidade, Trump questionou uma vez a reivindicação da China à antiguidade: «Acho que a cultura mais antiga, dizem eles, é a do Egipto, com 8.000 anos.» Xi respondeu: “O Egipto é um pouco mais antigo. Mas a única civilização que continua ininterrupta é a China.” Mais cedo naquele dia, durante conversas formais antes da visita de Starmer à Cidade Proibida, Xi tocou um tema histórico semelhante com o primeiro-ministro britânico, invocando o que chamou de “visão ampla da história”. Ao contrário do que as ridicularizações online sugerem, Pequim estendeu o tapete vermelho para o primeiro líder britânico a visitar a China em oito anos, que foi recebido sucessivamente pelas três principais figuras da política chinesa: o presidente Xi Jinping, o primeiro-ministro Li Qiang e o presidente do Congresso Nacional do Povo, Zhao Leji. A reunião formal com o presidente Xi, originalmente programada para 40 minutos, se estendeu por 80 minutos, resultando em trocas produtivas que as autoridades de ambos os lados descreveram como “calorosas e construtivas”. Foi nessa ocasião que Xi disse a Starmer: “A China está pronta para trabalhar com o Reino Unido na defesa de uma visão ampla da história, superando as diferenças e promovendo o respeito mútuo, a fim de transformar o potencial promissor da cooperação em realizações notáveis, abrir novas perspectivas para as relações e a cooperação entre a China e o Reino Unido, para melhor beneficiar os dois povos e o mundo em geral.” A formulação é particularmente pouco ortodoxa num contexto diplomático. Xi Jinping abordou o conceito de «visão ampla da história» em fevereiro de 2021, quando exortou uma sala cheia de altos funcionários do Partido a estudar história antes do próximo centenário do Partido Comunista Chinês. Na conferência, ele observou: «Devem ser envidados esforços para educar e orientar todo o Partido a ter em conta a estratégia de rejuvenescimento nacional da China num contexto de mudanças globais de uma escala nunca vista num século, desenvolver uma grande visão da história, examinar a dinâmica da mudança e identificar padrões históricos a partir do longo curso da história, da maré dos tempos e do panorama global, formular estratégias e políticas correspondentes e avançar o nosso trabalho com uma abordagem holística, perspicaz e inovadora.» Como uma terminologia distintamente partidária enraizada na ideologia marxista, a “visão ampla da história” raramente tem sido invocada em público, mesmo quando o líder máximo se dirige aos quadros do partido. Utilizar tal termo ideológico durante uma reunião com um chefe de governo estrangeiro em visita foi, portanto, uma jogada altamente calculada, codificada com subtexto. No voo para Pequim, Starmer advertiu que as relações sino-britânicas não devem desviar-se de uma “era de ouro” para uma “era glacial”. Mas as observações sobre uma “visão ampla da história” pareciam refletir a perspectiva de Pequim sobre essa trajetória — ou seja, o abandono por Londres do seu compromisso com a “era de ouro” assumido há uma década. Quando Xi fez a sua primeira visita de Estado à Grã-Bretanha em 2015, fazia pouco mais de uma década que os dois países haviam estabelecido uma “parceria estratégica abrangente”. Na época, a Grã-Bretanha era o segundo maior parceiro comercial da China e o principal destino de investimentos na Europa. Londres posicionou-se como pioneira em finanças, tornando-se o primeiro país ocidental a emitir títulos soberanos em RMB e a primeira grande potência ocidental a aderir ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, iniciado por Pequim. Barbara Woodward, então embaixadora britânica na China, anunciou que a visita estabeleceria «uma parceria global para o século XXI e daria início a uma década dourada nas relações entre a China e o Reino Unido». A «década dourada» que se seguiu, no entanto, desenrolou-se precisamente na direção oposta. Meses depois da visita de Trump à Cidade Proibida em 2017, Washington lançou a primeira ronda da guerra comercial contra a China. A Grã-Bretanha, seguindo os passos de Washington na estratégia de contenção, adoptou uma postura cada vez mais adversária em relação a Pequim em questões como os distúrbios em Hong Kong, o algodão de Xinjiang, a «redução de riscos» nas cadeias de abastecimento e o bloqueio tecnológico contra a China, desmantelando efetivamente a visão comum de aprofundamento das relações bilaterais. Hoje, enquanto os EUA lançam olhares cobiçosos sobre a Gronelândia, denigrem a memória dos soldados britânicos mortos e ameaçam uma ofensiva tarifária contra a parceria transatlântica sob a chamada “Doutrina Donroe”, a iniciativa de Londres de restabelecer as relações com Pequim parece menos uma mudança estratégica e mais uma proteção desesperada contra a “Discordia Americana”. Do ponto de vista de Pequim, este súbito aquecimento diplomático parece lamentavelmente desprovido de uma visão histórica genuína a longo prazo. As aberturas da Grã-Bretanha parecem a mais recente oscilação política impulsionada pelos caprichos inconstantes de Washington. Isto levanta naturalmente uma questão: se um presidente menos idiossincrático entrar na Casa Branca em 2029, será que o número 10 voltará a considerar aceitável um regresso à «era glacial» com a China? Este cepticismo é ainda mais profundo. Um importante estudioso chinês de política americana certa vez comparou a relação entre os EUA e a Europa a um casamento: eles podem “brigar na cabeceira, mas reconciliam-se nos pés da cama”. Esta expressão chinesa captura o sentimento predominante nos círculos estratégicos chineses: apesar de todos os atritos recentes, o Ocidente continua a ser um clube exclusivo, mesmo que temporariamente disfuncional. Enquanto políticos ocidentais como Mark Carney se preocupam com uma «ruptura» na ordem pós-Guerra Fria, para grande parte do Sul Global, não há sinais de uma ruptura — apenas a continuação de uma hegemonia liderada pelos EUA sob a qual eles vivem há muito tempo. A “nova ordem mundial” é simplesmente um caso de um novo rei que começa a abusar dos nobres da mesma forma que antes abusava dos plebeus. Os nobres agora clamam contra ele como um tirano, não porque consideram a hierarquia injusta, mas porque perderam suas prerrogativas de agir com impunidade. A «visão ampla da história» pode muito bem servir como um lembrete incisivo aos líderes europeus para que não sucumbam à amnésia na sequência dos choques trumpianos. A Europa nunca foi igual a Washington, e Pequim não tem intenção de servir de alavanca para a Europa comprar o seu regresso a um passado «liberal». A visita de Starmer revelou este realismo económico sem retoques. Ao aterrar em Pequim com uma comitiva de titãs dos negócios, ele twittou que seu objectivo era “cumprir com o povo britânico”. Certamente, Pequim acolheu a iniciativa de expandir os laços comerciais, estendendo acordos sobre uísque escocês, produtos farmacêuticos e viagens sem visto — acordos que, compreensivelmente, despertaram a ira de Trump. No entanto, a China espera que a Grã-Bretanha seja mais do que “estranhos à porta” obcecados pelo comércio. O que Pequim realmente busca é que a Grã-Bretanha actue como uma “grande potência” nos assuntos globais, um termo que Xi usou repetidamente durante sua visita de Estado em 2015. Ele usou-o novamente na última quinta-feira, embora em termos cautelosos: “O direito internacional só pode funcionar quando todos os países o obedecem, e as grandes potências devem liderar pelo exemplo, ou o mundo voltará à lei da selva”. A China não procura um aliado na Grã-Bretanha; em vez disso, procura um parceiro com pensamento estratégico independente, capaz de injectar certeza no sistema global cada vez mais volátil. No entanto, mesmo essa expectativa modesta parece exceder as ambições da Grã-Bretanha. Durante a década outrora anunciada como a «década dourada», a Grã-Bretanha parece ter renunciado voluntariamente à identidade de «grande potência» invocada por Pequim. A natureza autodepreciativa da política externa britânica diverge acentuadamente da forma como a maioria dos chineses vê o papel histórico do país insular — algo que até os próprios britânicos não compreendem. A Guerra do Ópio de 1840, iniciada pela Grã-Bretanha, é amplamente considerada como o ponto de partida do «século de humilhação» da China. O objectivo geral do Partido, o “grande rejuvenescimento da nação chinesa”, visa restaurar a posição internacional da China ao que era antes da chegada dos navios de guerra britânicos. Referido nos livros didáticos chineses como “o império sobre o qual o sol nunca se põe”, o legado colonial da Grã-Bretanha não se reflecte apenas nos artefactos chineses saqueados e exibidos no Museu Britânico, mas também continua a manifestar-se nas disputas fronteiriças entre a China e a Índia e na agitação em Hong Kong. No entanto, a China vê a Grã-Bretanha não apenas como uma potência outrora formidável, que deixou uma marca indelével na sua história moderna e no panorama geopolítico, mas também como uma nação autónoma e pragmática que demonstrou visão histórica no envolvimento global. A Grã-Bretanha foi a primeira potência ocidental a reconhecer a República Popular da China, no segundo ano da sua fundação, para ser exacto — três décadas antes dos EUA seguirem o exemplo. Essa decisão continua, aos olhos dos chineses, a ser uma rara demonstração de independência estratégica e pragmatismo para um império em declínio. Como Winston Churchill disse uma vez, «quanto mais longe se consegue olhar para trás, mais longe se consegue ver para a frente». Esta pode ser agora uma oportunidade rara, e talvez definitiva, para a Grã-Bretanha e outras nações europeias, que despertaram para a dura realidade de que a «ordem liberal» liderada pelos Estados Unidos não abraça valores liberais genuínos nem proporciona uma ordem previsível. Têm a oportunidade de se afirmar como um «pólo» verdadeiramente autónomo num mundo multipolar emergente, em vez de simplesmente dançar ao som dos caprichos dos Estados Unidos com reviravoltas diplomáticas. Quando Donald Trump esteve na Cidade Proibida em 2017 não compreendeu ou optou por ignorar a subtil metáfora histórica transmitida pelo seu anfitrião chinês: a necessidade imperativa de evitar um “choque de civilizações” por meio do diálogo e do respeito mútuo. Em vez disso, em poucos meses, o seu governo arrastou o mundo inteiro para uma era de intensificação do confronto entre os EUA e a China, embora o desenrolar dos acontecimentos tenha ficado muito aquém da Guerra Fria que ainda está viva na memória. A forma como Sir Keir Starmer interpretará a «ampla visão da história» durante a sua própria caminhada por esses mesmos salões imperiais pode ainda revelar-se um momento crítico — um momento que os historiadores do futuro citarão com admiração ou comiseração ao emitir o seu veredicto sobre o destino da Grã-Bretanha e da Europa.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioFu Shan, o Daoísta Protegido Pelo Traje Cor de Cinábrio Jiang Shinian, também conhecido como Shennong, o «Agricultor Divino», patrono dos praticantes da medicina tradicional (zhongyi), é também conhecido como Yandi, o «imperador das chamas» e por aí capaz de controlar o «vento em chamas», o excesso de calor que provoca sintomas como tremores, confusão ou a febre súbita. Na prática religiosa, esse «fogo no vento» é entendido como o fumo que resulta da queima de incenso ou papéis que levam até aos céus orações, ofertas ou mensagens para os deuses, antepassados ou espíritos. Esse fogo, figurado pela cor vermelha, é associado entre outras à imortalidade, às forças positivas de energia ou à protecção contra o mal. Tonalidades da cor vermelha foram adoptadas de forma notória pelos imperadores da dinastia Ming que tinham Zhu, «vermelhão ou cinábrio» como seu nome de família. Um dos exemplos mais publicamente manifestos foi pintar de púrpura os muros da «Cidade imperial proíbida», Zijincheng, como forma de protecção dos ocupantes no seu interior ou atribuir às vestes dos funcionários letrados a cor do cinábrio. Quando a dinastia caíu e para muitos literatos se tornou intolerável obedecer aos novos imperadores, alguns adoptaram as mais diversas e subtis estratégias de resistência. Um letrado do Norte que, na pluralidade dos seus saberes e vocações chegou a usar mais de trinta nomes de pincel, engendrou para si o nome Zhuyi daoren, o «Daoísta vestido de cinábrio» como se ao usar essa cor protectora, só reconhecia como única fronteira ou muro o seu próprio corpo. Na vida comum chamava-se Fu Shan (1607-1684), nascido em Yangqu, Shanxi, e da recusa em servir os novos senhores, que prejudicaram o seu dia-a-dia, despontariam inúmeros talentos celebrados ainda hoje em dois jardins da cidade de Taiyuan, a capital provincial. E embora fosse de todos os literatos que o conheceram, reconhecidas as suas qualidades de calígrafo, pintor ou poeta, os mais próximos viam-no como praticante da medicina tradicional, em particular como conhecedor de doenças de senhoras. Fu Shan preferia que a sua caligrafia fosse «grosseira, não habilidosa; feia, não sedutora; deformada, não fina; espontânea, não premeditada». E tal como em pinturas gostava dos formatos verticais longilíneos como se pode ver num dístico que está no Smithonian (tinta sobre papel, 226 x 45,5 cm) onde, reflectindo a sua dupla preocupação com o espírito e o corpo, escreveu: «Se o espírito está tranquilo, a mente naturalmente alcança a distância; Quanto mais o teu corpo está descontraído, mais da vida poderás apreciar». É-lhe atribuída a criação de uma «sopa de oito tesouros», feita com oito ingredientes que restabelecia os mais debilitados. E, no entanto, quando foi obrigado a ir à corte em Pequim para o ritual de obediência à nova dinastia, atirou-se para o chão afectando incapacitante moléstia. Caminhando na margem do rio, apreciando as flores, 6 (de 7): O acesso à casa dos sogros de Huangsi está repleto de flores por todos os lados, São mil, dez mil flores pressionando os ramos, de tão plenos, dobrados. Repetidamente convidam as borboletas a ficar constantemente a dançar, Escuto os papa-figos: como são afinados no seu delicado piar. Du Fu (712-770)
Hoje Macau Via do MeioPoemas de Meng Haoran 孟浩然 (689-740) 孟浩然 (689-740) (五言古體詩) 春初漢中漾舟 羊公峴山下 神女漢皋曲 雪罷冰復開 春潭千丈綠 輕舟恣來往 探翫無厭足 波影搖妓釵 沙光逐人目 傾杯魚鳥醉 聯句鶯花續 良會難再逢 日入須秉燭 MENG HAORAN (689–740) (Pentâmetros ao Estilo Antigo) Tradução Rui Cascais Vogando no Rio Han ao Começar a Primavera À ilharga do Monte Xian de Lorde Yang Hu, [1] Num meandro do Han, dito das donzelas celestes,[2] Agora que a neve cessou e o gelo se abre de novo, Por águas de Primavera verdes e longas, O meu barco vai onde quer, Buscando prazer sem fadiga ou tédio. Há reflexos de ondas no cabelo da concubina E o brilho das areias queima-nos a visão. Inclinamos as taças – estão ébrios os peixes e as aves; Encadeamos versos – papa-figos e flores imitam-nos. Encontros destes são difíceis de repetir; Quando o sol se retira, devemos pegar numa vela.[3] [1] Yang Hu foi governador militar da cidade de Xiangyang em meados do século III. No Monte Xian, alguns quilómetros a sul da cidade, e sobranceira ao Rio Han, existia uma estela em sua homenagem. [2] Diz-se que um tal Zheng Jiaofu teria encontrado aqui duas donzelas que se banhavam e lhe ofereceram os seus pendentes quando se despediram. Voltando-se para trás, Zheng reparou, com sobressalto, que haviam desaparecido sem rasto, concluindo que se tratavam de seres sobrenaturais. [3] Referência a uma copla da dinastia Han tardia: “Curto é o dia, longa a noite amarga. /Melhor pegar numa vela e irmos folgar”. 孟浩然 (689-740) (五言古體詩) 宿來公山房期丁大不至 夕陽度西嶺 群壑倏已暝 松月生夜凉 風泉滿清聽 樵人歸欲盡 煙鳥棲初定 之子期宿來 孤琴候蘿逕 MENG HAORAN (689–740) (Pentâmetros ao Estilo Antigo) Tradução Rui Cascais Pernoito e Espero na Casa de Montanha de Lai, mas o Velho Ding Não Chega[1] A incandescência do sol já só lambe a cumeeira a ocidente; As inúmeras ravinas de súbito cinzeladas a negro. Atrás de um pinheiro a lua traz o fresco da noite; Soa uma nascente batida pelo vento, derramando limpidez. Regressando a casa, já quase se foram os lenhadores; Pássaros nevoentos pousam agora nos galhos. Vim ter contigo nesta noite combinada – Uma cítara solitária, vigiando a vereda que as trepadeiras tolhem. [1] Há aqui um jogo óbvio, mas delicioso, entre lái (來, o verbo “vir”, neste caso feito nome do proprietário da casa na montanha) e zhì (至, o verbo “chegar”).
Paulo Maia e Carmo Via do MeioPor onde dançou o pincel de Zou Zhilin Huang Gongwang (1269-1354), o mestre da dinastia Yuan que viveu como um andarilho daoísta, um «convidado dos lagos e das montanhas», foi viver durante três anos entre 1347 e 1350, para junto do rio Fuchun (actual Qiantang) a Oeste de Hangzhou onde, com total desprendimento, sem contar com elogios, comentários ou críticas, foi criando um dos rolos horizontais mais prezados pela posteridade. Tinha setenta e oito anos quando começou a pintura conhecida como Retiro nas montanhas Fuchun, da «Primavera abundante», que respondia à urgência do seu método de capturar o espanto, apreço e admiração que sentia perante a natureza visível: “O pintor deve levar sempre consigo alguns pincéis numa sacola para que quando se lhe deparem árvores surpreendentes num belo cenário, ela possa de imediato fazer esboços delas para preservar as suas características naturais. Deve subir a altos edifícios, contemplar o qiyun, «o movimento do espírito», e diante das vistas abertas olhar as nuvens. Essas vistas chamam-se paisagens de cumes de montanhas. Tanto Guo Xi como Li Cheng praticaram este método e Guo Xi pintou mesmo pedras como nuvens.” Mas após Huang Gongwang terminar a sua pintura, ela própria se tornaria um objecto de intensa estima e assombro por aqueles que a possuíram. Um letrado no fim da dinastia Ming que teve o privilégio de a contemplar escreveu no rolo um comentário: «O seu proprietário vive com o rolo há dezenas de anos, coloca-o na mesa-de-cabeceira quando vai dormir, junto da sua cadeira quando vai comer, dia e noite, onde quer que vá a pintura vai com ele.» E justificou «A pintura de Huang é como as caligafias do grande Wang Xizhi – uma verdadeira obra-prima. Nesta pintura o pincel dança com vida, tal como a caligrafia do Prefácio do Pavilhão das orquídeas – divino e sublime.» Quem era esse conhecedor a quem foi concedida a honra de pousar o seu pincel sobre o inestimável rolo? Zou Zhilin (c.1585-c.1654) era amigo da família de Wu Zhiju que possuiu a pintura, depois de ela pertencer a egrégios pintores como Shen Zhou ou Dong Qichang, e era isso que lhe permitia a intimidade com o rolo. E a pintura era para ele também um modo de expressão. Passado o exame jinshi em 1606 por pouco tempo serviu a administração imperial, retirando-se para aquela peculiar forma de habitar solitário entre a gente, designado por vezes como yinshi, que era a via de tantos literatos insubmissos. Fazia parte dessa forma de relacionamento com os outros a troca de pinturas como uma, à venda na Sotheby’s, com caligrafias e pinturas contendo um leque montado num álbum de onze folhas a tinta e cor sobre papel dourado, onde numa das folhas escreve: «Para onde escapar? Suspeito que para lado nenhum senão para montanhas profundas ou florestas densas. E onde encontrar essas montanhas e florestas densas senão sob o meu pincel?»
Ana Cristina Alves Via do MeioFilosofias religiosas comparadas Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau Simone Weil nasceu em Paris a 3 de fevereiro de 1909 e faleceu a 24 de agosto de 1943, viveu pouco e intensamente num tempo conturbado, atravessado por duas grandes guerras mundiais, a primeira entre 1914 e 1918, e a segunda, entre 1939 e 1945, particularmente marcante na sua vida. Foi uma destacada filósofa francesa, de origem judia, professora, política e ativista. Depois voltou-se para o pensamento místico tendo-nos deixado reflexões profundas sobre a sua relação com Deus. Morreu aos 34 anos de falha cardíaca a quase jejuar, restringindo a alimentação ao mínimo, diz-se, numa leitura possível, por uma França ocupada num gesto de solidariedade para com os compatriotas que viviam mal e sob a tutela dos Nazi, enquanto se encontrava a trabalhar para o governo francês no exílio da Grã-Bretanha. Aprendeu grego antigo para falar em código com o seu irmão mais velho, o matemático André Weil, para que os pais não os pudessem entender. Mais tarde iniciou-se no sânscrito, a fim de poder ler Bhagavad Gita no original e, na altura dos seus furores revolucionários, era também pacifista e sindicalista, concentrando a atividade em aulas de literatura às classes trabalhadoras, por considerar que a literatura francesa era o caminho certo para a educação do espírito dos trabalhadores e revolução de acordo com a tradição cultural eles. Mais tarde visitou o pensamento anárquico, mantendo a sua vocação pacifista até que foi confrontada com o regime Nazi e com a ocupação de França. Reagiu, juntando-se à Resistência Francesa, mas havia de sentir um forte chamamento espiritual, pelo que a par do ativismo político, desenvolveu um profundo misticismo, apesar de ter crescido num ambiente agnóstico. O chamamento relativo à fé cristã começou em 1935, em Portugal, tendo sido tocada pela beleza das nossas igrejas, enquanto esteve de férias na Póvoa do Varzim. Mais tarde, em 1937 havia de sentir um êxtase religioso em Assis na pequena capela românica de Santa Maria degli Angeli, onde São Francisco costumava rezar. Porém, é preciso ter em mente que ela se interessou por várias tradições religiosas que incluíam os mistérios gregos e egípcios, o Hinduísmo, o Budismo Mahayana, entre as experiências religiosas que culminaram na sua relação não com o Catolicismo, mas com a Cristandade, sem nunca advogar qualquer tipo de sincretismo religioso. Passe-se à apresentação do segundo pensador deste artigo, Byung-Chul Han, um dos pensadores sul-coreanos mais conhecidos do Ocidente, nascido em Seul em 1959. Estudou Metalurgia, radicou-se posteriormente na Alemanha, onde cursou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique, ensinando atualmente Filosofia na Universidade de Artes de Berlim. O filósofo traz-nos Conversas sobre Deus – Um Diálogo com Simone Weil, numa publicação de 2025, muito bem traduzida por Ana Falcão Bastos em Relógio D´Água Editores. A sua conversa com a filósofa Simone Weil desenvolve-se em torno de uma reflexão sobre Deus, conjugando as suas leituras e interpretação do pensamento dela, com ele fortemente herdeiro da tradição imanentista oriental, pelo que no último capítulo, intitulado Inatividade afirma com fervor: “Simone Weil imagina uma espécie de pampsiquismo. Tudo é vivo e animado. Sem a espiritualidade do universo não é possível qualquer relação entre ele e o espírito humano” (Han, 2025, 81). De acordo com a sua perspetiva, que acredita sempre partilhar com Simone Weil, para poder conversar com Deus é necessária uma postura ética adequada, analisada nos sete capítulos em que divide a obra. É então necessário cultivar e aceitar a Atenção, a Descriação, o Vazio, o Silêncio, a Beleza, a Dor e a Inatividade. Eis os ingredientes interiores e exteriores certos para manter uma relação próxima de Deus, que não está morto, como apregoava Nietzsche, mas antes bem presente a uma humanidade que não parece ser capaz de o escutar ou contemplar. “Não é Deus que está morto, mas sim o homem a quem Deus se revelou” (Han, 2025, 11) , pelo que há que cultivar a atenção do espírito, voltá-lo para Deus e isso faz-se antes de mais com os ensinamentos de Simone Weil: ela que terá morrido de coração, num corpo exausto, tuberculoso e exangue, ou por solidariedade, ou por crença de que quanto menos comesse, mais e melhor alcançaria a união com Deus. Note-se a seguinte reflexão: “Duas aves, companheiras inseparáveis, poisam na mesma árvore. Uma come os frutos da árvore, a outra observa sem comer.” (Weil apud Han, 2025, 11). O mundo, de acordo com ambos os pensadores, abarrota de informações, programas, e atitudes erradas, por exemplo, o binge watching, que significa “devorar programas de televisão”, além de todo o tipo de distrações, entretenimentos e alimentos. Assim, advoga-se à maneira budista ou taoista, que é preciso ser frugal, em sentido literal e metafórico, jejuar para que a alma desencadeie um processo de “autofagia” conducente a Deus, porque “Só esta autofagia da alma salva e conduz até Deus.” (Han, 2025, 12). Deste modo, o organismo comerá a sua própria carne, transformando-a em energia. Esta filosofia prática levada às últimas consequências implica a morte, tal como terá sucedido a Simone Weil, quando já muito enfraquecida, vê o coração a dar de si. Há, no entanto, um meio-termo, que será necessário ter em conta para desenvolver a atenção do espírito, já que este mergulhado em carne se torna incapaz de se concentrar. Se o jejum absoluto é perigoso, como descobriu Buda Histórico sentado debaixo da Ficus Religiosa, o jejum relativo, ou melhor a simplicidade alimentar pode estimular “a atenção contemplativa” essencial para ver Deus. Esta visão requer uma atenção profunda, que tanto pode ser empregue na resolução de um problema científico ou artístico, como na visão Deus, porque “Deus é atenção sem distração” (Han, 2025, 14). A atenção será assim exercitada em concentração total, semelhante à que se emprega numa oração, em ligação ao sagrado, que é ao mesmo tempo o bem supremo, recordando as duas forças de amor e do ódio do filósofo pré-socrático Empédocles. Estas operam no cosmos, tornando-o organizado, ligado, atento e amoroso, ou desligado, distraído e odioso. “O bem une e reconcilia, enquanto o mal separa e divide. O mal é multifacetado. O bem, pelo contrário, baseia-se numa única verdade.” (Han, 2025, 17). É então natural que se promova no quadro de ambos os pensadores, uma “ética da atenção” ou uma ética da misericórdia/compaixão (Han, 2025,74), pois só por meio dela se consegue a ligação com o os outros e, sobretudo, com o Outro, numa conexão empática, espontânea e profunda. É muito interessante o modo como Byung-Chul Han define a virtude cristã: “A virtude cristã não é uma procura, não é uma ação, mas sim um esperar e observar (…) o papel da futura esposa é esperar” (Han, 2025, 18). Creio que, embora seja uma leitura autorizada desta virtude, a ênfase dada à atenção contemplativa e à espera encontra a sua razão de ser no interior de muitas das filosofias asiáticas, que privilegiam a não-ação e mesmo inatividade, como sucede no sétimo capítulo da obra, sendo descrita em termos do modo correto de contacto com o sagrado, numa postura obediente, humilde e silenciosa. Diz-nos o autor, excluindo a vontade, tanto quanto é possível: “É a inatividade que dá asas à alma” (Han, 2025, 19) Talvez por isso, a primeira definição etimológica de religião oferecida no texto remeta para a atenção e o termo religo para “relegere (reler)” (Han, 2025, 20). Há que, antes de mais, saber ler os sinais e orar ou, numa nomenclatura mais oriental, meditar. E continuando nesta linha que cruza oriente e ocidente, para cultivar devidamente a atenção é necessário “esvaziar” a alma para a preparar à ligação ao sagrado, que permitirá introduzir, já no último capítulo, a segunda definição etimológica mais comum no Ocidente, “A religião enquanto religare, significa ligar, prender ou unir” (Han, 2025,84) num “voltar a ligar” o que se desligou, o sagrado e o profano ao jeito das filosofias taoista e budista. Nesta lógica do pensamento do filósofo sul-coreano, que conversa com a filósofa francesa, o vazio é fundamental, não para dar ânimo à vida, como refere o capítulo quarto do Livro da Via e da Virtude (《道德经》), e recorde-se: “o Tao é um vaso vazio/usa-se e jamais fica cheio. /Fonte insondável das dez mil coisas” (道冲而用之或不盈/渊兮似万物之宗)(Abreu, 2013,34-5), mas, mais à maneira budista ou platónica, para favorecer a morte. Cultivar o vazio é aprender a ser nada, a descriar-se ou perder o eu, a renunciar: “O vazio significa, em última análise, aprender a morrer, entregar-se à morte: «Rezar é como uma morte»” (Han, 2025,51). A esta leitura muito devedora da tradição oriental, contrapõe-se a de uma virtude cristã ocidental ativa, que encontra Deus não na atenção contemplativa, ainda que também aí se possa estar presente, mas na vida ativa, na relação com os outros no exercício de uma compaixão ou amor permanente para que o reino de Deus desça o mais possível à terra. A definição de amor avançada por Han, através de Weil, é a de um “olhar da alma”, ou seja, “o amor baseia-se no olhar enquanto atenção da alma.” (Han, 2025, 22). O cultivo da contemplação, da espera, do silêncio e do vazio pode conduzir à presença de Deus, sendo uma leitura possível do Sermão da Montanha, no qual Jesus ensina que os lírios do campo e as aves do Céu não precisam de trabalhar nem fiar, Deus oferece a vida por dom e graça divina. Porém, se o ser nada, se a obediência, o silêncio e a renúncia podem conduzir a uma teodinâmica do amor, há que ter o cuidado e a atenção de que esta seja dirigida e concentrada na relação com Deus, porque na sociedade humana domina uma avassaladora termodinâmica do poder e de acordo com a tradição ocidental nós não podemos correr o risco de cair na armadilha do poder, porque, como o autor bem vê, embora não retire as últimas consequências do que escreve: “Quem tem poder tem a sensação de que cresce espacialmente. Expande-se ou estende-se. O aumento de poder manifesta-se com um aumento do eu” (Han, 2025, 42). O ser “re-ligado” terá de distinguir com todo o cuidado entre o sagrado e o profano, assegurando-se de que a sua conexão é verdadeira, ou caso contrário transforma-se num nada silencioso e renunciante perante o seu semelhante, o que é absolutamente intolerável para todos os filhos de um mesmo Pai, bem como para os herdeiros da tradição filosófica ocidental. Obviamente, não é advogar uma relação de poder termodinâmica, quer dizer repleta de energia e sempre em expansão, que o autor tem em mente. Pelo que do ponto de vista concreto e humano, aconselha relações de trabalho à margem da conexão senhor/escravo, tão denunciada por Nietzsche no seu ataque à religião cristã. Na esfera mundana, Han propõe que se escape quer das relações laborais criadas pelas sociedades capitalistas industriais, nas quais “o ser humano é treinado para se tornar gado de trabalho mecânico” (Han, 2025,78), quer pelas sociedades neoliberais de desempenho em que as pessoas acreditam ser autênticas e criativas, mas na realidade embarcam num frenesim produtivo em que se tornam “escravas de si mesmas” (Ibidem). Então qual parece ser a melhor solução para os seres humanos que estão num mundo em que o trabalho é fundamental? Confesso que a resposta do autor me surpreendeu e cativou. A solução é tornar o trabalho num processo teodinâmico amoroso, ou seja, não o realizar sem sentido, mas dedicar as suas ações a Deus, o que para um cristão significa, trabalhar por amor ao próximo, executando um ato simbólico, no sentido etimológico do termo, como união e mais um modo de penetrar na esfera sagrada. Poetize-se, pois, o labor, tornando-o criativo, à maneira de Simone Weil ou de Byung-Chul Han: “Trata-se, portanto, de conferir ao trabalho um caráter contemplativo e espiritual. Elevando-o «ao ponto mais alto, o da plenitude da atenção, que é a plenitude da oração.” (Han, 2025, 85) Referências Bibliográficas Abreu, António Graça de (trad.). 2013. Laozi. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude. Edição Bilingue. Lisboa: Vega. Biblia Sagrada. 1988. Difusora Bíblica. Lourenço, Frederico (trad.). 2016. Biblia. Vol. 1. Lisboa: Quetzal. Han, Byung-Chul. 2025. Conversas sobre Deus – Um Diálogo com Simone Weil. Tradução de Ana Falcão Bastos. Lisboa: Relógio D´Água. Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.
Hoje Macau Via do MeioPoemas de Meng Haoran 孟浩然 (689-740) Tradução e notas Rui Cascais (五言古體詩) 宿天台桐柏觀 海行信風帆 夕宿逗雲島 緬尋滄洲趣 近愛赤城好 捫蘿亦踐苔 輟棹恣探討 息陰憩桐柏 採秀尋芝草 鶴唳清露垂 雞鳴信潮早 願言解纓紱 從此去煩惱 高步陵四明 玄蹤得二老 紛吾遠遊意 學此長生道 日夕望三山 雲濤空浩浩 (Pentâmetros ao Estilo Antigo) Pernoitando no Templo de Tongbai em Tiantai1 A vogar ao rés da água confiei a minha vela ao vento, Para vir passar esta noite a vagar numa ilha-nuvem. Num anseio pelo distante Arquipélago Cerúleo, Fui arrebatado pela vizinha Muralha Vermelha2. Roçando trepadeiras, pisando o musgo, de remos Recolhidos, dou-me agora ao luxo da busca. Abrandando por fim na sombra, repouso em Tongbai, Apanhando flores, procurando a planta da imortalidade. Quando uma garça grita, cai orvalho imaculado. Quando o corvo crocita, a maré chega mais cedo. Quem dera pudesse desatar faixas e atacadores, Descartar todos os cuidados a partir de agora. Andando ao alto, subirei além do Quádruplo Brilho3, Por trilhos ocultos, descobrirei os Dois Laos4. Tão repleto de vaguear distante está o meu pensar… Estudarei fundo este Tao de alongar a vida. Ao ocaso, fixo longe as Três Montanhas E volutas de nuvens se espalham por toda a parte. Templo nas Montanhas de Tiantai mandado contruir em 711 por ordem imperial para servir de sede ao influente mestre taoista Sima Chengzhen 司馬承禎 (647-735). Meng Haoran terá visitado o templo no final da década de 730; o templo ainda estava a funcionar, mas mestre Sima já não residia nele. O Arquipélago Cerúleo: ilhas paradisíacas taoistas situadas nas águas esverdeadas do Mar Oriental (tal como as Três Montanhas referidas em baixo). Os rochedos róseos da Muralha Vermelha erguem-se na encosta sul das Tiantai. A chamada Montanha do Quádruplo Brilho ergue-se a noroeste das Tiantai. Aqui, os “Dois Laos” são Laozi e Lao Laizi, o fundador do Taoismo e, o último, um contemporâneo de Confúcio (durante o Período da Primavera e do Outono), suposto autor do “Tratado de Lao Laizi”. 宿終南翠微寺 翠微終南裏 雨後宜返照 閉關久沈冥 杖策一登眺 遂造幽人室 始知靜者妙 儒道雖異門 雲林頗同調 兩心喜相得 畢景共談笑 暝還高䆫眠 時見遠山燒 緬懷赤城標 更憶臨海嶠 風泉有清音 何必蘇門嘯 Pernoitando no Templo de Cuiwei em Zhongnan1 Fiapos de bruma azulada nos Montes de Zhongnan, Cujo brilho volta logo radiante passada a chuva. Depois de um longo retiro afundado a contemplar, De cajado na mão logo trepei aqui a ver a vista. Chegando ao refúgio que construiu, Entendo agora a qualidade da sua quietude. Apesar de Ru e Dao divergirem2, Nuvens e bosques são-lhes os mesmos. De mentes ligadas apreciamos a nossa descoberta; Ido o dia, falamos e rimos juntos. Adormecendo junto a alta janela, Lobriguei um incêndio num monte distante. Lembrou-me o augúrio no adeus à Muralha Vermelha E também as fragas aguçadas de Linhai. Se as fontes e o vento soam límpidos, Para que serviria o assobiar de Mestre Sumen? 3 O nome do local refere-se à bruma verde-azulada (翠微, cuì wēi) que frequentemente o rodeava. Os Montes Zhongnan situavam-se a sul da capital de Chang’an e o local fora usado pelos primeiros imperadores Tang para escapar ao calor estival, tendo sido depois convertido, já ao tempo da visita do poeta, num eremitério budista. Confucionismo (儒, rú) e, neste contexto, a Via (道, dào) búdica. Diz-se que, certa vez, o poeta Ruan Ji (阮籍, 210–263) visitou um mestre taoista no Monte Sumen. Incapaz de obter resposta para os vários temas de que lhe falou, Ruan emitiu um silvo de desdém ao partir. A meio da encosta, para seu embaraço, ouviu, subitamente, um monumental assobio solto pelo mestre. “Assobiar” (嘯, xiào) envolvia várias vocalizações destinadas a gerar uma sintonia com o qi do mundo natural.
Hoje Macau Via do MeioPermanecer Humano: Giacometti, Miró, Calder Por Caroline Pires Ting Há momentos na história da arte em que a resistência importa mais do que o progresso. Momentos em que permanecer de pé, ver com atenção e mover-se com cuidado tornam-se gestos radicalmente significativos. Alberto Giacometti, Joan Miró e Alexander Calder trabalharam a partir de um desses momentos. Sua arte é depurada, hesitante, viva. Ela não promete certezas. Oferece algo mais raro: uma forma de permanecer humano quando as formas se fragmentam, os sentidos se deslocam e o equilíbrio precisa ser continuamente renegociado. A arte moderna costuma ser narrada como uma história de ruptura: novas formas substituem as antigas, tradições se quebram, linguagens colapsam para logo serem reinventadas. No entanto, ao observarmos atentamente a trajetória desses três artistas, outro enredo se impõe. Não o da ruptura como gesto heroico, mas o da insistência silenciosa: uma tentativa persistente de manter a arte ancorada na experiência humana em um mundo marcado pela instabilidade histórica, política e existencial (Arendt, 2007; Agamben, 2009). Nenhum deles buscou a eternidade por meio do monumento ou da grandiosidade. Suas perguntas eram mais discretas, quase frágeis. Como um corpo persiste após o colapso das certezas. Como o sentido se forma antes de se fixar em linguagem. Como o equilíbrio pode sobreviver em um mundo submetido à mudança constante. Giacometti: a ética da presença As figuras de Giacometti parecem carregar consigo a memória de um acontecimento anterior ao olhar do espectador. Estreitas, gastas, reduzidas ao essencial, foram frequentemente interpretadas como emblemas do desespero existencial do pós-guerra. Contudo, como observam Jean-Paul Sartre e James Lord, essas figuras não encenam a ausência, mas a persistência da presença humana em condições extremas (Sartre, 1949; Lord, 1985). O que Giacometti esculpe não é a falta, mas a recusa. A recusa em desaparecer. Seus corpos não ocupam o espaço de forma afirmativa ou triunfante; antes, o atravessam com dificuldade e dignidade. Eles caminham, permanecem de pé, aguardam. Após a guerra, o exílio e a falência das narrativas totalizantes, Giacometti abandona as proporções ideais e os corpos heroicos, esculpindo aquilo que Maurice Merleau-Ponty identificaria como a condição encarnada do existir: um corpo vulnerável, exposto, irredutível (Merleau-Ponty, 1999). Sua obra formula, assim, uma proposição ética contundente: permanecer humano não significa ser íntegro, completo ou poderoso, mas simplesmente estar presente. A eternidade, em Giacometti, não é transcendência. É resistência. Miró: as origens do sentido Miró afasta-se do realismo não como fuga da realidade, mas como retorno às suas camadas mais profundas. Suas pinturas são habitadas por estrelas, olhos, pássaros, linhas flutuantes e formas fragmentadas. Esses elementos não operam como símbolos estáveis, mas como uma espécie de pré-linguagem: uma gramática da percepção anterior à fixação conceitual do sentido (Miró, 1978; Dupin, 1993). Frequentemente associada ao lúdico ou ao infantil, a obra de Miró é, em sua essência, rigorosa e profundamente crítica. Seu gesto consiste em desfazer a violência da hiperracionalização moderna, recuperando um estado em que o ver antecede o nomear. Como sugeriu Theodor W. Adorno, a abstração moderna, quando levada ao limite, não representa o mundo, mas tensiona suas condições de possibilidade (Adorno, 2008). As constelações de Miró não descrevem o universo; ensaiam o instante inaugural em que o sentido começa a emergir. Nesse contexto, a abstração assume uma função ética: ela protege a fragilidade, mantém o sentido em suspensão e convida o olhar do outro a participar da produção de significado (Didi-Huberman, 2015). A eternidade, em Miró, não se apresenta como permanência da forma, mas como recomeço incessante. Calder: equilíbrio como visão de mundo Ao introduzir o movimento na escultura, Calder não transformou apenas a forma artística, mas sua lógica interna. Seus móbiles respondem ao ar, à gravidade e ao acaso. Nunca se repetem exatamente, mas tampouco se desintegram em desordem. Como observa Rosalind Krauss, trata-se de uma redefinição radical da escultura enquanto sistema relacional, e não como objeto estático (Krauss, 1977). Calder não organiza hierarquias nem impõe centralidades. Ele compõe relações. Cada elemento depende dos demais para que o conjunto se sustente. O equilíbrio que emerge é dinâmico, provisório, vivo. Observar um móbile é assistir a um microcosmo em negociação contínua (Calder, 1966). Em um século profundamente marcado pela obsessão com o controle, Calder propõe outra ética: baseada na confiança, na escuta e na adaptação mútua. Sua obra afirma que a estabilidade não exige rigidez. A eternidade, aqui, manifesta-se como continuidade em meio à transformação. Três modos de permanecer humano Considerados em conjunto, Giacometti, Miró e Calder delineiam três dimensões fundamentais da experiência humana contemporânea: Ser: o corpo que persiste, mesmo fragilizado (Giacometti) Significar: o sentido antes de se cristalizar em linguagem (Miró) Relacionar-se: o equilíbrio que se constrói no movimento (Calder) Eles não ilustram teorias nem propõem sistemas fechados. Encarnam atitudes diante da vida após a perda das certezas, após a devastação histórica, após o colapso das ilusões de totalidade. Cada um, à sua maneira, recusou o espetáculo e escolheu a contenção, apostando que a simplicidade poderia sustentar profundidade. Por que ainda importam Em uma época marcada pela aceleração, pela proliferação de imagens sem densidade e pela redução dos corpos a dados e métricas, esses artistas revelam uma atualidade inesperada. Eles nos lembram que a arte não precisa gritar para permanecer. Precisa manter-se próxima daquilo que não pode ser otimizado, traduzido ou plenamente capturado (Cassin, 2004). Permanecer de pé. Ver com atenção. Mover-se com cuidado. Isso não é nostalgia do modernismo. É a lembrança de que, talvez ainda hoje, o gesto mais radical seja simplesmente permanecer humano. Referências Bibliográficas Sobre Alberto Giacometti Lord, James. Giacometti: A Biography. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1985. Genet, Jean. L’Atelier d’Alberto Giacometti. Paris: Gallimard, 1957. Sartre, Jean-Paul. “La Recherche de l’absolu.” In: Situations III. Paris: Gallimard, 1949. Bois, Yve-Alain. Giacometti: Sculpture, Painting, Drawing. London: Thames & Hudson, 1991. Sobre Joan Miró Miró, Joan. Écrits et entretiens. Paris: Daniel Lelong, 1978. Dupin, Jacques. Joan Miró: Life and Work. New York: Abrams, 1993. Adorno, Theodor W. Teoria Estética. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008. Breton, André. Le Surréalisme et la Peinture. Paris: Gallimard, 1965. Sobre Alexander Calder Calder, Alexander. An Autobiography with Pictures. New York: Pantheon Books, 1966. Krauss, Rosalind E. Passages in Modern Sculpture. Cambridge, MA: MIT Press, 1977. Sweeney, James Johnson. Alexander Calder. New York: The Museum of Modern Art, 1951. O’Doherty, Brian. Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space. Berkeley: University of California Press, 1999. Referências Teóricas e Contextuais Arendt, Hannah. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. Cassin, Barbara (org.). Vocabulaire européen des philosophies: dictionnaire des intraduisibles. Paris: Seuil / Le Robert, 2004. Didi-Huberman, Georges. Diante do Tempo. Trad. Vera Ribeiro. Belo Horizonte: UFMG, 2015. Merleau-Ponty, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Agamben, Giorgio. O Que é o Contemporâneo? Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009. Catálogos e Fontes Museológicas Fondation Giacometti. Alberto Giacometti: Le Sculpteur. Paris, 2018. Centre Pompidou. Joan Miró: L’échelle de l’évasion. Paris, 2019. Calder Foundation. Calder: Hypermobility. New York, 2021. Carolina Ting escreve em Português do Brasil.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioQi Zhijia regressou ao Inverno para recordar Nizan Mo Shilong (1537-87) referindo-se a um dos mais acarinhados mestres do cânone da história da pintura, conhecido pelo nome Ni Yunlin zi, o «Mestre da floresta das nuvens», o pintor Nizan (1306-1374), que se foi revelando quando, no tumulto da violenta transição dinástica, disse «não» aos seus mais próximos, passando a viver como um recluso, anotou que «quando as pessoas comuns tentam imitar uma pintura original, como podem transmitir o seu espírito para a posteridade?» Mais tarde o influente teórico Dong Qichang (1555-1636) acrescentou: «Aqueles que estudam os velhos mestres e não introduzem mudanças estão como presos atrás de uma cerca. Ao imitar modelos demasiado perto está-se muitas vezes ainda mais longe». E as pinturas de Nizan, porventura ainda mais que muitas outras, no seu sereno aspecto austero serão as mais difíceis de imitar porque dependem intimamente da pessoa do seu autor e da forma como nelas conseguiu fazer correr o «ritmo espiritual» (qiyun). E no entanto muitos tentaram reproduzir a elegante e insípida (dan) aparência daquelas visões que estavam mais próximas do seu espírito que do visível exterior. Mais tarde, numa outra transição dinástica, da dinastia Ming para a dos Qing, um pintor tentou seguir por dentro, em semelhantes circunstâncias, a via de Nizan. Pertencia a uma família de sete irmãos, oriunda de Shanyin (hoje parte de Shaoxing, Zhejiang). Um dos irmãos, o ilustrado funcionário imperial Qi Biaojia (1603-45), deixaria um singular registo da sofisticação dos literatos do fim da dinastia Ming, de modo significativo através da memória do seu jardim Yu, na encosta da colina do mesmo nome. Na «Antologia da colina Yu», Yushan zhi, uma obra colectiva em três volumes escrita por ele, seus amigos e familiares estão guardadas notas de viagens, explicações de vistas do jardim, narrativas, inquirições, sonhos de personalidades que interpretavam o seu presente com o conhecimento da riqueza das artes e da literatura do passado, constituindo um relevante arquivo histórico. Que se encontrava de forma expressiva em pinturas. Qi Zhijia (1594-c.1682), outro dos irmãos, além de poeta, dramaturgo, calígrafo, gravador de carimbos, atleta e cantor amador possuía a memória das pinturas, como mostrou em diversas obras feitas ao estilo de grandes mestres. Se, face à disrupção do novo governo estrangeiro, Qi Biaojia se suicidaria no seu jardim, como o fizeram, segundo um registo do tempo de Qianlong, quatro mil e quarenta e três altos funcionários, Qi Zhijia resistiria através da calma contemplação, aceitando a impermanência, como no rolo vertical de 1651, Paisagem a partir de Nizan (tinta sobre papel, 116 x 50,8 cm, no Metmuseum). Nele as «veias de dragão», longmo, revelam a profundidade da sua experiência de solidão e serenidade, a compreensão do espírito do Inverno.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Rapaz Que Conduz o Búfalo na Paisagem de Outono Xiao Yan (464-549), o imperador Wu de Liang (r.502-549) que muito promoveu o Budismo, perplexo pela decisão do sábio Tao Hongjing (456-536) de se retirar da cidade em 492, com apenas trinta e seis anos, e ir viver para longe no meio das montanhas em vez de ficar na corte, onde a sua sabedoria e os seus conselhos seriam abundantemente reconhecidos e recompensados, enviou-lhe uma missiva perguntando-lhe porquê. Segundo a tradição, o sábio, que se dedicara ao estudo do Dao, não lhe respondeu, remeteu-lhe um desenho com dois bois; um livre a pastar o outro preso e com um freio. Xiao Yan compreendeu. O facto de Tao Hongjing ter escolhido o corpulento animal, que parece agir sem esforço nem pressa, para expôr a sua situação, ecoa a compreensão da vontade de união com a natureza que certos adeptos do Chan mostravam com a figura de Laozi (c.371-477 a.C.) montado num boi (niu) ou um búfalo (shuiniu) a caminhar em direcção ao pôr-do- sol, afastando-se da civilização, das suas inúteis guerras e confrontos. Anos depois, durante a dinastia Song do Sul (1127-1279), pintores usaram diversas vezes a figura do paciente boi, aproveitando o seu múltiplo sentido simbólico. O pintor da corte Yan Ciping (act. 1164-1187) seria autor de obras particularmente expressivas em que a figura do búfalo surge associada a rapazes jovens. Como na pintura em que se desprende a sensação da «paz dócil», como insinua o seu nome ciping, e a relação táctil com a terra mostrando dois rapazes sentados um a pentear o outro junto de uma árvore, atrás de dois búfalos, um grande e um pequeno também sentados, descansando (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, no Museu Sen-oku, Hakukokan, em Quioto). Noutra, feita num leque montado numa folha de álbum, um Rapaz e um búfalo numa paisagem de Outono (tinta e cor sobre seda, 23 x 21 cm, no Museu de Arte de Cleveland) vê-se, entre nevoeiros, enquanto se vai desenrolando o tempo da transformação outonal, um jovem sentado sobre um búfalo, conduzindo-o pela rédea, exprimindo na figura do búfalo o «verdadeiro eu» sendo o rapaz condutor, o praticante do Chan de aparência mais frágil, vai abandonando o mundo condicionado por ilusões. Yan Ciping, como outros da corte da dinastia Song, como o célebre Ma Yuan (c.1160-1225), provinha de uma família de pintores que apuravam o seu próprio estilo familiar. Em certas pinturas, como em Hospedaria numa falésia coberta de pinheiros (leque montado como folha de álbum, tinta e cor sobre seda, 21,4 x 23 cm, no Metmuseum) é dificíl distinguir qual dos dois irmãos, filhos do pintor Yan Zhong, Ciyu ou Ciping é o autor. Nela, uma grande parte do espaço da pintura é deixado em branco, sugerindo a concepção do Budismo Chan de que a matéria emerge do vazio. Olhando a pequena pintura, o observador podia partilhar o sentimento de retirada objecto da obra.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Suave Descida Dos Gansos De Lin Xue Li Liufang (1575-1629), o pintor e poeta que viveu por um tempo retirado no seu Jardim da madeira de sândalo, perto do Lago do Oeste, valorizava o afecto entre amigos alongando-se aos que viviam distantes e até mesmo àqueles que já não viviam mas deixaram impressivos traços da sua relação afectuosa com o mundo. De entre os viventes, alguns eram eminentes funcionários e eruditos apreciadores das artes como Dong Qichang (1555-1636) mas também considerava seus pares mulheres que claramente exprimiam com o pincel as mais subtis emoções. Entre elas estava uma antiga cortesã com quem se correspondia, nascida em Min (Fujian) mas que se mudara para Hangzhou junto ao Lago do Oeste, onde haveria de se casar e viver no seio de uma família tradicional. Chamava-se Lin Xue, também conhecida como Lin Tiansu, e nesse início do século XVII, o seu nome de talentosa poetisa e pintora seria notoriamente referido pelo respeitado Dong Qichang: «Ouvi falar de senhoras capazes na arte da pintura; a primeira foi Lin Tianxu e depois Wang Youyun.Tiansu mostrou uma beleza sem rival e Youyun, à vontade num estilo próprio.» Ao contrário do habitual em senhoras que se dedicavam à pintura, ela atreveu-se a realizar pinturas de montanhas e águas correntes (shanshui) como se observa no longo e cadenciado rolo horizontal que mostra um Cenário de Jiangnan (tinta e cor sobre papel, 33,7 x 447,5 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) que se vai desenrolando como uma peregrinação. A sua vocação e engenho na arte da pintura também podem ser confirmados em obras como no rolo ousadamente vertical de 1621, Ameixeira e bambu (tinta e cor sobre papel, 86 x 18,6 cm no Instituto de Arte de Chicago). Nele está figurada a ideia da longanimidade; na base, o bambu que resiste às forças do vento, da chuva e da neve e, subindo irresistivelmente, a ameixeira cuja flor desponta ainda antes do fim do Inverno. Plantas gratas a poetas e pintores letrados, tal como um tema que se vê num rolo vertical que ecoa uma tradição com origem no século onze. Lin Xue mostra nessa pintura de Gansos descendo nas areias das margens (tinta e cor sobre seda, 185,1 x 99,5 cm, no Smithsonian), as aves aquáticas surgindo no espaço pintado a partir do limite superior da página num ondulante e seguro movimento vertical até pousarem na areia. O tema Pingsha luoyan, associado à mudança da estação «quando o yin aumenta», que é parte da memória de várias artes, é referido numa introdução a uma notação para uma música no guqin, que se diria um comentário adequado à pintura de Lin Xue: «Face ao claro céu do Outono o ar é nítido e fresco enquanto a brisa se demora calma nas areias tocadas pela água. Por entre as nuvens estendendo-se na distância, voando e cantando, bandos de gansos encarnam as altas aspirações dos que vivem isolados por um excesso de sensibilidade.»
Paulo Maia e Carmo Via do MeioOs Jardins Satisfatórios de Yan Hongzi Li Jie, o funcionário poeta e pintor do século XII, imaginou o lugar tranquilo em meio à natureza em que, enfim disponível, poderia dela receber tanto quanto nela pudesse perceber e sentir. Num rolo horizontal que fez em 1170, representou esse sítio do Pavilhão do Pescador no monte Xisai para onde um dia de facto se iria retirar catorze anos depois. Esse persistente desejo de comunhão com o lento mundo natural, partilhado por tantos atarefados letrados, já levara alguns, muitos anos antes, a recriar nas cidades símiles em miniatura desses locais ainda não alterados pela mão humana, designados penjing, «paisagens num vaso», onde podiam ir observando a misteriosa mutação. Para outros, poetas, pintores nada substituía a experiência de estar lá, no espaço cercado de um jardim. No século dezoito, para fazer o retrato de uma personalidade, para mostrar o seu carácter, pintores figuravam-na muitas vezes num jardim, de preferência no seu jardim. Um pintor da corte chamado Yan Hongzi, activo cerca de 1751 – depois de 1760, no retrato que fez em 1759 de Jingweng (1710- depois de 1759), um funcionário da corte, mostrou-o no seu jardim com um ambíguo nome Yiyuan, o «Jardim natural, apropriado, satisfatório» (rolo horizontal, tinta sobre papel, 34,5 x 348 cm, no Museu Angewandte kunst de Frankfurt). E nele inscreveu um comentário, jogando com a ambiguidade do sinograma yi: «Conheci o velho senhor Jingweng de Beihai na repartição oficial distrital do seu chefe, o senhor Hu. Nossas camas estavam frente a frente e vivemos juntos, felizes e alegres, um mês inteiro. Quando o mestre me pediu para lhe fazer uma pintura intitulada «Yiyuan», olhei em volta e disse com uma gargalhada: «Não haverá só nesta expressão, satisfação apropriada?» Ele disse: «Satisfação apropriada como esta é já completa satisfação.» Ah! Embora não haja nada para este senhor que não seja satisfação adequada, ele encontra natural satisfação neste jardim. Por isso fiz esta pintura dele.» Yan Hongzi faria uma outra visita a um jardim mítico, que no passado terá proporcionado tanta satisfação a sete sábios. Desde o século terceiro que era contada a história de sete literatos que se refugiaram num bosque de bambu, perto da morada de um deles, Ji Kang (c.223-262) em Shanyang (actual Henan). Retirados da hipocrisia e dos perigos do mundo da política, os sete poetas e filósofos, Zhulin qixian, dedicavam-se às artes. No rolo horizontal (tinta sobre papel, 33,3 x 67,6 cm, no Museu de Arte da Universidade de Princeton) de Yan Hongzi, eles são mostrados nas suas ocupações de inspiração daoísta, escrevendo nas faces lisas das rochas, pintando, recitando poesias para o ar. No fim do rolo, caminhando em sentido oposto fazendo o olhar recuar, vão dois jovens com rolos para escrever ou pintar, um pote de vinho: os sábios continuariam satisfeitos.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioQue Fazem Literatos Junto às Águas Correntes de um Rio Cui Zizhong (1574-1644), o pintor de Laiyang (Shandong), que viveu em Pequim na iminência do fim da dinastia Ming foi, no Norte, uma figura notável no ressurgência da pintura de figuras que no Sul, com Chen Hongshou (1599-1652), protagonizavam esse ressurgimento com estranhas representações de figuras humanas e dos seus ambientes. Adjectivos como «bizarro», «excêntrico», «peculiar» mas também «arcaico», foram atribuídas às suas pinturas. Esta última, no entanto, aponta já para uma vontade comum aos pintores literatos: se eram anacrónicas elas continuavam a corresponder ao desejo de fazer da pintura um veículo para referir elevados sentimentos e fluidos pensamentos. As figuras de Cui Zizhong pareciam por vezes exprimir esse esforço. Olhando as suas vestes desalinhadas alguns notaram como pareciam pessoas chegadas de noites insones em conversas longas que não deixaram sequer um tempo para descansar. Outros pintores, em suas obras, seguiram estas visões extravagantes provando que as reuniões figuradas talvez correspondessem a diálogos autênticos. Tal será o caso de um literato amigo de Cui Zizhong que depois dos sessenta anos se dedicou só à pintura na corte, na Academia imperial de pintura de Pequim, restaurada na dinastia Ming, chamado Wang Chongjie (1605-1667). Para o retrato que Wang Chongjie fez no Verão de 1657 do pintor de Suzhou, Wang Jian (1598-1677) que está na Galeria de Arte Kaikodo, no Havai (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 43,3 x174 cm) contribuiriam outros importantes autores que participavam nesses diálogos: Wang Wu (1632-90), de acordo com um colofóne, fez a paisagem à volta do retratado, com um rio onde nadam dois patos, e ao lado da pintura, o celebrado pintor Wu Weiye (1609-71) que viveu com mágoa a transição dinástica, escreveu um poema. Wang Chongjie ao fazer o retrato de Wang Jian dir-se-ia estar a fazer uma síntese do estado da arte no seu tempo. Não só ele era neto do célebre e venerado pintor Wang Shizhen (1526-90) como o cuidadoso tratamento das sombras do rosto poderá indiciar a apropriação de uma nova forma de fazer resultante do contacto com pintores europeus que se encontravam na corte no fim dos Ming. Num álbum que mostra literatos junto a cursos de água (tinta e cor sobre seda, 25,5 x 31,3 cm, no Museu Angewandte kunst de Frankfurt) quando há montanhas são apenas esquemáticas. Se, como disse Confúcio, as montanhas agradam ao coração e as águas correntes ao pensamento, poder-se-á deduzir que era esse fluir das águas que os inspiravam. E sobre o que versavam esses diálogos no meio da pristina natureza, Zhang Yanyuan no séc. IX, escrevendo sobre o carácter edificante da pintura, disse: «ela é um meio através do qual eventos são preservados, de maneira tal que servem como modelos (para os virtuosos) e avisos (para caminhos errados)».
Ana Cristina Alves Via do MeioO Oceano taoista Por Ana Cristina Alves, Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau1 A filosofia taoista dos primórdios, a de Laozi e do Livro da Via e da Virtude (《道德经/經》) , escolherá a água do oceano e do mar como imagem privilegiada do Tao (道 Dào), aquele que não pode ser dito, sem forma, de que dependem o próprio universo e os dez mil seres (万物 wânwù) que nele habitam, bem como os primeiros princípios da existência, o vazio (無/无 wú), o masculino yang (陽/阳 yáng) e feminino o yin (阴/隂yīn). Esta escolha de uma filosofia autóctone da China encontra o seu eco na linguagem e filosofia populares, por exemplo em expressões como “capacidade enorme” (海量Hǎiliàng), que tanto pode ter uma interpretação afetiva e social de portentosa generosidade ou magnanimidade, como ainda física e concreta, aplicando-se a alguém que consiga ingerir amplas quantidades de álcool. O mar encontra-se, ainda, ligado à palavra boa e constante, por exemplo na “jura de amor eterno tão enérgica como o mar e firme como a montanha”, onde montanha empresta acrescida firmeza à promessa (海誓山盟 ou 山盟海誓Hǎishì-Shānméng ou Shānméng-Hǎishì). O oceano, o mar, mas também os grandes rios são constituídos por água dadivosa, tanto na filosofia popular como na erudita taoista. Aqui a água é o modelo figurado do Tao, como se lê no Livro da Via e da Virtude e na melhor sinologia, pelo que se aconselha a leitura adicional de Alan Watts Tao: The Watercourse Way. Vale a pena dedicar especial atenção aos capítulos em que a água surge como a figuração mais aproximada do Tao no Livro da Via e da Virtude, a saber: os capítulos 8, 14, 34, 66 e 78. No capítulo 8 é-se informado que o Tao é o bem supremo “como a água” (上善如水) (Abreu, 2014, 43), mas não é a própria água. Portanto, será pela semelhança de funções que ambos são comparados. Ora a água é generosa, concedendo a vida a todos os seres, sem estabelecer qualquer distinção entre eles, a sua dádiva alcança mesmo aqueles de quem ninguém gosta e penso, por exemplo, nos parasitas. Ela mantém-se junto da terra para a fertilizar, é profunda, simples, verdadeira, justa e correta e muito oportuna, quando lava e limpa no tempo certo. Assim é também o Tao. Nos primeiros versos do capítulo XIV, a respeito do Tao, volta a surgiu uma imagem aquática: Olha-se e não se vê, Chama-se Indistinto. Escuta-se e não se ouve, Chama-se Silencioso. Toca-se e não se apanha, Chama-se Subtil. Este trio não é decifrável Pois funde-se numa unidade (視之不見名曰夷/聽之不聞名曰希/搏之不得名曰微/此三者/不可致詰/故混而為一)2 (Ribeiro, 2004, 32-33) E um pouco adiante é-nos dito que ele é inominável e ininterrupto (繩繩不可名) (Ibidem) O Tao é como um oceano, uma unidade ininterrupta e inesgotável em que alguém se imagina facilmente a nadar numa água não demasiado luminosa nem sombria, como viria a suceder a Michael Saso na sua 14ª meditação sobre o Tao, em A Taoist Cookbook. with Meditations from the Laozi DaodeJing, à qual denominou “Nadar no Tao” (Saso, 1994,47), meditação que ele faz acompanhar por uma receita de espinafres, pasta de soja e sésamo, já que o sábio é aquele que “esvazia a mente e enche o ventre” (虛其心實其復) (Ribeiro, 2004, 10-11), aqui se sente como o autor está imerso no grande Tao seguindo ao sabor da corrente. A água pode ainda ser figurada num grande rio, como sucede no capítulo 34: O grande Tao inunda como um rio, Para a esquerda, para a direita, Dele dependem os dez mil seres. (大道泛兮/其可左右/万物恃之而生) (Abreu, 2013, 94-95) No mesmo capítulo é-nos dito que o Tao não só dá vida como nutre e alimenta, sendo porto de abrigo essencial no regresso às origens, não para a morte, mas para a vida eterna diluída na grande unidade, sendo por isso ele grande, tão grande como o mar, ou melhor o grande mar, que é o oceano. Quem queira estar como deve ser na existência ou até governar corretamente o mundo, deve seguir o modelo da água dos rios e dos mares, como se lê no capítulo 66: Rios e mares são superiores a cem vales Porque permanecem abaixo deles, e assim são príncipes, dominando cascatas e correntes. (江海所以能为百谷王者/以其善下之/故能为百故王)3 (Abreu,2013, 158-159) O comportamento do sábio distingue-se pela maleabilidade e espontaneidade. Não se impõe, pelo que é respeitado por todos, só ele deve então governar, porque age bem naturalmente, sem oprimir, sem magoar deixando que todos sigam o seu curso o mais livremente possível, como é reiterado no capítulo 78: Nada no mundo é mais maleável e flexível quanto a água, mas no ataque ao que é duro e rijo nada consegue ultrapassá-la e nada há que a substitua. (天下莫柔弱於水/而攻堅強者莫之能先) (Ribeiro, 2004 160-161) A água taoista de Laozi é entre os Cinco Elementos Chineses (Água, Madeira, Fogo, Terra, Metal) aquele que evoca grande unidade oceânica fonte de vida de tudo o que existe, mas também de morte, ou melhor, de regresso às origens e à vida eterna, quando esta imagem representa o princípio filosófico Tao. E se a água, doce e salgada, é o supremo bem do mundo, o Tao é a origem, o supremo bem, inclusive do Céu. Enquanto raiz ou fêmea misteriosa (cap 6) é a raiz do cosmos tal como o conhecemos e experienciamos. Ele é fonte de vida espiritual e material, mas a água também, já que o seu modelo deve ser seguido em todas as circunstâncias desde a fonte material dos seres à complexa conduta humana. As pessoas que agem corretamente e, sobretudo os sábios e santos taoistas, têm presente o modelo físico e concreto da água que os auxilia a praticar um outro invisível, o do Tao. Serão então maleáveis e adaptáveis, capazes de se nutrirem por dentro e de darem vida a qualquer forma por fora. Saberão como transformar-se para melhor nutrir e vivificar. O modelo oceânico taoista difere daquele que animou ao longo da história os portugueses que olharam para o mar como o seu oceano. A água taoista não é desafiante nem chama à conquista, não possui cabos da tormenta ou da esperança a dobrar, não solicita armas nem embarcações, nem mapas, nem instrumentos náuticos. Ela é o elemento dominante, conquistador por dentro de todos os seres, que se vão adaptar a este elemento maximamente maleável, sem que para tal necessitem de desenvolver o seu espírito inventivo. A filosofia a que conduz não pede vigilância nem espírito crítico, mas adaptação ao mundo tal como ele é e generosidade para o aceitar com o mínimo de sofrimento e o máximo de alegria. Referências Bibliográficas Laozi. 2013. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude.Tradução der António Graça de Abreu. Edição Bilingue. Lisboa: Vega. Laozi. 2013. Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Tradução de Cláudia Ribeiro. Edição Bilingue. Mem Martins: Publicações Europa-América. Saso, Michael. 1994. A Taoist Cookbook. With Meditations from the Laozi DaodeJing. Tokyo, Boston, Massachussets: edição de autor. Watts, Alan. 1975. Tao: The Watercourse Way. New York: Pantheon Books. NOTA: Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. Texto em chinês clássico. Texto em chinês simplificado.
Julie Oyang Via do MeioGuardião da Profecia do Jade Entrevista com James Yanzhao Xing, coleccionador particular chinês residente em Xi’an, especializado em Jade da Antiguidade (Jade Arcaico) Há quatro anos, em 2021, James herdou mais de 300 peças de antiguidades do seu pai idoso. A herança familiar remonta à dinastia Song (séculos X-XIII) e a coleção inclui itens requintados de jade, porcelana, artigos de bronze, queimadores de incenso e joias de alto valor de vários períodos. Durante os anos turbulentos da guerra, esses tesouros ficaram enterrados num buraco no quintal durante décadas. Agora, através do seu projecto de curadoria interdisciplinar, eles estão prestes a entrar num diálogo dinâmico com os mundos da moda, da arte e do desporto. Joy: Como se sentiu quando recebeu a herança familiar? Fiquei completamente surpreendido! Os meus irmãos e eu não fazíamos ideia de que a nossa família possuía tais coisas. Éramos ignorantes sobre a nossa história familiar. Joy: Fale-me sobre a história da sua família. James: O nosso apelido original era Zhao e pertencíamos à família imperial da dinastia Song. As nossas raízes estão no coração da civilização chinesa. A história chinesa tem sido complicada e turbulenta e a minha família não conseguiu preservar os detalhes dos nossos altos e baixos específicos. Tudo o que sei é que, em 1931, para fugir da ocupação japonesa, a minha avó levou o meu pai e outros membros da família e, juntos, caminharam até Chongqing, no sul. O meu pai ainda era um menino. Para sobreviver e cuidar melhor do filho e da família, a minha avó decidiu casar-se novamente com um clã local chamado Xing. A família Xing aceitou a proposta, desde que a minha avó lhes pagasse 300 taéis de prata, uma quantia significativa na China durante a guerra. Foi assim que mudámos o nosso apelido imperial Zhao para Xing. Depois de se casar novamente, a minha avó pediu ao meu pai para cavar um buraco no quintal. Foi aí que a herança da família ficou guardada, até que o meu pai decidiu passá-la para mim. O meu pai não queria dividir a colecção entre os meus irmãos, pois sabia que eu era o único que poderia apreciar o seu verdadeiro valor. Para retribuir a apreciação do meu pai por mim, dei imediatamente um nome à minha coleção particular: Jade Ambience, 琼华幸境 em chinês. Joy: Porquê esse nome? James: Sinto que sempre tive sorte na vida, como se sempre tivesse sido protegido por alguma força sobrenatural com a qual eu poderia curar doenças estranhas e salvar pessoas. Sabe, adoro ajudar as pessoas e não suporto ver tristeza e injustiça no mundo. Desde criança, salvava vidas durante as inundações anuais do rio Yangtze, em Chongqing. Não temia pela minha própria vida, porque sabia que estava protegido. Será um dom? Gostaria de acreditar que sim. Até abandonei a carreira de empresário de sucesso e decidi que queria ser soldado, para poder contribuir de verdade para o meu país, em vez de ganhar muito dinheiro. Cheguei a recusar uma oportunidade de ir para os EUA e dirigir uma empresa lá. Isso foi em 1989. As experiências no exército tornaram-me mais forte, tanto física quanto mentalmente. Eu valorizo as experiências da vida, pois elas fazem-me entender melhor o mundo humano e dão-me energia positiva para apreciar cada dia. De alguma forma inexplicável, atribuo tudo isso aos itens de jade da minha coleção (risos). JOy: De facto, o povo chinês acredita que a pedra de jade irradia energia positiva. Desde os tempos antigos, o jade tem sido associado ao poder protetor, ao poder de cura e à imortalidade. Qual é o verdadeiro valor da sua coleção, na sua opinião? Como disse, o jade tem um lugar muito especial na cultura chinesa. O jade simboliza a integridade moral e a virtude, que é o valor simbólico central da pedra. O confucionismo ligou inextricavelmente o jade ao ideal da «pessoa exemplar» (junzi 君子), que deveria incorporar as virtudes reflectidas nas qualidades físicas do jade, incluindo benevolência, rectidão, sabedoria, coragem («É melhor ser um jade quebrado do que um azulejo intacto») e pureza. O jade servia como expressão material de autoridade e era transformado em objectos rituais usados para comunicar com forças divinas e simbolizava o poder imperial — mais notavelmente através do lendário Selo Imperial feito de jade. Para o povo chinês comum, o jade oferece protecção e boa sorte e há muito tempo é considerado um talismã contra forças maléficas. As esculturas em jade também carregam significados auspiciosos: morcegos para bênçãos, pêssegos para longevidade e peixes para abundância. Nos sistemas de crenças antigos, acreditava-se que o jade preservava o corpo e a alma após a morte. Esse conceito encontrou sua expressão máxima nos trajes funerários de jade da dinastia Han, intrincadamente montados a partir de milhares de peças de jade para garantir a imortalidade. O jade também era visto como a essência do cosmos — uma fusão das energias vitais do céu e da terra. A língua chinesa é rica em expressões relacionadas ao jade que transmitem admiração e virtude! Portanto, os itens de jade são símbolos atemporais de amor, simbolizando afeto duradouro e sincero. Hoje, o jade continua sendo uma herança preciosa, um investimento sólido e um poderoso emblema de identidade cultural — conectando os chineses contemporâneos à nossa herança. Dessa forma, o jade contém vida antiga e nova! O jade não é apenas uma pedra preciosa cheia de vitalidade. É um marco cultural — uma ponte entre a China antiga e a China nova. Joy: O que pretende fazer com a sua coleção? James: Neste momento, estou a planear organizar uma exposição itinerante em Pequim, Xangai e talvez Macau. Como disse antes, o jade é cheio de vitalidade. O jade é uma ponte entre a China antiga e a China moderna. Por isso, não quero limitar a minha coleção aos círculos antigos habituais. Estou a pensar em fazer exposições cruzadas com moda, arte e desporto. Quero que o jade tenha um diálogo animado com o público chinês contemporâneo, jovem e moderno!
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Tranquilizante Caçador na Noite Fria de Gu Deqian Xiao Yi (508-555), o imperador Yuan de Liang (552-555), mandou fazer um rolo de pinturas documentando, através dos retratos dos respectivos embaixadores, a quantidade de Estados vassalos que nas quatro direcções eram tributários do seu reino. Assim mostrando como eram diversas as faces e as vestimentas daqueles que viviam para lá das fronteiras. Com a passagem do tempo e os imprevistos das deslocações das cortes imperiais, esse rolo ter-se-á danificado mas durante a breve dinastia Tang do Sul (937-976) o seu terceiro e último imperador Li Yu (r. 961-976), que cultivava as artes do pincel descurando o governo do reino, ordenou que fosse feita, só a tinta, uma cópia. O uso da cópia como método permitiria a continuidade no tempo de ideias e percepções contrariando a fragilidade – dos limites da deterioração dos suportes e das próprias vidas dos autores. Ao pintor da corte em Jiankang (actual Nanquim, Jiangsu) escolhido para fazer essa Cópia dos convidados estrangeiros entrando na corte do imperador Yuan de Liang (Liang Yuandi fanke ruchao tu, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) são atribuídas outras duas pinturas que aludem de modos distintos à circulação e passagem de limites. No rolo vertical a tinta e cor sobre seda que lhe é atribuído, Lago de lotos e aves aquáticas, no Museu Nacional de Tóquio, está figurado o ciclo natural da flor de loto, desde o botão à flor até ao murchar das folhas e flores. Noutro rolo vertical designado Caçador de noite regressando a casa numa noite de neve (tinta e cor sobre seda, 114 x 61 cm, no Museu de Arte Aplicada de Francoforte, Angewandte Kunst, Frankfurt) vê-se a figura de um homem de aspecto zangado, para exprimir poderoso, de vestes requintadas para dizer que é nobre, com uma arma insólita, um tridente, de onde pendem dois animais mortos que podem ser dois arminhos. Vem caminhando na neve sob um penhasco acompanhado por um cão cuja coleira mais parece um colar. Na verdade essas figuras podem estar a contar outra história. Gu Deqian terá feito nessa pintura a reconhecível figura da religião popular e do daoísmo designada Erlang Shen, a «Divindade do segundo rapaz» com as suas vestes azuis de imortal, um cuidador e confiável protector, com o seu tridente sanchaji ou sanjian liangren qiang, «lança de três pontas de lâmina dupla» que xamãs manchus usavam para derrotar os espíritos maus que queriam atravessar a fronteira do outro Mundo. Aqueles que, como os arminhos (mustela erminea), eram vistos como errantes capazes de roubar e substituir as almas das pessoas. Erlang shen pode ver-se em várias representações, como aqui, acompanhado pelo cão preto xiaotian quan, o «uivante cão celestial». A neve vai derreter mas não haverá inundações porque Erlang shen não permitirá, no frio da noite o temível caçador é afinal uma figura de quietação.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Substância da Primavera na Visão de Yin Hong Zhuangzi, no século IV a. C., entendia o tempo como um contínuo em transformação que não deve ser contrariado mas aproveitado numa «vadiagem feliz», xiaoyao you, fluindo com ele e para o comprovar não cessava de observar as mutações do mundo da natureza. Os letrados adeptos das artes do pincel que o leram não deixaram de testemunhar esse incessante olhar. Na dinastia Ming, por exemplo, uma das formas de expressar essa atitude, convocando o envolvimento do observador, pode ser vista em pinturas como no engenhoso rolo das Quatro estações (Sishi shanshui, rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 35,1 x 569,9 cm, de autor desconhecido, no Metmuseum) em que ao ser desenrolada da direita para a esquerda, a pintura vai revelando sucessivamente reconhecíveis cenários que distinguem as estações do ano. O pintor Japonês Sesshu Toyo (1420-1506), que durante dois anos foi conhecer a pintura da dinastia Ming, interpretou mais do que uma vez o tema da mudança das estações e de forma admirável em quatro rolos verticais (tinta e cor sobre seda, 149,5 x 75,6 cm, no Museu Nacional de Tóquio). Pintados no depurado estilo então muito admirado dos mestres da antiga dinastia Song, Ma Yuan e Xia Gui, tudo neles tem o sabor da nostalgia. No primeiro, o da Primavera por exemplo, mostra a reconhecível figura de um poeta sentado de costas sobre uma mula ao deixar a casa de um amigo. Desde o início da dinastia, pintores tratavam a grandiosidade da paisagem acentuando o que é particular a cada estação do ano, revivendo esse estilo chamado «escola de Ma-Xia». Outros, nesse tempo, exibiam de forma diferente a passagem das estações, detendo-se em meticulosas figuras de animais e plantas que são a distinta matéria de cada estação. Um membro de uma família de pintores ligados à corte, de quem hoje se conhecem poucas pinturas, numa delas figurou assim expressivamente a Primavera, quando porventura mais se sente um recomeço. Yin Hong (c.1430-c.1500) no grande rolo vertical Encontro de pássaros sob um salgueiro na Primavera (Chunliu juqi, tinta e cor sobre seda, 240 x 195,5 cm. no Museu de Arte de Cleveland) mostra, com minúcia, na margem de um rio sob um salgueiro e à volta de uma ampla gongshi, «pedra de literatos», uma variedade de flores e aves, onde se destaca pela dimensão e exuberância um casal de pavões. A pavoa, à frente, parece estar a empurrar um dente-de-leão pugong ying, sinal de determinação e boa sorte, assim como o salgueiro é de novos inícios, de renascimento e fertilidade. E com a água abundante do rio, são todas figuras apropriadas para representar a Primavera. Quem soubesse interpretar a cena poderia deixar-se embalar e, fluindo, dizer como o poeta Zhu Yunming (1461-1527): «Se há flores e há vinho para celebrar, cantando,/ Como é bom ser um literato e habitar a abundância preciosa do tempo!»
Hoje Macau Via do MeioFurtividade crítica Pavilhão de Vila Franca de Xira • A Reinvenção do Real – Arte Contemporânea Portuguesa na Colecção do Museu do Neo-Realismo Lam Kongchuen Pela tarde passei pela Praça do Tap Seac com Carlos Marreiros, um renomado artista de Macau, explorando os segredos de cada canto enquanto discutíamos a nova exposição na Galeria do Tap Seac, «Re-shaping Reality». À medida que o pano continua a subir sobre os três meses da «Art Macau: Bienal Internacional de Arte de Macau 2025», o Pavilhão Português «Pavilhão Sila Free Town: Remodelando a Realidade – Arte Contemporânea Portuguesa da Coleção do Museu do Novo Realismo», na secção Pavilhão da Cidade, representa muito mais do que uma mera mostra de arte contemporânea portuguesa. Intitulada «Re-shaping Reality», ela aproveita o poder de treze artistas portugueses da colecção do Museu do Novo Realismo para construir um «local intelectual» tenso dentro do Museu Tap Seac. Isto serve não só como um eco continental ao tema geral da Bienal do curador Feng Boyi, «What the hell are you doing here?» (O que raio estás a fazer aqui?), mas também como um acto profundamente relevante de «discrição» e «presença» dentro da posição única de Macau como um caldeirão da cultura sino-portuguesa. A inovação aqui não reside na tecnologia mediática deslumbrante, mas na sua abordagem curatorial e nas conotações das obras. Ela habilmente contorna as narrativas simbólicas frequentemente vistas em exposições de arte ocidentais realizadas em contextos orientais, apontando directamente para a missão central da arte nesta era pós-globalização: como, através de uma reimaginação crítica, encontrar uma âncora «localizada» preciosa e caminhos para a compreensão intercultural dentro das nossas realidades existenciais cada vez mais virtualizadas e fragmentadas. Quando a minha filha e eu entramos no espaço expositivo de «Re-shaping Reality», ela também se deparou com uma reformulação da realidade. As crianças operam segundo as suas próprias regras da realidade, enquanto os adultos continuam a brincar como crianças. A aterragem no mundo real do legado «pós-minimalista» O discurso curatorial da exposição «Re-shaping Reality» está claramente enraizado na tradição crítica emergente do pós-minimalismo desde os anos 60 e 70. Como Hal Foster elucidou, essa tradição libertou a arte do isolamento formalista, comprometendo-a com intervenções e tentativas de transformar a realidade social. A «reconfiguração crítica da realidade» enfatizada pelos curadores David Santos e José Maçãs de Carvalho constitui a continuação contemporânea dessa linhagem. Não se limita a «refletir» a realidade, mas desconstrói-a, questiona-a e recompõe-na através da «desmaterialização» da arte, do «campo expandido» da instalação e da «efemeridade» do processo. A apresentação desta linhagem em Macau traz uma inovação contextual extraordinária. A própria história de Macau é uma crónica em camadas de realidades continuamente «refeitas». A implantação da cultura católica, a resiliência das suas comunidades, a expansão da indústria do jogo e o seu atual posicionamento estratégico como «Uma Base» formam colectivamente uma realidade extremamente complexa. As obras do Museu da Cidade Vila Franca de Xira não abordam a identidade portuguesa através da nostalgia ou do exotismo, mas apresentam a faceta mais reflexiva e crítica da sua arte contemporânea. Esta abordagem evita precisamente a armadilha da «museificação» comum nas trocas culturais sino-portuguesas, onde a arte é reduzida a artefactos exibiáveis. Em vez disso, apresenta um Portugal vivo e pensante, a debater-se com os seus próprios desafios contemporâneos. Esta postura estabelece uma base igualitária e profunda para o diálogo: não estamos apenas a transmitir informações sobre coleções, mas a partilhar e trocar «métodos» para navegar pelas dificuldades contemporâneas. Entre elas, a instalação de Miguel Palma explora a delicada interação entre a produção industrial e os ecossistemas. Exibida em Macau — uma cidade altamente artificial que depende de um consumo substancial de energia e recursos —, a sua interrogação sobre «como a tecnologia molda a vida moderna» desvia-se naturalmente do contexto europeu para a Ásia Oriental, ressoando com preocupações comuns sobre sustentabilidade e antropocentrismo. Essa ressonância não decorre do simbolismo cultural, mas de dilemas existenciais comuns. Do legado do «pós-minimalismo» aos dilemas da «realidade», isto marca a chegada desta linhagem crítica a Macau. O meio como bisturi da realidade A conotação «inovadora» de «remodelar a realidade» é igualmente evidente na utilização hábil e profundamente significativa dos meios de comunicação pelos artistas. Empregando diversos meios, como pintura, instalação, fotografia e vídeo, eles não se envolvem em malabarismos formalistas, mas sim transformam cada meio num bisturi para dissecar facetas específicas da realidade. Os artistas participantes incluem: Alice Geirinhas, André Cepeda, Carla Filipe, Pedro Cabral Santo, Fernando José Pereira, Luciana Fina, Luísa Ferreira, Manuel Santos Maia, Miguel Palma, Paulo Mendes, Rita Barros, Valter Vinagre e José Maçãs de Carvalho. As práticas fotográficas de Luísa Ferreira e Rita Barros representam duas abordagens distintas para lidar com o tempo e a memória. O início da carreira de Ferreira como fotojornalista imbui o seu trabalho com uma sensibilidade documental sóbria. O seu foco nas lojas antigas de Lisboa cria uma curiosa intertextualidade quando exposto em Macau, ressoando com os bairros em desaparecimento e os negócios de longa data da própria cidade. Aqui, a fotografia torna-se uma ferramenta para capturar a «camada em perigo» da realidade, documentando não apenas espaços, mas um ritmo de vida e uma ética comunitária ameaçados pela maré implacável da globalização. Barros, há muito radicado em Nova Iorque, apresenta uma série fotográfica que funciona mais como um arquivo de memória fluido e intercultural. Em Macau — uma cidade de imigrantes — as narrativas da diáspora, do pertencimento e das identidades mutáveis transportadas por estes rostos ressoam diretamente com as emoções complexas dos espectadores sobre o «lar» e as «terras estrangeiras». A sua fotografia não remodela a superfície da realidade, mas sim a estratigrafia temporal e as estruturas emocionais subjacentes. A fotografia e o arquivo tornam-se, assim, a sua «política da memória». A obra de instalação de Miguel Palma e Manuel Santos Maia, no entanto, direciona a sua crítica para sistemas mais amplos. Os trabalhos colaborativos de Palma com engenheiros e biólogos muitas vezes se assemelham a modelos mecânicos intricados, mas disfuncionais, revelando metaforicamente o absurdo e as crises que se escondem por baixo do otimismo tecnológico da sociedade moderna. A prática multimédia de Maia destaca-se na construção de espaços narrativos ricos em símbolos e metáforas dentro de locais específicos. No espaço branco da Galeria de Arte de Taipa, as suas obras criam «subsistemas» distintos e instigantes, convidando os espectadores a entrar e refletir sobre a lógica operacional do «macrossistema» social externo em que habitam. Esta capacidade de «modelar» realidades sistémicas através de instalações artísticas e submetê-las a crítica representa uma das ferramentas mais potentes da arte contemporânea para o envolvimento social. Como críticos do sistema, eles expandem a relação entre instalação e local. As explorações de Fernando José Pereira e Luciana Fina no domínio das imagens em movimento dedicam-se a remodelar os nossos padrões de perceção. A investigação de Pereira sobre a relação entre vídeo e música perturba a hierarquia convencional entre o visual e o auditivo, criando uma experiência sinestésica que, por si só, desafia a nossa perceção singular e linear da realidade. Fina navega pela interseção entre cinema e artes visuais, abordando frequentemente temas como migração e identidade. A sua linguagem cinematográfica, imbuída de contemplação poética e efeitos de distanciamento, sacode o público da anestesia das narrativas mainstream, obrigando-o a confrontar indivíduos e realidades marginalizados. Num «mundo saturado de imagens» dominado por vídeos curtos e recomendações algorítmicas, a sua prática defende a dignidade das imagens em movimento como um meio sério e crítico. São reconstruidoras da perceção, redescobrindo a relação oculta entre imagem e som. A prática de Carla Filipe e Alice Geirinhas tem uma forte fisicalidade e um lado ativista. Filipe constrói híbridos de retratos sociais e autobiografia através da apropriação de artefactos e documentos. O seu trabalho «cresce nas ruas», imbuído do calor do artesanato e da perspicácia política. A exploração do feminismo e da igualdade de género por Geirinhas coloca a política da identidade pessoal no centro da sua criação. Os seus trabalhos lembram-nos que a «remodelação da realidade» diz respeito não só a grandes narrativas e sistemas, mas também a cada corpo e identidade específicos e politizados. Em Macau — um território onde diversas identidades culturais se entrelaçam — a sua arte oferece perspetivas inestimáveis para examinar a interseccionalidade de género, classe e identidade cultural. A pintura e a ação são inseparáveis; a sua prática artística constitui uma intervenção corporal. Benjamin utilizou o bisturi na obra-prima de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, como metáfora da tecnologia, utilizando técnicas mediáticas para alcançar uma «proximidade» com a realidade. Como bisturi da realidade, as práticas multidimensionais deste grupo de artistas contemporâneos portugueses representam uma manifestação concentrada da «proximidade» da arte com a realidade. «Vila Franca de Xira» como metodologia Vila Franca de Xira não é apenas uma localidade portuguesa; no âmbito curatorial de «Re-shaping Reality», funciona também como uma metodologia. Outro aspeto inovador da curadoria reside na sua utilização habilidosa do ADN cultural local de Vila Franca de Xira. Famosa pela sua tradição taurina, esta prática cultural — imbuída de elementos ritualísticos, da estética da violência e de apostas de vida ou morte — constitui, por si só, uma interpretação altamente simbólica e antiga da «realidade». Embora o discurso curatorial não o afirme explicitamente, os elementos inerentes à cultura das touradas — confronto, ritual, risco, carnaval público e sacrifício individual — exibem uma profunda afinidade estrutural com o espírito que sustenta a prática artística contemporânea crítica. Os artistas funcionam como os toureiros da nossa era, enfrentando não um touro tangível, mas bestas mais colossais e abstratas: o capitalismo globalizado, a alienação tecnológica, a política de identidade, o esquecimento histórico. Os seus esforços criativos constituem uma competição intelectual — realizada em arenas públicas (o mundo da arte, a sociedade) — rica em adornos ritualísticos (exposições, inaugurações, debates). Considere a lente de André Cepeda capturando «espaços esquecidos ou rejeitados» — não são eles ruínas urbanas «derrotadas» pelas correntes económicas? Da mesma forma, a observação fria, quase antropológica, de Valter Vinagre nas suas obras parece um confronto silencioso com a lenta passagem do tempo. Colocar a arte originária de uma cidade famosa pela tourada tradicional em Macau — uma cidade carnavalesca moderna que simboliza capitais culturais e a indústria do entretenimento — constitui, por si só, uma metáfora magistral. Tanto a tourada como o jogo envolvem risco, sorte e desempenho, mas a primeira carrega consigo a tragédia clássica e a dignidade ritual, enquanto a segunda se inclina mais para a gratificação instantânea consumista e a probabilidade matemática. Este diálogo latente entre contextos culturais enriquece a exposição com uma camada interpretativa profunda: como é que a «realidade» da nossa era foi remodelada de um confronto ritualístico e direto entre o homem e o destino para uma experiência de consumo imersiva meticulosamente concebida por algoritmos e capital? Os artistas de Hila Free Town resistem e expõem esta «remodelação» através da sua prática crítica. Como metodologia, «Sila Free Town» incorpora a dialética entre a metáfora da tradição das touradas e a crítica contemporânea. Remodelar a própria «remodelação» Remodelar a própria «remodelação» oferece uma revelação inovadora para o paradigma do intercâmbio cultural sino-português. Em última análise, o maior valor inovador da exposição «Remodelar a Realidade» reside no seu potencial para remodelar o próprio paradigma do «intercâmbio cultural sino-português». As práticas do Museu da Cidade Livre de Hila aventuram-se corajosamente nas águas profundas do pensamento. Elas demonstram que a prática artística verdadeiramente vital vai além da exibição de obras acabadas em galerias; envolve partilhar como os artistas, nos seus estúdios, nas ruas e nas profundezas das suas mentes, se envolvem numa «luta» com as realidades complexas em que vivemos. Partilha «métodos», «consciência dos problemas» e «coragem crítica». Quando um espectador de Macau se depara com a instalação de Carla Filipe, construída a partir de tecidos antigos e documentos de arquivo, não percebe apenas uma obra exótica, mas potencialmente uma inspiração sobre como materiais humildes podem produzir comentários sociais poderosos. Quando um estudioso de renovação urbana se depara com a fotografia de André Sepeda, descobre um vocabulário visual novo através do qual pode examinar as transformações urbanas de Macau. Esta exposição funciona como um «espelho crítico», refletindo tanto as fissuras e perplexidades da sociedade portuguesa contemporânea como convidando simultaneamente o público de Macau a discernir os contornos e texturas da sua própria realidade dentro da sua superfície. Consegue alargar a experiência estética da arte a uma reflexão profunda sobre a própria vida, transcendendo as fronteiras geográficas e culturais. Lembra-nos que a «realidade» nunca é fixa, mas perpetuamente narrada e construída. Uma das funções mais preciosas da arte contemporânea é fornecer-nos as ferramentas e a coragem para remodelar essas narrativas. No grande quadro da «Art Macau», a exposição Free Town de Hila pode não ter sido a mais impressionante em termos visuais, mas a sua densidade intelectual e engenhosidade curatorial tornaram-na uma «operação secreta» verdadeiramente inovadora. Penetra silenciosamente na superfície do intercâmbio cultural, atingindo as profundezas da ressonância intelectual. Infunde ao posicionamento estratégico do Centro de Intercâmbio Cultural Sino-Português uma vitalidade crítica indispensável e um espírito contemporâneo. Não só revela o estado atual da arte contemporânea portuguesa, mas, mais significativamente, convida-nos a participar num diálogo contínuo sobre como vemos, como pensamos e como vivemos. Este é, precisamente, o objetivo final perseguido por toda a grande arte. (Contribuições para este artigo de Cherry Tsang e Lin Kanyi)
José Simões Morais Via do Meio关帝 Guan Di – deus da Guerra Em Macau, a maior parte dos estabelecimentos comerciais têm a imagem de Kuan Tai (Guan Di em mandarim), que se apresenta com um corpo forte, cara vermelha, longa barba preta e vestindo como oficial militar, a segurar na mão direita uma lança. Como pessoa é conhecido por Guan Yu e está relacionado com a queda da dinastia Han e às lutas para o estabelecimento do reino Shu, no período que antecedeu os Três Reinos. Com o nome de Chang Sheng (长生) nasceu em Xiezhou (hoje Yuncheng, província de Shanxi), no dia 24 do sexto mês lunar dos anos 60 do século II. Como episódio da sua juventude conta-se que certo dia um fidalgo quis à força possuir uma rapariga e Guan Yu, indignado, matou-o. Perseguido pelas autoridades teve que fugir e segundo a lenda, para não ser reconhecido Guanyin (conhecida em Macau por Kun Iam) transfigurou-lhe a cor da cara para vermelho. Outra história refere que um proprietário rural com muito poder, para obrigar toda a gente a comprar-lhe água, conspurcava as outras fontes da região. Saturado com tamanha infâmia, Guan Yu um dia matou-o e teve que fugir da cidade. Nessa fuga, para passar a fronteira (guan), tomou o nome de Guan Yu. Nos finais da dinastia Han do Leste (25-220), a decadente corte em Luoyang era dominada por eunucos e generais. Guan Yu vagueava como vendedor ambulante na municipalidade de Zhuo, (hoje província de Hebei), quando se encontrou com Liu Bei e Zhang Fei. Os três fizeram um juramento no jardim dos Pessegueiros tornando-se irmãos de armas, com o voto de Guan Yu e Zhang Fei ajudarem Liu Bei, ligado à casa real dos Han, na sua sublevação armada para estabelecer o reino Shu-Han. Por essa altura havia outras duas diferentes facções que dividiam o país e assim no Norte, dominava o exército Wei liderado por Cao Cao, no Leste e Sul as forças Wu e a Oeste, os Shu. Eram constantes as batalhas entre elas. Guan Yu, um ávido leitor do Clássico “Anais da Primavera-Outono” (Chunqiu jing), que o acompanhava sempre, comandava a guarnição Shu em Jingzhou há 10 anos. No ano 219/220, estando ocupado numa batalha fora da muralha contra as forças Wei, foi apanhado por um ataque surpresa do exército Wu, que era mais ou menos aliado dos Shu. Os Wu conquistaram a cidade e mataram Guan Yu, decepando-lhe a cabeça para, como prova de amizade, a entregarem a Cao Cao. A meio caminho souberam que os Wei tinham feito um acordo de paz com os Shu e por isso, a cabeça foi abandonada junto a Luoyang. O processo da sua deificação foi longo. Apesar de só ter sido Deus da Guerra durante o período Ming, quando em 1578 o imperador Wan Li lhe deu o título de Imperador Guan (Guan Di), já na dinastia Sui tinha um templo a si dedicado no local onde foi sepultado, sendo os títulos dados por todas as seguintes dinastias. Durante a vida, Guan Yu tinha a posição de Oficial Militar (Hou). Na dinastia Song tomou o lugar de Rei (Wang). Pela sua lealdade, honestidade, piedade, benevolência, sentido de justiça e coragem, tornou-se muito popular devido ao livro San Guo Yan Yi, escrito no início da dinastia Ming. Foi nessa dinastia promovido a Imperador (Di) e depois, em 1614, a Sábio (Sheng) ou Santo Militar (Wu Di). Como Ser tão perfeito, todas as profissões o querem como patrono e assim é venerado como Deus da Guerra, da Literatura, da Riqueza e patrono das Artes Marciais. Em Macau, Guan Di é conhecido por Kuan Tai e o templo Sam Kai Wui Kun, situado na rua Sul do mercado de S. Domingos, é-lhe dedicado. Aí, a imagem do Deus é toda dourada, não tendo objectos nas mãos e está acompanhado à sua esquerda por Chau Chong e do outro lado por Kuan Peng. O seu aniversário acontece no dia 24 do sexto mês lunar apesar de não se realizarem oficialmente nenhumas festividades em sua honra. 灶神 Zao Shen – o deus do Fogão O deus do Fogão, conhecido em Macau por Tchôu-Sân (em mandarim Zao Shen), é o mais importante das divindades domésticas e duas vezes por mês (durante a Lua Nova e a Lua Cheia) recebia oferendas, apesar do seu aniversário apenas ser celebrado no terceiro dia, da oitava Lua. No entanto, as cerimónias mais importantes realizadas a este deus são as que ocorrem antes da viagem de uma semana, quando o deus deixa o lar e vai ao Céu fazer o relatório anual ao Imperador de Jade sobre a família da residência onde está colocado. E é por isso que este deus, também conhecido por deus da Cozinha, como por simplificação passou a ser chamado o deus da Chaminé da Cozinha, tem grande poder sobre a vida das pessoas que formam o agregado familiar. É na última semana do ano lunar, que sobe ao Céu para se reunir com o Imperador de Jade, onde lhe relata os acontecimentos ocorridos na habitação a seu cargo, regressando no primeiro dia do ano, onde de novo é colocado na cozinha, atrás do fogão. Na véspera da viagem, no vigésimo terceiro dia do último mês lunar, os habitantes da casa oferecem sacrifícios a esta divindade, enchendo-o de guloseimas para que apenas conte coisas boas ao Imperador de Jade. Numa cerimónia realizada apenas pelos homens, o deus do Fogão parte transportado num cavalo e para que a viagem seja fácil e agradável, um dos seres masculinos da casa pega numa vela e queima a imagem do deus para que mais facilmente ascenda pelo fumo ao Céu. Antes de ser nomeado pelo Imperador de Jade como Deus do Fogão, ou da Cozinha, fora um marido que, tendo gasto todo o dinheiro ao jogo e vendido a sua mulher, anos mais tarde ao mendigar pelas ruas chega à casa da sua antiga esposa. Esta, reconhecendo-o e com pena dele, leva-o para a cozinha onde lhe dá de comer. Mas o actual marido chega e para que não o veja, esconde-o na lareira. Quando a criada acende o lume este, para não comprometer a caridosa mulher, ali se deixa ficar. O Imperador do Jade vendo o seu sacrifício, nomeou-o deus do Fogão, conhecido também como deus da Cozinha, ou deus do Lar. Existem outras versões tanto para como o homem perdeu o dinheiro, como a sua ex-mulher o apoiou. Esta, sem ser reconhecida pelo ex-marido, deu-lhe alguns bolos onde colocou uma moeda em cada um. O homem, no caminho encontrou um outro pedinte, que ao ver o saco com os bolos, lhe pediu um. Este ao descobriu a moeda no meio do bolo e percebendo que o outro não sabia do recheio propôs ficar com todos, o que conseguiu a troco de uma pequena quantia. Quando mais tarde veio a saber o que tinha feito, percebendo a sua pouca sorte, resolveu suicidar-se. O Imperador do Jade vendo a sua bondade, nomeou-o deus da Cozinha. A celebração da viagem até ao Céu desta divindade começou por se realizar no Verão, mas na dinastia Han passou para o Inverno e durante a dinastia Ming foi celebrada pelos populares no dia 24, realizando-se os sacrifícios no dia anterior. Zao Shen é representado numa imagem onde consta apenas a sua figura, ou associada com a consorte, ou ainda apenas com caracteres, que se coloca no primeiro dia do ano lunar na cozinha por detrás do fogão.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioPorque Lu Ji Podia Entender a Vitalidade da Natureza Sesshu Toyo (c.1420-1506), o monge pintor Japonês adepto do Budismo Chan, depois de anos de treino nos templos Hofuku-ji e sobretudo no Shokoku-ji, onde estudou com o mestre Tensho Shubun, entra ao serviço de um poderoso clã de mercadores que lhe permitem viajar até ao Celeste Império. Aí irá conhecer de perto a centenária e excepcional arte da pintura bem como as suas fontes de inspiração. Reinava a dinastia Ming quando desembarca na cidade de Ningbo (Zhejiang) de onde, desde as dinastias Song e Yuan, vinham muitas pinturas admiradas nos templos budistas do Japão. Durante os três anos da sua estadia entre 1467-69, foi-lhe permitido viajar até Pequim através das admiráveis paisagens figuradas em obras de tantos pintores. Mas, motivos de inspiração, encontrou-os logo na cidade costeira das «ondas serenas» de Ningbo, onde pintores profissionais alcançavam grande êxito no género huaniao hua, a «pintura de flores e pássaros». Cujo conhecimento ele mostraria em pinturas de um minucioso realismo descritivo como no tríptico Flores e pássaros (cada um tinta e cor sobre seda, 55,9 x 53,4 cm, no Museu de Arte de Cleveland). Entre esses pintores profissionais estava um, nascido no distrito de Siming, que seria imensamente reconhecido chamado Lu Ji (c. 1429-1505). Depois de acolhido por um mecenas, o político Yuan Zhongche (1377-1459), o seu talento foi reconhecido, sendo chamado à corte do imperador Chenghua (r. 1465-87), mas seria do seguinte imperador Hongzhi (r. 1488-1505) que receberia a qualificação de «moral, justo e reverente», palavras que juntas às que mais tarde Li Mengyang (1473-1529) escreveu num poema, revelariam a constância do seu carácter íntegro: «Lu Ji, de cabelos brancos, tinha um queimador de incenso de ouro ao lado, mas no fim do dia regressava a casa sem dinheiro para comprar vinho.» Se a posteridade guardou estas palavras foi porque os historiadores da pintura relevaram sempre o carácter moral dos seus cultores, só assim capazes de se relacionar com o mundo da Criação. Lu Ji estudaria atentamente pinturas de antigos mestres da categoria de Pássaros e flores como Huang Quan (903-65) mas também de paisagens como Ma Yuan e Xia Gui, da dinastia Song. O que se pode ver em Paisagem de Outono com garças e patos (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 147,6 x 54,6 cm, no Metmuseum) em que o cenário monumental se sobrepõe às figuras. Noutros rolos nota-se o gosto pelo jogo simbólico entre figuras e palavras como em Patos mandarim e hibiscus rosa sinensis (tinta e cor sobre seda, 172,7 x 99,1 cm, no Metmuseum). No final do século XV, pinturas com o nome de Lu Ji apareciam às centenas no mercado. O que levou alguns a considerá-las obras «da mão, não do coração» mas era preciso conhecê-lo como fez o imperador ou como Sesshu que, para conhecer a arte, foi conhecer as pessoas.
Ana Cristina Alves Via do MeioFilosofias Comparadas: Imagens de Portugal Por Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural A imagem que os portugueses possuem de si próprios enquanto todo coletivo difere interna e externamente, de acordo com os pensadores e seus modos de estar na vida, que por sua vez dependem de enquadramentoas culturais mais vastos, as suas próprias coletividades. Não se espera que o olhar de um francês sobre os portugueses e Portugal seja semelhante ao de um chinês e muito menos ao de um português, porque as suas perspetivas estão condicionadas pelo seu desenvolvimento histórico-cultural, o que irá definir uma postura civilizacional específica para cada pensador e sua história de vida pessoal e coletiva. Acresce ainda que o olhar de um estrangeiro sobre Portugal será sempre mais distanciado, para o bem e para o mal, do que a visão próxima e comprometida até à raiz mais funda do seu ser de um português, mesmo que este procure ser tão imparcial quanto possível, como é o caso de Miguel Torga, escritor e pensador que muito amou o seu país, mas sempre na via do meio, sem se deixar levar por os calores românticos e nacionalistas, por exemplo de um Teixeira de Pascoes em A Arte de Ser Português. Comece-se pelos olhares exteriores, aqueles que nos chegam além-mar português. Comece-se pelo recentíssimo texto Astérix na Lusitânia de outubro de 2025 de Fabcaro com desenhos de Didier Conrad, impecavelmente traduzido para português por Maria José Pereira e Paula Caetano. Os compatriotas, o pessoal do “pá”, que oscila no livro entre o calão e os rasgos líricos do fado português, no melhor que Amália tem para oferecer, são apresentados de um modo crítico e irónico, por vezes mordaz, num tom vindo da escola cómica e racionalista francesa, a que diz o que pensa, porque assim vai existindo sem se preocupar com as consequências de que o seu pensamento aberto, frontal e crítico possam ter sobre os lusitanos que lerão estas linhas em banda desenhada, muitas delas verdadeiramente cómicas, mas que por certo atingem em cheio as cordas sentimentais e nervosas dos grandes heróis do mar lusitano. Os mais bem-dispostos aproveitarão o pretexto para se rirem de si mesmos, já os mais sérios e carrancudos digerirão com alguma dificuldade a banda desenhada, cuja principal característica é brincar em torno do mar português, mas gastronómico. Os portugueses distinguem-se na obra pelo gosto a peixe e a molhos com peixe, sendo monotonamente exímios nas mil e uma maneiras de confecionar bacalhau, o que leva, como é óbvio, ao desespero do ilustre gaulês Obélix, que se vê rodeado de bacalhau e molho de peixe (garum) por todo o lado. Astérix e Obélix vêm numa missão a Portugal ajudar a libertar o Malmevês um português condenado à prisão por alegadamente ter tentado envenenar César com garum. Eles foram chamados por um personagem português, cujo nome é altamente revelador, o Tristês. Entretanto, o Malmevês tem uma filha, com outro nome sintomático, a Saudade, por quem Obeléx se apaixona. Aos lusitanos sobra tristeza, saudade e melancolia e não ficam a dever à beleza, sendo com grande desgosto que os gauleses terão de se disfarçar de lusitanos para salvar da prisão Malmevês, sendo a bem-sucedida missão auxiliada pela inteligência gaulesa que desmascara o verdadeiro envenenador e seu cúmplice. Embora os portugueses não sejam apresentados como belos, inteligentes, tendo alguns pouca ética, porque traíram o herói dos heróis, Viriato, têm entre os aspetos mais positivos uma gastronomia interessante, excetuando o bacalhau e o molho de peixe, mas que inclui o pastel de nata e o bom vinho, até verde. A culinária é sem dúvida o ponto alto da narrativa, sob todas as perspetivas, mesmo a dos Descobrimentos, que são reduzidos e condensados numa referência ao Tasco do Vasco da Gama “Ó Pá, no Tasco do Vasco da Gama descobrem-se novos mundos” (Fabcaro, 2025, 36). O facto dos portugueses gostarem tanto de fado faz com que o ambiente se torne muito triste para ouvidos gauleses, que vão tecendo considerações filosóficas interessantes ao longo do texto a respeito do mesmo, já que este é considerado retirar força anímica aos soldados e gentes lusitanas, que no calor da peleja são apaziguados pelo cântico dolente e triste que torna os guerreiros assim: “de repente fiquei tão melancólico” (Fabcaro, 2025, 28) ou “afinal passamos a vida a correr atrás de quê?” (Ibidem). Resumindo, desta banda desenhada retira-se para o nosso retrato coletivo, um povo triste e melancólico, muito marcado por longos anos de repressão, em que os revolucionários se encontram na cadeia, como aquele que grita atrás das grades “ó pá, ouçam bem, malditos romanos! O povo unido jamais será vencido.” (Fabcaro, 2025, 33). Distinguem-se na Lusitânia umas verdadeiras mulheres de armas como a Gama, quando se diz, “seria impossível levar a missão a bom porto sem a ajuda da Gama” ( Fabcaro, 2025, 47). Por fim, os heróis gauleses partem rumo à Gália, retendo uma outra característica que costuma ser realçada em relação aos portugueses, a suavidade no relacionamento: “Ah estes lusitanos! São tão afáveis no trato…custa ter de partir, não é?” (Fabcaro, 2025, 48). Não se pode generalizar a imagem filosófica cómica desta banda desenhada a todos os franceses, mas o que fica para alguns é que a ilustre e antiga história portuguesa se resume bem a um notável heroísmo gastronómico, representado por uma mulher forte, a Gama, à frente do Tasco Vasco da Gama e enquanto ela estiver ao leme novos mundos de sabor serão sempre descobertos. Do ponto de vista gaulês é dispensável tanta melancolia e tristeza, mas salva-se no meio deste “estranho modo de ser” a afabilidade que deixa saudades da terra e vontade de regressar. Pelas características da mentalidade chinesa, moldada por séculos de harmonia confucionista não se pode esperar dum pensador chinês o mesmo tipo de registo aberto, livre, crítico, pelo contrário as descrições serão cuidadosamente escolhidas de modo a que não firam a sensibilidade alheia, como é o caso da obra do pensador e historiador Wu Zhiliang (吴志良), Crónicas de Portugal 葡萄牙印象, fruto de uma estadia do autor enquanto estudante no país em 1991. Logo, e recordando uma ideia com que se inaugurou o artigo, as reflexões de um pensador ou criativo estão condicionadas pela maneira de ver própria que se insere e enraíza na sua cultura. Para Wu Zhiliang os portugueses são ainda os descendentes dos heróis do mar que chegaram à China e a Macau, cruzando destemidamente os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e, nos nossos dias, são os grandes impulsionadores do diálogo cultural do século XVI, proporcionando um encontro de culturas que foi extremamente benéfico para os chineses, porque os abriu a outros mundos, despertando-os para um modo ser complementar ao chinês, que ele descreve como submisso e tranquilo. O mais valorizado na introdução e conclusão dos sucessivos retratos de Portugal fornecidos por estas Crónicas são as novas características com que os chineses e outros povos orientais são confrontados no seu relacionamento com os portugueses, sobretudo, o espírito ativo, inquieto e desassossegado, que cruzou “a magia de Alá com os Bodhisattvas indianos, o Tao chinês e a meditação japonesa com o espírito totalmente inquieto do Ocidente. Na nascente da força descobridora, espiritualizada e vazia, Oriente e Ocidente convergem num só neste humilde e silencioso “vazio”, a raiz de todas as coisas que se transforma numa imensa e infinita liberdade.《要以安拉的魔法,印度人的菩薩,中國人的道,日本人的禪,以及西方那充滿騷動的精神,來發現力的本源,在那裡,神意味着虛無。在這力的源泉中,東西方交融在一處,我們在 “無”這個萬物之本的謙卑和寂寞中,變得無比自由。》(Wu, 1991,1/ 2). Enfatiza Wu Zhiliang ao longo da obra e, também nas notas finais, que os vários encontros, incluindo académicos, proporcionados pelas instituições do território de Macau são um contributo inestimável para a amizade e diálogo culturais, sendo esta a perspetiva correta do ponto de vista do autor para avaliar o papel dos portugueses no mundo, que em plena época contemporânea ainda remonta ao seu grandioso passado histórico, muito à semelhança do que sucede aos pensadores e escritores portugueses, mesmo aos mais imparciais como é o caso de Miguel Torga (1907-1995). Este escritor nascido em São Martinho de Anta, médico de profissão, conhece bem o seu povo, as suas alegrias e tristezas, riquezas, misérias e superações. Num retrato muito bem conseguido do país em tempos salazaristas escreve Portugal, cuja primeira edição data em Coimbra de 1950, assumindo perspetivas muito claras em relação ao passado histórico português aquém e além-fronteiras. Aquém-fronteiras domina a marítima, versátil, cosmopolita e aventureira capital de Lisboa contra a telúrica cidade do Porto, realista e voltada para as suas raízes. Ao longo da obra vai tecendo considerações oportunas e incisivas sobre a mentalidade portuguesa, que conduzem a uma imagem que nos dias de hoje talvez desague para as gentes aventureiras na personagem da novela Senhor Ventura, obra datada de 1991. Esta transporta-nos até à China. Voltando a Portugal, o autor estreia a obra pelo Minho onde tece considerações sobre o modo como os portugueses empobrecidos se relacionam com a vida do mar e da emigração: “De vez em quando poderá ter um acesso de fúria e tentar fugir de si. Baldada ilusão. Aonde chegar será sempre ele ainda, a morrer de saudades e a sonhar o regresso da aventura com uma pequena reforma. Como bálsamo, restar-lhe-á o narcisismo das façanhas passadas e o somático contentamento de ver crescer e progredir os mundos que descobriu e civilizou.” (Torga, 2003, 17). Muitos eram os emigrantes do antigo regime que tal como hoje partiram: a diferença é que atualmente estão muito mais bem preparados e educados. Os portugueses que emigram são, na sua maioria, quadros qualificados detentores de vários graus e diplomas nacionais, ostentando uma formação sólida e apetecida pelo mundo fora. Mas se as pessoas evoluíram em termos sociais, a mentalidade não mudou assim tanto relativamente à maneira como se relacionam com o seu passado histórico, nem no gosto do risco e da aventura que as impele para fora do país. A esperança será sempre a de uma vida melhor, embora os passos para a alcançar nem sempre sejam bem medidos. O autor quando descreve Trás-os-Montes, as suas berças, diz-nos a respeito dos emigrantes “Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militância, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Áfricas e Oceanias, metem toda a quimera numa saca de retalhos e lá vão eles” (Torga, 2003, 50). Eis um traço de a mentalidade portuguesa que se mantém em regime constante desde os Descobrimentos, a vontade e a necessidade de partir não apenas por falta de oportunidades, mas também pela sede de aventura, assim como a naturalidade na miscigenação, que bem se nota na capital de Portugal já desde os tempos de” Dona Filipa de Lencastre a parir por conta da grei portuguesa de fora” (Torga, 2003, 77), ou até mais além, desde a própria fundação da terra derivada da energia de um filho de pai francês e mãe espanhola. Porém, o maior perigo para Portugal e para a coletividade como um todo é, de acordo com a perspetiva de Torga, desperdiçar a força anímica dos portugueses e dos seus rasgos em aventuras inconsequentes que em nada possam contribuir para os seus projetos de vida individuais e/ou para o bem comum, mas que narcisicamente insistimos em reviver. Diz-nos a propósito de Lisboa “Narcisos que fomos também um dia, esperava-nos um destino igual ao do filho de Céfiso. Lisboa é essa flor em que o destino nos transformou; o Tejo, o rio onde nos perdemos a contemplar a nossa própria imagem” (Torga, 2003, 136). É justamente este misto de orgulho, vaidade e iniciativa que mostra a obra O Senhor Ventura. O protagonista é um homem de Penedono, no Alentejo, mas de múltiplos recursos e capaz de deitar mão a qualquer obra. Com uma constituição possante e taurina, depois de uma aventurosa experiência de serviço militar que o conduz a Macau e a um pequeno romance logo contrariado com Júlia, a filha do secretário do Governador, desertou da tropa e fez-se ao mundo como marinheiro a bordo de um navio que fazia cabotagem no mar da China. Daí passou a empregado numa garagem da casa Ford em Pequim, onde fez amizade com o Pereira um homem do Minho que cozinhava muito bem, tendo sido ele seu companheiro de aventuras até à morte. Entretanto, o Ventura cai nas boas graças do patrão da Ford, o Sr. Hughes por ser “um homem de pulso e iniciativa” (Torga, 2003, 26). Na vida, fez de tudo um pouco, traficou drogas e armamento, foi pirata, raptou, conduziu 200 camiões até à Mongólia e para sua desdita apaixonou-se por uma russa de vida pouco recomendável, a Tatiana. Embora avisado, até por si mesmo, porque o par se dava muito mal, quis casar com ela de quem teve um filho, o Sérgio. Foi então que resolveu enriquecer metendo-se no tráfico de droga, mais concretamente de heroína. Este novo ramo de atividade correu-lhe mal, foi descoberto pelas autoridades chinesas e teve de regressar a Portugal, deixando o filho ao cuidado da mulher, que o traiu, assim que virou costas. Regressou ao Alentejo num período de 5 anos para que as autoridades chinesas se esquecessem do assunto. Enfim, esteve em Portugal e regressou à China quando descobriu que a mulher o tinha traído. Procurou-a por todo o lado até que já moribundo foi ela quem o encontrou para lhe fechar os olhos no seu leito de morte. A palavra que melhor caracteriza o Senhor Ventura é segundo o autor “Acção – era a sua grande palavra.” (Torga, 2003,64). O escritor tem o cuidado de advertir a respeito desta história: “em cada paragem não faço mais do que tentar uma pequena meditação sobre o destino que é mais colectivo do que individual” (Torga, 2003, 70), acrescentando que o facto de estar o alentejano de regresso à terra é um chamamento do destino, imperioso, para o recolocar em contacto com as raízes, numa nova oportunidade de vida. O protagonista rejeita a chance, devido à obsessão que sentia pela sua paixão russa e que o vai conduzir à morte, rematando o autor com a seguinte reflexão: “Mãos estranhas enterraram no dia seguinte o corpo mirrado do pobre aventureiro na terra estrangeira onde devia pagar o preço das suas aventuras.” (Torga, 2003, 100). Das duas imagens estrangeiras e mais distantes dos portugueses, uma crítica e lúdica pelas mãos do artista francês Fabrice Caro (Fabcaro), outra enaltecedora e muito positiva transmitida pelo pensador chinês, Wu Zhiliang, a que se junta uma terceira mais realista e próxima transmitida pelo escritor português, não se pode concluir que haja apenas uma verdadeira. O retrato coletivo só em conjunto e numa espécie de perspetivismo nietzschiano se pode obter dos traços essenciais da mentalidade portuguesa contemporânea, moldada, como viu bem o artista francês, por séculos de apagamento, mas também pela consciência das façanhas gloriosas de um passado intercultural que se prolonga até ao presente, segundo Wu Zhiliang, ou ainda pela sede de ação e de aventura que, quando não é devidamente estruturada e enraizada em sólidos planos individuais e coletivos, pode conduzir a um inoportuno beco sem saída. Referências Bibliográficas Fabcaro, 2025. Astérix na Lusitânia. Tradução de Maria José Pereira e Paula Caetano. Desenhos de Didier Conrad. Cor de Thierry Mébarki. Alfragide: Edições Asa. Torga, Miguel. 2003. Portugal. Lisboa: Herdeiros de Miguel Torga José Manuel Rodrigues e Publicações Dom Quixote. Torga, Miguel. 1991. O Senhor Ventura. Coimbra: Círculo dos Leitores Wu Zhiliang (吴志良). 1991. Crónicas de Portugal 葡萄牙印象Macau: Associação Mundial de Intercâmbios Culturais e Artísticos (Macau) com o patrocínio da Fundação Oriente e Fundação macau. Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. https://www.cccm.gov.pt
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Mestre que está na origem das Três Perfeições Du Fu (712-770), o poeta sábio da dinastia Tang, cultivou a amizade com a firmeza do seu inabalável carácter capaz de reconhecer nos outros a abundância da sua própria vida. Em poemas que deixou pode ler-se essa consciência. Celebrando encontros à volta da mesa, cunhando em versos a expressão literária Yinzhong baxian, dos «Oito imortais da taça de vinho» que aí atribui ao insígne poeta Li Bai. E, como escreveu para o seu amigo Wei Ba, nem o tempo nem a distância eram obstáculos para celebrar a amizade: «Sendo quase tão dificíl os amigos encontrarem-se como a reunião das constelações Shen e Shang que nunca partilham o mesmo espaço no céu, / Esta noite é uma ocasião rara./ Reunidos à luz de velas,/ Dois homens que foram jovens/ E agora, já nas têmporas o cabelo a ficar cinzento.» Noutro poema evocou um amigo que, como ele e tantas outras personalidades literárias do tempo, foram lesadas pela revolta do general An Lushan (703-57), que entre 755-63 abalou a dinastia. Para o seu amigo mais velho Zheng Qian (691-759) escreveu o incómodo que sentia por uma injustiça que lhe fizeram, no poema que começa: «De ti que, como de uma augusta árvore, se soltam da barba finos fios de seda,/ E depois de beber uma taça de vinho dizes ser apenas um velho mestre da pintura./ De muito longe oiço que o teu espírito é incomodado e todos os dias severamente admoestado.» Porque o velho mestre, tendo sido obrigado a servir na capital dos rebeldes, foi acusado de colaboracionismo no regresso do imperador e foi exilado paraTaizhou (Zhejiang) com funções menores. O facto de não ter sido executado poderá revelar uma memória do respeito como fora tratado pelo imperador Xuanzong (r.712-756), o que reinou mais tempo na dinastia Tang. De acordo com o historiador da pintura Zhang Yanyuan (815-907), ao receber um rolo pintado por Zheng Qian, mas também com um poema da sua autoria e escrito na sua distinta caligrafia, o imperador escreveu na obra quatro caracteres que perdurariam para descrever o apreço de obras de arte – zheng qian san jue, as «três perfeições de Zheng Qian». Zheng Qian foi descrito por Zhang Yanyuan (815-907) como alguém que «sofrendo privações, gostava do som do qin, do vinho e de recitar os seus poemas». E se bem não restem hoje exemplos da sua arte, outro historiador ainda no século VIII, Zhu Jingxuan, colocando-o na classe dos pintores yipin, «sem constrangimentos», refere o seu talento na pintura de peixes. Os seus interesses, porém, iam longe, desde a geografia à medicina tendo compilado uma obra nesta área com conhecimentos de árabes e persas. Mas entre aqueles que o recordaram com emoção, avultam os versos de Du Fu que no fim do poema de despedida escreveu: «E talvez que quando um dia nos separarmos,/ De novo, no outro mundo, continuaremos a percorrer a estrada da amizade, além do tempo.»