O homem de pé diante das montanhas frias de Gao Yan

Liu Zhangqing (c.709-785), que foi funcionário imperial e poeta durante um período de grande perturbação política que abalou a dinastia Tang, como a revolta de An Lushan, foi também no seu percurso biográfico acompanhado de sucessivas acusações e condenações que o levaram a contínuas deslocações até chegar ao importante posto de governador de Suizhou (Hubei) em 780, a partir do qual passaria também a ser conhecido como Liu Suizhou como se finalmente encontrara o seu lugar.

Numa dessas deambulações, descreveu de forma breve e eloquente como foi acolhido numa noite de vento e chuva numa Montanha dos Hibiscos, um nome comum a várias montanhas:

«A noite descendo e as montanhas verdes surgem na sua vastidão de caminhos infinitos, No meio do frio gelado uma humilde cabana surge na sua pobreza. Subitmente por trás de uma porta, feita de ramos entrelaçados, oiço um cão a ladrar, Nessa noite de chuva e neve fui recebido como se fora da família.»

Muitos anos depois, um outro poeta, também pintor, deixou-se tocar pela mesma impressão contrastante de sentida tristeza perante a irrecusável beleza diante de seus olhos. Chamava-se Gao Yan (1492-1542) e também ele vivia tempos inquietantes, com a abrupta mudança dinástica de Ming para a estrangeira Qing que parecia vir para fazer esquecer tantas e tão acarinhadas tradições e convicções. Não sucederia assim mas o pintor de Guangdong ainda não sabia e num dia em que de súbito o tempo começou a mudar, tornando-se mais frio e escuro guardou a memória dessa mutação indesejada numa pintura e num poema.

A pintura (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 169 x 92 cm, no Museu de Arte da Universidade Chinesa de Hong Kong) mostra a amplidão das montanhas cobrindo-se de branco com pequenos povoados aninhados sob um céu cinzento e um homem só, entrando no canto inferior esquerdo.

Gao Yan desenhou esse homem que parece ouvir um rumor interior com um tecido preto sobre a cabeça, o daojin que distingue os viajantes errantes e ermitas daoístas. O preto, entendido como a reunião de todas as cores associado ao elemento água, a força flexível dos que buscam o Dao, o bem maior separado de qualquer autoridade secular.

Cruzando o espaço da pintura numa recta oblíqua, no canto superior direito, o autor escreveu o poema como se fora ele o homem que vem entrando, deparando-se com a brancura da neve branda que caracteriza o vigésimo período, xiaoxue, de vinte e quatro da divisão tradicional dos tempos do ano.

E como tudo o que cai, desperta-lhe a intuição de escutar um som e a suavidade do silêncio que se segue: «O céu azul como num sonho fecha-se numa névoa primordial, Numa só noite uma incrível extensão de nuvens vermelhas esvazia-se. Colinas e vales tornam-se num ápice num mundo prateado, O homem de pé, sozinho, está imerso nos mais desventurados pensamentos.»

18 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

Tradução Rui Cascais

越中逢天台太一子

仙穴逢羽人

停艫向前拜

問余涉風水

何事遠行邁

登陸尋天台

順流下吳會

兹山夙所尚

安得聞靈怪

上逼青天高

俯臨滄海大

雞鳴見日出

每與仙人會

來去赤城中

逍遙白雲外

莓苔異人間

瀑布作空界

福庭長不死

華頂舊稱最

永願從此遊

何當濟所屆

Em Yue, Encontrando ao Acaso Um Mestre Taoista de Tiantai

Junto a uma gruta dos Imortais encontrei um homem emplumado; 1

Desembarcando, dirigi-me a ele para prestar respeito.

Perguntou da minha travessia sobre as águas batidas pelo vento:

De que serve embarcar em viagens longínquas?

“Podem-se cruzar desertos em busca de Tiantai,

Ou seguir corrente abaixo até Kuaiji em Wu.

Essa montanha reverenciei toda a vida,

Mas como saber dos seus numinosos prodígios?

Erguendo-se, enche as alturas do céu azul;

Em baixo, olha a extensão do mar turquesa.

Ao cantar do galo vê-se o sol aparecer,

Estamos sempre acompanhados pelos Imortais.

Vão e vêm no Pico da Falésia Vermelha,

Livres e leves além das nuvens brancas.

Líquen e musgo são diferentes dos do reino da morte,

E um lençol de espuma delineia os limites do espaço.

De entre os pavilhões a que a morte nunca vem

O mais elogiado sempre foi o da Crista Florida.

Peço poder partir de onde estou,

Para me ir até onde quero chegar um dia.”

Nota – Uma pessoa emplumada é alguém que transcendeu este “mundo de pó” e viaja pelo espaço como se tivesse asas. A residência terrena destas pessoas é em “grutas celestes (洞天), nas profundezas de montanhas sagradas, como Tiantai, que dão acesso a outros mundos, a mundos paralelos.

POEMA

早發漁浦潭

東旭早光芒

渚禽已驚聒

臥聞漁浦口

橈聲暗相撥

日出氣象分

始知江路闊

美人常晏起

照影弄流沫

飲水畏驚猿

祭魚時見獺

舟行自無悶

况值晴景豁

Saindo Cedo da Enseada do Pescador 1

Primeiros raios da estrela d’alva a oriente;

As aves na ilhota guincham surpresas.

Deitado escuto, na boca da enseada,

O som dos remos começando a bulir na obscuridade.

Com o sol erguendo-se, percebem-se formas ténues;

Agora fico a saber a vastidão da estrada líquida.

Formosas mulheres, a pé sempre tarde,

Remiram-se na água e brincam com a correnteza.

Temo espantar os gibões que bebem na margem;

Vê-se às vezes uma lontra a catar um peixe.

O barco voga e eu vogo de coração livre,2

Nesta cena que se descerra luminosa.

Na margem do Rio Zhe, a sudoeste do actual distrito de Xiaoshan (蕭山), no Zhejiang.

Nota – “Coração livre” traduz 無悶 (wú mèn); o caracter 悶, com a sua tremenda visualidade, pode traduzir-se por “enfado”, “tédio”, “melancolia”, “aperto”, sendo, por sua vez, composto por dois carateres, “porta” 門 (mén), e “coração” 心 (xīn).

15 Mai 2026

O Convidado da Noite Que Veio da Montanha de Yongjia

Xie Lingyun (385-433), o poeta que fez das montanhas e dos cursos de água descritos nos seus poemas lugares onde o leitor podia habitar, durante um exílio amargo em 422-3, em Yongjia (Zhejiang), descreveu como lá subiu à sua montanha Cangyan, da «Encosta verde» como quem sabia que sair de casa era já voltar e a verdadeira morada era no caminho. «Levo pouca comida, um bastão leve e vou caminhando até minha casa numa quietude inexplicável, o caminho ao longo de ribeiros ziguezagueando a perder de vista vai até ao topo das serranias.

Não tem fim esta maravilha nas suas águas silenciosas de uma beleza gelada e bambus cintilando por dentro com o gelo, cascatas espalhando uma profusão de salpicos e grandes florestas aglomerando-se em penhascos distantes (…)» Toda essa região, que se estendia atrás das grandes metrópoles à volta do delta do «Grande rio» Changjiang, com a impressionante cordilheira Huangshan, a «Montanha amarela» no Sul de Anhui, tornar-se-ia no século XVII, o motivo e a inspiração de muitos pintores igualmente desiludidos e amargurados.

Esses pintores, da designada «Escola de Anhui», reconheciam na paisagem de cumes escarpados e sendeiros serpenteando pelas encostas, uma afinidade com a sua própria inquietação espiritual. Anos antes, durante a dinastia Tang, um monge de Yongjia que tomou o nome do lugar para si próprio, Yongjia Xuanjue (665-713), encarnara essa inquietude percorrendo cerca de oitocentos quilómetros, atravessando a região em direcção a Caoxi no Sul, a Norte de Guangdong, para no mosteiro Baolin onde residia o mestre do Budismo chan Huineng (638-713), lhe fazer uma pergunta sobre o incessante renascimento da alma. Apressado o monge viajante, obtida a confirmação da sua súbita iluminação quis voltar logo para casa, à região do seu nome, porém Huineng e os discípulos que o rodeavam, convenceram-no a ficar com eles até ao dia seguinte, por essa razão Yongjia Xuanjue seria conhecido como o «convidado da noite». A região continuaria a atrair poetas e pintores com a desconcertante sedução de um espelho.

Liu Yu (1632-depois de 1717) em duas pinturas (no Metmuseum) feitas em rolos horizontais que ao serem desenrolados exigiam a intimidade do corpo do observador, abrindo-lhe os olhos como se fora de noite, retratou esses lugares como se neles viajara.

Numa delas (tinta e cor sobre papel, 27 x 366,1 cm), que um autor designou num colofóne como «Vales remotos, sons de cascatas, densas florestas», citando um verso de Li Bai, outro autor (Xi Ying, séc. XVIII?) reflectiu sobre a memória do caminho. Referindo um álbum que vira do mesmo autor e desde então habitava os seus sonhos, escreve sobre a presente pintura, descrevendo-a como de «ilimitadas maravilhas, inumeráveis transformações» que, a partir de agora, os seus pensamentos tinham mais uma via onde morar.

14 Mai 2026

Velhos Mitos, Novos Heróis

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

2 de maio de 2026

Desde a mais remota antiguidade que somos alertados contra os perigos do excesso, aliado à ambição. Seja excesso de inteligência e criatividade, seja de beleza ou de força.

O melhor exemplo, para o excesso de beleza, em uníssono com uma ambição desmedida encontramo-lo no mundo judaico-cristão no Antigo Testamento e em dois livros proféticos, o primeiro em Isaías e o segundo em Ezequiel.

 No livro de Isaías há uma descrição sucinta do que aconteceu a Lúcifer, o anjo da luz, o mais belo e radioso de todos, cuja ambição era ultrapassar Deus em poder e esplendor, valendo-lhe tal desígnio a queda no reino da trevas para toda a eternidade:

“Tu que pensavas: «Vou subir até ao céu, vou colocar o meu trono acima das estrelas de Deus; vou sentar-me na montanha da Assembleia, no cume da montanha celeste. «Subirei até às alturas das nuvens e tornar-me-ei igual ao Altíssimo.» E agora estás precipitado na mansão dos mortos, nas profundezas do abismo.” (Is 14, 13-15)  

 No livro de Ezequiel (28, 14-19) acrescentam-se mais pormenores à queda de Lúcifer, o querubim de asas abertas, que passeava entre pedras de fogo na montanha de Deus, sendo perfeito até ter entrado a maldade nele, por causa do esplendor da sua beleza, que o tornou tão orgulhoso a ponto de desejar competir pelo trono de Deus. Foi, sem dúvida, o excesso de beleza e ambição que o perdeu.

 Melhor sorte o pai de Ícaro, Dédalo, não esperava no mundo grego cujo engenho e inteligência o levaram a construir uma armação feita de penas de gaivota que lhe custaria a vida do próprio filho, jovem desobediente, incapaz de seguir os conselhos do pai.

 Dédalo estava retido em Creta pelo rei Minos, que muito prezava o seu engenho por lhe ter construído um labirinto, entre tantas outras invenções maravilhosas. O rei não o queria deixar regressar à Atenas, donde se evadira por ter tentado matar o sobrinho, Pérdicas, salvo por Atena no último instante que o transformou numa perdiz.

Mas Dédalo estava decidido a regressar com o seu filho Ícaro à terra natal, pelo que inspirando-se no voo das gaivotas e nas penas que largavam em seu redor, passou dias a reunir as penas, conforme os tamanhos e com ajuda da cera de abelhas e madeira de cedro construiu umas asas maiores para si e umas mais pequenas para Ícaro, advertindo o filho: “não voes demasiado alto, Ícaro; se o fizeres, o sol vai derreter a cera que segura as penas à moldura de madeira, e despenhas-te sem penas no mar.” (Johnston, 2025, 156).

Dédalo pagou o maior dos preços pelo seu excesso de inteligência criativa, perdeu o filho, já que este, atraído pela beleza dos céus e movido a curiosidade infantil, se despenharia, por se ter aproximado demasiado do sol, tendo sido encontrado o seu corpo numa ilha que hoje se chama Icária.

Também na China antiga, a hybris/húbris, confiança arrogante e o orgulho desmedido, se pagavam com uma morte trágica e pouco famosa, como sucedeu ao titã Kuafu (夸父) no mito “Kuafu persegue o sol” (夸父逐日kuāfù zhú rì), como Wang Suoying e eu tivemos oportunidade de descrever em Mitos e Lendas da Terra do Dragão.

Kuafu era um ser titânico neto do Deus da Terra, que vivia numa longínqua montanha do deserto. Adorava brincar com cobras, ostentando duas em cada orelha, outras duas em cada mão. Este gigante de força desmedida resolveu certa vez competir com o astro-rei, tentando alcançá-lo antes de ele se retirar dos céus. “Quando finalmente estava prestes a abraçar o sol no abismo Yu, sua última passagem, sentiu tanta sede que se precipitou para o Rio Amarelo. Bebeu-o todo, mas o corpo a abrasar pedia-lhe mais água. Foi então que se lembrou de ir ao Grande Lago do Norte (北方大泽Běifāng dàzé), só que morreu de sede antes de chegar ao destino. ” (Wang, Alves, 2009, 93).

Esta é a versão tradicional do mito “Kuafu persegue o sol”, na qual o

O herói mitológico tem um fim trágico, devido à sua arrogância e autoconfiança, desafiadora das forças divinas e do destino. Porém, hoje aposta-se numa outra leitura para este mito, naturalmente possível dada a amplitude polissémica do mesmo.

 No presente, na enciclopédia chinesa, Baidu. Baike (2026), Kuafu é apresentado como um titã muito benigno e patriótico. Na versão atual, o excesso compensa inteiramente. Kuafu é o chefe de uma tribo de gigantes, descritos do seguinte modo “他们身强力壮,高大魁梧,意志力坚强,气概非凡。而且还心地善良,勤劳勇敢,过着与世无争,逍遥自在的日子。” (Eles tinham compleição corpulenta,eram muito altos, dotados de grande força de vontade e espírito extraordinário. Além disso, eram bondosos e trabalhadores, pouco conflituosos despreocupados.

No entanto, como a zona em que moravam era deserta e o calor intenso, em certo dia em que o sol estava mais abrasador, o líder destes gigantes resolveu persegui-lo para acabar com o sofrimento do seu povo. Embora avisado dos riscos que corria, resolveu tentar prestar um bom serviço à comunidade. Quanto ao resto da história já é conhecida, primeiro bebeu o Rio Amarelo todo, depois ainda tentou chegar ao Grande Lago, mas, entretanto, morreu de sede.

Desconhecia-se era a explicação para a sua morte, aliada a um louvor que em nada se coaduna com a mundividência das culturas tradicionais: “夸父逐日的故事向人们展现了夸父为了族人的幸福而勇于献身的精神,充分地反映了古代先民勇敢地与自然灾害做斗争的事实。这个世界正是有了夸父和无数个与夸父一样勤劳、勇敢、坚定不移、不怕牺牲的人们,前仆后继和奋勇向前,才有了社会的进步、人类文明与科技的发展。(A história da perseguição do sol por Kuafu demostra o espírito de sacrifício dele para benefício da seu povo, refletindo a corajosa luta dos nossos antepassados contra as calamidades naturais. É por haver tanta gente tão trabalhadora, corajosa, persistente e com espírito de sacrifício como Kuafu que este mundo avança, servindo de exemplo a sua coragem aos outros em prol do progresso da sociedade, da civilização e do desenvolvimento científico)” (Ibidem)

Mudam-se os tempos, mas os mitos permanecem, recebendo os protagonistas e as tramas novas leituras, mais consentâneas com o espírito contemporâneo. Mergulhados numa era de apogeu científico e tecnológico, os chineses, à semelhança de tantos ocidentais, acreditam no ideal fáustico e na resposta científica para salvar as sociedades humanas através do conhecimento, ainda que para tal muitos heróis percam a vida pelo caminho, esgotados pelo esforço.

Ora como todos havemos de morrer, cabe a cada um de nós decidir se deseja partir cansado e excessivo ou repousado e seguindo a via do meio enquanto a sua linha da vida o permitir.

Bibliografia

Baidu (ed). 2026《夸父逐日[kuā fù zhú rì]》. In Baidu. Baike (百度百科) https://baike.baidu.com/item/%E5%A4%B8%E7%88%B6%E9%80%90%E6%97%A5/79883, acedido a 1 de maio de 2026.

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

13 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

自潯陽泛舟經明海作

大江分九派

淼漫成水鄉

舟子乘利涉

往來逗潯陽

因之泛五湖

流浪經三湘

觀濤狀枚發

吊屈痛沉湘

魏闕心常在

金門詔不忘

遙憐上林鴈

冰泮已回翔

Escrito Com o Meu Barco a Atravessar o Lago Brilhante Desde Xunyang 1

Aqui, o grande Jiang divide-se em nove braços,

Enchente e vaga formam uma província de águas.

Aproveita, barqueiro, a travessia favorável. 2

Indo e vindo, param em Xunyang,

E, seguindo-os, vogo nos Cinco Lagos, 3

Sobre o branco das ondas até aos Três Xiang. 4

Os vagalhões confirmam os Incitamentos de Mei Sheng; 5

Dói fazer luto por Qu Yuan, que se afogou no Xiang. 6

O meu coração vive sempre entre as colunas do palácio;

Não se deve ignorar um chamamento à Porta Dourada. 7

Por isso invejo de longe o ganso selvagem voando,

Quando o gelo se funde, para casa no Bosque de Sua Alteza. 8

1.Xunyang, actual Jiujiang (Nove Rios), em Jiangxi, a norte do Lago Pengli (actual Poyang). O Lago Brilhante é, muito provavelmente, o Lago Pengli.

2. Referência ao hexagrama 5 do Yijing, sobre atingir objectivos.

3. O Lago Tai 太湖, em Jiangsu, e quatro outros de nome diferente ao longo do tempo.

4. O Rio Xiang, em Hunan, e dois braços de nome diferente ao longo do tempo.

5. Mei Sheng’s 枚乘 (defunto ca. 140 a.C.), no seu poema Sete Incitamentos 七發, descreve o macaréu do Rio Qiantang.

6. Jia Yi escreveu o poema De Luto por Qu Yuan no lugar junto ao Rio Xiang em que aquele poeta, e cortesão mal-amado, se terá afogado.

7. O Zhuangzi fala do príncipe Mouzi 牟子 que se lamentava pelo seu coração ainda residir entre as colunas do palácio apesar do seu corpo deambular por rios e lagos. A Porta Dourada era onde os vassalos imperiais se alojavam no tempo de Han Wudi (regnavit 141–87 a.C.).

8. O grandioso parque imperial conhecido por Bosque de Sua Alteza situado fora do palácio (no tempo de Han Wudi). Quando o gelo começa a fundir na capital, os gansos selvagens ali regressam.

6 Mai 2026

O Mestre Daoísta Que Conversou Com Gengis Khan

Li Zhichang (1193-1256), um sacerdote daoísta escreveu a minuciosa narrativa de uma extraordinária viagem de mais de dez mil quilómetros que fez com o seu mestre partindo de Shandong, as «montanhas do Oriente», até à cordilheira Hindu kush, um nome de significação instável mas a que o viajante árabe Ibn Battuta deu o sentido de «montanha matadora de hindus», dada a quantidade de escravos hindus conduzidos por mercadores muçulmanos que nelas morriam na dificílima tarefa de as atravessar.

A razão por que o seu mestre fez tão incrível jornada foi para responder a uma pergunta que lhe queria fazer o mais temível guerreiro da História, chamado Gengis Khan (1162-1227). E o seu mestre, que nessa altura contava já setenta e dois anos, era Qiu Chuji (1148-1227) cujo inesperado percurso vital, orfão desde muito cedo, e vivendo isolado na montanha Gongshan, segundo uma descrição vivia aí «usando flores de pinheiro na cabeça, alimentando-se de nozes de pinheiro, bebendo a brisa dos pinheiros que passava sob a lua e sobre o rio dos pinheiros», o levaria a fundar a famosa «escola» da Porta do Dragão do daoísmo.

Foi conhecido como Qiu Changchun, o da «eterna Primavera», denotando a sua vibrante energia e incansável vitalidade e é por esse nome que é designado no texto de Li Zhichang; Changchun zhenren xiyouji «Relato das deambulações ao Ocidente do mestre espiritual Qiu Changshun». Munido de uma «credencial de tigre», yin hufu, um instrumento em forma de um tigre dourado dividido em dois que autenticava a autoridade do chefe guerreiro, e um édito selado que lhe permitiu atravessar o império acompanhado de dezoito discípulos, respondendo a uma carta de convite que lhe entregou um enviado. Chega em 1222 a uma área da Àsia Central, perto do rio Amu Darya no actual Afeganistão. A pergunta seria formulada de forma ardilosa: preocupado com a estabilidade e a ordem no seu vasto império, Gengis Khan queria saber se existia um meio de prolongar para sempre a sua vida. Porque a necessidade de uma sociedade bem ordenada sob um governo equilibrado era uma preocupação geral.

Cheng Qi na dinastia Yuan, por exemplo, foi autor da pintura Cultivo do arroz (rolo horizontal, tinta e cor sobre papel, 32,7 x 1049,8 cm, no Smithonian) que no século XIII recriava uma ideia do funcionário Lou Shou que no século anterior propunha a visualisação da produção da seda ou os vinte e um passos da do arroz como incentivo à estabilidade que se desejava para que a população vivesse habitualmente. A resposta que Qiu Chuji deu a Gengis Khan mostraria que ele era um verdadeiro sábio. Não, ele não possuía um elixir que prolongasse a vida mas sabia como a proteger. Recomendava-lhe uma dieta de vegetais e a contenção dos desejos mas sobretudo que minimizasse o uso da violência e purificasse o coração através do respeito pelo povo.

5 Mai 2026

Poemas de Meng Haoran

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

越中逢天台太一子

仙穴逢羽人

停艫向前拜

問余涉風水

何事遠行邁

登陸尋天台

順流下吳會

兹山夙所尚

安得聞靈怪

上逼青天高

俯臨滄海大

雞鳴見日出

每與仙人會

來去赤城中

逍遙白雲外

莓苔異人間

瀑布作空界

福庭長不死

華頂舊稱最

永願從此遊

何當濟所屆

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Em Yue, Encontrando ao Acaso Um Mestre Taoista de Tiantai

Junto a uma gruta dos Imortais encontrei um homem emplumado; 1

Desembarcando, dirigi-me a ele para prestar respeito.

Perguntou da minha travessia sobre as águas batidas pelo vento:

De que serve embarcar em viagens longínquas?

“Podem-se cruzar desertos em busca de Tiantai,

Ou seguir corrente abaixo até Kuaiji em Wu.

Essa montanha reverenciei toda a vida,

Mas como saber dos seus numinosos prodígios?

Erguendo-se, enche as alturas do céu azul;

Em baixo, olha a extensão do mar turquesa.

Ao cantar do galo vê-se o sol aparecer,

Estamos sempre acompanhados pelos Imortais.

Vão e vêm no Pico da Falésia Vermelha,

Livres e leves além das nuvens brancas.

Líquen e musgo são diferentes dos do reino da morte,

E um lençol de espuma delineia os limites do espaço.

De entre os pavilhões a que a morte nunca vem

O mais elogiado sempre foi o da Crista Florida.

Peço poder partir de onde estou,

Para me ir até onde quero chegar um dia.”

Uma pessoa emplumada é alguém que transcendeu este “mundo de pó” e viaja pelo espaço como se tivesse asas. A residência terrena destas pessoas é em “grutas celestes (洞天), nas profundezas de montanhas sagradas, como Tiantai, que dão acesso a outros mundos, a mundos paralelos.

29 Abr 2026

Quem Subia e Descia Montanhas Guiando Carros de Bois

Liu Xiang (77-6 a. C.), que foi astrónomo, historiador, bibliotecário e escritor entre outras competências, e viveu durante a dinastia Han do Oeste, recolheu no seu livro Shuoyuan, o «Jardim de histórias», uma antiga lenda que está relatada no livro V (Tang wen) do texto daoísta Liezi (séc. 4 a. C.) atribuído a Lie Yukou, que fala de um «velho louco que removeu montanhas», Yugong yishan.

Nele se conta que um homem que vivia frustrado por se encontrar a viver encafuado entre as duas montanhas, Taihang e Wangwu, na Província Yu, já nos seus noventa anos tomou a decisão de as separar. Para isso tomou uma enxada e um balde e começou pacientemente a remover a terra de uma das montanhas. A passantes que o viram executar a insana tarefa e lhe perguntaram se achava realmente que a iria conseguir terminar respondeu, com implacável discernimento que se não ele, os seus filhos, os netos e gerações seguintes a iriam certamente terminar; alguém porém tinha que tomar a decisão inicial.

Diz-se que os deuses, impressionados pela sua tenacidade e dedicação ao trabalho, ordenaram a separação das montanhas, como hoje se podem ver. De uma dessas montanhas, Taihang, na verdade uma cadeia montanhosa que se estende por mais de quatrocentos quilómetros pelas Províncias de Shanxi, Henan e Hebei, fala um poema de Liu Ji (Liu Bowen, 1311-1375) da dinastia Song, que confirma a vocação do lugar para suscitar o esforço humano:

«Carros de bois vão subindo e descendo as colinas, mil vezes por dia: nunca deixam as encostas da montanha Taihang. Os carros vão cheios até cima com sal da Província de Wu e grão da de Shu; como são fortes e saudáveis os bois. Mercadores valorizam os seus bens e lucros sem medo dos tigres: alimentam os bois e dormem noite após noite junto das carroças.»

Nessa dinastia Song (960-1279) tornava-se popular um género de pintura designado panche tu, «pinturas de carros de bois em viagem», que correspondiam ao elogio do esforço feito no abastecimento, sob precárias condições de terreno, de grão às guarnições ameaçadas pelos Jurchen nas fronteiras a Norte que haveriam de separar a dinastia em duas: Norte e Sul.

Zhu Rui, um pintor de Hebei com actividade conhecida entre 1119-1125, destacou-se nesse género, fazendo nas suas pinturas a agreste e inóspita paisagem de Inverno equivaler à dificuldade de bois e boieiros subindo e descendo montanhas alcantiladas. Na folha de álbum (tinta sobre seda,26,2 x 27,5 cm, no Museu de Xangai), Viajando por rios e montanhas, vê-se indómito esse engenho a vencer obstáculos. Quando a derrotada dinastia teve que se refugiar no Sul, todo esse zelo se tornaria numa melancólica lembrança mas as pinturas de Zhu Rui seriam preservadas. E a montanha Taihang, deslocada pela longanimidade do espírito do «velho louco», é testemunha de que afinal nada se perderá.

28 Abr 2026

Tradução de poesia de Lu Xun – 20

#20

哀范君三章·其二

āi fàn jūn sān zhāng · qí èr

海草國門碧

hǎi cǎo guó mén bì

多年老異鄉

duō nián lǎo yì xiāng

狐狸方去穴

hú lí fāng qù xué

桃偶已登場

táo ǒu yǐ dēng chǎng

故里彤雲惡 gù lǐ tóng yún è 炎天凜夜長

yán tiān lǐn yè cháng

獨沉清澈水

dú chén qīng chè shuǐ

能否滌愁腸

néng fǒu dí chóu cháng

Elegia a Fan II

Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria longos anos a envelhecer em terra alheia mal a raposa abandona a toca

já a marioneta sobe ao palco

na terra natal, vejo as nuvens vermelhas e o calor pesa, e a noite alonga-se fria mergulho solitário na água límpida poderá ela lavar a dor que entranha?

Notas

A imagem “Junto ao mar, verdeiam as portas da pátria” retoma uma alusão a Li Bai, onde o reverdecer das plantas junto ao litoral indica a passagem do tempo e o afastamento do sujeito poético da terra onde nasceu. A expressão guó mén (國門) sugere fronteira e pertença, sendo reinterpretada para indicar a permanência prolongada fora da pátria.

A referência a “envelhecer em terra alheia” corresponde à experiência de exílio prolongado de Fan Ainong no Japão, onde a distância física se associa a um desgaste temporal e afetivo.

O termo 狐狸 (hú lí), “raposa”, é frequentemente interpretado como alusão à

imperatriz Cixi. A imagem da raposa que abandona a toca remete para a queda do poder imperial. A sequência seguinte introduz “a marioneta sobe ao palco”, táo ǒu (桃偶) expressão que se relaciona com o ato de manipular alguém. A justaposição destas imagens traduz a instabilidade política após a queda dos Qing, marcada pela substituição de um poder por outro igualmente precário. Para além disso, as marionetas de madeira possuem uma função exorcística na tradição chinesa, o que acrescenta uma dimensão simbólica à imagem.

彤雲 (tóng yún), “nuvens vermelhas”, surge como metáfora de uma atmosfera

política opressiva. A cor intensifica a perceção de ameaça e densidade.

A oposição entre 炎天 (yán tiān), “calor intenso” ou “calor que pesa”, e lǐn yè 凜夜, “noite glacial” ou “noite que se alonga fria”, constrói uma tensão térmica que traduz a experiência de um tempo hostil. A extensão da noite reforça a ideia de duração e dificuldade.

滌愁腸 (dí chóu cháng), “lavar a dor que entranha”, articula um gesto de purificação

com a impossibilidade de dissolver plenamente o sofrimento.

Comentário

O poema organiza-se em torno de uma progressão que articula deslocação geográfica, transformação política e intensificação afetiva. A abertura, marcada pela imagem das “portas da pátria”, estabelece uma relação entre espaço e memória, situando o sujeito poético numa condição de afastamento prolongado. Esta dimensão espacial prolonga-se no verso “longos anos a envelhecer em terra alheia”, onde o tempo se inscreve diretamente no corpo.

A sequência central introduz imagens de natureza alegórica que traduzem uma mudança de regime. A “raposa” (狐狸) e a “marioneta” (桃偶) configuram uma leitura crítica da transição política, sugerindo substituição e continuidade de mecanismos de poder. A tradução preserva estas figuras sem substituição cultural, garantindo a manutenção da densidade simbólica e permitindo a sua explicitação no aparato crítico.

A imagem “e o calor pesa, e a noite alonga-se fria” traduz a tensão entre extremos climáticos, convertendo-a em expressão da experiência histórica. A escolha lexical privilegia concisão e intensidade, assegurando continuidade com a economia expressiva da poesia portuguesa.

A imagem final concentra o movimento do poema num gesto individual. O verso “mergulho solitário na água límpida” mantém a estrutura do original, onde a ação de mergulho sugere simultaneamente isolamento e tentativa de purificação. A formulação “poderá ela lavar a dor que entranha?” traduz diretamente preserva a dimensão corporal da dor.

A estratégia tradutória deste poema assenta, assim, na manutenção da parataxe, permitindo que as imagens se articulem por justaposição.

23 Abr 2026

A Exemplar He Xiangu Que Concilia a Humanidade

Wu Zetian (625-705), que de humilde concubina do imperador Taizong (r. 626-649) se tornaria, depois de casar com o seguinte imperador, na única mulher de facto imperatriz, procurou instituir mutações nas mais variadas áreas do seu poder. A começar pela alteração da grafia do caracter do seu nome próprio Zhao, que significa «brilhar» para passar a significar «o sol e a lua no céu iluminam tudo».

Desse olhar desperto, atento a tudo sob o céu, terá surgido a lenda que fala do seu descobrimento de que algures no império, em Zhengcheng (Guangdong), existia uma jovem chamada He Qiong, um nome que se pode traduzir com «tal como o jade fino», que conhecia os segredos da imortalidade através de uma dieta de mica e raios de luar.

Sendo algo que sabia não ser capaz de alcançar sozinha, chamou-a à corte. E ela veio, só que a meio do caminho percebendo a imoralidade da desmedida ambição de poder da imperatriz e perante o assombro dos atónitos membros do séquito que a trazia, elevou-se no ar em pleno dia e desapareceu entre as nuvens.

Essa jovem, mais tarde conhecida como He Xiangu, «a imortal donzela» era, também ela, a única mulher de um grupo de «oito imortais», baxian, que nessa dinastia Tang (618-907) se ia consolidando em exemplos de seres de edificante cáracter que influíam nas forças do além e a quem se podia recorrer para alcançar os bens de uma vida plena como a prosperidade ou a longevidade.

Acarinhadas personagens do folclore, foram amiúde figuradas nos mais diversos suportes artísticos ou decorativos. Um pintor da dinastia Ming que usou o método da «escola Ma-Xia» de figurar pessoas com origem no estilo dos pintores Ma Yuan e Xia Gui da dinastia Song, representou-os de modo inesperadamente próximos uns dos outros num rolo vertical exaltando a clareza que se deduz da alegria, igual para todos em todo o lado.

Zhang Chong (1593-1665), nesse rolo de 1644, Reunião dos imortais em Yaochi (tinta e cor sobre seda,171,8 x 36,4 cm, no Museu Britânico), refere o salgado «Lago de jaspe» nas montanhas Kunlun na Província Qinghai, conhecido como Heihai, o «Mar negro», a morada de Xi Wangmu, a «Rainha-mãe do Oeste». É aí que os imortais vão celebrar o seu aniversário, renovando a imortalidade ao comer uns inefáveis pêssegos. Estando tão próximos uns dos outros, o pintor também aproxima do observador as personagens que fazem o trânsito para a eternidade.

He Xiangu fá-lo especialmente sendo primeiro uma devota cuidadora dos pais e depois, como imortal, resolvendo dificuldades, ajudando os que estão em perigo. E se face a Wu Zetian ela representa um dinamismo oposto ao excesso egoísta de poder pessoal, no grupo dos imortais ela fornece o yin que equilibra o excesso de yang de Lu Dongbin, o líder informal dos oito. Na pintura, face aos outros, a sua única face branca brilha, iluminando os outros.

20 Abr 2026

#17 – Poema em forma de pagode: introdução

Em 1903, Lu Xun encontra-se em Tóquio, onde estuda japonês no Instituto Kobun. Shen Diemin (1878–1969), colega de turma e companheiro de habitação de Lu Xun nessa época, recorda que existia em Tóquio uma escola militar do exército imperial chinês, designada Escola Chengcheng. Este nome deriva de um provérbio, zhòngzhì chéngchéng (眾志成城), que pode ser traduzido como “corações determinados erguem uma muralha”, expressão adotada como lema pela instituição.

Os estudantes desta escola, selecionados pelo representante-inspetor militar da corte Qing, eram maioritariamente conservadores favoráveis ao regime imperial, em oposição aos revolucionários chineses. Observando esses grupos a marchar em formação nas ruas, Lu Xun compôs este poema de caráter irónico no fundo da sala de aula, após o término das aulas.

A ausência do poema na edição das Obras Completas de Lu Xun (鲁迅全集)

introduz uma questão de natureza filológica relativa à sua autoridade textual. Esta exclusão indica que o texto não integra o corpus estabilizado e editorialmente validado, o que sugere uma circulação periférica ou não canonizada. A atribuição a Lu Xun apoia- se, neste caso, em testemunhos secundários, como o de Shen Diemin, cuja memória retrospetiva não substitui critérios de fixação textual baseados em documentação direta. Este desfasamento entre tradição de transmissão e canonização editorial evidencia a existência de uma zona intermédia no estatuto dos textos, situada entre o documento histórico e a obra reconhecida. A análise deste poema implica, assim, uma abordagem crítica que considere simultaneamente as condições de produção, os modos de circulação e os processos de legitimação que definem o lugar de um texto no interior de um corpus autoral.

Poema chinês

兵bīng 成城

chéng chéng

大將軍dà jiāng jūn 威風凜凜

wēi fēng lǐn lǐn

處處有精神

chù chù yǒu jīng shén

挺胸肚開步行

tǐng xiōng dù kāi bù xíng

說什麼自由平等

shuō shén me zì yóu píng děng

哨官營官是我本分

shào guān yíng guān shì wǒ běn fèn

Tradução

Soldados formam muralha diante

do general, altivos

na parada, em toda a parte vigilante, peito erguido, ventre

firme, marcham que cantais vós liberdade igualdade, ser oficial é meu dever, ser oficial basta-me!

Notas

成城 (chéng chéng) remete para a expressão 眾志成城, associada à ideia de coesão coletiva enquanto força defensiva. A imagem da muralha traduz a transformação do grupo em estrutura compacta e disciplinada.

威風凜凜 (wēi fēng lǐn lǐn) designa uma atitude de imponência e rigor marcial. A expressão associa aparência exterior e autoridade simbólica, compondo uma figura de poder visível.

處處有精神 (chù chù yǒu jīng shén) indica vigilância constante e energia

distribuída no espaço. A noção de 精神 articula presença física e disposição mental.

挺胸肚開步行 (tǐng xiōng dù kāi bù xíng) descreve uma postura corporal codificada, associada à disciplina militar. O gesto traduz interiorização de normas através do corpo.

自由平等 (zì yóu píng děng) corresponde a conceitos de origem política moderna. A sua inserção neste contexto produz um efeito de contraste entre discurso ideológico e prática hierárquica.

哨官營官 (shào guān yíng guān) designa funções intermédias na estrutura militar. A referência a 本分 (běn fèn) indica aceitação de um papel definido no interior de uma ordem estabelecida.

Notas e comentário da tradutora

A forma do poema organiza-se segundo uma disposição gráfica de expansão progressiva que corresponde ao modelo designado como pagode. A sequência inicia-se com unidades lexicais isoladas e evolui para estruturas sintáticas progressivamente mais extensas. Esta configuração visual não constitui um elemento decorativo, mas integra o funcionamento semântico do texto, articulando crescimento formal e intensificação

discursiva. A tradução preserva esta estrutura através de uma distribuição escalonada dos segmentos, assegurando a correspondência entre disposição gráfica e desenvolvimento do enunciado.

A expressão muralha (成城) inscreve o poema numa tradição retórica associada à coesão coletiva e à defesa do corpo político. A sua presença no início da progressão formal estabelece um princípio de agregação que se prolonga na representação dos corpos alinhados. A figura do general (大將軍) introduz um eixo de hierarquia que organiza o espaço e determina a orientação do movimento. A sequência de descrições corporais, centrada na postura e na marcha, traduz a interiorização de normas disciplinares através da repetição gestual.

A intensificação formal culmina na introdução dos termos liberdade e igualdade (自由 平等), que surgem integrados num contexto marcado pela obediência e pela função. A posição destes termos no ponto de maior expansão do verso acentua o seu valor crítico. A justaposição entre vocabulário político moderno e estrutura militar produz um efeito de tensão semântica que sustenta a dimensão irónica do poema. A formulação final, centrada na noção de dever (本分), condensa o percurso anterior e fixa o enunciado numa afirmação de adesão à ordem instituída.

Do ponto de vista tradutório, a estratégia adotada privilegia a manutenção da progressão formal e da economia lexical. A organização do texto em unidades crescentes permite reproduzir a dinâmica do original, evitando a introdução de conectores que comprometeriam a leitura contínua. A escolha de termos como muralha (成城) e dever (本分) assegura a transmissão de núcleos semânticos centrais, enquanto as notas garantem a contextualização dos referentes culturais. A tradução procura, deste modo, preservar a articulação entre forma visual, estrutura sintática e densidade simbólica que caracteriza o poema.

15 Abr 2026

A oração de Su Xun diante de uma pintura

Su Shi (1037-1101), o irrequieto poeta da dinastia Song que caracterizaria a sua acidentada existência, semelhante a «um mero insecto flutuando na vastidão do Universo», em sucessivos ideais. Que, na liberdade da juventude o aproximavam do desprendimento daoísta, na clareza do meio da vida, do cumprimento do dever confuciano e na idade avançada o reconciliavam com a serenidade do desapego budista.

Segundo o seu pai Su Xun (1009-1066), devia toda essa agradecida intensidade vital a uma oração proferida diante de uma pintura. Como conta num texto escrito numa pedra e de que existe um esfregaço a tinta sobre papel no Museu de Arte de Princeton (rolo vertical, 74 x 33,2 cm) no décimo quinto dia do primeiro mês lunar do ano 1030, dirigiu-se ao mosteiro Yuju guan, a Norte de Chengdu (Sichuan) «trazendo uma oferta para parar uma dificuldade de ter filhos». Foi lá que viu «um retrato pintado com elegância e um especial trabalho de pincel representando o imortal Zhang xian», do qual se dizia que as orações realizadas diante dele seriam atendidas.

Logo ofereceu por ele um huang de jade, um artefacto em forma de anel usado pendente à cinta e que quando a pessoa que o usava se movimentava, produzia um agradável tilintar. A prece foi ouvida.

O retrato, que também faz parte do esfregaço, mostra a personagem do folclore daoísta, famosa por disparar o seu arco contra o negro «cão do céu» tiangou, que figura no Clássico dos mares e das montanhas, Shanhai jing, como uma força que, quando negativa, era capaz de comer o sol ou a lua causando eclipses e atemorizando crianças. Está sentado sobre uma rocha à maneira das personalidades budistas, só um pé tocando o chão, as vestes de mares e nuvens de um poderoso. À sua volta crianças; à direita uma, segura um ceptro ruyi, dois acocorados parecem brincar com o sapo de três pernas, o jinchan, o quarto segura um prato com pedrinhas redondas de que o quinto, de pé junto de uma árvore, segura uma na mão direita, na outra o arco de Zhang xian; no céu esvoaça o tiangou. Figuras de crianças tornaram-se muito populares nessa dinastia Song mas nunca deixariam de o ser.

Xia Kui (act. c. 1405-45) na dinastia Ming, faria uma inesperada inversão do auspicioso tema dos «cem meninos» que é preciso proteger, mostrando-os como se foram adultos. Mas no tempo de Su Shi, como escreveu num empolgante poema que compôs no meio da vida quando era governador em Mizhou (1074-76), parecia mais importante a protecção dos outros. Aí também refere um arco e um cão, o tianlang xin, «a estrela do cão celeste», o astro sirius que é o luzeiro mais brilhante no céu nocturno, entendido como um sinal de aviso à possibilidade de invasão pelas tribos do Norte. O poeta promete: «Assestarei o meu arco lavrado até à forma da lua cheia, farei pontaria ao Noroeste e acertarei na estrela tianlang.»

14 Abr 2026

Poemas de Meng Haoran traduzidos

Tradução de Rui Cascais

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

示孟郊

蔓草蔽極野

蘭芝結孤根

眾音何其繁

伯牙獨不喧

當時高深意

舉世無能分

鐘期一見知

山水千秋聞

爾其保靜節

薄俗徒云云

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Para Mostrar a Meng Jiao 1

Heras e ervas infestam tudo pela remota província,

Mas o eupatório e o cogumelo crescem a sós. 2

Emaranhadas, as melodias criam igual cacofonia.

Porém, a sós, Bo Ya nunca destoa. 3

Quando o seu sentido profundo

Ainda não era acessível ao mundo,

Zhong Ziqi logo discerniu

Mil Outonos de montanhas e rios.

Que possas suster a tua sóbria serenidade

Entre o zum-zum dos reles e vulgares.

NOTAS:

A autenticidade/autoria do poema é duvidosa, pois o poeta Meng Jiao (751–814) só nasceria onze anos após a morte de Meng Haoran.

O Eupatorium cannabinum e os cogumelos políporos são, curiosamente, uma planta e um tipo de fungos, usados na medicina tradicional pelas suas potentes qualidades purgativas. A sua presença aqui, em comparação à desarmonia, ou cacofonia, das infestantes, serve para exemplificar os aspectos virtuosos de solidão e amargura (ou “melancolia”) em que se pode fundar um encontro salubre e profícuo entre duas pessoas embebidas no remédio da rectidão. Também é interessante que Meng Jao tenha ficado conhecido como um dos poetas “amargos” (juntamente com Li He, apesar deste ser tudo menos sóbrio), o que reforça não só a natureza anacrónica e espúria do poema – um provável acrescento ao cânone de Meng Haoran–, mas também a sua singularidade. Alguém, seguramente apreciador dos dois poetas, terá tentado, assim, estabelecer um elo/diálogo entre eles através do tempo, “gizando” este poema.

Bo Ya, o lendário tocador de cítara (qin), e o seu amigo e auditor ideal, Zhong Ziqi (figura lendária do fertilíssimo Período da Primavera e Outono e um simples lenhador conhecido por distinguir as mais finas nuances da musicalidade natural das montanhas e torrentes); o entendimento entre os dois daria origem à expressão 知音 (zhīyīn), “conhecer o tom”, que descreve a mais intima, imediata compreensão entre amigos.

(五言古體詩)

遊雲門寺寄越府包戶曹徐起居

我行適諸越

夢寐懷所歡

久負獨往願

今來恣遊盤

台嶺踐嶝石

耶溪溯林湍

捨舟入香界

登閣憩旃檀

晴山秦望近

春水鏡湖寬

遠行佇應接

卑位徒勞安

白雲去久滯

滄海竭來觀

故國眇天末

朋在朝端

遲爾同攜手

何時方挂冠

Visita ao Templo da Porta da Nuvem; Enviado ao Oficial de Finanças Bao e ao Tabelião Xu da Administração Yue1

As minhas viagens trouxeram-me agora a Yue,

Onde mesmo a sonhar recordo quem me é querido.

Há muito desejava viver a expensas próprias;

Hoje posso partir e vaguear à vontade.

Numa crista de Tiantai vou pelas pedras marcadas;

No Ribeiro de Ruoye subi contra a corrente veloz pelo bosque.

Deixando o barco, entrei num reino de incenso;

Após subir a um pavilhão, descansei entre volutas de sândalo.

Eis os gentis montes, onde a vista de Qin parece já ali,

E as águas primaveris, onde o Lago do Espelho se espraia.

Nesta viagem longínqua anseio pelo nosso encontro;

Apesar de baixa condição, posso entretê-los relativamente bem.

As nuvens brancas foram-se, estão há muito presas algures;

Ao mar vigiado cheguei por fim para divisar.

O meu velho estado natal, demasiado longe para avistar, fica no fim do céu,

Mas velhos amigos estão aqui, à beira da manhã.

Há muito de devíamos estar já de braço dado,

Pendurando os chapéus de oficial quando aprouver.

O mosteiro situava-se na Montanha da Porta da Nuvem, algumas léguas a sul de Shaoxing, no Zhejiang.

10 Abr 2026

O Rumor Que se Escuta Nos Pinhais de Shen Zongjing

Li Bai (699-762), o radioso e desventurado poeta da dinastia Tang, depois de condenado à morte por traição, acabou sendo poupado e sentenciado ao exílio para a distante Yelang, actual Tongzhi, Guizhou, mas antes de chegar recebe a notícia de que foram perdoados todos os seus delitos e por isso regressa, descendo o rio Changjiang em direcção a Dangtu (Anhui), onde o acolherá o seu tio Li Yangbing naquele que será o seu destino final.

Segundo a lenda terá morrido abraçado ao reflexo da lua nas águas do rio mas, já doente, compôs um poema cuja forma breve faz parte do que pretende dizer e omitir ao parar diante de uma famosa montanha situada a norte da cidade de Xuancheng nessa mesma Província de Anhui.

Sentado sozinho na montanha Jingting, Jingting duzuo, escreve:

Um bando de pássaros voa alto no céu,

Uma nuvem solitária flutua livre.

Olhamo-nos, a montanha e eu não nos aborrecemos,

Até que dos dois só permaneça a montanha Jingting.

Ao longo dos anos uma torrente de palavras brotou do poema tão pobre delas e da multiplicidade de interpretações, avulta uma que o toma como exemplar de uma prática do Budismo chan designada zuochan, «sentado em meditação», em que o praticante sentado, abstraído das sensações do corpo, se liberta da constante corrente dos pensamentos e entra em total comunhão com a natureza.

Na arte do pincel designada shanshui, a «pinturas dos rios e das montanhas», que também é um gesto espiritual e de harmonia com o mundo natural, pintores inquiriram montanhas como a Jingting, como forma de se juntarem ao fluxo dos que saborearam o Dao.

Como Shitao que em 1671 evocou a montanha Jingting, grandiosa e estranhamente irrequieta como o seu carácter, no tempo da grande mudança do Outono (rolo vertical, tinta sobre papel, 86 x 41,7 cm, no Museu Guimet).

Shen Zongjing (1669-1735), que além de funcionário imperial foi pintor, poeta, calígrafo e músico no tempo dos imperadores Kangxi e Yongzheng, tinha um especial apreço pelas palavras, como mostra o facto de ser um dos três autores de uma compilação de caracteres organizada como uma espécie de «dicionário de sinónimos», chamado Pianzi leibian, publicada em 1728.

Uma pintura que fez em 1705 (rolo vertical,tinta sobre papel, 144,6 x 49,6 cm, no Instituto das Artes de Minneapolis) tem um título que se lê como um verso ou um vaticínio: O múrmúrio do vento nos pinheiros ecoa a melodia da Primavera. Nela, em baixo à direita, por uma ponte vem caminhando um homem, subindo o olhar pela montanha dois homens sentados conversam até que o olhar sobe até ao alto da montanha tocando o céu. Será a visualização de um caminho descrito como chenghuai weidao, «purificando a mente para saborear o Dao», como quem sabe que tudo passará, até nós que usufruímos da consolação da sua beleza mas ela, a montanha, permanecerá inspirando outros.

9 Abr 2026

Ponto de Convergência: Clássicos, Esquecimento e Renascimento no 15.º Festival Literário de Macau

O Festival Literário de Macau através da perspectiva de Harold Bloom

Por Lam Kongchuen

O famoso crítico literário Harold Bloom, nas suas reflexões sobre a relação entre a literatura e a cidade, nunca considerou a cidade simplesmente como um pano de fundo para a literatura. Para ele, as grandes cidades — Alexandria, Londres, Paris, Nova Iorque — remodelam com uma força irresistível cada escritor que entra no seu espaço. A cidade impõe uma «ansiedade de influência», obrigando os criadores posteriores a procurar a sua própria voz à sombra dos clássicos. Se Bloom ainda estivesse vivo, talvez entrasse com um olhar diferente na 15.ª edição do «The Script Road — Festival Literário de Macau». Este grande evento cultural, que estabelece pontes entre o Oriente e o Ocidente, Portugal e a China, a tradição e a contemporaneidade, ilustra precisamente uma teoria central à maneira de Bloom: quando um festival literário tem como objetivo o «intercâmbio» e o «diálogo», estará a mobilizar a essência da literatura?

1/ A Sombra de Pessanha

A homenagem prestada neste festival ao centenário da morte do poeta português Camilo Pessanha oferece o texto mais rico para uma leitura à maneira de Bloom. Pessanha, um poeta simbolista que passou os últimos 30 anos da sua vida em Macau, cuja obra «Clepsidra» é aclamada como uma das mais requintadas da língua portuguesa, ocupa, no entanto, uma posição especial em ambas as tradições culturais. Visto através de Bloom, Pessanha é precisamente aquele «fraco forte» — na tradição clássica portuguesa, herdou a ansiedade de Pessoa; em Macau, enfrentou uma tradição literária chinesa que ainda não o tinha totalmente absorvido.

A nova obra de Yao Feng, “Encontro dos Extremos”, narra a história do intercâmbio literário entre Portugal e a China; esta narrativa do «encontro» é precisamente o mito que Bloom sempre procurou desconstruir. Para Bloom, o verdadeiro encontro literário nunca é um diálogo moderado, mas sim um confronto direto com a interpretação errada, a competição e a superação. A poesia de Pessanha merece ser celebrada não porque ele tenha conseguido «intercambiar» algo, mas porque criou, na franja entre duas tradições, uma ansiedade única — uma voz que não é nem totalmente portuguesa, nem totalmente macaense.

O passeio histórico «Nas Pegadas de Pessanha», organizado pelo Festival de Literatura de Macau, foi conduzido pelo escritor Christopher Chu. Esta peregrinação espacial, se analisada pela perspectiva de Bloom, não é apenas uma reminiscência do passado, mas um ritual através do qual um «tardio» tenta aliviar a sua ansiedade de influência, revisitando as pegadas físicas de um clássico. A questão é: quando caminhamos pelas ruas por onde Pessanha passou, estamos a dialogar com ele ou apenas a procurar consolo para o nosso atraso?

2/Livros de Mulheres e Linguagem Secreta

Em 1973, Bloom publicou “A Ansiedade da Influência”, que «abalou os nervos de todos», mas a sua teoria da formação clássica tem sido há muito acusada pelas críticas feministas de ser cúmplice do patriarcado — os «poetas dominantes» aos seus olhos são quase exclusivamente homens, e a «ansiedade da influência» que descreve é uma competição de masculinidade. No entanto, o foco deste festival literário na «escrita feminina» oferece precisamente uma alternativa à análise de Bloom.

O documentário de Feng Du, “The Whisperers”, narra a história de «Nüshu», uma escrita exclusiva para mulheres de Jiangyong, na província de Hunan — um alfabeto criado por mulheres para escapar à compreensão masculina, escrito em leques dobráveis e bordado em lenços, que se desenvolveu como forma de poesia e de expressão de afecto. Se Bloom tivesse assistido a esta secção, talvez tivesse revisto a sua teoria: não se trata de uma tradição feminina excluída da literatura clássica que está a ser «recuperada», mas sim de uma manifestação paralela à literatura clássica. A própria existência do «Nüshu» é um protesto silencioso contra a literatura clássica dominante (seja em chinês ou em português) — não procura o diálogo, cria o seu próprio espaço.

O Festival de Literatura organizou o workshop de «Nüshu» e a exibição no mesmo dia, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher. Esta lógica curatorial tenta apresentar a «narrativa feminina» como uma unidade temática. Mas uma crítica ao estilo de Bloom salientaria: a verdadeira tradição literária feminina não precisa de ser «tematicizada»; o que precisa é de ser reconhecida como um sistema clássico completo, dotado de competição interna e de tradição. Quando a literatura feminina é trazida das aldeias de Hunan para o recinto do Festival Literário de Macau, corre o risco de ser transformada numa peça de exposição de «diversidade cultural», em vez de uma tradição literária viva, que continua a gerar inquietação.

3/ Macau como texto urbano: do ponto de convergência ao campo de irradiação

Esta edição do Festival Literário enfatiza uma palavra-chave: Macau como «ponto de encontro das culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente». Por trás desta formulação está aquilo a que Bloom chamaria de «ilusão académica» — como se o encontro entre culturas pudesse ser harmonioso, complementar e mutuamente enriquecedor, sem distinções.

No entanto, Bloom lembra-nos que o verdadeiro espaço literário urbano nunca é um ponto de encontro, mas sim um campo de batalha. A Paris do século XX não foi grande por ter permitido o «encontro» entre Hemingway e Joyce, mas porque obrigou cada um a procurar a sua própria voz à sombra dos outros. Da mesma forma, o potencial literário de Macau não reside na sua capacidade de «ligar» a China e o mundo lusófono, mas sim na sua capacidade de se tornar um local onde surgem novas ansiedades, novas interpretações erradas e novos clássicos.

A exposição do arquiteto José Maneiras — uma retrospectiva sobre este arquiteto macaense que projetou o Complexo de São Francisco — oferece uma metáfora espacial. A arquitetura é a manifestação mais física do clássico: um edifício ergue-se ali, e os arquitetos que se seguem têm de decidir se o imitam, o destroem ou estabelecem um diálogo silencioso com ele. O colóquio organizado pelo Festival de Literatura procura «homenagear o seu contributo para a paisagem urbana», um ritual de canonização. Mas Bloom questionaria: quem é o «poeta dominante» do mundo da arquitetura de Macau, capaz de reinterpretar José Maneiras e, a partir daí, criar uma nova linguagem urbana?

4/Manifestações Multidisciplinares

O cartaz desta edição do Festival de Literatura é verdadeiramente estrelado: o vencedor do Prémio Pulitzer Hernán Díaz, o romancista Amitav Ghosh, os mestres da literatura chinesa Bi Feiyu e Xiao Bai. Ao mesmo tempo, o evento estende-se ao cinema (A Mulher do Mar), ao teatro (a versão portuguesa de À Primeira Vista), à música (o concerto de Rodrigo Leão) e às artes visuais. A literatura manifesta-se em múltiplos domínios. Por um lado, há um esforço para alargar o público da literatura; por outro, à medida que o festival literário se torna cada vez mais um evento público, a autonomia da literatura é amplamente mobilizada, expandida e difundida. «À Primeira Vista» é uma excelente peça teatral, e a actriz Margarida Vila-Nova regressará a Macau para a apresentar. A peça, da autoria da dramaturga australiana Suzie Miller, já foi apresentada em Londres, Nova Iorque e cerca de trinta cidades em todo o mundo, incluindo Xangai e Hong Kong. A sua versão produzida em Portugal está em sintonia com o cerne do «Festival de Literatura de Macau». O concerto do músico português Rodrigo Leão tornou-se um capítulo à parte no intercâmbio literário sino-português.

Bloom passou a vida a defender a autonomia estética — ele considerava que o valor da literatura não reside na sua correção política, representatividade cultural ou utilidade social, mas sim na intensidade da sua imaginação única e irredutível. Desta perspetiva, os dois encontros dedicados à poesia no festival, sendo o último deles o ponto alto de todo o evento, constituem o momento mais «bloomiano». A poesia — esse meio que possui, por natureza, as características de «transdisciplinaridade» e «intercâmbio», mas que, ao mesmo tempo, é o mais obstinadamente fiel à própria linguagem — foi colocada no final, como se fosse uma reflexão no desfecho de toda a celebração literária. Bloom diria: é aqui que o festival literário, ao chegar ao fim, recomeça, tal como o mar começa no fim da terra.

5/ Assim, a literatura imortal

«A Imortalidade da Palavra», este nome em si está repleto da ironia bloomiana. O que é a imortalidade? Para Bloom, a imortalidade não é ser lembrado, mas sim gerar ansiedade de forma contínua — fazer com que os escritores posteriores não consigam dormir à noite por causa da tua existência, fazer com que os leitores sintam, perante as tuas palavras, os limites e a transcendência da linguagem.

A «ponte cultural» que o Festival de Literatura de Macau procura construir tem a sua necessidade e valor, especialmente numa cidade ainda marcada pela intersecção e coexistência de uma história diversificada, da política linguística e da identidade. Mas Bloom lembrar-nos-ia: o significado da ponte não reside em tornar esta margem e aquela margem idênticas, mas sim em tornar as diferenças atravessáveis, confrontáveis e passíveis de interpretação errada. A imortalidade de Pessanha não se deve ao facto de ter conseguido transmitir alguma informação entre Portugal e a China, mas sim ao facto de a sua poesia se recusar a ser totalmente absorvida por qualquer tradição — o que ele deixou em Macau não foram vestígios de uma convergência, mas sim marcas de ansiedade. É a ansiedade contínua que traz novos impulsos à criação literária.

Ao sairmos da Fundação Oriente, encerrando este banquete literário de onze dias, a verdadeira questão não é «quanto trocámos», mas sim «se gerámos uma nova ansiedade» — uma ansiedade capaz de impulsionar uma nova geração de escritores e artistas de Macau a criar, à sombra de Pissarro, das Mulheres-Livro, de Masua e de todos esses clássicos, uma linguagem literária própria, forte e inquietante. Só assim Macau poderá, no sentido literário, tornar-se verdadeiramente «imortal».

8 Abr 2026

O Abissal

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Quantos foram os que tentaram domar as águas, interiores e exteriores? E os que venceram dilúvios?

Numa cultura tão antiga como a chinesa, há um grande imperador mitológico, gerado apenas por ventre paterno, tal como a deusa Atena, que havia de nascer da cabeça de Zeus. O Grande Yu (大禹), filho de Gun (鯀), nasceu do pai na forma de dragão e tinha poderes superiores aos do progenitor. Este procurava controlar as cheias com a terra reprodutora, aquele fê-lo com a mesma terra reprodutora milagrosa, mas com o auxílio suplementar de dois animais sagrados, o Dragão Ying (应龙) e a Tartaruga Xuan (玄龜). Apesar da oposição do Deus da Água, venceu-o e passou à história chinesa como o “Imperador que dominou o dilúvio”(大禹治水 Dà Yǔ Zhì Shuǐ) e, além disso, para impedir o avanço das águas construiu canais e dragou rios. As cheias, obra de deuses maldispostos ou de demónios perversos, foram controladas pela força do trabalho de um governante com poderes sobrenaturais, que se sacrificou a si e à sua família a bem da terra chinesa. Por isso se diz que ele casou com Nujiao (女娇), uma donzela da tribo Tushan (涂山氏) e “quatro dias depois do casamento, saiu de casa para retomar os seus afazeres. Esperavam-no trabalhos sem fim. Durante treze anos, passou três vezes pela sua casa, mas nunca entrou.” (Wang, Alves, 2009, 86).

 À sua imensa virtude e força de trabalho se ficou a dever a salvação da China e, como esta era à época o centro do mundo, da própria terra.

 Será ainda em luta e desafio às águas que outros heróis, divinos e humanos, vão exercitar as suas virtudes e, através delas, salvar a humanidade.

 Também na Grécia houve uma grande inundação provocada pela fúria de Zeus, contra uma humanidade cada vez mais impiedosa, violenta e corrupta. Conta-se que o deus supremo do Olimpo primeiro ainda pensou em desferir o seu raio contra os homens, deixando a terra toda em chamas, mas como o fogo poderia chegar aos céus, resolveu que o castigo seria perpetrado através das águas. Prometeu, que era vidente e muito amigo da humanidade, resolveu avisar o seu filho Deucalião, que morava em Ftia com a esposa Pirra, sendo esta filha de Pandora e Epimeteu. Ora como eles eram modelos de virtude foram os únicos a escapar ao dilúvio grego. “O casal tinha uma vida exemplar: eram muito trabalhadores, cumpriam as leis e eram piedosos. Por esse motivo, bem como pela afeição paternal, Prometeu quis garantiu que Deucalião e Pirra sobreviviam ao Dilúvio, que ele sabia que Zeus ia enviar um dia, e tinha dito ao filho para se preparar.” (Johnston, 2025, 83).

 Quando os céus escureceram, Deucalião percebeu que era tempo de se proteger, bem como à mulher. Preparou uma arca de madeira, isolou-a, encaixando as juntas e calafetando-as com alcatrão, depois equipou-a com alimentos necessários para se manter vivo com a sua mulher durante algum tempo. Passados nove dias e nove noites, a arca do casal encalhou no monte Parnaso. Perceberam que estavam sozinhos no mundo e para o repovoar procederam de acordo com os conselhos avisados de Témis, avó de Deucalião e mãe dos titãs Prometeu e Epimeteu, deusa que organiza o cosmos, conselheira e consorte temporária de Zeus. Não foi com o barro de Nϋwa (女娲), mas quase, foi com pedras, ossos maternos de Gaia, que repovoaram a terra: das mãos de Deucalião rolavam pedras que se transformavam em homens e das de Pirra eram atirados seixos que em contacto com o solo amoleciam e se metamorfoseavam em mulheres.

Assim foi salva a humanidade por um casal, meio divino, meio humano, totalmente exemplar. Eram de facto os únicos que se aproveitavam naqueles tempos antigos e, através deles, as gentes tiveram a sua segunda oportunidade.

Episódio semelhante sucedeu na tradição judaico-cristã. Depois de ter sido atingido o auge da corrupção “Javé viu que a maldade do homem crescia na Terra e que todo o projecto do coração humano era sempre Mau” (Gen, 6, 5-7) . Só havia um justo, de nome Noé, e esse preservou a vida, bem como a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos. Para tal, e porque o castigo do dilúvio se aproximava, também ele construiu uma arca, com as dimensões exatas ditadas por Deus, cento e cinquenta metros de comprimento, vinte e cinco de largura e quinze de altura. Era ampla para que nela coubesse um casal de cada ser vivo. Tinha à época este justo Noé 600 anos. Ao cabo de um ano de aventuras, já atingira os 601 anos, pôde sair com toda a família e companheiros da barca para se multiplicar e encher a terra, sob a proteção de Deus, que assim falou: “Estabeleço a minha aliança convosco; de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra.” (Gen, 9, 11).

Bastou um justo para salvar toda a sua família, os outros seres vivos e recomeçar a história da humanidade e do mundo. Mas o dilúvio, o banho purificador, também na tradição judaico-cristã, foi essencial, sem ele a terra continuaria poluída e corrupta.

 O que nos diz a tradição filosófica chinesa sobre a Água? Para obter uma resposta há que remontar ao Clássico das Mutações (易经), no qual se encontram entrelaçadas a poesia e a filosofia. Este é composto por oito trigramas (八卦 bāguà) básicos, sendo um deles a Água (坎 kǎn). Os oito trigramas combinam-se de modo a constituírem os 64 hexagramas. Quando o trigrama da Água de base se encontra com o trigrama da Água do topo, está-se rodeado de água e este hexagrama, o 29º (坎卦第二十九 kǎn guà dí èr shí jiǔ), denomina-se, numa tradução possível pelo seu atributo, o Abissal.

O perigo é enorme e repetido, de nada serve ao/à filósofo/a tentar escapar, porque está no meio de um dilúvio, que quando não é exterior, é interior, ou até simultâneo. No entanto, caso se observe a disposição das linhas, há esperança, já que o trigrama da Água é formado por duas linhas descontínuas yin, sombrias e aquáticas, mas ao centro contém uma linha contínua yang, solar, onde reside a alma. Quer dizer, ao todo, o hexagrama do abismo, ou numa interpretação ousada, do dilúvio, é constituído por quatro linhas sombrias e duas solares. Há então saída para o grande mergulho nas águas, mas essa deve ser encontrada no interior, o que liga a mente ao espírito, aquele capaz de se elevar, ainda que por vezes só em pensamento, para escapar ao perigo abissal.

 O/a sábio/a deverá cultivar uma determinada atitude, prática e muito concreta, se quiser ter a mesma sorte de Da Yu, Noé ou Deucalião, apontada pelo juízo do hexagrama, que resume e condensa a leitura atenta das seis linhas. No 29º hexagrama está-se perante: “O Abismal repetido, mas com sinceridade e confiança no coração, ser-se-á bem-sucedido em tudo o que se fizer.” (習坎,有孚,維心亨。行有尚) (Zhang, 1995,127). Será decisiva a sinceridade ,que nos tempos antigos também se dizia “pensar com o coração” (維心 wéi xīn).

 Assim, na leitura da primeira linha, aquela em que se dá a repetição das águas (o dilúvio), devem ser evitadas as armadilhas, porque caso se caía numa, dada a adversidade das condições circundantes, não há saída possível. Na segunda linha, yang contínua, surge a compreensão da situação e a tentativa de avançar aos poucos, com pequenas ações. Na terceira linha, yin descontínua regressa a atmosfera de água sobre água, pelo que a não-ação é a melhor resposta. Na quarta linha, também ela yin descontínua, experimenta-se um certo bem-estar usufruído nos pequenos prazeres da vida, como uma jarra de vinho ou uma vasilha gui2 de arroz, passados pela janela, a ser recebidos sem culpas. (六四;樽酒,簋貮、用缶,納約自牖,終無咎) (Zhang, 1995,129). A sinceridade do sentir e a comunhão desta com as ações é essencial para preparar a entrada na quinta linha yang contínua, solar e apta à compreensão e ao exercício da via do meio, seguida sem excessos de ambição que provoque uma cheia incontrolável. O/a sábio/a é então confrontado com a necessidade de se autocontrolar, sendo de ultrapassar o abismo interior. As águas do dilúvio são desafiadas e controladas por dentro, e quando se construiu a barca interna, está-se preparado para enfrentar a adversidade, mas caso não tenha havido essa preparação, segue-se uma sexta linha yin aquática, na qual todos os que não se cultivaram, ou melhor, não exercitaram a sua sinceridade, vão padecer por um período, segundo a linha de topo do hexagrama, “conhecendo a desgraça por três anos” (三歲不得,兇) (Zhang, 1995,130).

Na filosofia chinesa mais antiga, a pessoa de saber é igualmente confrontada com o dilúvio, só que o perigo abismal, ainda que possa ser provocado por condições externas, só será vencido, caso seja adotada a atitude correta, que implica ultrapassar os obstáculos como boa preparação e sinceridade. A arca transportamo-la nós.

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Tradução de Luís Filipe Pontes. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.

張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Gui (簋) é uma vasilha, de grande antiguidade, usada, por exemplo, no Paleolítico chinês para efeitos rituais, de culto ás divindades nos templos e nas casas dos grandes senhores do país.

2 Abr 2026

O Cavaleiro Estrangeiro a Galope de Chen Juzhong

Zhu Gang, o princípe Gong, o «reverente», de Jin (1358-1398), o terceiro filho de Hongwu, o fundador da dinastia Ming, seria recordado nos memoriais históricos pelas suas qualidades de guerreiro e líder da fronteira e pela sua quase excessiva energia de líder político.

Mas da esmerada educação que o pai de origem camponesa lhe proporcionou haveria de resultar uma verdadeira vocação de princípe, apoiando mosteiros da religião budista na região onde governou e claramente visível no faustoso palácio que mandou erigir em Taiyuan, na actual Província de Shanxi.

Hoje esse palácio já não existe mas na altura albergou uma rara colecção de pinturas e caligrafias, de que é testemunho o seu carimbo aposto nalgumas pinturas resgatadas da sua destruição. Como é o caso de uma folha de álbum, na altura já antiga, que está no Museu Britânico (tinta e cor sobre seda, 24,8 x 26,3 cm) que mostra a figura de um cavalo e um homem que segura na mão direita um falcão.

Olhando o semblante da estranha figura de pé vestido de verde, percebe-se que é uma pessoa da fronteira, um homem da etnia khitan (qidan), da dinastia Liao (915-1125) ou talvez jurchen. Atrás dele, uma chibata presa no cinto qualifica-o como um cavaleiro. Entre os dois, cavalo e cavaleiro, parece estabelecer-se através do olhar fixo uma intensa cumplicidade, como se a separação entre os dois fosse coisa de momento, mal esperando a hora em que juntos partiriam a galope.

Sabe-se que a cada Primavera o princípe de Jin soltava águias e falcões para caçar cisnes e patos selvagens em voo para o Sul, o que fazia da velha pintura a ilustração do cumprimento actual de uma augusta tradição. Na pintura está a assinatura, possivelmente falsa, do seu suposto autor, um pintor da academia de pintura da corte do imperador Ningzong (1168-1224) que reinou entre 1195 e 1224 na dinastia Song, chamado Chen Juzhong com actividade conhecida entre cerca de 1201-30. A ele são atribuídas outras pinturas que aludem à vida estranha das estepes da fronteira Nordeste.

Chen Juzhong é, por exemplo, autor de uma pintura (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 147,4 x 107,7 cm, no Museu do Palácio Nacional em Taipé) que mostra um momento da história de Cai Wenji (162-229), uma talentosa poetisa e música que foi raptada pelos nómadas Xiongnu, a quem é atribuído o poema Canções de uma flauta nómada. Nesse melancólico relato percebe-se como após doze anos sofrendo no exílio, lá criou dois filhos que, ao ser resgatada pelo chefe guerreiro Cao Cao, teve de deixar para trás, tornando infindável o seu sofrimento.

Noutra pintura que está no mesmo Museu (tinta e cor sobre seda, 36,8 x 54,9 cm) mostra um cavaleiro caçador com o torso voltado para trás montado no seu cavalo, as patas todas no ar, em alta velocidade mostrando como eram vistos aqueles intrigantes estrangeiros.

Nota

No distante ano 1990, em Pequim, o meu irmão Luís mostrou-me uma pintura de um cavaleiro montado no seu cavalo correndo a toda a brida, as patas todas no ar, sem qualquer referência ao lugar onde. Para meu espanto, ele disse-me que o pintor que a fizera lhe disse que era o seu retrato. Vivi com ele as alegrias da infância em Luanda e a juventude em Lisboa mas depois de uma breve estada em Macau foi viver para Pequim onde durante quase quarenta anos trabalhando na embaixada de Portugal viveu como um estrangeiro. Poderia dizer que foi por causa dele que criei uma proximidade afectiva com a nação que o acolheu e me faz estar sempre a escrever sobre ela mas seria dizer pouco. Para nós os seus seis irmãos, foi o mais límpido exemplo de coragem e generosidade que fez com que a nossa vida fosse mais vida. Está ser dificíl aceitar que desde esta segunda-feira, 23 de Março, já não seja possível ligar o Wechat e conversar com o nosso querido irmão Luís.

30 Mar 2026

Meng Haoran (689–740) – (Pentâmetros ao Estilo Antigo)

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

書懷貽京邑故人

惟先自鄒魯

家世重儒風

詩禮襲遺訓

趨庭紹末躬

晝夜常自強

詞翰頗亦工

三十既成立

嗟吁命不通

慈親向羸老

喜懼在深衷

甘脆朝不足

簞瓢夕屢空

執鞭慕夫子

捀檄懷毛公

感激遂彈冠

安能守固窮

當塗訴知己

投刺匪求蒙

秦楚邈離異

翻飛何日同

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Ao Escrever os Meus Pensamentos; Para Um Velho Amigo no Distrito da Capital

Sim, os meus percursores vêm de Zou e Lu,

De uma casa que prezou o modo de Ru por gerações. 1

Os Poemas e Ritos eram legado inato,

“Apressar-se no pátio” estendia-se à minha modesta pessoa. 2

Dia e noite tentava “fortificar-me,” 3

E era muito hábil de frase e pena.

Aos trinta anos, tinha já uma firme fundação, 4

Mas o meu destino era falhar.

Minha mãe está fraca e velha,

E eu estou cheio de alegria e temor. 5

As comidas “doces e frescas” não lhe bastam às manhãs, “

Mas o “cesto de arroz e a cabaça de bebida” estão vazias ao serão. 6

De chibata de domador na mão emularia o Grande Mestre,

Mas chamado ao gabinete, teria no coração a Mao. 7

Grato, deveria então “sacudir o capote,” 8

Ou conseguiria manter “perseverança na inquietação”?

A quem anda na alta estrada, digo como ao mais querido amigo:

Não és tu quem “procura o imaturo.”9

Qin e Chu são tão diferentes e distantes;

Em que dia vogaremos juntos? 10

Meng Haoran diz que Mencius, originário de Zou, também partilha o seu apelido, e Confúcio, originário de Lu, são os seus antepassados espirituais e que a sua família tem uma tradição de estudar os ensinamentos de Ru [Confúcio].

Quando o filho de Confúcio passava por ele no pátio a correr, Confúcio perguntava-lhe como iam os estudos e dava-lhe conselho.

Lê-se no Yijing, “O homem de carácter nobre fortificar-se-á incessantemente.”

Confúcio disse que aos trinta já tinha uma forte fundação; isto tornar-se-ia um objectivo padrão.

Confúcio disse que relativamente à idade dos pais era impossível não estar ciente da sua morte, sentindo alegria pela sua longa vida e temor pela sua partida iminente.

Citando da “Biografia do Senhor Cinco Salgueiros”, de Tao Qian, que alude indirectamente a um comentário aprovador de Confúcio sobre o estilo de vida frugal do seu estudante favorito Yan Hui.

Confúcio disse que se fosse certo enriquecer estaria disposto a usar o chicote (como um domador) para o alcançar. Caso contrário seguiria aquilo de que gostava. Mao Yi (meados do século I d.C.), era um exemplo de filialidade, tendo aceite uma nomeação baixa de modo a sustentar a mãe

Wang Ji e Gong Yu, da dinastia Han do Oeste, eram de tal forma amigos que, quando Yu foi oficial, Ji “sacudia-lhe o capote”, sabendo que o amigo o promoveria. Confúcio aconselhava o homem de carácter nobre a perseverar mesmo se inquieto.

A análise do hexagrama 4 do Yijing (“Imaturidade”) diz, “Não sou eu que busco o imaturo; é o imaturo que me busca.’

Qin, onde a capital Chang’an e o destinatário se encontravam; e Chu, onde Xiangyang e o poeta se encontram.

27 Mar 2026

Poesia de Lu Xun traduzida

祭書神文

jì shū shén wén

今夕除夕1兮

jīn xī chúxī xī

香煙繚繞兮燭焰紅

xiāng yān liáo rào xī zhú yàn hóng

錢神醉兮其僕忙

qián shén zuì xī qí pú máng

汝何獨兮守古書

rǔ hé dú xī shǒu gǔ shū

宴已開兮酒氣浮

yàn yǐ kāi xī jiǔ qì fú

更漏2長兮夜未央

gēng lòu cháng xī yè wèi yāng

人已去兮醉鄉遠

rén yǐ qù xī zuì xiāng yuǎn

誰為汝兮獻一觴

shuí wéi rǔ xī xiàn yī shāng

1 兮 (xī) Partícula exclamativa característica da poesia 楚辭 (Chuci). Funciona como pausa rítmica e expressão de lamento ou invocação. No português não tem equivalente direto; o seu efeito é recriado através da segmentação dos versos.

2 更漏 (gēnglòu) Relógio hidráulico utilizado na China antiga para medir as horas da noite.

我棄阿堵3兮守舊籍

wǒ qì ā dǔ xī shǒu jiù jí

高歌呼兮降我堂

gāo gē hū xī jiàng wǒ táng

繡旗導兮神車至

xiù qí dǎo xī shén chē zhì

脈望4引兮蠹魚5從

mài wàng yǐn xī dù yú cóng

寒泉獻兮冷華6香

hán quán xiàn xī lěng huā xiāng

為汝狂兮誦離騷7

wèi rǔ kuáng xī sòng lí sāo

Ao deus do livro

Esta noite — véspera do Ano Novo —

espirais de incenso sobem, as velas ardem vermelhas.

O deus do dinheiro embriaga-se, os seus servos correm atarefados.

Porque permaneces tu sozinho a guardar os livros antigos?

O banquete começou,

o aroma do vinho espalha-se.

3 阿堵 (ā dǔ) – Expressão literária que significa “dinheiro”. Deriva de uma anedota sobre um erudito que

evitava pronunciar diretamente essa palavra.

4 脈望 (mài wàng) – Criatura lendária associada aos livros. Segundo textos taoistas, uma traça que devora caracteres sagrados e se transforma em entidade espiritual.

5 蠹魚 (dùyú) – Inseto que se alimenta de papel; frequentemente usado na literatura chinesa como

símbolo do mundo erudito.

6 冷華 (lěnghuā) “Flor fria”, designação poética do crisântemo, associado ao retiro literário e à pureza.

7 離騷 (Lí Sāo) – Poema clássico de 屈原 (Qu Yuan), uma das obras fundadoras da tradição poética chinesa.

O relógio da água prolonga as horas, a noite ainda não terminou.

As pessoas partiram já para o país da embriaguez.

Quem virá oferecer-te uma taça de vinho?

Eu renuncio ao dinheiro e guardo os velhos livros.

Cantando alto

convido-te a descer à minha casa.

Com bandeiras de seda chega o carro divino.

Maiwang conduz o cortejo e as traças seguem-no.

Água fria das nascentes, crisântemos de inverno —

por ti, em êxtase, declamo o Li Sao.

Comentário

Este poema inscreve-se no período inicial da produção literária de Lu Xun, quando o autor ainda experimentava formas poéticas inspiradas na tradição clássica. O modelo formal é o estilo sao, característico da poesia atribuída a Qu Yuan, cuja principal marca é o uso recorrente da partícula 兮, que imprime ao verso um ritmo irregular e uma tonalidade de invocação.

A principal dificuldade de tradução reside precisamente nesse elemento. A partícula 兮 não possui equivalente funcional em português. Uma tradução literal produziria uma repetição artificial; por isso optou-se por recriar o ritmo através da fragmentação dos versos e de pausas sintáticas.

Outro problema tradutório surge na densidade cultural das referências. Termos como Maiwang (脈望) as traças dos livros ou a expressão Ādū (阿堵)pertencem ao imaginário da cultura letrada chinesa. Em vez de domesticar essas imagens, a tradução

preserva os termos e esclarece-os em notas, mantendo o estranhamento simbólico do original.

O poema constrói ainda uma oposição central entre dois mundos: o culto da riqueza, representado pelo deus do dinheiro embriagado, e o culto da escrita, simbolizado pelo deus do livro. A voz poética escolhe deliberadamente o segundo, afirmando uma fidelidade quase ascética à tradição literária.

O texto funciona como uma declaração da ética intelectual que atravessará toda a obra de Lu Xun: a convicção de que, mesmo num mundo dominado pelo dinheiro e pela embriaguez social, a literatura permanece um espaço de resistência simbólica.

25 Mar 2026

Zhou Qi Olhou e Compreendeu a Figura vista no Espelho

Yuan Mei (1716-1797), o insubmisso poeta e ensaísta autor de Zibuyu, «O que o Mestre (Confúcio) não discutiria» (1788), um título que responde ao que se escreve nos Analectos: «Tópicos sobre os quais o Mestre não falou foram: prodígios, forças, desordem e deuses», uma obra no descomedido género literário biji, «notas do pincel», que consiste em anotações das mais diversas ordens que o autor considera interessante reter, também foi dono de um jardim.

E foi para esse jardim em Nanquim, onde propunha que a imaginação brotasse natural como as flores, que se retirou ainda novo, em 1748. A esse jardim Suiyuan, a partir da palavra sui, que se pode traduzir como «deixar-se ir», com o qual tanto se identificava que passou a incorporá-lo em nomes de pincel como Suiyuan zhuren, «O dono do jardim Sui», ou Suiyuan laoren, «O ancião do jardim Sui», acediam diversos criadores entre os quais e, de modo inédito para o tempo, mulheres literatas e poetas.

Entre elas, uma senhora casada mas provavelmente, de acordo com o sistema em vigor, não a primeira esposa, talvez uma concubina do escritor Wang Xilian, um estudioso e comentador do Honglou meng, o relato do «Sonho do quarto vermelho».

Como ela mesma notou, nas divagações do seu espírito inquieto, foi-se deixando levar ao acaso descobrindo súbitas afinidades. Chamava-se Zhou Qi (1814-61) e desses inesperados encontros faria memoráveis meditações. Como quando um dia, conforme ela escreveu, achou sobre a mesa de trabalho do marido o livro do «Sonho do quarto vermelho» que leu como se fora seu porque «pega em sentimentos humanos e relações sociais e coloca-os no mundo dos traços de pó de arroz e rouge, o mundo das mulheres.»

Além de um comentário, fez dez poemas sobre dez personagens do livro que o marido publicou em 1832. Outra dessas invenções pelos meandros da percepção do trânsito lento do tempo foi um rolo vertical de pintura feito mais de cem anos antes e ao qual não teve receio de acrescentar um cólofon.

Wang Qiao, um pintor profissional activo na área de Jiangnan entre 1657-1680, fizera já a sua pintura como se existisse uma via a contemplar entre o visível e o invisível, como um poema. Conhecida como Senhora no seu toucador (tinta e cor sobre seda, 99,4 x 57,8 cm no Instituto de Artes de Minneapolis), nela se pode ver ao centro uma cadeira onde se senta uma senhora diante de um elaborado espelho, atrás dela outra ajuda-a no penteado. À direita, uma terceira senhora ajeita os cobertos de uma cama de dossel sobre o qual estão rolos de pinturas, caligrafias e mais à direita um cesto com roupa.

Olhando, Zhou Qi interrogou o reflexo da figura no espelho: «Quantas vidas foram precisas para que te tornasses na pessoa desta pintura?» E intui a sua circunstância: «Deve ter sido por amar as flores que ela acordou cedo nesta Primavera».

24 Mar 2026

Poemas de Meng Haoran

Tradução de Rui Cascais

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

晚春臥疾寄張八子容

南陌春將晚

北䆫猶臥病

林園久不遊

草木一何盛

狹徑花將盡

閑庭竹掃淨

翠羽戲蘭苕

頳鱗動荷柄

念我平生好

江鄉遠從政

雲山阻夢思

衾枕勞感咏

感咏復何為

同心恨別離

世途皆自媚

流俗寡相知

賈誼才空逸

安仁鬢欲絲

遙情每東注

奔晷復西馳

常恐填溝壑

無由振羽儀

窮通若有命

欲向論中推

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Acamado no Fim da Primavera; Enviado a Zhang Zirong

Para sul, a Primavera finda ao longo das ruas.

Junto à janela virada a norte, continuo doente.

Há muito que não vou ao bosque ou ao jardim,

Mas as plantas e árvores proliferaram.

Os poucos botões apertam-se ao longo da vereda;

No meu pátio indolente o bambu foi varrido.

Serenas asas azuis esvoaçam entre as espigas,

Barbatanas vermelhas empurram talos de lótus.

Recordo o melhor amigo da minha vida,

Que deixou as margens do nosso rio para trabalhos de governo.

Nuvens e montanhas atulham-me os pensamentos vagos,

Trabalho numa canção sentida ainda acamado.

Mas por que tento outra vez estas canções sentidas?

Detesto estar separado de quem sente como eu.

Na estrada do mundo todos andam encantados

Mas é raro conhecerem-se uns aos outros.

Tal como o talento de Jia Yi foi deslocado em vão,

Também o cabelo de Anren foi atado para encanecer.1

Quando os sentimentos se erguem para oriente,

Logo galopam para ocidente com a sombra do sol.

Temo sempre vir a encher um buraco ou vala, 2

Não há como fingir uma dignidade cortês.

Sucesso e fracasso já estão destinados,

Assim argumentam os tratados. 3

Referências:

Pan Yue 潘岳 (247–300), de seu cognome Anren, era não só um poeta famoso como um belíssimo homem. Na sua “Rapsódia das Inspirações Outonais”, lamenta que o cabelo esteja a ficar-lhe branco com apenas trinta e dois anos.

Diz-se no Mencius que o medo de qualquer homem ambicioso é ser lançado a um buraco ou vala.

No seu “Tratado Sobre o Destino” (辨命論), Liu Jun 劉峻 (462–521) diz, “No que concerne ao sucesso ou fracasso de um cavalheiro, tudo o que há é predestinação”.

登江中孤嶼贈王白雲先生迥

悠悠清江水

水落沙嶼出

回潭石下深

綠篠岸傍密

鮫人潛不見

漁父歌自逸

憶與君別時

泛舟如昨日

夕陽開晚照

中坐興非一

南望鹿門山

歸來恨相失

Subindo a Ilhota Solitária no Rio; Para Wang Jiong, Abade das Nuvens Brancas1

A correr e correr, límpida água do rio;

Quando a água baixa, uma ilhota de areia emerge.

Uma lagoa serpenteia profundamente sob as rochas,

Na margem verdeja espesso bambu-anão.

As pessoas-tubarão estão submersas, para não se verem,2

Mas o pescador canta a sua própria liberdade.

Lembrando o tempo em que nos separámos,

Parece ainda ontem o barco que derivava.

O sol da tarde espalha agora a sua tardia iluminação;

Sentado nela, a mente dispersa-se.

Para sul, olho a Montanha da Porta do Cervo,

E lamento ter perdido a ocasião de lá voltar.

Mestre Wang Jiong residia na Montanha da Porta do Cervo e surge mencionado em diversos outros poemas seguintes.

As “pessoas-tubarão” (jiāo rén, 鮫人) viviam nas águas costeiras; as suas lágrimas eram pérolas e teciam um tecido especial. Segundo o tradutor inglês, a sua presença aqui é estranha, surgindo talvez do desejo de criar um paralelismo com o pescador no verso seguinte, reminiscente da figura do pescador na colecção de poesia Chu Ci (século III a.C.), que celebra o seu desapego relativamente à sociedade, assim como a prática de fluir de acordo com a natureza e os tempos, dois ideais taoístas.

20 Mar 2026

O Sacrifício dos Deuses

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

O mito de origem popular “Pangu Separa o Céu” (盘古开天Pángǔ kāi tiān) remonta ao Período dos Três Reinos (三国, 220-280) e ao seu Registo do Calendário Três Cinco (《三五历纪》)2, de acordo com os dados da enciclopédia online Baike.Baidu, onde surge exposta a teoria cosmológica Hun Tian (“浑天说”), que significa «teoria do Globo Celestial» ou, numa tradução menos literal, «teoria do ovo cósmico»”3 :

No Registo do Calendário Três Cinco pode ler-se “O Céu e a Terra estavam ligados como um ovo, tendo originado Pangu. Na teoria Hun Tian, a esfera celeste envolve a terra, e o centro onde o Céu e a Terra se encontram é conhecido como «o centro geográfico». Foi em Luoyang que Pangu nasceu, nessa altura o Céu e a Terra ainda não se tinham separado, o universo era uma mistura caótica. Pangu dormiu neste caos por 18 mil anos. Certo dia, de repente acordou. À volta, reinava um escuro de breu. Ele ergueu um grande machado com o qual lutou contra a escuridão. Esta foi-se dissipando com um estrondo imenso. O que era leve começou aos poucos a subir, transformando-se no Céu; o que era pesado foi descendo progressivamente e tornou-se a Terra.

Depois de o Céu e a Terra se terem separado, o titã temeu que eles se voltassem a unir, para que tal jamais fosse possível, firmou a cabeça contra o Céu, deixando os pés bem assentes na Terra. E foi assim que o Céu subiu para o alto, afastando-se todos os dias três metros e pouco da Terra. Também ele acompanhou durante muitos anos o crescimento do Céu, cada vez mais alto e distante. Quando o Céu e a Terra já estavam totalmente formados, Pangu tombou exausto.

Após a sua queda, o corpo dele sofreu as maiores alterações: A respiração transformou-se no vento e nas nuvens das quatro estações; a voz em estrondosos trovões; os olhos no sol e na lua, os quatros os quatro pontos cardeais da Terra, leste, oeste, sul e norte; os músculos e a pele na vasta extensão da Terra; o sangue em pequenos e grandes rios sempre a fluir e o suor, na chuva e orvalho que nutrem os dez mil seres.

据《三五历纪》记载,“天地浑沌如鸡子,盘古生其中” 。浑天说中,球壳状的天包着地,天与地的中心就是“地中”,即洛阳 ,盘古生于此。当时天和地还没有分开,宇宙 一片。盘古在这个混沌的宇宙中睡了一万八千年 。有一天,盘古突然醒了。他见周围一片漆黑,他就抡起大斧头,朝眼前的黑暗猛劈过去了。只听一声巨响,一片黑暗的东西渐渐分散开了。轻清的东西缓缓上升,变成了天;重浊的东西慢慢下降,变成了地 。

天和地分开以后,盘古怕它们还会合在一起,便头顶着天,脚蹬着地。天每天升高一丈,盘古也随着天越长越高。这样不知过多少年,天和地逐渐成形了,盘古也累得倒下来了。

盘古倒下后,他的身体发生了极大的变化。他呼出的气息,变成了四季的风和云;他发出的声音,化作了隆隆的雷声;他的双眼变成了太阳和月亮;他的四肢,变成了大地上的东、西、南、北四极;他的肌肤,变成了辽阔的大地;他的血液,变成了奔流不息的江河;他的汗,变成了滋润万物的雨露。

 João Marcelo Martins em A Gramática Universal do Mito (2023, 142) chama a atenção para os vários sentidos etimológicos do nome de Pangu (盘古),que, numa leitura possível se aproxima da fonética da palavra «cabaça», Páohù (匏瓠), tendo esta na cultura chinesa o sentido simbólico de reprodução de vida, há ainda outras possibilidades interpretativas em torno do nome deste grande titã, como a de uma «antiguidade espiralada» (Ibidem), por causa de um dos sinogramas ser 古 (gǔ), que significa «antigo», enquanto o outro 盘 (pán), pode ser traduzido por «espiralar».

A verdade é que este mito chinês do ovo cósmico se encontra em várias mitologias, como por exemplo na órfica da Grécia antiga, nas quais se enfatiza a imagem de um grande ovo do qual brotaram, quais pintos, todos os seres do universo, incluindo as próprias bases do mesmo – o Céu e a Terra. Panorama idêntico nos apresenta a mito de génese chinês. Neste mito de criação, é-nos facultada uma imagem que apela a uma mistura caótica, na qual está imerso o universo numa escuridão total. Depois, assiste-se ao sacrifício do titã, que consegue separar e constituir as duas forças básicas, representantes do princípio masculino Yang (阳), o Céu e do princípio feminino Yin (阴), a terra.

Toda a criação é um ato de sacrifício do portentoso, que começa nos milhares de anos em que a força divina separa os elementos e culmina com a exaustão do titã. É do corpo de Pangu e, por transformação, que surgem todos os seres vivos, celestiais e telúricos. Há uma energia imanente, viva e animada que mantém um universo ligado, como num só corpo.

Os generosos sacrifícios não se ficam por aqui. Nem na China, nem na Grécia antiga, tornam-se muito claros quando se pensa nas descrições encontradas para a criação da humanidade pela Deusa Nϋwa (女娲), que numas versão do mito “Nϋwa cria os seres humanos” (女娲造人Nǚ wā zào rén) depois de criar a humanidade com o auxílio da terra e de encher de gente adormece profundamente, tal era o estado de cansaço e fica-se sem saber se não terá acordado no paraíso para não mais regressar ao mundo. A Deusa, após ter criado os animais, continuava a sentir-se sozinha, pelo que “no sétimo dia, chegou a um lago. Pegou num pouco de barro e misturou-o com água. Ao ver a sua imagem refletida fez um pedaço de barro parecido com ela” (Wang, Alves, 2009, 16). Para que se mexesse, bastou colocar o boneco e a todos os outros que se haviam de seguir, em contacto com a terra. A energia desta, animava-os, sendo por si só indispensável na passagem dos bonecos para a criação da humanidade.

Tal como sucedeu no mundo grego antigo, o cosmos surge do vazio e do Caos primordial, depois, por geração espontânea, conta-se na teogonia de Hesíodo, manifesta-se a Mãe- Terra Gaia, Eros, o Deus do Amor, e a partir desta todos os elementos deificados: o Céu ou Urano, o Mar e as Montanhas, etc. Gaia, com a ajuda de Urano, gera os restantes filhos, alguns deles criaturas colossais e deformadas como os ciclopes, com cinquenta cabeças e cem braços, além dos titãs, dos gigantes, bem como dos restantes deuses, aos quais Cronos, o deus do tempo chamava titãs, que significava na sua ideia “criaturas arrogantes e ambiciosas”.

Os Deuses gregos tinham todos os defeitos e virtudes humanas eram maus, ciumentos, vingativos, mas também bondosos e dadivosos, dependendo o modo como se comportavam dos seus humores. Na Grécia antiga não era a humanidade forjada à semelhança dos deuses, mas, pelo contrário, eram os deuses concebidos à imagem e semelhança da humanidade.

Pobres daquelas forças divinas que por amor à humanidade tentaram ludibriar os seus pares, como sucedeu com o titã Prometeu que foi ao Olimpo roubar o fogo dos deuses para dotar a humanidade duma arma poderosa. O episódio sucedeu na sequência de Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu, cujo nome significa “o que pensa depois”, ter dotado os animais, quando os criou com as melhores virtudes que retirou do alforge preparado pelos deuses mais novos: garras, presas, asas, tentáculos, bicos, ferrões, velocidade e tudo o resto que os animais possuem de bom.

Prometeu, cujo nome significa “pensador previdente”, ao concluir nada ficar para si na terra que distinguisse a humanidade, foi ao Olimpo, ludibriar e extorquir o fogo dos deuses, dotando assim os seres humanos de inteligência para que se pudessem defender de animais com capacidades físicas muito superiores às deles. Para tal, teve de apanhar distraída Héstia, a deusa virgem do lar, mas o mesmo não sucedeu a Zeus, o líder supremo dos deuses, que não se deixou enganar. Puniu o que considerou ser a suma arrogância do titã ladrão com um suplício terrível. Agrilhoou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e mandou que Hefesto, deus da forja e de outras artes, fabricasse na sua fornalha os grilhões para o acorrentar. O criador da humanidade foi preso pelo Poder e pela Força a um penhasco, de braços e pernas esticadas, agarrado pelos pulsos e tornozelos, sendo visitado diariamente por uma águia voraz, que lhe despedaçava o diafragma e lhe comia o fígado.

Ésquilo (525- 456 a.C), o grande dramaturgo grego relata o suplício, inspirado pela Teogonia de Hesíodo, na tragédia Prometeu Agrilhoado, deixando o herói desabafar no final da peça que relata a sua aventura da dádiva do fogo à Humanidade:

(…) Eis a rajada

que, para sobre mim trazer terror,

foi mandada por Zeus.

Oh Majestade! Oh minha mãe!

Éter divino! ―

Que, pelo mundo além,

fazes rolar maravilhoso hino :

a Luz ― supremo bem,

a iluminar o trágico destino

de toda a gente !

Vê como é grande a minha desventura,

A dor que me tortura ―

Injustamente!…

(Ésquilo, 1946, 115)

 O sacrifício de Prometeu terá eco no mundo cristão, no qual o filho de Deus, Jesus Cristo, também se sacrifica por amor à Humanidade. Morre na cruz para salvar os homens, que invariavelmente se portam mal. Mas há uma grande diferença na maneira de encarar o cosmos de chineses e cristãos, com a Grécia antiga a estabelecer a ponte entre ambas as mundividências. Na perspetiva cristã, Deus criou o mundo a partir do nada (Creatio ex nihilo) . É uma criação transcendente, pessoal e com assinatura de artista. O fruto da criação talvez não tenha sido o melhor, mas ficará sempre por explicar como entrou o mal no mundo, mesmo com Santo Agostinho a defender a teoria do livre-arbítrio humano.

 Aqui fica o relato da criação ex nihilo no livro do Génesis do Antigo Testamento (Gn 1):

No princípio Deus criou o Céu e a Terra. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus disse: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou «dia» e às trevas chamou «noite». Houve uma tarde e uma manhã, foi o primeiro dia.

Depois seguiu-se a criação do firmamento, ao qual Deus chamou céu no segundo dia. No terceiro dia, criou a terra, o mar e as plantas. No quarto dia foram criados o sol, a lua e as estrelas. No quinto dia, os peixes, os pássaros e todos os seres vivos. No sexto dia, os animais foram divididos em espécies e foi ainda criado o homem. No sétimo dia descansou.

Relativamente à criação da humanidade, Deus numa das versões cria-as diretamente e à sua imagem e semelhança (Gn 1, 27-31), na outra cria primeiro o homem e depois a mulher partir da costela deste (Gn 2,18-23). Após o que, é percorrido um longo caminho até se chegar ao Novo Testamento e ao sacrifício de Jesus Cristo, morto na cruz por amor à humanidade.

Há uma grande diferença, do ponto de vista filosófico, entre as cosmologias imanentistas chinesa e grega e a transcendente cristã. As primeiras obedecem ao princípio da transformação de elementos que estiveram desde sempre imersos no caos primordial e, portanto, apresentam uma imagem cosmológica interrelacionada, em que os elementos ou os dez mil seres possuem afinidades de raiz que lhes permitem comunicar e transmutar-se sempre que necessário. Os deuses gregos, por exemplo, assumem as formas que desejarem, tal como as divindades e imortais chineses. Já no Ocidente cristão a ausência de um ovo cósmico ou de um caos primordial dificulta e impede a transmutação. Os seres estão todos separados e numa posição exterior em relação à divindade, já que se é feito à imagem de deus, não se é o próprio divino e para se alcançar esse estatuto supõe-se uma união mística com o mesmo. O profano exterior, cindido, distante terá de percorrer um longo caminho, que talvez implique o martírio e o sacrifício já anteriormente vivido pelo filho de Deus.

De qualquer modo, mesmo no âmbito de filosofias imanentistas, guiadas pelo princípio da transformação, o sacrifício também está sempre presente, quando aliado ao amor à humanidade, como no caso de Prometeu ou, em parte de Nϋwa; ou sem amor, mas por essência natural, quando a aliança é feita com o tempo, se for considerado o exemplo de Pangu. Os deuses são sacrificados, porém não estão sozinhos. O sacrifício é universal, porque as criaturas naturais são também martirizadas por amor ou pelo tempo nas três cosmogonias apresentadas, imolam-se às divindades, umas mais distantes, outras tão próximas que só de dentro conseguem ser intuídas.

Referências

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Ésquilo. 1946. Prometeu Agrilhoado. Tradução de Eduardo Scarlatti. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, Lda

“浑天说” (teoria Hun Tian) In Baidu. Baike.

https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink, acedido a 25 de fevereiro de 2026.

“盘古开天” (Pangu separa o Céu). In Baidu. Baike.

https://baike.baidu.com/item/%E7%9B%98%E5%8F%A4%E5%BC%80%E5%A4%A9/74007,2008年6月7日, acedido a 24 de fevereiro de 2026.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros

Martins, João Cancelo. 2023. A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, Universidade de Macau.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Notas:

I Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

De acordo com o estudioso João Martins em A grmática Universal do Mito. Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem (2023, 143, nota 100) O Calendário Três Cinco diz respeito aos registos históricos já perdidos das Três Divindades Soberanas e dos Cinco Deuses.

iii A teoria Hun Tian, fundada por Zhang Heng (张衡), um astrónomo da Dinastia Han, é uma teoria astronómica entre as teses geocêntrica e heliocêntrica, na qual se defende que o universo é infinito, o movimento dos corpos celestes é regular, a luz da lua é o reflexo da luz solar e os eclipses lunares são causados pela Terra bloqueando a luz solar.

Para comprovar a sua Teoria Hun Tian, Zhang Heng construiu a primeira “esfera armilar movida a água”, inaugurando uma era de observação astronómica mais precisa. Utilizou então dados de observação astronómica mais rigorosos para corroborar a sua teoria na explicação de diversos fenómenos celestes, influenciando a astronomia por mais de 1500 anos. (cf https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink)

3 Mar 2026

Quando Foi Perigoso Falar de Peónias Vermelhas

Shen Deqian (1673-1769), a quem o imperador Qianlong (r. 1736-95) chamou o «ilustre velho erudito de Jiangnan», foi um notável e influente alto funcionário, poeta, ensaísta e mestre do pensamento com um percurso marcado por sucessivas surpresas, como o facto invulgar de só ter passado no dificíl exame jinshi em 1739, depois de dezassete tentativas e quando tinha já sessenta e sete anos. Mas logo a seguir assumiria importantes funções como vice-ministro no Ministério dos Ritos ou Grande tutor do Príncipe real. Função que há muito exercia para particulares.

Do reconhecimento que Qianlong lhe demonstrou fez parte não só o «favor imperial» que lhe permitia passear nos jardins imperiais como o raro privilégio de ter um templo erigido em seu nome para o qual o imperador escreveu com o seu pincel a frase: «Venerável decano do mundo da poesia».

Muitos decretos e memoriais foram escritos com a autoridade que possuía o seu pincel, como o que estabelece que em 1699, «o imperador Kangxi declarou que a partir de agora, Aurora de Primavera sobre o aterro de Su (Shi) será o primeiro nome na lista das Dez Vistas do Lago do Oeste.» Na altura da sua morte o próprio imperador lhe compõe uma elegia.

Ninguém negaria o persistente e valoroso percurso exemplar do mestre. Mas subitamente em 1778, já ele tinha morrido há oito anos, os títulos honoríficos são-lhe retirados, o templo comemorativo abolido, o nome póstumo revogado, a pedra tumular derrubada, até o seu corpo exumado e esquartejado, entre outras punições. E tudo por causa da referência a uma flor.

Durante um período de inquisições literárias, foi descoberta numa obra de Xu Shukui (1703-1763) Ode da peónia púrpura, Yongzi mudan shi, uma subtil referência à perenidade da anterior dinastia. Que Shen Deqian, seu biógrafo e conterrâneo de Jiangsu, onde se notava uma irrefreável resistência ao poder Manchu, elogiara e citara nos versos: «Nada senão a cor vermelha poderá ser a verdadeira,/ Mesmo que variedades estrangeiras se auto-proclamem «raínha das flores» (huawang, um nome popular para peónia). Foram os dois severamente condenados, mesmo se post-mortem.

Wang Jiu (1745-98), um pintor que Wang Yu no fim do séc.XVIII incluiu no seu Manual de pintura da Herdade oriental, Dongzhuang hualun, como um dos Quatro pequenos Wang, recordou versos de Shen Deqian no ano anterior à sua condenação, num pequeno álbum (tinta sobre papel, 13,8 x 20,5 cm, à venda na Christie’s). Numa das páginas apenas um salgueiro, ondulante emblema da saudade, e sob ele um pescador numa embarcação evocando a vontade de navegar livre sobre o perigo das águas. Que às vezes vinha só numa alusão a peónias vermelhas, e até podia ter um castigo brutal mas se fora hábil, como escreveu Shen Deqian a propósito da poesia de Meng Haoran, «a linguagem será simples, mas o sabor permanecerá.»

2 Mar 2026

Futebol: um jogo de origem chinesa

Por Miguel Lenoir

Há cerca de 2500 anos, os chineses criaram um desporto em que uma bola é jogada com os pés e se quer dentro de uma baliza. Chamaram-lhe CUJU.

Cuju (tsu-dju, em português), pontapear uma bola, foi a forma mais antiga de um desporto a que hoje se chama futebol. A sua origem remonta ao final do Período Primavera e Outono (770-481 a.E.C), início dos Reinos Combatentes, quando foram estabelecidas regras e a bola do jogo se tornou algo semelhante às que hoje rolam pelos estádios. Inicialmente, essa bola era recheada com penas ou palha de grãos, sendo mais rija do que as bolas modernas.

O cuju foi mencionado pela primeira vez nos textos históricos Anais dos Reinos Combatentes (Zhan Guo Ce) e Registos da História (Shi Ji), de Sima Qian, nos quais o desporto foi claramente referido como uma forma de treino físico para tropas militares. “Cu” significa literalmente chutar e “ju” significa bola. De acordo com outro texto antigo, Taiping Qing Hua, a bola na dinastia Han passou a ser recheada de penas e envolta em couro. Na dinastia Tang, seria substituída por uma bola cheia de ar com uma camada dupla de pele.

A Origem do Jogo

O estabelecimento do cuju, com regras e objectivos, ocorreu em Linzi, a capital do poderoso reino de Qi, um dos estados dominantes durante esse período, uma cidade extremamente rica e populosa, talvez pela mão de um homem famoso dessa época, Guan Zhong, primeiro-ministro do reino de Qi. Essa prosperidade económica permitia que os seus habitantes, para além das classes militares, tivessem tempo e recursos para se dedicarem a actividades de lazer e entretenimento.

Contudo, acredita-se que a forma mais competitiva do cuju foi desenvolvida como um método de treino militar para os soldados e cavaleiros do exército do reino de Qi. O objectivo era melhorar a condição física, a agilidade e o trabalho de equipa dos guerreiros. Esta prática remonta a cerca de 685 a.E.C., quando o primeiro-ministro Guan Zhong, ao serviço do Duque Huan de Qi, a terá implementado para fortalecer as forças armadas. Portanto, Linzi ofereceu o cenário perfeito: uma cidade rica com uma cultura de lazer florescente e um estado poderoso com necessidade de treinar um exército forte. Esta combinação única fez com que o cuju, que já existia como uns simples pontapés numa bola, evoluísse para um desporto com regras e objectivos claros.

Devido ao seu valor militar, o cuju era muito apreciado na dinastia Han. Além de ser usado como um meio formal de treino físico, os jogos de cuju foram padronizados e regras estabelecidas para ajudar a aumentar a resistência e a disciplina militar.

Um livro de regras e preceitos

Uma discussão aprofundada sobre o jogo cuju foi escrita pela primeira vez por Li You, (李尤), um poeta e funcionário da corte da Dinastia Han Oriental (25-220), que descreve o jogo de cuju com um detalhe notável. Trata-se do “Ju Cheng Ming” (鞠城铭) , que pode ser traduzido como “Inscrição no Muro do Campo de Jogo” ou “Ode ao Campo de Futebol”. No livro, lê-se o seguinte poema:

Esta obra é considerada a primeira descrição detalhada das regras e da filosofia de um jogo desportivo na história mundial. Ali se detalham o local e as regras do jogo — o campo era um rectângulo (fāng qiáng -muro quadrado), cercado por muros, o que lhe valia o nome de Ju Cheng (Cidade do Jogo), construído especialmente para partidas de cuju, com traves em forma de crescente em cada extremidade e com seis jogadores de cada lado. A bola deveria redonda (yuán jū). Havia duas equipas com seis jogadores cada (èr liù xiāng dāng), num total de doze jogadores, que se opunham e procuravam marcar golos. O jogo era dirigido por um árbitro principal e um assistente (zhǎng), que existiam para garantir a equidade (lì píng) e o cumprimento de regras fixas e imutáveis (qí lì yǒu cháng) que todos deveriam seguir.

Mas o aspecto mais notável do texto de Li You é a sua ênfase na moralidade e na justiça, tanto dentro como fora de campo. O autor não fornece apenas detalhes sobre o local e as regras do jogo: Li You menciona especialmente os requisitos morais para o árbitro e os jogadores: “Como árbitro, não deve haver favoritismo ou parcialidade (bù yǐ qīn shū, bù yǒu ā sī)”. Este é um dos primeiros códigos de conduta para árbitros na história do desporto. “Como jogador, é importante jogar de forma justa, sem reclamações ou acusações. Os jogadores devem manter uma atitude correcta e calma, aceitando as decisões sem se queixarem dos erros (duān xīn píng yì, mò yuàn qí fēi).”

Finalmente, Li You vai mais longe e termina com uma poderosa mensagem política e filosófica. Se um simples jogo exige regras justas, árbitros imparciais e jogadores disciplinados, quanto mais a arte de governar um país (kuàng hū zhí jī)? O cuju tornava-se, assim, uma metáfora para a harmonia social e a boa governação, reflectindo a visão confucionista de que a ordem e a rectidão em pequenas coisas são o fundamento para a ordem no mundo.

Enquanto os textos do Zhan Guo Ce e do Shi Ji nos mostram a popularidade do jogo, a inscrição de Li You revela a sua sofisticação e organização durante a dinastia Han, consolidando a importância do cuju na cultura chinesa antiga.

Ainda durante a dinastia Han, a popularidade do cuju espalhou-se do exército para as cortes reais e as classes altas. Diz-se que o imperador Wu gostava muito deste desporto. De acordo com o Livro de Han, o imperador frequentemente organizava lutas de galos e partidas de cuju no palácio imperial, a que assistia com grande prazer.

O cuju melhorou muito durante as dinastias Tang e Song. A bola cheia de ar era muito mais leve e saltitante, o que significava usar um conjunto diferente de técnicas e estratégias nas partidas. Os Tang tornaram o jogo mais divertido e ele espalhou-se para o Japão naquela época.

Os ministros fundadores da dinastia Song eram em grande parte oficiais militares. A sua preferência por desporto como forma de entretenimento ajudou a impulsionar o avanço técnico, o nível de diversão e a popularidade do cuju. O jogo floresceu durante a dinastia Song como resultado do desenvolvimento social e económico da nação, e a sua popularidade estendeu-se a todas as classes da sociedade.

Como marcar golos

Durante a Dinastia Han, o período em que o jogo foi padronizado, marcar um golo era um desafio de pontaria e precisão completamente diferente do futebol moderno. De acordo com as descrições, o campo tinha nas suas extremidades estruturas de golo muito particulares: seis postes em forma de meia-lua, com uma pequena rede era amarrada, a cerca de 10 a 20 metros do chão.

A abertura por onde a bola tinha de passar era surpreendentemente pequena, com apenas 30 a 40 centímetros de largura. O objectivo, portanto, era chutar a bola para que ela passasse por aquela pequena abertura e ficasse presa na rede elevada. Mais do que potência, este tipo de golo exigia uma enorme precisão e técnica apurada. A forma de lua crescente dos postes e a bola redonda eram vistas como uma representação do equilíbrio cósmico entre o yin e o yang.

Com o passar dos séculos, o jogo evoluiu. Na dinastia Tang (618-907), surgiram mudanças significativas: a bola passou a ser oca e cheia de ar, com um invólucro de duas camadas, o que permitia um melhor controlo e mais dinamismo no jogo. As balizas também foram modificadas. Ao lado do modelo com postes em meia-lua, surgiram dois novos tipos: balizas com rede, ou seja, postes com uma rede esticada entre eles, semelhantes às balizas do futebol moderno; ou um único poste colocado ao centro do campo, que parecia ser o alvo a acertar.

Na Dinastia Song marcar golos torna-se opcional. O jogo dividiu-se em duas modalidades principais :

— o Zhuqiu (Jogo Competitivo): Esta era a variante que mais se assemelhava ao futebol de equipas. Realizava-se em ocasiões especiais, como banquetes imperiais, com duas equipas de 12 a 16 jogadores de cada lado. O objectivo principal continuava a ser marcar golos na baliza adversária. Quando um golo era marcado, era celebrado com redobrar de tambores e bandeirinhas.

— o Baida (Jogo de Habilidades): Esta tornou-se a forma dominante de jogar cuju na dinastia Song e representou uma ruptura total com a ideia de golo. Sem Balizas, os golos tornaram-se obsoletos. O campo de jogo era simplesmente delimitado por uma corda. Os jogadores, em número variável (de 2 a 10), revezavam-se para manter a bola no ar, dentro dos limites da corda, usando qualquer parte do corpo excepto as mãos. O vencedor não era quem marcava mais golos, mas sim o jogador com menos faltas ou com a melhor performance técnica. Perdia pontos quem, por exemplo, não passasse a bola com a distância ou precisão suficiente para alcançar outro jogador, chutasse a bola para fora dos limites da corda ou chutasse a bola demasiado baixa. Portanto, numa partida de Baida, a “marcação” não existia no sentido de colocar a bola numa baliza, mas sim na acumulação de pontos positivos através de um controlo de bola hábil e esteticamente agradável. Ganhava quem demonstrasse maior domínio técnico e cometesse menos erros.

A história do cuju mostra-nos como um jogo pode evoluir de uma simples atividade de treino militar para um desporto complexo com regras variadas, onde o acto de “marcar” podia ser um pontapé preciso a uma rede a 10 metros de altura ou uma demonstração de equilíbrio e técnica individual.

Aliás, ao longo dos séculos, foram escritos vários manuais sobre o cuju, alguns dos quais sobreviveram até aos dias de hoje. Estes manuais oferecem uma visão fascinante sobre a vasta gama de pontapés que podiam ser utilizados, bem como sobre os vários movimentos e posturas corporais envolvidos. Havia pelo menos 16 tipos básicos de «pontapé», embora o significado de alguns ainda não tenha sido decifrado:

1 – O lian (com a parte superior do pé)

2 – O xi (com o joelho)

3 – O guai (com o tornozelo)

4 – O da (com a ponta do pé)

5 – O bazi (com o pé aberto)

6 – O banlou

7 – O deng (com o calcanhar)

8 – O chao

9 – O nie/nian (com o peito do pé)

10 – O jian (com o ombro)

11 – O zhuang (com a ponta do sapato)

12 – O xiudai

13 – O zuwo/zugan

14 – O pai (com o peito)

15 – Zati (pontapés mistos)

16 – O kong (bloqueador)

Havia também regras e regulamentos relativos ao movimento do corpo e às posturas permitidas. Por exemplo, um manual de cuju dizia:

“O corpo erecto como um pincel,

como se carregasse uma pedra nas mãos,

o coração livre e à vontade,

os pés numa postura móvel.

O corpo erecto, e não curvado,

as mãos pendentes, e não voando,

os pés baixos, e não altos,

os pontapés lentos, não apressados.”

Os primeiros profissionais

Havia muitos bons jogadores de cuju na dinastia Song e até associações formadas para o desporto, como o famoso Clube Qi Yun, também conhecido como Clube Yuan, o clube de futebol mais antigo da China e o primeiro do mundo. Esses clubes tinham como objectivo promover o cuju, oferecendo aulas de treino de habilidades e organizando competições para equipas masculinas e femininas. As partidas eram tão espectaculares e calorosamente recebidas quanto as que assistimos hoje. Os seus membros eram como os jogadores de hoje, também podiam ser transferidos para outro clube, mas não era fácil, pois tinham de preencher formulários com os seus dados básicos, tais como nome, local de origem, nome do seu professor e carreira anterior.

E tinham de passar em exames de aptidão. Por exemplo, era-lhes pedido que chutassem a bola para cima pelo menos 100 vezes com cada pé sem que ela caísse no chão. A obra “Os Esplendores da Capital Oriental” (Dongjing Meng Hua Lu) descreve a vida em Kaifeng por volta de 1120 e menciona a existência de clubes profissionais de cuju, com patrocinadores, treinadores e capitães.

Os clubes de cuju viam-se como uma força para a harmonia social, reunindo jovens de várias origens e adoptando um estilo de vida comunitário, com os membros a partilharem roupas, dinheiro e comida. Não há evidências de que as mulheres fossem autorizadas a participar. As sociedades também produziam manuais de instruções que não só explicavam as técnicas do desporto, mas também o promoviam como benéfico para a saúde física e mental. A sua crença de que o jogo ajudava a construir músculos, reduzir o peso e retardar o envelhecimento não pareceria fora de lugar num manual de futebol actual.

A importância do cuju, durante a dinastia Song, também levou alguns jogadores a tornarem-se famosos pelas suas habilidades com a bola. Meng Xian e Lu Bao são dois jogadores que alcançaram proeminência nacional e cujos nomes foram registados para a posteridade. Um campeonato nacional conhecido como Shan Yue Zheng Sai também era realizado, embora não se saiba como era organizado ou quem podia participar.

A crescente popularidade do cuju também ficou evidente com a contratação de instrutores pelos clubes para ensinar o jogo e com o surgimento de jogadores profissionais. Assim como outros artistas profissionais, tais como músicos, actores e dançarinos, os profissionais do cuju viajavam pelo país fazendo exibições das suas habilidades e ensinando-as a outras pessoas. O nível de organização do desporto era tal que os jogadores só podiam se qualificar como profissionais após passar por exames, nos quais tinham que demonstrar o domínio de uma ampla variedade de chutos sem cometer erros.

O treino era intensivo e árduo, ocorrendo ao longo de muitos anos. Essa não era a única maneira pela qual os jogadores podiam ganhar a vida com as suas habilidades. Os membros da nobreza também mantinham os seus próprios jogadores profissionais. O cuju era associado ao prazer e à felicidade. O jogador de cuju «não aspira à fama e ao lucro, mas deleita-se em passear à vontade», segundo um escritor do período Song. Outro afirma que o desporto «liberta a tensão, eleva o ânimo e ajuda a esquecer as dores e os problemas do mundo agitado. Dissolve o qi endurecido e faz com que o coração virtuoso se torne gentil e belo».

O cuju parece ter sido considerado uma espécie de panaceia para todos os tipos de males, com um impacto profundamente positivo a nível físico, mental e até espiritual. O jogo também parece ter tido um aspecto moral e ético. A maioria das sociedades de cuju promovia as principais virtudes confucionistas de benevolência, decoro, cortesia, sabedoria e sinceridade.

No entanto, um manual de cuju aponta para os perigos de «conversas, jogos de azar, brigas e lutas, arrogância, grosseria, falsidade, mau humor, litigiosidade, devassidão, álcool e sexo», o que sugere que esses podem ter sido problemas associados ao jogo. Há também exemplos de cuju associado a entretenimento e bebida, e a literatura revela que havia muitos jogos informais, que talvez fossem mais parecidos com uma partida de futebol, entre amigos no parque.

O cuju continuou a ser popular na China durante a dinastia Ming. Funcionários públicos e membros da realeza ficaram obcecados pelo jogo, a tal ponto que o imperador Hongwu ordenou que fosse proibido, pois era uma distração do trabalho e do treino militar. Aqueles que fossem apanhados a jogar podia-lhes ser aplicada uma pesada pena: ter um pé cortado.

No entanto, certos estabelecimentos continuaram a ter jogadoras femininas que realizavam proezas de cuju para atrair clientes. O governo Qing aprendeu com o erro do governo anterior, decidiu proibir o cuju de uma vez por todas, e esse foi o fim do futebol, outrora muito popular na China.

Reconhecimento internacional

Na Europa existem desde o século XVIII relatos de um jogo de rua em que duas equipas andavam atrás de uma bola pontapeando-a e que, sem regras claras, acabava invariavelmente em confronto com todos os elementos aos murros e pontapés. No final, todos recolhiam a casa esmurrados e a sangrar, mas satisfeitos e bem-dispostos pois tinham libertado as energias condensadas de um dia de trabalhos. Terá sido esta a origem do moderno jogo de futebol, desporto como hoje o conhecemos, que em meados do século XIX, em Inglaterra, passou a ser mais disciplinado e com regras, tendo-se formado clubes.

Quando nos anos 70 do século XX, a Inglaterra se proclamou como o país onde se iniciara o desporto-rei, a FIFA achou necessário criar um grupo de investigadores para recolher informações arqueológicas e apreciar os registos históricos. Assim, foram encontrados muitos locais com possibilidade para serem declarados como a pátria do futebol. Só entre 9 e 11 de Julho de 2004, foi feita uma votação entre os 36 estudiosos investigadores que, por unanimidade, declararam Linzi, como o local da origem do Futebol.

Na comemoração dos 100 anos da Federation International de Football Association (FIFA), em 2004, o presidente Joseph S. Blatter reconheceu, finalmente, ter sido na China, mais propriamente em Linzi, pertencente a Zibo, actual província de Shandong, que se iniciou o jogo com bola usando os pés. 完

26 Fev 2026