Gógou, a insubmissa

10/01/21

Falam em árabe, na mesa do lado, em voz muito alta, e parece-me que cada um deles só comunica ao outro o que lhe falta. Instala-se uma aspereza gutural que cospe caroços e recorta em modo rouco aquilo que é.
Falam e pressinto o ar desmembrado à navalhada ou palpita-me que estou prestes a surpreender esse insólito momento em que um coração se funde num cacto.
Lá fora, as folhas da acácia vermelha, finas como dedos, tocam ao vento um piano invisível.

11/01/21

«A tragédia do homem isolado interessa-nos naturalmente muito menos que aquela da coisa pública, causada pelo homem isolado», anotou Brecht, a propósito da peça de Shakespeare, Coroliano, em 20/05/51, nos seus Diários de Berlim. Fala do homem que se acoita no poder. Mas também Brecht, como Coroliano, pensava o seu papel insubstituível na esfera de acção cultural na RDA e a sua tragédia pessoal foi a merencória tristeza com que se foi apercebendo que a sua “liberdade” era cada vez mais um adorno do regime. Daí que, como defende Hannah Arendt, foi, paradoxalmente, quando reuniu as melhores condições de trabalho que a sua criatividade como dramaturgo diminuiu. Nos últimos anos, Brecht era claramente um homem esgotado. Embora sejam notáveis os poemas “mínimos” que foi escrevendo com uma limpeza e uma sabedoria “muito chinesas” e que constituiriam as Elegias de Buckow. Eis algumas:

DIA QUENTE

Dia quente. Com a pasta de escrita nos meus joelhos/ sento-me no caramanchão. Um barco verde/ cruza os prados à vista de todos. Na popa,/ uma freira gorda com vestes grossas. À frente dela,/ um homem idoso de roupa de banho, provavelmente um padre./ No banco de remo, remando com afinco,/ um rapazote. Como nos velhos tempos! Penso,/ como nos velhos tempos!

FUMAÇA/ A casita sob as árvores à beira do lago./ A fumaça sobe do telhado./ Em faltando,/ como ficariam desconsolados/ casa, árvores e lago.
ABETOS/ Pela manhã/ são acobreados os abetos./ Era já assim que os via/ há meio século atrás,/ duas guerras mundiais atrás,/ com olhos jovens.

12/01/21

Lembremo-nos de Nunca ao Domingo (1960), de Jules Dassin, uma variação, em farsa, do mito de Pigmalião.
No porto de Pireu, mora Ilya (Melina Mercouri), uma prostituta independente e popular, de espírito livre e generosa, que aos domingos convida os seus clientes para sua casa, apenas para entretê-los com comida, bebida e música, grátis.

Chega à cidade um intelectual americano, Homer Thrace (Jules Dassin), procurando as causas do declínio da Grécia de Platão e Aristóteles. Ao conhecer Ilya e seu modo de vida, conclui que ela é o símbolo vivo das causas do declínio, e propõe-se a uma campanha para “salvá-la” por meio de sua educação, o que permitirá que ela abandone a prostituição e encontre uma vida melhor.

Na luta entre o normativo e a “joie de vivre” é o educador quem acabará por ceder.
É um filme maravilhoso e desopilante e absolutamente anarca, e a força de Ilya, que mete de pantanas a propriedade privada e qualquer moral burguesa, arrasa tudo, como quem não quer a coisa. Neste filme, o desespero é o cancro social e a alegria ontológica.

Este filme devia ser vendido como complemento do livro de Katerina Gógou, Três Cliques à Esquerda… (Barco Bêbado), outra grega anarca, actriz e poeta, devastadora, inclemente e suicida, e onde tudo funciona absolutamente ao contrário: o cancro devém ontológico, posto que não se enxerga escapatória ao mandamento social.
Katerina (1940-93) propõe então o combate: «Sei que há areais infindáveis/ e árvores junto ao mar/ e que o amor é uma coisa maravilhosa./ Mas antes era preciso acabarmos com os porcos.», e avisa o rebelde que não espere descanso ou recompensas, de que só lhe restarão alguns pequenos prazeres sornas arrancados à voragem da rebelião: «A nossa vida é/ bofes de fora em vão/ em greves combinadas/ bufos e carros-patrulha./ Por isso é que te digo./ Da próxima vez que dispararem contra nós/ nada de dar à sola. É medir forças contra eles./ Nada de vender a nossa pele ao desbarato pá./ Não. Chove. Dá-me um cigarro.»

É um livro exasperador, sem um poro que não esteja betumado pelo desespero: «Enlouqueço dentro de um sonho/ meu e dos meus amigos, em sucessivos ataques de nervos/ choros histéricos, vómitos de bebedeira e nojo/ tentativas de suicídio e inúteis/ resoluções/ de mudar de vida.»

Quando este seu livro apareceu em 1978, propagou-se como uma labareda e vendeu mais de 40 000 exemplares. Neste momento, está a ser redescoberto e traduzida por toda a Europa. Talvez Katerina Gógou esteja para estes tempos de biopolítica como Maiakovski esteve para a revolução russa: puro arame-farpado, é um grito necessário porque nos coloca a nu. E, como a do russo (ou a de Brecht), esta não é uma arte blindada; truculenta, anti-retórica, não se imaginem aqui sentidos figurados, costuras, dependências ou auto-complacências que se acalentem ou fiquem por expôr:

« Bom dia doutor./ Não./ Não se levante. De resto, não tenho nada de grave./ O do costume./ Passe-me valium metaqualona triptizol — já sabe de cor —/ Torne-me socializável/ arrume-me, vá,/ junto dos seus semelhantes/ junto aos seus bufos/ foda-me se quiser/ bonitas as gravuras na parede./ Aqui tem uma nota de mil/ e dê-me lá a receita/ porque já perdi a paciência meu paneleiro de merda/ e dê por onde der vou rebentar./ Não. Não se levante doutor. Não é grave./ Obrigada./ Muito bom dia.»

Leia-se este livro como uma espécie de A Arte de Rebelião Para as Novas Gerações, na esteira do justamente famoso livro de Raoul Vaneigem. Sobreavisando: não se espere consolo, o livro detona, como um convite à decisão.
Esta edição da Barco Bêbado é, mais uma vez, belíssima, com desenhos fortes de Gonçalo Pena e um grafismo à altura, cheio de punch, de Paulo da Costa Domingos, a demonstrar que alguns mais velhos estão para durar.

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