Juliette Binoche, actriz: “Estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui”

A “embaixadora-estrela” da quarta edição do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM), defende que “há muitas formas de ser livre”, mesmo quando existe censura

 

Juliette Binoche, aclamada actriz francesa que se tornou na primeira a ser galardoada com o prémio de Melhor Actriz nos três principais festivais de cinema europeus, mostrou-se ontem solidária com os artistas que têm de ver as suas obras escrutinadas pela censura chinesa. No entanto, para Binoche que só sabe “viver de forma independente”, há sempre maneira de continuar a desenvolver qualquer forma de arte.

“Eu quero ser livre e vou ser livre, mas há muitas formas de o ser. Como actores também temos limites: temos de saber as nossas deixas, as nossas marcações e, às vezes, só temos a oportunidade de fazer um take. Mas no interior, temos de encontrar o nosso caminho (…). Por isso há sempre formas de nos expressar e estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui”. “Há sempre limites, mas para mim a arte deve ser levada o mais longe possível”, partilhou Juliette Binoche quando questionada pelos jornalistas sobre a forma como iria lidar com a censura na China, caso aceitasse o convite lançado no dia anterior por Diao Yinan, realizador chinês que em 2014 venceu o Urso de Ouro em Berlim pelo filme “Black Coal, Thin Ice”, para participar num filme por ele realizado.

Acreditando que a essência do seu trabalho como actriz, e no limite, de uma boa cena, está numa “certa incerteza” e “na energia que existe em saltar para o desconhecido”, Juliette Binoche falou da importância que a descoberta e a vontade de aprender têm para si.

“A curiosidade é a base da humanidade. É possível aprender interagindo, viajando (…) é essa paixão que me leva a ir, a paixão de aprender o contacto com grandes artistas”, referiu.

Realizar? Talvez um dia

Questionada sobre a possibilidade de vir a realizar os seus próprios filmes, a actriz francesa admite que até “pode acontecer”, mas que, neste momento, se sente sortuda por trabalhar com realizadores e equipas fantásticas. “Se não tivesse essa oportunidade provavelmente escreveria e realizava eu”, explicou Juliette Binoche, vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária pela sua prestação em “O Paciente Inglês” (1997), uma das obras destacadas no evento “Em conversa com Juliette Binoche” do IFFAM.

“O momento da pós-produção é quando o realizador tem verdadeiramente o poder. É aqui que o filme está mesmo a ser feito e o realizador pode mostrar a sua inteligência, sabedoria e também o artista que é, ao nível do ritmo, por respeitar ou não aquilo que foi gravado, por adicionar música ou confiar pura e simplesmente na forma como estava planeado”, referiu Juliette Binoche.

“Lembro-me de uma cena que o Anthony Minghella, realizador do Paciente Inglês, gravou entre o Kip e a minha personagem no sótão da casa, e ele, que acabou por cortar essa parte, resolveu usar uma reacção minha gravada nessa cena, noutro contexto completamente diferente, onde o Willem Dafoe revela ser o paciente inglês. E nesse momento a minha personagem passa a ouvir o que se está a passar e a estar envolvida no segredo. Fiquei impressionada por ele ter sido capaz de fazer isso”, exemplificou a actriz francesa.

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