Competição Internacional | Realizador de Give me Liberty quer fazer próximo filme em Macau

A perseverança de Kirill Mikhanovsky e Alice Austen foi levada ao limite para que Give me Liberty fosse uma realidade. O filme, que levou cerca de cinco anos a produzir, contou quase com tantos contratempos como uma conturbada viagem de carrinha pelo Milwaukee. O realizador russo e a argumentista norte-americana contaram ao HM todos os percalços de um filme que centra a sua autenticidade num elenco de actores não profissionais

 
A dada altura, ao fim de três anos, quando estávamos prestes a começar a gravar, perdemos todo o financiamento, até que um bilionário disse que financiava o filme na totalidade, se o fizéssemos em Detroit. E nós recusámos. Claro que pensámos se não estaríamos a ser estúpidos pois não encontrámos financiamento em mais lado nenhum no Milwaukee”, disse Kirill Mikhanovsky, realizador de Give me Liberty, filme a concurso na Competição Internacional do IFFAM. “Tivemos de ser muito fortes para continuar”, explicou.
A vida pode ser uma viagem no interior de uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde. Pelo menos é este o entender de Kirill Mikhanovsky e da argumentista Alice Austen, acerca de Give me Liberty, o qual fizeram questão que fosse passado no Milwaukee, EUA, e que contasse a história de uma personagem local. Além disso, o filme teria também de contar com actores não-profissionais, alguns com mais de 80 anos e outros, portadores de deficiências.
“O Milwaukee é uma das cidades mais segregadas dos EUA e usámos a carrinha literalmente como um veículo que poderia ligar pessoas diferentes, de várias partes da cidade e representar a forma como a América é actualmente, mas isto é a parte filosófica. Essencialmente queríamos contar a história deste jovem que está perdido na vida e de todas as pessoas que o rodeiam e que querem estar onde precisam de estar, num dia particularmente difícil”, explicou o realizador.
No entanto, contar a história desse dia levou cinco anos, pois além de não haver ninguém interessado no financiamento, o facto de o elenco ser composto maioritariamente por actores não profissionais tornou ainda mais difícil a tarefa de angariar financiamento.
“Basicamente nos EUA não há financiamento público, é tudo privado. A maior parte do financiamento privado é ditado pelo elenco e, se não há um nome sonante o projecto está praticamente destinado a falhar”, explicou Mikhanovsky.
Mas a decisão estava a tomada e o projecto foi-se tornando “muito pessoal para ambos” pela quantidade de energia emprestada.
“A utilização de actores não profissionais é uma abordagem neo-realista que decidimos abraçar e que determinou todo o trabalho a partir daí e também a utilização de pessoas com deficiências para fazer todas as personagens que têm deficiências”, referiu Alice Austen. Este desafio, explicou a argumentista, colocou também uma “enorme pressão na escolha da actriz para o papel da Tracy”, que acabou a ser desempenhado por “Lolo” Spencer. “Pareceu-nos errado ter uma actriz a fazer o papel de uma personagem com uma deficiência, no meio de um elenco com pessoas deficientes”, disse Alice Austen.

Divina comédia

Questionado sobre a razão da utilização de um registo cómico na abordagem de temas tão sensíveis quanto variados, presentes em Give me Liberty e o desconforto que isso pode criar ao espectador, Kirill Mikhanovsky diz que “não foi propriamente uma escolha, mas sim o reflexo de uma forma de ver o mundo”, que nasceu a partir do respeito.
“Falámos muito acerca deste assunto quando estávamos a desenvolver o guião”, acrescentou Alice Austen sobre o tema. “A partir dos pontos mais trágicos encontramos muitas vezes este tipo de comédia. Para nós foi muito importante não olhar para as personagens de um ponto de vista que nos faça ter pena delas, mas de uma maneira que nos ligue a elas”, explicou.
Um dos actores do centro de apoio a pessoas com deficiência, o Eisenhower Center, onde foram gravadas várias cenas de Give me Liberty, queria inclusivamente, conta Alice Austen, cantar de forma irónica, a música “If I only had a brain” do Feiticeiro de Oz. “Estamos a lidar com pessoas que têm a capacidade de se rir de si próprias.
“Na minha opinião, a única forma de lidar com a realidade e com os eventos trágicos das nossas vidas é através da comédia”, acrescentou Kirill Mikhanovsky. “É a única maneira de enfrentar o drama, de o confrontar e sobreviver. Isto pode soar estranho, mas vem do amor. Se amarmos e respeitarmos estas pessoas, o humor vai nascer a partir do amor e do respeito”.

Ficção-científica na RAEM?

Durante o processo de criação de Give me Liberty, Kirill Mikhanovsky e Alice Austen chegaram a concluir o argumento para um thriller de ficção-científica que acabaram por colocar de parte.
Agora, passados cinco anos, tanto o realizador como a argumentista querem retomar o projecto e equacionam mesmo gravar algumas partes em Macau.
“Eu e a Alice escrevemos um thriller de ficção científica que queremos retomar agora e, tantos anos depois, achamos que é um trabalho sofisticado, onde Macau se enquadra perfeitamente”, afirmou Kirill Mikhanovsky.
“Estivemos a ver Macau e achámos que partes deste novo projecto podem ser gravadas aqui. Talvez o festival queira de alguma forma fazer parte disso”, acrescentou Alice Austen. “Seria muito entusiasmante usar o tempo que estamos aqui para nos sentarmos e falarmos sobre esta possibilidade de colaboração. Por isso, quem sabe?”, acrescentou.

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