Fata_listas

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 1 Janeiro

Não faço lista de desejos. Tenho estranha relação com o dito, tal qual a metáfora. Se esta me leva a lugares, estabelecendo ligações, abrindo perspectivas, desdobrando possibilidades, mas no fingimento da transparência, de aproximação a um qualquer centro, uma verdade, nesse mesmo movimento me distrai. Há metafísica suficiente em não pensar em nada. No desejo não encontro degrau para chegar ao real, para transfigurar o volátil em palpável. Se mastigado com tempo e sentidos, o desejo desdobra-se fim em si mesmo e exige múltiplos cuidados e leituras. Portanto, faço listas dos afazeres que teimo em descumprir, mas não dos movediços desejos.
Estou certo que na contagem dos dias que agora recomeça entrarei nas areias movediças da criação partilhada com o André da Loba. A imagem que aqui se tatua pertence a um projecto de revisitação da tira desenhada, buscando nexos entre o desenho livre e o aforismo selvagem, uma gramática das formas em movimento, posta a palavra na cadeira do espectador a dizer por dizer.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 2 Janeiro

As fatais listas dos melhores do ano, aqui e ali, incluem o «Aaron Klein» e «Os grandes animais». Também está frio e até choveu. Não sei se há neve nas terras altas. Amigo [querido] tem a mania de ilustrar as conversas com livros, pelo que durante o fechamento me atirou habitante das listagens, «Chuva Miúda», de Luis Landero (ed. Porto Editora). Não será mau romance, com excelentes observações, frases de bom tom, fino recorte dos protagonistas e uma competente gestão dos tempos da narrativa. É uma história, que se pretende dura, ou melhor, céptica na visão da família que não saberemos nunca como ser nem deixar de ser. Uma história que talvez seja de consolação, como as que o narrador pensa durante os pensamentos da Aurora, personagem que começa por parecer viver apenas nas palavras dos outros: «que haverá na narração que tanto nos consola das culpas e dos erros e das muitas penas que os anos vão deixando à sua passagem?» Cansou-me sobremaneira a omnipresença do narrador, inescapável, por certo, mas que não precisava tornar-se ferramenta voraz, eléctrica chave que abre tudo para pôr explicações e conclusões nas fendas. O mesmo querido [amigo] pôs-me nas «Viagens», de Olga Tokarczuk (ed. Cavalo de Ferro), que me tinha escapado por entre confusões, mediatismos e certa alergia ao corrente. Também por aqui se dá basto consolo e histórias de ver ao espelho, com princípio meio e fim, não sei se por esta ordem. Para bem dos nossos pecados, acende pensamentos que brilham por muito, faz canções, dá início a outros tantos romances, recorta notícias da banalidade, faz dos pontos de interrogação mapa onde coloca corpos e tempo, não se cansa de fazer e refazer bibliotecas. Está também em várias fatalistas, de prémios até. Não me quero armar em canonista, que não tenho carta de pesados, mas interessa-me mais o que entrega labirinto na vez de porta. Por bem desenhada que esteja na parede.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 3 Janeiro

A vizinha gruta de Ali Babá recebeu umas velhas novidades e lá colhi, puxado pela capa com título desenhado tão viva e modernamente que parecia impresso ontem: «50 anos de poesia portuguesa: do simbolismo ao surrealismo», de um algo destratado João Gaspar Simões, e inserido na colecção/editora movimento que me desperta curiosidade a cumprir. Sem surpresa, encontro por aqui ideias, prenhes de dados e conhecimento, com que dialogar. No essencial, Gaspar Simões defende que o simbolismo teria marcado de modo indelével a produção poética nacional, atacando-o, mastigando-o, celebrando-o, reinventando-o, no balanço do a favor e do contra. Os poetas do surrealismo «iam direitos ao absoluto, resolviam de uma só vez o enigma da alquimia medieval. O poeta é por assim dizer o demiurgo que refaz dentro de si mesmo os segredos essenciais do universo.» Nesse pólo oposto do simbolismo, depois de sustentada digressão, por nomes, movimentos, publicações, temas (onde o amor figura com destaque), acaba o ensaísta por detectar convergência paradoxal. «Esteticamente, afinal, o século XX viveu, e continua a viver, pelo menos no domínio da poesia, das grandes descobertas dos poetas que no final do século XIX conferiram à criação poética prerrogativas de conhecimento absoluto.»

Sobra ainda da leitura uma lista de poetas que passaram entre os pingos da chuva radioactiva dos cânones, seja qualquer for a origem do dito, academia ou mediania. Será talvez triste para quem o não entenda, mas este jogo de escondidas torna-se, com o tempo, motivo de alegria para quem queira atrever-se. (Entrando nos alfarrabistas.) Eis um caso, distinto, por só agora deixar a obscuridade das gavetas. José Rui Teixeira, que já havia trabalhado como poucos a figura do morador da Horta Seca, Guilherme de Faria, tratou agora cuidado extremo o seu companheiro, António Hartwich Nunes, personagem a justificar curiosidades, não apenas pela ilustre filiação. «O Livro de Ónio» (ed. Cosmorama) reúne a poesia de alguém que a praticou toda a vida, como o desenho e a pintura, sem assumir as inerências da condição: «fui poeta sem querer e, sem querer, continuo e continuarei a sê-lo». Um mote essencial, não apenas na sua relação com o suicidado Guilherme, está no mote-enigma: «Sonhei um sonho tão velo,/ E foi pior para mim…/ Agora para esquecê-lo,/ Gasto a vida até ao fim.» Amor, Deus e uma solidão, que talvez só o humor alivie, traçam aqui singela paisagem de almas. «Só comigo fui;/ só eu sei quem sou./ Mas eu senti tudo,/ tudo me falou.// Tudo passa e move;/ tudo é já no fim./ Mas a morte é vida/ a chamar por mim.»

Não será a modéstia encantatória do Levi [Condinho] a afastá-lo das atenções merecidas. Valorizamos demais a presença no palco. E para vestir o fato do poeta há que caber nas várias peças do bem parecer, gravata de maldito incluída. Levi está bem na penumbra, praticando os malabarismos de uma arte poética que independe das leituras: «Perscrutar os veios da matéria/ seus nexos sons perfumes/ íntimas substâncias copuladas pela língua/ inventar o Verbo que invente a negação/ da profaneidade da palavra/ que autómatos nos move sobre escarpas.» A Húmus fez «Colheita serôdia» de inéditos e dispersos. (Poucos poetas se ficam hoje por uma casa, quase sempre para responder ao apelo magnético da amizade, nem tanto por razões programáticas. Não vem daí mal ao mundo. Na área da música, mais do que bandas de formação fixa, vemos projectos com irrequietos e permutáveis interpretes.)

Até ao começo do século, injustamente acusado de novo, o poeta continuou a cultivar como jardim este ao redor dos acordes, dos nadas, do pequeno e médio Deus, de leituras, das memórias, talvez da morte. E pássaros, corvos e melros. E árvores, sobreiros e choupos. «Ciclo fechado em perpétuo devir/ vertigem medida em tempos certeiros geometria perfumada».

6 Jan 2021

A poesia como refúgio

Trump não é louco, está a experimentar até onde vai a tolerância dos americanos no jogo entre a verdade e a mentira, se ele se der como aval. Sente-se como um ratazana esperta a manipular uma enorme manada de elefantes que se porta como galinholas, enquanto ele faz manobras à esquerda e à direita.

Ou Trump é louco e está convencido de que é Moisés a separar as águas do Mar Vermelho.
As duas hipóteses são plausíveis.

A terceira hipótese é eu ser Crazy Horse e estar à beira da trombose, na véspera de Little Bighorn.
Por via das dúvidas, para me desviar da alucinação, abro A Bola, e leio o que pensa sobre Mohamed Salah, o goleador do Liverpool, a antiga estrela egípcia Mido:

«Salah cometeu o erro de marcar presença do casamento do irmão poucos dias antes do jogo da selecção do Egipto. Mostrou uma enorme negligência na prevenção contra o coronavírus e o resultado é que ficou infetado. A selecção também perdeu um jogador importante para um jogo decisivo e ainda arriscou a saúde dos companheiros de selecção. Ele não deveria ter estado no casamento e ainda por cima com 800 pessoas, das quais metade abraçaram e beijaram Salah. Outra crítica é o silêncio dos responsáveis sobre a atitude do jogador e que confirma que o jogador é maior do que a selecção…», afirmou Mido, em declarações à Imprensa local .

E apanho-me a pensar que o “mais velho” tem toda a razão e que esta cedência à vaidade deveria ser recompensada com o despedimento sumário. Salah devia a partir de agora ser retido na necrópole de Saqqara como manicurista e pedicurista de múmias.

Nas eleições do Brasil, Bolsonaro perdeu e o PT também, mas o Ciro Gomes não ganhou um palmo: uma honestidade comprovada em várias décadas de vida pública não faz vibrar um sino. Coitado, é dos poucos que estuda os dossiers e nunca fala barato, mas como ninguém lhe denuncia uma falcatrua parece um morrão de cinza num cinzeiro, i.é. um marrão pouco credível.

Esqueçamos a política do ventre. Consolemo-nos com quatro poemas de Louise Gluck, transcriados para ir fazendo a mão à sua voz.

O ESPELHO : Olho-te reflectido no espelho/ e interrogo-me como será ser-se tão bonito/ e por que ao invés de amares a ti mesmo/ te cortas, te barbeias como se fosses cego?/ E acho que me deixas observar-te/ para que te possas voltar contra ti mesmo/ com redobrada violência;/ precisas de me mostrar como arranhas/ a carne com desdém e sem hesitação,/ até te veja corretamente, como um homem ferido/ e não o mero reflexo que me engancha no desejo.

POEMA DE AMOR: A dor sempre serve para alguma coisa./ A tua mãe faz malha./ Despacha cachecóis em todos as gamas de vermelho./ Eram para o Natal, e mantinham-te quente/ enquanto ela casava, uma vez e outra, levando-te/ consigo. Como poderia ter dado certo/ se ela escondeu o seu coração de viúva todos esses anos,/ na ideia de que os mortos pudessem regressar?/ Não admira que sejas como és,/ a tua cagufa ao sangue, as tuas mulheres/ como tijolos um após o outro na parede fria.

F O R M A G G I O: O mundo/ estava inteiro porque/ se destroçou. Quando se destroçou
soubémos o que era.// Nunca se curou./ Mas nas fissuras profundas apareceram mundos mais pequenos:/ foi uma coisa boa que os seres humanos engendraram;/ pois os seres humanos sabem o que precisam/ melhor do que qualquer deus.// Na Huron Avenue multiplicaram-se/ num fartote de tendas; converteram-se/ em Fishmonger, Formaggio. Foram/ o que foram, venderam o que venderam,/ a sua função era semelhante: eram
imagens de segurança. Como/ um lugar de descanso. Os vendedores/ agiam como se fossem paizinhos; parecia/ terem sempre ali vivido. Em geral,/ mais gentis do que os próprios pais.// Afluentes/ que desembocavam num grande rio: eu tinha/ muitas vidas. Naquele mundo provisório/ abancava onde ficava a fruta,/ caixas de cerejas, clementinas,/ sob as flores de Hallie.// Vidas não me faltaram. Desembocavam/ num rio, o rio/ entroncava um grande oceano. Se o eu/ se torna invisível, é porque desapareceu?// Fui prosperando. Não vivia completamente só, sozinho/ mas não completamente – se estranhos/ me rodeavam.// Esse é o mar:/ existimos em segredo.// Tive vidas antes desta, hastes/ de um ramo de flores: convertidos/ numa única coisa, sujeita a um laço no centro,/ um laço visível sob a mão. Sobre a mão,/ o futuro ramificando-se, hastes/ que rematam em flores./ E o punho cerrado/ que seria o eu no presente.

O JARDIM: Não aguentaria fazê-lo novamente,/ dificilmente suportaria vê-lo;// no jardim, sob a chuva miudinha/ o jovem casal planta/ uma fileira de ervilhas, como se/ ninguém nunca tivesse feito aquilo antes:/ os grandes problemas todos ainda/ atirados para trás das costas.// Reveem-se até esse momento imaculados / de qualquer sujeira, como começar/ despidos de perspectivas/ se nas colinas ao fundo, verdes e pálidas,/ alastra a nuvem de pólen?// Ela deseja deter aquele instante;/ ele prefere chegar até o fim,/ permanecer nas coisas.// É ela quem ao acariciar-lhe uma face/ abre uma trégua, os dedos engelhados pela chuva primaveril;/ enquanto pela relva macia/ reponta o vermelho açafrão.// Mesmo aí, então no princípio do amor,/ a sua mão ao afastar-se da face/ dá uma impressão de despedida,// e eles julgam-se/ capazes de ignorar/ esta tristeza.

Nem tudo está perdido, mas temos um minuto para achar a chave e a escrivaninha tem oitenta gavetas.

18 Nov 2020

Perfumar a glande

Espanta nos diários de 1906 de Fernando Pessoa a sua confessada decisão de ler dois livros por dia, um de filosofia e outro de literatura, de preferência poesia. E esse ritmo só foi baixando porque a partir de 1913 se imiscui a decisão de aprofundar uma voz poética, ainda por cima em arquipélago e com uma clara propensão para em suaves declinações ensaísticas refinar uma espécie de mathesis universalis.

Ou seja, Pessoa desatou a escrever ele mesmo um livro por semana. Exagero e caricaturo, mas releve-se a sua enorme capacidade de trabalho.

Mas não é único, apesar de nos ser difícil acreditar (e, em Portugal, no século anterior basta pensar em Camilo). Depois de um delicioso livro de entrevistas e de um muito parcial mas cativante Diccionario De Literatura, pego numa biografia sobre o espanhol Francisco Umbral (1932-2007), outro omnívaro que escreveu cento e tal livros e muitos milhares de artigos e crónicas (só no El Mundo manteve uma crónica diária durante 40 anos). E conta Anna Caballé, a biógrafa-não-autorizada que fez em «Francisco Umbral/ El frio de una vida» o livro definitivo sobre o escritor de Diario de un escritor burguês:

«Consideremos qualquer semana de sua vida. Qualquer semana de 1977, por exemplo, um de seus anos mais fecundos. Encontramos Umbral publicando um artigo diário (secção “Diario de un snob”) no El País e outro artigo, também de jornal, para a agência Colpisa, que o distribuia entre os jornais associados. Tem um artigo semanal na Interviú (algumas “Horteras Cartas” em que ensaia várias fórmulas coloquiais) e outro, mais exigente, na Destino, semanal. A essas colaborações regulares deve ser adicionado um artigo mensal com conteúdo erótico para a revista Siesta e uma história erótica bimestral que aparece na mesma publicação.

Juntem-se a estas outras colaborações que ele espontaneamente concede em Diario 16, em Triunfo, em Hermano Lobo. Não levo em consideração os textos aleatórios que surgiram no decorrer da sua vida profissional, mas chamo à lista os livros que publicou naquele ano: La prosa y otra cosa, Diccionario para pobres, La noche que llegué al Café Gijón, Las jais, Teoría de Lola y otros cuentos e Tratado de perversiones.

Seis livros – quatro deles de criação. Ou seja, um livro a cada dois meses. E não se pode dizer que seja fruto de acaso editorial, já que em 1976 publicou onze livros, quase um por mês. Com razão, o hispânico Jean-Pierre Castellani, baseando-se apenas na intensidade de suas colaborações jornalísticas, considera-o um fenómeno único na Espanha e “talvez na imprensa europeia contemporânea”».

O que assombra, com flutuações naturais, é a qualidade média de cada livro, invejável. Cada pico em Umbral corresponderia ao melhor do dos seus colegas escritores, só que Umbral tem uma dúzia de picos. De entre os cinco que li, talvez escolhesse Mortal e Rosa (traduzido, e bem, em português por Carlos Vaz Marques) o livro que escreveu depois da morte do filho, de sete anos, com leucemia, ou El hijo de Greta Garbo. Noutra ocasião farei uma descida à “morfologia do estilo” de Umbral que foi um defensor e um dos mais bem sucedidos cultores do “romance lírico”. Aqui fica um parágrafo, breve, de Mortal e Rosa: «Outubro.

Aperfeiçoa-se a rotundidade do mundo. As árvores são violinos cuja música é o azul do céu. O bosque brinca com o meu filho como um tigre verde com um pintassilgo. Somos o âmago de uma lentíssima maçã caindo silenciosamente no tempo».

Sirva agora esta nota só para meter alguma humildade no toutiço de alguns jovens escritores que conheço, tão vaidosos como ignorantes, tão convencidos como improdutivos.

Ontem fiz o download do livro póstumo que reuniu toda a sua poesia, um livro de 200 páginas. Não é o seu melhor mas tem coisas que me divertiram, como o ciclo de poemas em prosa erótica que dedicou à Letícia/Lutecia. Vê-se que lhe era fácil e como isso lhe menorizava os poemas, nem resistindo, por vezes, ao mau gosto; por outro lado, são divertidíssimos e a espontaneidade do seu jacto denota que aos setenta (morreu com setenta e cinco, suponho que gasto) mantinha ainda um ímpeto juvenil. Aqui traduzo um poema desse ciclo: EL PERFUME

«Há sexos de mulheres que perfumam a glande durante uma semana. Há mulheres que têm na geografia da vulva, nas gargantas da vagina, na caverna das secreções, uma infinidade de jardins subaquáticos, uma pluralidade de peixes que antes foram flores e sonham em se cristalizar, silenciosamente, no sal.
Há sexos que deixam um perfume a mancebia babilónica e a armazém portuário, e do mesmo modo que o poeta passou anos sem lavar a testa, pois ali fora beijado por outro poeta, pode-se passar dias sem lavar a glande para que não perca, no freio do prepúcio, a sua aura de mulheres e flores, o seu halo de mar e porto, que é como uma coroa olorosa, essa fragrância que hesita em adoptar uma forma única mas se vai assemelhando ao desenho balístico da glande.

A rigor, havia que descer-se à rua com o erecto membro ao léu, circuncidado como o azul no céu, ou uma proa, ou a pequena e vermelha agressão perfumada que distribui fitas aromáticas pela vizinhança, como quando passa o peixeiro. Disse que era preferível não lavar-se, nesses casos, mas a verdade é que há também a mulher indelével, a que perfuma e perfuma, e ao cabo de numerosas e meticulosas lavagens, depois de repetidas esfregas e enxaguamentos, a coisa continua a cheirar ao mesmo, com aquela fidelidade dos cheiros, que é a única fidelidade no amor. Não há maneira.”

28 Out 2020

Encruzilhadas

Depois dos Mestres Cantores eis os Mestres Decapitadores: é uma fanfarra enleada em bosta de cão, na farsa deste século que tropeça nos próprios pés. O pai de uma aluna e um militante islamita radical emitiram uma “fatwa” contra Samuel Paty, o professor decapitado na sexta-feira na região de Paris. É um ver se te avias de fátuas e peregrinas arrogâncias, depois dos 15 segundos de Fama do Andy Warhol temos os 15 segundos de Empolamento do Poder Divino.

Dizem os testemunhos, Samuel tratou com deferência os seus alunos islâmicos e antes de mostrar as caricaturas de Maomé nas aulas explicou-lhes porque teria de as mostrar aos outros colegas, não os desrespeitou nem o seu gesto tinha um carácter denegridor.

Em 2006, por ingenuidade minha, na universidade em Maputo, querendo mostrar como as nossas escolhas quanto à identidade sexual que assumimos têm o seu quê de construção social, passei nas aulas o filme Crying Games/Jogo de Lágrimas, de Neil Jordan, um dos mais belos filmes que conheço sobre o amor e os conflitos que este pode gerar se toma uma feição desviante em relação à intratabilidade da educação que nos condicionou.

Fui depois chamado à direcção do departamento: para um grupo de estudantes islâmicos eu havia “pecado” ao mostrar um transsexual nas aulas e ao falar desassombradamente de sexo. Chocou-me não terem sido frontais, o espírito de baixa bufaria entranhado. Foram umas semanas de tensão no relacionamento com os alunos.

Chegado de outras coordenadas não imaginava que o filme chocasse jovens universitários e supus que as virtualidades do debate que o filme suscitaria seriam vantagens sobre qualquer melindre.

Tive sorte, o então coordenador do curso meteu-se do meu lado e “decapitou” logo a avançada moralista; estou incerto sobre se o resultado seria o mesmo agora – e este retrocesso é uma realidade descoroçoadora.
Hoje, na fronteira norte, supostamente a 3000 km de uma ilusória geografia, decapitam-se pessoas por dá aquela palha.

Esta semana, a minha amiga Aliete Matias, postou no fb esta fotografia de Jessica Antola, de uma Mãe Mursi (uma etnia da Etiópia) armada, e comentou “não encontro palavras para esta foto”. Também não encontro, mas aquela arma é para defender o filho nos portais do inferno com que aquela mulher se depara regularmente.

Agora que um filho da mãe de um burguês – a ouvir no leitor de cds de um Peugeot da última gama o mais recente disco da Fatoumata Diawara, baixado do Youtube – enquanto aguarda nos semáforos, decida lançar uma fatwa sobre um professor (tudo o indica) que não quis provocar, de modos delicados, num país que não reconhece a alegação da apostasia, é demasiado cínico e macabro.

“Um dos nossos compatriotas foi morto hoje porque ensinou a liberdade para acreditar e não acreditar”, acrescentou Emmanuel Macron. Como deve proceder a democracia diante de quem enfia o garfo no coração dos seus direitos mais profundos e o revolve? Como reagir face aos que usam a liberdade para negar a dos outros e não sabem viver senão em suposto apostolado?

Há um aforismo do poeta Wallace Stevens que talvez aqui caiba: «A intolerância a respeito da religião dos demais é tolerância comparada com a intolerância a respeito da arte dos demais». Ou seja: talvez não seja só a nossa liberdade que está em jogo como também a nossa arte, vista à luz dos radicais islâmicos. Lembremo-nos das estátuas dos Budas em Gandara.

Se o apelo da preservação da liberdade não for suficiente como reacção civilizacional que ao menos o da defesa da arte seja uma razão suficiente para a urgência de pensar e articular uma resposta para estes problemas, sem esquecer que é no vazio do pensamento que se localiza o ninho da víbora.
Sem isso, só se seguirá aquilo que Houellebecq previu: a obediência.

E já que chamei o poeta à liça aproveito para apresentar uma primeira selecção dos 289 adágios ou provérbios que o Wallace Stevens deixou e a que os organizadores, num livrinho póstumo, deram o nome de Adagia.  Esta é uma primeira selecção de entre os cento e cinco primeiros. A tradução é minha:

Cada era é uma casinha no pombal.
Dos vermes, faz o poeta trajes de seda.
Os poetas de mérito são tão aborrecidos como a gente de mérito.
O pensamento é uma infecção. No caso de certos pensamentos converte-se em epidemia.
Parece o poeta outorgar a sua identidade ao leitor. É mais fácil reconhecer isto quando se ouve música. Refiro-me ao seguinte: à transferência.
A imaginação deseja que a consintam.
A coisas vistas são as coisas como são vistas.
Tem em conta: I. Que o mundo inteiro é matéria para a poesia; II. Que não existe nenhuma matéria especificamente poética.
O poeta é o intermediário entre as pessoas e o mundo em que vivem, e também entre as pessoas entre si; mas não entre a gente e algum outro mundo.
A poesia não é o mesmo que a imaginação tomada isoladamente. As coisas são em virtude de interrelações ou de interacções.
A poesia deve ser algo mais que uma concepção da mente. Deve ser uma revelação da natureza. As concepções são artificiais. As percepções são essenciais.
Ler um poema deveria ser uma experiência, como quando se experimenta um acto.
A morte de um deus é a morte de todos.
Em presença da facticidade extraordinária, a consciência toma o lugar da imaginação.
Tudo tende a tornar-se real; o todo move-se na direcção da realidade.
(à suivre)

22 Out 2020

A fé subtil das imagens e a miragem da poesia

1

Antes do ovo apenas se poderia supor o impensável. O impensado. Qualquer coisa como a outra varanda da casa, de onde apenas os deuses podiam gozar das vistas. Foi o que abruptamente se me tornou possível no dia em que a fotografia foi inventada. De qualquer modo, antes de tecnicamente ter sido inventada, já a fotografia era essa vista inacessível. Essa suspensão da finitude. Mas não seria visível, já que se limitava a um desejo. Foi por isso que se mumificou no Egipto antigo, foi por isso que se deram 930 anos de vida a Adão, foi por isso que se idealizaram mitos como o de Prometeu. No dia em que avancei para a varanda proibida, pude desfrutar, através de traços porosos, é certo, daquilo que sempre me fora antes vedado: a magia tornada em matéria concreta.

Na nossa era, como sabemos, a captação fotográfica deixou de ser um instantâneo ritual tomado ao tempo. Contudo, na época analógica, a fotografia foi percebida como um meta-instante e havia nele ainda uma aura de sagrado que segmentava a diacronia. As imagens saltavam para os altares das salas de estar e dos quartos e compunham santuários com molduras a armar ao barroco. Via-se na fotografia uma subtil promessa de eternidade. Uma magia que incitava à fé.

Assim se evocavam os entes queridos já desaparecidos ou distantes. Assim se davam a ver as barbas dos grandes ideólogos de oitocentos a pairar nas cornijas de mármore ou nas publicações em papel. Assim se revia o furor das cidades e das máquinas modernas que assaltavam o animal que nós somos. A fotografia era um fado vadio com honras de santidade e a cultural material devolveu-lhe esse eco espiritual. A fotografia cresceu como uma arma de fé que celebrava os heróis, quer os domésticos, quer os que se substituíam aos velhos deuses. A fotografia era, afinal, o que já existiria antes do ovo.

Hoje a captura é ininterrupta e isso banalizou o tempo. Quer o da tomada, quer o da interpretação. Tudo se nivelou e esvaiu. Cada momento apaga o momento imediatamente anterior, através duma actualização galopante que faz com que a fotografia já não nos maravilhe, mas canse. Esse cansaço é simultaneamente o colapso de um dado tempo existencial e a aparição, a substituí-lo, de espaços desintegrados e sem contexto algum, o que, ao fim e ao cabo, é o território mais avesso à existência de heróis e aos alimentos da fé, seja ela qual for.

2

Façamos um breve parêntesis. Há vinte milhões de anos, as zonas mais altas de Lisboa eram um fundo marinho cheio de recifes. Uma paisagem deste teor não poderia ser observada de lado nenhum. Fosse como fosse, não seriam os humanos a tentar espreitar e fotografar através das águas, pois a espécie nem há meio milhão de anos surgiu. Segundo o paleontólogo Benjamin Burger da Universidade do Utah*, a média de duração de uma espécie ronda o milhão e setecentos mil anos, o que quer dizer que os humanos ainda têm três quartos do seu tempo pela frente, a não ser que o aquecimento nesta parte da galáxia os aniquile um pouco antes.

Estas considerações fazem-me lembrar uma discussão que mantive com um amigo comunista, há apenas um quarto de século. Argumentava ele que a nossa espécie ainda é jovem, razão pela qual a caminhada para o paraíso se torna inevitável no planeta. Mais milhão menos milhão de anos, tanto fazia, pois os verdadeiros heróis seriam os humanos no seu todo, concebidos à imagem de (um qualquer) deus. É o que se chama uma fé delirante.

Se eu fosse um tribuno a quem coubesse julgar a fé dos humanos, concluiria que ela tanto pode ser instrumental, se for levada a ombros por imagens fortes, sejam as que respiram em vitrais de uma catedral, sejam as da analogia fotográfica, como pode ser delirante, se for capaz de suprimir tudo à sua volta, à moda dos eucaliptos, com excepção para o pobre mortal que a sonha e pratica.

3

Benedetto Croce, no seu ‘Breviário de Estética’, escrito no ano de 1912, afirmou que a expressão poética contém em si um conhecimento de fundo que resulta do facto de a poesia se basear num princípio de universalidade e não no sentimento imediato, inevitavelmente preso a antinomias como a que, por exemplo, opõe o bem e o mal. É por isso que a poesia se elevaria por cima dessas contradições, posicionando-se para além dos conflitos e das realidades finitas. De qualquer modo, seria sempre possível descobrir nessa harmonia as marcas indeléveis do conflito e da dor que se imagina terem sido suprimidos.

A posição de Croce é de uma irrealidade bela. Por um lado, a elevação da poesia que defende baseia-se claramente numa fé que não careceria de imagens exteriores que a legitimassem e, por outro lado, esse arrojo não suprimiria o que nele não coubesse, o que lhe retiraria o epíteto de delirante (e de intolerante). Croce situa a poesia no impensado sem com isso nos desarmar.

Para Croce, apenas no plano da poesia o fundo marinho dos recifes onde viria a construir-se Lisboa e a aura fotográfica de retratos como o do meu bisavô materno permaneceriam em estado sólido e diante dos nossos olhos. Justamente por estarem fora do tempo e do espaço e, portanto, sem qualquer relação com a verdade, com o bem e o mal e com a própria duração da espécie humana. Só a miragem da poesia nos permitiria compreender que a fé se pudesse confundir com um gafanhoto antes de dar o seu grande salto. Fosse na direcção do início ou das pragas do fim da história; fosse sobretudo na direcção do impensado, esse território ideal ainda e sempre por concretizar. São estas irrealidades que me dão ânimo em tempo de pandemia.

*Sobre o paleontólogo Benjamin Burger, da Universidade do Utah: Vaidyanathan, G. E Viveram… [Em linha]. Público. 01/06/2014. Disponível em https://www.publico.pt/2014/06/01/ciencia/noticia/e-viveram-e-viveram-e-viveram-1634975 [Consult. 2 Julho de 2020].

16 Jul 2020

Livros | Antologia de poemas “Rio das Pérolas” apresentada hoje na Casa de Vidro 

São 24 autores a escreverem sobre a beleza e a singularidade do Delta do Rio das Pérolas. O coordenador da obra, e também poeta, António MR Martins partiu dos contactos já feitos aquando da sua participação no festival literário Rota das Letras e desenvolveu uma antologia poética que se insere no programa oficial das comemorações do 10 de Junho

 

A imagem da capa é de Erik Fok, os autores são de Macau, por cá passaram ou por cá viveram e alguns ainda vivem. O pequeno território à beira do Delta do Rio das Pérolas plantado é o elo de ligação dos 24 poetas que se dedicaram a escrever sobre o território chinês onde também se fala português, inglês e tantas outras línguas e onde várias culturas se reúnem.

“Rio das Pérolas”, com coordenação do poeta português António MR Martins e edição da Ipsis Verbis, é uma antologia de poesia apresentada hoje na Casa de Vidro do Tap Seac e que se insere nas comemorações oficiais do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.

António MR Martins, autor de cinco poemas que compõem esta obra, fala ao HM de um livro que “ficou bonito” e que começou a ser pensado depois da sua participação no festival literário Rota das Letras, em 2016. “Comecei a consultar pessoas e houve adesão. A maior parte das pessoas começaram a apresentar os seus trabalhos, consoante aquilo que fui pedindo. Entretanto, deu-se a covid-19 e atrasou um pouco tudo.”

Neste livro “que é até acima da média em termos poéticos”, participam autores como Carlos Morais José, também director do HM, Ana Cristina Alves, António Graça de Abreu, Fernanda Dias e Fernando Sales Lopes, entre outros. Há também autores brasileiros como Natalia Borges Polesso ou Sellma Luanny, bem como autores de outros países de língua portuguesa, como é o caso de Deusa D’África ou Hirondia Joshua. A ideia, desde o início, era “escrever sobre Macau”. “O que está no livro é Macau, ou é algo sentido em Macau. E mesmo que não seja sobre Macau, foi aqui escrito.”

Era também fundamental que o livro fosse escrito em português. “Há autores que estiveram cá 30 anos, antes da transferência, há autores que estiveram cá na altura da passagem, que estiveram cá a relatar esses factos para a imprensa e para a televisão. Autores que estiveram também na rádio. Há a Macau descrita por pessoas que estiveram cá nos anos 80, anos 90 e a história dos autores de hoje. Toda essa panóplia de conhecimentos tem interesse para as pessoas que vão ler o livro”, apontou António MR Martins.

O “Rio das Pérolas” contém, portanto, poemas de autores que “encontraram no mito, nas lendas, situações para protagonizarem a sua escrita poética”, como é o caso de António Graça de Abreu, tradutor de poesia chinesa e, ele próprio, poeta. “É muito interessante na mistura escrita”, apontou o coordenador do livro.

Depósito de memórias

António MR Martins assume não conseguir escolher um ou vários poemas preferidos desta obra, porque, desde o início que “nunca se colocou nessa posição”. “Os poemas eram enviados, lia o poema para ver se estava tudo em condições, falava com as pessoas se houvesse algum problema. Este livro ainda não o li como leitor”, acrescentou.

Na obra, o coordenador de “O Rio das Pérolas” fala de um “significado emblemático e um valor enorme”, por serem “águas que encerram sentidos a oriente e englobam inúmeras histórias de milhões de pessoas, entre o imaginário e a realidade, muitas vezes míticas”.

No prefácio, Ana Paula Dias, doutorada em Educação e Interculturalidade e com formação em Estudos Portugueses, escreveu que esta antologia está radicada “nas memórias individuais e colectivas de um património comum de vivências” e nela “emergem ecos do cruzamento civilizacional com que os poetas aqui representados, portugueses ou de expressão poética em língua portuguesa, coabitam no quotidiano de Macau”.

Depois de ter coordenado uma antologia de poemas traduzidos para a língua romena, e também outra colectânea de poemas, António MR Martins diz ter o sonho de publicar um segundo volume de “O Rio das Pérolas”. “Pode ser que um dia aconteça um sonho louco, com mais autores que tenham interagido com o território”, rematou.

24 Jun 2020

Um pesadelo com uma cor

 

O Outro

Um menino mexe na terra para ver se há um submarino para ali enterrado; alguém falou disso. Um submarino amarelo como na canção dos Beatles.

Começa a escavar e chama os seus amigos. Todos ajudam. E sim, a ponta amarela metálica aparece. Um submarino amarelo, diz Jonathan.

São quatro meninos amigos e escavam durante semanas um submarino amarelo gigante, setenta metros de comprimento. Decidem ir para lá viver, fogem da casa dos pais, roubam comida da aldeia e sobrevivem ali escondidos no submarino amarelo. Chamam muitos amigos e eles vêm.

Quando têm dezoito anos decidem sair para matar.

Já são muitos, uma tribo inteira. Começam a matar todos os pais que ficaram na aldeia. Os meninos do submarino amarelo cresceram.

 

Poemas do Oriente e do Ocidente

Kafka

1Kafka no oriente transforma
os caminhos vermelhos e sagrados
em assunto político. Tudo deve ser discutido,
até a linha recta.

2Uma cerimónia do chá,
só o último a beber a última gota
será salvo. Em todos os outros
jamais se poderá
eliminar 
a sede.
Mas aquele que ficou sem sede,
ficou
 também só, para sempre.
E para esse mal não há ainda
 cerimónia.

Mulheres, poder e pés no chão

Uma notícia: num certo país, muitas mulheres amamentam os seus bebés em público, em protesto contra uma lei que o proíbe.

1Helicóptero vigia mulher que amamenta ao ar livre.
Nenhuma lei dispara – mas a arma legal, sim.
Amamentam em protesto público,
mulheres zangadas com a lei.

2Estamos no mundo para obedecer ao justo, atirar pedra ao inaceitável,
tornar lúdica a perda de tempo, transformar lixo em jogo.
Mas no Estado forte que se instala aos poucos,
a banalidade não existe, e a força exige a mudança abrupta
da velha constituição.

3Antes da brutalidade inventam-se argumentos,
método antigo de novo colocado em circulação.
Democracia. Leis justas e direito aos pés na terra.
Mas de um lado do mundo, levantam-se à força homens do solo
para que estes não tenham apoio.
Sem lei, sem pés, sem chão: tudo é frágil,
capaz de num segundo desaparecer da paisagem.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

22 Mai 2020

Sara F. Costa, tradutora de “Poética Não Oficial – Poesia Chinesa Contemporânea”: “Há um trauma colectivo nestes poemas”

Depois de “Transfiguração da Fome”, Sara F. Costa decidiu embrenhar-se no mundo da tradução de poemas chineses escritos após um dos períodos mais conturbados da história da China. “Poética Não Oficial – Poesia Chinesa Contemporânea” traz uma selecção e tradução para português de 33 poemas escritos após a Revolução Cultural

 

Porquê a escolha de autores do período pós-Revolução Cultural?

Apesar de eu me ter guiado por um certo enquadramento tanto a nível temporal como conceptual, realço que se trata de uma selecção que tem muito de pessoal. Vão encontrar nomes sonantes como Bei Dao, Hai Zi, Gu Cheng, mas vão encontrar nomes que só se encontram deambulando de leitura em leitura pela cena literária dos hutongs em Pequim ou no bar da poeta Zhai Yongming em Chengdu, sem terem necessariamente publicado fora de revistas literárias independentes. O período da Revolução Cultural e o Pós-Revolução Cultural fascina-me particularmente quando falamos da poesia moderna porque é quando surgem movimentos como os “poetas obscuros” (朦胧诗⼈). É quando surgem as revistas não oficiais e os salões literários (沙⻰) que, no fundo, nunca deixaram de existir nos meandros citadinos da China. Acho que é, no seu conjunto, um trabalho que pode fornecer pistas para quem quiser aprofundar o seu conhecimento sobre poesia moderna chinesa.

Que China que existe nestes poemas?

Diria que há, sem dúvida, sintomas de um trauma colectivo nestes poemas. Há uma certa China desmistificada, um desalento face à privação de uma primordial mudança. De salientar que nem todos os poetas deste livro têm uma postura abertamente política. Alguns apenas quebram com determinadas barreiras estéticas e optam pelo recurso a uma linguagem mais vernacular. Na sequência dessas opções estéticas, acabamos por ter acesso a uma China moderna, simultaneamente intercultural e aculturada. Uma visão crítica face à sociedade de consumo e uma pertinente revisão do conceito de “sofisticação” que a sociedade chinesa adoptou (sobretudo em relação aos produtos estrangeiros).

Qual o impacto que a Revolução Cultural terá tido nestes autores? É possível estabelecer alguma comparação com a poesia que se fazia antes desse período da história chinesa?

Após o fim da era imperial e o surgimento da República em 1911, Hu Shi e Cen Duxiu, proclamam a utilização de uma linguagem vernacular em detrimento do chinês clássico na produção literária, naquela que ficou conhecida como a Revolução Literária. É também nesta altura que surge o verso livre. Depois da institucionalização da poesia, a poética não oficial (⾮官⽅诗坛) opõe-se à poesia oficial ortodoxa e institucional e quebra com imposições estéticas e de conteúdo, libertando-se dos espartilhos ideológicos que a poesia oficial impunha. É por isso uma poesia com maior liberdade. Contudo, esta poesia não rompe completamente com a longa linhagem histórica que continua a influenciar muitos valores estilísticos e mesmo de conteúdo na produção poética actual. Há caractectísticas que já se encontravam até antes da época de ouro da poesia chinesa, (dinastias song e tang) como a importância do ritmo, a imagética sofisticada, muitos conceitos taoistas (nas metáforas sobre silêncio, vazio, contemplação estóica, a não-acção enquanto acção, etc), a relação alegórica entre o natural e o humano e as reflexões sobre destino e poder. É interessante verificar que a relação entre política e poesia na China é também uma conexão ancestral. Desde Qu Yuan passando pelo poeta imperador Li Yu e os inúmeros estadistas que eram poetas durante a Dinastia Tang como Yuan Zhen, quando o acesso ao poder era feito através dos conhecidos exames confucianos que avaliavam, entre outras coisas, a capacidade de escrever poesia.

O que é que a surpreendeu mais nestes poemas, no que diz respeito à mensagem que transmitem, à forma da escrita? Rompem com o que se vinha fazendo desde então na poesia chinesa?

Surpreendeu-me essa lealdade à tradição ancestral que referi na questão anterior, mas ainda me surpreendeu mais a forma como o melhor dessa tradição se combina com uma certa dose de ousadia. Há uma harmonia entre classe, subtileza e a função disruptiva do poema moderno. É uma poesia de pormenores, com muitos traços experimentais. É um bom exemplo da criatividade que se encontra nos artistas chineses contemporâneos em geral. Um facto curioso: apercebi-me que vários dos autores dos poemas que traduzi se suicidaram. É uma coincidência interessante. No caso de Gu Cheng, enforcou-se depois de ter assassinado a esposa. Apesar de saber perfeitamente disso, fico na mesma perplexa perante esta confirmação sobre a natureza da poesia: é um assunto sério, intenso e muitas vezes violento.

Que expectativas coloca em relação à resposta por parte do público português a este livro?

Quem já se interessa por poesia, terá certamente curiosidade em dar uma vista de olhos naquilo que se anda a fazer naquela parte do mundo nesta matéria. Digo “anda a fazer” porque este trabalho é sobre contemporaneidade. Há outras formas de se aceder aos clássicos – dinastias song e tang – mesmo em português, com boas traduções. Mas há muito pouco em português sobre poesia chinesa actual. Este livro pretende ser precisamente um ponto de partida, facultando pistas e deixando referências. Grande parte dos poemas seleccionados neste trabalho não se encontram traduzidos noutras línguas mais amplamente estudadas por cá como o inglês ou o francês e a única forma de aceder a esses poemas é indo directamente à fonte em mandarim. Nesse sentido, encontro assim duas vantagens para quem quer complementar e aprofundar o seu conhecimento da literatura chinesa: uma visão – na organização e selecção que fiz daquilo que considero representar o avant-garde e a poesia “não oficial” e, por outro, o acesso exclusivo a um trabalho que incorpora alguns incontornáveis poemas traduzidos para outras línguas mas que é composto, maioritariamente, por poemas que até agora só estariam acessíveis a quem lesse mandarim.

Quando se deu o seu primeiro contacto com esta literatura “underground” e porque lhe interessou esta cena literária?

Quando fui para Pequim no início de 2018, o editor João Artur Pinto, da Labirinto, já me tinha lançado o repto para traduzir poesia chinesa para português, mas eu estava ainda a tentar encontrar exactamente o que gostaria de traduzir. Depois de conhecer a organização com a qual vim a trabalhar, o colectivo artístico Spittoon, foi quando tive um contacto próximo com a vida dos artistas boémios dos hutongs de Pequim e quando veio o ímpeto de me desafiar mim própria para este projecto.

Depois de publicar “A Transfiguração da Fome”, como foi a transição para um trabalho de tradução deste nível?

Um escritor tem necessariamente que ler. Ler o máximo que puder. Muitas vezes, ler coisas que são muito diferentes daquilo que escreve. Traduzir é uma forma de leitura contemplativa. É uma forma de interpretar um poema e dar-lhe uma nova casa. Uma casa linguística. Sem dúvida que traduzir faz parte de um processo criativo que complementa a escrita. Este foi um projecto muito pessoal e fi-lo sobretudo para aprender com ele. Desde ler bastante, seleccionar, aprender a traduzir, aprofundar conhecimento linguístico, etc. Foi um acto de imensa aprendizagem e de auto-formação.

Esta obra estará disponível em Macau?

Sim! O editor já está a tratar de fazer com que alguns exemplares se encontrem à venda fisicamente em Macau. O livro pode sempre ser encomendado à editora que enviará para qualquer destino.

21 Mai 2020

Poéticas da pandemia

Naquela altura não carregava pressupostos consigo. Não conseguia partir para a acção, fosse ela qual fosse, porque tudo o que fizera até ali esgotara-se precisamente na acção. Via-se de tal modo sem pressupostos que nem lhe era possível calcular a felicidade que isso poderia constituir. Pressupor é receber o ânimo que nos chega de longe, vindo daquele patamar para que caminhamos mas que ainda não atingimos. Poderemos verbalizá-lo, transformá-lo em regras claras ou apenas sondá-lo tal como se auscultam os pássaros, quando, ao fim do dia, regressam às suas folhagens.

Quando existem pressupostos, o leme permite a navegação (pelo menos a navegação costeira, não tanto a navegação apaixonada). Sentir-se-ão dificuldades, é certo, por vezes serão tantas que os pressupostos se alteram e entra-se, sem dar por isso, numa nova atmosfera. Mas nessa altura não conseguia sondar um simples esboço de atmosfera. Fora mesmo apanhado de surpresa. Levantou a cabeça e tudo era, de facto, novo. Debruçou-se à janela e o silêncio que vinha das ruas ofuscava todo os bramidos, toda a habitual algaraviada.

Circulou mil vezes ao longo do corredor da casa e sentiu-se partido em dois. Por um lado, alimentava a certeza de que a História (com maiúscula) teria um contínuo mais ou menos escondido e que tudo o que lhe escapara havia, um dia, de ser restituído (como que por milagre). Tudo passaria, portanto. Por outro lado, sabia ridicularizar essas mistelas mentais e estava consciente de que a história (afinal ‘coisa’ minúscula) tinha desaparecido há muito e que não passava de uma invenção (recheada de doces para criar a ilusão de verossimilhança). Ao fim e ao cabo, não tinha pressupostos e isso assustava-o sem que de tal se apercebesse. Diante de si tinha apenas o longo corredor para poder contar os tacos e as irregularidades do soalho.

Caminhava assim assustado e percebia nesse sinal de susto permanente algo que teria que ver com a natureza mesma dos humanos. Como, afinal, estava certo! Para dissimular tantos medos acumulados, observava os gráficos da pandemia. Era o que fazia todos os dias de manhã.

Os gráficos eram concebidos de formas bastante diversas, é certo. Terá chegado a concluir que existe uma ‘retórica de gráficos’, do mesmo modo que uma breve frase poética pode ser transformada numa charada (ou um sortilégio) sem fim. O que na poética é o prazer da hemorragia significativa (esse apogeu do prazer e da fruição dos materiais com que se escreve) não deveria ter correspondência neste tipo de gráficos, pensava. Até porque seria sua obrigação referenciar a realidade da infecção e não aceder a uma (qualquer secreta) ‘poiesis’. Por vezes, ao observar a ambiguidade dos quadros via-se a sorrir, não porque se iludisse com uma pretensa melhoria do estado de coisas da pandemia, mas porque descobria nesse jogo uma quase imparável tentação de trocar a imagem pela poética de todas as imagens. Era como se esses gráficos tudo fizessem para se sentirem também partidos em dois (ou em três, ou num número indefinido que os tornassem verdadeiramente inócuos).

Por vezes revia nos gráficos uma musicalidade redundante que ousava o ‘tudo ou nada’ para fazer sombra ao que é irrespondível. No meio de um território perigoso e desconhecido, talvez seja esse o modo de caminhar dos humanos: sempre aos círculos, evitando o face a face com um inimigo que, como se sabe, é invisível. Tal como Van Gogh visionou na sua ‘Ronda dos Prisioneiros’, pintada em 1890, ano em que uma pandemia de gripe, mais conhecida por “gripe asiática”, matou mais de milhão e meio de pessoas em todo o mundo.

16 Abr 2020

A Ásia na poesia de Gil de Carvalho

Eis a primeira novidade: a Ásia deste poeta não coincide, a não ser com a China, com os territórios típicos do Oriente português. Aqui não há então orientalismo (no sentido que lhe deu Edward Said em 1978) simplesmente porque não há Oriente, melhor dizendo, não há esse mecanismo de recondução do alheio ao próprio, essa necessidade de encaixar a Ásia num olhar europeu. Por outro lado, havendo intersecções de referências, estas dispensam qualquer formulação que implique identificação com a figura do “outro”: “Chegar à taiga. Mandala ou yantra?/ Panquecas muito secas fundindo/ O recheio no vermelho a rapariga/ Dum barco a neve montanhas fecha”. (Viagens, 2008, p. 273).

Seria assim penoso ou desadequado enquadrar o autor no Oriente quase sempre ideológico dos poetas portugueses do século XX, sempre entre império e exotismo. O que antes há no “orientalismo” de Carvalho é uma capacidade de notação, de registo – mesmo de investigação, o que se prende com a forte vertente “viajante” desta poesia – e que se tornou mais explícita a partir dos livros De Fevereiro a Fevereiro (1987) e Tarantela & Viagens (1998) –, exploradora de realidades culturais diversas, nunca endereçadas a partir dos binómios próprio/alheio ou eu/outro. Esta era porventura a dimensão que faltava à escrita poética portuguesa sobre o Oriente do século XX – exceptuando talvez Ruy Cinatti ou certos momentos de Couto Viana, muito ligados no entanto à ideia de império – e retomando virtualidades do nosso orientalismo “prático” quinhentista, de igual modo agindo no terreno. Quanto a mim, são precisamente certas dimensões da ligação histórico-cultural de Portugal à Ásia que são indirectamente retomadas na poesia de Gil de Carvalho, obviamente dispensando o poeta qualquer tipo de inscrição explícita nessa herança, e tendo em conta que estas não esgotam de modo nenhum a compreensão da presença da Ásia nesta poesia, ajudando contudo a explicar o uso de um certo tipo de olhar.

Numa cultura de prática do Oriente, foram as práticas humanas de campo, a exploração, a conquista, o comércio e a praxis de escrita (literária ou não), que se substituíram a um inexistente ou incipiente orientalismo cientifico, que iria depois ser criado por outras nações, tantas vezes com o material coligido por portugueses. De certa forma, e como se torna óbvio no século XIX e XX, em Camilo Pessanha ou Venceslau de Morais, a literatura fez as vezes de um inexistente orientalismo científico, assumindo-se como um conhecimento poético do Oriente, (como alguém disse) uma ciência de ver, tornando-se o veículo de uma continuada presença que sobreviveu à precariedade de um império asiático. E assim, dispensando todos os modelos culturais pré-estabelecidos de falar no Oriente por portugueses, a poesia de Gil de Carvalho é uma nova ciência de ver a realidade asiática, simplesmente por desejar conhecer, por notar, registar, alinhavá-la nas rugosidades da sua textualidade.

Com Carvalho são as viagens – título escolhido para a sua obra coligida – que dão, não a displicência sentimental do olhar do viajante, mas a sensação de percorrer realidades nunca lineares, nunca facilmente descritíveis, mas em tempos e espaços nos quais convivem o arcaico com o coevo, o urbano com o rural: “Por cima da estepe a última/ Cidade. Pacientes artesãos/ Em trocas eternas. O fumo/ Das centrais, aberto./ E a proverbial fidelidade/ Da mulher mongol. (Viagens, p.177) A noção de viagem parece-me ser, com efeito, uma chave para a compreensão da sua obra, em primeiro lugar como indicador, não só da constante mudança de cenário, mas da própria descontinuidade das coisas, indo ao encontro de uma horizontalidade geográfica de dimensão quase planetária. Em segundo lugar, aponta também para uma verticalidade, no sentido em que, quer a Mongólia quer a serra algarvia de que também fala a certo ponto são geografias complexas com camadas significantes, imagens do mundo em hiatos, em socalcos, de que a sua verbalização adopta a natureza. E não há aqui a imposição de uma subjectividade marcada que dê um sentido a esta errância, unindo os seus espaços; há antes um sujeito em viagem que é constituído pela descontinuidade do que vê, mais do que uma entidade sedeada no centro de algo, como neste encontro com a artesã manchu: “(…) Qual seria o rosto entregue/ Por ambos neste pagamento? Ancestral/Por certo./ Vermo-nos em vidros, manchus: séculos,/ Milénios passados após os Estreitos”. (Viagens, p.179)

8 Abr 2020

Poemas do Oriente

 

O Outro

O direito, o esquerdo.
Leis, aquilo que está ao lado direito do homem,
e a possibilidade da eventual
bondade.
O esquerdo, o diabo.
Mas há um terceiro lado
que mistura
tudo.

Observação

Não tocar nos acontecimentos, ouvi-los.
Vida própria como um objecto 
que não pode ser tocado, 
destino que pede silêncio,
cumprimento delicado da cabeça.
Ou vida como matéria de artesanato,
as tuas mãos determinam a forma final
de cada dia.
Conflito ou negociação.
No calor, água; no frio, fogueira.
O carteiro não pára,
o homem nunca está contente.

Aquilo que não ocupa espaço

O mais forte pode ser vencido, 
o mais inteligente e rápido também, 
o mais rico pode ter menos uma moeda 
        do que um forasteiro, 
mas aquilo que não ocupa espaço, 
não fala, não tem expectativas,
não tem também rival.

Recordando dias de agosto em Kyoto

1Kyoto, em agosto.
Exausto, pede para descansar.
Se parares de avançar, morres,
se continuares a avançar, morres.
O que fazer, então? Pergunta.
Salta ou escavar.
Não avançar e não deixar de avançar.
Como de saltar te cansas, acabarás a escavar.
Não avanço, não deixo de avançar.

2Ele não quer morrer.
Em pleno agosto, quarenta graus;
com as mãos escava
à sombra de uma árvore.
Acabará no inverno
como se o frio fosse um local,
um sítio a que se chega
escavando,
com a paciência certa.

3Uma árvore que dá tempo 
como outras dão cerejeiras.
Dia de sol tremendo. Calada e quieta
e até surda
ela acompanha 
e dela recebo o mínimo.
Sombra como outro fruto 
nesses dias de agosto 
em Kyoto –
o mais antigo e o que mais acalma.
Dá sombra, a árvore, comida
que ainda existe para o cansaço seguinte,
fruto que não consegues roubar
ou sequer mudar de posição.
Cerejeira e sombra, o local
da escrita nesses dias de agosto
em Kyoto.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

27 Mar 2020

Cinco da tarde

A Hora grave! E no entanto ainda pode acontecer uma súbita felicidade vinda de recôndito sentir quando estamos em pausa para um chá ou a escutar uma ovação ao nosso ser tão carente.

Pode ser que se fale na vida imediata, dos encontros, das promessas, e até pode ser que nada aconteça e estejamos normalmente trabalhando. Faenas pela tarde podem ser associadas a mortes violentas, mas a nível mais institucional foram as da alba as mais letais: todos os condenados estavam marcados para as madrugadas altas, talvez por que a noite alta é uma cortina de ferro que não deixa ver o fatídico instante, e, a noite é como a morte, negra, já a levantar a sua alvíssima cortina de luz na fronteira com o dia. Nesta interpretação rigorosa a «viagem» era um prenúncio de aurora.

Mas estranhos desígnios marcam o jovem Ano, e tudo vai dar ao mesmo discurso e situação: vírus, eutanásia, infectados, infectos, uma macabra manobra que suscita a nossa indagação mais profunda acerca do significado da vida. Andamos tão acorrentados nos dias que não se nos ocorre morrer, e se em outras versões estivermos agindo, é certo que o seu espectro também deverá andar longe, e nisto, sem que o saibamos, há manobras várias que nos indicam o provável destino breve. Por ora, Eros deve vencer Thánatos que não tarda aí a Primavera.

São sequenciais estas ilações vistas pela perspectiva dos vivos que assim se crêem por manobras várias, dos mortos adiados, e até dos mortos vivos, que não superam a dúvida de um querer que se deseja distante, e quando próximo, que não fale da sobra, resquício de vida consentida. É grave a matéria de facto, e mais gravosa parece soletrada ao som desta recente epidemia, ou pandemia, ou peste… seja lá o que for no domínio da expansão, nós os vivos, pensamos sempre que se vira para cada um. Os mais alienados acham que é obra postiça para derrubar impérios e verter cálices sujos de teorias conspiratórias, mas, sendo lá o que for, a consequência é o que nos deve importar. Aos quase mortos que desesperam por se fazer passar daqui para fora a solução pode estar por um fio, tão frágil quanto o sopro de entregar a alma (caso a alma esteja ainda anexada ao seu servidor e a não tenha vendido no altar dos benefícios).

É sempre prudente averiguar o grau de resistência e o que ela indica ao seu portador, não vá um milagre acontecer e nos vejamos privados de uma tão apoteótica visão, não é revertível o grau de derrocada que a falência orgânica contém, é certo, mas, nas sobras da vida há coisas que nem ela sabe contar. E soando o nosso último desejo, saibamos para tal que é ilusão, tal como a vida, não raro, também é sonho. Nesta desconfortável matéria de que a morte tão inefavelmente se reveste não há condições para abordagens fáceis nem os critérios que aqui são trazidos aumentam ou diminuem a sua força de ser. De certa maneira a nossa vida é uma escolha de morte – e quantos não pactuando, ainda endureceram posições sabendo do resultado delas? – Aqueles combatentes de causas…! E se mais não fosse, a volúpia dos desportos radicais que têm dentro o risco a todo o momento contornando esferas que pensamos quase impossíveis de lidar: são os riscos sadios dos condenados, uma estreita intimidade com a sua permanência, olhando o fim como um último grande desafio. Há ainda os que vão sem rede, preferindo jogarem-se com olímpica demonstração de lealdade.

Vivemos muito? Não. Vivemos mais. Muito é uma medida artificial para designar a vida, quando ela se solta não sabemos mesurá-la nem estamos interessados nisso, e contudo, os revezes dos viventes fazem muitas vezes com que se procure morrer pondo um fim a isto tudo nessa tão dura aprendizagem na carne. Os suicidas são quase sempre insuspeitos e nunca formalizam tal questão, dentro de si travam a batalha, e são gigantes. Talvez que a morte seja mesmo uma questão de pudor, como o sexo e os mistérios, e só em harmonia com o vínculo galáctico nos possamos aproximar dela com respeito. Ao longo da civilização os poetas falaram destas coisas com os utensílios que faltavam, acrescentaram na nossa humanidade uma maravilha alada que só eles podem e sabem fazê-lo, aprendemos a escutá-los como se despertassem em nós os vínculos universais oprimidos ainda pelo grau da sobrevivência, deram-nos algo que não podemos esquecer nesta marcha suicida para um naufrágio consumado. Nem sempre foram os mais audazes defensores de si mesmos, nem tão pouco os mais bem ajustados à vida, a morte aparecia-lhes quase sempre cedo demais… as suas competências, porém, não vacilariam no dom imenso de uma vocação de quase perfeitos intérpretes. Nunca a vida lhes terá provavelmente parecido um gozo, e à sua maneira estranha conseguiram uma dignidade que não vem nos mapas.

Gostaríamos de passar para o outro lado desta realidade tão severa e ameaçadora, mas, quando tudo se conjuga, o dever é estar atento. Até porque, já escolhemos a via, e deixamos para o imprevisto as suas faculdades, e também as nossas, ao lidar com ele. A finitude tem também um caminho longo, e esse caminhar é a nossa vida quotidiana, o tempo que passa, as cargas que vamos deixando, os prazeres que já não são prioritários, e essa melodia talvez nos toque melancolicamente ou com urgências entendíveis.

Pensamos que soçobramos mais rápido, e é verdade, pensamos que a voragem das coisas é mais forte que o nosso entendimento, e se houver destino, que é muito diferente de biografia, reconheço que não se soçobra sem uma consciente dignidade. A liberdade está mais ampliada nas vidas que não tiveram intenções de julgar, pois que julgar é matéria estreita e conduz a erros ilusórios: o caso humano é muito vasto e devemos entendê-lo até na sua máxima baixeza para não ficarmos presos a soluções personalizadas. Nada se sabe desta matéria que se julgue ser entendível por transferes de ideias onde estão projectados os filtros dos nossos valores.

Não é um tema, é uma escalada obsidional que transporta um coro. É tudo fantástico neste tempo, com aspectos de terror fantástico, pois que nem preparados estamos para o futuro, aquela marcha, que se entende melhor na voz de José Gomes Ferreira «viver sempre também cansa» que é diferente de viver para sempre, mas talvez por criogenia ou uma picada no dedo possamos ficar parados esperando um outro renascer. E também a frase de Pessoa «se te queres matar, por que não te queres matar?» que é diferente de: por que não te matas. Há esta subtil transferência de efeito que nos elucida mais que todos os discursos e promete alternativas tão vastas que ficamos esmagados no meio destas crenças várias.

3 Mar 2020

Nómadas

Paul Virilio, falecido há pouco tempo, estudioso da tecnologia, numa entrevista, falando do Crash da bolsa em 2008 e da crise do preço das casas:

“De onde parte a crise atual? Dos subprimes, das casas à venda a crédito em condições impossíveis. Do solo. As vítimas são algumas centenas de milhares de pessoas que perderam as suas casas. A noção de sedentariedade já está posta em causa com os imigrantes, deportados, refugiados, o deslocamento das empresas, etc.”

A ideia importante de que voltámos ao nomadismo. O preço exorbitante das casas, de repente obriga o homem a sair do seu sítio, a deslocar-se sem nada na mão, afastando-se do espaço onde estão os seus familiares mortos.

Ou então, mesmo mantendo a casa, aí está o humano a deslocar-se diariamente numa extensão significativa, ou ao longo de horas, para ir trabalhar. Duas/três horas por dia para ir trabalhar e voltar a casa. Um nomadismo diário, nomadismo soft, mas nomadismo.

Virilio continuava, nessa entrevista:

“O fenómeno vai acentuar-se. Até 2040, um milhão de pessoas serão forçadas a mudarem-se do lugar em que vivem. Eis aí as vítimas. Nós estamos na noção do stop/eject. Paramos e ejetamos.”

E a sensação de que não podes parar.

Se páras serás ejectado, atirado para fora: é preciso circular. Se páras serás projectado para fora do circuito, esse circuito ininterrupto que é mesmo isso: uma circunferência e não uma recta com horizonte. Uma circunferência não tem horizonte ou tem horizontes falsos.

Toda a imobilidade será castigada pelo progresso de dentes afiados, um mandamento contra o qual podia lutar Virilio.

Ao fim do dia regressas ao mesmo sítio. Um nomadismo circular, eis a falsa agitação de muitas cidades.

Poemas do Oriente: Estratégia

Negócios fechados em silencio e imobilidade.
Terrenos mudam de dono.
Objectos encontram novas mãos.
Quem quer não fala nem gesticula.
Ninguém fascina se perturbar a calma.
Quem quer, espera.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

21 Fev 2020

Sobre a beleza, dois clássicos

Dois Clássicos, um de cada lado

1Ovídio, poeta romano que nasceu em 43 ac. e terá morrido em 17/18 dc. Com Virgílio e Horácio, Ovídio forma o trio de luxo da poesia latina.

Escreveu a A arte da Amar, volumes sobre como conquistar uma mulher, como manter a amada, etc. Nada moralista, perverso até, o quanto baste.

Em Metamorfoses, uma das obras clássicas mais influentes, a que podemos aceder através da belíssima tradução de Paulo Farmhouse Alberto, na editora Cotovia, Ovídio, relatando a beleza de um rapaz, escreve:
“Nada do que eu via nele se poderia considerar humano.”

E, um pouco mais à frente, surgem estes versos impressionantes:
“Mal me apercebi disto, digo aos homens: Não sei que deus
habita neste corpo, mas neste corpo algum deus habita.”
O belo como aquilo que passado um limite se torna não-humano. Uma outra forma de crueldade, eu diria: a extrema beleza.

2Do outro lado Chuang Tse, um dos pensadores mais influentes do Oriente. São dele alguns dos textos fundadores do taoísmo. Escreve Chuang Tse em “Capítulos interiores”:

“Mao Chiang e Li Ching eram consideradas belas pelos homens. Mas se os peixes as vissem, mergulhariam até ao fundo do rio. Se os pássaros as vissem, voariam para longe. Se os veados as vissem, fugiriam para longe. Destes quatro quem reconhece a verdadeira beleza?”

A beleza como algo que pode ser analisado e compreendido por peixes, pássaros, veados e homens. Susto e paixão, consequências da beleza; assombro, desejo ou mera contemplação como acções ou reacções de humanos e animais, elementos bem terrenos.

Os homens na cidade, os veados na floresta, os peixes na água e os pássaros no ar. O que é belo não pertence ao céu ou ao divino, mas aos elementos bem concretos da natureza. E estes não estão de acordo entre si.

 

Poemas do Oriente: Susto

Não é fácil esquecer a liberdade.

Peixe desviado ontem do mar para a mesa. 

Move-se ainda.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

7 Fev 2020

Jorge Arrimar, escritor: “A poesia continua com Macau”

É de uma enorme janela virada para o rio Tejo que o autor Jorge Arrimar escreve os seus versos, contos e romances. Poeta de Macau, escritor angolano, são muitas as facetas literárias que assume no triângulo geográfico da sua vida. Actualmente, trabalha num romance histórico sobre Angola e publicou muito recentemente um livro de poesia, “Insomne”, onde Macau surge de forma ténue

 

Em Setembro esteve numa conferência na Universidade de Macau e falou do I Encontro de Poetas de Macau, nos anos 90, que não voltou a ter mais edições. Que razões aponta para a falta de iniciativa?

Nessa conferência tive a oportunidade de falar de um encontro que foi tão importante e único e que depois caiu num véu de silêncio sem se perceber porquê. Do que eu li não há qualquer referência a esse encontro, nunca há. As grandes referências que se fazem, com a Mónica Simas, Fernanda Gil Costa ou Ana Paula Laborinho, entre outros estudiosos, o próprio Seabra Pereira, todos esses fazem uma referência simpática sobre o resultado desse encontro que foi a edição da “Antologia dos Poetas de Macau”. Não se podem imputar culpas. Posteriormente, foram feitas algumas publicações, como a “Antologia dos Poetas de Macau”, que é um reflexo desse ambiente e desse espírito novo que aparece com o encontro. Entretanto dá-se a transição e creio que muitas pessoas do meio da língua portuguesa saíram de Macau, e creio que se criou alguma instabilidade com a transição. Houve muita gente que se sentiu intimidada pela grande mudança que se avizinhava, e outros tinham de sair porque iria haver uma mudança de Administração. Houve muitos motivos para que não se tenha criado de novo esse espírito de forma a haver um encontro similar. Mas criaram-se outros de acordo com as novas realidades.

Publicou recentemente “Insomne – Poema em Dez Actos”. Macau surge neste livro?

É um livro de carácter geral, mais de emoções com uma carga emocional muito forte. O próprio título acho que o diz, tem a ver com muitas situações da vida que nos marcam, muitas vezes de forma negativa, como a doença, a morte ou o envelhecimento, tem muito essa carga. Isso extravasa qualquer lugar. De qualquer forma, e como não podia deixar de ser, a minha vida…e a minha terra Angola e tem relação com outras terras por onde passei, como os Açores. Macau aparece de uma forma um bocado espumada, de uma forma metafórica, mas não é um livro tão centrado num destes territórios da minha escrita como é o “Rotas Circulares” [editado pela Gradiva em 2017], que é completamente dedicado a Macau. Uma pessoa olha logo para o livro e vê que é dedicado a Macau, este não tem esse cunho.

A sua carreira literária é marcada por um triângulo de lugares – Angola, Açores e Macau. Qual deles é o mais importante para si?

Sou um escritor angolano e ninguém tem dúvidas disso, e apresento-me e sou recebido como tal, porque nasci em Angola e há mais de 100 anos que lá vivia com os meus antepassados. Portanto, não é apenas 10 anos aqui e 13 anos acolá. Angola é a matriz, tem lugar primordial porque é lá que nasço e cresço. Em Macau e nos Açores só posso ser um escritor de Macau e dos Açores, não sou escritor macaense nem açoriano, há aqui uma diferença pelo menos de grau.

Está a escrever um novo romance histórico sobre Angola, mas nunca escreveu Macau em prosa. Porque é que Macau lhe desperta mais a vertente poética?

Não é bem assim. A poesia nasce em Angola e continuei sempre a escrever poesia que tem Angola como grande motivo. Macau aparece também nessa expressão, mas não quer dizer que só escreva poesia sobre Macau ou prosa sobre Angola. O que acontece é que acabei por não escrever nenhum conto ou romance sobre Macau nem sei porquê, talvez porque me toque mais a sensibilidade de poeta, mas não lhe sei dar uma explicação clara, calhou assim.

Para quando um romance sobre Macau?

Macau, para mim, aparece mais na minha escrita no género de poesia. Escrevo alguns artigos e ensaios, e depois a história de Macau que é uma das minhas áreas. Romance… ainda não tentei, nem contos. Tenho estado mais com o romance de Angola, que me ocupa imenso.

O romance tem uma linha de trabalho completamente diferente.

Mas a poesia também pode ser trabalhosa e pode demorar muito. Cada poema pode ter uma individualidade…enquanto que o romance é todo um trama que tem princípio, meio e fim, e se alonga, e é vasto, um poema pode ser muito curto e pronto, começou e acabou. E como o meu romance é histórico ainda tem a componente de pesquisa, que me exija mais tempo. Quando estou a trabalhar num romance não me sobra mais tempo para outro romance. A poesia continua com Macau e o romance continua com Angola, tenho estado meio dividido.

Quando é que o romance de Angola é publicado?

Ele está bastante avançado e queria tê-lo terminado no final do ano passado, mas estou com muita vontade de o terminar para do fim de 2020. Ainda falta algum trabalho.

Vive em Almada e escreve em casa. Como é que escrever sobre lugares que lhe dizem tanto e que estão distantes geograficamente?

Essa é, um bocado, a minha condição. Acabei por me integrar no quotidiano destas terras de que temos vindo a falar. Uma porque nasci e cresci, e outras porque houve uma integração na minha escrita. Passado algum tempo acabo por me irritar e acabo por escrever quase sempre de longe. Não sei se isso se reflecte na escrita, isso cabe às pessoas que me lêem e que me escutam dizer alguma coisa. Da minha parte, penso que a capacidade do cérebro de reter imagens e situações faz com que a falta desses lugares não anule qualquer manifestação artística. Há sempre o peso da distância, saudade e memórias, e isso acaba por se reflectir de forma positiva na escrita. Comigo acontece isso, volto com alguma frequência a esses meus lugares da escrita, não são lugares que ficaram lá aos quais eu nunca mais voltei. Este ano, em três meses, estive em Angola, Açores e Macau.

Foi para Macau em 1985 e foi director da Biblioteca Nacional/Central de Macau. Quando saiu, em 1998, sentiu que o trabalho estava feito?

Fiz parte do grupo que teve como missão reestruturar o IC, as bibliotecas e os arquivos do território. Nessa altura, houve muitas coisas que foram reestruturadas, como as leis, criou-se o depósito legal, nova legislação e regulamentos. A biblioteca passou a ter novas chefias intermédias, criou-se uma rede de bibliotecas, passou a chamar-se biblioteca central e deixou de ser nacional. Houve um grande trabalho de reestruturação de tudo o que eram leis e regras. Depois as coisas iam acontecendo. A biblioteca e o arquivo tinham direcções separadas. Por isso é que eu digo que nunca pagarei a Macau aquilo que Macau me deu, porque em termos profissionais nunca teria tido a possibilidade que tive ali de ter tudo, biblioteca escolar, pública, tudo.

Foi também consultado aquando do primeiro projecto para a Biblioteca Central.

Sim, em 2008, para uma das candidaturas. E agora voltaram a perguntar a minha opinião. De uma forma geral, concordei com o projecto. Achei que era uma boa possibilidade, seria central de nome e fisicamente. Penso que é um sítio bonito e quase equidistante em relação a tudo o que há em Macau. À partida, aquele edifício tem uma fachada interessante que é de preservar, é uma forma de o manter. Mas tudo o que for feito lá dentro essa é outra história.

Falemos agora do mercado livreiro em Macau. Publica-se muito sobre o território, mas falta um mercado na verdadeira acepção da palavra?

Dou exemplos meus. Publiquei a minha tese de doutoramento em Macau, uma edição do IC, e o livro na Livraria Portuguesa (LP) nunca se encontrou à venda. Se não está à venda na LP, sendo um livro escrito em português, não sei onde poderá estar à venda. Haverá alguma falha, mas não estou a dizer que é da LP ou que é da editora. Que é uma falha grande, é. Nem sequer consigo perceber porque é que isso acontece. Isso também acontece com um dos meus últimos livros, “Rotas Circulares”, que foi escrito logo à partida em português e chinês, que faz parte de uma colecção de poetas de Macau, o livro ficou mais caro por causa da versão numa segunda língua, e continua a não ser vendido em Macau e sei que se fizeram esforços nesse sentido. Pelos vistos, não acontece só comigo. Falei com várias pessoas que publicam e me dizem que há essa dificuldade na promoção, venda e distribuição. Em Portugal, tirando a altura da Feira do Livro, não há mais oportunidades, é difícil encontrar livros sobre Macau.

14 Jan 2020

Sobre o jardim

 

Sobre o jardim

O jardineiro é um astrónomo que em vez de olhar para cima olha para baixo e isto parece-me uma definição prática da coisa. O jardineiro recebe ordens dos patrões, se os tiver, e dos astros – os mais altos e antigos emissores de luz.

Se fores pintor, o jardim é cor. Verde no centro, aqui mais escuro, mais claro ali, castanho da terra – um castanho que varia tanto – e árvores.

Se alguém for senhor da arte dos perfumes ou da gastronomia, o jardim avançará para ser aquilo que a terra produz e é táctil e tem sabor.

O que é a ópera para a arte – ópera que tem lá dentro tudo: canto, música, teatro, dança, literatura e etc. – é o jardim para o espaço da cidade. O jardim, pois, como obra de arte completa: é feito para todos os sentidos do corpo.

“De mais nada fala o Jardineiro, se não do andamento dos astros, das estações, dos corpos estelares e dos corpos verdes e das suas conjugações.”
Maria velho da Costa

 

Portas, entrada

Pensar numa casa no Oriente feita de portas. Talvez seja isso a definição de um labirinto: no caminho tudo são portas; tudo, pois, são entradas decisivas: um passo para a frente e estamos noutro lado, noutro mundo. Cuidado com o passo que dás!

Uma porta é um cruzamento. Se está fechada impede a entrada ou exige uma acção. A porta fechada como manifestação de pouca familiaridade e, ao mesmo tempo, como pedido de um movimento. A porta aberta, pelo contrário, como uma manifestação de confiança. A porta aberta diz: confio em ti, podes avançar mantendo o movimento uniformemente leve.

Como entrar no novo ano no Ocidente? Com o movimento uniformemente leve que as portas abertas do Oriente sugerem.

 

Poemas do Oriente: Comer, fazer a barba, reflectir

Arroz na taça, costas curvadas,
paus rápidos, enchem-se, esvaziam.
Taça antes cheia de arroz, agora brilha.
Vês o fundo, vês-te ao espelho.
É preciso comer, sem isso não entendes nada.
Fazes a barba frente à taça de arroz vazia, pendurada com a inclinação certa.
Podes fechar os olhos, não te cortas.
Há quem diga que nem lâminas
são necessárias.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

10 Jan 2020

A arte e as flores

 

A arte e as flores

 

É preciso ser um artista para colocar as flores no momento certo e, sim: não é o no sítio certo, o importante. A arte japonesa do arranjo floral, Ikebana, por exemplo, é uma acção sobre o tempo e não sobre matérias com peso e medidas, comprimento e largura e quilos.

A flor, para já, não tem peso, isso é evidente. Ela é feita de pura leveza, de pura negação do peso que empurra para baixo. Uma flor verdadeiramente bem tratada, quando largada em pleno ar, acima do solo, não voará – que flor, claro não é pássaro (não sejam parvos) – mas também não cairá. Ficará ali a flor, a meio metro do solo em suspensão quase distraída – como um elemento que não caísse por falta de memória e concentração.

A flor, sim, como mestre, então, da leveza. Não é um material ou uma coisa; é uma leveza, um quase nada que tem cor e cheiro. E a arte floral é isto: actua, não sobre coisas, mas sim sobre o tempo. É a forma de colocar uma cor e o cheiro bem leve no tempo certo; é conjugar tempos entre quatro flores, por exemplo, que não são mais do que quatro tempos com ritmo próprio. O arranjo floral, é, portanto, ofício olfactivo, ofício de pintura e escultura: forma, cheiro e cor.

A escultura de matérias moles tem já a sua história, e a arte floral japonesa aqui está a mostrar que a escultura que actua na leveza é, acima de tudo, mental.

É certo que as mãos dos artistas tocam nas flores, mas é um toque em forma de pensamento. Um toque que é quase um pensamento.

No Oriente, certas mulheres mudam a inclinação das flores quando simplesmente pensam nelas.

 

Poemas do Oriente: Plantações

Aviões rápidos acenam acima dos arrozais.
Muitos dizem que, se o futuro alimento falasse,
pediria, por favor,
para passarem um pouco ao lado;
para não incomodarem
e não perderem tempo, os aviões.
Que impressionem o que é impressionável.
Debaixo de gritos nada cresce tranquilo, é certo.
Em plena agitação,
o que é pequeno ganha medo
e não quer mostrar-se.
Mas as plantações não são do mundo
pequeno.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

3 Jan 2020

Muralha, Bárbaros e Portas

 

Muralha, Bárbaros e Portas

 

1Há uma parábola de Kafka que conta que, num certo império, quiseram construir uma muralha à volta de todo o país para impedir que os bárbaros entrassem. A parábola de Kafka conta que a construção demorou tanto tempo que, quando terminou, os bárbaros já estavam lá dentro e agora, com a indestrutível muralha à volta, já não conseguiam sair.

A parábola não continua, mas poderíamos pensar que o passo seguinte, caricato, seria o império começar a derrubar o muro construído para que os bárbaros pudessem finalmente ser expulsos. Os mesmos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Ou então os filhos dos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Muitas vezes isto: gerações sucedendo-se, uma fazendo o contrário do que fez a outra.

2Em Itália há um único santo que não fez milagres. Era um porteiro que foi feito santo. Ele só abria portas. Era porteiro de uma escola, mas abria portas com tanta alegria que foi feito santo. Abrir as portas com alegria. Uma bela síntese.

Quantas portas já abriste com alegria? Eis uma pergunta que deve ser feita no último momento. Antes das últimas palavras de um moribundo.

 

Poemas do Oriente: A amizade

Todo atento ao mais mínimo gesto do outro.
Mas atenção inconsciente, uma forma concreta e
humana de substituir o ar.
O copo que o cotovelo distraído derruba
apanhado ainda no início da queda pelo amigo que pensava noutro assunto.
Ou talvez afinal o amigo contasse os deuses
de noite visíveis no céu
e o movimento evitando a queda
tenha sido um aceno útil para cima;
ritual e oração substituídos num gesto
pelo velho instinto.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

20 Dez 2019

O Exército – uma ficção

 

O Exército – uma ficção

 

Num país longínquo, uma menina avança em bicos de pés a dançar uma música imaginária que leva na cabeça e, sem o notar, os seus pés vão apagando os traços da fronteira guardada, há séculos, por canhões pesados. Em bicos de pés ninguém ouve nem detecta. Apaga a fronteira de forma rápida, sem ninguém o perceber, e o exército que guardava a fronteira perde-se porque já não há fronteira. Onde é que ela estava? Ali, dizem uns. Mais à frente, dizem outros. E falavam da fronteira, não da bailarina.

Sem a fronteira, que era a referência, os soldados ficaram perdidos.

O exército de milhões de soldados pede, então, auxílio porque está perdido numa floresta e começa a ter medo. São muitos homens armados e cheios de equipamento militar, mas não sabem onde estão e por isso começam a gritar, com medo.

As mães ouvem porque as mães estão sempre atentas. Saem de casa a correr, muitas mães espalhadas pelo país inteiro, e vão socorrer os filhos que estão perdidos na floresta.

Os meninos, armados e adultos, estão já a chorar quando as mães chegam perto. Elas agarram com força na mão dos seus filhos e é assim que o exército é reencontrado e volta a casa. Cada soldado puxado pela mão da sua mãe, à força. Agora já não sais daqui, de ao pé de mim, dizem elas, como se eles tivessem saído de casa para brincar, sem autorização materna.

 

Poemas do Oriente: Dormir

Dormir o mais perto do solo,
dormir não é levitação artificial.
Entre a terra onde descansam muitos mortos amigos
e o céu onde deuses bem acordados velam por nós,
aí, no meio, no caminho,
não há espaço para algo ainda mortal.
Evitar a cama alta, a elevação falsa.
Dormir é lá em baixo, onde tudo começa a existir,
as árvores, por exemplo,
e também a memória.
Onde fazes a cama? O mais longe dos deuses,
o mais perto dos mortos.
Uma prova de humildade, dirás.
Dormir o mais perto do solo.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES
13 Dez 2019

O Centro

 

Onde está?

Os paradoxos de Hui Sui:
“Conheço o centro do universo: está ao norte do extremo norte (Yan) e está ao sul do extremo sul (Yue).”

 
É preciso, pois, encontrar o centro nas extremidades. Vais a um limite e ele está lá e vais ao outro limite, do outro lado, e ele está lá. Mas não se trata de dar a volta a uma esfera. Trata-se, sim, de um mundo plano em que só há um centro. E sim: ele está ao mesmo tempo em dois lados opostos.

Como se fosse um centro perturbado. Um centro que é dois, meio demente. Um centro que não está ali perto, que exige esforço para ser alcançado. Está no extremo, num sítio pouco acessível.

Um centro que baralha o caminhante. Uns dizem que está nas suas costas, outros dizem que está à sua frente. Quem mente? Ninguém. Todos dizem a verdade.

Como pode o centro estar nas minhas costas e à minha frente?

Hui Sui conhece o centro do universo: “está ao norte do extremo norte e está ao sul do extremo sul”. O centro está para além do norte e para além do sul. Nunca o alcanças. Se vires o centro ao longe já é bom, já é uma façanha. Nunca terás os pés no centro, nunca nele tocarás.

O que se exige ao humano, já que é impossível alcançar o centro do universo? Ir até ao extremo norte de si próprio, ir ao extremo sul de si próprio.

E sim, pensar o centro como algo a que se chega não geograficamente, mas por via do tempo, das experiências que se tem ao longo do tempo. Cada experiência importante aproxima-me do centro.

O centro que não está no espaço, mas no tempo.

Se o tempo tivesse norte e sul, o centro de uma vida estaria para lá do extremo norte do tempo e para lá do extremo sul do tempo.

Pensar no centro de uma biografia como se pensa no centro de uma circunferência. Um momento fundamental que coloca todos os outros momentos e experiências à mesma distância.

Onde está o centro da tua biografia? Já passou? Está a chegar?
 

Poemas do Oriente: Acordar

Papel dobrado sete vezes é mais forte,
guarda segredos, tapa.
Dormir é assim.
Acordar como animal que aceita o tempo
que as coisas demoram;
não ir de réptil deitado a bípede humano
num segundo.
Todo o acordar é desdobrar,
Lentamente prometes um tranquilo segredo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

9 Dez 2019

Os colapsos, os acidentes

 

Os colapsos, os acidentes

Pensar numa fábrica que produz acidentes intencionalmente; que planeia acidentes, constrói acidentes como alguns constroem um edifício. Parece absurdo?

Paul Virilio fala da “ industrialização do acidente”: os testes aos carros – tendo por base o crash e a capacidade de resistência a esse choque e impacto – são disso bom exemplo. Um bom carro é o que resiste ao impacto violento que, em princípio, poderá até nunca suceder.

A partir daqui podemos pensar numa comunidade que acredite que a sociedade avança devido aos acidentes e não ao progresso contínuo. Trata-se de acreditar no avanço por saltos, mas não saltos sobre o solo firme e controlado, avanço, sim, por quedas: o mundo avança de queda em queda, de acidente em acidente, de colapso em colapso.

A sociedade mais atrasada seria, nesse sentido, a que tivesse tido menos acidentes, menos colapsos. A mais estável seria a mais atrasada.

Associar o progresso, por exemplo, à reacção de uma comunidade depois de uma queda ou colapso. E daqui surge uma definição possível. O que é o progresso de uma comunidade: é o que uma sociedade faz depois da queda.

E o que é o progresso individual, o progresso biográfico?

É também o que um indivíduo fez depois de uma queda, de um acidente, de um colapso qualquer na sua vida. Progresso: a forma como te levantas e não a forma como andas. Não se trata, pois, de uma questão de velocidade, mas de resistência.

Estamos aqui para avançar, não para resistir. Estamos aqui para resistir, não para avançar. Duas opções.

Cada colapso obriga a uma mudança de estratégia, a uma mudança de intensidade, direcção e sentido. Caminhas de maneira diferente e para um sítio diferente depois de um simples alvoroço no meio da tua vida.

Poemas do Oriente: Habitar

Passa suavemente de um compartimento
a outro.
Dizem que não se movimenta, ausenta-se,
marca presença.
Como se não existisse espaço no meio.
Ela estava ali, agora aqui.
Como se chama esta forma de andar,
apenas com destino e dois verbos:
desaparecer, aparecer?
Não caminha, chega.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

22 Nov 2019

Sobre a respiração

 

“A poesia, irónica e soberba, ri das vaidades do mundo.”
Li Bai (traduzido por António Graça de Abreu)

Sobre a respiração

Exercícios respiratórios do Zhuangzi:
“Soprar e respirar, expirar e inspirar, expelir o ar usado e absorver o ar fresco, espreguiçar-se à maneira do urso ou do pássaro que estende as asas, tudo isso não visa senão a longevidade.”.

A respiração é um acto animal, não um acto humano. Pensar e reflectir e escrever são actos humanos. Respirar, acto essencial, involuntário: podes decidir não respirar, tapar a boca – mas no início do início não decidiste respirar. Alguém ou algo – corpo, os genes, o que for, decidiu por ti: tu respiras.

Pensar numa personagem que acorda e diz: eu hoje decidi: vou respirar. Um louco, sem dúvida. Não és suficientemente poderoso para decidir uma coisa dessas.

Claro que se poderá dizer: eu hoje vou respirar ar puro, vou para a montanha. Ou: hoje vou respirar o ar da floresta, ou, ou e ou. Mas sim: ninguém pode decidir sobre o verbo respirar. O verbo respirar é involuntário, é um verbo que não te pertence.

E sim, voltar ao início: respirar como verbo animal.

Daí estas indicações animalescas de Zhuangzi. Respirar como um urso ou um pássaro que estende as asas.

Respirar é um acto animal. Ainda bem, digo eu.

Poemas do Oriente: Uma refeição

Madeira, pequenos paus levando à boca os alimentos,
nada de metal.
Podes falar de pormenores, troca por troca
– metal por madeira –
mas claro que não.
Nenhum metal entra no espaço inaugurado
por dois amigos
que se sentam frente a frente, o óbvio.
Nenhuma faca na mesa, repara,
nenhuma ameaça material, paisagem calma e natural,
mesmo que em comprimento e largura mínimos.
(Tudo é paisagem, o mais pequeno dos espaços,
se lhe deres atenção.)
Na paisagem não entra tanque,
na mesa nenhum metal. A tranquilidade do mundo
começa
na tua mesa.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

15 Nov 2019

Entre Oriente e Ocidente

 

O escritor Jalá Rûmi escreve: “Todas as rosas são vítimas do inverno.” E o chinês Chao Yong decidiu enfrentar as flores que pareciam rir dele:
“Ó flores encantadoras, não se riam ao verem a minha cabeça branca.
A minha cabeça branca já viu um sem-número de belas flores.”

No entanto, nem sempre a natureza é tão rápida – certas árvores já viram muitas gerações sucessivas de cabeças brancas e as montanhas nem se fala.

A árvore que viu o meu bisavô nascer e a montanha que já estava lá muito antes da outra velha árvore ter sido derrubada, exactamente no mesmo sítio desta velha árvore.

Uma referência no espaço, mas não só – a montanha como aquilo que define o tempo. Uma concentração de espaço e matéria que é, no fundo, o tempo a mostrar-se visível.

Que horas são? Pergunta de um homem ou pergunta de um planeta? Certos geólogos vêem o tempo (as horas) da Terra pelas montanhas – nas montanhas se vêem as horas longas, isto é, os séculos, os milénios e milénios.

Duas opções à escala de uma vida. Ver o tempo no relógio, na máquina que os homens fizeram com as suas mãos, ou ver o tempo pela alteração da árvore ou do animal.

O animal próximo, doméstico, como um organismo-relógio, um relógio afectivo a que damos mão e comida.
 

Poemas do Oriente: No Santuário

Sem palavras, o som de um pequeno bosque
num santuário de Kyoto.
Estamos na vida normal como em plena festa, olhos
e ouvidos cheios.
Uma forma de parar as pernas é ser mudo,
outra ser cego; nada escutar, uma última opção.
Repara que, no meio da algazarra,
o silêncio é toque de sino – o que se destaca
na paisagem.
Ao longe, à distância em que quatro homens
são apenas quatro pontos,
um olhar experiente e antigo distingue o surdo
dos outros.
O surdo é o que está sozinho, o que observa mais,
aquele que guia.
No meio da feira do dia e do mundo,
o calado é o que, durante um ano,
apenas uma vez grita: é ali!
E sim, é ali. Foi ele quem
encontrou.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

8 Nov 2019

Picada

 

“Estão prontas dez mil coisas, só falta o vento Leste”
Provérbio chinês

Picada

Parece que foi Donald Richie, escritor americano que viveu grande parte da sua vida no oriente, a afirmar que se fica contagiado por essa parte do mundo como se fosse uma picada de insecto. Não é contágio lento, é algo súbito. E que depois fica.

Eu diria, uma picada que nunca mais deixará de fazer um som. Um som sem som, um som mudo, mas que é um chamamento: não sais daqui. Ou: não te esqueças de mim.

Como uma picada. Ou seja: de um momento para o outro.

Picada ou iluminação, dois termos que atiram para o instantâneo. De um momento para o outro, o escuro fica claro (iluminação) e de um momento para o outro a pequena dor que se sente, numa mínima parte da pele, muda por completo o nosso foco, o nosso caminho; no limite: a nossa biografia.

Pensar numa picada que ilumina, uma picada que ilumina antes da electricidade: uma luz natural.
 

Poemas do Oriente: Mistério

Um cofre no meio da floresta. Que necessidades desconhecidas
terão as árvores e as cigarras
para no meio delas
se colocar uma caixa, um cofre?
Alguém fala de um outro animal
que por aqui também anda
e que quer tudo o que pode mudar de sítio,
tudo o que portátil:
o homem, é por causa do homem
que se fecham as coisas.
Mas alguém diz ainda: o cofre está vazio,
completamente vazio, mas mesmo assim, nenhum instrumento humano
será capaz um dia de o abrir.
Não consegues abrir um cofre que está vazio
e já aberto –
ele é sempre mais forte.
Não tens força, inteligência, destreza
para mudar algo que não pode
ser mudado.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

1 Nov 2019