Um dia perdido em Nova Iorque

Ficou um dia meu, perdido em Nova Iorque. A um ponto tal, que ficou por lá. Nunca mais o encontrei. A culpa é desta minha relação indefesa e nunca resolvida com a insónia. Deitada comigo na cama, a insónia, é como um amante na almofada ao lado e que dorme indiferente, enquanto desesperadamente me viro e lhe viro as costas.

Tentando ignorar aquele olhar esgazeado, a detectar a falta de imunidade pela noite fora, porta para todas as recordações, incómodos, monstros que se avizinham, como bactérias em organismo indefeso.

Numa dimensão muito própria, estas noites. Tão irreal como a daquele ringue gelado que só conheço de filmes.
O meu sono tem-me pregado dessas partidas. Nem me deixando acordar nem adormecer. Quedando-me numa meia lucidez somente acordada para a luz. A evolução crescente ou já inversa. Como se mais nada existisse, mesmo o corpo estranhamente inquieto e pesado como um fardo. Como se simplesmente o corpo de um relógio. Espectador do tempo. Obreiro indiferente. O frio, o calor do aquecimento central, o tempo, o sono, desregulados.

Estava em Nova Iorque numa Páscoa fria e isso poderia passar à frente de todas as coisas. O sonho de ir, de estar ali na cidade conhecida ao detalhe em planta, imaginário e resolução de ir. O maravilhamento de ter ido.

Sobrevoando o Alasca. Um esforço de adaptação das horas e das distâncias, demais. Mas não, talvez pela enormidade do percorrido por contraste com a imaginação, há circunstâncias em que tudo se revira sobre um foco incontornável de sobrevivência em que nos enovelamos sobre as nossas próprias pequenas limitações. O dia amanhecia no quarto do YMCA de aquecimento perturbador. O calor excessivo na noite que rondava uns zero graus, era um paradigma estranho a quem estava habituada a recolher-se debaixo de cobertores pesados em busca de calor. Não a revoltar-se contra um calor estranho e indesejado. Amanhecia esta espécie de luta e a luz nas vidraças dizia-o. Revolvia-me na cama em busca de um equilíbrio entre o conforto insuficiente do ar e o que era excessivo nas cobertas da cama. E o dia a amanhecer sempre. A luz a clarear lentamente e por lapsos difíceis de medir – sei, os do sono. Sempre aquela luz intermédia. Mais tarde, bem mais tarde, a luz, ainda intermédia era-o já de novo. Como se o dia continuasse a amanhecer quando um olhar lúcido, finalmente, para o relógio, demonstrou como a luz amanhecera e anoitecera já. Mesmo se, agora, com o mesmo ar distraído ou irresoluto de luz média. Passara um dia sobre a revolta das temperaturas, do sono, e dos cobertores. Sem que se percebesse a ascensão e queda. Nesse limbo de virar sobre o ombro direito e depois sobre o esquerdo, à espera do apaziguamento do sono, ou da definição do dia a estipular sentidos inerente às horas, se passou um dia do nascer ao morrer. Adormeci – deitei-me, digo – eventualmente, à noite, e levantei-me numa outra noite.

Por isso ficou um dia meu, perdido em Nova Iorque. Perdi-o, e nunca o encontrei.

Tinha dois encontros nesse dia. Com uma americana conhecida no verão anterior em Chiang Mai e um jovem chinês, com quem falara talvez em Hong Kong. Muito diferentes. Tinha a curiosidade de pelos olhos deles conhecer de Nova Iorque mais essas duas cidades em que cada um deles habitava. Nunca aconteceu. Mas não me parece que nada do que foi falhado naquele dia, pudesse ter fracturado substancialmente a minha vida. Teimosamente destinada a ser outra coisa qualquer.

Falta-nos tanto esse dia que ficou por viver, mesmo se registado no calendário. Mas talvez não necessariamente esse. Em que, assim, estando não estive. Mas ontem, como se por uma permuta mutuamente vantajosa, estive sem estar. Num outro lugar, é verdade. Mais a sul na Carolina do norte. Ficou por momentos e depois pelo dia fora, a sensação de que algo naquele meu dia se expandiu líquido e calmante. Como sair de casa e da vida.

Como ter estado lá, de facto. Estive. Mais realidade em estar, seria talvez demasiado nítido para aquilo que posso absorver antes do limiar de dor, de solidão, de infinitude ansiada.

De resto fica em forma de sonho para sempre. Aquela ilha estreita e alongada entre mar e oceano. Não importa se fui se não fui. Estive por aquelas praias e horizontes desoladoramente preenchidos de mar e nada. Sempre pasto de tempestades. A fazer apetecer perder-me ali para sempre mesmo se nuns dias. A temer o confronto com o real impacto da lonjura que dali se avista.

30 Nov 2021

Outubro

Estas coisas da memória. Fios finos, que rasgam a luminosidade dos dias, voltando a inscrever o que nunca se arreda para mais longe do que um segundo plano de sensações sedosas e quase ténues. Como um sopro.

Um bater de asa. Passou um anjo. Mas que logo se acendem com toda a significação. Cores outonais, em avermelhados oxidados da queda. Uma certa natureza a perder a folha para reiniciar a renovação. Mas lembro o esverdeado daqueles olhos com uma profundeza que pouco se exprimia e era esperança. Outubro, cinco, logo no início é desde sempre a memória de um aniversário de quem sempre gostou de o celebrar, com toda a família e o contentamento de uma criança, mas tão sóbrio. Desse avô de olhos transparentes esverdeados e sonhadores que, em qualquer lugar novo, encontrava sempre um sítio um pouco à distância e à sombra, onde se sentar a fumar um dos seus cigarros, antes Sagres e depois Definitivos. E a sonhar as memórias e as dádivas. Esse avô que veneramos e foi um pilar forte no meio de tantas ausências e instabilidades familiares. Ficou a lancheira, o chapéu, tantos objectos e escritos esparsos, peças de mobiliário amorosamente aplainado, amaciado e envernizado. A caixa do dominó feito por ele e que jogávamos à tarde a seguir o número de pintas pretas. Mesmo pequenina desconfiava que o jogo não era assim tão simples.

Talvez seguir, sem saber estratégias mais complexas, seja o ideal de caminhar. E sim, era sobretudo disso que os seus momentos de longitude se alimentavam, porque de ambições nunca. Grandes ambições para si, nunca se lhe conheceu. E nisso, a vida descreveu-o com rigor. Marceneiro até á reforma e por paixão depois, dentro de casa a produzir mobiliário para atender ao crescimento da vida. Como seria se não existisse como foi? Em pequenina ia comprar-lhe cigarros e caixinhas de fósforos que colecionei com fotografias de caravelas e, as mais amadas, de gatinhos. E logo de manhã em casa, o jornal. E visitava-o na marcenaria a pedir uma coisa qualquer para os trabalhos da escola. Ou ficava a vê-lo em casa a produzir rolinhos de madeira aromática e lisa, enquanto me explicava o futuro do móvel.

As pessoas têm que ser alguma coisa. Que o reconhecer, que o assumir. Fazer parte. Ele, o meu avô A., era do Sporting e do Lusitano de Évora, republicano convicto talvez ao ponto de se estabelecer como data sua de nascimento o dia cinco de Outubro, num tempo em que as datas de nascimento na família, tinham um não sei o quê de deliberado e pouco rigoroso, por ausência de memória nítida registada ou por fuga à obrigação de registo em determinado período. Ou coincidência feliz. E comunista de alma, coração e memória, mesmo das torturas na prisão “política”, que não conseguiram arredá-lo dessa fé. Quando a grande questão não é a validade do paradigma mas a força da fé. Os dentes quase todos perdidos sob tortura, com filhos pequenos, a minha avó trazida a Lisboa para estar por perto naqueles meses sombrios, nómada em quartos da família e os filhos distribuídos por madrinhas e tias, entretanto. Para não falhar uma única visita. À espera, com outras, por vezes somente de um aceno à janela. Uns iam sabendo dos outros. Excepto em dias de “solitária”.

Aquelas pequeníssimas celas de isolamento total. Para reflexão e para castigo. Ou vice-versa. Quando o Forte de Caxias se transformou em estabelecimento prisional, começou por encerrar soldados insubordinados, ladrões de mercearias e grevistas, para ser, com a implantação do estado novo, uma prisão política. Dos crimes de pensamento e expressão.

E aquelas noites medonhas de visitas inesperadas, denúncias, às vezes, rusgas e buscas a meio da noite. Provas, panfletos ou livros suspeitos de veicular ideias subversivas. Vezes sucessivas em que o primo A., jornalista e assim alvo particularmente apreciado desses divertimentos, era levado.

O avô gostava de contar histórias, mais para o fim dos jantares em que se juntava a família. Mas da prisão lembro sempre as batatas. Eles, encerrados e comedores de batatas como os de Van Gogh. Ele dizia que quando estavam alentejanos na cozinha não iam as batatas podres para a comida. Que mais teriam que comer, pergunto. E parcialidade sua, talvez mas de que sobrava a questão positiva de, no possível, respeitar a dignidade daqueles homens. Ou definição de limites, quando mais poder não se tem do que sobre as batatas, para definir que nem ultrapassados todos os limites da violência sobre o ser humano, alguém com nobreza pode admitir ultrapassar algum, quando se trata dos seus semelhantes.

As pessoas têm que ter nas mágoas incontornáveis o registo subliminar dos sonhos que elas contrariaram. As pessoas têm que se definir, mesmo não definindo mas percorrendo um caminho de afectos e fé e convicções, que vistos de fora preenchem um determinado retrato. As pessoas são o que afirmam e o que fazem mas também o que sonham. Quando tudo se conjuga coerente, as pessoas são. Isso. Mesmo vistas de fora.

E é sempre tão bom, conseguir identificar os que são bons, mesmo sabendo onde também eles ou os seus sonhos falharam.

19 Out 2021

Em profundidade

Do fundo para a superfície. Ao contrário do que se esperaria.

Nadar é tão natural para muitos animais terrestres, que mesmo recém-nascidos o fazem. Mas não me aconteceu, durante anos. O medo, como em tantas outras coisas naturais, pode sobrepor-se, construindo uma barreira de ruído entre nós e a coisa em si. Um dia, naquelas longas e parecendo sem princípio nem fim, férias de verão, na praia, com sol intenso, mar, família e amigos, um primo explicou-me em três palavras como mergulhar e aproveitar a circunstância mágica de ficar a fruir debaixo de água. O movimento preciso do corpo, apontado, como se houvesse um ponto exacto na pele da água, por onde entrar. Por onde ir até lá abaixo e num golpe de rins, ficar. Como um peixe a varejar o fundo das águas. Com aquelas manchas luminosas tremeluzentes.

Nadar. Encontrar esse caminho, ultrapassada a barreira sedosa da superfície, subitamente o corpo livre e liberto a evoluir na água sem o pânico de ficar sem respiração. No meio límpido e no saber claro de que essa era para reter.

No fundo e em profundidade real, substituir o medo de afogamento pela intenção de submergir. Que, antes, me fazia um bicho a deslocar-se dentro de água como uma espécie de lagarto com duas mãos a caminhar no chão de areia a arrastar o corpo e a cabeça firmemente fora da água. Um peso incontornável a puxar para o fundo, quando queria nadar. Estranho peso a mais para a superfície das águas.

Autoconsciência ou boiar à superfície. O que se aprende primeiro, talvez. Depois, vontade e domínio. Naquele momento mágico que define a fronteira entre não saber nadar e vencer a primeira barreira entre um corpo que não sabe de si e um corpo que aprende a viver com a água e a navegar. Sem nave, desnecessária mediação, nessa harmonia entre o mar e o corpo. Eu queria tanto isso. Eu e a água do mar das praias de infância e um dia ele, mais velho, ensinou-me a mergulhar e, debaixo de água assumindo a ausência da possibilidade da respiração, não como um défice mas como uma condição natural e voluntária, nadar. E, depois entendi como deixar de novo o corpo ser leve e subir para a pele da água, boiar a olhar para o fundo. Mais tarde.

Explicou-me sem explicar, como afinal nadar na profundeza das águas serenas e límpidas era o que era necessário saber, para nadar à superfície. Que seria sempre, depois, muito mais fácil, porque podendo respirar. Ar. Somente aquele truque de como mergulhar para debaixo da manta de água, que sem o necessário saber e calma oferecia resistência a mergulhar mas não ao afogamento num momento qualquer de pânico, um desequilíbrio subterrâneo nos pés a fazer faltar o fundo, quando se pretendia subsistir à tona. E somente tão mais tarde entendi a extensão deste ensinamento de primo. Entender a profundidade, ajuda por inerência a nadar à superfície. Que foi o que aconteceu. E depois emergi e nadei no êxtase de finalmente o poder fazer respirando o ar que é o único elemento que posso respirar. Com os pulmões. Portanto eu não aprendi a boiar, nem a nadar, antes. Mas sim esse pequeno detalhe de mergulhar em profundidade e somente assim – para entender nos pequenos nós dos dias, o que amedronta não saber gerir de outro modo, à superfície. Nadar debaixo do peso e da existência da água. Talvez continue desde então a mergulhar sem medo em meios em que continuo a não nadar bem na camada superficial.

Foi o que, sem o saber, me ensinou naquele momento de corte entre o antes e o maravilhosamente depois de saber nadar. Duas coisas preciosas. Tenho que lhe dizer um dia destes.

23 Set 2021

Xadrez invisível

Desordem.
Um andar um bocadinho escangalhado, umas vezes bispo, outras cavalo.
Oh..laissez casser! Disse num murmúrio miudinho, infantil e terno ou suave e humilde. Dizia aquelas coisas com o poder de uma prece. E ele, nas suas costas, quebrou com meticulosidade e estrondo a jarra de estimação de ambos. Para esclarecer as coisas.

(E enquanto subo a rua, a sentir-me um poeta que acaba de adivinhar o segredo dos alquimistas, acompanha-me sempre um passo à frente o rectângulo que o enquadra. Mas por detrás de uma porta de que falta – me falta – a chave. Em suma, separa-me do segredo uma fina folha de lacado branco, sem quadrícula nem linhas.

Entretanto os passos levam-me sem que eu tente ter deles noção exacta um a um. Mas a quadrícula de manchas alternadas em negro e marfim com a qual substituíram a calçada branca de sempre, complica-me a decisão de cada passo obrigando a uma atenção maior e persistente e começa a reduzir-lhes a amplitude e liberdade e a condicionar -me a atenção que queria liberta para outros percursos nas ruas. Dou por mim a ter que querer decidir-me pelos demasiado pequenos quadrados a negro, onde começo a colocar o pé meticulosa e irreprimivelmente com aquela postura mais cambaleante e o nariz no chão atento a que nada escape à aleatória decisão. Cada centímetro errado pelo pé, mais à esquerda ou à direita, faz perigar o equilíbrio. Olho furtivamente em volta, na tentativa de surpreender um olhar de estranheza para com este andar que se tornou estranho e centrado numa geometria sem regra, da simples atracção do pé para o quadrado escuro da calçada. E um pouco cómico. A lembrar-me o Jack Nicholson naquele filme. Enfim, não interessa. Como se disso dependesse todo um discurso mágico que se desenhe num mapa invisível porque todos os quadrados anteriores ficaram sem mácula e os que se adiantam à frente não sabem que serão escolhidos pelo pé deste ser com um andar engraçado e semblante tenso de atenção. Que ainda se vai desequilibrar num passo mais desalinhado ou distraído nesse dizer para dentro tu, tu, tu. Tu sim, tu não. Às pedras.

Este desígnio obriga a saltitar. Mas algo na minha remota noção dos outros por ali me enche de pudor. Que me surpreendam nestas opções definitivas. Fundamentais. De qualquer modo, não esquecendo de que a subir custa e a descer é perigoso – vertiginoso, digo. Saltar. Procuro no bolso das calças a malha que durante anos sempre tinha para o que desse e viesse. Uma pequena pedra redonda e branca para atirar, que sobressairia neste negro. Mas só já encontro, de há muito o papelinho com a face cadavérica da pedra que ri. O sorriso sardónico que durante anos vivia na carteira com os outros retratos da família. E esse voa para parte incerta sempre que arremesso.

Anoto os detalhes para rever o dia. Destas pequenas e cabisbaixas fugas de casa, sempre pasto a narrativas improváveis.)

14 Set 2021

Hóspede indiscreto

Ilustração de Anabela Canas

coisas delicadas que esperava encontrar no meio dos objectos de quem, morrendo, fica a adejar emoções válidas. Testamentos. Legados a anónimos pretendentes em linha. São esses os vícios das palavras. Muitos as querem. Suas. Mas de quem se foi nada mais há, a cientificamente demonstrar. Labirintos de sentidos. Quem dá mais, na senda de se encaixar no remoinho emotivo que tinha palavras tu. Tarde demais para apanhar o pequeno ramo com a segurança do acaso, mesmo. Quanto mais de um remetente a endereçar. Quanto muito: meu querido diário. E ele sabe que é ele. No mesmo labirinto de sentidos um mapa de sinais – este inferno improdutivo – só um caderno inorgânico pode saber exactamente e sem margens de ambiguidade que a ele se endereçavam palavras mesmo se quando partilhadas infiéis com outros sujeitos.

O vaso em alabastro
tem uma discreta luz por detrás
quando está vazio

Mas quando cheio
tudo se complica

A superfície
o recheio
a luz que incide do outro lado
um calor
uma agonia
suave cio

Folheio páginas lancinantes como hóspede indiscreto que abre um ficheiro na memória e estaco naquela do poema curto a acabar.
Ela estava triste nas linhas anteriores e irresoluta nas que se seguem porque do seguimento da vida ela não sabia nada nem queria nunca mais deitar-se a adivinhar.
E as linhas breves colheram-me como em arena cornos pontiagudos de animal em fúria desencaminhado.
Com o mesmo desconhecimento. Que a perplexidade de não ter certezas, apesar de tudo, nos sedimenta margens de segurança, estanques que não deixam mais ou nunca mais que uma dúvida como sinos se insinue e construa. Por dentro, claro, como só por dentro as coisas que nos arrastam de uma inércia qualquer, constroem. Fico com o registo dela mas não sei quanto tempo durará. Este abalo. Paro e descubro trocos que pagam um gelado de passagem e nem sei se esse outro pensamento dura. Ela, na sua intensidade que nem sempre se admite compreensível – digo eu, a minar.
A pequena sequência de linhas, pequeno poema púdico entre outros, que encontra desprevenido, agora, uma luz póstuma que o estranha e não sabe ler.
Copio apressadamente numa folha minha, aquelas linhas sem certeza de que um dia vou entender. Senão com a minha vontade. Sucesso inglório, sem troféu. Que não este papel já mole e enrugado. Meu, copiado dela e como se para mim.
Porque me dizia sem nunca o dizer quero deixar-te tudo, quando morrer.
E o sabor do gelado, gelado e frutado sem doce em demasia, na ansiedade apressada para não escorrer nem derreter mais do que o que o palato pode acolher mesmo num dia de calor tórrido, distrai-me o pensamento à superfície. No fundo, como em cenário, a dúvida que perpassa do simples papel que se apropriou de um pensamento de um seu igual mas com linhas. Sem ter certeza no sentir, ou se dele. E sem saber se descer ou subir a rua, entretanto e porque é indiferente para a resolução impossível de pensamentos como este a gerar suaves questões que ficaram em vida. Equações. Porque das profundezas do tempo, aquela palavra tu.

Em cada excerto de narrativas improváveis.

10 Set 2021

O lugar vago dos segundos

Enormes e estridentes no curto espaço entre aqui e ali, onde normalmente os pombos. Estes volumes inquietos, avantajados como se fora de escala no telhado ali em frente, como uma natureza a invadir, exacerbada. Parecem desenhos, depois, mais longe e já a sossegar. Planos, negros, recortados, anedóticos pequenos pardais. Mas são assustadoras nos gritos e no volume atabalhoado dos movimentos. Gritos animais. Ontem e hoje. Como um sinal de ecossistema a falhar. Aqui em cima, tão longe, como se à beira rio, mesmo. São duas. Talvez a mudar de casa compulsivamente. Um desassossego inquietante – passe a redundância. Dizem-nas, quando em terra, sinal de tempestade no mar. Mas quem viu para dentro?

De minha casa oiço sinos e o apito fundo e grave de navios. Quando a aragem sopra do rio. Esqueço onde estou, a partir das coisas intemporais. Esqueço e custo a relembrar.

Os dias de domingo amanhecem. As estações virão sempre sentar-se no lugar reservado. A vida alterna fantasia e desespero. Tudo se cumpre como se estivesse escrito. Mas não estando. Antes.
Coisas assim.

Folheio outas páginas. Paro junto à parede e em cada pestanejar. Viro-me e retrocedo. Outra página.
Conto as flores e é como se a vida se reproduzisse inteira. Conto-as e conto-as para que fiquem. Conto e duplicam.

Mesmo depois. Mesmo as que não foram. Em geral conto-as como se fossem e as que forem.
Verónica limpa o rosto de Jesus. Há uma oração a entrar-me pela janela, depois. Antes, acudi a um rufar de tambor compassado, redobrado, compassado, redobrado. Mas isto é já um outro dia. Um outro domingo. Também.

As contas. Adições. Seremos seres que somam, que multiplicam, ou seres que subtraem, ou mesmo dividem. O mistério da multiplicidade de sentir de gostar de pensar. Muitas coisas que não nos fragmentam. Quanto muito, enriquecem, complexificadas relações entre as partes, muito para além do preto e branco do cheio e vazio e do 0 e 1.

Eu gosto do centro das cidades. Das cidades com história e muitos registos do passado. Habitar um canto camuflado no centro e como um ninho encavalitado numa chaminé. Também de todas as margens naturais das cidades e da lonjura das cidades de toda a naturalidade da natureza distante e dura. A assustadora tormenta dos elementos, mais sentida aí. Gosto do natural como do que é construído. Mesmo as pessoas que se constroem numa imagem se genuína a paixão. Como quem actua num papel que é seu. E daquelas que são naturais uma vida inteira.

Simplesmente paro na obscuridade da casa, à espreita de um contorno, de uma tonalidade firme. Se está. Tudo precário como o sei. Mas há uma luz bruxuleante na casa que me diz que está o que sinto, impresso numa forma. Táctil. Existo. E assim o que sinto. Como uma prova. Noves fora. Fora a memória. E assim um estado puro. De pura devastação, mesmo. Ou de puro estar.

Nada chega à voz de um violoncelo. Cordas directamente premidas no coração. Humanas com dor. Um choro que dificilmente ecoa feliz com lágrimas. Fico a ouvir a voz conhecida e de cordas vocais embargadas de um sentir que é amargo. Que sentir é este que perpassa destas cordas e por mais diferente, sempre moldado a elas, a esta voz que transforma qualquer sequência de notas num lamento nobre. Por não ser violino, algo mais grave. Em que as pessoas deveriam cair em si e música adentro. E centrar-se numa única infelicidade, um único pensamento a adejar calmamente e sem ansiedade. Um único, de cada vez.

Vaguear pela casa. Estar e ao mesmo tempo, não. O lugar vago dos segundos, vivido e abandonado. E repete. As águas enormes de oceanos vastos a arrefecer emoções. Pequenas, aluadas e inconsistentes queixas. Pequenos sentimentos recorrentes e que escorrem em ligação directa à gaveta da mesa, no subterrâneo das teclas. Que podiam escrever vida onde escrevem suspiros. Segredos guardados para aliviar a cabeça como um corte de cabelo em fim de estação de amor. A rouquidão da voz que se queria límpida e a dureza das teclas que se queriam doces.
Sussurros. No vazio da noite branca da folha. Como sol que não desceu.

11 Ago 2021

Querido avião

Esforçava-se, na consciência retrospectiva de não entender a realidade em redor da carteira, na sala atulhada de meninas de vários tamanhos. As maiores com olhar triste e batas puídas, atrás. (Talvez também usassem a bata previamente gasta, do tio mais novo. Que três anos depois ainda valia a galhofa das amigas no recreio). Eternamente atrás do rebanho em que as outras foram progredindo, um pouco mais depressa do que cresciam. Esforçava-se por entender quando é que na véspera tinha havido trabalhos de casa, anunciados talvez num daqueles lapsos entre o sonho com os rios de moçambique, as províncias do mapa de orla vermelho escuro, a morte da querida bisavó avó etelvina e as paragens da linha de comboio de quelimane a tete ou outra coisa qualquer e a fotografia feia do perfil do salazar ali mesmo à frente porque ela estava na fila da frente por ser a mais pequenina e ver muito mal mas isso ninguém sabia e durante muito tempo e só veio a lume daí a uns dez anos, mais coisa menos coisa. Esforçava-se por dar atenção à professora luísa que estivera em cabo verde e levara uma gabardina e chapéu-de-chuva, dizia, até ao limite do ridículo à chegada. Mas andava regularmente com as palmas pequeninas das mãos doridas das reguadas repetidas consoante os erros, os horríveis erros ortográficos de uma era em que não se falava ou protegia dislexias ou disortografias. As mãos desinchavam. Mas na terceira classe ainda não sabia ler nem escrever, dizia. Sabe-se lá se sabia ou não.

Esforçava-se. Primeiro nuns patins de recreio e só mais tarde nos verdadeiros. Na medida em que no desgaste das rodas interiores dos patins se ia gravando o sinal. Tinha sempre os joelhos e as palmas das mãos doridas e negras das quedas, no treino dos exercícios. Na aprendizagem. Era uma pequena imprecisão de crescimento de uma perna a mais do que a outra e uma imperfeição na linha da coluna e que lhe valera as críticas de mestra e os comentários recorrentes de colegas cruéis. Aquela postura hirta do pescoço nas curvas elegantes da técnica nos peões mal feitos ainda mas que por outras razões. O corpo, os músculos descontraídos não cediam às limitações da forma. Décadas mais tarde uma radiografia e um médico explicaram aquilo que é a forma de um pescoço normal e aquilo que é uma forma diferente. Coisas da correcção da estrutura de um corpo, pela própria estrutura inalterável e para equilíbrio.

Os jovens cruéis mas amigos, vingavam o seu vazio nas drogas como uma camada subjacente que não lhe confiavam e no sexo, em desespero. Que cada dia trouxesse algo. A miúda do pescoço hirto e Axel imperfeito e raro, na garrafeira do pai uma vez ou outra, em misturas apressadas para apressar qualquer coisa, para esquecer a lentidão monocórdica de qualquer coisa e para testar o estilo engasgava-se com os charutos ou cigarrilhas agressivas, porque os cigarros sempre protegidos no bolso do peito.

Mas no avião, figura de estilo em velocidade e a desafiar a gravidade com equilíbrio, durante anos, ninguém a batia com postura mais flexível e perna mais elevada. Mas para trás. Em velocidade estonteante para trás. E a descrever uma curva larga. Mas disso, a fotografia não diz.

É essa sucessão de camadas que nos envelhece, que nos amadurece para um estado em que todos os outros transpiram a sua essência. Nada se perde. Talvez até infelizmente o que é negativo e a memória se recusa a descartar. Tudo vai a jogo por debaixo de uma só e fina pele que mostra o mais evidente e por debaixo as tais camadas de ser e de sentir e de ter vivido.

E para olhos incautos ou pouco incisivos, é essa pele marcada que sobressai mesmo quando a pessoa adolescente lá atrás se liberta (como) décadas antes. Ao som de uma música punk ou a irritar ridiculamente o público que não há em trejeitos anedóticos, depreciando o Bolero. De Ravel. A mesma pessoa por debaixo de uma patine que a faz até talvez ridícula para quem não entende. Quem ainda não percorreu percurso semelhante.

Há muitos anos escrevia sobre o sistema de camadas de uma cidade. Intrigante e apaixonante. Que todas as têm. As cidades. Como seres que são e como todos os seres que se reservam com um depósito de protecção à invasão abrupta. E se destinam a ser desvendados, sem ao fim da noite uma verdade absoluta. Ou a deixar o olhar, também ele focado como objectiva com anel rodado criteriosamente, incidir sobre a camada que é alvo de focagem. Da selecção. Tantas fotografias diferentes sobre o mesmo ângulo de abordagem, simplesmente focando intervalos de distância diferentes. A profundidade de campo. Chama-se a esse intervalo de espaço focado desfocando o que está mais para lá ou para cá do mesmo. Como a dizer que podemos de algum modo ver a realidade como a queremos ver. Senão como a queremos.

Crescer. Pensa aquela miúda para lá de muitas outras camadas, custa tanta frustração e resistência e cria tantas couraças de protecção. É um caminho tão duro e que visto lá de trás parece tão lento e inexpugnável.
Por isso voou. Abriu a janela e voou. A miúda triste mas alegre.

27 Jul 2021

Corpo devagar

Delito. Matar o tempo, diz-se. Fazê-lo passar mais depressa e sem sentir o seu rasto lento, na expectativa de algo. Mas há outra maneira de o silenciar. Suspender sem extinguir, a respiração imparável e ficar num limbo de ilusória eternidade. O sem tempo de um intervalo. A quase morte do tempo por fuga da vítima. Uma coisa defensiva e sem instintos homicidas.

A pele das coisas. Espelhos visíveis. À flor da superfície. A lembrar-me. Desse corpo revestido de ti.
Pouso o guardanapo, o copo a libertar um aroma rico, colorido e encorpado, da região que eu gosto. Aliso a saia e disponho-me de costas direitas a fruir. O rio aqui atrás invisível mas a três passos largos. Uma pausa oferecida a custo num dia de agitação demais. Inquietações que não se curam senão com um intervalo de esquecimento. Um almoço que não pode ser longo mas terá o dom de parecer um daqueles momentos que duram eternidade mais uns minutos, mesmo se pouco mais do que isso contando no relógio. O pão de forno de lenha ainda morno e um pratinho de azeitonas. Não precisava de mais. Coloridas, amargas da cura e do tempero variadas. A lembrar-me, umas, os teus olhos, outras a cor da pele. Aquelas daquele tom de pele que é a lembrar o teu. Também invisível mas já aqui atrás à distância de um pensamento leve. Umas lascas da pequena merendeira intensa de ovelha, curada por fora com uma pele a ficar espessa e ainda sedosa por dentro. Coisas simples vindas de mais a sul e que lembram a mesa que era de casa e de sempre. Viva na memória.

Delito de ser corpo. Devagar. De pensamento. Um corpo amado tem uma arquitectura própria. Tão específica que se deve a um encontro de acaso entre um sentimento e uma genética da qual só se conhece a obra final. Percorre-se num olhar milimétrico e tudo é coerente com o sentido de posse que é a de amar. Não a de ter mas a de conter. Um palmo de pele discreta como o é sempre, a esconder mistérios que é como se não existissem. Não há um veículo que transporte nenhuma função orgânica que transcenda a visão estética. A visão pura. Coincidente. Avança-se um centímetro mais, com a palma da mão onde se concentra tudo. Minto. Menor a superfície do tacto e maior a intensidade. É já só a ponta dos dedos que sente mais e não há mais nada e é o todo que se intui em cada parte e prévio ao desejo. Poder-se-ia dizer que do corpo nasce. Este. Mas é um pouco como se o corpo pré-existente fosse produto do olhar que ama cada detalhe como por um acto de reconhecimento. Sem voz. A este corpo chegam as vozes únicas vindas do tacto e do olhar atento, focado. A ouvir de dentro. Não há mais desejo. Somente espanto, ou devoção. Deito-me esguia como me sinto como sempre quis ser, como uma linha a contornar um corpo ao lado. Em baixo, coberto pelo olhar, protegido do esquecimento. Deito-me ao lado. Deito-me a perder-me de vista. Nesse corpo que é único como o que lhe sinto ser seu. Eu. A elaborar esse corpo. De sentido se do amor que não se faz de mais do que disso.

Dessa paixão por entardecer na praia. Anoitecer. Serenar e silenciar tudo. Restando um estar ao lado, deitada, soturna de tão tarde, centrada e surda. A respirar esse momento – corpo. Ali. Ao lado. Dentro. Como um fado. E destilar-se dos olhos. A encaminhar-se na mão leve que toca somente para se fazer existente. Ou até acariciar o corpo meio ausente. Ali estranho. Em si distante quanto pesado de evidência.
Apago o candeeiro da mesa, chega de realidade, por hoje.

13 Jul 2021

Frutos do bosque

Ou do pinhal. Cidade. Caminho de pessoas que encerram pequenos frutos secretos no cimo da sua verticalidade funcional. Os delicados elementos doces, protegidos em capa duríssima e mascarrada que suja os dedos e que se desprendem das pinhas caídas elas também, tendo como destino terra. Por entre agulhas. Às vezes vejo estes conjuntos aleatórios de pessoas como se transportassem a caixa do gato de Schrödinger, equilibrada sobre os ombros. Talvez por isso tanta intuição de peso sobre estes, na atitude corporal.

Pinhal de paradoxos. É onde crescemos e vivemos. Esse lugar que somente um dia mais tarde, mais tarde do que os primeiros efeitos que se confundem com indecisões, reconhecemos. Como uma coisa a estimar e preservar porque nos prende nos afectos e na razão. Ou então porque é a coisa que nos liberta. Desse preconceito de se ser eternamente conciso e consistente a cortar a direito na vida, sobre tudo e contra todos. Há que estimar os paradoxos que nos definem e identificam aquele pedaço em nós que sim mas também. Ou que não mas mesmo assim. Há que respeitar as luzes e sombras como as contradições que se aquecem no conforto mútuo de pele contra pele. Delas sobra, bem vistas as coisas, o essencial. E do essencial que tarde ou cedo emerge, é afinal a vida, naquilo que não controlamos, que tem um daqueles pequenos poderes que sempre decidem por nós. Às vezes contra nós. Um paradoxo é o conforto de ter duas certezas opostas e contraditórias a cantar em uníssono. O melhor de dois mundos conceptuais ou afectivos. O predomínio crítico da palavra “mas” e o império do “no entanto” e do “apesar de tudo”. A abrangência do “também” e do “que se dane”. O efeito de sobreposição que não exige escolha.

Gostava de saber como se traduz em fórmula química ou por um nome que se possa soletrar, este conforto com o qual não se pode viver senão juntando-nos a ele. Não será, talvez, felicidade. “Uma inundação de ocitocina”, como a designa Coimbra de Matos. Destilada no cérebro por existência de uma presença de amor dentro dessa caixa. Ou: “A constância do sujeito no interior do seu objecto”. Mas é o equilíbrio possível, numa balança que se assume não pender para um dos lados, por mais que recheada de opostos em densidade, peso e medida. Ou na aparência.

Caminhamos pelos caminhos não delineados no bosque denso, avançando pelo sinuoso possível que se nos depara ao contornar cada tronco. Delimitado e redondo como cada ser. E nos intervalos de vazio avançamos. Mas olhando para cima, o tronco de cada individualizada árvore que ao nível do solo se mantém una, divide-se e multiplica exponencialmente por finos ramos. E estes entrelaçam-se e confundem-se ao olhar. Numa amálgama de espécies até. Mas não nas funções que as alimentam. A seiva de uma, somente amarinha pelos caminhos de uma e não de outra. A confusão é apenas aparente, visual. É a visão de fora. E é nesse emaranhado em convivência serena que repousa o sentido de bem-estar, já que nada nos obriga a discernir qual dos pequenos ramos pertence a um troco de sentido e qual ao outro.

Olho para cima e de acordo com as particularidades da hora pode refulgir ou não em estrela uma divergência crua e cortante de raios visíveis que nunca o são, senão assim, filtrados. Obrigados a um grito sonoro de luz. Uma refulgência como se por aproximação pontual de um sol de outro modo ausente na sua distância.

Já de saída do Jardim botânico, lembro-me, deparo com aqueles corpos abatidos mas que conservavam a tepidez visual das formas orgânicas e antropomórficas, sem mácula. Musculatura e meneios de referência ao sentido da linguagem de corpo humano. Quando se exprime. Em dramático desalento ou espera ou desistência. Uma certa sensualidade na languidez das fibras. Um mamilo subtil ou uma axila descontraída, vegetal, um braço a quebrar um olhar não existente. Árvores tombadas pela força de vontade alheia. Corpos acumulados como em vala comum. Metáforas de corpos e silêncio. A morte do conforto dos paradoxos é o abate. Porque as árvores nem sempre morrem de pé. E os cavalos, também se abatem.

Tanta caminhada, hoje. Os pés um pouco doridos a clamar por um banco. Os sapatos que os protegem são os mesmos que começam a causar dor. O paradoxo de sentir e das vontades sobrepostas é o que nos faz descalçar os sapatos mentais de salto alto, suspirar de alívio ou não e dar um laço nas sapatilhas. Mas ambos provocam dor quando se dança a sério. Juntos na escuridão do roupeiro negro de prateleira ampla. A cada um reservado o seu suspiro, a sua carícia. Alternadamente, mas sobrepostos no desejo. E as caixas em que desconhecidos repousam, como a outra caixa que transportamos sobre os ombros e que define os sapatos que levamos calçados. Talvez uns e os outros. Enquanto a caixa permanece fechada.

6 Jul 2021

Do bairro

J. é do bairro. Na verdade é de África mas sabe-se lá quanto de uma pessoa pertence ao passado e quanto pertence ao futuro. O presente é estranho. Um homem quase menino, espigado e magro como um cálamo e quase a intuir-se-lhe esse pequeno passo que o separa, como um vime, de quebrar. O presente em que se apresenta sinuoso um e o outro. Quanto daquele corpo se formou e desapareceu desde que foi um atleta vocacionado e prometedor.

Futebolista daqueles em que há como uma inteligência rápida a mobilizar os reflexos psicomotores como se uma estratégia estudada guiasse no momento certo um movimento instantâneo, uma resposta, um salto sobre o espaço que medeia a corrida e a bola – a abordagem e o domínio – e o objectivo. Um mapa prévio ao disparo. Um animal felino, atendendo às proporções, mas de que a massa muscular desapareceu. O álcool, dizem no bairro, mas já não. Drogas. Talvez. Mas uns dias sim e outros não. E uns dizem que sim e outros que não. É misterioso e sem norte, o que sempre dá trabalho à imaginação.

Trabalha focado. Dilacerado por uma história de insucesso do passado. Pai militar que lhe exigia. Regras. Levantar-se de madrugada porque sim. Um dia o fascínio da dança. Algo nele suspeito de feminino. Mas a dança não seria sintoma sério. Nem a doença, doença. Não podia ser. Não entendi bem a cronologia da rejeição. Algo organiza a dança antes ou depois do futebol. E as drogas antes ou depois do álcool. E expulso de casa. Como pode ser casa de quem é a casa e haver um vómito. Uma autoridade, uma prepotência. Pais donos de filhos e donos de casa e se uns não estão em sintonia com outros, pais que se demitem violentamente de ter decidido um dia dar ao mundo alguém que não pediu para nascer. Mas algo nele adora esse pai de antes ou de depois, como se pode adorar – mesmo assim – quem faz mal. E espera. Talvez.

J. é uma sombra desse atleta pujante e tridimensional. Sobra-lhe a altura mas quebrada de uma certa inclinação com que se mexe, como a tentar não ocupar todo o espaço que a fita métrica lhe admitiria. Oferece trabalho nas obras. Asseado. Com a força incontestável do desespero que não pergunta, simplesmente lhe diz: pega. Meticuloso.

Uns dias, sim. Outros, desaparecido e triste. Não, triste é o olhar todos os dias. Do passado chega ao presente e sem apelo, a adoração por esse pai longínquo que expulsou de casa. Militar. Dono da bola. Como aqueles meninos nos recreios e que negam aos outros o direito de brincar, somente porque podem.

Sobra o presente. Onde não se consegue imaginar a cartografia da memória. A distância de casa. A casa limpa e arrumada, que não paga há dois anos. Custo a ler o mapa em que se desenha este bairro e a dança e o futebol e o tempo vindouro. Se há. A relação com esta rua. A irrequietude com que aparece e desaparece na obra. O olhar que não se prende, talvez sempre presa de outras miragens passadas ou futuras. Aceita um bolo e sem olhar e já lá não está. Arrepia-me pensar que alguém não come o suficiente. J. É do bairro. Todos o conhecem. Resta saber de onde se sente. J. De cá ou de lá. Preso de um desejo de reparação ou de um desapontamento sobre o que poderia ter tido em troca, mas não houve.

Mais esguio do que uma sombra. Persigo-o com os olhos à espera de comprovar se faz ou não sombra nas paredes ao longo das quais se esgueira entre tarefas. Sombrio ele. Mas sem espaço. Quando a obra terminar.

Faz-me lembrar furtivamente as esculturas de Giacometti. O homem que caminha. Mas este, se bem que igualmente fino, furtivo. Com uma qualidade de rapidez e aleatoriedade, que mais nos traz a noção de que há uma mente a determinar, não a caminhada em frente, persistente e imparável, mas a qualidade do movimento rápido, com que se esgueira, esquivo. Está e deixa de estar. É rápido. Uma espécie de felino na floresta urbana. Escuro como uma pantera e sem rasto. Como se algo, à partida, o tivesse apagado.

Mas é do bairro. Como a senhora que ia ao pão com o cãozito pela trela. E roupão turquesa. Gosto deste bairro vindo da idade média e de pessoas que vêm de tão longe como de lá e como eu.

22 Jun 2021

Do prazer (e) da ilusão

E trocar a erudição pelo belo? É o que me pergunto ante alguma distância e secura árida de algum do discurso sobre o discurso. A crítica sobre a obra. O saber sobre a arte ou a poesia, que me faz sempre querer tapar os ouvidos e ver simplesmente. Ouvir. Fruir e mergulhar fundo na ilusão de vida que é o uso da linguagem. O mais sólido e vazio prazer da ilusão, como disse Giacomo Lombardi. Uma astronómica manobra de sobrevivência, dado que o belo nunca desilude. Já a razão é uma barca de derivas abstractas que levam a cenários longínquos e analíticos mas, malgrado a euforia do saber, distancia-se do sentir e do embalar da simples e delicada beleza que em si é simplesmente o que é, sem necessidade de explicação ou fundamentação. Mas como dizer que a beleza seja um malabarismo da nossa capacidade de ilusão sem reconhecer a lírica e lúdica apetência do hedonismo que nos salva de todo o resto, sem graça, sem emoção e sem sentido e nos mergulha na trémula e deslumbrada sensação de pura contemplação. Talvez esta seja a chave do precioso segredo da humildade. A capacidade de deslumbramento. Que nada cobra do universo e em vez disso se silencia atónito ante o ver e o admirar. Nem que seja por momentos.

Ignorar o próprio ser por momentos, por momentos esquecer e render homenagem ao objecto admirado é como abrir as portas afanosamente aos anjos e que entrem que deslumbrem ou sirvam. Isso é lá com eles. Sem juízos e avaliações e pódios. Sem hierarquizar um momento puro e emocional de prazer ante a beleza de uma frase, escrita, pensada ou lida, de um gesto, de uma paisagem, de um olhar ou de uma vida, ou discorrer sobre ela de um ponto de vista crítico.

Às vezes todas as ilusões de nitidez, não para com a vida, não para com nada que nos seja reflectido dos outros, mas com a simples realidade familiar com que nos deparamos em nós. Que pode, de um momento para o outro, tornar-se uma vasta poalha de intermitências indefinições e paradoxos. O querer e não querer e o querer não querer ou o querer querer. Tornando-nos irreconhecíveis aos outros, no indeterminado momento em que lhes parecera reconhecer-nos e logo desconhecer. Talvez haja que manter a ilusão. Um certo olhar.

Mesmo quando o dia é uma correria mas de repente fica com uma textura fina de calma e eternidade. Como se tudo se silenciasse a fruir um momento. Poderia ser esse brilho ainda tímido de sol de primavera e vizinhança de fim de tarde. Ou pode não ser nada de especial, mas algo que simplesmente acontece.

Está bem. Vieste então desinquietar-me e eu encontro uma pertinência difusa e quase impalpável de tão subtil nas tuas razões que não sei. Sei o efeito. Ou antes a forma, depois, somente depois, o efeito. Mas é o efeito em mim. Esse pavor de não entender, que me persegue como monstro papão da infância já com a insónia pontual que haveria, depois, de se tornar personagem de casa. Sem convite, mas amiga estranha e a quem se instituiu o direito de vir depois, mesmo sem chamamento. Lá longe era o vulto do roupão pendurado atrás da porta, um ser de contornos sombrios a apelar um olhar incauto de um sono que de súbito não vinha. Os murmúrios da casa em respiração que dizem natural e saudável. E que se não existisse seria como viver uma casa morta de si. Mas é estranho.

A casa range. É a verdade que me incomoda os passos que sempre quis silenciosos. O universo já é ruidoso por demais.

Depois penso como ser feliz. O futuro a deus pertence, diz-se, mesmo que não tocados de uma fé que não temos mas no assumir simples de que é algo susceptível de tantas variáveis que não podemos controlar, que melhor é não termos essa ilusão de o saber. Mas como sobreviver até lá, é a tarefa humana que me ocupa todos os dias. A de não perder paisagens imaginadas, também.

Como não nos deixarmos tocar de melancolia e pessimismo sem ignorar a realidade humana e a sua inalcançável mas presente e férrea subjectividade. Plena de oxidações corrosivas e dolorosas de variações cromáticas. Mas adaptável, flexível e sempre sujeita a viajar de um extremo a outro.

Deixarmo-nos abundantemente embriagar pelo possível. Pela beleza do possível ou simplesmente pelo belo existente nas coisas. As coisas, um gesto bom, uma carícia sincera. Um elogio à vida como ela é ou como ela se pode construir. Ver. E não como deveria ser e se oferecer. Uma certa forma de ilusão. Como a arte.
O copo meio cheio, afinal.

8 Jun 2021

Carta de marear (apontamentos)

Gesto de adorno. Talvez vazante. Páginas cheias do dicionário. Pensar em quando se diz estar de maré e a qual de duas nos referimos se há duas e opostas e sempre uma que traz e outra que leva. Marear, adornar. Terminações que rimam entre si também. Marear: acto de enfrentar as marés. Navegar ou entontecer a bordo. Adornar, alindar ou inclinar-se o barco, amar ou submergir. O dicionário não ajuda nem mente. Enfrenta paradoxos com candura e serenamente.

Ao reencontro cuidadoso da rota por entre palavras como escolhos visíveis abaixo do vidro. Como as evitar, se delas se faria navegar. A norte desarvorou o barco, velas desamarradas e pouco vento será mais do que o necessário para transbordar o mar. Dir-se-á que serão os icebergs em lágrimas de ainda mais norte a vir por aí abaixo, outra coisa já sendo, a misturar-se ao que já eram mares. Mais subidos e indiferentes. Menos terra maravilhosa de água sido feita.

Menos ursos gordinhos e filhotes felizes, menos tudo. Menos terra depois de soterrada, menos país o que for baixo. Avaliado em tantos discutíveis valores, valeria mais talvez naufragado. Pasto à pirataria inocente e não grave das crianças na praia sem saber nadar. Recolectoras de tábuas de acaso. Tesouros mórbidos e pedaços de outros. Naufrágios.

Reticências afundadas em aquário de peixes soltos. Soltos mas limitados. Seja o domínio da ilusão ou o da relatividade das coisas. Observadas. Através da água com a profunda imprecisão de ser dentro ou fora da viscosidade do vidro. Que contém a água que contém os olhos. Mas sabe-se lá mesmo, se estes dentro das paredes de vidro, lavados pelas águas, ou no recato exterior e ressequido mas a fingir tão bem. Que a ondulação que lhes perpassa na córnea os humedece talvez de uma emoção viva. Que os contamina de realidade química e lhes causa uma sensação mais do que a da ficção, a da física. As transparências ambíguas sem coordenadas de localização. Como a vida é diferente vinte centímetros atrás, ou vinte centímetros à frente. Mas idêntica e límpida. Contudo, às vezes sabe-se que é uma aparência que mente. Como se sabe lágrimas debaixo de chuva? Dentro de um aquário pequeno com água. Microrganismos começam a edificar cortinas verdes. Quem sabe a camuflar um mundo distorcido. Menos nas cores que são tristes. Reais?

Águas livres. Que são como espelhos de verificar existência. As de transparência, as de brilho superficial, as espessas e de profundidade abismal, desconhecida. Fundos de peixes estranhos onde não chega a luz. As límpidas e que reflectem um eu em si e no amor de si e do eu, não me interessam nem nunca. As de opaca profundidade estranha e desconhecida, sim. O outro e o desconhecido em si e em mim. Esse mergulho a pique sem garantias de salvação ou retorno. Umas vezes a tentação, outras o inevitável.

Cartas de marear. Sobre a mesa. Ansiadas. (Mas o meu capitão proíbe. De voz tonitruante, apela aos astros, à intuição e ao olhar para longe. Para um além de nuvens que abarque o espaço sideral como uma folha de araucária caída para ser lida. Diz ser o olhar, a carta. E o ver bem, o marear com calma. Estranhas premissas deste capitão quase se diria poeta. Não fosse o bagaço rude das garrafas atiradas ao mar. Mas espiando, uma noite, rolhadas as vi e imprecisamente repletas de uma forma fina a dizer provavelmente algo. Ou não sei. No seio da forma fina, da superfície grosseira do vidro tosco, no duplo abraço, na água que acolhe engolindo fundo. Algo chegará à margem mesmo que de um tempo por vir definir e medir. Este meu capitão. Afinal poeta a lançar ao mar. O poema e não ele. Que um dia de borco, também pode cair. Se antes, o tempo não levar.)

Ser marinheiro que sempre espera do mar. Mesmo se em terra, a próxima maré. Ser é estar sempre de olhos no mar Mesmo cerrados de intempéries, invadidos de poeiras e iludidos de monstros ao dobrar dos cabos. Marinheiro amador. Nada é por uma jorna. Nem embarcar, nem esperar. As marés que se levantam, as serenas eclosões dos ventos, outras latitudes.

A tinta estalada do sol e do sal. Madeiramentos desprotegidos a flutuar e a ranger. Esperar a maré. Os mínimos para uns dias. Ultrapassar com rigor a linha do horizonte e parar logo a seguir longe da vista. Como brincadeira de criança na curva do corredor. Sobra um edifício mais alto, assim, irónico e visto, no meio do mar, como um registo de catástrofe. Era um farol. Em tempos. E esperar até que a disposição mude como um vento, mas não o formato das ondas. Sentir longe. Apagamento. Sem temporizador. Seixos rolados à mercê do tempo. Interrompidos. Muito tempo e labor.

Maresia alterada da memória como uma mesa rasa e distante na corrente de ar. Ventos opostos. A intermitência do olfato. Respirar devagar para não assustar um aroma fugidio. Enquanto o ar salga a pele do rosto mas sem cheiro.

Uma coisa subtil. Sem sintoma. Deixa rastos como mapas no limiar de sumir. Orlas brancas a lembrar ondas conservadas. O alívio da água doce. Vazante. Uma dor a vir de solstício, uma moinha. Rolar.

Plâncton. Sem mobilidade própria à mercê de todas as cadeias alimentares. Ínfimo. Mas basta redefinir os termos de comparação. Criaturas que servem para alimentar as que servem para alimentar as que servem para alimentar. Inesgotáveis circunstâncias, algo ou alguém. Como mar.

1 Jun 2021

Da desinquietação. Pág. 19

Não me aparece o caderno há muitos dias. Aquele de apontamentos inquietos para ler que página seria esta. A desta sensação indefinida que se insinua por dentro a macular toda a paisagem do dia iniciado de fresco. Uma tão moderada sensação de desequilíbrio, que é difícil entender como, ainda assim, transforma irremediavelmente tudo.

Tudo o que se avizinha e tudo o que em geral se constitui como o que será em frente. O conhecido e o desconhecido.
Mas essa sensação que me revisita é como uma zona demasiado frequente no caderno que mesmo sem intencionalidade no gesto e na procura, tende a abrir sempre no mesmo lugar. O lugar da insatisfação, o lugar da depressão ou o da desilusão.

Outra coisa é escolher o quê e sobre o quê ao abrir das páginas. Sobre que pensamentos e emoções desenroladas e aplainadas sobre a mesa como se com um desígnio de importância que as elege. Que injusto escolher. Como injusto é o dever cronológico e de adequação a um contexto ou um momento existencial, a uma ordem e a uma obsessão de rigor. O anseio á espreita, a aguardar futuro sentido que as reorganize, afaste para ver de longe, e costure de forma que uma realidade com outra verdade se modele da mole dessas frases que as descrevem. E a esta impressão. Acordo assim. Nesta sensação demasiado familiar. Perscruto-a em busca de uma falha, um erro. Peso-a e tento medir forças.

O que fazer disto. Pergunto-me como se abrisse a gaveta onde se guarda para estes dias o caderno da inquietação, que não está lá, mas sim perdido algures na casa e seguramente numa quietude inquietante. Que guarda aquilo em que me detenho no dia de hoje e que tenho a certeza de já antes ter registado ali. Mas hoje vejo-me disposta a arrancar umas páginas. Essas, em que a inércia de um sentir a cristalizar, tendem a abrir por automatismo da lombada com um vinco de demasiado uso.

Todo o dia e desde um início assim se iria desenrolar com esta sensação forte de fim de Agosto. Fim verão ou fim de férias. Do sentido. Da tirania do texto que a impressão vai elaborando ou lembra. Mergulhar em momentos que já não são e não tentar entendê-los. Aceitar as frases em construção. Como se de dentro tudo pudesse escorrer sem retorno.

Pode-se habitar o mesmo lugar, acordar sempre a mesma pessoa e abrir as mesmas janelas a espantar rapidamente o sono da casa em cada madrugada, deixar entrar a luz, mas a luz, também é uma luz diferente todos os dias. O rio que me aparece na janela mais pequena é sempre um enclave diferente na cor, na aparência densa, como uma superfície leve, ou mesmo como um pedaço de matéria mineral sólida. Uma pedra opaca. Uns dias faz-se ver nesse pequeno fragmento, como um ponto de passagem, de um todo que sei de outras vistas e noutros como um objecto em si, uma parte do enquadramento da cidade, inalterado naquela janela, e como uma espécie diferente e pequenina de rio, sem nada que o ligue ao outro. Nem nascente nem foz. Qualquer coisa ali em si, presa mas mutante. E mesmo sem admitir que corre. Se o olhar como mais uma risca na paisagem como a da margem de lá, feita de outras mais elevadas, de diferente recorte e mais acima. E também elas de cor diferente todos os dias.

Pode-se. Entrar no dia ao longo do acordar, como a abrir portas sobre o conhecido e o desconhecido. E pensar que esse conhecido que nos assalta de visita é o peso de todos os dias anteriores. E dele, o pior que se pode deixar entrar é um olhar magoado sobre as coisas. Ou a vida. Ou, implicitamente, na verdade, sobre as pessoas. Ferido de preconceito que não é mais do que o peso inútil do momento já passado a imiscuir-se no presente etéreo e de passagem. Despido dessa névoa de tristeza, que sendo ou não sendo um balanço justo sobre o dia de ontem, não pode ser deixada em frente. Aos olhos. A contaminar o desconhecido do dia. Que tem todo o direito a uma estreia absoluta, a uma roupagem nova e a um olhar limpo do passado. Ser o rio do momento. Como o que passa e simultaneamente está. Mas nunca, ontem ou amanhã.

25 Mai 2021

O homem que olhava fixamente o sol

Há que fragmentar o medo. Frequentar. Enfrentar bocadinho a bocadinho para que a coragem possa deixar-se ser pequena de cada vez. É nos pequenos gestos que não custam que devemos deter o olhar. Pequenos passos se não os conseguimos enormes como a enormidade do sentir evoca.

Há que frequentar o medo. De visita e passagem. Avançar em passo miúdo. Deixá-lo ser. Deixar-nos ter.
Passamos uns pelos outros, sem entender sequer a pele do rosto. A vida secreta da carne. Passar. Desfiar campos onde houve pensamentos. Porque os campos descansam na imanência percorrida do tempo. Pele da crosta à flor, de uma terra que atrai os corpos e neles almas em turbilhão uma espécie de arrepio do frio cósmico que habita a caixa pequena do crânio. Pequeno universo fechado a sete chaves. Pequena chave perdida, a de verdade.

A cidadela de luzes cénicas a afastar os perigos da noite. Uma encenação de vigilância. O que não dorme. Como um suceder de salas nocturnas de museu fechado. As pessoas, no que é visível, deitam-se cedo ou escondem-se portadas fechadas adentro. Qualquer passo, ecoa de longe num som cavo e único como se da última pessoa do mundo e anunciada de longe. Denunciada.

Os cantos misteriosos que tudo podem conter. Surpresas, sustos. Sair das muralhas da cidade, a luz a queimar as areias secas e estéreis, mas é o deserto preciso e necessário. A alucinação dos tapetes de água a iludir os sentidos, sempre. Quando a sede é muita. 
Quando há e se sabe, e a ilusão se há somente depois se soube. Por isso é o deserto sentido e cumprido como caminho planeado e já visto, já conhecido. Caminha-se, a economizar as águas do corpo como se para nada se sentir perdido. E voltar. Os lábios secos e os ossos doridos, os pés, aos muros da cidadela, a casa, aos confortáveis sentidos.

Persegue-me aquele que aquém da fronteira da infância, ao longo de anos encontrei petrificado a olhar o sol. Fixamente. De frente, como experiência literal de mergulho na cegueira. E depois rodava a cabeça levantada e dirigia-me um olhar verde, transparente e com uma espécie de sorriso no fundo que não sei se para mim que passava, ou restos vindos do sol. Não sei se já com o olhar esvaziado da possibilidade de ver. Invejava-lhe apenas a liberdade de parar num lugar qualquer sem se ater à esquadria do lugar ou a preceitos de arrumação do corpo no espaço público. Estava, simplesmente. Num lugar qualquer e sem paralelismo às paredes ou racionalização das diferenças utilitárias. O meio da estrada, como outro lugar qualquer. Ainda o vejo à distância dos anos como se do alto de uma janela para aquele tempo. O rosto nítido barbado de desleixo e impotência. Parado a olhar para o sol.
E se existiu existe. Senão sentido, lembrado. Não pode ter sobrevivido

O que diz da medida em que se é frágil, aquilo que abismalmente se sente, ou aquilo que resta em imagem sobrevivente e visível do exterior. O que diz da força diz da fraqueza? A terra do nunca é o lugar (de) onde se sonha maior… Maior do que nunca…Maior do que nunca por nunca ser.

Com medo da própria sombra que as suas palavras desenham. A fuga para outras. E outras. Como ilhas ínfimas em que os pés quase não assentam de tão mínimas as polegadas de solidez. O olhar errante. O burburinho voluntário da alma a tapar os ouvidos como pode. Que nada entre. Que nada surpreenda, fira, golpeie. Permaneça. Toque. Ao toque.

Venho encontra-lo igual, num recanto dos muros da cidadela. Ao lado do feixe de luz. Parado, arrumado agora como a cobrir-se da sombra fantasmagórica que ao lado subia pelas muralhas. Com o saco de plástico caído pela mão abaixo esticado e a conter um pequeno desconhecido. Fuma beatas que recolhe atrás dos passos dos outros. Acende e logo depois já terminou o curto prazer de fósforo. Deixo cair um cigarro novo e sei que não lhe escapa o gesto que nos protege a ambos. A ele a face a mim o medo.

Sei que o apanha. Depois. Escuro e clandestino. De olhos intensos. De tanto ter olhado o sol na minha memória de final da infância.

18 Mai 2021

Algodão doce

Duas da manhã. Sete da manhã ou onze da noite. Naqueles dias fora do meu bairro, a janela de A. M. E fumar cigarros clandestinos quando não está ou dorme. Suponho que podia perder-me aqui, nesta janela. Com a casa desconhecida e invisível para trás. Como a olhar um único e gigantesco néon de Ginza, da janela de um hotel central.

Um olhar sem obstáculo sobre a transparência do que sinto como a da garrafa de Sun no parapeito. Podia perder-me aqui para sempre na intermitência daqueles anúncios imparáveis e que se sucedem circulares, á espera da figura preferida ou do caracter misterioso na paisagem urbana nocturna, com o céu acima e tudo o resto, dezenas de andares abaixo. Aqui. Olho a janela ampla e panorâmica como se sobre todo um ecrã de vida. Estranha e não vivida o que é bom. No outro ano aqueles anúncios não estavam lá. Blade Runner, disse. Penso no filme “Lost in translation”, não tanto na história mas simplesmente no título. Sempre. A propósito de todas as palavras ditas. Ouvidas. Por dizer.

Das luzes significantes. Vistas ouvidas e mentidas. Sempre em parte perdidas e sempre parte de uma tradução. Fumo escondida por detrás ou para lá da cortina espessa e penso aqui para sempre. Um pensamento sedutor e tentador, esse. De nos perdermos de tudo. Um dia. Só porque tudo se solta. E para sempre, aqui ou algures em movimento slow motion. Olho a paisagem urbana e já não é. Agora outra e a mesma estranha irreverência de se apresentar como sempre, como nunca. Para sempre. E, claro, uma coisa para nunca. Tudo dorme em volta como no meio da escuridão do campo. Janelas a perder a conta com luzes esparsas, desconhecidas, intermitentes no horário. Sobre a mesa, agora uma outra garrafa e a mesma sensação de sempre iguala a nunca. Podia perder-me aqui. Ali. Olho a janela e hoje já não é. Nem Tóquio, nem uma imagem de “Blade Runner”. Mas as margens inalcançáveis da tradução, ainda e sempre que as palavras caírem. Como fotogramas soltos do fio narrativo. Cansa-me a verdade e a mentira.

Escrevo para distrair a insónia possessiva tentando não invejar pensamentos alheios. E num cansaço demasiado para querer verdades nas palavras que se soltam simplesmente a tentar ocupar este espaço imenso em que me sinto isolada. Espaço a mais sem mim. Perdida numa tradução demasiado livre. E com terra queimada pelo meio.

Penso. Aquelas pessoas que nascem pequenas e ficam. E sentem o mundo de pessoas e objectos, do tamanho errado durante uma vida inteira, sem chegar a abarcar o que do mundo se desenvolve acima do seu nariz. Uma permanente desadequação. Jovens tribos urbanas como as nascidas e sempre em transformação no bairro Harajuku em Tóquio, como bandos de pássaros coloridos, de Lolitas doces extra doces ou góticas e que não se relacionam fora da sua espécie. Um microcosmos protector e defendido do real. Sabe-se lá com que olhos espreitam para fora do grupo, do bairro. Expressão de liberdade ou diferença ou identificação na pertença a uma tribo carinhosamente escolhida a partir de heróis de fantasia. Alienação ou fuga aos próprios e desconhecidos personagens privados. Rejeição de si ou do mundo em geral?

Entro. Aliso a saia em tule rosa e sento-me de pernas firmemente juntas, sapatos de plataforma, fluorescentes ajuizados e encostados e costas direitas. Poiso a bolsa de pelúcia de urso polar anão e lilás sobre os joelhos e faço o ar de menina discretamente rebelde mas seráfica acima do pescoço. Tantas selfies se não fosse a entrevista eminente. A enervar ligeiramente, as vísceras secretamente num burburinho estranho sem pássaros e as vozes na cabeça a repetir o discurso ensaiado para enfrentar perguntas invisíveis. O currículo sobre a mesa e o olhar informe do ser ali ao fundo como se numa galáxia distante a olhar por cima dos telescópios. Apetece-me um chocolate, um tweet, desespero por uma selfie, hashtag: ursinhonoantrododragão, hashtag: primeiroemprego, hashtag nãoseisequeroisto hashtag vidareal. Hashtag: nãopossoiragoraaoTwitter. Hashtag: precisodasminhasamigas. Hashtag: entrevistaaoespelho. A minha cabeça não para de tweetar em hashtags. De dentro da bolsa o zumbido discreto das notificações, porque a vida não pára, idêntico ao que vem do lado de lá da secretária. Também o indivíduo ali à frente, sentado de costas voltadas, nas suas funções de recrutamento a tweetar mentalmente: hashtag estecromosaídodaestratosfera. Não posso deixar de fazer uma selfie quando sair. Mas talvez consiga apanhá-lo a ele também, distraído. Embora sem chapéu, podia parecer um quadro à Magritte.

E finalmente, sempre de costas voltadas, contudo, o indivíduo levanta um braço e diz: próximo. Avanço nas plataformas de borracha com cheiro a pastilha elástica e espero que se volte mas ele continua. Uma vista de olhos aos papéis, analisados rapidamente, e só depois, afinal, me encara, mas é através do espelho à sua frente que me olha, fazendo um movimento complicado do braço a indicar que devo sentar-me mesmo assim. Tinha algumas perguntas padrão, pouco empenhadas e talvez já alguém para o lugar. Fico a enfrentar-nos a ambos no espelho. Melhor assim, talvez. Cada um no seu personagem mediado pela superfície plana. A tornar mais virtual e seguro o que de real na verdade nada tinha.

11 Mai 2021

Da desinquietação. Pág. 3

Erro de cálculo é calcular. De que se faz a vida se tudo se imaginar calculável, é uma pergunta a que não gosto de tentar responder. Nem num sussurro por medo de errar, também aí, o cálculo. Antes desdizer todas as previsões e assestar os olhos num pequeno momento de cada vez, de esperar que se somem momentos aos momentos e lançar todas as teias delicadas e sinceras de objectividade, de todas as fibras que constituem – sei lá – o sistema nervoso, o aparelho óptico, os volumes musculares que nos apetecem movimento, as tonalidades de voz, para além do olhar ou das cores. No fundo, bem no fundo nuclear e tectónico, de onde explodem rios de lava e de lágrimas – conforme – centrar. Aí, de onde tudo se retira e escolhe. Não que o tempo se fragmente em tempos precisos de agora antes e depois. Pelo contrário, no seu contínuo, plástico e permanente ser e devir, contém em cada ínfima parte, o de todo inalcançável infinito. É estranho. Num mergulho abrupto em profundidade de possibilidades. A passagem em velocidade da luz por um todo, pelo caminho mais longo. Ou, também como um intangível sulco que podemos saltar quase sem pensar ou deter o olhar. Uma simples ruga na pele do tempo. E atingir permanentemente de chofre o minuto seguinte, sempre em perda por essa é a inconsciência que escolhemos. Ou não. Parar sobre o abismo e nele mergulhar como se um pequeno desvio na naturalidade da perda, é talvez viver a lúcida e inundada possibilidade de, sem cálculos prévios, nos deixarmos surpreender entregando tudo.

Estará escrito no lugar que sempre erra. Que é da natureza e do erro errar o ver e ver o erro à distância do tempo. Estará escrito no passado. Estará escrito no tempo que foi verbo e ficou. Estará. Escrito que o amor é insolvente. Inóspito na forma. A nu. Em que estará onde pode estar. Quem escreveu a salvação diluiu em mágoa. Estará escrito. Mesmo assim. Onde estará escrito que o que quer que seja existe ou morre. E o tempo, o tempo dirá. Do verbo.

Se me sinto, como flor, como apetência de estação, de cerejeira, para quê roubar-me o resto dos dias da semana. Antes do vento. Flores e a efemeridade de tudo. Aprender a dar valor aos momentos de passagem. Porque tudo o é.
Mar e mar.

Mentindo, estar ali em espuma, frescor e sentir. Ou não. Estar mesmo em espuma e ondulante espraiar. Estar ali e não estar. Crescer em ínfimo estarrecer de não ser, ou de entender não estar. Ou de crescer sentir. E explodir. Ficar.

Quantos pedaços fazem sentir e ver e percorrer. Mas não colam ao que de flor florescer. Quantos e como definir, contar, apanhar e envolver. Quanto, esquecer. Quando amanhecer, anoitecer e fenecer. Quando acontecer. Quando. Quanto falta concluir desfrutar, acabar. Esquecer. E, todos os dias, voltar. A estar a concluir a enfrentar a estar. A ir, a voltar. A amar. Marés de mar.

Estrondo invernoso na maré viva. A vida é um desafio formidável. O apelo a um sentido lúdico ou lírico, dramático, sobretudo em tempos de guerra, quando, pequenos, em risco de apagamento. E só por dentro encontro paisagens aprazíveis. E aí estaciono em perspectiva. O plano que se estende do olhar é vasto e a calma que daí se evola, invade como uma sensação cálida em dias frios.

Ou outros dias. Aquela imagem desenhada à pressa no terraço de um bar de Marraquexe em fim de tarde. Por acaso não é Casablanca mas “play it again Sam”.

4 Mai 2021

Da desinquietação. Pág. 2

Levanto-me sempre com uma certa sensação de estranheza numa alvorada que raramente me vê. Mas que sempre se apresenta apaziguadora, quase como um parente compreensivo a quem inesperadamente se pode fazer uma visita sem aviso porque a recebe como a quem é sempre bem-vindo e da casa. E estranhamente grata por iniciar o dia mais cedo. A lisura da madrugada ainda silenciosa, quase a saber a eternidade como a da noite alta sem freio nem sono. Sobretudo se o dia vem luminoso e primaveril, parece prometer todas as possibilidades e instalar por dentro uma espécie de harmonia com as condições atmosféricas e o estado do tempo. Por contraste insinua-se na memória como fotograma perdido ou fora do lugar, uma manhã escura e chorosa qualquer, da infância. Os passos encharcados de uma chuva fria no interior das botas já gastas, e um desconforto que iria persistir por horas, no comboio, na escola, no intervalo e à volta. Como de uma pequena Winnie, sem alguém que diga um bom dia ventoso. Todos os dias arrancada à cama como se para nascer de novo e sem querer. Ainda me acontece muitas vezes. Mesmo porque a escola nunca me deixou.

Páginas aleatórias do caderno. Não porque o dia de hoje é o de hoje.

Tão diferentes do que se é. Abrindo uma página solta no tempo, num lugar qualquer da vida ou do planisfério, todo o arquivo da memória se dispõe a preencher um gesto mesmo se súbito. Mesmo se retirado de um impulso imprevisto e mesmo se, até, desconhecido do corpo que lhe deu forma e movimento. É nisso que cada momento de vida faz diferir um ser de uma página aleatória de um livro. Sem espaço virtual ou físico suficiente para que nela se registe toda a ausência e tudo o que é alheio ao momento que começa num ponto exacto do texto e termina deixando se necessário uma frase em suspenso para se desenvolver até ao seu fim na página seguinte. Muito numa página se tem implícito e remete para anteriores factos ou dúvidas. Mas nada se compara ao preenchimento permanente de uma memória que tudo reelabora e filtra e pesa em cada relance de olhar, em cada decisão ínfima que tomamos ou estamos prestes a tomar, em cada indecisão. Por isso somos contentores carregados e de uma forma de que dificilmente nos libertamos. De uma consistência que pode fazer-nos esquecer onde guardamos um objecto, mas nos leva em qualquer momento a encontrá-lo, porque sabemos onde o guardaríamos se fosse a primeira vez. Há uma estrutura de arrumação que nos faz gostar do que gostamos ou duvidar do que duvidamos. Conviver com um número determinado de paradoxos. Transportar como nossos, sempre os mesmos abismos.

No entanto, como uma roseira madura e enraizada, nem sempre damos o mesmo número de botões, ameaçamos amarelecer precocemente, por vezes, renascemos em folhas tenras inesperadamente e pode mesmo acontecer a secura definitiva. Sabe-se lá porque determinação genética ou exaustão climática. Ou ainda, depois desta, a surpresa de um rebento nascido a renovar o que parecia acabado, como em certas árvores abatidas.

Determinações ambientais surgem como ventanias agrestes a que nem sempre se resiste da mesma maneira. Nesses dias, como barcos. A que se deveria estar atento à orientação das velas para rumar persistentemente, mesmo à bolina, essa forma de aproveitar ventos contrários. E a relação entre forças, dita a capacidade de superação. A qualidade da pintura do casco, a frescura ou desgaste do pano, a conservação dos instrumentos ou a corrosão de ferragens com manchas de ferrugens estéticas mas imparáveis e destrutivas. A decisão certa a cada revés, a atenção que não descura um sinal. Um olhar atento aos pássaros ao colorido opaco e súbito das águas. No mar, as cores dizem tudo. O navegante olha ao longe. E em cada dia sabe que não há descanso. Mas nem todos os dias o encontram com a mesma força, a mesma coragem o mesmo olhar, ou mesmo, por estranho que pareça, com o mesmo saber. Há sempre uma margem de desconhecido em si e de si próprio.

Ocorre-me pensar que, por mais que se seja caracterizado por um clima temperado marítimo ou intensamente tropical, somos países de imprevisíveis momentos que até a nós nos espantam.
Abril ao olhar, já quase Abril. Mas qual, nesta incerteza?

20 Abr 2021

Da desinquietação. Pág. 1

Abro e folheio aleatoriamente e chamo ao lugar onde parei: página um. Qualquer das outras poderá ser a seguinte desde que deixei que ter a obsessão da cronologia por impotência de a arrumar. Não a si própria, mas aos vestígios que proliferam a requerer quase uma outra vida para arrumação. Trouxe aqueles pequenos livros empoeirados e com um persistente odor a mofo e capa em papel ágata, da casa de Z. Fazem lembrar alguns cadernos em que escrevia diário antigamente. Sempre diferentes, sempre inacabados, mas a esta distância venho a descobrir-lhes um certo anacronismo em que sempre acabaram por espelhar a mesma inquietude.

Nunca soube como chamar a cada um: caderno das ou de inquietações, da inquietação ou inquietude. Ou livro, palavra mais curta. Ali tão quieto cada um deles, como pessoa em secreta ebulição. E fico num swing entre hesitações antes de o abrir. E cortar a direito nas coisas que conseguiu abrandar. Fechadas nas páginas com objectos em cima como pedras sobre o assunto. São muitos. Esse caderno. Como um ser de muitas cabeças. Uno e divergente.

Da desinquietação. Espantosa inversão de sentido. Coisas da minha avó Maria Antónia – achava. Não me venhas desinquietar. A dizer deixa-me sossegada. Ou a dizer mais profunda ânsia de se ser deixado na inquietação própria. Irredutível ou necessária.

Ser inquieto é estar na negação da quietude. Desinquietação é a dupla negação que deveria na lógica matemática afirmar essa quietude. Mas não. Cresci com essa inversão de sentido, uma espécie de semente adormecida a germinar lentamente num quase paradoxo que talvez tenha contribuído para esta necessidade das palavras que encontraram refúgio em cadernos.

Quando se enceta a lenta tarefa de desfazer uma casa que pertenceu, encontramos todos os registos de uma vida. Agora, em casa de Z, encontro mais coisas da avó. Ela, que era pouco tolerante em certas coisas, sempre as manteve dentro de modelos próprios e inalterados. Uma métrica que pouco deve ter reajustado no curso imprevisto da vida.

Mas continha as suas impressões inabaláveis numa certa cerimónia, em que defendia os seus de um olhar que parecia imaginar mais intolerante do que o que lhe era próprio. Nessa cerimónia, dizia sempre aquela frase de delicadeza que se esperava de cada situação. Um elogio. Ou uma pergunta discreta que desvendava uma opinião crítica sem o querer. Aos noventa, de figura cada vez mais pequenina, um pouco mais mal disposta com a vida, talvez por o tempo ter determinado que as suas preocupações maiores não teriam resolução. Mas sempre atenta, sempre disposta a arranjar-se para sair. Ela que me perguntava sem perguntar, quando às vezes mergulhava o seu olhar naturalmente dirigido para fora, num abismo de perplexidade, o que é que eu sou. E eu nunca lhe soube responder, mas acompanhava-a momentaneamente na solidão daquela pergunta, num abismo estanque de vizinha do lado. Tão perto e tão distante. Volto sempre a este pensamento quando me lembro dela. Mas também são assim os cadernos da desinquietação. Que falam sempre do mesmo. Como pessoas próximas que nunca se fartam, ou aprendem a tolerar.

Curiosamente, como eu sabia, ao percorrer-lhe o capítulo que faltava folhear, nada se lhe encontra que deixe margem a uma indiscrição. Somente roupas, e essas tão pessoais na sua memória do corpo e nos olhos de quem lembra, as suas roupas do luto e outras e coisas de antiga casa sua. Nada que espelhe uma alma que não tinha necessidade de se exprimir.

Dele, ao contrário, tudo em todos os objectos conta uma história. Do desassossego congénito que se escoava na apropriação de objectos, de gostos, de curiosidades divergentes ou cumulativas, pela excessiva organização que se vê ter um dia perdido o rumo e se dispersou pelo insignificante esquecendo o resto. Numa ausência de critério ou numa dramática insuficiência do tempo que nunca lhe permitiu chegar ao essencial. Tudo isso desvendado da sua clausura. Pelas escolhas, pela confusão e pela eterna incapacidade de arrumar ou viver as coisas. Mas isso sou eu a pensar vendo de fora como um filme cheio de avanços e recuos no tempo e a procurar ir entendendo nele uma história confusa. Nesta incontornável indiscrição com que lhe revolvemos cada centímetro impregnado na casa. Mas não consigo deixar de pensar que também é esse o respeito que quem já não está, merece. Este desfiar de coisas, quase nunca partilhadas, como última homenagem, antes de se esfumarem, muitas delas, num sopro de dispersão para sempre. Que tem que ser.

Não há como querer fugir. Estendo a mão finalmente para um dos cadernos. E depois lembro-me que Z, a quem não faltavam cadernos novos, nos deixou os desabafos mais compulsivos numa série de talões de supermercado.

Há o que se escreve por necessidade. Procura-se o que estiver na urgência à mão. Coisas que fluem livres e delicadas ou tumultuosas a desfazer-se no ar imediato se não agarradas a um suporte qualquer. Acerco-me sempre de uma certa melancolia quando penso neles e vou desfiando objecto atrás de objecto.

Deixa-se para trás o tempo. Deixa-se um lastro em que mesmo as pegadas se podem desvanecer até à invisibilidade. Ou deixam-se marcas indeléveis. Mas em tudo se depende sempre da qualidade do registo e da qualidade do impresso e da qualidade do suporte. Do olhar da memória do outro. Sempre a existência depende do outro.

Também. Deixa-se um rasto feito de desperdícios ou de fragmentos preciosos. Se houver para quem. Deixa-se parte de nós, do tempo e do que fomos, mas o que se pode não o que se quer. Ou deixa-se o que os outros deixam deixar.

Há olhares como o estado do tempo. Secam e pulverizam ou apagam. Outros regam, generosos. A razão é fria. Mas pode servir-se da linguagem do afecto nos gestos, nas palavras e quando necessário suave nos cortes. O sentir é complexo de ingredientes. Uma massa quente ou uma nuvem evaporada de turbilhões que queimam como lava.

Sais de fruto, paracetamol ou cecrisina. Em efervescência em água num copo de salto alto. Receitas ilusórias para a indisposição. Que se instala em dados momentos do dia. Sem razão aparente, consciente, ou com todas as razões. Ou então, champanhe.

13 Abr 2021

Ao de leve

Há dias em que. E há aqueles em que não só. Dias em que eu. E de todos os dias há ainda aqueles que nem se sabe se são ou são piores. Posso até ter a dúvida. Parecem ou são de facto maiores porque cheios ou porque vazios e indecisos. E ainda os outros. E nem sempre sei se. Ou de que lado me desfiar, como os dias

Qualquer coisa sobre reticências. Sobre brasas.

Esboçar o gesto de abrir o tal caderno. Inquietações pendentes. E as fora de prazo. Voltar ao verso interior como um confronto com o reverso escondido por trás da nuca como uma sombra atenta e inseparável. E aos olhos plenos de ilusórias imagens reflectidas mesmo se não estão em frente, resta esse caminho por dentro. Dizem ou voltam mais tarde, como se anuncia num letreiro pequeno escrito à mão e à pressa de tal modo que ninguém repara.

O caderno, repentinas exclamações. Pontos da memória que não se fazem adivinhar previamente. Não na veemência. Somente vêm com uma espécie de força gravítica e o caderno porta custosa que já não se fecha. Resquícios da Pandora diária – mau é saber-lhe o nome.

Ele dizia pára de cantar para dentro. Irritava-o mas não era eu. O siamês mais velho que me doía à mesa. Ele, que era de si tão reservado, cantar e ser calado. Pelos cantos a ler. Uma concentração feroz como um sono profundo.

Tinha que se dizer três vezes. Aprendi que era uma coisa boa. Mas nem era cantar, mais do que um gemido que se escapava sem querer do interior da cabeça. Nem da garganta onde retido tropeçava nas cordas vocais, lento e custoso, nem do estômago. Talvez do nariz, no intervalo entre garfadas. Uma mistura de respiração e uma ideia de música que nem chegava a modelar-se. Por fora. Mais tarde entendi que nem sequer seria música, sei lá. Era tensão, o que sustinha a respiração e porque tudo era difícil de antever e ela escapava-se mesmo assim da força que queria retê-la na barriga. Por debaixo da mesa para ninguém dar por existir, talvez. E eu a olhar por debaixo das sobrancelhas. O queixo um pouco descaído a apertar as palavras. Um pouco triste em cada um em que, também sem querer que se visse, apontava os olhos. Um porque calou e o outro porque mandou calar. A mesa quadrada de lados equidistantes que se ligavam por linhas esticadas como elásticos em risco. Mas o ruído do motor do aquário gigante podia ser. Pela noite adiante. Enfio o queixo na gola da blusa das riscas. Não a dele mas igual, quase. Feita com as mesmas lãs e as mesmas mãos. Tudo quente.

Vêm sem saber como, imagens que queria assim ao de leve. Mas poisam como mantas fortes e pesadas que paralisam tudo por minutos. Ondas. E como um relógio parado, ficam nesse tudo trazido de longe pungente e quase insuportável.

Nenhum tinha culpa daquele encontro à hora errada entre o som que nem era para sair e a irritação trazida de mais cedo. Coisas encobertas e que saíam como aquele som e as que eram desviadas de intenção no alvo errado que se colocava ante os olhos, num dos lados da mesa quadrada. Há uma cadeia alimentar, com a infância na base mais inadvertida, mas há acima dos que estão acima, algo que os consome também. Às vezes invisível.

Queria folhear ao de leve o caderno mas cada página é um poço a mergulhar a pique o instante para longe. Um poço estreito com atrito e dor na queda provocada. Impossível voltar atrás. Mas é antes um túnel de que com a mesma verdade com que se entrou, se sai para outra luz por mais que de melancólica tonalidade se tenha colorido. E cobre-se com a tampa pesada do que não se pode esquecer nem quer lembrar. Um ponto de água subterrânea no logradouro do prédio. A produzir luminescências, erupções e salitres nas paredes.

Pensar nesses que se somam como periferias, sem os saber diferentes de outros dias. Outros como vulcões, terraços em ruínas e balaustradas em risco e um chão que não se tem em si para passos indecisos á beira. E aqueles que não. Em que se flutua na superfície e tudo chega sem aprofundar. Ao de leve.

Era talvez uma araucária gigante que procurei até hoje reconhecer em cada beira de caminho. Uma forma, a densidade das ramagens quase rentes ao solo e uma sombra. Porque tudo se distingue pela sombra. Que produz nas superfícies numa relação privada com a luz. Um abrigo pouco acima da franja da criança solitária, que brinca não sei a quê em silêncio quando a outra criança surge do portão esquecido aberto. Uma extensão de relva impecável e numa extremidade somente a árvore imponente. Uma memória de ficção como o são todas, de um filme, e da infância. A doer de tripla fantasia. Uma criança, paradigma do estar em si solitário na alienação de um mundo repleto de outros e cercada por um muro alto.

Não sei porque isto venceu na memória tanto de esquecimento. A pior coisa que se pode deixar avançar na memória, é a memória de sentimentos. Da infância porque é difícil, sobram árvores de pé quando os adultos falham. E tudo o resto. O acaso de um portão esquecido. Talvez a árvore impressionante. Ou só aquela linha de sombra.

30 Mar 2021

Concentração

Vagueio pela casa de mim orvalhada não sei se eu se esta vida aqui disposta.

De um certo poema de vazio. E é como se por muitos dos momentos em que me contento em enfrentar-me tudo reparando finalmente que em mim existo me diga que é pouco quando queria de mim fazer a suficiência que não vem de outras paragens. Onde andam os outros que tanto se ausentam onde andam os espelhos cobertos de invisibilidade eu neles eles de mim e assim mais sós esvaziados de imagens que dizem como estou a gastar-me.

Nada é monótono nem contínuo desfiar de dias sempre encontrar as mesmas páginas irresolutas e sempre este grito que não sai por civismo e hábito. As palavras custam a encontrar o timbre prolongado de socorro e acusação. Ao que de outro não chega ao que de outro se alimenta da minha respiração. Em que me concentro devagar.

Mas nem sei se de mim há ar puro que sirva a alguém quando assim me vejo com as palavras diárias sem novidade sem extensão que as liberte daquilo que disparam.

Deviam liberdade a esta boca cheia do que desce de uma mente em círculos. Maldigo-as porque são pobres que sempre voltam sem os ter ensinado a ser independentes. Na mesma pobreza insuficiente. O que se quer das palavras senão que resolvam se revolvem devem alivia se descrevem devem entender e se compreendem devem sair para viver. E não voltar.

Ideias amantes têm connosco uma relação de hábito. Dão-se ares de que nos pertencem à casa, reclamam dos vinhos e reparam numa ruga nova mas recusam um novo recanto. Um parágrafo, um itálico. Do corpo.
Penso-as hipócritas a maquilhar rostos degradados repetidos e vãos. Espreitam em vão de escada por isso a passagem e voltam a enrolar-me os braços em volta e voltam a repetir-me falsas cumplicidades aos ouvidos cansados. Mas eu não as queria mais e por vergonha por não querer ferir-me na sua hipotética lealdade duvidosa mas possível tenho no fundo um medo de que se forem não voltem nunca mas mesmo nunca mais e delas venha a precisar. Que há tantas outras mas algumas me são amantes do costume e não sei se sei passar a outros braços e a outros fluidos de aroma diferente. É um vício o conforto de uma intimidade. Um abismo tudo o que se avizinha em volta uma temida dificuldade em descobrir o desconhecimento e uma apavorada dúvida de poder ser aceite amada e desvendada. Por outras palavras feitas. Ideias que cheguem desconhecidas e bravas em estado bruto. Mesmo se de desvendar já não se faz o gesto de anteriores palavras. Amantes.

Não as deveria deixar andar com a chave de casa para entrarem e saírem a seu capricho e gosto. Há dias em que não as quero. Há dias em que não quero outras. Há aqueles dias em que me são indiferentes e precipita-se a vertigem de um certo não sei o quê de afecto pela superfície das coisas. Não quero as profundidades sempre presentes e não quero os rostos maquilhados delas a encobrir a idade. Tão velhas a ficar como tudo ou mesmo eu. Repetidas e gastas e de dentro algo tende a rebelar-se das novas gerações de mim como em juvenil revolta de afirmação. De retrocesso de não querer o gato irisado na pele nem o tédio de tanto sentir sem saída. Em que eu preciso de revirar todo o eu sacudir de pernas para o ar como roupa despida para extrair dos bolsos toda a carga meio esquecida a fermentar poeiras e a dar de um certo eu esta ideia vencida.

Depois eu penso qualquer outra coisa como ou naquela expressão da Pina Bausch: “Dance, otherwise you’re lost.”. E danço.

23 Mar 2021

Novas dos icebergs (3)

Continuam.
Como este universo mais vasto em que queremos ler passado e futuro e em tudo um espelho. A humildade, que o paradoxo de Fermi-Hart nos deveria colocar em mente. A grandeza dos números e a escala do universo, gera uma imensidão de probabilidades da existência de mais vida no universo, mais inteligente e muito mais antiga, e o confronto, ao mesmo tempo, com a estranha e completa falta de evidências, E coloca a questão da insignificância.

Talvez face à desproporção entre os recursos, a inteligência humana, e a vastidão incomensurável do universo a que queremos adivinhar vida, civilizações e inteligências maiores, e, a sê-lo, inimagináveis à nossa escala e á distância de números transcendentes de milhões de anos até ao alcance da capacidade de vislumbre ou pressentimento, tenhamos simplesmente que as imaginar civilizações mais avançadas, sofisticadas e predatórias, que nos achem demasiado irrelevantes para se darem a ver.

Talvez, pensam os imaginários das ciências, tenham cá estado antes. E, à distância de um tempo, para eles ínfimo em termos civilizacionais e para nós a diferença entre já existirmos ou não. A nós que dificilmente, mesmo ignorando os seres enternecedores que nos cercam, conseguimos imaginar que outros mais antigos, mais ocupados com coisas mais avançadas e maiores, nos ignorem. No seu atingido registo inimaginável, mas seguramente de grande vocação predatória e conquistadora, em que a ética a empatia seriam meros atavismos anedóticos de um passado irreversível. A menos que a evolução as determinasse, como um recurso de sobrevivência. Coisas pouco prováveis em civilizações muito mais sofisticadas do que a nossa mas que são já fáceis de reproduzir por uma inteligência artificial.

Ou talvez planeiem voltar na sua próxima primavera. Daqui a milhões de anos. E seremos no máximo vestígios arqueológicos ou restos fósseis e registos microbiológicos, como os que sonhamos encontrar em Marte, nesta paixão pelas dimensões do tempo que nos ultrapassam ainda mais. E talvez descobrir esses vestígios de vida em Marte, camadas de passado, seja a pior das notícias. A de que estamos a contemplar o futuro por uma nesga da janela que abrimos. Fascinante. Indizível curiosidade mórbida de saber ter havido vida ali, que já não há. Como querer saber o momento da morte. O futuro.

Esse futuro, que não parece augurar nada de bom. Chamam-lhe o grande filtro. Um conjunto de variáveis que um dia vai conjugar-se e nos reserva a desaparição. Da qual não ficará qualquer sentimento póstumo mas simplesmente antecipado.

De qualquer maneira, em termos civilizacionais, já demonstrámos o enorme poder e uma espécie de vontade suicida subliminar, de tornar inviável a sobrevivência, acelerando o desgaste do nosso pequeno paraíso terrestre, à nossa escala de pequenos números na vida do universo. Mas imaginar essa escala como realidade presente, é triste e rouba toda a energia para viver o curto instante de cada uma das nossas pequenas vidas, mesmo na insignificância que esse infinitesimamente curto momento, como os segundos, representa na escala de grandeza do universo. Uma coisa muito jovem a terra na qual estamos encavalitados. Não vamos longe. Mesmo quando vamos a Marte numa espreitadela irresistível. A um futuro possível lá. Uma fuga para a frente, para cima, para um futuro como se sempre o houvesse, ou como uma estratégia de terra queimada.

Queimamos e fugimos para cima. Rumo a Marte.

Esta paixão pelas paisagens inóspitas mas quase familiares, desérticas, agora lunares – semeada a metáfora – de Marte. Como uma página em branco do romance terrestre a projectar-se ali. Sem vida, já, sem cultura ou qualquer estrutura social. Uma espécie de visão total de liberdade na ausência dos outros. Que provém de todas as ausências. A liberdade de pensar o futuro e uma civilização, simplesmente com base na ciência. Do possível ou do impossível. Mas não chego a concluir o paradoxo deste olhar. Pensar, ver, o nosso futuro ou pensar o nosso passado numa perversa antecipação. Um relance num passado abismal e num futuro, o nosso, igualmente vertiginoso. Como uma linha do tempo, esticada e visível até perder de vista.
Mas antes de menos infinito e de mais infinito. Porque mais para aquém ou para além, somente deus. Se há.

O que sabemos é que é ali o maior vulcão do sistema solar, o Monte Olimpo. Afinal era ali a morada.
Somente para nós há este aperto de quase emoção presa na garganta quando a vemos, azul e terra, por momentos dissociados da nossa visão de dentro e imersos na fantasia de a ver de fora à distância inócua como se nela não contornássemos ou enfrentássemos dilemas diários. Mas de Marte a visão é mais distante. Um ponto luminoso no espaço para além. Major Tom, não hesita. Mesmo à distância de contornos reconhecíveis, desligou-se do apelo vão do ground control. Uma utopia que talvez nos atormente – a todos – em certos dias.

Esta experiência do corpo raso na plataforma de gelo. Como uma performance na galeria virtual. A monitorização – the new black – do poder. Opostos, o calor e o frio do gelo. Poderes que teoricamente se afectam mutuamente. Destroem. Dissolvendo fronteiras, em contacto um derrete o outro petrifica. Tendência ao equilíbrio. Imagine-se o corpo, o calor como afecto, deitado contra a superfície gelada, o frio ou a força do inevitável. A força do calor potencialmente a derreter o gelo e a enorme combatividade do gelo a transmitir progressivamente a sua temperatura ao corpo. Que nunca vai perder a forma, mas ganha a rigidez do gelo. E este, pelo contrário, perderia a sua cristalização e seria no final água. Poderia ser imagem da desproporção dos valores humanistas face a outros poderes mais determinantes: a política, a economia a ambição da ciência. Ambos, calor orgânico e frio cristalino, com a possibilidade recíproca de se destruírem. O calor é o afecto como o frio a força do inevitável. Sabe-se à partida que vence neste jogo injusto de forças desproporcionadas: a variável sempre imiscuída do tempo. O que define o poder do mais forte.

Talvez por isso e circundados de abandonos, ansiemos seres de além. Mas separa-nos o tempo em unidades que nos transcendem. Tempo e silêncio.
O Grande silêncio, “silentium universi”. Aquele que nos diz que, se nada de lá ecoa, é talvez um intervalo de paz entre as inúmeras possibilidades. O silêncio da noite do universo. Enquanto durar – dizem – é bom sinal.

Mas será sempre à nossa escala de insignificância e imperfeição, o encontro com o que pode salvar. Para uma geração em que muitos avós não acreditaram que poisámos definitivamente os pés na Lua. Volto a encostar-me, numa lassidão de alheamento, talvez “floating in a most peculiar way”, ao ombro quente da vida. No sofá da sala. Mais meia hora, a esta escala, e há que desligar o forno. Os aromas a inundar a casa são uma sólida realidade, como a da veemência invisível de pegadas no chão. Na telefonia Lulu Monde cor-de-rosa, quase vejo Major Tom “stepping through the door”. O que deixa um sabor melancólico, a imortal paradigma de juventude.

16 Mar 2021

Novas dos icebergs – 2

Não há novas nítidas das fissuras a evoluir. Não chegam aqui os estertores do rasgo na carta dos gelos. E dos icebergues suicidas, que me emocionam desde que vieram notícias. Que se desprendem sem querer da mão gelada de que são parte e derivam para paragens estranhas, como elefantes para morrer sós. Mas nunca tão sós que não sejam espiados pelo voyeurismo satélite, das agências internacionais, a ver morrer. Alguém, na televisão, aproxima-se numa vertigem, da janela. E recua. Eles não têm caminho de volta. São como crianças enormes, sem culpa da força que têm. Mil quilómetros quadrados, a libertarem-se sem querer. A quebrar numa linha de fronteira, de desenho inédito e silenciosa nele, a configuração de um mapa. Gelo de ninguém. Para degelo futuro.

Deixar o mapa em cinzas azulados e voltar a Marte. Um pouco como ir e voltar. Ou como sonhar e acordar, sonhar e acordar. Olhares, como aquele que distraidamente se lança de manhã ao aquário de peixes exóticos para verificar que tudo está como na véspera, cintilante, movimentado, colorido e indeterminável. Hipnótico. Eles, nos seus circuitos fechados e sem saída, senão para a morte. Uma predestinação que já vem da loja.

E as florestas húmidas, de chuva tropical, de um planeta com estações e uma natureza de cortar a respiração, por momentos esquecidas quando sonhamos com os monitores virados para Marte. Aquelas de que todos dependemos, a ser depauperadas por interesses privados. A precisar de um lirismo de sustentabilidade, a dar o nome a um brinquedo qualquer que voe e faça esquecer a ganância e o lucro. E milhares de milhões em qualquer moeda forte, como nos programas espaciais. Para criar miríades de satélites, a nova moda em constelações. Monitorizar. Pouco evoluímos em termos civilizacionais, com este voyeurismo científico. Podia pensar, por analogia, na moda do “birdwatching” que veio substituir para alguns predadores a cultura da caça. Mas não consigo deixar de pensar que de tanto se observar, nunca chega o tempo de actuar. E ficaremos, lá mais para a Primavera, de olhar embevecido a contemplar a evolução do pequeno helicóptero, um brinquedo que vai ensaiar o primeiro vôo durante um mês marciano de trinta dias. E cujo único desígnio será sobreviver. A sua alma de brinquedo não o sabe – e por isso o nome – mas não tem outra missão de vida. Como a verdadeira ingenuidade. Que pode ser uma forma de avançar, mas em que a verdadeira questão secreta, será sempre se consegue resistir à manipulação, à maldade ou ao cinismo.

Talvez o pequeno helicóptero tenha mais hipóteses, com a sua sofisticação tecnológica. Mais preparação do que nós que tão pouco investimos nisso e na sustentabilidade do planeta, dos valores. Mas a ingenuidade, diz José Luís Peixoto: “(…) faz o sangue circular com mais fluidez do que o cinismo. A ingenuidade desconhece o colesterol. O cinismo é hipertenso.”. Não sei se tem razão porque às vezes dói tudo. A taxa de mortalidade é grande e pode ter outras razões. Livros cheios de nomes possíveis para as coisas. O contrário de inocência. É terrível nomear.

Deixamos para trás os icebergues deprimidos e desistentes e esta terra em colapso lento e visível. Esta poética em cinzentos azulados ou em verdes húmidos e ricos.

E Marte, esta curiosidade com tanto de subliminar porque o espaço é alheamento. A crença do inabalável que parece tapar-nos os olhos. O presente a que queremos fechar os olhos e Marte, a adivinhação do futuro.

Ficámos naquela pergunta ingénua centrada numa camada poética da realidade dos nomes. Bonitos, concordámos. A dar que imaginar, impregnados de inevitabilidade. Ingenuity. O pequeno helicóptero, que vai soltar-se do ventre tecnológico do rover Perceverance e cujo desígnio é, somente, sobreviver. Testar as possibilidades de sobreviver à temperatura drástica e negativa. Engenho pequenino, de menos de dois quilogramas com patinhas delicadas de insecto e umas hélices para redemoinhar sobre a cabeça, fará justiça ao seu nome de baptismo. Não saber mas acreditar ou o contrário, quer tenha sucesso quer não o tenha. Porque o grande desafio da ingenuidade em si, é sempre: não onde chega, mas até que ponto sobrevive.

Fico a pensar na perversidade do nome mesmo para um objecto. Um anjo tecnológico que vai voar. Ou é animismo, questionar a razão de se fabricarem anjos. Estas coisas de sonhar. Asas de desejo, que são as coisas terríveis da infância e as únicas que vale a pena não desistir de sonhar, realizar e deixar chegar a adultas como nascidas aí. E de novo sentidas, sonhadas, vividas e realizadas. Ir a Marte. E voltar. Sonhar em companhia. Na idade dos mapas. Depois da solidão desfocada ou impensada, da infância.

“Que me sinta, ainda hoje, ingênuo e imaturo (quer dizer, somente com os defeitos da juventude e quase nenhuma de suas virtudes) não significa que eu tenha o direito de exibir essa ingenuidade e essa imaturidade.”. Diz Mário Benedetti a fazer-me pensar na inutilidade de todas estas palavras.

Lindo, isto dos nomes Ingenuity e Perceverance, concordamos. Mas é o do helicóptero e talvez porque voa e traz devaneios, em que me detenho mais. Se a ingenuidade é perigosa, quando é matéria pura de sonho. Quando assestamos o olhar para mais longe, sem saber mas a acreditar. Como nos verões da infância para papagaios de papel e aviões pequeninos de precário motor. Nesta fuga em frente e para o espaço longínquo deixando para trás o que assim se assume irremediável. Este planeta preterido em função de uma fuga futuramente possível. A realização de um sonho qualquer.

Se eram lindos. Os nomes. Sim. Diz um de nós. Não importa qual. Mesmo se discordamos. O que é relevante: esses dois monitores diante do olhar, dois olhares. Que num momento qualquer se cruzam. Pensamentos que se encontram por dentro, nesse infinito e infinitamente intangível, para ambos os lados da interface dos olhos. Neste silencioso ir a Marte.

2 Mar 2021

Novas dos icebergs – 1

Ou não. Aquele momento insinuou-se numa poética em cinzas. A poesia que surge em claros cinzentos não é nova e se bem que luminosa, melancólica. Por outro lado, há as pequenas coisas e em cada uma, uma ligação a algo maior. Links. Azuis acinzentados. Uma cor variável muito pouco saturada. O gelo marinho ou as neves, em camadas com uma subtil química diferente. O momento começou assim, mas terminou na densa complementar laranja. Os cinzentos de um drama frio, longe da ribalta, num planeta a aquecer e depois os tons potencialmente quentes do planeta vermelho, frio, frio. A ver o futuro.

Em cinzentos. Uma falha enorme, uma linha cortante e progressiva a desenhar a cartografia da desolação na plataforma de gelo de Brunt. Um lugar paradigmático de vazio na Antártida. No silêncio dos brancos nas imagens adivinha-se o som de um estalar quase tectónico e igualmente brutal. Uma rotura que se vai delineando em quilómetros de um desenho imparável, que por estes dias, não se sabe quando, deixa de ser apenas uma linha de fissura irreversível no mapa gelado. E desprende-se do colo gelado materno um novo iceberg, ou talvez dois.

Irmãos. Órfãos que iniciam, então, a deriva. Ou a rota previsível do suicídio. Do tamanho de duas cidades de Nova Iorque. Ainda mais do que o necessário para os Martinis gigantes dos deuses que nos contemplam, irónicos. São fotografias da NASA. Mas não as dos deuses.

Todos os dias a subliminar apetência à elaboração de mapas, á revisão de planos cartesianos a dimensionar a distância, referências ou camadas de verdade espacial nas coisas sólidas e por inerência nas que são impalpáveis.
– Encontramo-nos em Marte.

Acedi como sempre ao tom incontornavelmente definitivo e misterioso, do enigma em que não se conhece cota ou afastamento e portanto de geometria impossível. E à recusa subjacente em definir pistas ou desenhar linhas no mapa imaginário. O único à mão. E que, como todos, é formado por camadas de diferentes estratos. Não geológicos, mas de verdades sobrepostas e com uma desfocagem inerente àquilo em que umas, como camadas de transparência, diferem das outras, na multiplicidade de contornos e na variação das linhas que demarcam fronteiras. A história, a política, as religiões e as lutas territoriais, a flutuação dos povos, a sucessão de camadas no tempo, a desfocar a leitura de um mapa. Das fronteiras que variam em função de guerras e também de sentidos. E as histórias que se contam, olhares, contos e pontos que se acrescentam. Ou a terra ela própria a criar uma narrativa de registos visuais. Ler as camadas, Também. Como épocas na história da estética.

Um planeta no céu é sempre o ponto de encontro do olhar. Cruzado em cima e lá longe. Não sei se dizia isso quando o disse. A ideia era descobrir no enigma dos dias, a viagem a fazer. E o mapa, de momento, caído como sem vida nas mãos, desdobrado, a desvanecer-se em silêncio e a diluir-se em tonalidades difusas, de pouco mais que invisibilidade.

Vejo o seu olhar atento à espera do meu caminho imprevisto. Dos erros. E sinto-me espiada enquanto enceto caminho. Procuro. Talvez guiada pelo óxido de ferro. Aquela cor quente seca e em corrosão como as palavras que não se entendem, as dúvidas.

Viajo à beira dos desertos. Do Arizona. A vastidão a secura e o desabitado que é. O vento. A cor. A terra. Um canal de irrigação serpenteia e desenho uma linha de viabilidade na terra desértica do estado. Quando o homem quer, tudo. Lembro de novo a fractura crescente no mapa do gelo. Olho pela janela e no cinzento quase total do dia, a custo algumas cores tímidas e persistentes se afirmam em voz baixa.

Aquela terra árida e seca, mas fértil. Somente a precisar de ser regada, acalentada. E os monumentos que a erosão esculpe e que inspiram uma sensação de irmandade que nos repreende de tanto reagirmos ao desgaste da memória. Da dor. Ali, o desgaste construiu. Chamar-lhe nação Navajo, ainda, é uma triste demagogia. Mas ninguém.

A paisagem é deslumbrante, desértica e esculpida com minúcia arquitectónica. Monument Valley. Formações rochosas como grandes catedrais, erguidas pela própria terra em homenagem a si. Arenitos. Camadas que são registo da sedimentação, que ecoa a depósitos em rios e mares. Conchas e fósseis e areias de quartzo e feldspato e micas de reflexo luminoso vítreo, aglutinadas por um cimento natural que preserva a memória das eras. A dizer tempos sobrepostos. Perfis. História. No planalto do Colorado, na linha de fronteira entre Utah, Arizona e Novo México. Os quatro cantos. Com os grandes montes rochosos de uma coloração rosada. Dos óxidos de ferro. Os mesmos que em Marte. Daí que possa ter-me perdido no caminho, atraída ilusoriamente pelo mapa de cor. Mas óxido de ferro parece ser a mesma coisa em qualquer ponto do universo. Hematite. Ou, às vezes ferrugem. Uma coisa bonita mas que estraga, voraz.

E dali, daquelas sílabas, como voltando de uma viagem, fomos sentar-nos no sofá da sala, como duas páginas de insónia, cúmplices. Encostámos a cabeça, a ver. Num monitor Marte e no outro os desertos do Arizona. Num filme de John Ford. Os mesmos laivos rosados e ferrosos de terras diferentes e sonhos parcialmente idênticos. A verdade é o que vive no interior da nossa cabeça. Mesmo encostada a outra. E no fundo é indiferente se contemplamos a abóbada esférica e estrelada do planetário, nos confins da infância, a paisagem desértica que nos seca os lábios, ou um paradigma além nuvens, porvir para sempre. Separado por duas atmosferas e gravidades e muito espaço-tempo sideral. No meio de uma tempestade global de areia que envolve o planeta numa nuvem perene e avermelhada, ocultando crateras, cavidades abissais e outros registos cartográficos. É indiferente tudo, menos estar. No veludo puído e alaranjado rosa, do sofá, com todas as descolorações e colorações de muito viver o peso dos corpos sentados ao fim do dia. Encostados. Nas suas verdades estrangeiras. Penso: de todas as ficções, qual é a verdade viva. Dentro.

Em que o espaço se abre, de uma forma ou de outra ao olhar e nas suas múltiplas imagens desertas.
Marte e essa solidão concreta. Que cenário fabuloso, silencioso, estranhamente familiar, e que solidão verdadeira. Como somente aquela em que se acredita. O paradigma da ausência total. Do humano, dos objectos, da memória, dos vestígios. Marte, os desertos do Arizona e outros desertos.

Depois penso nos nomes dos brinquedos a percorrerem Marte. O rover Perceverance e o helicóptero Ingenuity. Olho para o lado e pergunto-lhe se não é lindo…

23 Fev 2021

Boi metal

À beira de um novo ano como de um abismo, de um anseio fundamental. De uma porta. O novo ano a rimar com animal. Proust com cafeína, tigre com Borges e boi com ano mental.

Volto ao bicho. Explicar o bicho como adivinhar o que aí vem.

Precisamos, humanos, da adivinhação genérica, cautelosa ou expectante do mundo, em cada fronteira de um ciclo. Chegar à beira de uma etapa com a motivação de um reinício. A adivinhação, a astrologia, os oráculos de culturas milenares e outras formas de previsão do futuro, sejam elas a resposta de uma divindade, o fruto de uma inspiração, o “enthousiasmós”, que significa ter deus em si, ou o estrito cumprimento de ritos, espelham uma espécie de fé confortável na predestinação. Desocultada essa e desvendados os olhos de quem pergunta. Também outras leituras do destino, do Tarot ao I Ching, na abordagem de Jung, para quem a mente era de carácter simbólico, remetem para a tentativa de compreensão através do olhar mergulhado no inconsciente. O ser em busca de um entendimento de si mesmo por meio de arquétipos. Como o inconsciente a revestir-se de um carácter mediúnico.

Explicar o Boi, o touro, o búfalo, o bicho, impossível como explicar a vida. Tantos e tão diferentes como os dias. Há que amar os animais difíceis como os dias e os anos. Cheios de dentes e garras afiadas. Um búfalo é um boi que gosta de água e cobrir-se de lama para refrescar, resistir. Depois uma camada gretada e seca assemelha-o a um pedaço de terra. Enorme torrão domesticado. Com uma gravidade espelhada no semblante ilegível e todo o estar gravitacional. Compacto como mundo físico. Preso ao solo como uma erupção da terra. E a sonhar na água, quando não trabalha de cabeça baixa. Os chifres como uma balança. Se há justiça na dedicação do esforço e da superação

Explicar o touro. A impotência face ao acontecer. Um arrastão que se consome em força. Porque o touro não é um boi como os outros. Tem a revolta de se ver na arena. Como nós. A possante imposição do que é terreno e, espicaçado, com os cascos a raspar ávidos em fúria no chão.

Situamo-nos nesta arena, às vezes destemidos de tão pouco saber. Penso na investida do animal em fúria. Touro a investir e a morrer na arena. Fúria redonda, força bruta e determinação. Mas penso naqueles cornos pontiagudos ou boleados a colher em frente. Também gravitacional e preso à terra, como uma erupção. Vulcânica. E como tal lhe sai ruidosamente pelas ventas o sopro da ansiedade que o cerca e provoca. Como humano suspiro fundo em momento de desespero. Vida livre e predestinada a este momento. Do desafio à humilhação e anulação. Para catarse, o espectáculo do outro. Na sua irracionalidade de toneladas. Manipulada por quem conhece dele o que não conhece de si, às vezes. Porque ele também não conhece de si. Há que amá-los, esses bichos corpulentos que nascem domesticados, nascem planeados e predestinados. Também eles sem saber a quê. Um sentido e um destino que só se dá a ver no momento do cumprimento. Da arena. Nada sabem de si, mas estão. E resolvem a prova do momento que surge sem escapatória, na raiva do reagir. Com todo o seu peso, em frente sem contudo poderem fugir ao desfecho final. Brutal metal. Às vezes revejo-me nele, no bicho. Quando estou em mim e o vejo em mim e revejo-me nele além de mim, vejo-o como se vê o mundo e o outro.

É a primazia do instinto sobre a objectividade. Um pujante avançar na rotina dos dias. No confuso evoluir. Ou desenhar o ano. E é o minotauro que me espera ao fundo e os labirintos. Espero até ao fim do labirinto, no fim do labirinto. E até ao fim do tempo. E não mais, porque mais não pode ser. Mas ficará uma voz a ecoar. Ou o eco, somente. E depois, um outro ano. Animal.

Este. O escarlate de Veneza a correr nas veias, tinta de séculos com cor de vasos e de versos, esse brilho insensato do sangue perdido. Sangue de boi é o nome da cor de sombra e do sangue do animal. Virado do avesso em couros, tecidos e tintas. A oxidação do sangue a escurecer como uma profética coloração de que a morte recobre os seres. Com poemas escondidos em vida por detrás da pele. Um golpe e é cor. Fica bem na morte, o vermelho vivo, que esmorece e se ensombra, como a vida se esvai dos olhos do animal. E são as coisas da vida e da morte, que nos trazem os anos. Da morte se faz tintas e tingimentos. Da vida explorados os sentimentos, fingimentos e outras formas de fazer úteis os pigmentos. Gosto dessa cor como sangue da terra. Sangrada do boi terra quando se esvai. O avesso da vida se faz morte e mesmo a morte se recicla. Em memória, também. Coisas estranhas em círculos cruéis. De vida. Os anos que se sucedem, os dias, os animais. E os que nós somos. E que não sendo iguais, somos sobretudo como eles entre eles, diferentes, vivos e mortais.

9 Fev 2021