Mundo. Ou cambiantes tonais

Pequenina, quando me sentia triste, cortava em fragmentos ínfimos, um monte de papelinhos e tecidos e lançava-os da janela só para ficar a ver a sua evolução aleatória, o rodopio em subidas e descidas, volutas leves, feitas e desfeitas, descritas no ar mas sempre e inexoravelmente a descer. E queria prolongar essa visão mais do que o possível. Por aqui fora, talvez todas estas palavras, frases ou fragmentos de umas e outras, possam ser de uma forma qualquer, o mesmo mecanismo de lançar pequenas células com um percurso descontrolado e aleatório, com inúmeras recombinações possíveis. Assim o texto pudesse fragmentar-se e reajustar-se sucessivamente aos olhos de quem vê. Formado de todas as possibilidades.
O mundo. Esse conceito estranho que logo resvala para a divergente bivalência interior- exterior e para dela não se emancipar facilmente. Que leitura tem este estranho vocábulo que não implique a existência do olhar, dos muitos e por vezes múltiplos olhares. Que não os invalide que não os inviabilize como perspectivas fechadas em si, e que não os acolha como possibilidades dispersoras de uma necessidade atávica de um ponto de vista uno. Que mundo é este de fronteiras difusas, que nem o corpo, quase mais como matéria simbólica, torna estanques, mas que ao invés, perversamente se diverte em contínuas permeabilidades entre a razão, árdua elaboração orientadora de pendor, para alguns, profundamente lógico, as inevitáveis dores de um plasma emotivo que não conhece razões mas outras armas bélicas que ferem, e como armas que são, irracionais mas certeiras, e outras variadas instâncias de voto contraditório como a vontade, a cegueira parcial que a circunscreve, o desejo, este um sintoma mais absoluto de pendor vectorial, a validade da memória como alimento. Ou resíduo.
A experiencia do mundo que se faz muitas vezes da viagem. No espaço e no tempo exterior ou interior. Levamos mais ou menos bagagem connosco. Dessa, cada vez para mim fazem menos parte, as certezas. Mas uma mala é em si o mundo também. Levamo-lo sempre pequeno ou grande. Há a permanência de um dispositivo ético ou há a fuga. Em frente. Sempre. De si ou de tudo ou de âncoras virtuais, utópicas ou odiadas. Um olhar rotativo. Visão lateral…120 graus de ângulo. Ou tubular.
Desde sempre me lembro de fazer a mala para partir. Em viagens imaginárias. Em criança, este exercício lúdico entretinha-me as noites antes de adormecer. Repetido infinitamente. Até hoje. O que levar numa mala pequenina. Um desafio de síntese repetido ao longo dos anos. Sempre valorizando mais os objectos de afecto, a memória afectiva ligada às coisas, do que as razões práticas. Uma espécie de balanço de essências. Talvez sem pensar, nesse tempo, me reorganizasse interiormente a partir das escolhas. Ainda o faço.
Pensar o que levaria. Mas há momentos, há mesmo momentos em que nada. Nada mesmo. Hoje. Talvez não conseguindo, ou tendo vindo a progressivamente não conseguir e cada vez mais, encontrar âncoras de conforto nos registos que consubstanciam a memória das coisas da vida e das pessoas. Desvalorizando mais do que nunca os objectos. De que me rodeio, de que gosto. Que espelham continuamente tanto do que foi a vida. Algo deste sentir é ainda de forma imprecisa, toldado pela recente emergência substitutiva dos suportes digitais. Tudo quase cabe num disco externo de uns quantos gigabytes de memória. Mas sendo memória, nem por isso acrescenta nada à que se detém no suporto orgânico e com as lacunas imprevistas que ocorrem. Perdi muitas coisas inadvertidamente no espaço digital. Ou virtual. Mas não sei se a memória que se perde faz falta… Perdi a memória duas vezes. Parte da memória. Restaurada depois. Duas vezes no intervalo de dez anos e em virtude de grandes quedas e traumatismos do crânio. Corridas loucas no início da adolescência, primeiro, demasiada susceptibilidade a uma visão chocante, depois. Fatias, níveis ou camadas de memória que deixaram temporariamente outros dados residentes sem contexto alcançável. Uma sensação lúcida e estranha da falta quase palpável. E das memórias, há aqueles dias em que lhes custo a encontrar o perfume.
Mundo. Ou cambiantes tonais. Não. Não o mundo. Ou também. Mudo em cambiantes tonais ao longo dos dias. Das horas. Não como uma folha levada por diferentes aragens, mas pela permanente atenção ao que se desfia ante os olhos, sem estrutura prévia nessa circunstância simples e algo aleatória do olhar. O meu, no momento na circunstância do espaço. Conjugações desmultiplicáveis em variantes, sem sequer se alterar racionalmente a escolha. Pequenos acasos da atenção e da percepção, das rotinas e de acontecimento não controláveis. Um mundo do sensível em constante mutação de cambiantes tonais, pleno de contradições, assim, inapropriável na sua forma invertebrada. Sinal dos tempos. Também. Tão cansativo. Ou seria preciso explicar o inexplicável da amplitude do tempo. Em mim mais lento. Ou pelo contrário sentido demasiado voraz. Sinto-me resvalar para uma abordagem de certo modo desalentada e fragmentária da consciência de mim. Dos outros. Assim me afogo nesta desmultiplicação de escritos em lugares dispares. Assuntos que saltam de tudo para tudo e para nada. O nada. Mas também para nada mais do que este diálogo com uma outra de mim que é o ouvido estoico. De outro modo seria monólogo. Mas anda-se a configurar cada vez mais o ser fragmentário. Em camadas que já não se mantêm sobrepostas para uma leitura em profundidade, mas sim desacertada de um eixo único. Com não uma, mas múltiplas rotações próprias e translacções variáveis em torno de demasiada visões. Preocupações. Fracturantes. Esta minha enorme obsessão pela estrutura, pela organização e pela lógica, anda em ruptura e sofrimento. Estarei a – para além ou deixando mesmo para muito atrás a racionalidade toda que sempre me ocupou – tornar-me pré-socrática por facilidade. O mundo sensível em mutação, a ciência em mutação, as pessoas. Júlio Ver inventou um certo futuro. Mas que teria sido futuro sem ele e o mesmo talvez. À ciência também antecede a imaginação, algum sentido visionário da vida e das questões por resolver. E também no ser, não lhe entender uma estrutura ou intencionalidade e simplesmente a resignação ao registo das sensações, determinantes de emoções. Bem, mal. Bom, mau. Mas a apreensão de um mundo sensível, do sensível, como a abordagem da razão não têm as características nítidas de um interruptor que liga e desliga, acende e apaga em função de causas, consequências.
De ontem para hoje, de súbito, o dia anoiteceu mais tarde. Com a sensação de uma enorme lacuna entre a última vez que terei reparado e o momento de agora. Esta estranha e conhecida propriedade do tempo de se expandir e dilatar ou ser uma porta abrupta de esquecimento de um algo impreciso para outro, figurado nesta simples sensação de estação a mudar todos os dias.
Há uma beleza nas formas naturais, e em algumas em particular a minha alma desvanece-se de espanto. Nas flores. Na estrutura única de cada folha com os seus caminhos para a seiva. Mas a beleza vai até às partes mais recôndidas da sua estrutura celular, das implicações biológicas da organização das partes, dos múltiplos olhares por camadas de aproximação até à máxima transparência das paredes celulares, dos habitáculos das células, por aí fora, ao nível já dos átomos e de todas as partículas recém descobertas. Há no desenho das estruturas uma beleza própria que me fascina e não se fica só pelo visível. Não é só uma emoção estética no plano mais exterior e feérico da exaltação da cor das texturas ou das formas. Encanta-me a estrutura reticular das células. E saber da actividade ininterrupta nelas.
Os filósofos da antiguidade, com a sua preocupação metafísica com um mundo sensível, em constante mutação, inapropriável, cambiante. Num constante nascer e morrer. Ser e não ser. E fora dos limites essenciais platónicos, o que não muda, não é circunstancial e é comum a todos. Aqueles que se perguntavam neste território de contradições haveria um ponto médio do caminho a que se pudesse chamar permanente ou estável. Neste olhar sobre as cambiantes do mundo natural, qual seria o verdadeiro ser das coisas. Abordável através do logos ou da razão e nunca por via dos sentidos que registam um mundo de contradições e meras aparências. Ou que todas as coisas estão cheias de deuses, não como concepção mítica, mas o reconhecimento de que o universo é dotado de animação e de que a matéria é viva. Mesmo a matéria das palavras. Cheia de deuses, também. Escondidos. Que geram reacções insondáveis como se pela sua própria vontade e não por atributos lógicos das mesmas. Mas as cambiantes neutras da alma, as paragens também estão cheias de vida, uma vida mais lenta, ou mais esforçada, ou menos forçada, numa lucidez própria com um movimento que necessariamente também desemboca em algum lugar do ser. Por vezes mais adiante. Mas não demais. A água como o princípio de todas as coisas. E o fluir das partículas ou do caudal, metáfora de intangibilidade dos sentidos. A corrente como oposto à solidez do objecto que ostenta o nome. Anaximandro considerava que o nosso mundo era só um de entre uma infinidade de outros mundos, e que evoluiriam e se dissolveriam em algo de ilimitado ou infinito. Não se referia a uma substância desconhecida para ele mas a algo de anterior às coisas criadas, limitadas, estas. Substituir mundo por sentido.
Há uma imagem.
Aconteceu esta, hoje, mas não perfeita. O caroço de um fruto. No centro de uma camada circunstancial e degradável pelo tempo. Ou ingerida. O que sobra. Onde se reúne em síntese todo o ADN. No fundo toda a informação genética, neste caso. Que detém a possibilidade do recomeço. É talvez o cerne de tudo. Há um núcleo com uma vida potencial própria em que se encontra o essencial. Há que saber extrapolar desta imagem. Talvez assemelhando-se à noção de punctum como a entende Roland Barthes na sua “Câmara Clara”. Relativo à fotografia. O cerne do sentido. Mas sentido nunca desligado do olhar de quem é abalroado por algo que dispara da fotografia que não é inerte, e rompe aquele afecto genérico inicial. Como uma flecha incisiva. Que trespassa o observador. “ O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica e apunhala)”. Nas palavras de Barthes. A importância decisiva do acaso que o faz desvalorizar as fotos encenadas. Remete-me para a encenação, mesmo que involuntária do sentimento de si. Do ser. De novo a imagem onírica da mala de viagem. Que leva e o valor relativo. O que se leva na mala. De todos os dias com algum desleixo. Mas a escolha das grandes viagens. Mas parece que a vida se faz do anódino das escolhas do dia. Sem rigor.
E esse núcleo essencial, acredito, por vezes, para além de todas as camadas expressivas, para aquém de toda a comunicação possível – impossível – de todos os padrões existenciais e de todas as circunstâncias, tem o secreto anseio de ser reconhecido em todos os detalhes do seu recorte. Aprofundadamente. E aceite.

13 Mai 2016

Contraste simultâneo

Estar triste. Estar tão triste, que mais nada se apresenta nítido. Por momentos. Tão triste quanto a alma permite como limiar do impossível. Quase a tocar. Tanto que quase se sente inviável a ligação a um corpo que parece teimar, com uma energia própria, em não sucumbir. Alienado dessa paragem de toda a vontade que não seja ficar ali. No território de uma tristeza sossegada. Legítima. Quase confortável. Ou tão inquieta, que às vezes a alma parte por aí tumultuosa e em desespero. E eu vou atrás dela para que não se perca, como criança desassossegada e inconsciente. Numa corrida em que nem a apanho nem a perco de vista.
E depois, estes dias de um sol brilhante e de um céu azul, denso e sem mácula. Os brilhos intensos em tudo e mesmo na mais ínfima folha de uma planta. Virada para a luz. Com uma intencionalidade que não vem da consciência impossível de uma planta, mas de um outro saber. Saber da matéria orgânica. E é tão bom. E não haver melhor do que dias assim. E mesmo assim estar triste. Triste e bem disposta. Ser triste que sou. E depois, voltar aqui. Bem ao meio deste longo lamento contra os optimistas bélicos. E já ter que dizer os dias como hoje envoltos também numa película nebulosa de cinzento. E voltar de novo a este lugar do texto para dizer que já chove.
E nesse retorno, sentir que grande parte destes parágrafos é um refrão que se repete e de que é preciso recortar figuras ou formas e guardar para outros dias. Às vezes guardo pequenas frases, palavras bonitas e soltas, de que gosto como contas ou pérolas. Que não ficam bem neste colar mas quero guardar para um outro. Há detalhes fúteis em qualquer emoção existencial. Que o pudor teima em relegar para locais menos nobres. Caixinhas como de bijuteria da vida. Mas o refrão que por aqui abaixo começa por se repetir, vi-o depois excessivo. Preciso para mim como na música. E, mesmo aí, de tão insuficiente que repito por horas quando a alma mo pede, a mesma, sempre a mesma música. Sem desfitar de uma mesma emoção. Sem saturar. Até um ponto. Mas demais aqui. E recorto a custo. Figurinhas como de papel. Tristes.
Sim, às vezes o mergulho é a pique e só a música condiz com a forma da minha deriva. Instrumental às vezes. Vozes roucas quase humanas como a de violoncelo, que parecem desentranhadas da alma. Ou não. Outras vozes. A encobrir as que temo e me possam enlouquecer. Desarticular. Perder fragmentos. Ou perder-me em fragmentos, talvez. Uma harmonia que custo a encontrar na longa lista de possibilidades. De músicas. Que procuro de cabeça meio perdida e impaciente de encontrar. Depressa, para poder parar. Estacionar no lugar dos sons. Voltar à tristeza. Específica como nenhuma, na voz em que preciso de a encontrar. Do momento. Que acolham o que sinto sem oposição e sem luta. Num embalar ao que anda desvairado, sem casa e sem apaziguamento. Como um antídoto particular e, como estes, feito da mesma matéria química ou sensível, mas não para que anule o veneno. Só para não fazer demasiado mal. E, é na música, quando tão sóbria quanto preciso, que se desfazem nós de angústia. Não da angústia de estar triste mas de toda a impossibilidade dessa paragem que não pode ser. Desse desalento confuso e maior, que de tão volátil, impreciso e esquivo, se mantém intratável até ao momento de uma certa calma. Um certo silêncio de todos os desesperos e o retomar das necessidades básicas. Comer, por exemplo. Ou dormir, que é uma coisa de abandono. E às vezes começa a insinuar-se uma certa indiferença fria e distante. Outras vezes um sentimento já de quase mesmo aversão àquilo ou a quem nos faz triste. À vida de todos os dias. Ao esforço que exigir sempre cada objectivo.
Mas ser o estar triste não uma doença, e não contagioso ou contagiante. Alimenta-se de dentro. De sonhos e expectativas. De passado e de futuro. E de perdas. Passadas – como passadas foram as do caminho percorrido – e futuras. Onde me levo de novo à eterna questão de ser ou não o passado perdido. De ser ou não ser, ter sido, o ganho que se tem garantido. A alegria é-o do momento presente. Quando é. Mas a tristeza, a minha é um substrato inerente ao meu modo de não desistir do muito que gostaria que a vida fosse. Que existe na base da minha alegria de às vezes e da minha boa disposição. Mas não é que seja um pessimismo teimoso. Nem estar triste por convicção, nem feliz por religião. Às vezes, acho-a uma tristeza boa. Como um bom cão, de guarda a sonhos que não quero perder. E um bom cão, guarda o dono até na morte. Talvez também os sonhos.
Ou dizendo de outro modo, que os sonhos, mesmo os impossíveis, não podem ser como castelos de areia. Há os que se vão com a primeira onda e os que são a estrutura do que somos coerentemente. Mesmo nas impossibilidades que reconhecemos em nós. Que estruturam a partir de um ponto no infinito. Esse abismo. Para dentro ou para fora. Longe ou perto. Perto ou longe.
Dias há, de caminhar sem rumo. E dias sem sair. À procura de algo que se afastou da paisagem avistável. Noites compridas sem sono. Sem vontade. Sem vontade do sono. Sem querer um dia novo de caminhada sem norte. Procuro as brasas do fogo de sempre e perdi-as. De vista. Perdi as coordenadas que sempre me levavam ali mesmo na cegueira. E caminho para esvaziar a mágoa indistinta, imprecisa, ténue. Sem lhe saber contornos diferentes de outros dias, a mais do que um vazio que se vai instalando. De ausência palpável do que não estava lá. Talvez sonho. Talvez mesmo aquela força subterrânea que faz do sonho uma espécie de realidade paralela. Possível. Tão imaginável. É talvez isso que se desfez sei lá como. Uma intuição ou uma fraqueza de fé. Caminho pela noite à procura das luzinhas ténues de um fogo já rarefeito. Brasas quanto muito. E deparam-se-me muros. Fechados. Com gente ali. Mas eu sei que este não é meu caminho. Longe de tudo. Caminho pela noite de braços cruzados e cabeça baixa contra uma aragem fria. Ou não saio. E é o mesmo. Não sei quanto estou perdida e longe. Não sei. Não sei se posso voltar ou de onde. Não sei. Não vejo. Dias assim. Ou momentos que nem minutos têm de vida. A esperança, talvez. Essa espécie de ciência da adivinhação que nos projecta em possibilidades e de algum modo dá sentido à, aquém dela, inexistência de algo. Dizer que adivinhar não é uma ciência, afinal. Mas que dizer de Júlio Verne ou da capacidade de sonho e antecipação que estão na base do labor científico…Que inventa antes de descobrir. A diferença entre uma verdadeira pergunta com um ponto de interrogação no fim, ou um devaneio a não querer mais do que o sonho da possibilidade de perguntar sem uma resposta fechada em si.
Dias assim. Ou momentos que nem horas têm de vida. E depois, subitamente ou devagar, o desgaste. A erosão própria a estruturas complexas e de muitas texturas incertas. Nada no ser é liso em termos existenciais. Redondo sim e etéreo na sua geometria de forma abstactamente redonda. Arquétipo de tipologia esférica. Mas a existência recobre de irregularidades múltiplas e que são mais frágeis à corrosão. Estar triste e depois já não estar. Sei lá…
Mas às vezes era preciso que alguém dissesse: Não faz mal. Estar triste. A tristeza é natural e a tristeza não é má. Porque estar triste é resistir à fragmentação de um eu que, ou não sente, ou não é filho de boa gente. Como o luto. Tudo faz parte da unidade facetada do que se é, e é numa harmonia em que é proporcional a tristeza, à importância que se dá às coisas, às pessoas e aos sonhos de vida. Que se perdem que desiludem que desamparam. E a nós próprios naquilo que sabemos não ser, que não sabemos ser, mas que não perdemos de vista. E é assumir que isso teve um valor positivo mesmo que em sonho ou expectativa.
Contraste simultâneo ou o elogio da tristeza. Ou a felicidade de gostar, em contraponto com a tristeza de não ter. Não por se gostar de ser triste. O elogio da tristeza porque é fundamental viver os paradigmas. Neste mundo infernal o paradigma é a alienação possível. Daqueles que se não vitimizam. Fugir à fragmentação da alma de cada vez que se vê contrariada, frustrada e triste. À tentação de deixar descartados sentimentos e sonhos como se de nada tivessem valido, de cada vez que são frustrados e contrariados. Rejeitar a troca da coesão de um ego amante de coisas amáveis, pela constatação de que não estão maduras para si. Estão verdes. Não prestam? Porque a utopia é esse oásis da melancolia, sempre à espreita, esta, de cada insucesso. Ou a tristeza. Ou ser triste. Digo. E contradigo. O que não é diferente ou contrário a ser bem disposta. Ser as duas coisas. Como uma avaria lógica. E alegre também. Independentemente. E muitas vezes – quase sempre – as duas em simultâneo. Contrastes. Só nunca fingir.
Tenho esta maneira de estar triste, e eu estou tantas vezes triste, mas muitas vezes triste e bem disposta. É isso que é para mim uma estranha combinação. Tento que os meus lábios não curvem para baixo para sempre. Como forma de resistir à devastação da mágoa, tento encontrar a disposição que retém alguma da ternura que me constituía dantes, como antídoto à mágoa. E todos os dias há situações que magoam. Algumas mais indeléveis do que outras. A desilusão em crescendo. Mas fazer o impossível para me não afundar nela e construir o desenho do que amo e quero reter, mesmo que à custa da memória, mesmo da que dói, mesmo que à custa de um olhar distanciado. Segurar-me nas franjas de uma realidade que posso reter com os olhos. E às vezes advém daí uma inesperada sensação de euforia vital. Que não anula a tristeza subjacente mas a desfoca momentaneamente mantendo a certeza de que lá está mas um pouco recoberta de outros pensamentos e da energia necessária a vencer a inércia da mágoa. Não vou dizer o indizível da esperança sem nome e da inabalável fé no devir. Vou antes serenar no lirismo possível de tudo ser possível até prova em contrário. E que ao fundo não se avista beleza certa, mas há uma curva no caminho que desculpa a invisibilidade e deixa em aberto o que para lá se desdobra no tempo. Essa ocultação necessária, porque a vida se faz de epifanias pontuais e precárias e de ocultações misteriosas e aliciantes, e que é a pedra de toque de um sentir em aberto e triste, muitas vezes. Mas não sem redenção. Gosto da crueza do real sentido. Tal e qual mesmo a doer. Ou de, noutros momentos uma certa indefinição. De não pensar e não sentir nem desistir. Estar triste e pensar que vestido levo ao aniversário de N. Que dê com aquele batom. É a vida. Que é cíclica como as marés que não se suportariam sem a alternância de cheios e vazios. E feita de todas as cores.

Não sei porque se diz de cores, serem tristes. Tristes umas, contentes outras. Alegres. E destas: vivas saturadas ou puras. Sem quebra. Sem misturas. Do branco, do negro ou do cinzento. Porque se diz das que são suaves, estáticas, mudas… Não sei por que analogia se lhes chama tristes. Sei. Já as que se chamam alegres, vivas, dinâmicas, violentas, mesmo. Contrastantes como excessos. Mas vejo uma estranha variedade de cromatismo nas emoções tristes. Que vai desde o maior silêncio ao maior tumulto. Porque também este é um sentimento que se envolve de razões e causas de emoções que se fiam num mesmo cordão. Como se, nesse paralelo de calor e intensidade, a alegria fosse um conjunto de paralelos a partir do equador. A partir de um ponto tórrido e desvanecendo-se progressivamente de violência. E a tristeza fria e informe como as cores diluídas. Sempre de uma mansidão calma e desmaiada. Em hipóteses contrárias me perco na memória, de muitas tristezas diferente. Ao longo dos dias e das horas. Com os contrastes possíveis como os das cores. Lembrei-me dos Delaunay. Sobretudo Sónia. Os contrastes simultâneos entre cores puras. Quentes e frias. Como segredo para intensificação mútua. Mais ainda se forem complementares. A estonteante dinâmica perceptiva criada pelos grandes discos concêntricos. Uma euforia de vida. Uma agitação que se liga ou mesmo confunde com alegria. E a sua contribuição para um cubismo a que faltava lirismo, cor e luminosidade, por tão intelectual e austero. Mas não para mim. Em que tudo se faz de tudo. A sobriedade que pode haver na alegria suave e a violência do apagamento na tristeza ou a dinâmica do tumulto interior. Quando não se aliena o sentir só porque está na moda ser alegre e positivo. O que há de pessimismo em estar triste quando se está em perda, mas se gosta daquilo que se perdeu. O que será tão contrário ao optimismo, no assumir o valor da demolição de um sonho, enquanto se sente, em vez de mobilizar um alheamento alienado daquilo que nos constrói e caracteriza. Como se só a victória de um sonho o tornasse válido. Ou se do desapontamento não sobrasse o gosto de se ter esperado o melhor. Até uma suave impressão de ter sorte na tristeza porque significa que algo foi preenchimento. De novo como a imagem das marés. Sem uma a outra não faz sentido.
Gosto daquele nome que ganhou o movimento dos Delaunay. Orfismo. De Orfeu o poeta mítico. Ou cubismo órfico, ou lírico. E da sua raiz conceptual na enorme semelhança entre a música e a exaltação da cor. O mesmo lirismo. Feito de contrastes, ou harmonias suaves. Mas como se poderia exaltar a cor sem o reverso que a faz brilhar. E de novo, como as marés. A vazia a criar um arrastamento do qual só aquele momento de paragem e a imediata e inexorável subida que se lhe segue, torna suportável. E o contrário. Nas pessoas também. Em cada uma. Só.
Contraste simultâneo ou a última palavra. Entranhadamente triste. Devia ser esta. Ou voltar em síntese, ao optimismo e ao pessimismo como faces reversíveis. Ou ao quase paradoxo de haver de ambos na tristeza. E de não se querer facilmente que nos arranquem dela como de casa. Porque, diria triste, as pessoas não gostam da tristeza. Como um bicho feio. Incomodativo. Como um espelho a arrastar para baixo. E querem empurrá-lo à força para fora da sua visão e de nós. Mas não é um bicho feio nem mau. Tem de todas as tonalidades como a música. Ou as cores. E marés como o mar.
Os dias são assim. Texto tecido.
To be continued…

6 Mai 2016

Pela calada da noite

Gosto desta expressão. Tão ao jeito das noites no Alentejo, pejadas de cigarras ruidosas mas feitos ruídos estes, da matéria daqueles campos e quase parte do silêncio. Uma estridência ininterrupta a que o ouvido de vez em quando se acostumava. Aquela terra grande, sem vestígios de grandes sobressaltos geológicos, topográficos.
O Alentejo que é a minha terra, embora não a terra em que nasci. Que foi a minha terra, uma, naquele sentido em que, na cidade, muitos têm uma terra remota donde vieram e onde voltam sempre na melancolia de ser divididos. Da família. E de um tempo perdido lá atrás à medida que uma geração mais próxima foi desaparecendo no destino incontornável em que desemboca cada vida. E que é já quase só memória, inalcançável senão como tal. Perdida. Amada mas perdida. O sol inteiro possível em 360 graus de horizonte. Tórrido naqueles meses de agosto. Lá muito atrás as tardes em que se atravessavam ruas brancas da cidade, de uma luz quase insuportável. Um vazio de gente e o silêncio inconfundível do calor abrasador. Ou, nos fins de tarde, as terras amareladas e secas do campo direito. Onde as sombras se projectavam para a frente ou para trás a partir dos pés e até tão longe, que pareciam querer destacar-se desta amarra. O Alentejo sempre me deu aquela impressão benfazeja de que o mundo é grande e nele as dores, ínfimos pormenores.
A cidade de pais e avós e de uma família enorme com uma margem imensa de ramificações, já só conhecida dos relatos e histórias retiradas dos álbuns da memória e daquelas fotografias muito pequeninas, focadíssimas como uma filigrana. Memória enraizada ali, entre a cidade e o campo. Em redor de Évora. E porque as raízes não se podem arrancar da terra, éramos nós que sempre voltávamos para as visitar. Eu decidi que era de lá que eu era, há muitos anos. Quando entendi que mesmo essas coisas se podem escolher. Só não se pode escolher, às vezes, reter para sempre uma memória que já se liga à vida por laços demasiado ténues. E aí é o momento de deixá-la partir. Com a partida dos pais. Um para os espaços etéreos do céu, outra para os confins longínquos, alheios à memória. Já não há a quem perguntar.
Mas deixá-la partir para o seu canto, e habitar para sempre o álbum, custa. Revira-se de todos os ângulos a estranheza de ser assim. Que tem que ser. Sem naturalidade. Ou entendendo a inacreditável naturalidade inerente. Afinal. Como se todos os actos de simples respiração, em determinados momentos, fossem difíceis de vencer sem deixar de pensar no movimento que a produz, como se assim o corpo se esquecesse de respirar pela inércia de sempre. Como se todos os passos não dados fossem o amor às margens mais do que ao rio. Diferentes olhares. O do lado da margem, um estar mais pessoano, em Reis, por exemplo. A desistência prévia e a contemplação estoica do não ser, não querer, não fazer, não sentir. Ou a ausência de tudo numa síntese de plenitude muito mais perto do cerne do ser. Um pouco cósmico e alheado das amarras circunstanciais de uma existência enredada em mecanismos. Porque diremos margens de sonho, se é o rio que é mais livre e na sua fluidez imparável, eternamente renovado e o mesmo em si apesar de tudo. Como entidade. Independentemente de as águas serem indistintamente outras. Que tem este rio que contemplo em comum com o de anteontem ou de há um ano. Tudo e nada. E no entanto também os rios envelhecem. E os sonhos. Porquê nas margens, excepto naqueles momentos de violenta rebelião dos elementos, em que extravasa por elas adiante tumultuoso e sem percurso ou caminho que não caos e acaso.
Os meus tios José e Maria. De nomes simples e bíblicos, e pele de rugas marcadas como à faca, castigada pelo sol imenso. Ele de olhos pequenos e fundos de um azul inesperado e ela muito pequenina, muito gordinha, e que nos dava uns beijos rijos, repenicados e húmidos, como ninguém. Maria Rosa. E, encostada à empena cega do monte, a maior roseira, de rosas salmão, que me lembre de ver. Carregada de cima abaixo daquelas rosas, perfumadas de uma doçura ligeiramente ácida, e que o meu tio José, talvez a disfarçar o secreto orgulho, dizia ter de podar para fortalecer. Coisa estranha para mim, imaginá-lo a cortar aquele fenómeno lindo e pujante…
A vida destes meus tios, dava um romance. Mesmo depois da morte daquele sonho de cooperativismo e da reforma agrária em que embarcaram, quando desembarcaram vindos de África. Para onde fugiram da pobreza e de onde o 25 de abril os fez regressar. Dava um romance, sobretudo a dele. Até ao fim, recentemente. Ele que teve durante anos um enorme Mercedes em segunda mão, dos anos setenta, encostado à horta no meio do nada. Que conduziu muito tempo sem carta porque não sabia ler. E que, quando a minha tia se foi para o céu – porque foi – guiava por aqueles montes e bairros limítrofes, imagino eu, para seduzir com intensões sérias, viúvas de negro. Todas elas idosas, estranhas e deprimidas, uma de cada vez, e com quem vivia até ao limite do suportável daquelas depressões alentejanas. Que não eram para ele.
Os meus tios em cujo monte, muito mais lá atrás, em pequena, dormia sob enormes cachos de uvas e réstias de cebolas, pendurados nas traves dos tectos de telha vã dos quartos. E que tinham com eles aquele enorme cão preto que era nosso mas vivia ali, o Nilo, que lembro como um pequeno oásis, como desértico era aquele pedaço de Alentejo. Aqueles meus tios, que viviam sempre num estranho limiar a rondar a pobreza, porque o Alentejo era duro. Uma terra ampla, mansa e parada. E que um dia, bem mais tarde, num outro monte, mandaram abrir um poço na ânsia de vencer aquela aridez. Explodiram a terra quase arenosa deixando uma enorme cratera, larga e funda como a cicatriz de um meteorito gigante, e lá bem no meio e no fundo um pequeno espelho de água. Como um olho um pouco encovado numa órbita enorme de recorte incerto e tosco. Pequeno para a sede incurável da terra e para aquele céu imenso.
E um dia desistiram dessa luta para saciar um enorme pomar de frutos pequeninos que custavam a vingar, e investiram, do que tinham e do que não tinham, as poucas economias, em vacas que davam um leite espumoso como nunca bebi igual. E uma vacaria segundo as normas, bem na extremidade oposta à casa. Sabe-se lá porquê com tanta terra. Talvez uma espécie de ampliação das margens do sonho que logo de madrugada os levava a subir, embalados nele mas também no frio cortante dos invernos interiores, o enorme atalho de terra entre a casa deles e a das vaquinhas. E numa noite, seguramente de cães a ladrar como sempre – ou não – dispersos na amplidão da noite, como num quase passe de magia, desapareceram todas de uma vez para sempre e para nunca mais. Noites curtas de sono, para eles, que se levantavam ainda com estrelas. Como desaparecem dezoito vaquinhas enormes e doces, com aqueles guizos de uma sonoridade linda, no curtíssimo intervalo da noite…
Pela calada da noite. E calada foi a noite em que aquele sonho emudeceu para sempre. Calada a noite, as vaquinhas, os cães, os ladrões, as pereiras esquálidas, as estrelas do céu, os pneus da camioneta. Que levaram em cumplicidade única, e no segredo daquela noite, não sei já se de verão remoto, dezoito vaquinhas de olhos agigantados e doces. Assustadas ou ingenuamente confiantes. Como se rapidamente escondidas num enorme saco de gigante. Numa noite em que não ladraram cães. Ou, mesmo que ladrassem, diz o ditado que às más horas não ladram cães. Ou ninguém lhes ligou mais do que nas outras. Ninguém ouviu, só a terra, que tudo presencia, e aquele olho de água, que, resguardado e virado para o céu sem desfitar, seguramente as viu voar e esfumar-se. Histórias de um Alentejo solitário. Pela calada da noite. Como tantas outras noites. Caladas, lisas e sem sobressaltos.
Foi um golpe duro e que nos entristeceu a todos. E no entanto, nesse tempo como agora, um lado de mim sempre viu ali um certo ângulo profundamente cómico. Não sei porquê. Porque sei que a pena enorme pelo que lhes aconteceu era verdadeira. Mas é talvez o insólito das vaquinhas – dezoito – enormes, lentas e bojudas, cheias de chocalhos, a desaparecer assim. No ar. Evolando-se como um sonho que eram. Como os sonhos. E tornando-se realmente da matéria dos sonhos.
A propósito da enormidade do fosso que separa o ter do não ter. O saber acreditar e o esvaziar de um sonho. Que num curtíssimo intervalo de tempo desapareceu sem aviso. Sem ninguém o saber, já não estava ali. Mas as noites no campo são curtas de sono. E a madrugada chegou já com a nova paisagem instalada para sempre. Mas não os lembro desalentados por muito tempo. Antes com um estoicismo feroz de continuar em frente. Sem ilusões de que haveria outras horas como aquelas. Más horas. Em que não ladram cães.

2 Mai 2016

Uma volta pela vida

Às vezes estou aqui, irresoluta diante desta página, deambulando em torno de múltiplas ideias sobre as quais divagar um pouco, ou a pretexto da escrita, nelas fazer uma incursão um pouco mais ao fundo. A correr muitas outras em que já me debrucei só para o meu olhar, coisas que me vão escorrendo da alma para as teclas ou para folhas dispersas, pela emergência de dar um destino ao silêncio que me apetece, mas que nunca se esvazia de palavras. Como eu gostaria tanto, às vezes. Não que tenham necessariamente um sentido importante. Mas sobram-me. Não as quero. Não a estagnar e a reboarem-me na alma, cada uma a produzir dúvidas e afirmações. Demasiada actividade. Como se a cada momento fosse necessário entender e decidir. Mas não é. Não devia ser. E só nesses momentos em que me decido a enfrentar a futura página a ser ida, sinto a dúvida enorme e a angústia da página, mas não da página em branco. Antes de todas as que, cobertas de letrinhas, desfio indecisa até conseguir estacionar numa. E sempre, aquela dúvida sobre até que ponto os sentidos são importantes para os outros que não eu. Até que grau de excesso se afirma um eu privado. E como sempre, sobra-me a ligeira desconfiança de que do que posso ter a dizer, que não será muito, provavelmente já disse. No essencial. O que me remete para a questão de ser ou não relevante alimentar uma inércia de escrita em que muito se volta sobre um mesmo olhar e os mesmos objectos de afecto, de consternação ou de simples contexto dos dias. Tão iguais e diferentes em si como gotas de água. E a mesma dúvida sobre a transformação de tudo em discurso. Sobre a validade da representação. Sobre essa necessidade que se sobrepõe às coisas em si e à sua vivência. A minha angústia não é então nunca a da página em branco, mas a das inúmeras páginas que talvez devessem permanecer em branco.
Numa agonia de excesso de sentidos a descodificar todos os dias em todos os lugares. Neste congestionamento de conhecidos e desconhecidos que hoje fazem, muito mais do que nunca, o dia. Que esbaram contra o nosso olhar ou o atraem. Numa enorme exaustão de expressão e significação em que todos parecem necessitar apresentar-se. E nesses dias o que me apetece mais, é deambular pela escrita como deambular pelas ruas, sem intencionalidade. Um molho de linhas e um molho de ruas a desfiar. Só pelo fluir de um discurso ameno e fluido. Só pelo embalo sem destino. Sem querer dizer mais do que as coisas em si. Passando por mim. Apresentá-las e dizer simplesmente: estas árvores. Bonitas. Este céu, do costume. Tão diferente, nas ínfimas hipóteses de variação. Como as palavras em infinitas combinações de tão poucas letras. Esta textura da parede. Diferente em todas as outras paredes e este tom de hoje. Que não deixassem mais do que um gosto a sensações leves. Como um dia primaveril já a anunciar o verão. Coisas assim. E ideias. Não faltam elas, mas a validade, a necessidade de as percorrer como de alimentar um Tamagotchi.
Os mesmos dias em que apetece simplesmente dar uma voltinha pela vida, pela rua, sem procurar sentidos. Num tempo em que todos os dias somos voluntariamente acorrentados a uma exposição, a um encenar de centenas de vidas, ao encetar a performance do dia de cada um. Dar só uma grande volta por coisas que, de tão mudas, sejam repletas de uma plenitude que não ofereça questões. Dias em que não tenhamos passado por tanta gente nem sido levados pela possibilidade de ouvir preces alheias, diálogos com deus e com o diabo, encontros adiados. Em que não se oiça os vizinhos no seu amor nem nos seus amuos. Em que não se jante com quem não se senta do outro lado da mesa. Em que não vejamos cartas alheias e jogadas cruzadas sob o nosso olhar. Em que não escutamos às portas nem espreitamos às janelas. Em que não somos tomados pelo ruído de telefonemas alheios, pelas conversas dos outros, nem possamos saber que alguém está ao telefone. Dias de privacidade na rua. Em que não tenhamos a tentação de dizer a todos aquilo que só queremos dizer a alguém e em que não esqueçamos o valor da esfera do privado. Em que possamos gostar do que gostamos e não gostar das outras coisas sem que isso inclua uma mensagem subliminar. Em que sejamos libertos da nossa absurda curiosidade e da adição à possibilidade de a cultivar. Num tempo em que tudo se tornou mensagem e performance teatralizada. Em que tudo é manifestação da encenação de um estado. E em que começamos a ver-nos permanentemente de fora. Ao analisar o nosso eu íntimo na procura da vertente certa a expor. Em cada dia. Como se fosse essencial ao ser, ser em exposição. Ou aos outros. Vida em exposição. Exposição total e global.
Vida recoberta por uma camada que é discurso, e encenada com uma linguagem que incorpora todas as outras, próprias e alheias. Duas camadas de sentidos múltiplos. Mas às vezes o que me apetece mesmo é a vida dois andares abaixo. Claro que, dois andares acima é estar mais próximo do céu. Que se esquece facilmente e olhando-o mediatizado, não pelas janelas de casa mas da casa dos outros. Visto pelo olhar dos outros. Estar mais perto de que céu, então, senão aquele que é já refeito e condicionado a sentidos, interpretações e leituras, por outros olhares, reciclado, às vezes penso, como coisa imprestável em si mesmo. Abdicamos do olhar nú sobre a realidade em prol da representação. Poluídos por tanto registo e tanta informação. Gastos como gastas são as imagens que se mostram, a torto e a direito. Fazendo nossas e dedicadas ao nosso particular monólogo do dia. Imagens que se roubam e arrancam a um contexto e se fazem ao serviço dos nossos pequenos pensamentos. Fragmentos de imagens que são obras inteiras, imagens tornadas animadas de um movimento doentio e paranoico que refaz a nossa própria instabilidade doentia. Uma obra de arte intemporal passa a significar um momento particular, um humor e uma mensagem curta num diálogo em que tudo é descartável. Por vezes.
Em que mesmo cada silêncio parece encerrar uma mensagem de índole bélica. Cada silêncio esconde milhões de palavras não ditas mas fariam falta? Será o lugar descartável e passageiro a sua natureza? E uma foto mais triste significa que se está triste a tempo inteiro ou com alguém em particular. Ou um sorriso que se eterniza ao longo dos dias tem que ser atualizado em tempo real.
O tempo da reciclagem a que o planeta não beneficia mas também do lixo, o indominável lixo que desvaloriza cada objecto em si. A pós modernidade que tão discutíveis manifestações teve na arquitectura, também nesta arquitectura de relações supostamente sociais, e que mais ainda se revela na apropriação dos discursos. Na recombinação de referências, épocas, tudo na mesma amálgama ao serviço de um ego a expor. Somos amigos dos mortos e invocamos deus nas páginas virtuais. Sim estamos cada vez menos sós. Há sempre alguém que nos diz um olá, cruzando o espaço mais rápido que um super-herói. Costumamos dizer o contrário. Que estamos cada vez mais sós. Mas eu digo assim. Estamos cada vez menos sós. O que vendo bem é exactamente a mesma coisa nas contas da qualidade da solidão. Cada telefone com internet, a acompanhar os momentos que passamos com os nossos amados. Os nossos amantes e os nossos amigos. Cada olhar a desviar-nos da companhia concreta mas a repor em troca desta, várias outras. Os momentos a sucederem-se intercalados, sobrepostos, ou imediatamente sucessivos. Sem intervalo para sentir. Desfeito um abraço coloca-se um like nos braços alheios ao mesmo. Assim. Há um apelo enorme. Triste e divergente. Mas somos humanos. Fazemos escolhas quando conseguimos. Mas há o apelo. Eu sou triste desta modernidade que tento rejeitar na medida em que a minha fraqueza de humana me permite.
A intimidade em saldo, a nadar num aquário de águas saturadas. Ou peixes fora da água. Há que distinguir se possível.
Um pequeno vídeo: Pés que caminham sem mais. Na linguagem das performances em rede, deverá ter um sentido particular no momento e descartável no dia seguinte. Partimos da vida de alguém. Vamos ao seu encontro. A vida continua e é um olhar positivo. Estamos em fuga de algo. Perigoso de partilhar no momento errado de nós. Sujeito a tornar-se uma fala num diálogo impreciso. A fala errada. Uma letra de uma canção e quem é o sujeito. Quem a usa está a assumir a voz do outro ou a identificar-se na voz e a fazê-la sua… Uma realidade falível, difícil de medir e com a necessidade de ser renovada dia após dia. Para não gerar equívocos ou não se ser esquecido. Gostar é currículo e moeda de troca. Nesta troca ou compra e venda. E o ruido imenso. Visual, de sentidos. O excesso. A amálgama informe com que se alternam e sucedem…
Peixes fora de água. É o que sinto. Apanhados na rede e fora da água. Há dias em que convirjo mais para ali – demais – e me sinto morrer um pouco. O problema é nos dias em que começo a sentir que é ali que se vive. Nunca pensei suar com uma coisa destas. Passar uns dias sem as janelas da rede, as suas malhas, é a nova claustrofobia. Como se mundo nos fugisse das mãos que nunca o puderam agarrar, naquele intervalo de tempo e tudo acontecesse nas nossas costas. Mas é isso que deveria acontecer. Todas as cartas escritas que não são para nós. Como os telefonemas. Como na paragem do autocarro. Como se o mundo desse milhentas voltas mais do que os dias e se reposicionasse num outro ponto do espaço. Talvez seja assim, afinal. Seres de luz, fantasmas, com a ilusão da realidade. Ou como se se andasse com a intimidade na testa, ou dentro da malinha de mão e a deixássemos cair na rua. Exposto o conteúdo a quem passa.
Parar. Aí. Na rua. E sentir o gosto de não conhecer ninguém.
Eu preciso de muito mais tempo para pensar do que para fazer. Pensar cria aquela sensação ilusória de entender. Não que isso aconteça de forma relevante, por vezes. Mas é um intervalo entre o caos e o ficar tudo quase igual. Mas sem a ansiedade impertinente do reagir à vida. A tempo inteiro e em directo. Sem a pressão. Com a resignação de que cada dado importante não pode depender do instante. Nem sempre. Que as coisas não são tão perecíveis que exigem de nós a vigilância constante ao que somos e dizemos. Esse intervalo de pensar entre as coisas serve melhor como simples espaço ou intervalo, do que pelo valor absoluto. É mais uma reorganização espacial. Uma pequena distanciação do momento que passa, na sua premência inglória e o reposicionamento numa sensação de calma e aceitação, de que o futuro não é hoje. Nem deve ser. Talvez a distância entre o agora e o futuro de que não quereria ter pressa. O que é, é. E não se pode querer mais do momento. Mas eu gosto de entender. E por isso tudo se me apresenta problemático muitas vezes. É disso que tenho nos outros momentos, uma enorme vontade de fugir. Dar uma volta pela vida. Não de horas mas de dias, meses anos. Uma enorme e saborosa volta pela vida.

22 Abr 2016

Ponto cego

Todo o espelho é terrível. Não o disse Rilke. E no entanto apetecia-me dizer.
Não é inocente. A enorme ternura de Rilke pelas grandes amantes infelizes, o reconhecimento da impossibilidade de uma vida perpetuamente suspensa no abismo, e face a isso a síntese da afirmação de vida e morte como uma mesma coisa, nas suas Elegias, concentra nos anjos o paradigma. Belo e terrível, desejável e distante. Como se na inacessibilidade e só aí, pudesse dimensionar-se um amor desmedido. Talvez. A superação da miséria humana em transgressão, num voo pelas camadas de maior altitude rumo à descoberta da beleza sublime da alma. E eles, criaturas zelosas, redentoras ou monstruosamente e inacessivelmente narcísicas. Mesmo no seu olhar. Quando o que reflecte se espelha no reflectido. “Todo o anjo é terrível”. Foi o que ele disse.
Na realidade o que poderá ser um anjo senão um espelho em que se reflecte de nós aquilo com que mais se identifica o nosso ser, de olhar e desejo, ou que mais gostamos de ver limpidamente reconhecido, aceite, amado e velado, de longe ou perto. Como só os anjos podem.
Anjos como espelhos que escolhemos, às vezes, por defeito de inevitabilidade. A que nos prendemos mesmo sem querer. Que devolvem o que nunca lhes demos. Estranhos em que sem aceitar, reconhecemos uma imagem distorcida. As pessoas sentem-se espelhadas e espelham-se nisso. A prata límpida mesmo se falível. A limpidez do erro. Humano. Tornado transcendente.
São belos os espelhos. Os anjos. Mas é de espelhos que falo. Imediatos e irreprimíveis. Imperfeitos e circunstanciais. No tempo, na luz, no desencanto, na suspeita. São belos mas abusivos por vezes. Os espelhos não conhecem a mais do que numa certa forma de ser prismática. Exacerbado o olhar no momento com uma distorção incontornável. Uma imagem parada. Etérea e desenraizada. Bidimensional, sem pontes entre as várias camadas de sentido. O sentido de si. A memória e as suas estranhas incursões a modelos, a conceitos e a padrões. Basta não olhar e desaparece esse olhar que nos não pertence, mas pelo contrário rouba. E refaz. Como num livro de imagens Pop up. Que é preciso abrir para que se construam. Naqueles é preciso olhar. E o olhar devolvido pode arrepiar, revoltar, entristecer. No que tem por defeito ou por excesso.
Como vozes. Ecos. Devoluções enganosas. Que nos apanham desprevenidos. Como os espelhos nos conhecem mal. Por vezes passo por eles, superfícies estanhadas ou vidros numa rua, distraidamente e sem esperar, e mal me reconheço. Quase uma outra pessoa, uma outra idade, um outro momento de mim, uma outra tristeza que já não é. E no entanto, dados suficientes para me saber eu. Uma imagem do eu. Uma delas. No momento único, irrepetível e eterno em si. Como uma acentuação excessiva ou um nivelamento que modera aleatoriamente volumes, texturas e formas precisas que sei de mim. Uma imagem. Não mais que uma imagem. Incompleta. De que não me posso defender. Os espelhos têm essa liberdade absoluta de revelar sem perdão nem emenda. De magoar. De iludir. Como se tudo lhes fora permitido, roubam. Devolvem aquilo que lhes não foi cedido. Como os olhares de outro.
Não cabe em nenhum lugar um ensaio sobre o espelho. E teria que falar de Borges. Não ter ilusões. Não mais do que aquelas que momentaneamente nos assaltam sobre a fiabilidade deste. Quando o perscrutamos interrogativamente, ansiosamente necessitados de uma resposta que cale uma voz qualquer. Que teima em moer e minar, de temor ou inevitabilidade, a própria mutável construção que vamos edificando de nós.
O espelho, tão escrito e descrito, é o eu o que não sou eu. Tudo e a desmedida de tudo o que se lhe opõe por relação por empatia similitude reflexão, reacção. Discurso. Com ida e retorno sobre si. Tudo e tudo o resto que se lhe refere. Reflecte. Inspira. Sinuoso, enganador, sedutor. Próprio ou alheio. Abusivo ou desejado. O discurso, qualquer discurso em espelho. Identificação e rejeição. O ser, o parecer, o ver, o saber e o não querer. Quantos encontramos de nós ao olhar o espelho. De entre os que tememos os que amamos e os que rejeitamos. Que desconhecido coincidente de um ângulo de nós. Eu não posso em alguns dias julgar outra maldade que não a minha e qualquer outra complacência. Para além de toda a falibilidade humana, antes de saber se o outro é, há que saber ser. Se se é. Que relação ou elo há entre o momento do olhar e a eternidade de ser. Quanto de nós pomos no outro que nos olha e quanto dele. Quanto de nós é cru e violento e quanto fabricado no exílio da ficção. Nem sempre as partes permitem intuir a estrutura de um todo.
Há por vezes vestígios de qualquer coisa atávica e visceral da memória do que somos, ao espelho. Sinto isso mesmo quando ela não me trata por tu. E me pergunta por alguém exterior que é ela, e alguém estranha que sou eu. Como nas fotografias do corredor. E eu vejo que no meio de tudo o que é perdido, há algo essencial que ainda estrutura, numa arquitectura de segurança, alguém que se perdeu e continua numa perda progressiva. Apesar de tudo, consola-me. Na medida do que ainda é possível. É que, comigo, ela dorme, nos intervalos das perguntas. Ela que foi mãe, memória e espelhos. Também. E dessa perda, é como se o essencial se filtrasse no que fica. E cada dia limpo e inicial a fluir na matéria do tempo. E dessa amálgama de memórias e de imagens refectidas, é por vezes a custo que não me confundo e afogo.
Dissolução. Cada um sofre da sua em particular. Ou imune nas suas radicais contradições. Mas é uma forma de destruição perigosa. Sinto. Sinto-a como nunca. E paraliso. Sem meios de reunir as franjas que começam a escapar-me dos dedos. Cada vez mais dedos desprotegidos sem uma mão que os feche e una e aperte e junte e reúna no tacto a inúmeras sensações da proximidade, da familiaridade. O que é o olhar senão uma apropriação de algo ou de alguém com que nos cruzamos. Gosto de observar o olhar dos outros. Gosto de fruir as sensações que emanam das coisas através do olhar dos outros. O olhar é mágico na sua predação incontida. Não gosto daquelas pessoas que não conseguem fixar o olhar no olhar dos outros por uma fracção de segundo sequer. Em que as pálpebras se quebram de súbito e a íris rola para baixo e para os lados sem estabilizar. Há um limite para cada um. Há também o imite do respeito pelo conforto do outro. E que saber aliviar o outro da insistência de um olhar. Libertá-lo dessa inquisição ou dessa vigilância. O olhar do espelho. Do outro.
I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful ‚
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

E no poema de Sylvia Plath, Mirror, ouve-se a voz do espelho. Porque é disso que se trata também. Da inevitável reciprocidade com que passamos. Olhando ou devolvendo um olhar. Espelhados nele ou difusamente distorcidos. E nesse espelho-olhar podemos morrer.

Somos o que somos. Somos o que somos na vida em que passamos, dos outros que não nós. Nem sempre se gosta de admitir que somos em parte o que somos de acordo com o olhar do outro. Que somos diferentes pessoas – seres- com cada um dos outros e menos ainda que somos em parte corruptíveis pelo olhar do outro. Vendemo-nos por vezes por isso para isso. Ou tentamos não o fazer. Não mudar de roupa, de penteado e de andar. De leituras e de vícios. De olhar. Mas pode acontecer reconhecermo-nos nesse outro que passa e de passagem reflecte, de uma forma maior, um detalhe que ninguém viu, uma liberdade que ninguém deixou existir, uma admiração específica, um olhar que vê. E gostar desse olhar pelo que reflete de nós. E que honestamente somos, ou queremos ser. Ou uma coincidência de fantasias que se cruza feliz. Somos momentos na esteira universal de sensações e memórias dos outros. Momentos ínfimos, pontuais e descartados ou em continuidade. O conforto ou desconforto de sermos diferentes do somos com cada um e de sermos diferentes do que somos com alguns, de sermos de maneira forçada o que gostaríamos de ser ou de sermos sem mais delongas só o que nos saiu naquele momento reflectido. Um dia acontece vermo-nos ao espelho de algum olhar e sermos exactamente coincidentes, óbvios e assim naturalmente tão parecidos connosco, que se entende de repente que é em parte isso que procuramos. O exercício da autenticidade em luta de morte com as capas e as máscaras. Acontece por vezes esse olhar escravizante não ser o de quem se ama. Mas isso também é preciso que seja possível no rol de inúmeras combinações de possibilidades aleatórias.
Circuitos viciosos que por vezes desgastam e confundem. Precisar de encontrar com mais nitidez uma nova imagem. Própria. Um grande círculo descrito em torno de um lado B da vida. Por vezes. Outros seres e outras emoções. O teste da liberdade de ser a partir do grau zero. As medidas. Depois, resta saber que parte de mim volta que parte de mim fica. A importância das partes no todo.
E se por vezes os espelhos, em vez de oferecerem uma história e uma personagem, oferecem ao espectador a possibilidade de encarnar a sua história num personagem pré-dado, resta a resignação de se ser também aquilo que vive no olhar de outros. Questões de uma difícil e penosa identificação. Recriamos uma noção de ser em si que necessita de ser incorporada numa imagem que o espelho oferece, mas com muito a reelaborar.
Será que somos quando ou o que não sabemos que somos? Ou o problema do ser passa simplesmente pelo assumir de uma certa consciência de si, sem que a questão da verosimilhança se coloque? Mas o ser é em si e não nos outros, no olhar e saber dos outros. Não é aí que se estrutura. Nem no querer ser. Os espelhos confundem mas não mudam. Não nos mudam. Na pose. No eco do espelho. Quando tenho dúvidas, penso em breve sei quem sou. É o que me faz suportar o tempo. É a idade. Esta idade estranha que resume tantas. Para trás e aproximadas pela frente. E misturadas. E dizer das idades é dizer o menos de tudo isto.
E porque hoje em dia, há dias de eco, de sombra de reflexos e de nada. Dias do tempo do saber quem sou. A pose e a espera que se adianta no espelho. Antecipação. Porque o meu olhar como o do outro anda incompleto. Tal como na retina. Em cada olhar um ponto cego.

15 Abr 2016

Cinza, amarelo. E a seguir o azul

Acendo o candeeiro como se abre a porta a um amigo. Luz doce. Quase espero que me acenda um cigarro para começar. Podia dizer assim porque das palavras e do que encobrem, por vezes pouco se sabe. Qualquer nudez. Todos os dias me sento ao lado dessa luz calorosa. Mas não agora. Mentia. É dia. E frio mas de céu azul. De vez em quando com um timbre quase lilás. E nuvens velozes. E esta luz ainda fina mas que, a adivinhar outra estação, começa a amarelar. Sigo o azul. Sigo o azul distante. O azul, que há-de ser sempre azul por mais que eu pinte a preto e branco. Sigo-o, mesmo à distância, para além de todas as nuvens e por detrás de todos os cinzentos possíveis e mesmo do plúmbeo da noite. Sem que os olhos me doam. O coração sim, às vezes. E afinal sempre acendo o candeeiro. Um cigarro. Pela companhia. Porque não sei quem está aí. Com que olhar. Com que desconforto ou interrogação. Quem vem sentar-se na minha frente.
A pensar se é daqueles dias em que estagnei no imenso lamaçal de um mundo agreste e escorregadio. Que olho por entre franjas de inércia. Agitada. Em frente, daqueles dias em que há uma casa amarela, uma risca negra e depois o céu. Que dizer daquela risca negra e dos dias em que é exactamente ao contrário tudo. A começar no azul em baixo, comprimido por uma listra negra e uma casa amarela empilhada por cima. Pelo meio a memória de uma mancha enorme de uma oxidação estranha, ou corrosão, no capô de um carro. De um azul estranho também, obscurecido pelos reflexos e pela noite, aclarando no céu, e com matizes quase invisíveis. E ali também um candeeiro a rivalizar com uma lua reflectida. Bela só porque é uma luz. Ali, na curvatura em que me inclino, ambas as luzes idênticas. Luzes. Um feitiço só por si. Um farol. E por outro lado, outro dia já, a casa amarela, com a sua risca larga e escura a encimar umas janelas sonolentas e deitado logo a seguir um céu rosa. Sujo escuro e desmaiado, mas céu. Quanto muito.
Daqueles dias em que sempre sabia que não sabia tanto, como não sabia agora e hoje. Em que os elementos não ajudam a clarear a mente nem o dia. Revolteando em redor, num redopio estonteante. Esvoaçantes os cabelos e os pedaços de pensamentos sempre quebrados num golpe de jeito dúbio do vento. Inimigo de caminhos pacíficos.
De vez em quando mergulhar a pique nas águas profundas. Tentando ver o que assentou no fundo, o que se perdeu, o que flutua e o que é demasiado pesado para voltar à tona. De vez em quando dar uma volta pelo lado b das coisas. Na correria dos dias que fogem sempre com mais marés do que aquelas em que um barco consegue navegar. E outras só porque demasiado alterosas. E depois voltar e ser tudo igual mas subtilmente diferente. Ser igual mas delicadamente outra. Continuar tudo por entender, exepto o que houver exacto no momento que passa. Os sinais do imediato. Não no seu sentido profundo mas na superfície de um léxico quase reduzido ao binómio O-1. Nada mais cortante. Nada mais do que o vazio que não é novo mas por vezes se adensa. Ou cabos e tormentas em que se desmultiplicam as intempéries de todos os invernos, unidas de repente, no rodopio de ondas que enrolam a areia, a desarrumam e nela rolam pedras. Demasiadas ventanias, demasiadas ondas e nenhuma que traga o marujo amado. Como mulher de pescador a sondar madrugadas ao longo de uma vida, até ao dia em que ele não vem. O seu barco não volta e acordar do sonho num quarto citadino e não haver pescador para com ele sonhar.
Depois é já esta hora crepuscular, que é talvez a mais bonita. Digo, em alguns dias. O tom de azul tão precário, é o da maior transparência. Soturna e triste. Dura pouco e de alguma forma ainda bem, porque é aquele momento do dia em que tudo em mim se escoa por aquele azul adentro sem retorno possível. A sensação de perda, de desnorteamento, como uma morte em que se separa o que houver de alma, do invólucro seguro. Momentos de transição não são bons. Passou o que passou sem redenção e o que se segue a parecer de momento triste. Depois aquele incendiar das cores como o acender de luzes a substituir o dia. Há que dar um passo para a noite escura, que depois por vezes é extensa e apaziguadora. Quando é. Algo regressa a este espaço ocupado e mesmo a tristeza volta ao sítio. E pode ser grande. Imensa e a subir de tom. Depois, há-de haver um momento num dia em que se acalma. E o tempo que nunca chega…
Aquela sensação recorrente de que a vida me ultrapassa. Não a vida em geral, não teria essa pretensão, a minha vida.
E, noutro dia, um frio maior. A névoa que, finalmente associada a este, traz o inverno em pleno. O inverno que já estava. Mas há uma beleza estranha nestes tons de formas aveludas não fora o cortante gume na pele. Pousada a bruma nas árvores, e a nelas encobrir mais ou menos de uma realidade bela ou não, não deixa de ser uma forma de acalmar a ansiedade. Que um excesso de recorte e nitidez deixaria sempre. Não quereria saber a totalidade do caminho em frente. A ilusão de nitidez do castelo sempre adiado para mais longe depois de uma curva. Eventualmente. E depois de uma curva outra curva, antes de se entrever aquele que se torna de novo distante. Eventualmente inalcançável no fim da história. É essa imagem focada que espero todos os dias e que, no entanto, traria mais ilusão. Continuo guiada como cega pelo desconhecido dos dias. De todos os dias e esperando que não se vá. O desconhecido que sou eu e tudo o resto de que sei parte e nunca todo. Excepto uma parte maior lá à frente mas que pela experiência dos dias passados será sempre parte do todo. Uma parte. Do mistério maior em que, mesmo querendo, se fica à porta. Ou então em sonhos.
Dessa névoa, não há nunca a dúvida de como tapa as cores e formas desenhadas antes dela e apesar dela. Esqueço por momentos e depois volta o saber do sol e de todas as coisas possíveis, que a névoa não faz desaparecer mesmo quebrando os olhos e a alma. E volta o saber de não saber nada. Mas de que nada lá estará, é uma ideia destrutiva que não pode guiar. Seria menos do que uma parada de cegos. O império do olhar é coisa a deixar por vezes ao olvido.
É desse desconhecido maior que espero a revelação dos dias. A pouco e pouco. Que me vá revelando a parte de desconhecido que me cabe. Essa que tento desesperadamente entender. E do dia de agora. Não mais. Talvez um pouco mais. Não quereria saber tudo de uma vez. Tudo o que ainda resta para viver. Não seria bom perder o sonho. Não seria bom não ter nada para que acordar. Do desconhecido que sou, tiro as medidas do desconhecido dos outros e bem maior. E do medo. Esse cão. Mas esse desconhecimento mútuo faz-se de pequenos clics que sentimos ou não no segundo certo de uma imagem, de uma mancha, de uma palavra, ou de um olhar. E nele não pode caber mais do que o que está à distância de um clic. Um arrepio. A sensação de queda. Um baque no peito. Um passo. A subir. Não se quer vogar para sempre, mesmo na matéria estética da profundidade de beleza de uma névoa. O céu azul de nuvens miudinhas. O céu de denso azul sobre o mar, ou o céu das estrelas têm outro sabor quando visíveis. O céu abismal onde vogam planetas, cometas, asteroides e meras poeiras cósmicas. Que somos. Armados de um ego que nos faz enormes e que devemos rebater em contraste com o todo, que como nós também está a morrer, mas a uma outra escala. Às vezes a vontade de acelerar o tempo. Que desperdício, esta lentidão. Não fora o facto irredutível de que esta retarda o fim. E o que importa não é o texto. É a caligrafia.
Às vezes chove. Mesmo isso me parece um desabafo da alma. Em espelho. Mas numa casa antiga uma pessoa sabe sempre que a chuva pode entrar por vias esconsas e fazer eclodir o salitre das paredes. Como a realidade de que se quer fugir correndo para casa. Às vezes. Mas é como uma sonata melancólica, que embala por empatia. Não há maneira de se querer contrariar o que estiver a colorir a alma no momento. A violência não é bem-vinda. Mas os elementos não têm culpa, é da sua natureza. A culpa é da razão humana. Como a construção das casas. Imperfeita e vulnerável. Independentemente de planos e plantas.
Adoro mapas. Cartas de marear. Esquemas de corte e costura. Um intrincado sistema de moldes sobrepostos pelos quais guiar a tesoura. Na realidade nunca o fiz. Corto sempre sem rede e por vezes estrago o tecido e isso obriga-me a mudar de planos. Mas as cartas, as mais antigas de grafismos mais imprecisos geograficamente mas de desenho mais bonito. E com mais margens de desconhecido. As cores, as manchas oxidadas como as da pele e o amarelado geral do papel. As linhas como um sistema venoso ou arterial. E as rotas conhecidas como a circulação de vida, a que uns mais do que outros são apegados como por uma questão de morte ou vida. E navegar pelas estrelas. Nunca gostei dos constructos abstratos do moderno conjunto de artérias. Uma autoestrada igual à outra e circuitos indirectos pela cidade. Gosto dos caminhos como se percorrem a pé. Virar sem sinais de trânsito. Mas por entre uma teia de opções, em que virar para um lado se faz virando para esse lado. Perco-me mesmo na minha cidade nas condicionantes do trânsito e perco o norte. Eu não sei ler as estrelas. Dos mapas de viajar também gosto mais em cima da mesa, do que para cumprir à risca como um esboço que se refaz a tinta. Gosto do risco directo sobre o papel.
Dos minutos muitas vezes não sei portanto, quem vem de facto sentar-se aqui. Na minha frente. As construções da memória e da motivação são estranhas e indomináveis.
Como em outros momentos, na verdade, me assalta a estranheza mesmo ao alcance dos sentidos. Sabia que mesmo as luzes coloridas de uma árvore de Natal conseguiam um efeito encantatório de escape a um lado mais negro. Mas no momento, as luzinhas mínimas e imensas eram estrelas e no céu. Numa aldeia cheia de portas e janelas fechadas sobre o silêncio, sobre o vazio e muitas ausências, em que o céu me fez lembrar que há muito não o via como se estivesse para baixo, cheio de estrelas e de imensidão…Deitada de costas no terreno áspero, incerto, um pouco húmido mesmo. Ou talvez simplesmente o frio. A tornar-se presente à medida que os minutos passavam. E a mão dada. Também. A tornar-se mais nítida. Até parecer uma entidade própria, solta, feita de duas e desligada dos dois corpos ali. Um animal pequeno adormecido e quente. Em silêncio que podia ser de tudo. Mas a pensar na enormidade do universo, naquela qualidade abismal do negro tão mais profundo quanto interrompido pelo cintilar de tantas estrelas como numa visão urbana raras vezes se vislumbra. E a sentir a vertigem de se abeirar desse imenso fundo negro, como se para baixo, para além de tudo. Como se habitar este ínfimo planeta, à escala de todo um universo, fosse estar na beira do precipício e não colada a um núcleo de força gravitacional que centra como se um bloco compacto. Uma mole de formigas em cima de um torrão de universo. Não por debaixo. À beira dele. Numa curiosa, estonteante e momentânea inversão do sentido de orientação. Abismal. Como um átomo de Hidrogénio que, de tão pouca densidade, facilmente escapa ao campo gravitacional.
Uma enorme melancolia quando leio notas científicas sobre as possibilidades de colisão de asteroides com este planeta pequeno e solitário. Não sei porquê, quando muitas das possibilidades mais não encerrem do que a certeza de que num momento outro todos vamos. Mas há mais do que cada um em si. A nossa cadeia por vezes inestimável de seres com continuidade é uma coisa frágil mesmo se tivermos descendência. O fim é frio e sem distinção de sentido quer seja um atropelamento súbito, o impacto de um amor, de um asteroide ou simplesmente o fim de um universo complexo de expectativas de permanência para além da vida terrena. Sim tudo e rigorosamente tudo pode acabar. Acaba. No fundo quando se apaga a consciência de ser. Esta é aquela perspectiva que deveria presidir a valores maiores do que aqueles que circunstancialmente nos tolhem no dia a dia-. Que mesquinhas limitações as nossas. Orgulho, previdência, calculismos pontuais, estratégias. Como asteroides são na realidade pensamentos que me bombardeiam com impacto, sem esperar. Possíveis todos os dias, mas de cujas cores, nem sempre sei o que esperar. Porque há dias de espuma e dias de lava.
E então, catapultada para baixo nessa imprevista alternância de sentir, de novo as costas no chão e o peso do universo pressentido além, agora em cima, penso: quem é esta pessoa ao meu lado e o que nos trouxe aqui. Os dois e não outra coisa. A doçura e a amargura não se podem anular. É talvez o agridoce doseado com mestria que harmoniza o paladar. E, na vastidão momentânea que a vista alcança, mergulhada para fora tanto como para dentro de mim – estranhas dinâmicas psíquicas a questionar talvez depois – sinto distância. O longe no perto. A distância confortável que só um fio ténue como aqueles que atam e prendem um balão, suportava. O fio da inércia de um lugar e um tempo fora daquele, e que aquele de algum modo questionava. Desconfortavelmente. A distância. De um momento. E na manhã de um outro momento ali, o ribeiro parado, um reflexo nítido e sombrio da ponte e aí, como se numa janela rasgada no negro do reflexo sombrio, o céu claro, como mergulhado num mundo ao contrário. Ou talvez não. Apenas um outro instante “em que (…) a ordem visível das esferas mais altas virá mirar-se na profundeza mais sombria da terra (…)” (M. Foucault).
E noutro momento ainda, e num lugar já não a norte, um de todos aqueles outros dias, na verdade, que são mais a sul, à beira das águas rumorosas e de novo deitada de costas, e só – agora só – o sol escaldante mesmo nos intervalos da aragem fria, e a ferir, excessivo mesmo através das pálpebras cerradas. Já não uma mão em outra, que não era a que não está agora, de qualquer modo. Nem a distância. Tudo ali. Sem saber de onde vem esta sensação de perto no longe. Sentido com sentido. Mesmo sem que o do tacto e os outros, possam comprovar a não distância. O abismo, a retórica, o paradoxo. Em que a ausência é um lugar pleno. De traços fortes. A cheio. Porque não é um daqueles dias. De Hidrogénio. Hoje Ósmio, elemento do grupo da platina. Metal azul acinzentado, e o mais denso de todos os elementos. Hoje cinzas tocados de luz. O amarelo na parede em frente, pausa, e a seguir o azul até longe.

11 Mar 2016

Partida da memória

Todos os dias a produzir passado. Actividade que nos indiferencia todos, e a todos remete para a mesma reflexão, se formos dados a ela. Uma espécie de economia existencial em forma de dilema. Deixar correr, morrer, ou cultivar. Deixar acumular, desarrumar, ocupar exponencialmente espaço de vida a viver, ou emparedar, guardar em caixas. Arrumadas com atenção e rigor. Datas, locais, pessoas. Passamos os dias a produzir passado, nessa lucidez infeliz que contamina o momento. Pensar é um acto barroco. Mesmo praticado à exaustão na sua forma mais quieta, repetitiva e atemporal. Poderia passar uma vida nisso. Uma delas. Ou, quando à beira do afogamento nas palavras, devolver o mais possível em dissolução e inexistência o imenso dano que fazem. Fragmentar, dividir, atenuar. A infelicidade é inimiga do tédio. E lucidez, por vezes, é assumir a decadência e fazer dela uma obra em grande. Ou o desespero. Matérias- primas preciosas.
E ser-se o mesmo e ser outro. Em cada dia. A eterna roda da vida. Imparável. Uma inércia a que há quem chame destino, karma, sorte, inevitabilidade, ou construção subliminar. A levar-nos na sua engrenagem, sem que possamos reverter-lhe o mecanismo. Alterá-la em velocidade ou em sentido. Feita de sínteses intuitivas, balanços subterrâneos. Porque mecanismo com fôlego para nos levar de arrastão como um fardo pesado que apenas nós sentimos. Expostos à abrasão dos elementos rudes, ou pelo contrário, a incrustação de outros. Com brilho e colorido, ou a sóbria e estranha simplicidade dos grãos de terra, ou areia, ou sal. E de dia para dia, o olhar sobre o mundo em mutação. O olhar e o mundo. Porque do ponto de vista a que estamos amarrados, se prefiguraram, diferentes como cenários, ângulos de visão que se referem ao lugar para o qual a roda, rolando nos arrastou. As possibilidades são tantas, de abordagem ao mundo. Em que é necessária uma chave. E é difícil acertar na escolha, de entre as muitas que se acumulam no molho que carregamos na vida. Do qual muitas se perdem e outras são experimentadas no desconhecimento, e por tentativa e erro. Sem sucesso na maioria das vezes. Tão difícil encontrar o caminho para o destino impreciso que vislumbramos precário mas que seria uma mais valia abordar nem que fosse como estação de passagem. Mesmo que só para refazer forças e beber um copo de água. Vital, frugal e sem grandes custos. É assim a vida, feita de ínfimas necessidades. Mas que mesmo como tal, muitas vezes estão fora do alcance. Caminhar contra a corrente.
E quando a distância se impõe em todo o seu esplendor, se não há caminhos, não há percursos. Se falarmos da memória. De novo a opção de perder ou colecionar. Recordações. Ou a inevitabilidade de uma coisa e outra sem critério. Ou ainda e só a perda. Da memória. “A memória é a consciência inserida no tempo”, diz Pessoa, mas que tempo? O de âncora a barrar a corrente imparável, o de poço iniciático ou o de linha de pesca lançada na corrida do rio para o mar? Construir memória é complicar a questão da saudade. Às vezes, anseio por uma vida com a possibilidade de log in. Com a possibilidade de log out. Intermitentemente. Porque a violência está no limiar da emoção.
Sempre na minha vida, dia após dia, há uma mão que arruma e uma mão que desarruma. Que insiste em produzir passado a uma velocidade maior do que o tempo permita arrumar. Passado em escrita. Passado em imagens do momento que se torna passado. Pertinências ou impertinências para sempre. Digitais e voláteis como o espaço cibernético onde moram. Ou em papel. Ou tecido. Ou barro. Pedra. Make up. Sei lá. Um computar deveria ser mais facilmente um ordinateur, como na língua francesa. E facilita essa possibilidade. Mas também a de produzir demais. Desarrumação demais. Divergência. Que seria moroso colocar em ordem mas fica sempre para um dia. Sempre ontem ou amanhã. Ontem na emergência. Amanhã, na frustração. Ou o contrário. Que coisa é esta do tempo. Que não pára para receber passageiros. Que temos que apanhar em andamento, com movimentos sincronizados, afinados e precisos, como um automóvel. Ou um cavalo em corrida.
Mas passar os dias a construir futuro é uma actividade visionária, ou, pelo contrário de grande segurança e lucidez. Passar os dias a construir presente é o que requer uma dose maior de clarividência porque a ilusão de infalibilidade que deveria subjazer a cada palavra, acto, ou condição, é demolidora na maioria das vezes.
Mas os tempos são o presente efectivo de uns nos outros, como um vórtice perpétuo. Sem deixar poeiras de fora que não as irrelevâncias parasitas que se vão imiscuindo nos tempos sem filtros capazes de as limpar. Essas sim, exclusivas do universo sem tempo e sem qualidade. A depurar em cada momento fictício de paragem. A deixar em cada estação. No espaço próprio às inutilidades da memória não reciclável. Coisas que não servem para nada não tendo sequer a qualidade da simplicidade, da elementaridade ou, muito menos, da síntese. Ruídos ou poeiras que emperram a engrenagem de súbito. Com risco. Reconhecê-las não é trabalho fácil. São de uma enorme ambiguidade por vezes, parecendo oferecer contextos e explicações para a vida material. Haveria uma capa espessa e impenetrável possível. Mas o risco de ser impermeável é enorme naquilo que se perde. De valor, e sem valor. Eu quero sentir e sinto tantas vezes que o tempo é hoje. Não em depósito de economias para o futuro, mas como o único possível de anteceder tudo o resto. Há uma arquitectura, projecto e concretização no tempo próprio. E há o acampamento de qualidade. Acampamos no dia de hoje. Provisoriamente e com os recursos de que necessitamos para o imediato de uns dias. Ou simplesmente de hoje. O presente é o único tempo.
Aquela expressão peculiar, sete partidas. Antiga de séculos. Partes, regiões. Mundo do mundo do viajar, no desconhecido que foi e se foi desvendando e desenhando em mapas, de início visionários. E o número que não sendo o maior dos algarismos solitários, é de tantas formas, imagem e símbolo do muito. A violência das sete pedras na mão. O desconforto das pedras no sapato. A incredulidade das partidas da memória.
Sete partidas da memória. Ou muitas mais, as possíveis. Partidas do mundo. Interior. A partida da memória, e da de ser em si. O sentido de ser. O lugar que se esqueceu. O retorno inesperado. A do retorno indesejado. A do que se julgou morto. A do que volta do lugar errado, porque transitou em viagem autónoma. Do que volta sem ter partido. Sei lá que outras partidas. Ou chegadas.
Porque se desejaria de cada vez invocar uma emoção em forma de memória, mas, talvez como o facto ou a possibilidade de a alma não existir para além do fio ténue que a liga ao matérico carácter do corpo em que se transporta, o suporte de linguagem, mesmo visual, mesmo táctil, de que se faz a memória que se quereria presa aos objectos, às imagens. Querer exercer através do olhar a magia da reinvenção da memória como suporte de existência havida, é falível. Memória ou natureza morta pelo tempo.
Dizer que uma natureza morta é algo de doentio. Esquecer a intensidade de uma qualquer evocação, até porque na inércia dos dias, a habituação do olhar a torna quase invisível, ou quando o olhar foca com atenção sobrevém a estranheza do sentido e mesmo a distanciação do testemunho de meses passados ou anos ou décadas. Mesmo as cartas, os retratos antigos são naturezas mortas. Carregamos na memória afectiva uma mala cheia dessas naturezas mortas. E a alma não é território de conquista. Essa, não se arruma no sótão.
Toda a gente deveria ter um sótão. Umas águas furtadas – saboroso nome – roubadas ao espaço do real ou da casa, talvez, para manter circunscritos os vestígios sólidos da memória de vida e de vidas passadas. Pedaços de infelicidade soltos. Pequenos fragmentos felizes mas quebrados e desmaiados de cor. Fantasias. De carnaval e outras. Incongruências sólidas. Para reciclar, uma caixa. Para esquecer, uma outra. A de saber e não saber, uma única de difícil arrumação. A confusão instalada até um dia de maior paciência, de tempo, ou dominado por um ímpeto impulsivo, em que se deita tudo fora. Ou não.
Um sótão para desarrumar progressivamente sem que isso se estenda à casa. Definitivamente, mesmo. Se necessário. Nada mais intrigante do que o tempo dedicado à arrumação do passado. Objectos, memórias, recordações. De cada um e de outros. As cartas. Os diários. Provas de viagens. Notas em desuso de países distantes. Projectos e sonhos no papel. Aqueles desenhos eróticos sem destino recuperável. Fotografias de amigos mortos de parentes mortos. E tantas recordações mudas, excepto para nós. E mesmo aquelas que não o sendo antes, com o tempo se esvaziam e tornam, também aí, mudas, seráficas e insondáveis, mesmo para nós. Para sempre. Mesmo quando perscrutamos a memória, revolvendo detalhes, à procura de uma emoção, de um momento, de um nome. Mas que nome? Às vezes é assim. O nome já lá não está. Durante anos escrevia diários com aquela enorme preponderância do amor. De amores hoje insondáveis. Sem lhes referir o nome, na convicção de que sempre seriam óbvios. E não foram. Nem sempre. O que sobra são sentimentos que se repetem porque eu serei a mesma mesmo que eles o não forem já. E, indiscriminados tornam-se um nada que se reduz ao que senti. Muitas vezes sem mais. Outras vezes, não. Diários difíceis de reler. Cartas impossíveis de reler. Fotografias dolorosas de revisitar. Porque se guardam numa enorme necessidade de garantir a demonstração de que houve existência prévia. Mas no reino da nostalgia. E esse é o reino encantado que devia viver no sótão de cada um. Trancado a sete chaves. E visitá-lo, um dos sete pecados mortais.
E ali, no sótão da alma há também vestígios das sete partidas. Que a vida pregou, que o momento presente pregou ao futuro, torcendo e distorcendo. Sete mares de tormentas a descobrir ou a esquecer. Aquelas coisas tristes que nos perseguem inutilmente porque as sobrevivemos, porque as tornámos irrelevantes – tornámos? – mas encastradas num ponto qualquer da pele. Invisíveis aos olhos, numa actividade secreta, e que só a doença apaga. Quando o lugar morre. Ou se recolhe intransitável. O lugar da memória. E contudo, este é desarrumado por natureza e mistura ligações com dados puros. Parece. Cria acessos alternativos. Cópias. Coisas assim.
A plasticidade cerebral. Essa extraordinária capacidade de adaptação criativa e autónoma relativamente à razão, à vontade ou à expectativa. Habilidade para mudar se necessário a sua organização estrutural em adaptação a condições mutantes. A cada nova experiência e sobretudo a da morte de áreas, caixas de arrumação específicas, novas redes de neurónios, as ligações sinápticas a rearranjar-se ou reforçar-se de forma imprevista para dar resposta à novidade ou ausência. A recuperar funções perdidas ou a redefinir ligações. Partidas estranhas da memória. No fundo, estratégias motoras. Como usar as mãos para organizar caixas de memórias e vivências no sótão. Mas aí, pela magia da vontade. Na casa imaterial, não há domínio. O que fez bem ou mal no mesmo compartimento. A importância das coisas a reter ou a esquecer, sem possibilidade de escolha. O que volta ou o que fica para sempre como morto. O que morre de facto ou o que parece mas não é. E volta inteiro dos confins do sótão da memória ou da construção da vontade. Não há espaço na casa para tudo. Não há tempo nos dias para tudo polir. Por isso um sótão era o direito que todos teríamos a uma cafua caótica. A uma porta, um alçapão que se fecha até um dia. Se chegar. Quando se diz que se faz o luto de um morto querido, há o esquecimento progressivo. E quando a memória volta, num dia qualquer, tudo inteiro se apresenta. Quando se esquece um grande amor, esquece-se um grande amor. Até ao momento de distinguir se morreu ou não. E uma coisa não é a outra. Nem sempre.
Mas nem todos os dias, são dias de subir ao sótão. Uma cerimónia que se deveria querer rara, com todo o ritual e nostalgia. E raro o tempo de mergulhar na melancolia de um olhar em tudo é sempre perda ou sempre a taça cheia. A memória da própria memória persegue, contudo. Toda a gente sabe que tem um sótão, no fundo. E falta de tempo. Para trocar o estar aqui. E assim. Hoje. O único tempo. Mas entrançado nos outros, e voltar ao início. E lembrar que cada momento é tempo de produzir passado. E este desarrumar continuo.
No entanto, porque é noite, agora vou. Pousar a cabeça na pequenina almofada da avó. Que veio até mim já depois dela. Estranha recordação que mais ninguém a quis. E por pouco o desencontro também comigo. Ou então foi um daqueles actos de magia branca inadvertida. Não sei. E que tem um anjo bordado. Basta tão pouco das recordações para poisar a cabeça. E só um cantinho. Ao lado do anjo. Um pouco silenciosa. Magoada do meu próprio silêncio. E da memória. Por tê-los ocupado mal. Por vezes.

4 Mar 2016

Nem em dia, nem em dia nenhum

Eu pequenina e sempre com otites. Mais tarde amigdalites. Antes chorava muito, depois era tudo mais subtil e estóico, até aparecerem gânglios visíveis, febre. Assim. Numa dessas, entra-me a minha mãe abruptamente em casa de enfermeira amiga em punho, para as terríficas injecções de penicilina. Terror. Gritos. Eu, ínfima no canto mais oposto do quarto: puta, puta…Eu sabia que era uma ofensa terrível, já então. Mais tarde comecei a pensar que qualquer pessoa tem o direito de vender o que tiver e lhe pertencer. Mesmo a alma. Tudo limpo, visível. Quanto a palavrões, palavras grossas, sempre fui púdica e reservada. Mas só a partir daí. A percentagem dos que disse, mesmo para mim, situa-se claramente na segunda metade da última década. Quando a demência próxima me começou a impregnar de desespero e revolta acima de qualquer tempo ou medida. Ou quando dei a mim mesma o direito de desconstruir, desabafar, destruir o que me consome. Mas ali, era no fundo também o desespero inglório e impotente, face ao poder inevitável. De manusear a agulha. E para bem da infecção. Ainda hoje sou assim com tratamentos de choque. Eu queria mimos e que ela me dissesse, dança que vai passar. Que me desse um beijinho para passar. O beijinho para mim e a agulha para o resto. Talvez um sorriso de uma, da outra, ou de ambas. Mas a enfermeira era impenetrável e só queria apertar o êmbolo e ir à sua vida. Claro que essa enfermeira ficou para sempre uma personagem a evitar. Eu, muito pequenina, sem saber como contornar o orgulho e a vergonha. Os dois. E a ofensa. A dela e a minha. E depois a história do cão. Ou antes. Não sei.. Mas acho que foi depois. Nós tínhamos um cão, ela tinha um filho. Os dois cruzaram-se no azar de uma escada e do mau feitio do bichinho. Que de soslaio, fitou de cabeça baixa e pensamentos insondáveis, à passagem do que descia e dos que subiam, num encontro de acaso, em que só um degrau em comum e patas acima, pernas abaixo, se cruzaram dois indivíduos pequenos e de espécies diferentes. Acabou na contracção da mandíbula de um na canela de outro. Jesus… E porque a raiva, isto. E porque as vacinas contra a raiva, aquilo. E vacinas em dia não havia. Nem em dia, nem em dia nenhum. Nunca houvera. O cabo dos trabalhos e o currículo a avolumar. O meu, o da enfermeira, o do cão, o do miúdo abocanhado. Santo Deus. Não era raiva. Era só um mau feitio aleatório. E o desconforto a aumentar. É assim às vezes, com as pessoas.
Peugeot, foi o primeiro carro que tivemos, lindo de morrer, nos anos sessenta. Vindo dos cinquenta, finais de quarenta. 203. Em segunda mão e mesmo à época já um carro quase démodé. Primeiro negro e depois cinza azulado ou vice- versa. Estacionado à frente da casa de tios do lado paterno. Ou em frente, mas do outro lado da estrada, da casa de tios do lado materno. O que vai dar ao mesmo. E em fundo, Beatles. A minha música de infância. Ouvida na rádio. E a rádio em todos os lugares, em pano de fundo. A ninhada era de meia dúzia mas aquele mais peludo, ruivo e um pouco frisadinho, uma raposinha minúscula, foi connosco no carro e para casa. Vindo de casa dos tios paternos e baptizado com o nome do carro novo, que é como quem diz, pelos tios maternos. Como se sintetizam dois ramos de familiares, um cão, um carro, e os Beatles. E, assim de mansinho e de caminho, falar da tia Angélica. Essa tia que tinha uma cadela e uma ninhada de meia dúzia de rafeirinhos, entre os quais escolhi o mais peludo. E um marido violento, e três filhos, e casas pequeninas, e mais tarde vários netos. Lindos de vários tons. Uma sibila pequenina que falava com cães, gatos, passarinhos e anjos. Na verdade acho que falava com tudo o que existia e não existia. E nem era que falasse muito. Vida sofrida. Mas sempre um fundo de riso por detrás dos olhos. E nas comissuras da boca. Alguma ironia. Sibilina, lembro-me. Mas de uma enorme ternura. Só muitos anos depois me dei racionalmente conta de como era condizente com o nome que tinha. Na altura só sentia. Quando deixei de lhe ouvir o nome como tal, de sonoridade metálica, e lhe reparei na força da adjectivação. E o encantamento com que a lembro desde que partiu, fechou-se num círculo doce e perfeito.19216P16T1
E ficou Peugeot. Assim. Durante anos não sabia como lhe escrever o nome nas cartas para África, que na versão dita pelo tio, não soava ao que dizia. E mais tarde fincou o miúdo. E aterrorizava de morte o meu amigo Tó-Jó do andar de baixo. O que tornava a circulação difícil no prédio, com cenas emotivas e a porta fechar-se com força para descermos. Mais folclore que realidade. E o contacto físico nunca se deu, afinal. E havia pouco depois um gato da mesma cor e também com malhinhas brancas. E eram amigos de infância, e passavam ambos os dias a espreitar a rua em cima de um banco de marceneiro do avô que vivia na varanda. O banco. Ambos com as patinhas na balaustrada de mármore da varanda das traseiras, poucos centímetros acima do dito banco, e um dia caíram do terceiro andar. Um dia, um, outro dia qualquer, sem nada a ver, o outro. O gato não voltou. O cão, por entre gritos de transeuntes, este cão parece que caiu daí de cima…pois, não seria do céu, estarrecido do voo, encharcado como se saído do banho – os nervos – de cabeça baixa, queixo esfolado e aquele seu ar meio zangado meio infantil, deu a volta ao quarteirão a correr e veio para casa.
E o que haja de filosófico aqui, nada. Ou talvez só a queda dos bichos. Do terceiro andar. Não do céu. Não como revelação ou descida aos infernos. Mas queda no mundo, talvez não a do gato. Fuga ou distracção. Uma gata gira que passou em baixo, a natureza e o apelo. E a do cão, não sei foi queda também. Talvez se tenha atirado ou caído. De fúria. Que tinha mau feitio. Um caiu e não voltou. O outro caiu e voltou. Por razões que se prendem com as razões que os fizeram cair ou mergulhar e que nunca se saberão. Como do café com leite na caneca da manhã, nunca se saberá se quer ser bebido, e sabendo-se que a questão não se coloca porque não se trata de um ser mas de uma coisa sem atributos ontológicos, reflexo na sua existência material e só, da vontade que é minha, poupa-se grandes dilemas. Até aí. Daí para a frente no dia, é difícil não adoptar a posição do outro lado do espelho. E nessa altura, por isso paradigmática ainda não encetara esta obsessão por entender as coisas. Este enorme porquê que me invade a alma e me ocupa sem produto que valha a pena. Até àquele dia em que me caiu a ideia de morte em cima. Uma noite. De aniversário. E tudo se desfez num rumo de altos e baixos em função dessa noção implícita, umas vezes, explícita e avassaladora, de outras.
O que é esta realidade que procuro entender exaustivamente, para além dos factos? Factos, acontecimentos que sabem bem ou que fazem mal. Factos, como interruptores de sentimentos, mas que parecem estar ligados a circuitos errados. Os interruptores e os sentimentos, diferentes circuitos. Sempre. Não ligam e desligam senão a emoção certa, que é contrária aos sentimentos ou de sinal oposto. Por vezes. Ou ao querer. Começa a doer esta possibilidade de leitura por camadas, sentidos, interpretações e causas. Os porquês que atormentam para além da simples verificação dos factos objectivos, escorreitos e inequívocos.
Factos, deixei que ter vontade de passear o meu cão. Moí-me de remorsos pelos anos fora. Hoje, como gostaria de ter um cão que pelas suas necessidades básicas me arrastasse todos os dias naquelas longas caminhadas que me fazem bem à alma. Para despoluir de tantas ideias. De tantas palavras.
E depois, há a questão dos sonhos. Ao longo da vida sonhei deveras comovida que voltava. Ele. Perdido um dia mais do que outros nas ruas, e que não voltou. Mas voltou em sonhos muitas vezes. E é isso que os sonhos têm de diferente das fantasias. É que mesmo por dentro da ficção do sonho, sabe-se que um cão não volta passados vinte, trinta anos. Não volta passados quarenta anos. Um dia passou a colocar-se, em termos oníricos a sensação difusa de uma camada de realidade, se nos sonhos se pode chamar-lhe isso Sabe-se isso no sonho embora ele esteja ali, a voltar dos confins da memória, do remorso e das ruas. Porque um dia se deixou de ter paciência para o acompanhar à rua. E ele ia e vinha. Ia e vinha. Ia e vinha, e demorava numa volta cada vez mais larga, talvez a descobrir mundo. E ia e vinha e ia e vinha. E um dia não veio. Só voltou, bem mais tarde em sonhos.

19 Fev 2016

Insignificante. Como uma bomba

António. Acorda, homem. Acordo. Mas nem sei se dormia de facto. Olho estremunhado e honestamente sem entender. Logo num primeiro plano, onde estou. Num segundo instante, quem é, e quem sou. E numa terceira tentativa de manter o pé, porque haveria de acordar. E para quê. O que há aqui, num primeiro instante, sem saber onde estou e que lugar da consciência do mundo seria este, por exemplo. Num segundo momento, para cumprir que excentricidade do universo e de pessoas que me acordam aos gritos – as pessoas aos gritos, e são muitas, perturbam-me sempre para além da perplexidade – a quem faço falta no estado lastimoso em que sou. Essa uma questão de sempre. Num terceiro degrau do acordar abrupto, mais abaixo, e como tal a tocar de perto uma aproximação de um eu em alvoroço, vindo de dentro de um sono profundo, àquilo que começo a sentir nos ossos, nas pálpebras e no estômago, que de súbito se revoltou, como que dos gritos selváticos, num ronco borbulhante, talvez de fome, afinal. E, de repente, estou completamente acordado. De pé, de um salto e reposto nesta normalidade de mundo, que é o meu café dos dias ímpares. Dos dias pares. E dos outros, porque a limpeza no lar de velhinhos falhou. Faz-me ainda impressão chamar “lar” a um sítio estranho, em que se vive com gente estranha. Penso no meu velhote e penso que não lhe vou fazer isso. Enquanto puder. E lá, não hão-de ser os desgraçados a fazê-la. Mas sem dinheiro, salta o António e fica a gestão da despensa, que apesar de tudo é a prioridade. E vão continuar a acumular-se esparsos cabelos brancos no chão. Mais um botão ou outro que ninguém iria coser. Mais um brinco partido de tão gasto. Mais um lencinho de pano muito enroladinho e assoado, atrás duma cadeira. Mais metade de uma bolacha surripiada ao lanche para as horas mortas. Um rebuçado peganhento do calor de vários verões, que alguém ofereceu como a um cavalinho…
Não fosse a exaustão já anterior e continuava a varrer-lhes os cabelos do chão e a apanhar-lhes os óculos remendados com fita-cola, que não funciona mas os faz continuar a ter a ilusão de que têm óculos. E a fingir que não vejo como escondem nos cantos das cadeiras desconfortáveis aqueles saquinhos de plástico já muito enrugados e baços, onde parece resumir-se o historial de uma vida, simbolicamente ajuntada em meia dúzia de objectos que às vezes não passam de um botão caído não sabem de onde, uma moeda de dois euros deixada pela filha, um pente sujo, um postal daquela excursão à Ericeira, muito comido nos cantos e que era para mandar a alguém, mas que sabendo ou não, depois se esqueceu, e três papéis irrelevantes, dobrados e rasgados nas dobras, que ainda sonham dizer respeito a uma vida, de cujas burocracias ainda depende uma falsa noção de domínio, de pertença e de continuidade. De existência. Segredos, que talvez já nem saibam como e quanto insignificantes e ilusórios são. Símbolos de segredos, que já não têm uma carteira ou uma bolsa decente em que se façam valer.
Mas por agora, não há mais limpezas no lar dos velhinhos. Azar. O meu também, porque era um reforço ao orçamento.
Aprumo as costas não vá o patrão avançar a mão no meu pescoço, num ímpeto que ele até pode fingir achar de paternalismo e com a ternura possível à sua alma rude e violenta, mas que me sabe mal. E sempre. Cai-me como sempre todo o resíduo recente da memória em cima, atulhando-me a consciência que volta, de um laivo amargo de desilusão porque aqueles imprecisos temores de que a verdade é só uma, aquela e insinuada desde a raiz da vigília, lá bem do fundo, de forma a, no primeiro momento de confusão de acordar, ainda poder parecer fantasia, mas logo cai tudo de chofre e é mesmo a verdade que ela se foi. Há muito. Depois lembro-me que há qualquer coisa. Outra coisa que custa a voltar dos fundos do ânimo. Sim. Ela. Mas outra que não a que foi. Esta, ainda não é. Só aquele sonho que nem o de ser de algum modo a realidade possível, mas tão só de o ser, e me acompanha. Mas não tão enraizado como a memória de ela. Da outra que se foi para melhor. Pensou ela. E eu também, na minha insignificância, que sempre vê o mundo maior do que ele é. E nele, todos os outros, mais do que eu sou. Mas que raio. Ainda não vai ser hoje que digo ao patrão com todas as letras porque é que não me pergunta o nome. O meu nome. Que raio. Que António é que nunca foi nem sei de onde veio esta ideia. Apre. E recaio de novo naquela calma apática, a poupar energias para o resto do dia, que parece sempre ser demasiado. E grande. Se ela aparecesse agora, mas não é a hora dela, não era a melhor altura. Nunca é. Fica sempre aquém do que espero quando estou longe de isso acontecer. Pequena, modesta, impenetrável. Como a quereria. Não fosse este vacilo que sempre me dita um alheamento, uma inexistência em que a adivinho ver-me. E assim não há olhar possível. Quem não existe não olha.
Agora vem a parte melhor, que isto do acordar tem camadas. Como um fogo que se me propaga à alma, se espalha no rosto que sinto corar, e no pescoço que transpira abundantemente, bovinamente, digo, não fosse eu uma fraca figura de um metro e cinquenta e dois, já a contar com os saltos dos sapatos do casamento, enfim, quê…três centímetros a retirar ao registo legal, e lembro-me que hoje trouxe a carta. Porque dizer-lhe – entendi há muito – nunca vou dizer. Nem olhar, sequer. Mas a carta queima-me o bolso das calças ao ponto de olhar para baixo a ver se se vê. Sei lá. O fumo. Ou um buraco fumegante a alastrar. E nem seria bom de imaginar, porque são as que trago a uso para poupar as cinzentas escuras que são para o que der e vier. Festas, funerais e o mais que acontece a um homem. Mais os segundos dos que as primeiras. Mas já nem estes, que começam a escassear. Estranho. A questão é esta. Desatei a transpirar de nervos só de me lembrar a carta corrosiva dentro do bolso. Essa é que é essa. Já em casa, para me resolver a trazê-la, quase se diria que estava a entrega-la. O coração num alvoroço de enjoo. Não sei que fazer de mim que sempre fui assim. Entregá-la vai ser uma coisa linda de se assistir. Que é como quem diz. Porque o que queria era meter-me num buraco do chão, com uma mãozinha de fora quando ela passasse o tapete carcomido da entrada e estender-lha sem mais. Depois, estou sempre despenteado quando ela vem e é sempre sem esperar. A roupa, também não ajuda. Mas o pior sou eu. Só de me lembrar do que vejo ao espelho todas as manhãs. Nada a fazer. Não é que ela seja nada de especial. Já a outra que se foi, não era. É que é amor. Antes também era. Eu sou assim. Mas ficou bem escrita. Saiu-me bem. Para falar não me desembaraço mas a sós com a esferográfica, a cabeça fica limpa por um instante. Só vale por isso. Sempre gostei de cartas de amor. Saem-me das entranhas e com o melhor que tenho e não tenho. E elas. Mas o amor é assim.
Levo de novo a mão ao bolso das calças e retiro-a bem dobrada em oito partes, para lha poder por na mão discretamente e como coisa sem importância. Que é. Reparo então que de tanto a tirar para lhe sentir a existência real, para me interrogar de novo se seria capaz de lha entregar como uma flor, sempre a coloco muito ao alcance da mão. Fico em pânico de imaginar deixá-la cair, perdê-la ali pelo chão. E empurro-a bem para o fundo do bolso, como quem aconchega um animal pequeno para não ter frio na noite longa do sono. Mas é nos cuidados que por vezes nos perdemos. Aguentei uma hora, bem medida no relógio, até consentir a mim próprio voltar a senti-la na mão. Vitorioso, exigi de mim mais uma hora, e depois, já como uma enorme sensação de alívio, dei ao meu ego a arrogância de a fazer esperar mais meia. E depois, bem, depois já não estava lá. Levando a mão bem até ao fundo do bolso, só um enorme rasgão no forro. Ou talvez afinal uma queimadura irremediável. Nem sei descrever o que senti. Primeiro, pensar – curioso, escrevi penar, primeiro – que se afinal ela viesse, mais uma vez eu teria que me corroer por dentro sem maneira de chegar até ali. Sem pretexto. Sem existência. Por quanto tempo mais, só ela poderia dizer. Em parte. Depois, como poderia recomeçar aquela carta que já não poderia repetir, e que sendo sempre já outra, me levaria a alma, o suor e o sangue de muitos dias até encontrar as palavras. Fugidias. Os ângulos particulares. A emoção. O sentimento o mesmo, mas dias diferentes. E depois o terror de que alguém a encontrasse antes de mim se a encontrasse. E a ela. Também. Dia após dia. Dizer-lhe as palavras que não digo.
O pior de tudo, no lar, era quando me pediam, com aqueles olhinhos, por vezes um pouco ramelosos, muitas vezes cronicamente lacrimejantes, imersos em cataratas, como uma fronteira da memória com o presente, para ler de novo aquela carta. Quase desfeita, mas para eles nunca o sentido. Suja, ilegível em alguns pontos. Saída daquele saquinho de plástico repetidamente arrumado nos seus parcos conteúdos. O pior ou o melhor. Talvez. Para eles. Em mim sobra a sensação de pânico, pela importância abismal que é a existência de cada palavra. Ou a não existência. E a estatística probabilidade de quase aleatoriamente ela ter ou não sido desenhada, por uma decisão impensada, ou demasiado remoída. E o peso que uma ou outra opção exerce no devir. O que fica. Para além de sempre.
Foi aí que encarei o patrão, entretanto recorrente na modorra do costume, a ver se…e encontrei-o desperto. A fitar-me de lado com um olhar escarninho. Um sorriso escarninho e pensamentos sem dúvidas igualmente escarninhos. Mau. Péssimo. O pior. Não queria acreditar. E dispus-me a morrer – afinal, de vez em quando tem que ser. E ele, na mão um papel dobrado, pequeno, insignificante. Como uma bomba.

10 Fev 2016

Tango. Para dois.

Rodeio. Ao som de um tango daqueles de morrer um pouco. São os pés a querer ensaiar um boleio. Baixo, primeiro, mas o desespero quere-o alto. Sacudido. A cortar a inércia e o tempo. Não arrastado lento no chão. Um grito. Uma estocada surda. Para nada. Não se quer magoar ninguém na pista de dança. Rodeio o assunto mas um dia tinha que ser. Falar de tango, porque esta noite não danço. Uma paixão consome e alimenta. Por vezes de forma indecifrável, outras, para quem se revira de todos os ângulos, não pode deixar de ser fonte de um prazer maior também, o de conhecer direito e avesso do todo que é. O que seria de mim sem esse espaço etéreo de sonho, alienação e embalo que é a música, não sei. E o corpo. O corpo no espaço e no tempo. A transposição de ritmos que são do próprio metabolismo desta máquina apurada, sensível, trabalhadora e lírica que transporta outra coisa. Alma, espírito, razão ou psique. Mais que matéria. Muito mais que matéria. E a própria trepidação das partículas ínfimas que nos compõem enquanto tal, a agitação dos átomos, na sua escala de microcosmos, que se propaga e expande, a fazer antever e ansiar as possibilidades de sonhar com um momento sincronizado, apelativo, Como o da água que não fere a temperatura do corpo. Nem a da alma. Que se quer tépida também. Para não murchar. A existência desse mistério edílico – a música, nas suas possibilidades ilimitadas. Todos os momentos, todos os estados de liquidez, esboroamento, coesão. Procura de cada um, como referência possível para a ânsia de movimento harmónico do corpo. A dança um universo perfeito. Ou um planeta solitário. Uma ilha. Um rasgo, um intervalo no pano do cosmos.
No tango, para dois. 33
Outra vista, agora. Muitas vezes observo sentada. Sem pensar. Deixo os olhos seguir os pares desfocados. Tento sentir só o movimento global da pista elíptica. Uma translação e outra. Múltiplos planetas na sua rotação própria. A necessidade de expressão do ser, como equilíbrio do excesso. Revelar, ocultar. Se revelar parcialmente e se ocultar ao mesmo tempo, num jogo estranho e nunca finito, de defesa dos elementos frágeis, e de oferta dos mesmos. O inimigo espreita e ao amigo também.
A essência da dança é um vocabulário estranho na ordem da representação. Como todos os outros. Uma meta-linguagem, uma realidade que representa outra e também sempre por camadas. Inspirada na música implícita do corpo. Como anseio. No espaço e no tempo. De vida. Aquilo que se movimenta secreto e reage a um apelo musical. Agita ou abranda com mansidão e deleite. Um conjunto de vocábulos retirados do amor ou do andar, da fuga ou da queda. Metáforas de abatimento ou guerra. De posse ou destruição. De acabamento ou início. De desconhecimento ou repetição. Repetição. Repetição. Acentuação da intensidade da repetição. De espera e suspensão, ou de recusa e agressão. De idílio ou desapontamento. O movimento de ascender ao outro e o movimento de recolher o movimento de outro. Generoso ou abrupto. Amoroso ou em desafio pendente do próximo passo. Do diálogo, nem sempre pacífico. De feitiço hipnótico ou ignorância. De verdade ou atuação. Atuação sempre. Ah…mas aqui é um território esquivo. Qual o limite de uma e de outra que não o da honestidade com que se enfrenta o mundo empático e extrínseco em que se finge o que se entende, ou a revelação plena, no mínimo, daquilo que se entende ser.
A dança como o teatro pode ser tudo. Mas sempre uma atuação. No tango, a dois. O que a torna fruto e raiz de muitas metáforas possíveis.
Ali, um passo pode ser tudo. Nenhum passo pode, deve, ficar sem resposta, um desenvolvimento que leva ao passo seguinte. A não ser assim corre-se o risco de tropeçar no outro, cair, e se um cai, no tango caem os dois. Num salão pejado, talvez outros pares também se desconcentrem e desconcertem por instantes. A essência do tango é o caminhar. Dito naquela contensão doce do castelhano argentino. Mais doce e contido sem desfazer o ene. O caminhar, de que tudo o resto são variações. A dois, sempre. Nenhum passo sem uma resposta. Excepto o último. Um momento síncrono. Prolongado por momentos enquanto o silêncio se instala e logo a seguir se desfaz no murmúrio que se eleva do salão.
No tango basta uma vez. Na verdade uma tanda, conjunto de três ou quatro músicas. Para se entender uma pessoa naquele par. Um estilo, um caráter. Porque será um pouco diferente noutro par. Mas basta uma tanda para se entender tudo. Como no amor. Mas também aí um continuum que se apura a partir da essência. E depois, há a técnica. Mas que de nada vale sem o sentir. Sem sentir a música. O outro, a si. No espaço de uma tanda. Depois, repetir ou não depende. Há a disponibilidade do corpo e o ouvido para a música. Que está ali como o mar que embala ao seu ritmo e não outro. Mas é a partir daí que se encontram as tonalidades da linguagem para além do código.
A graciosidade, a leveza, o rigor, a expressividade com que se interpreta um passo que é uma emoção na resposta a outro e, na sequência, um diálogo. Mas há, à partida um mínimo de comunicação que é o vocabulário como ponto de partida. E só depois é linguagem pessoal.E depois, ainda, tudo se funde. Emoção e dedicação. Criatividade, lirismo. Paixão. Com que se parte de um gesto codificado, aprendido e se lhe dá a forma de um requebro particular, de um balanço alongado no tempo que o tempo permite. De uma patada animal, seguida de uma paragem sensual, ou irónica. De um retomar cordato. De um abandono à condução. Pode-se alternar em humildade e desafio. Entre ternura e desencanto. Entre indiferença e interrogação. No tango, dentro do vocabulário, do código, dos passos pré-definidos. Com um amortecimento do gesto, ou com um sincopar do ritmo, ou com o corte abrupto de um movimento, ou com o prolongamento lânguido de outro. E a seguir o contrário. Com humor ou raiva. Com amor ou desespero. Como na vida. Mas com o respeito pela dança, pela sua natureza específica de tango. Com aqueles códigos. Uma linguagem ao serviço da paixão. A fingir. Na maior parte dos casos. Tanda após tanda.
E comparar-se a um retrato por Modigliani. Com os seus olhos ausentes e a sua curvatura alongada do pescoço. Um vôo cego de pássaro guiado pelo intervalo de uma sequência musical. Guiado com desvelo. Um passeio pela música e pela vida de momentos de uma noite. Um passeio sonhador e sem continuidade. Sem princípio nem fim. Outras tandas começaram a noite e outras vão findá-la.
Sim, o tango é para dois e num salão apinhado. Não é espectáculo. Gosto de ver os meus pares míticos e sem sobreposições, claro. Aprende-se a ver e é um prazer sem igual. Mas isso é ver. A essência da dança é de índole privada. Conduz-se com o peito. Diria, com o coração. Mais nada se toca senão as mãos uma na outra. E a outra de cada um nas costas do seu par. Mas é o peito que conduz. No abraço fechado. E é quem segue, que escolhe o abraço. Teoricamente. Na verdade o líder tem tendência para o impôr. À sua medida e mesmo no limite do desconforto. Do encerramento. Mas o par dança para si. Um para o outro. Um com o outro. Não para se exibir a quem o possa seguir com o olhar. E porque se conduz com o peito, numa bela caminhada pode resumir-se todo o ritmo, a sensibilidade à musicalidade do tango ou da milonga. Dizia-me alguém que quem conduz, deve fazer brilhar o par, e não a si próprio. Mas dizia-me alguém, também, que provocava na senhora o desequilíbrio para a obrigar a responder com o passo certo. Uma condução traiçoeira. Não é isso dançar. Quanto muito, assim, responder por instinto de sobrevivência. Mas há um diálogo que pode ser de muito desafio. Quem segue pode trocar as voltas e responder com um passo possível mas que obriga a uma resolução, a uma mudança. Não de forma impeditiva mas desafiando a uma mudança de passo. E depois o boleio. Esse movimento icónico do tango. Uma patada circular, que pode ter a elegância e a leveza de um floreado lírico, a arrogância ou a qualidade de desespero que se lhe queira imprimir, como a qualidade animal de coice de revolta, de desafio, de insubmissão. Ou um lançamento da perna para trás como símbolo de fuga ao abraço. Ou a nuance subtil do boleio baixo, Um arrastar lento e pausado, num desenho redondo de quase carícia ao chão do qual noutros momentos os ombros elevam a alma. E o gancho, uma qualidade de laço, de nó, de aviso abrupto. A perna de um, enrolada na de outro. Presa. Poder ou submissão…O código. E as margens subjectivas. Pode ser uma discreta agressão em resposta. Mas há a castigada, por outro lado. E aquela carícia com o peito do pé, rápida e nervosa, longa e glamorosa, ou atirada a doer. Sempre um diálogo. Um conduz. O outro segue. Por convenção.
Hoje começa a enraizar o hábito de falar do papel do que conduz e do que segue, sem imputação a géneros. Faz sentido. Passado o passado histórico do tango, dançado exclusivamente entre homens, é ainda uma fuga à norma, voltar a baralhar os géneros, mas é na fuga à norma que se encontra muitas vezes a poética da interpretação dos padrões. Também. E da sua transformação. E muita gente começa a aprender os dois papéis. O de líder, muito mais complexo, claro. Mas essa permuta de papéis dá a dimensão mais focada do outro. Permite entender melhor cada um dos papéis. Uma enorme rebeldia à guerra dos sexos, substituída pelo prazer de alternar sem juízos pelos dois papéis, o de líder e o de folower. O que conduz e o que segue, sem subalternidades. Só pelo respeito pelas regras e responsabilidades de um e de outro. Sempre, o que conduz, tradicionalmente condenado pelo machismo àquele papel, a quem são imputadas as culpas do desacerto. Porque é, curiosamente este que conduz que se adapta ao nível de quem lhe segue as passadas. Ensinar, numa milonga, é ofensivo. Não é de bom tom. Tudo isto é a teoria e o ritual. Nada disto se passa, já. Quase.
E aquele segue, a seguir com desvelo e atenção, garante a resposta possível e a continuação da dança. É lindo, isto. Na pista. No salão, talvez na vida, também. Há uma analogia curiosa entre um bom par e o comportamento de certos animais. Entre alguns, são os mais frágeis que vão à frente, impondo o seu ritmo. Num par, deve ser assim. Mandam as regras. O que conduz afere a dificuldade do vocabulário pelas possibilidades do outro, não força, não é deselegante ao ponto de o fazer ter uma má figura. Prefere não brilhar com todo o seu esplendor a humilhar o par. Dança para ele. Dança com ele e dança, do modo que dança, por ele. Só por uma tanta. Depois, a vida continua e a milonga também.
E o prazer da dança vai para além das possibilidades da sedução, do enamoramento. Vale por si.
E as luzes são ténues. Acolhedoras. As sombras muitas. Porque o resto, o resto é espectáculo. A música. E o tango, para dois.
E o glamour. Que começa a faltar. Lembro-me sempre de uma figura de homem ímpar que milongueava por aí. Morreu. Fato completo de uma estética retro, impecável. Risca larga ou traço de giz. Camisas escuras. Colete, laço ou gravata neutra. O cabelo em madeixas rebeldes a começar a acinzentar. Bigode de guias retorcidas. Uma figura ímpar quase icónica. Dançava que era bonito de ver. Mas um tango nuevo, curiosamente. Um dia convidou-me para dançar, quando eu mal me atrevia a calçar os sapatos, de modéstia, mas corria as milongas só pelo prazer dos olhos. Se eu dançava mal, esmerei-me sem querer no pior possível. Na verdade o que custa é seguir. Com despojamento, atenção e humildade. Sem querer fazer bem. Sem ouvir o par, quanto mais se quer fazer bem, mais se desconversa…Não mais me convidou, durante anos. Triste, entendi. Depois entendi que também ele, que conduzia bem, não o fazia com a nitidez necessária. Ao nível de uma principiante. O que é um erro. E mais tarde voltei a dançar com ele. Aí, um prazer. Mas desapareceu das milongas e da vida. Uma figura sóbria a rigor, um espectáculo para os olhos, morreu discretamente sem que ninguém soubesse que ia morrendo. Solitário como muitos milongueiros. Embora no tango se cruzem muitas intencionalidades.
O que é um milongueiro. Um nómada de todas as noites de tango. Que corre as capelinhas prediletas noite após noite porque nunca se cansa. Que volta sempre como ao local do crime e para o mesmo insaciável crime. Ou, podia pensar-se, alguém com missão de vida focada na eterna procura que é o amor. Pelo tempo de uma tanda. Alienado da real desistência de procurar. Ou então, Para quem já não faz sentido, senão esperar o acontecer daquela raridade de profundo acaso que é o encontro. Com a resignação prévia face à enorme possibilidade de ele não ocorrer. De não voltar a acontecer. Ou de poder não voltar a acontecer. Ou nunca, por nunca ter acontecido. De procurar o par perfeito, ou o par imperfeito mas que é bom para uma tanda. Ou uma música, só. Pela dança. Essa paixão em si só. E que procura conhecer. Apurar. Desenvolver. Com perfeccionismo, com paixão. Com teatralidade. Que está atento a todos os olhares. A todas as novidades no salão, que espera o momento próprio como um felino. Que se insinua. Que cria a emoção que espera e que espera quem lhe saiba responder. Que se entrega como sabe. E volta a entregar. E que se retira com dignidade, acompanha a senhora ao lugar e lhe deixa a sensação de que é para sempre. Não na próxima tanda. Não seria adequado. Mas depois. Lá mais adiante. De novo. A plenitude que ambos pretendem. Se ele olhar para ela, se ela olhar para ele. Outra vez para sempre no espaço de uma tanda.
De resto, tudo começa com uma mirada. A célebre Mirada e Cabeceo. Observar a pista. Colocar-se num local visível. Ele. Ela. Ela, mirada discreta e muda aos cavalheiros de seu apreço. Ele, mirada intencional e interrogativa. A mirada discreta dela permite-lhe fingir que não vê. Às vezes não vê mesmo. Não percebe. Se viu e lhe agradou a intenção da mirada, um gesto subtil de assentimento, um cabeceio gentil e cuidadoso, não vá dar-se o caso de não ser para ela. Àquela distância, acontece. E ele avança, aí seguro, digno e confiante. Atravessa a pista com elegância, às vezes com pressa, não vá acontecer o assentimento ser para o cavalheiro do lado. Ela não deve levantar-se sem que ele chegue ao pé. Lhe estenda a mão a curta distância e sem margem de dúvida. Com vagar. Erguer-se cedo demais e correria o risco de o fazer em simultâneo com outra senhora ali ao lado, confusa uma ou outra, e o vexame é imenso. Mirada e cabeceio, protegem a face dele. Não se arrisca a um não, que, para mais, manda a delicadeza, o impediria de dançar com outra aquela tanda. Eu vejo mal. Este jogo é complicado, mas suspiro porque já nada é como dantes. No final de cada tango o par desenlaça-se, não é delicado o cavalheiro continuar com familiaridade a pousar a mão na cintura. Aí, suspiro de novo, fazem-se coisas estranhas, compôr as meias, pôr as mãos na cintura, abanar a camisola para arejar, apontar um ou outro defeito ao par, corrigir o elástico do cabelo, enfim, coisas de toilete que com charme, se deveriam fazer em privado. No final da tanda conduzir a dama ao lugar, claro. Sem pressa, com uma palavra de agradecimento retórico mas gentil e sem exageros. “La délicatesse de l’obigé, c’est de ne jamais nous faire sentir qu’il nous doit”: Jean Rostand.
Délicatesse oblige.

22 Jan 2016

Onde moram as algas – Conto de quase natal

Àprocura daquela latinha de chá onde guardo o menino Jesus. A única figurinha do presépio que tenho minha. Há quase vinte anos já era vintage, agora continua, porque o menino não cresceu. Em minha casa, a dos meus pais, também o presépio toda a vida se guardou numa caixa de sapatos. Este ano o meu presépio, reduzido a esta única figura como sempre, tem um cenário diferente. Um asteroide. Cinza, queimado, de Raku. Penso nele como o pequeno planeta do principezinho. A sensação de não ter havido salvação é a mesma para um e para outro. Defraudada humanidade pela troca do ser transcendente que era imaterial, superior e triplo sem o ser, por um humano na arrogância do próprio deus, idêntico aos outros, mas com missão impossível. Por isso voltou. Morreu por amor, supostamente, e para aquilo que não conseguira em vida, a salvação dos mortais, que talvez não se reconhecessem na fé por um igual. Voltou aos céus para que a humanidade pudesse voltar interiormente o olhar para cima. Suponho que é mais ou menos a isto que Žižec chama a monstruosidade de Cristo. Morrer por amor é lindo, afinal. E difícil para além de todas as metáforas. Talvez ele fosse então superior. Não estou preparada para mais um Natal. De novo. E isto não é um conto de natal. Que não saberia escrever. É do lugar onde moram as algas. Na minha casa. E, a fazê-lo seria afinal muito curto, a começar na palavra não. Ou a acabar. Somos pessoas que precisam de vez em quando de sair de si. É o que farei mais uma vez. Arrastada para outro lugar. A pensar que talvez valha a pena ou a pensar que não tenho coragem e que depois vou decidir aliviada que será a última vez. E nunca é. Como nada do que pensamos ser.

Vem este tempo que não vem de lado nenhum e que não tem nenhum lado bom. Sair à rua, e todos os desconfortos etéreos e fundos da alma ficam difusos por detrás de uma sensação mais urgente. Dominadora. A de um mal-estar exterior, físico, sem protecção de abafos que valha. Há sempre uma parte do corpo a receber o frio gelado. Há a crescente humidade a tomar conta da roupa a chegar lentamente ao mais interior. A luta contra o vento de frente, o chapéu que se vira. O nariz quase congelado. As mãos escondidas com força. Não há maneira de este tempo odioso de inverno ser suportável. Também porque a alma anda caída de pequenas alturas, é certo. A queda não é grande. Ou então é uma maneira de todo o transtorno das sensações, todo o desgosto omnipresente, se substitua, em parte, àquela infelicidade maior. O inverno há-de passar como sempre.

Naquela noite, outras sensações, uma casa com gente que bebe até aos confins da alma, que dança e dança mesmo em cima da mesa, que despeja agruras, e ingredientes a cru, pelo meio das cartas. Do Tarot. Despindo-se de si como é urgente de vez em quando, e como se de um casaco pesado demais para se trazer em casa. Há momentos em que um adulto tem que se sentar no chão, ou subir para cima da mesa. Intervalos de si. Sair do lugar. E o caminho para casa, depois de vencido um sono quase mortal a certa altura. Caminho curto nas ruas já desertas. Quase desertas. É ainda a luta do corpo a querer despertar o suficiente para chegar ao desmaio na cama, no calor e no arrumar da noite. Os passos a tornar-se rápidos, a dor de cabeça a subir de tom, mal escondida por detrás daquele gelo de noite, como um saco de gelo natural sobre a fronte. A dor de cabeça a tornar-se insuportável à velocidade a que os passos se tornavam ritmados. Insuportável lá atrás, mas estancada pelo gelo. A perturbação das sombras inquietantes que se tornavam várias ou voltavam a uma só. A fazer querer olhar em volta, a sentir-me seguida. Que recuavam ou avançavam mais depressa do que os meus passos e sem descolarem deles. Como um grupo incerto a diferentes velocidades, que me acompanhasse. Solto de mim. Independente no seu móbil, mas ironicamente. E era. Nas luzes amareladas das ruas. O frio da noite a sobrepor-se à melancolia que volta a tomar conta da memória até ali entretida com outras vozes. É o que o frio tem de bom. Ser mais forte que outros males. O mesmo para males de qualquer coisa. E aos mal- de- amor ou mal de amar, e dos males do amor, há dias em que só nos acompanha o amor. Outros em que só nos acompanha o mal. Como duas sombras diferentes que por vezes se arrastam pelo chão, velozes ou a deixar-se ficar um pouco para trás. E que nunca se desprendem dos passos. Dependendo das luzes da cidade que percorro. Mesmo com o frio e mesmo enquanto dormem de pálpebras cerradas, são amareladas e quentes. A noite presta-se. E há aquilo sempre. Aquilo que sempre me aperta a alma de dentro. Ser com dúvidas de ser. De o ser. Momentos da noite. Uns são os meus e outros de ninguém. Que sou.

O sono a vencer de novo. Boa noite ao candeeiro da mesa. Só umas palavrinhas sobre o trabalho, antes de dormir: o grande problema é quando o hoje parece não existir, mas somente o ontem, na sua etérea, progressiva diluição, e o amanhã na sua inultrapassável ainda não existência e imprevisibilidade. E, quando, neste mecanismo de resistência ao autoapagamento, apenas tenho como suporte cristalizar no eterno presente só meu. E aí, o que sobra são sentimentos. Os mais duradouros, apenas. E nesses, custo a ancorar os mais inseguros com tendências fugidias. Porque os resistentes são como o vírus, que instalado, simultaneamente se alimenta e destrói a partir de dentro.
Primeiro a incerteza do que existe.

Depois, quando a incerteza começa a ser substituída por formas ainda ambíguas, instala-se uma primeira fase de insegurança. A partir daí crescem na mesma razão e expressão as possibilidades de definição das formas, que tendem a assumir progressivamente com a maior clareza diferentes vocações, e as potencialidades de insegurança. E um dia, o culminar do lirismo. Momento seguinte: terror absoluto. O que no fundo poderiam ser metáforas para ontem e amanhã…E são duros e resistentes, ambos os sentimentos. É o que por agora existe, e o hoje é um nada só meu. Assim, termino como comecei.

Ou não…porque na pintura, na vida, no jogo, os grandes jogadores são os que perdem e ganham grandes fortunas. E, perder e ganhar pode ser ainda uma outra maneira de dizer ontem e amanhã.

A pensar no desabafo de Virginia Wolf: “Oh the delicacy and complexity of the soul”, quando deambula pelos escorregadios meandros da alma (“ the slipperiness of the soul”), e fantasia acerca de escrever um diálogo da alma consigo própria: “As for the soul…the truth is, one can’t write directly about the soul. Looked at, it vanishes; but look at the ceiling, (…) at the cheaper beasts in the Zoo which are exposed to walkers in Regent’s Park, and the soul slips in. It slipped in this afternoon.”

A tentar pensar nas pequenas, muito pequenas coisas que trazem sempre agarradas metáforas possíveis. As coisas de nada, e de entre essas, a tentar fixar-me na mais pequena em cima da mesa. A tentar fugir a uma prévia definição de um tema, sempre algo triste. A tentar que algo venha por si. A enrolar um cigarro. O filtro. Já para não pensar na mortalha como a roupa que todos os dias vestimos para morrer mais um pouco e isso acontece. O filtro.

Ou o filtro do café. Também. Às vezes sinto-me tão perdida. Tão, tão perdida nos labirínticos corredores. Que gostava que tudo fosse tão simples como as minhas latas de chá.

Levantar pela manhã e começar o dia a abrir janelas. Estender a mão para a prateleira do meio. Aquela em que a caixa de lata do cacau tem café, a latinha dos biscoitos de limão tem bolacha-maria, a dos bombons tem orégãos, a do chá de Jasmim tem chá de três anos, a do Earl Gray, raiz de Valeriana, a do Pu-Erh, Camomila, a de Orquídea, Tília. E assim sucessivamente…E depois aquela mais nova de todas, oferecida. Decorada com rosas que tem dentro, simplesmente, chá preto com pétalas de rosa. Ao lado, o bule da avó, o da bisavó e o da tia- avó. Um outro de um mercado de rua em Cantão. Esta prateleira está em ordem. Ao lado, a caixa do pão vinda dos anos cinquenta, guarda chocolates e algas Wakame. Todos os dias, por assim dizer começo e acabo a estender a mão para aquela prateleira de enganos inofensivos. Pelo meio está o pior.

Se tudo fosse tão simples. Como elas. Que basta abrir ou simplesmente abanar. Todas produzem um tsch tsch tsch diferente. Todos os meus dias começam e muitos deles acabam naquele estender da mão, para aquela prateleira. E com tudo o que trazem e levam pelo meio. Naquele dia, algo em mim se recusava a acordar. Nem mesmo porque o sonho fora mau. É mau sonhar com os anjos. De um modo geral o sonho é menos sonho e naquela noite teve a realidade que os sonhos têm, e que entristece não mais do que a realidade. Uma daquelas manhãs em que o olhar é mais lento e fixo. Fixado por momentos no filtro do café. Fixado nessa realidade tremenda. Depositar uma essência na fronteira de que passa só uma realidade líquida, imparável mesmo ao filtro. Que se bebe todos os dias. Igual, diferente. Nunca a mesma, mas sem uma identidade própria. Como se todos os dias se tomasse o mesmo café. Que passa. Sem deixar nada de específico. Talvez um dia, muito discretamente mais amargo. Num outro, um tanto excessivamente açucarado. Pequenas diferenças desprezáveis. Há um único café. E do pó nada mais a dizer, que não de que ao pó retorna. A origem, a essência, não permanece, é discreta e descartada sem se lhe sentir o sabor directo. Da realidade visível também. Algo fica preso no filtro do café. Mediatização existencial logo pela manhã. Ausência de corpo. De alma. Como um livro. E que mora em outro lugar. Como as algas.

19 Dez 2015

Meios tempos. Meios-tons

Vermelho. Por alguma razão se lhe chama encarnado. Cor visceral. Turbulenta, apaixonada com violência bélica.
Falar um pouco do prazer. Do prazer daquilo a que chamaria o registo. Como de um sismógrafo, o das sensações. Do prazer da cor. Puras sensações de prazer ilusório. A percepção é pouco fútil. Por muito que se desenvolva a capacidade de concentração, é atraída pelo que é dinâmico. O movimento atrai mais do que o prazer que uma forma estática. O ruído impõe-se à apreciação subtil do silêncio. Pedra, tesoura, papel. A cor. A cor é pura sensação, não tem forma, não tem volume, não representa nada em si que não a si própria, mas ela ilude, também ela, a nossa percepção pulsando ou retraindo-se, parecendo expansiva ou reentrante. Faz-se maior ou menor, que o puramente determinável. A exaltação. O corrupio do sangue a acelerar. O prazer da cor, das cores puras, saturadas e vibrantes. Quando muitas, são demais. Anulam-se. Mas em certos dias, a minha alma pede que todas sejam diluídas no branco. Amortecidas e suavizadas.
Como as palavras. Escolher as palavras. Vasculhar no baú à procura daquelas…as palavras são tão importantes. No que dizem e no que não dizem. No que dizem sem dizer, e no que não dizem parecendo fazê-lo. No que dizem sem querer. Sem querer não dizer. Mas sobretudo no tom na cor, na qualidade do brilho. As pesadas e as leves. As que se enrolam na língua e tropeçam, e as que arrastam uma sensação tépida. Arredondadas, macias, aveludadas e suaves.

A premência da expressão, é um inferno cansativo. Sinal de falta de habilidade para o diálogo com a existência, de necessidade de tempo, de reflexão. Sinal de caos e desassossego interior aos olhos ao sorriso e às mãos, dia após dia, reprimidos. A pulsão da morte, o desespero de finitude, o isolamento inerente à entidade do ser em si, o excesso de sentir, o deslumbre do ver, o êxtase do admirar, a dor de ser ferido, a solidão do amor, dia após dia. Haverá por ventura ego ou nem sempre, como certeza de relevância, no amor à escrita, à arte. Simplesmente solidão. Veloz e inultrapassável. Essencial. Demencial. Sem alvo definido. Sem reparação. Sem remédio. Não há restauro possível ao facto de sermos sós, cada um em si. Nos seus mistérios. Nas suas preces e nas suas loucuras. É cansativo entrar e sair permanentemente de uma concha. E mesmo esta é, como um búzio, amplificadora de sons. Ensurdecedores por vezes, mas confusos. Mesmo os silêncios com uma dominante contínua de um timbre particular.
E depois o amor. Claro, o amor é um lugar de não solidão. O amor claro. O próprio privilégio de amar claramente alguém. Mesmo em segredo. Enche e acompanha a alma. A parte possível. Mesmo sem posse nem espera. Um paradigma. É eventualmente um sentir delicado como a luz da madrugada, com os seus altos e baixos sensitivos. Como uma luz de fim de tarde, momento de passagem e como tal angustiante, mas por um ínfimo intervalo de minutos serena e confortável. De uma beleza maior do que a da tórrida luz do meio-dia, impossível de olhar de frente. Que cega. Como a luz desse mesmo meio-dia, coada de uma folhagem leve, intermitências de calor e alívio, de brilho e cinza no intervalo. A combinação perfeita. Porque amarelo é a cor que as crianças usam para pintar o sol. Elas lá sabem. Que da luz branca, completa, do sol, composta de todas as outras, não poderia resultar o neutro do branco puro. Branca é a luz do sol na teoria da cor. Branco é a cor que não é. Como o negro. Amarelo é o aproximado colorir do sol. Pura emoção, a da luz. A cor que seria a mais bela se não amasse as outras duas também. A do sol, a da luz. Real ou não. Que vive no azul do céu mesmo quando cinzento. Tão distantes, tão distantes entre si também, mas são irremediavelmente parte da etérea construção do mundo. Do visível e do invisível.

E não há rigor possível na expressão. Com quanto mais perfecionismo o perseguir, mais se acentuam múltiplas as camadas de sentido. Não há rigor absoluto. Burilar uma frase até à exaustão e entender depois que pode ser lida de través. Como um sorriso de deslumbre pode ser confundido com troça, ironia, ou desdém, uma frase no plural pode ser lida como desabafo do próprio ou partilha de um crime de pensar ou sentir. De um crime ou de uma paixão. Se é que não podem ser uma mesma face de duas moedas. Depois há a qualidade, o som, o timbre, o colorido, com que se diz o que se diz. Querer encontrar, como uma tradução em tons aveludados e suaves, um tom particular para falar dessa imensa solidão que é ter a alma cheia de palavras, que nem sequer se quer proferir, senão a sós. Dizer de outra maneira e com outra cor. Queria aplainar cada fragmento de dizer até ao tom quente e dormente que entrasse como uma carícia na alma de quem lê para que lesse com amor. Se de amor se tratasse. Porque ler também deveria ser feito do mesmo ramo de cheiros, sabores e sentimentos com que se escreve. Senão para quê…uma e outra coisa. Quando o que se quer por vezes, é transmitir sem chegar a lado nenhum ou a ninguém. E tudo parecer contraditório, quando só o desconforto não o é. O desconforto de abrir a alma às palavras traiçoeiras. Ou, de outro modo, gostar de estender um tule de sensações, um perfume, um gesto, e ansiar que quem o colhe, sinta no rosto ao de leve uma onda cálida da ternura que só pode ser de uns, não de outros. Mas ninguém saber. E ser universal a possibilidade de amansar almas em turbulência de igual sinal. Que as há, e muitas. Mas somos tão selectivos que não é isso só e sempre o que queremos. Para cada um, uma camada diferente. Para musgo, tule e veludo, quanto da faca, a lâmina e o gume. Quanto de canela para o ácido do limão.

Como a delicadeza. Nem sequer é das palavras mais belas, melhor do que o adjectivo, sim. Mas por oposição à vocação vulcânica e viciante que é a torrente da expressão. Por vezes uma lava que incinera sem retorno. Compulsiva. A estilizada, calma, controlada e codificada arte da conversação ou do chá. Perdidas para sempre. Um refúgio intemporal das agruras intempestivas de ser rigoroso na expressão do sentir e sem medida, por vezes dizer o que não deveria caber nas margens de subjectividade do texto. Às vezes vasculhar penosamente esta língua à procura das palavras mais doces, mais perfumadas, mais macias ou embaladoras. E a luz não é macia senão ao entardecer. Ou à aurora. De resto é penetrante. Inquietante.
Delicadeza. O que é a delicadeza num território de inseguranças e de idiossincrasias. Um porto seguro para dois. Quaisquer dois. Um conjunto de indicações. De regras que suavizam o caminhar como sapatos de bom corte. A uns e a outros. Será o tempo? Será o vento que afasta de uma delicada expressão de existência mutuamente observada, para o não tempo de inúmeras questões a que dar tempo… O que é a delicadeza senão menorizar o não querer emoções que seriam demais. O que é a falta dela é mais fácil de dizer e mais conhecido. É só o desleixo existencial ou o ego numa espécie de terapia de choque. Só falta de jeito, só deixar cair como se nada fosse. Isto num mundo de demasiada comunicação. Demasiadas vozes, metade delas por motivos insólitos silenciadas sem resposta. Ignoradas. Sabe-se lá porquê. Somos assim cada vez mais. Por vezes sem querer. Por vezes sem termos de comunicação.

Por isso o território do excesso a querer derrama-se como uma higiene diária da alma.
Mas, sinto por vezes, uma enorme agonia de toda esta necessidade de expressão. Deste afogamento em pensamentos repetitivos, sempre em formas ligeiramente diferentes, insistentes, embaraçosos, impúdicos até. Que se sucedem em camadas de tonalidades que vão variando na definição dos mesmos padrões. Saltos no vazio sem rede. Escritos e pensamentos secretos de um enorme rigor momentâneo e que me aterrorizam mesmo no seu recato privado. E é então que tenho enormes reservas de silêncio exterior. Aparente, só. Solitário silêncio que não se redime das enormes quantidades de palavras que continuam a fluir por detrás dele. E a desarrumar-se sempre nos eternos papéis e pastas em word. A precisar de arrumação para sempre. E para sempre a precisar de arrumação, porque se desmultiplicam sem piedade. E no dia em que eu tiver tempo para todas essas palavras, talvez já não lhes entenda e sinta o tom. Por demais inúteis. Como tudo o que é demais. E em ciclos regulares aquela disposição a tender para a paragem, o abrandamento, o retomar tudo num tom mais suave, mais delicado. Surdos rumores a substituir avalanches emotivas. O prazer de nada ser preciso explicar, o culto do indolor. Da ordem. Do vazio. Da ordem do vazio. Do atenuar sentidos trágicos com uma camada leve de meios-tons. Tons degradados com o branco. Suavizados e quase indiferenciados. Calmos, apaziguados. Por oposição ao tumulto de demasiadas camadas de realidade, demasiadas vidas a viver todos os dias, demasiadas dependências da alma a visitar e a arejar, a necessitar de expressão. E o constatar que, na realidade nada de essencial se altera por magia da comunicação. Deste paradigma de clarificação da alma. Se esta é clara nada mais há a fazer do que viver. Por oposição a dizer. Talvez seja também isto que me situa em alguma da tristeza. A exaustão. O desalento de tudo parecer uma batalha sem quartel. A melancolia é um refúgio bom. No vermelho o fogo de uns dias, cinzas os outros.
Gosto das plantas lentas. Como a orquídea. Leva anos até sentir-se em casa. Custa anos a desenvolver-se. Morre muito devagar. As flores, quando começam a insinuar-se, são meses de crescimento lento. Um dia de súbito, abrem no seu esplendor inacreditável a partir de um pequeno botão. E ficam ali por largas semanas, inalteradas na cor na textura no porte. Belas, estruturadas e rigorosas como o são muitas flores. Mas mais lentas. Entes não significantes.

E o culto do chá. A estilização, o ritual, a delicadeza e o protocolo. Ou um outro culto, do estar, do permanecer do conversar fluido, sério. Do revelar. Do parar, do pensar como dizer. A arte do chá como a perdida arte da conversação. A codificação dos gestos ou a descodificação possível a partir do olhar, do medir, do interpretar escolas e mestres. Wenceslau de Moraes abordou pela tonalidade poética, a frescura lírica das coisas relacionadas com o chá no yo. Outras formas de tomar chá. Menos codificadas. À partida não codificadas. Menos significantes também. Mas esta, ainda por ora parece saída do tempo. Fora do tempo. Protegida em pavilhões edílicos, em recantos de jardim.

Gosto de pensar na cerimónia estilizada do chá. O rigor até hoje no Japão. Os princípios da harmonia (wa), do respeito (kei), da pureza (Sei), e da tranquilidade (Jyaku). Os quatro princípios que estruturam o ritual. O caminho do chá, como é designada a cerimónia, e dos vários nomes, aquele de que mais gosto, ou encontro para o chá, ou ainda, quando mais formal e longo o encontro, assuntos do chá. Dominados todos por uma enorme simplicidade, depuração e elegância de gestos. Medidos, aprendidos, perfeitos, apurados até ao limite. As formas mais sofisticadas do ritual podem durar quatro horas, e envolver muitos gestos, muitos utensílios, muitas regras. Como tudo o que é complexo susceptível do erro. Mesmo o chá, não pode dizer-se existencialmente de uma temperatura ideal. Idealizada. Na cerimónia do chá, no entanto, esse é um dos parâmetros codificados. Parte de um ideal a cumprir para regozijo de convivas perfeccionistas. Uma cerimónia em que se busca a harmonia e a serenidade. Gosto de pensar numa síntese das fórmulas básicas deste cerimonial. Na beleza construída para tal e que o enquadra. A natureza em redor, a construção de uma ordem que a envolve também. Uma ordem total. E formas simples. Cores claras. A pureza das taças. Ruídos calculados. Gestos. Fórmulas de delicadeza.

E face a este cenário de perfeição todo um outro quadro de emoções em permanente desajuste e reajuste, parece excessivo. E a violência crua da expressão. Como se fôssemos monstros que na intermitência dos dias levantam narinas fumegantes, fitam o olhar ígneo em redor, fincam garras num lado qualquer da vida e aí mesmo a incineram. E pensando bem, inútil. Ilusória sensação de comunicar e assim aproximar algo ou alguém a uma solidão indelével, pela magia da linguagem. Sem se saber de que serve ser-se transparente. Aparentemente mais reconhecível. Mais claro. E por vezes, sem se querer, o tal monstro terrível por ser enorme e enorme por ser terrível. E mais nada.

Mesmo aquém de um universo tão idealizado, a delicadeza é um conjunto de regras que atenua a dor. Que reserva e defende sem aproximação demasiada. Que não impõe. Que não oprime. Que no fundo deveria seguir os mesmos princípios definidos para o chá.
Mas gosto de pensar em rotinas ainda mais depuradas e idealizadas. Com mais silêncio e mais solidão. A harmonia da solidão e dos gestos simples longe do olhar.
Esta minha vida de partir todos os dias como um caixeiro-viajante com pedaços da vida na mala. Quando o que queria era estar aqui. Ficar por uns tempos num só lugar e numa só vida. Descer numa estação e ficar por uns tempos. E depois não ter nada para dizer. Como se fosse da inevitável imperfeição que se desenrolasse o discurso possível. O relato imparável. Tremendo engano. A solidão, aquela essencial, não passa de um comboio diário de que só nos apeamos pontualmente. Há uma reserva que todos os dias circula nele sem apelo. Talvez a mesma que faz extravasar emoções, incontidas tentativas de chegar a outros e de os trazer a nós. Excesso de vulnerabilidade, instabilidade, construção e destruição de modelos…Um colorido saturado, intenso e corrosivo. Ilusão de encontro. Cumes e baixios a percorrer alternadamente. Uma viagem imparável. Parar.

Planear voltar a um lugar. O mesmo. A única diferença o tempo. Agora. E a quantidade de tempo. Temer que a meio algo se esvazie. Para além de uma mala cheia de vida para arrumar e cadernos a repensar. O mesmo lugar, o mesmo hotel a mesma varanda. E tempo. E ausência, e fim, e silêncio. Mas só uma paragem, um intervalo, aquele entretanto, entre dois tempos.
Chegada a Saigão. O cansaço, a humidade, o sono subliminar e frustrado de muitas horas. O suor, o peso das malas. O choque do ar em fogo nos pulmões. A expectativa do reencontro com a saudade da viagem e de Saigão. Tudo envolvido numa toada de desconforto máximo. Por agora. O olhar fixo num ponto e num momento. Aquele preciso quarto de hotel. Aquele rigoroso momento depois de tudo entretanto, e do banho de todas as sensações dominantes por agora. E do banho que as lava e leva para o fundo do esquecimento. O momento de chegar à janela depois, fresca, apaziguada, perfumada no ar quente e sempre húmido, envolto em cheiros demasiado pesados, os tons lamacentos do rio, a sujidade. Momento perfeito de chegar à janela com uma chávena de chá. Recuar de novo para o cadeirão de rota por detrás do sombreado da persiana de vime. Sombreado com riscas muito juntas e que cobre de tons mais neutros ainda todo o exterior visível. E ouvir o bracejar lento e ineficaz da ventoinha no tecto. E sentir voltar a humidade na pele, de novo o calor imenso sem tréguas. Mas novo. Todas as outras sensações diluídas no banho demorado. Voltar ao momento da partida e chegar, enfim. Finalmente estar. Ali.

11 Dez 2015

O cume ou o passo

Noite alta. Há um ponto preciso na noite. Como na escalada de uma montanha, o cume, ou o passo. Era um facto indiscutível, o de que ela pisava cautelosa, todos aqueles corredores labirínticos, um cuidado furtivo para não mover um só grão de poeira, desarrumar a poalha invisível sabida por ali. Mesmo um reflexo ténue de luz, que não poderia agitar-se. Ou mesmo o ar. Havia que deixá-lo intacto à passagem. Sem correntes. Abri-lo lenta e estruturadamente num rasgo certo, delicado, cirúrgico e à medida, sem perturbação maior que o impedisse de se fechar perfeito sobre si, sem cicatriz visível. Mas mil cuidados eram poucos. A atenção dividia-se lenta e alternadamente entre um olhar em torno, circunscrito ao ouvido. Às cegas, fixo. O corpo todo em espera, imóvel até ao insuportável e repensado, estendido o tempo por mais um pouco necessário. Um olhar girando lentamente no escuro, para posicionar o ouvido. Ora um, ora outro. O ouvido-guia. Só a imobilidade total para distinguir cada pequena palpitação naquele universo sombrio, espaço abstracto, quase. Vivo. E a outra atenção ao corpo, como uma arma ou instrumento de precisão, a exigir a concentração máxima. O apuro rigoroso do gesto. O tempo. A resistência. O equilíbrio.

A medida exacta do movimento. E as dúvidas centravam-se numa sensação precisa de como cada pé se erguia com lentidão, descolando do soalho que inesperadamente poderia lançar um rangido lancinante na noite. Sempre imprevisto e situado como um animal escondido em qualquer das tábuas corridas do pinho, a envelhecer com os gemidos de dor que a certa altura começaram a fazer-se ouvir. Uma certa altura da sua existência de madeira morta, ou a certa altura da noite. Das muitas noites que correram sobre este cuidado. Sobre este soalho. Decolava um pé lento e preciso, sentindo-o curvar-se progressivamente até que só a ponta leve e milimétrica, ainda sobrasse em contacto. E abruptamente elevava esse pé num arco medido pelo ar, voltando a poisá-lo mais à frente. Primeiro a ponta, o arco a desfazer lento, e finalmente a planta. Os joelhos meio flectidos como na dança, a acrescentar fluidez à passada, e o poisar era em tudo inverso ao movimento anterior. Em tudo medido, aferido na memória do movimento anterior. Primeiro a ponta leve e depois, progressivamente a planta inteira a colar-se ao soalho, em silêncio total e diminuindo o peso a pouco e pouco, centrado no joelho, difundindo-se pela coluna elevando-se aos ombros e diluindo-se no ar acima deles. Sem agitação. Um movimento elevatório no momento de poisar o pé. Na eminência de sempre aí surgir o rangido escondido naquele ponto, à espreita, à espera. Estridente no resto do silêncio. Como um lamento de dor. Por isso deixar o chão devolver na medida da suavidade com que se pisa, o peso. Não pisar. Pousar e sem peso. E assim sucessivamente, como sobre papel de arroz, tentando não deixar marcas de gordura, que significariam trazer a superfície delicada atrás. Um movimento ponderado em tudo, quase felino, aprendido num velho filme de Kung Fu na infância. Diria o mestre que era a prova final. Décadas. E ainda não apurado na perfeição. O papel rasgado por vezes. Colado ao pé. O grito do chão. Os puxadores de latão a vibrar sonoros. A respiração pesada interrompida no sono. Mau sinal. Aquele sono a velar para que qualquer intervalo não fosse aquilo que não podia ser. Escuros corredores no início, mais tarde tinham que ter uma luz que afastasse as sombras pesadas, o vazio do chão, na noite. Guiar caminhos. Da memória, até. Mas difícil pedir a uma luz que ilumine até tão longe.
De resto, havia ainda a tensão de todo o corpo centrado nesse gesto repetido. Como se dele, no momento estranhamente estendido, divergissem mil possibilidades, como se nele se concentrassem todos os sentidos e nada mais fosse importante. Quanto mais, existente. Ela não podia acordar. Só isso. Impossível por vezes adivinhar pesadelos que valessem o rangido inesperado da madeira. E por vezes, também, aqueles antecipavam-se a estes. Ou então os monólogos murmurados e sibilinos na noite. Calma. De uma forma intocável também.
E havia ainda o labirinto a resolver temporariamente. Mil tábuas. Um dia haveria que contá-las. Mais que mil, seguramente. Mais que muitas a cobrir aquele chão de que eram face e todo. Contá-las com amor porque eram o chão a percorrer todos os dias. A querer percorrer para sempre, todos os dias. A casa. O labirinto diáfano e mutável a cobrir o chão de desconhecido, de um jogo de regras estranhas a descobrir nos próprios troços do mesmo. Sem ter um olhar longitudinal possível a garantir que essas se mantivessem ao longo de cada caminhada. Visto de dentro, é assim. Visto com o olhar de gigante será tudo óbvio. Seria. Mas não é. Não é fora do tempo e não é uma casa de bonecas. Onde guiar um carrinho minúsculo com prazer de brincar. Há que percorrê-lo na penumbra, com pontos de luz baixos localizados. E pontas de pés. Zonas de escuridão maior do que a vista alcança, mas o olhar a saber que já a seguir há um outro ponto de luz. Sempre insuficiente mas a poder guiar a inércia dos passos, mesmo fora do seu alcance. Como a necessidade de um pequeno mergulho, em que, passada a confusão, o choque com a água e retorno da respiração, se começa a nadar. Recomeça a seguir na direcção pensada. O labirinto a desfiar-se. Em dados momentos, não se sabe o que é cima e baixo, direita ou esquerda, num primeiro momento de desorientação num meio de diferente gravidade. Procurar pistas. Saber que provavelmente estão lá como pontos cardeais. Procurar, por entre a espessura da água, que se esvai entre os dedos. Contínua. E o olhar cai sobre uma pequena pedra no fundo, com um sinal de direcção. Em que se pega amorosamente, a reter a respiração. Mas retirada do fundo perde-se a possibilidade de ler o sinal, a pequena seta torna-se genérica aponta para onde a apontar a mão. Sem querer. Melhor deixá-la onde estava. Teria sido melhor. Olhar com cuidado. Largá-la então e ver rapidamente retomar o lugar meio enterrada na areia do fundo. Mas, numa reviravolta virada ao contrário. Como um bicho recolhido na sua concha porque se ensaiou um gesto.
Estacar, paralisar todo o metabolismo por instantes depois do lancinante turbilhão de sensações desarrumadas e do guincho estridente que a madeira lança. Para todo o possível e sem pés nem sentidos mais do que o ouvido. Esperar que o silêncio se reacomode depois da agitação momentânea. Escutar. A respiração, lá ao fundo, volta. Ou esteve sempre lá sem ser interrompida. Abrandar o ritmo cardíaco, estancar a sudação. Retomar a caminhada pelo labirinto dos corredores cobertos a mapas esfumados aqui e ali. Minto, é papel de arroz limpo e novo como só pode ser, para fazer o teste fulcral. Aquele passo complicado em que o pé volteia no ar para poisar atrás. De costas para o outro, obrigando o corpo a girar. Mudando o sentido. Tudo com os joelhos flectidos e a noção do eixo. Do centro de gravidade a exercer sobre os joelhos – flectidos – a pressão de uma mola. Retirando peso. Elevando até quase não restar um grama. E por vezes demais, mesmo assim. Um ínfimo pressionar em excesso enruga o papel arrasta-o fora dos limites possíveis do labirinto.
Nas extremidades as janelas da frente e das traseiras. Às vezes uma corrente de ar excessiva percorre-as. Às vezes é preciso fechar uma ou outra. Outras vezes, não. A frescura que sabe bem. Mas quando a torrente é forte, as palavras se chocam, sem querer, ou sem tempo de prevenir o estrondo, bate uma janela. Voam papéis de cima da mesa. Saem da ordem. Misturam tempos e histórias que não são de misturar. Uma confusão. Caminhos diferentes esboçados por ordem da desordem do acaso. Do vento que encetou caminhos, só porque pôde ser.
Voltar a percorrer a faixa de papel sobre o labiríntico corredor. Os ângulos do corredor sobre o mapa labiríntico de papel. Qualquer pedra que surja é de desconfiar. Parecendo segurar o papel naquele ponto, está ali por uma outra razão. Qualquer. Olhar simplesmente e não deslocar do sítio. Reter o sentido da seta. Voltar lá sem rasgar o papel. Olhar de novo. Tentar a saída. Saber que são múltiplas. Voltar para a luz clara do candeeiro amigo sobre a mesa. A cadeira confortável e o conforto da mesa para pousar a cabeça. Nos braços. Fechar os olhos. Dormitar. E cinco, sete passos para a porta. De caminho uma espreitadela ao espelho do corredor, o carrancudo. O melancólico. Pelo canto do olho. Chora. Passo sem poder fazer nada que não fosse limpar dedicadamente a superfície gelada de vidro, das manchas eventuais. Algumas evaporadas já. Tocar com um dedo terno ao de leve, e sentir-lhes o sal. E um dedo estendido mas sem olhar, a colar-se ao meu por detrás do gelo. Mas sem olhar. Sempre. Não sei se finge. Nunca sei. Esperar que durma. Voltar lá a ver se já dorme. A espreitar se serenou. Com os braços sobre a mesa. A cabeça pousada nos braços. No sono denso e turbulento. Palavras soltas e doces a dizer no pântano do sono, vem cá. Por vezes foi-se. E aos outros. Aquele da avó, no seu lado austero e a abanar o pé com impaciência, com severidade e com razão, sentada muito direita para não enrugar o saia-casaco. Mesmo o do roupeiro do quarto, de toda a meia vida, o mais cheio de marcas, de manchas da idade e de deformações incontornáveis da superfície antiga de vidro irregular. O que repete baixinho, enervante, just dream. Não é fiável. O do guarda-vestidos. Mas guarda segredos. E o outro, dream don’t dream, desamizades angulares, não se olham também. O das gavetas revira o olhar desdenhoso para o tecto e o pequenino sempre escondido atrás da porta. Feitios… Àquela hora, cada um faz o que lhe apetece. Custo a estabelecer contacto visual e nem tento. Não me entendo neles.
Ou. O casulo, que é o contrário. Casulo que o meu outro, o outro eu, gostaria de tecer. Numa malha feita de arabescos, de seda. Delicada e repetidamente colada em torno de um espaço definido e oval, repetidamente curvada, enrolada e enovelada sobre si e sobre os mesmos percursos incertos, mas num fim previsto e completo de preenchimento leitoso, amarelado e translúcido. Quente, confortável. Desfiável. A desenrolar. Como o fio de Ariadne.
Ou a resolução indutiva do labirinto, ponderando todas as soluções possíveis – A saída do lado do mar. O penhasco vertiginoso. O beco escuro. O cão. A luz incendiada. Apagada – Tantos caminhos. Mil e um cuidados. Cem mil erros. Possíveis. O fio de Ariadne, confundido às vezes com a tentativa e erro, que pelo contrário persegue a solução perfeita. Única. Mil metros, pode ter o fio único e contínuo de seda que compõe o casulo. De quinhentos a mil. Insuficiente para, fiado, ser um tecido relevante mas talvez suficiente para guiar a procura de uma saída, ou de todas as saídas possíveis. Se não quebrar. De tão ténue que desfiado necessita de várias fibras para, enrolado, produzir um fio. De seda. Fina e delicada mesmo assim. Mas voltar ao fino filamento único e ininterrupto. Quase invisível. Desconstruir o casulo e desenrolar como guia. Sempre me fascinou o rigor. Como paradigma. Mas divido-me tantas vezes entre uma coisa e a sua contrária. Como entre o niilismo do casulo e a sua desconstrução para vencer o enigma. Sem a apologia do homem sublime heróico que ignora o enigma dele próprio.
O enigma de um espelho, o espelho possível do enigma de outro. Volto lá como um criminoso. Ao espelho do corredor. Acordado, apanhado de surpresa, olha-me de lado, naquele seu jeito de olhar oblongo.
Queria sorrir-lhe de passagem, enigmática. Faites vos jeux – Mas sorrio só – De passagem. Todas as noites obscuras. Da montanha, a pensar o cume. E ser o passo.

4 Dez 2015

Cartas sem envelope – Cartas sem sê-lo

Como um oráculo. O desconhecido de todas as manhãs. Às vezes, eu. Porque uma mágoa se diluiu subitamente desde a véspera. Porque uma inquietação nova se instalou sub-reptícia pela noite nos meus ombros. Porque o céu está de uma cor diferente. Ou simplesmente o desconhecido com prazo de validade de um dia. A dar-se a conhecer. A levar-me a desfiá-lo pelas horas de um dia. A perscrutá-lo desconfiada ou iludida. O desconhecido de todos os dias. Que só posso reinventar na medida em lá está. Num ângulo particular. Não sei se sou eu, ou o desconhecido que me arrasta no desconhecimento de todos os dias.
Ou como o carteiro que sempre espero que traga alguma carta com o meu nome. É sempre possível que isso um dia me apanhe na esquina em que menos o espero. O dia em que me dirá aquele antiquado Está entregue, e em que vou pegar nela atemorizada e expectante como sempre. Revirar nas mãos longamente o envelope fechado, tentando fixar cada pequeno detalhe. Uma dedada, um ponto fora das linhas previsíveis, uma inclinação desusual da caligrafia, uma paragem nas letras do meio, na qual eu própria paro intrigada e desconfiada. Espiando as curvas das maiúsculas e o travamento dos ts. Pequenas inflecções no lançamento das sílabas. Espiando hesitações, ou uma expiração longa na orla da última letra. Uma pressão maior no início da primeira como a firmar-se a caneta para percorrer um atalho difícil. Uma pastosidade na última. Um desleixo revelador. Um ponto quase a ferir o papel. Um aroma. Inesperadamente. Depois ansiosa e apressada mas temerosa, mas a prolongar o momento, ainda escolher a maneira de a abrir. Que tem que ser perfeita e sem estragar. Descolar cautelosamente se possível pela fragilidade da cola. Senão, cortar com a tesoura a fímbria lateral. Qualquer milímetro a mais como um enorme desperdício. Ou rasgar, daquela forma com que se rasga um papel bom de desenho.
E um dia não pude deixar de lhe perguntar se tinha uma carta para mim. Ele olhou-me com um olhar confuso, ou talvez míope. E disse-me, claro, há muito tempo, mas não sabia que era para si. O mundo caiu-me aos pés mas sem humildade. Desmanchou-se simplesmente por um longo minuto, em que na minha pressa o arrumei mal e desleixadamente, a cabeça num vórtice e o coração a bater para o outro lado. Não sei que fiz de tudo isso. Vi-me num armazém interior no fundo da estação dos correios. Devo ter-lhe perguntado onde está, e num tom aflito ou mesmo aflitivo como está. E ele deve ter-me dito que não sabia. Vi-me ali. Umas lâmpadas fluorescentes, de uma luz ácida e crua que não ia ajudar. Perguntei se podia apaga-las. Que sim. Restou uma lâmpada pendurada lá no canto mais distante da porta. Lúgubre, talvez. Não sei. Não podia acontecer eu não a encontrar por suficiência da luz. Crua. Pilhas intermináveis de cartas. Ele disse se estiver, está aqui. Eu respondi claro, compenetrada e grata. Não lembro como os dias passaram a partir de aí. Sentada no chão por ser mais vasto, tentando dar-lhes uma ordem digna da minha procura, da minha desilusão e do meu reconhecimento por cada uma que li. Cartas sem envelope. Sem selo. Perdidos que ficaram em barcos de mares que vieram distantes. Descolados pela maresia. Cartas despidas de vestes esfarrapadas. Meio rasgadas de algum encontrão da vida. Desbotadas. Dobradas, desdobradas ou mal dobradas. Sem nome. Sem dono. Cartas sem sê-lo. Já. Devolvidas a vermelho num wrong adress, ou, this person doesn’t live here anymore. Com palavras intrigantes. Declarações urgentes de vida e morte. Palavras rudes mas bem intencionadas. Outras pungentes, fundas. Tantas de amor e nenhuma a minha. Ali, por encontrar. Desfazia molhos delas à pressa e por não ver a minha detinha-me sem querer na curiosidade das outras. Chorava, emocionava-me com um nó tenso na garganta com um desabafo que podia ser meu não o sendo. Tantas palavras perdidas e sem dono. Algumas a querê-las minhas. Caligrafias conhecidas. Quase conhecidas. Separava num molhinho menor as que precisavam de ser urgentemente entregues. Não sabia a quem pelo nome mas sabia pela vida delas. Acumulava o desespero de não poder fazê-lo e não conseguia desistir. Depois verifiquei que já havia molhos distintos em função de diferentes emoções. A fazê-las minhas. Sem o serem. O meu destino a forjar diferentes tarefas que nunca cumpriria. Por vezes esquecia-me do que me levara ali. Ao fim de algum tempo já não se me esvaia da cabeça a ideia de como poderia abandonar as outras ao seu destino solitário, quando a minha aparecesse.
Aí, ela interrompeu-me com um gesto no ar daquela mão fina e branca, crivada de veias muito azuis e bem desenhadas na pele magra e sem rugas, só um pouco fina demais, transparente quase, de unhas cor de pérola e anel de platina com uma bela pedra simples e incolor. Contemplei-a em silêncio o que era um enorme prazer. Ficaria bem no mais belo filme de Visconti. Com o cabelo de um cinza prateado, impecável, o roupão de veludo pesado debruado a seda. Coisa de outro tempo. Os tornozelos finos de sempre, e aqueles olhos que poderiam parecer frios na expressão e na transparência, não fosse a voz quente, muito rouca com os anos, muito lenta. E as poucas palavras sempre certeiras à alma ou ao coração. Perspicaz. Atenta e curiosa. Por isso lhe contava coisas da vida que não era a dela. Tudo. Pela noite fora, cansada ela, mas sempre sem sono para as suas quatro horas de repouso nocturno. Rodeada de um luxo pesado e só muito imperceptivelmente decadente. Chamava-lhe signora como todos os outros e nunca tinha o tempo de lhe perguntar sobre si. Ela escapava-se ágil e algo trocista. Mas de uma enorme gentileza. Não dava tempo. O seu silêncio tinha o peso e a densidade intransponível carregado de tudo como se proferido. E quando eu quase conseguia a coragem de o cortar, ela arguta fazia-me, ela sim, uma pergunta delicada, subtil, irresistível. Acho que me estudava nesse silêncio e jogava a sua carta por antecipação. Por isso dela, só o mistério quase nada explícito, quase invenção minha. Era como se não houvesse. E no entanto nunca nada me disse. Eu a ela tudo. Tinha uma maneira de perguntar como se já soubesse meia resposta por premonição, mas sempre com uma pequena rasteira deliciosa em que caía inevitavelmente. Suponho que essa era a parte mais elaborada. A pergunta dentro da pergunta em forma de desafio benévolo. E eu saltava directamente para qualquer pormenor encravado no fundo de cada questão. Era aí que eu caia e já me acostumara a observá-la mesmo no meio da minha abstracção em torno do que se me colocava, gostava de não me perder naquelas armadilhas meigas, mas sobretudo não perder aquele instante ínfimo, que lhe passava pelos olhos como uma luz transversal e fugaz, um pequeno brilho de victória, quando eu, sem responder directamente à pergunta aparente, inevitavelmente lhe fornecia a história que ela queria sem o querer dizer. Dava-me também a mim uma alegria secreta, deixá-la saborear essa conquista. Laboriosamente planeada nesses intervalos de silêncio. Entre frescos desmaiados e adormecidos nas paredes em redor. A melhor das ouvintes que alguma vez conheci. Inventei muitas coisas para seu deleite, não para esconder a alma mas para tornar mais rica a história que lhe oferecia. O seu imenso espírito analítico, a curiosidade humana e delicada, merecia as melhores. E aquele seu jeito hábil de perguntar sem reconhecer na pergunta o móbil da mesma, torneado como num penteado barroco de inúmeras tranças que seria divertido desfiar à posteriori. Mas havia sempre um novo assunto. E pelo meio silêncios enormes e cheios. Difíceis de quebrar. Tudo sereno, as janelas sempre abertas sobre o canal. Os brilhos da água e os brilhos dos reposteiros adamascados. Quase confundíveis. E os copos de um cristal rosado em que beberricávamos um vinho. Apenas a ela falei dele plenamente. Só ela sabia falar dele, também. Talvez porque quase não o referisse mas aceitasse com uma enorme complacência tudo o que lhe confessei. Sem juízos e sem reprovação. Parece-me que chegou a conhecê-lo enormemente, o que quase me fazia ciúme. Oitenta anos, ou talvez muito mais, mas uma enorme memória do amor.
Flávia. Chamava-se assim, disse-me um dia mais inspirado. E um dia chamei-lhe assim pela primeira vez. Intencional, premeditadamente. E, como desconfiei, vi-lhe passar como sempre aquela luz trocista e breve, que logo serenava em delicadeza e ternura. Uma ternura sóbria. Eu sabia que ninguém tinha coragem de a tratar pelo nome. E que ela nunca o propunha. Esperava dos outros essa iniciativa. Suponho que ficou contente. Não deu mostras de notar a diferença, mas mais tarde disse que lhe devia uma história maior naquela noite…Disse ela. Ou talvez eu. De que vamos falar?
Ela agitou os dedos como se regesse uma orquestra nos últimos dos últimos acordes. Precisas de fumar um pouco e pensar. Nele. Eu descanso entretanto. Aí reparei que os olhos eram mais brilhantes, as olheiras mais fundas e a pele em torno destas mais transparente do que sempre. Com um rendilhado fino de rugas e veias quase invisíveis mas acentuadas por vezes. Deslizou com aquela elegância sem idade os pés para o lado e recostou a cabeça no almofadão a seu lado no sofá. Sentia-a triste. Talvez fosse ela a precisar ainda mais de fumar um pouco. E pensar nele. Esperei que fechasse os olhos, não queria ser indelicada na minha pressa de sair para o balcão da janela. Mas isso não aconteceu. O olhar era lento de mim para outra coisa que não via. Aproximei-me e estendi-lhe a cigarreira. Olhou-me longamente. Tudo parecia possível como resposta. Disse simplesmente, sim. Nada me daria de facto mais prazer neste momento. Há muitos anos que ninguém me oferece um cigarro. Esqueceram quanto eu gostava. Mas sei que não era isso. Era algo na memória a precisar de companhia. Pegou num dos longos e acendi o isqueiro. Ela disse não. Ali, naquela gaveta está um esquecido há séculos. Fui abrir respeitosamente e a medo a gaveta, imaginando talvez ver também um revólver de ouro, e outras coisas. Quando o experimentei na dúvida, funcionou. Mãos amorosas o alimentaram pelos séculos. Sorri para dentro. Acendi-lhe então o cigarro que aspirou com uma volúpia de prazer invejável. O da distância da saudade. Conte-me. Tu sabes a minha história. Pensa em cada detalhe do teu amor. Entendi subitamente todo o artifícios das suas questões elaboradas. A luminosidade de desafio que lhe perpassava nos olhos. Ela conduzia a história dela na minha e deliciava-se na mais ínfima coincidência. Contas-ma noite após noite há anos. Mesmo as partes verdadeiras que inventaste. Emudeci atemorizada naquela espécie de vislumbre da visita de um tempo futuro, como um espelho em perspectiva, com a distância também que só se pode ter depois. A lucidez.
E muda a querer perguntar sem o chegar a fazer, sem saber se houve um depois, foi feliz? Ela olhou-me de revés, Amar. Sim…é ser, e como arrependida a fechar o rosto cansado: Tu me dirás mais tarde. Um meio sorriso impenetrável, agora. Se tivermos tempo.
Fechou os olhos, mas tornou a olhar-me com um sorriso, e com aquele sotaque cerrado e inconfundível: “It is love, and not German philosophy that is the explanation of this world, whatever may be the explanation of the next.” . Sabes quem disse?

29 Nov 2015

Ethos, Pathos, Logos – Da monstruosidade

Aesta hora, em que tento pôr ordem nas palavras, noite já feita, inúmeras traças esvoaçam por aqui. Olho-as com o olhar desumanizado ou simplesmente alheado – e uma palmada rápida e seca seria suficiente – de quem encontra ali a pequena metáfora caseira, vinda ao encontro de outras perplexidades. Porque elas têm que se alimentar, as traças, não as preocupações. Mas eu não gosto. Mais esse olhar, do que o de qualquer respeito pela sua essência, até mesmo em termos cromossomáticos, tão próxima da minha.
E tudo o que a natureza produz é natural. Já a razão é a coisa mais artificial que há. A ética, a moral, a estética, a filosofia, a religião, a costura, a geometria, a arte, a linguagem, o estado, a comunicação. Construções. É aí que se situa toda a monstruosidade e não ali. A natureza, à luz de muitas elaborações normativas, também produz monstros, aberrações, raridades ou anomalias. Mas também estas, fruto dos mesmos mecanismos, os do crescimento, da oxidação, da morte celular, da recombinação de genes, de sinapses que dão o impulso químico ou elétrico certo. Ou errado. Nem sempre se sabe qual seria o impulso certo. Em que se fazem ou desfazem pensamentos, registos da memória, funções, sensações. Do descontrole sei lá de que momento da pré-disposição genética. São fugas à norma, e essas expressões com que as designam, limitadas a critérios nada rigorosos, pouco além, por vezes, de uma dimensão estatística. Ou uma motivação vinda da clausura em padrões de segurança e normalidade, de que muitos necessitam na sua definição de si por oposição aos outros. Uma oposição bélica.
Todas as fugas provocam instabilidade no outro porque abalam as suas frágeis seguranças. O que é diferente parece contestar aquilo de que é diferente. E aquilo de que é diferente, reage com agressividade fulminante da auto-preservação de normalidade, como se esta fosse minada. E é. Mas de dentro e não de fora. O espelho que muitas vezes não sabe que é. No corpo do que é natural, nascem disparates da natureza, ou lirismos ou violências em vários graus. Mesmo aí, onde, para lá de determinados limites se define o território da doença, há fronteiras por definir. Entra-se no domínio da construção, do que é normal e do que é tratável, do que a sociedade, o estado reconhece, e do que não. Mas, se também de corpo se trata, mais ainda do domínio equívoco das ideias, emoções, pulsões, da construção de si enquanto ser no mundo e ser para a morte. E para a vida. Entretanto. E aí, então se situa o pântano maior em que se afundam ou batalham as grandes dúvidas sobre as fronteiras. As da doença e da sanidade. As da diferença e da normalidade. Da legitimidade ou da criminalidade. Em que se debatem uns e outros, curiosamente. Onde a criminalidade se define a partir do mal causado ao outro. Tal como a doença é por definição o território do sofrimento em si. Em última análise sofre-se da existência total e sem tréguas, nas suas agressões e vazios. E a cura é radical para alguns. A desistência desesperada ou lúcida, sem o céu como limite para o espírito. Mas as profundezas da terra, com os seus vermes a concluir a obra no corpo.
E a identidade. O corpo como lugar da identidade, também. O ser como construção e os seus contornos de inevitabilidade. E os direitos do Homem. Voltando ao que é natural e ao que é desenhado. A questão maior, com redutos intransponíveis. Os do sentir. Mesmo esses pontualmente redesenháveis, mas não sempre. Os de ser. Para além de toda a vontade construída, de todas as estruturas tradicionais e sociais. O território do pensar, quantas vezes fora dos padrões e diabolizado mesmo que inócuo. O delito de pensar ou de acreditar, como crime a punir. O da liberdade de ter direitos. O delito de ser, só porque diferente. O corpo-delito. A alma a olhar o corpo.
Poderia estar a pensar nas grandes questões dos direitos humanos, naqueles aspectos políticos que geram grandes tragédias. A guerra. Todas as guerras, todos os tipos de guerra, as violações de direitos, as grandes questões políticas. Bens e territórios. Mas é do espaço do privado que quero falar, o pequeno grande drama que é o desrespeito pela identidade. O monstruoso e arrogante violentar o direito básico à individualidade, à especificidade do ser. Sem crime. Sem ofensa ao outro.
Usar critérios de gosto para qualificar a identidade. Usar a moral, a tradição. Arquitecturas com paredes de vidro. Por detrás está visível aquele que faz o juízo. A qualificar-se em cada valor que proclama. A maior das enormidades de mau gosto do universo é a sua própria natureza de fenómeno com princípio e a inevitabilidade de um fim. Assim, ainda maior o dramatismo de haver sido criada uma espécie cuja razão a confronta com a noção do seu próprio fim. Fim do indivíduo e eventualmente da própria espécie. E com a noção de que contribui ela própria para a possibilidade de extinção. Para a mente humana, talvez a maior fonte de consternação, essa. Muitas horas de existência dedicadas, embora com a marca de inevitabilidade, à tentativa de encontrar sentido ou fórmula de conforto. Ou então é essa paisagem que Rilke lhe viu. Em que, só assim, podemos apreciar no seu esplendor máximo a vida, e nela o amor.
Ainda da noção de naturalidade, ou não. Tão natural um bicho-da-seda, macio, branco, com ou sem riscas desenhadas a negro, que laboriosamente constrói o casulo em que se esconde para um dia dele fugir, já com asas para voar, como um ser humano cuja identidade não se reconhece no corpo sexuado com que nasceu. E a transforma. E ao corpo.
O exemplo da pérola. Um dos mais belos tumores da natureza, um acto de pânico de um ser vivo. Destituído de intenção estética. Age por medo. Dor. A sua produção de nácar é doméstica, é para tornar a sua casa confortável. Quando invadido na sua intimidade por organismos parasitas ou dejectos nocivos, isola o invasor agressivo com camadas desse nácar, a madrepérola. Quando produz uma esfera perfeita vêm os critérios humanos dizer da perfeição geométrica, da beleza e do valor comercial. Hoje também os órgãos humanos, mesmo de humanos vivos, têm valor comercial e são objecto de venda, de oferta, de roubo. No último caso dizemos ser crime. E é. Hediondo como outros. À luz da ética que nós próprios criámos. Mas mesmo os moluscos têm sistema nervoso, e, mesmo sendo este muito simples, acontece terem estruturas sensoriais, visuais, tácteis, de equilíbrio. Outras.
Na dor, também o ser humano, como a ostra, produz coisas belas. Ou não produz. Ou não são belas. Nada é belo simplesmente por inerência de um estatuto, de uma espécie, de uma raça, de um género. Ou pela naturalidade com que o é. Só por si. Podemos usar critérios que nos levam a achar que um tigre é um animal lindo, enquanto um crocodilo ou um pterodáctilo, não o é. Mas serão de outra natureza do gosto, ou do afecto. Pintainhos e filhotes de mamífero inspiram uma ternura intensa a muitos. Tantos outros bichos causam repugnâncias várias, culturais ou traumáticas. E o patinho feio, que afinal era um cisne. Estava fora do contexto naquele rancho de outros filhotes. Conchita Wurst, com os seus cabelos estonteantes, barba e vestido de lamé. Um modelo estético estranho. A pensar. Mas só isso. Estranho porque invulgar. Menos belo cada detalhe só porque num conjunto inesperado, ou não, é a questão que se me coloca. Mas por cima dessa, a de que não prejudica ninguém. E mais acima ainda, um valor que ligado ao anterior eu venero. A coragem. Eventualmente da solidão. Será menos bela, belo, do que Cronos comendo os seus filhos, o de Goya? Também me pergunto se este é um belo quadro. Ou terrífico. O que, para lá do sentido, não importa afinal.
Como se uns fossem mais naturais do que outros. Os bichos. Os cânones. Como a natureza humana, a homossexualidade humana, a transexualidade humana. A partir de que grau de idoneidade ou legitimidade é que se está protegido pela ética – já que a moral é essa parente pobre, conceito adulterado da tradução do grego de ethos – da agressão do outro, é uma coisa que me faz pensar. Para muitos, do humano para cima. O humano como início da escala de valores a proteger, mas acima dele ainda Deus, que a muitos confunde ligeiramente na sua fórmula egocêntrica. Para outros a escala começa um pouco mais abaixo incluindo os animais domésticos, domesticados. Os animais amigos do homem. Para outros os mamíferos em geral, porque detêm um olhar quase humano. Alguns, e alguns mais do que alguns humanos. Para outros, o reino animal em geral, desprezando o mundo vegetal. Para outros ainda, os seres vivos em geral. Para estes é um dilema de vida, conviver no respeito absoluto e coerente com esse princípio, o mais respeitável de todos. É o que eu sinto. Não é o que pratico e mesmo assim o meu inferno é vasto. Culpada pela minha natureza de elemento privilegiado nesta cadeia alimentar. A cidadania, como valor de responsabilidade dá trabalho. E cadeias alimentares entre elementos da mesma espécie, a nossa. Quem engole quem. Quem mata, quem anula, quem destrói quem. Quem se defende de fantasmas, ferindo pessoas. Quem cataloga pessoas. Quem, pela sobrevivência do seu ego e da sua identidade gera a ilusão de moinhos de vento e activamente lança as suas flechas mortíferas. Deixámos historicamente para trás tanto preconceito, tanta caça às bruxas, tanta ignorância, tanta descriminação, se pensamos no sítio do mundo onde temos a sorte de viver como novos- ricos. Deixámos?
Tenho pensado tanto na questão da monstruosidade. Sobretudo aquela que se gera a partir da diabolização deslocada do verdadeiro foco. Porque ela existe. Que tantos dias me entra pelos olhos adentro. Mas quanto às grandes expressões desta, a minha impotência é enorme e sobra dela uma agonia indefinida de asco e revolta. Mas é também, e aí mais ao nível do meu pequeno mundo, a questão das pequeninas, ínfimas monstruosidades, que me perturba, porque estão, cotovelo com cotovelo, mesmo ali.
E por vezes as pessoas mentem. É assim muitas vezes. Tem que ser. As pessoas encerram-se em quartos escuros em cantos remotos fora da féerie das luzes. Sobem ao sótão de si mesmas e escondem-se. Escondem-se, mas por vezes querem ser encontradas e deixam pistas laboriosas. Labirínticas. Pistas a dizer, não quero que me vejam, vem daí se tens verdadeiro interesse, mas que estão ali com um sinal. Talvez esteja certo assim.
E ele, esse aluno menor ainda, pouco mais que criança, como tive outros, que se prepara para que ao longo da vida, muitos pensem e digam, e lhe digam de maneiras indirectas ou por lapso e desadequação de linguagem que a monstruosidade está do lado dele. Falo sobre isto porque não é secreto. É meio secreto. Ele já começou a luta. Mas ele, que mentiu no primeiro momento, apesar da coragem imensa que constitui dizer voluntariamente a uma desconhecida que não se identifica com nenhum género, e que intuí recobrir uma coragem maior que ainda não teve, anseia por ser entendido. Sobretudo aceite. Porque talvez pense por defeito, que nunca se há- de entender a sua questão. Já vi tantas vezes isto. Naquele cadinho em que mergulho todos os dias. E com um mau fim, tantas vezes. Injusto. Porque há um silêncio, uma reserva do lado de lá e do lado do outro. Uma ausência de caminhos que não envoltos em clandestinidade, sofrimento, marginalidade, sofrimento, ignorância. Dor. Dor de ser. E dor dos outros. Porque são esses que doem mais. E depois há as questões legais. Moral e direito são controlados socialmente e entregues a muito atraso inexplicável. Insensibilidade, ignorância.
E dói-me ver-me envolvida nesse complexo vórtice, sério, importante, que é demasiado confuso da forma em que ele, ela o vê. De ética, moral, direito, direitos, e colocada num ponto muito definido que é o da discriminação. Porque uso um pronome e não outro e o olho nos olhos no acaso do meu olhar pela turma a quem me dirijo. Porque acho ridículo o nome que ele quer que use para lhe falar. Logo um nome de deus….Um deus que simboliza transformação, é certo…E porque me rebelo de o ver incluir-me por defeito nos seus alvos de luta, quando o que lhe quero ensinar, é, para começar, que nenhum género é melhor ou pior. Que a identidade dele, em curso é íntima e deve ter um reflexo consistente legalmente. E é por isso que deve lutar. Não pela rejeição de uma fórmula para que não me dá alternativas por agora. Um discurso difícil.
As pessoas têm o direito de se transformar, física e psiquicamente. Por efeito da vontade de verdade de identificação. De mudar. De mudar de nome. A inoculação de vírus na forma benéfica de vacinas, a reconstrução de uma perna esfacelada num acidente, a colocação de seios de silicone, um transplante, ou a mudança dos órgãos genitais não são vistos com a mesma forma de legitimidade. E nas causas, nas razões de ser está sempre a saúde. Queremos morrer saudáveis, belos, jovens para lá do possível. E da mente. Como tentativa de anulação do sofrimento. Implantar uns seios que são aquele paradigma de feminilidade que sempre se sonhou quando o corpo se definiu noutra direcção, recortar as pálpebras que descaem com a idade. Artificial…O que é que em nós não o é, para além dos sentimentos ou dos sentidos que compulsivamente nos transmitem sensações tão definidas por vezes? Quando mesmo esses enganam. Perseguir paradigmas quando a noção de liberdade se instala. Paradigmas de identificação. Somos únicos, por mais que irrelevantes, na única possibilidade de existência que uma vida sem fervor metafísico, ou religioso, nos reserva. Porque não reelaborar o género nas suas especificidades estéticas, sexuais e existenciais. Mas nestas questões que têm também a ver com o amor ou com o desejo puro e simples, puro e duro, não se sabe sempre se a resolução do corpo é o ponto de partida ou o ponto de chegada. É quem se é, ou aquilo que se sente por alguém que é o outro, e ponto de chegada de um valor. Eu tenho uma noção estranhamente imprecisa da minha identidade de género. Sempre tive. Tenho a sorte de me sentir confortável na minha pele, no meu corpo específico e feminino e na tradição em que cresci. Mas sei que me sentiria muito parecida com o que sou, num corpo de homem. Parece-me. Talvez porque nunca se sobrepõe a tudo o resto que me define, essa, para mim pequena questão do género. Mas, noutro corpo eu seria gay. Disso não tenho dúvida. Mas só atendendo a tudo o que senti até hoje. Serei portanto, eventualmente um homem, gay, que nasceu num corpo de mulher mas não se importa com isso. Ou uma mulher, heterossexual, que poderia ter caído por acaso do destino, num corpo de homem. E se quisesse afinal ser vista pelo olhar de um homem, como mulher, sujeitar-me- ia àquelas duras terapias hormonais e psicológicas, e a complexas cirurgias para surgir, como um cisne do patinho feio, mulher plena. Com um bilhete de identidade a dizer-me do sexo masculino. Há no entanto complicações maiores, outras recombinações e outras possibilidades de identidade entre um corpo e um intelecto. Onde toda esta realidade emperra é nos preceitos legais. Lentos, amórficos, alheados do muito que se sabe da natureza humana. Cruéis e ignorantes. Apoiados pela opinião pública, cada vez mais visível e opiniosa, a dedicar fel e vinagre a estes assuntos à falta de maiores preocupações humanas. Mas as questões de orientação sexual, que para mim são da natureza privada e um direito inalienável ao respeito, são também aquelas em que as pessoas tendem a defender, começando por se resguardar definindo-se de acordo com a norma. Tenho sorte, portanto.
As questões que a ética deveria proteger da moral e das insuficiências do direito, camadas sucessivas de elaboração. São as questões da identidade. E do direito à identidade. Todos nós as temos. E das monstruosidades. Aí também posso dizer que todos nós as temos. Sei de que falo quando falo de mim. Também. E aprender os pequenos troços a percorrer de cada vez para conquistar a liberdade.
Uma escola é um cadinho. Tantos e tão diferentes, por serem muitos ao longo dos anos é possível vê-los em perspectiva. Senão uns, outros. Não é assim tão diferente. Há um padrão. Gosto de lhes ensinar a solidão. A solidão mas não a clandestinidade, a fuga. O silêncio e a solidão. A terem a coragem de não se esconder. A falar de si a reflectir em si. Nos outros, mas não como elemento repressivo. A transportar a sua própria gaiola. E a sair dela sempre que for preciso. Diz Schopenhauer que quem não sabe apreciar a solidão, também não sabe apreciar a liberdade. Qualquer coisa como isto. E é aí que quero chegar. À alma desse meu aluno, aluna, ou o que quer que se encontre válido na língua portuguesa para me dirigir a ele. Estar só, se necessário. Contra o olhar dos outros. Contra os outros, só se necessário. Com a mesma falta de preconceitos de sempre, excepto o de que legalmente ele tem um nome e um género, e este último é uma referência de reconhecimento discutível e que o não obrigaria a vestir-se de acordo com este, o que tornaria inútil como elemento constante no documento de identificação. E que olhando para ele por agora, reconheço os paradigmas estéticos comuns ao género que ele repudia.
Esta é uma história no seu início. Para mim – ainda temos muito a conversar. Para ele vem seguramente dos confins da infância em dor e sofrimento solitário. Com os seus monstros por companhia. Mas mais ainda com os monstros dos outros. A preparar-se estes para, nas suas, lhe apontar monstruosidades e outros mimos.

24 Nov 2015

Litânia. Oásis de monotonia

Uma palavra bonita, litania. Como ladainha. Gosto de ladainhas e nem seria preciso dizer. Já lengalenga, da vox populi, lembra-me coisas de uma dolência entediada, de cadências lenganhosas. Lesmas e outras imagens empasteladas. Encadeados de palavras entorpecentes, músicas repetitivas, mesmo as do minimalismo. Isso sim. Outras como chicote. Também. E os ritmos cardíacos. Os da respiração. Os mais secretos das células que reorganizam o seu destino e que pode ser pavoroso, prefiro ignorar. Isso ou a eternidade. Há que escolher. Ilusões.
Conduzia de janela aberta. Uma pena leve poisou-me no casaco. Muito pequena. Pensei, Lá está ele. A brincar. É que às vezes tenho a sensação de que o meu anjo anda por aí. Eu deitava-a pela janela, por nada, que não me fazia mal, e ela voltava leve e teimosa. Lembro sempre a expressão de desagrado da minha avó: “Penas”… Ela pensava, pesares. Mas era mais uma pequena penugem, daquelas por debaixo das outras penas, e que servem para manter a temperatura. Faz sentido porque já sopra aquela aragem fresca que arrasta as folhas e anuncia dias piores. Se fosse uma pena não distinguiria se era da asa ou do coração. O anjo mais sorumbático, ensimesmado, macambúzio. Sempre cabisbaixo e embezerrado. Acabrunhado. Mas ao seu modo, com o gosto de brincar. Não há nada mais irresistível do que um ser cuja alma brinca por detrás de um fácies soturno. Supondo que os anjos tenham alma. Isto dos anjos precisava de ser mais bem explicado. Mas é uma coisa de mais de trinta anos, também não o vai ser por agora. Lá atrás, professores de pintura entenderam a questão plástica, o vôo, a elevação das ogivas em flecha, os movimentos, os ritmos e pesos da questão. Plástica. Depois caíram. Os meus anjos. Vieram como tinha que ser. Já um filósofo, amigo do meu amor à época, heideggeriano daqueles sempre de mão na cabeça a suster reflexões demasiado pesadas, dizia reflectirem a minha necessidade de salvação, personificada nele – o meu amor à época – Que parvoíce medonha, foi o que pensei. Do amor uma pessoa não quer ser salva, quer a possibilidade de se perder e não menos de se encontrar. Ou é a mesma coisa. Mas isso ficou para pensar mais tarde e ainda não chegou a altura. Suponho.
Tenho vários anjos. O que ficou para sempre naquela idade logo a seguir à infância em que nunca o conheci, o que ficou para sempre naquela idade de idoso, que foi a idade de sempre, em que sempre o conheci. Curiosamente talvez a idade que tenho hoje ou menos ainda. E por isso me sinto estranha. Com o que em mim cresceu e com o que em mim não cresceu. Dois escuros e um luminoso. Nos olhos, quero dizer. Dois, escuridão e um, claridade, de um verde transparente e sonhador. O mais sóbrio deles, afinal. Estão ali quando consigo invoca-los. Ou o permitem. Mais nada. Aqueles cujo olhar gosto de imaginar que me acompanha. Por aí. De longe, acho. Vindo em continuidade do passado e passando por mim a mostrar não o caminho, mas que há caminho.
Construção minha. Que existam como tal e mesmo assim. Que quero deles, nada. Minto. Que me embalem. Porque das pessoas quereria sempre se calhar demais. Mas é um work in progress. E não quero deles nada para não os comparar com elas.

Gostar de litanias. Orações no culto cristão. Formas de rezar em que se responde com uma invocação breve e repetida, às preces que desfia quem dirige a oração. A repetição, a insistência, a súplica veemente. Na Liturgia das Horas, salmos e cânticos com esta forma na sua estrutura. Embaladora. A todas as horas do dia. Das Laudes às Completas. Para não desfocar. Ladainhas, com um poder hipnótico que induz ou agudiza a fé. Com palavras que não falam comigo. Mas o rogo e a súplica, assumidas em abstrato sem se as dirigir a ninguém, a nenhuma entidade, são talvez um desabafo de tonalidade possível. Como dizer Meu Deus, sem necessariamente invocar o possivelmente inexistente.
Ou sinónimos daquilo que é repetitivo e enfadonho. De ramerrame. Da vontade de cair em letargia. Do que embala em forma de música, do que embala e repetidamente se ouve em segredo por tão excessivo. Do embalo das palavras. De conduzir sempre pelos mesmos caminhos mesmo que mais longos. Só pelo hábito e pelo conforto. De resistir à mudança. Alvin Toffler refere-o na Terceira vaga. Demasiada aceleração. Demasiados dados em confronto. Demasiadas mudanças, demasiada necessidade de adaptação. A alma reage como pode. Aquele hábito estranho de pessoas que se embalam, balançando o tronco para a frente e para trás. Observado em alguns portadores de autismo. Li um dia o relato de alguém com uma dessas síndromas, que explicava lucidamente a razão de ser. Demasiada sobrecarga de informação, de dados sensoriais a processar. Demasiados dados criam uma perturbação inconsciente e a necessidade de produzir uma reacção. Uma espécie de drenagem do excesso.
E os outros que secretamente se embalam sentados em banquinhos baixos lendo pelas horas adiante como eu, à janela do quarto que tinha janela, porque o outro não tinha. Pelos anos fora. Quando liam, e a vida em si não era demasiada só por si, para lhe incorporar a vida de ficção. Personagens, lugares, sentimentos. Prisões alheias. Que depois deixaram de ter lugar. À janela. No banquinho azul da infância. Sem diagnóstico formado.
Ou patinar de costas. Talvez por não se sentir tanto a resistência do ar. Descrever elipses vezes sem conta, em torno do rectângulo de um ringue semi-vazio, ganhar velocidade – o mais perto de voar que experimentei – até ao momento em que um grão de areia se imiscuía nos rolamentos das rodas e a queda era brutal. Mas era tão bom. Lá atrás.
Melopeias, litanias, cantigas de embalar. Porque a vida me fez divergir e às vezes é demais. Gostar de ladainhas, de coisas que embalam porque existe por vezes a nostalgia do anterior à luz. Diria do útero materno se não fosse excessivo. Eventualmente a casa a que não se pode querer conscientemente voltar. O embalo da música que inconfessadamente repetimos até à intoxicação. Intoxicações várias, que podem ser de várias ordens sensitivas. Abanarmo-nos na infância como muitos continuam a fazer vida fora. Diagnosticados de autismos, síndromas várias que dificilmente entendemos porque em fuga dos padrões. Que padrões entendemos? E continuar a embalarmo-nos na juventude. Sentados em bancos pequenos que deixam o torso livre para tal, em horas de mergulho suicida na leitura. Alheamento completo do mundo. Pequena agenda, irrelevante como distúrbio. Outra espécie de retorno ao útero. Ou de mergulho para morrer temporariamente. E custar medonhamente o acordar. Coisas secretas.
Porque é que algumas pessoas custam a levantar-se da cama. Porque querem hibernar. Independentemente de amores e desamores. De objetivos a cumprir com paixão ou desafios a encarar com fervor. Dificuldades a ultrapassar ou o alívio final de chegar a algum lugar. Há pessoas que sentem tudo como demasiado difícil naquele momento de acordar, em que se pode reagir de imediato ou adiar até ao limite do possível a decisão de assumir o dia.

E rotinas. A única que tenho sagrada, é uma caneca de café com leite ao acordar e quatro cigarros. Cinco, seis. Ou ser milongueira. Sempre que a vida dá. Para sempre desde que se começou e por ser a sério. As rotinas são boas ou talvez sinal de afogamento à vista. Ou de que se começa a ter uma certa idade.
Dantes eu lia a tempo inteiro. Quase. O resto acontecia nos intervalos. Hoje não leio. Mas parece que escrevo a tempo inteiro. Quase. O resto arrasta-me contrafeita. Depois esqueço a contrariedade porque outros apelos se sobrepõem. E muitas vezes só por dentro. E por isso as frases dissolvem-se totalmente. Ou só uma parte. Ou misturam-se contorcidas umas nas outras no espaço limitado e labiríntico em que se movem. Umas por cima das outras. Às vezes transparentes deixando vislumbrar fragmentos das que ficaram por baixo. Para trás. E por vezes escrevo-as. Num semáforo. No caminho para apagar o fogão quando um cheiro a queimado me avisa de que me perdi por uns tempos. Sempre sabendo que não pode ser até me apetecer. Até me fartar. Eu gostava de me sentar a escrever para sempre. Nunca seria. Mas como se fosse.
Portanto, dantes eu lia. Depois foram as palavras, já não vindas de baixo, do papel dos livros com cheiro a açúcar mascavado, mas de cima a escorregar à procura de um papel com o mesmo aroma. Que já não há. A tomar esse lugar no banquinho que poisado por ali, e um tanto esquecido e abandonado, ou por estar há um tempo longe da janela, e do quarto dos pais onde abria essa janela, de cortinas branco leitoso com muitos furinhos por onde entrava quase tudo o que avançava do lado de fora. Pouco espaço para palavras alheias. Mais perturbação ainda a somar às que se desprendem ininterruptamente, maçadoras insistentes, esquecidas, recuperadas, coladas provisoriamente em papelinhos. Tantas palavras. E agora a terem que sair de novo. Não porque sejam especiais ou úteis as palavras, mas porque a vida em si é mais difícil. Dispersa, desarrumada. E elas precisam de escorrer por algum lado. Ocupam pouco espaço. Não necessitam de nada, não pedem nada. Só sair. Libertas. Finalmente silenciadas, a dar lugar a outras. Escrevê-las. Num lugar sossegado, sem horários e sem interrupções. Como se para sempre. Ou cristalizar. Se ao alcance de humanos, seria bom. E luminoso.

Ou desenhar, como naquele papel de cartucho cinza claro com risquinhas vermelhas ou não, em que desenhava ou, outras vezes, recortava roupas de boneca. Acho que só tive outro tipo de papel quando entrei para a escola. Aqueles cartuchos a cheirar, eles sim verdadeiramente a açúcar amarelo. E uns lápis pequeninos de bico grosso que ele me emprestava e que usava para traçar firmes e rigorosos traços na madeira. Saídos dos seus olhos transparentes e pensativos. O cheiro das raspas encaracoladas da madeira aplainada. Ofereceu-me a primeira plaina e um martelo pequeno, esguio, feitos por ele quando entrei em Belas Artes. O meu Kit de sobrevivência tomou rumos ecléticos.
Escrever. Um outro culto. O das coisas. Das coisas em si e das coisas pelo sentido. Das palavras pelo sabor e das palavras pelo sentido. Do lugar, espaço e tempo. Saber e não saber. Invasão de significados e a perturbação do excesso. Das ramificações divergentes. Exponenciais. Das demasiadas coisas em si. Dos excessivos sentidos nelas. Dos múltiplos lugares. Seres. Espaços e tempos passados e futuros. A perda de um e a perda do outro. Cada vez mais saber não saber. E querer fugir à invasão, à consternação perturbada da multiplicidade. Da complexidade revirada sobre si mesma numa confusão de interior e exterior, contínuos. Interior e logo já exterior sem transição. Interior, exterior. Uma coisa e uma outra coisa nela ou para além dela. Alternados só pelos pontos de vista dependentes do tempo que não os pode fazer coincidir. Como Escher.
A vontade de escrever as coisas todas. As pequeninas sobretudo. Contadinhas e esmiuçadas à medida que se sucedem. Na inteireza do tempo. Em tempo real.
Litanias. Melopeias monótonas. Às horas. Minutos. Segundos. Agora. Aqui. O abismo do infinitamente pequeno fragmento de instante, partido e repartido a tender para o nada. O inalcançável presente. Que passou. Porque saltamos do passado- futuro, para o futuro-passado. E não estamos num nem noutro mas de passagem. Fugaz.

30 Out 2015

Fios de seda, linhas da mão

Havia um roupão de seda preta. Cetim. Longo e fluido com um líquido suave e tépido. Que se colava ao corpo, escorrendo fresco e quente. Fresco quando estava quente. E cálido quando soprava uma aragem já fresca. Como a primeira pele sem outra. Seda antiga. De muitos anos.
Ele não podia ir-se embora zangado com o seu corpo, zangado com os seus lábios. Zangado com o seu amor. Tocado de uma zanga maior que o momento. Com algo que era outra coisa.
Ela viu-se subitamente descalça, envolta no roupão de seda negra, com os pés inadvertidos e imprevidentemente indiferentes, nas pedras escuras da rua. Escura, silenciosa, muda como ela. De corpo e alma. Porque ele não podia ir-se embora zangado. E ficar a ver da janela a fúria a apequenar-se rua fora. Por isso correu sem pensar em mais nada do que isso. Mas a rua estendia-se para ambos os lados, vazia. Mais vazia do que em qualquer noite em que ele não a tivesse percorrido. E agora, como se se tivesse evaporado à saída da porta. Mergulhando na inexistência impossível. Por haver ausência. E esta se opor àquela.
Tudo da seda para o interior era exposto em sangue, vísceras, carne e osso. O teatro anatómico que ninguém viu.
Ainda correu no sentido do trânsito. Talvez para lá da esquina o vulto escuro em fuga. Não voltou a vê-lo. Foi assim.
Ele virou-se com uma agitação adormecida e quase convulsiva, desarrumando mais os lençóis da cama. Uma mão pesada caiu-lhe sobre o peito. A sua, na reviravolta abrupta. Acordou alagado. Um curto pânico que logo se resumiu a uma angústia indefinida. A cama larga sem obstáculos para ambos os lados. Ninguém, como na rua ainda agora. Pensou em telefonar para ouvir simplesmente a voz que não estava lá. Talvez uma sonata de piano irreconhecível em fundo. Pelo menos. A voz de quem não sabia quem era. Ele. Não sabia. De quem era. A voz. Muda, com piano por trás. Nem o número para ligar de volta. A voz inaudível que lhe dizia: -Sabes quem eu sou. 25
Ela esperou que adormecesse e voltou. Instalou-se de novo a vê-lo partir no sono. Voltou a vê-lo doridamente partir no sonho dele. Sentada de lado. Virando-lhe as costas para sentir. Agora lentamente e de novo, desaparecer no ar. Inconsolável minuto sólido, gelado. Fim do tempo.
Ele acordou caído com estrondo de costas na cama. Uma espécie de explosão no interior do crânio, ou então o fim do mundo. E o impacto violento de todo o corpo como uma prancha vinda de cima e abalando fortemente a cama no impacto. Com cem vezes o seu peso, e cem vezes cem segundos passaram até a respiração voltar ao ritmo normal. Uma ténue figurinha, ou talvez só o resto de uma forma fluida a negro, ainda por uma fracção ínfima de segundo, deslizou-lhe dos olhos para o interior das paredes. Ou outra coisa qualquer. E de novo acordou nessa mesma sensação de ansiedade, nervosismo e desapontamento, embalado pelo motor do carro, noite fora, ainda longe de chegar. Ao lado ela olhava-o. “Olha para o caminho.” Disse. Ou talvez tenha sido: “Olha por onde vais…”. E ela tenha dito: “Sei para onde vou, sei de onde venho” Agora. Ou então: “Olho para ti e é como olhar para a frente e olhar para trás. Olhar para ti agora.” E vê-lo fechar irreprimivelmente os olhos de novo. Caído mansamente num sono de sonhos. Agitados aí. Virar-se na cama sem tréguas. Na cama vazia. Revolver a roupa até não restar mais nada a que se agarrar sobre o corpo. Um campo de batalha. Ela, que compõe os lençóis entre sonhos. Que mesmo aí pressente e verifica a ordem geométrica e rigorosa da dobra do lençol. Que arruma as roupas de cada vez que se vira.
Vira-se de lado, fecha os olhos e respira fundo. Espera que venha sonhá-la. Quando adormecer um sono de valeriana, um sono de camomila. Tília. Um sono de roseiras bravas. Pequeninas, de um branco rosado manchado e muitos espinhos quase invisíveis. Eram roseiras. E ele pensara que com as unhas lhe arranhara o peito. E ficou zangado para sempre. E acordou de novo alagado em suor e inquietação. Zangado. Mas o problema não eram os espinhos. Eram as rosas.
Ela percorre as ruelas que ladeiam os canais. Pequenos túneis que afastam os passos momentaneamente dos brilhos insalubres da laguna, e os voltam a aproximar inevitavelmente. O som cavo dos saltos nas pedras largas e incertas, por vezes a soar a oco. Uma porta estreita. Uma escada empinada. E o quarto. Ferver ervas num pequeno fogão ao canto. Acreditar, talvez, que lhe hão-de trazer algum entorpecimento. Suficiente se os pensamentos serenarem. Da janela olha fixamente as águas escuras e espessas àquela hora. Amanhã Tintoretto na Academia. Uma emoção rara por dia é mesmo assim quase demais. E uma noite de cada vez.
Cento e dezoito ilhas, cento e sessenta canais e mais de quatrocentas pontes são dados suficientes para desenhar uma carta, mas nunca o mapa dos sentidos. Menos ainda das emoções. Esse exige uma cartografia própria em cinzas e sonoridades cavas. Em ocres deslavados e rosas velhos aclarados pela poluição, e mesmo a do sentir tóxico. Uma cidade de uma beleza que rescende de reminiscências doentias de ausências e impossibilidades. Que pode até exalar aromas fétidos dependendo das marés. Porque de tão inebriante e onírica, só serve de cenário aos sonhos mais utópicos e paradigmáticos. Nada a menos do que isso. Ir a Veneza, mesmo que seja para chorar já é semear nas pedras antigas mais voragem de memórias. Cada canal percorrido ladeado a passos acariciantes, é como uma linha da mão. Um destino cumprido e traçado no desenho da laguna. Uma ideia que fica como uma camada ténue a somar a todas as que se pressente formarem a textura quase orgânica. Esta no mar ali ao lado e este no seu maior interior. Ser um mar interior a continentes deve ultrapassar em muito a beleza do azul que o define e atirar para um interior incorporal. Um mar interior também nela.
Sim. Voltar a Veneza sempre que se perdeu a vontade de sonhar. Como um reencontro em dois. Mesmo para ver partir alguém e muito mais para esperar. Dali do coração da europa. E o reencontro é caro de um preço semelhante ao que os antigos se dispunham a pagar pelo segredo da seda. Na sua rota desde muitos séculos atrás. A rota continental do norte, dos confins da Ásia, no mundo antigo. E, por onde entrou a magia da seda entra a magia do sonho. Feitos ambos de fios paradoxais. Finos, ténues, versáteis, luminosos, fortes e adaptáveis. Há qualquer coisa em comum, de líquido, nas cidades que se prestam ao sonho. Qualquer coisa de seminal, vivo. Que segrega como fluidos orgânicos, murmúrios e segredos quase palpáveis. Teias e padrões de séculos ou de instantes. O tempo em retrocesso, voluptuoso, luxurioso. Há tanto tempo que sonha ir sonhá-lo, a sonhá-la em Veneza. Isso nunca aconteceu. Fora do espaço que reserva a isso.
A seda é uma outra pele. Uma construção. Que aquece na sua exacta medida. Suficiente ou insuficiente. Com limites. Mas aquém deles é de um enorme poder sugestivo. Ao tacto. De um inefável conforto, quase consolo. Quase carícia.
Ele inclina-se com uma pequena guinada do volante e apanha o lenço que caiu. Seda de um amarelo saturado. E foi quando ela fez o gesto a pedi-lo que ele reparou nas estranhas linhas que lhe cruzavam a mão como um mapa. Como se o lenço fosse pretexto. Visão fugaz que não teve tempo de processar nem pediu para rever. Não ia entendê-las, de qualquer modo. Mas eram talvez o único chão possível. O mapa do chão. O tempo diria. Alguém disse: “Se chegares a onde vais não vais querer voltar aonde partiste. Se partires do sítio exacto chegas aonde vais sem erro e sem remição. Vai simplesmente, e retorna ao ponto de partida próprio todos os dias para voltares a partir de um lugar diferente. E chegas, se chegares com a coragem de quem não tem certezas. Chegas e partes. É o mesmo lugar. O tempo um círculo perfeito.” Leu nas entrelinhas da mão que se lhe expõe e foi suficiente. Mas era a mão dela. De linhas estranhas. Discretamente olhou a sua e caiu na sonolência boa que o embalo do rolar na estrada lhe insinuava nos olhos pesados, nos músculos cansados e na alma exausta de dilemas insolúveis. Mas de novo aquele roupão de cetim preto acusatório e sem permissão de tréguas.
Olha-o por detrás do espelho retrovisor. Do lado de cá do espelho. Reflectido no vidro. Na água. No copo onde bebe. E será sempre assim mesmo que o não diga. As pessoas não gostam de ser observadas.
Afasta-se da janela mas retorna irresoluta. De novo mergulha nas águas estreitas e misteriosas. Não sabe o que fazer ao tempo. A esta hora, o comboio em que viaja já chegou talvez a Trieste.

23 Out 2015

Nem a luz

Gostar de conduzir. Um paradigma onírico de infância que seria fácil de explicar. A ver com mais nada do que comigo própria. Nenhum intuito de poder. Nenhuma ilusão megalómana de mostrar caminhos, dominar existências. Conduzir como caminhar, num veículo como uma segunda pele. Mas também conduzir passos por entre as margens de indeterminação de alguns momentos, como modo de resistir à convergência excessiva de outros. Outra maneira de deixar passar o tempo. Menos sombria do que na noite e menos saída do curso dinâmico daquele, é caminhar pelo dia. Igual a deixar a noite caminhar por nós. Igual a não fazer nada e ficar simplesmente a imbuir-nos do fluir da vida como se nada nos obrigasse. Igual à noite na sua ausência possível do elaborar. Mas mais luminoso. Caminhar o dia inteiro como se mais nada houvesse. Uma coisa solar. Coisa racional. Que limpa de escolhos quotidianos e em que se depara com a inutilidade do sonho de domar a existência. Que é quem nos leva. Contrariar esta exaustão de tantas coisas que não são nada. Uma luta inglória, mas da qual não há que fugir. Algo se constrói, que não pode ser tudo o que o sonho e os compromissos delinearam. Mas o caminho é turvo, e demolidor, introduz com intencionalidade farpas que nos impelem para a frente. Que obrigam a correr. Por isso é preciso sair. Regularmente como quem leva um cão a passeio. Sair dos moldes diários e ensaiar um arremedo de liberdade. Limpar a alma de círculos viciosos, etéreas amarras, que marcam e ferem como cordas apertadas, a pele.
Este brilho mais suave da luz, quase de Outono. Sem a dureza do Verão que obriga a caminhar rente às paredes como na cidade da minha infância. Branca como não há outra aqui. Noutras paragens sim. Branca, incendiada, acesa com toda a luz possível e pequenas sombras de início da tarde. Caminhos escuros nas beiras de fachadas imaculadamente caiadas e com amor. Ano após ano o banho de luz de uma cal fina. E eu, meio estrangeira, caminhava entre casas de avós e tios-avós, renitente ao apagamento da sesta. E também orgulhosa de lhe saber os caminhos tão bem, dentro e fora das muralhas, como se fosse minha. A cidade de primas e primas-avós de nomes luminosos como Cândida, Aurora, Estrela, Felizarda, Esperança. E nomes de flores. Mas isso é uma outra estória num outro lugar de tios e primos.
Essa luz excessiva a compensar o facto de a cidade mergulhar na terra arenosa e plana, longe da água. Alguém me dizia, por uma vez dever tentar escrever algo luminoso. Recuar até alguma memória que o fosse. O que fiz. A luz, a luz e as suas sombras. Inseparáveis. Porque nem a luz. Nem ela na sua plenitude que tudo faz e desfaz, nos seus excessos, é dissociável das trevas que são o seu reverso.
Como fugir aos cantos escuros das coisas, sem uma dose impensável de distância anestésica, e como abstrair-me do olhar que tenho sobre os limites. Meus e de outros. Como não reconhecer os lados de trás, mesmo das coisas mais luminosas e como não temer o dia que ainda se insinua, e já é definido por um esboço incontornável de premeditação. Fazer minhas, realidades alheias, sentir com tristeza o evoluir inexorável de um comboio que irá para além de mim e ao qual a minha indiferença é apesar de tudo uma impossibilidade. Como?…
Aquilo de que quereria falar, é da luz objectiva, que incide nas coisas e as dá a ver. Da luz que lembrei ao desfolhar esse pequeno museu de memórias. De cidades. Da luz que ilumina fisicamente e apaga os fantasmas da noite. Da luz que é estar aqui e não debaixo de terra. E que, pouco ou muito, tem que ser estímulo prosaico e suficiente.
Memórias lá muito atrás, parecem estar lá em baixo. Longínquas e muitas com esta luz de Évora sempre. Mas tantas sombras inerentes. A infância não é paradigmática senão pela completa abstracção de tempo passado e futuro. Para além disso tem cores tão sombrias como pode ter qualquer outro momento da vida. Tudo o que lembro está envolto numa luz. Diurna. Ou na sua ausência, numa penumbra suave, ou numa quase escuridão de onde se autonomizam formas essenciais. Daquelas que não precisam sequer de iluminação porque mesmo mergulhadas no abismo escuro, são alcançáveis pelo tacto. As outras que são imprecisas e talvez inexistentes, nascem da escuridão e apagam-se com a luz. Curiosa inversão de coisas. Claro que ela é o revelador. Mas tem uma consistência própria como se uma matéria têxtil que se estende sobre todas as coisas cobrindo-as de uma interpretação particular. A luz é amante táctil das superfícies e dos recantos onde se recusa a entrar. Ou talvez se esconda neles. Invisível e lúdica. É uma espécie de olhar irónico ou caloroso e sorridente a descrever tudo por onde passa. Gosto desta luz mais suave. Da mesma forma diferenciada a produzir brilhos nas transparências de cada folha fina de árvore.
O mais luminoso que encontrei, metáfora dos passos que quero leves. Há na matéria orgânica que nos compõe uma formação, atávica, genética, de apelo à sobrevivência. E à morte. Há dias em que não sei viver, para além da inércia a que não consigo subtrair-me, excepto na escolha radical entre luz e sombra. O tudo e o nada que gere e gera esta página da vida, noutros dias em cinzas, hoje entre a luz e a escuridão total. Quando as margens são as do abismo , não há meio termo. Vida e morte andam por aí.
O que sinto, queria, prefiro nessa outra língua mais redonda, sucinta e suave. Lost. No demasiado conhecido. Sinto. A razão a encaminhar passos surdos, que se quereriam perder porque essa é a metáfora do momento. A da luz, senhora das mais ricas e essenciais conotações. Vida, saber. E os seus contrários, sem os quais não há sentidos tão densos.
E todos os caminhos que os meus passos ensaiam acabam por ir dar ao rio. E o rio, são os dias líquidos a correr. O segredo é não definir uma geografia possível, não definir um limite e não ter objectivos. Mas há uma inclinação que faz resvalar mesmo a partir de dentro para o rio. Não saberia viver numa cidade interior. Só à noite e mesmo assim sabendo-o ali mais abaixo. Noutro tempo, em Macau lá longe, no primeiro ano todas as manhãs, muito cedo, descia da Penha em direcção ao rio, uma enorme mancha lisa de um branco prateado, sem o mais leve irisado, da mesma cor do céu, mas com um brilho ténue e a mesma mansidão alastrada à cidade nas imediações, quase sem cores para além dos cinzas suaves. É como o lembro de então. E desembocava na baía contornando-lhe o recorte que já não existe, o mais possível encostada a ele. As árvores de S. José, os homens dos passarinhos contemplativos. Até que, mais à frente tinha que inverter para dentro da malha urbana, para chegar ao meu destino. À noite a mesma coisa mas de noite. Aulas nocturnas, então. Meia hora para lá e meia hora para cá.
Três cidades. E uma quarta em que nasci por acaso e que visitei miúda, naquela curiosidade afectiva de ser dali. E com a megalomania inocente de criança, orgulhosa de esta ter nada menos do que as portas do sol. Os socalcos sobre o rio um pouco assoreado, pequenino ali, e que eu não entendia como se tornava enorme aqui mais abaixo. Olhei-o como rio-criança. E áquilo a que resumi a minha cidade de nascença, com um nome luminoso e uma amplidão de vista mesmo de fora que é só o que recordo, uma semelhança lírica com a cidade perdida dos Incas. Fantasia curta e maravilhada de pré-adolescência. Analogia feita mais tarde, certamente mas ainda com a mesma ingenuidade. Cidades brancas como a luz. Lá atrás. Num ângulo particular, uma hora do dia e da memória, uma estação do ano e da vida.
A luz, que resiste indecisa entre a sua natureza simbólica e a sua natureza metafórica. Falar na luz e no seu contrário, a sombra que dá existência às coisas fugidias, irreais e mutáveis. Segundo a sabedoria dicotómica oriental, o estudo das sombras é o yin, na base da geomancia antiga e portanto da orientação. Ao contrário da conotação ocidental com símbolos do mal, da perdição e da morte. Nos evangelhos, como no Corão, nos textos taoistas, ou textos filosófico religiosos budistas, sempre a eterna e universal oposição entre luz e trevas. Figurada poeticamente no ocidente por aquela entre anjos e demónios, ou na China pelas influências celestes ou terrestres, sendo que a terra designa as trevas e a ignorância e o céu a luz e a sabedoria. E são da mesma natureza, fazendo parte do mesmo caminho de busca do conhecimento. Tal como na gnose ismaelita a oposição é a do corpo e do espírito, princípios luminosos e obscuros coexistentes no mesmo ser, a dualidade Yin e Yang chinesa em que em cada um contém traços do outro. No Islão é espírito. Segundo S. João, identificada ao verbo. Este simbolismo da luz-conhecimento, sem refracção, ou seja apercebida sem intermediários deformadores e por intuição directa, define o carácter da iluminação iniciática. Esse conhecimento imediato, que é luz solar opõe-se à luz lunar, que sendo reflectida figura o conhecimento discursivo e racional. A luz sucede às trevas tanto na ordem da manifestação cósmica como da iluminação interior. (Post tenebras lux)
Por isso ver a continuidade dos dias com a sua enorme carga de obscuridade e de desconhecido. Ao invés do desalento imiscuído na certeza da infelicidade, da configuração de uma linha de vida à luz de um olhar fatalista, em que o desenho esboçado parece fazer antever com toda a nitidez a perpetuação dos motivos que nos tolhem. E do saber, fazer parte o enorme quinhão de ignorância como forma aberta. Só assim suportável caminhar até ao dia seguinte. A primeira coisa pela manhã, é lavar o rosto do torpor do sono, da má vontade de acordar. Uma frescura boa para recomeçar, e no caminhar lavar também a alma das marcas de todas as certezas demolidoras. Diluí-las, no olhar para as coisas de sempre mas sempre outras, as mesmas coisas como a mesma água fresca da manhã. Tudo igual, mas subtilmente como se fosse o início de todo. O mesmo brilho da luz nas coisas, a mesma cidade, o mesmo rio, a mesma pessoa. Outro dia. E o espaço vazio para algo diferente se aconchegar no seio de tanta mágoa acumulada. E pensar que desistir, só ontem ou amanhã.
Se muitas vezes não se pode ver a realidade a uma luz diferente da que nos fere, há que não olhar. Fazer tréguas sem pesar. Perder momentaneamente o apego àquela melancolia ancorada no sentido de se estar na razão ao ser infeliz. Este país de gente a rebentar pelas costuras de não caber na ordem de penas que lhe cabem, de gente sem uma luz vinda lá de longe, não se sabe sequer de onde poderia sonhar-se. De gente que não consegue deixar de se permitir estragar o pouco de reservas de bem- estar, que fica doente também da mente, que se aliena no próprio circuito fechado da dor e da alienação, não conseguindo já destreza para encarar tudo como um mal de saúde entre outros mas que não precisaria de o ser. E a luz, que o é sempre e é gratuita, e já não conforta nem consola quem prefere sucumbir ao peso dessa inércia, a aceitar que ela pode ser adiada para o momento anterior ou seguinte. E entre eles algo de silenciosamente nulo a poder ser a trégua entre batalhas. “A existência não é mais do que um curto-circuito entre duas eternidades de escuridão”. Palavras de Nabokov. E quando parece não haver nada a fazer, há que caminhar entre as duas eternidades. De uma para a outra. Mesmo não lhes sabendo os limites, início e o fim. Mas entre ambas. No lado iluminado das coisas, mesmo que este se restrinja à crua realidade da luz solar, do dia claro ou ensombrado de nuvens. Sempre uma luz a opor-se às trevas maiores.
Deverá haver na felicidade absoluta uma demência e uma alienação egocêntrica que não é nem paradigma possível. Ter a luz e as respectivas trevas como reverso. E luminosidade garantida, essencial e diária. A possibilidade de olhar simplesmente este intervalo de luz real, sair em parte dos trilhos sofridos e viver à luz da metáfora inesgotável o momento raro de estar aqui. Raro e precário. Raro e breve. Olhar a luz e as suas revelações físicas, concretas e conhecidas, ou pequenas novidades no conhecido na sua incompletude, ou simbolicamente no muito que significa só por ser universalmente o registo de estar. De ver. Por agora e enquanto é possível. Não será talvez uma construção. Não num sentido sólido, estruturado e articulado. Tão só, talvez a desconstrução da inércia desesperante dos dias que se sucedem indomáveis inglórios e frustrantes. O poder não está do lado luminoso. As grandes decisões competem a quem tem as motivações mais sombrias. Resiliência é ser momentaneamente e serenamente feliz a prazo apesar de tudo. Por momentos. Passar é o que se faz. Deixar pegadas ou não, não é um acto de vontade. Nada mais forte visceral e absoluto.
Olhando o comum cenário lavado das contingências existenciais. As ruas, as fachadas de vidas sabe-se lá quanto mais difíceis, os caminhos urbanos, a opaca realidade das pedras, a depurada, embora por vezes sem futuro, premência das formas naturais, a alternância dos dias e das noites, da luz sobre as coisas e da morte sucessiva das mesmas. A luz. Enquanto o sol durar pendurado nos dias, é bom sinal. E caminhar. Como mantra ou desassossego.

28 Set 2015

Comboio da noite

E de novo chegou. Tão certa e tranquila como eu estar aqui. Mas quem sou eu? Isso não se sabe de momento. A esta hora já. No final das linhas talvez. Será sempre algo que não posso garantir. Mesmo no fim da linha final. Ficará como deve para resolução em outras instâncias. Mais tarde. Que fazer?
Mas ela chegou de mansinho como todas as noites, a noite. Com hora marcada. Arrastando tranquilamente o que lhe pertence para se ir instalando. Algum silêncio súbito, o das oito horas. O céu ainda claro deste lado. Esforçadamente claro, enquanto se acendem luzes interiores. Mas o rosto da cidade escurece de repente ensombrado pelo quase fim. Mais tarde reacende-se, acomodado já à escuridão. Instalada como se para sempre. E instalo-me eu também nela, finalmente apaziguada. Abro-lhe as janelas e entra como um gigante bom empurrando as luzes para os cantos onde se fabricam sombras todos os dias diferentes. Esconderijos gerados pela quotidiana mudança de lugar das coisas. Pela dança dos candeeiros que se revezam. Diferentes modelações. Pontos de luz baixa, misteriosa, ou brilhante e excessiva. Conforme os dias. As noites. E o interior ganha diferentes densidades palmo a palmo. E depois volta para fora como um enorme animal, selvagem mas manso, que prefere a frescura do exterior. Brigamos benignamente pela agenda que me rouba das mãos. A incompletude dos dias. Aponta-me um dedo inquisitivo, acusador. Mudamente pergunta se entendi. E deita-se ali fora ocupando tudo, preenchendo a minha alma de um conforto bom. Só de saber a sua presença. A cair no sono. A respiração calma. Acalma-me.
Quando já muito do que tenho para fazer não é possível. Tantas tarefas – que vida – mas tudo o mais que interessa pode finalmente fluir em liberdade. Condicional, é certo. Breve virá uma nova madrugada a pôr cobro a tudo e a obrigar-me a fugir para a cama. Fechar portadas para parecer de noite com o secreto conforto de, não o sendo, serem improváveis os fantasmas que me esperam quase sempre aos pés da cama. A que resisto virar as costas por medo. E o que fiz dela antes que se fosse, é variável. Por vezes fumo-a apenas. Estendo-a em quantos cigarros ali couberem. Colados uns aos outros. Há que tacteá-la cuidadosa mas intensivamente. Intencionalmente. A ver de que forma se apresenta. Tudo é possível da mais feroz borrasca em mês de verão, à mais terna e dócil passagem do tempo por disposições boas, cronometradas e sintonizadas. Pode vir como um veneno rápido que se tem de contrariar com uma solução quimicamente adequada. O cigarro com o gesto certo do queixo. Ou o ângulo do olhar esvaziado de conteúdo. Passivo e pacificado. Ou como um aroma ténue difícil de agarrar de perseguir, mas que é a revelação de outros momentos, na sua maravilha, difícil de agarrar e memorizar. À espera mas fazendo malas executando mil e uma coisas, gestos e sublimações até o derradeiro encontro. De hoje. Todos os dias. Ali está sempre com uma maquilhagem diferente e uma roupa surpreendente. A seduzir mas nem sempre da maneira mais fácil. Umas vezes, melíflua a fazer-se difícil. Outras, vem suave a ocupar pouco lugar, flexível e acalentadora. Mas a verdade é que sempre deixa espaço a um compromisso. Sei contudo que as negociações são truncadas. Ela é manhosa e por vezes, porque amiga, a sua dificuldade é pedagógica. Deixa-me sofrer um pouco até atingir o tal ponto de concórdia. E nesse ponto volta a crescer a sua identidade de animal gigante, benigno e adormecido. No meu íntimo sei como não há tempo a perder nesta negociação. Por vezes o tempo corre desperdiçado nela. 22
Porque mais tarde vem aí a aurora. Ou porque agora cai soturna a noite mas se reparar bem e sem desconfiança, com a mansidão sub-reptícia e transparente, de quem envolve na medida do permitido. Nem mais um grama de peso sobre a pele. Nesta féerie que faz estacar em desespero por não estar tudo preparado para a escuridão. Porque o céu é de uma imensidão azul, ou porque está pejado de nuvens fofas ou anunciando já o negrume nos seus cinzas pesados e que não chovem uma lágrima mesmo assim. Não gosto de ser apanhada por essas esquinas dos dias fora de casa. Às vezes corro contra ela quando se aproxima, como contra o vento. Na ânsia de, precisamente antes de chocar com ela, atingir a porta de casa e ver daí já como ela se instala ao meu redor. Depois. Nunca quero que parta. E cada vidro da casa, quando passo reflete uma amálgama diferente. Exterior e interior. Mas a esta hora, de todas fujo. Abro as janelas para ver para fora e para dentro. Melhor. Neste intervalo dos dias.
O tempo tem que passar e isso é bom e mau e eu não quero ter pressa. O tempo passa, o tempo pára e o tempo separa. Mas nunca fico à espera dela. Sei que é ela que me espera no combóio da noite. Aquele de regressar. Regressar a setembro com uma luz subitamente a baixar de tom. Essa luz que não me dei conta de ter ido amortecendo. Que muda tanto nas estações e na vida. Setembro, agora mais do que dois terços para trás. Do ano, também. Mas eu preciso de tomar todos os dias este comboio da noite. Para amanhã. Gosto de comboios e mais ainda deste, cujo movimento embalador é discreto, imperceptível quase. O caminho sempre variável na lonjura e duração. Shhh…só para quem entende esta solidão viciosa e plena. De gente estranha insone e renitente.
E está uma bela noite. Quase incolor, quente e leve de novo, há uns dias. Mas agora já fresca, e hoje acinzentada até. Clareando por efeito de um tapete denso de nuvens lisas que afinal derramaram uns chuviscos esparços. E umas súbitas rajadas de vento vindo não sei de onde que não perguntei. Ela dorme imperturbável. Mas não lhe importa a cor que se pode até inventar em azul nas noites mais negras. Mais tarde virá a quietude maior. E se o está é porque nela posso finalmente reparar, e se a sinto bela como se me apresenta, é da enorme elementaridade destes pequenos ingredientes. Dispondo os falíveis órgãos dos sentidos a absorver a calma que desce sobre o bairro, uma certa expressão do rosto em que tento diluir todas as crispações do dia, e uma dada disposição do corpo, ao conforto real deste abrandamento que antecede a paragem. Acontece ela ser bela como o é para mim. Dessas sensações como rotundas esponjas se filtra uma serenidade que se faz de esquecimento. Paragem. Anulação de tudo o que vivencial ultrapasse o limite apertado do momento.
Se pensar que estar triste é o simples estar sem euforia, e que, destituído da memória, o estar simplesmente, não é em muito diferente. Como é estar? E estar quando tudo se converte em desordem e é uma desordem a que se é estranho…e onde se tem que reencontrar uma linha própria para acompanhar sem mergulhar nela…e sem que ela desarrume por contágio a arrumação que houver por aqui…Ténue arrumação, que com a passagem do tempo parece tornar-se mais e mais incomportável. Os dias a imprimir desconsolo a um olhar que tenho dorido e acharia eu, sem culpa e sem magia. Querer fazer tanto e tudo cada vez mais por fazer. Mundo de desarrumos este. E tudo o que faço agora é no meio dessa desordem. Triste conquista. Aprender a desfocar. A esquecer todos os dias. O que vem e o que foi. E sair de novo amanhã um pouco limada das excrescências de hoje. Mas nem sempre com o mapa nítido à observação. Por vezes vejo e digo para mim que a minha alma perde forma. Estende-se e alarga-se em forma de picos que ferem para o lado de dentro. O possível alerta que o crânio não comporta e se expande numa respiração sem ritmo. A vida começou a cansar. Todos os dias. Talvez seja assim e por aí, que as pessoas, com a idade, começam a despedir-se suavemente.
Preciso de esvaziar alguns fragmentos de dias, flutuar um pouco por entre deveres não apetecidos nem queridos, quase sem pensar. Algo mais como um olhar inquieto sobre todas as coisas, um pouco como atravessar uma rua sem estar distraído, olhando para todos os lados mesmo sabendo de onde vem o trânsito…deixar-se arrastar pelo vento sem cair…fechar os olhos por um instante apenas… ter o suporte da memória arrumada sem mudar nada de sítio…não querer saber onde se quer ir, não querendo saber onde se vai parar…E planar um pouco nesta suspensão aparente entre dias. Mas, o tempo é voláctil. Como o álcool. Como o gaz de um isqueiro, que, utilizado ou não se evola lenta e inexoravelmente. Embora a velocidades diferentes num caso ou no outro.
E de novo vi o dia encher as minhas janelas de uma luz ao início lilás. Mas não tornou de todo mais nítida a minha visão das coisas. Um dia, vi uma gaivota descrever um grande círculo aqui por cima e parecia cor-de-rosa. Mas eu sabia que não era cor–de-rosa e isso eu entendo. Não houve intencionalidade em apresentar-se-me assim. A magia, disse Novalis, é a arte de utilizar, à nossa vontade, o mundo dos sentidos. Poderia estabelecer então, para meu conforto que a gaivota era de facto daquela cor em que a vi, já que não voltou para nela comprovar a ilusão pontual do meu olhar…Que a pizza no prato da mesa ao lado era prateada e que aquela árvore estava, de facto, sobre o carro parado na rua. Fixar um olhar único sobre as coisas por momentos.
Então algo pode ter acontecido sobre a minha mesa, a tinta. Posso deitar-me feliz e com a madrugada. A fugir dela, de facto. Ou não. E do mesmo modo ter atravessado tranquila um espaço enorme de vida fugindo a recordações e sonhos – os de antigamente – ou então ainda mergulhando nelas como num privilégio. E num ou outro como um sonho que é.
O amanhecer que, eu odeio me apanhe na cama acordada e sem sonhos, e mais ainda fora dela. Ali preciso de interpor o sono possível. É o reinício que eu temo. Sente-se na qualidade do silêncio. Que se torna subitamente total. Um hiato nítido. E no espaço de um minuto ínfimo, dispara o dia novo.

18 Set 2015

Face de rosto

Não acabou. Outras vezes, podia dizer: inacabou. Mais definitivo talvez, nítido até. Tactear. Lentamente. De início com muito cuidado porque num dos cantos dói. E no outro falta. Branca, texturada. Cheia de vazio. As fibras com rasgos de brusquidão e uns miolinhos regulares do corte. Sem instrumentos mais do que as mãos. As duas. Simétricas e leves, levemente cegas, mesmo. Voltadas para baixo, primeiro que tudo. A rugosidade áspera. Fresca. Que nada passe daqui para lá. O contrário sim, procurar. Ou esperar. Depois unindo levemente os dedos. Revirando-a à procura da interrogação certa. Do que é exacto na impossível exactidão daquele momento. Circunvoluções invisíveis mas que encerram tudo o que pertence. Já. Tudo está sempre. Naquele canto uma palidez solar. Bem no meio que não se encontra, fugidio como as linhas a partir de um ponto qualquer e que param só onde já é tarde, às vezes. Recurvadas. Em formas feias. Erradas. A destruir. Como pensamentos inapagáveis. Nada metafísico nisto. Na lua sim e não. Só nunca acabou. Nunca terminou o desconhecimento e nunca se esgotou o medo. Do dia do não encontro. Dos dias dos não encontros. Que não tendo uma conta certa espreitam o erro da abordagem. Por vezes há que fingir enganar essas invisibilidades e começar pelo erro. Brutalmente mesmo. O olhar é socrático e reage por uma vez, arquitectando um argumento. E tudo rola a partir daí. Montanha acima, primeiro. Bem ou mal. Recomeçar. Muitas vezes recomeçar. E de novo. Sempre com o tacto nos olhos. Espiar o desconhecido que se infiltra. De onde veio e para que tende. Tudo por fazer. Tudo magicamente possível. Olhar um foco nítido sobre o vazio. Em cheio, ali. A vencer o medo. Inacabado. Inspirar o prazer do tacto. Devagar.Anabela Canas
Não. Nunca acabou o medo. Tactear lentamente. Com dedos leves, quase insensíveis. Uma linha, uma curva. Mandíbula humana. A textura áspera a recobrir a superfície lisa e quente estruturada por dentro. Cheia de desconhecido. Ou com as costas da mão. E depois a palma. De início sempre com o cuidado do não saber. Mesmo dos olhos que devolvem a carícia ou a interrogam. Tudo está ali. Onde magoar. Também. Onde se ilumina sem saber de onde. Quando. Como. As duas mãos. Em concha. Simétricas sobre a simetria. Por vezes encostada com força e a pender sobre uma só das mãos. Essas nada incorruptíveis. Maculadas de interrogações. A rede da textura mais complexa do que em qualquer brancura lisa ou rugosa. Logo ali atrás inacessível. Fortaleza exposta. A defender-se ferozmente. O que belo, transcende. Logo por isso. E em fuga. E ainda mais cheio de erro. De manchas ou invisíveis linhas. Enoveladas, centrípetas, quebradas, atadas em nós. Ou de marinheiro. Ou soltas e sem fim nos limites do horizonte. Desfiadas. Por vezes rectas quase cortantes. Não. Nunca se esgota o medo. Do dia, aquele dia do não encontro. Que é impossível de recomeçar. E poucas vezes a partir do erro. Dizer que inacabou seria uma forma curiosa de sugerir um fim do que não foi. Mas o medo. Há o interior. Fechado. Escuro sempre por comparação. (Falava do exterior à superfície. Mas também…). O resto a superfície. Cerrada também. E as questões a mais. Intrusas. Distraem sem benefício. Crescem, absorvem, sufocam. Tudo por saber. Magicamente impossível. Olhar desfocado. Entre cá e lá. Pelo temor. Sempre inacabado. A emoção do tacto. Muito devagar.
Saber-lhe os movimentos antes de ensaiados a tinta. Mais ou menos. Depois. Como passos de dança que podem falhar por um pequeno deslize da respiração. E preferir o improviso ao esquema rígido e prévio. Centrar.
Lembrar os gestos possíveis, mas não saber se serão desenhados. As mãos, outras mãos, e os olhos, outros olhos. No lugar de encontro. Ou desencontro. Ontem ou amanhã. Agora. Ou não afinal. Não era, e assim, nunca foi. A pele dos lábios irrepetível. E a densidade. Tudo. Abandonar o possível. Roupas. Concentrar. Esquecer.
E as linhas entretecem por fim uma teia a fio negro fino. Outras brancas no branco, a indicar o sentido já. Urgente. A curvatura, a intensidade, o vazio, o cheio. Uma inércia boa. Ainda com desconhecido mas a desvendar-se já como um caminho a sair de um nevoeiro compacto. Também a partir daí é possível o afago, dos tons, de pequenas traquinices de emoção para iludir a confusão do real. Ou mecanizar ritmicamente um gesto, formular uma textura já não física mas fictícia. As formas a oferecer outras. A ganhar espaço para lá e para cá. Ilusões. As mãos já aí esquecidas de si. Os olhos também. Nada mais do que o filme a revelar-se a pouco e pouco. Encruzilhadas para parar e pausadamente reflectir o curso.
E os gestos desencadeiam às vezes por fim um encadeado conhecido. Uma renda ponto por ponto. Linha branca, esta. Até ao segundo a seguir. Tudo o resto ainda por detrás de uma névoa de risco imprevisível. E dai uma inércia boa. Sem interrogações agora, mas sem certezas também. Ou o repouso esquecido de tudo. Nunca foi. Segundos, talvez. Tudo o resto talvez igual ao acima descrito.
Não a face.
Papel, fino e transparente ou folha espessa com duas faces. Só uma de rosto. A do desenho do rosto. Vice- versa. Virada, de novo as possibilidades infindas do branco. Já a face do rosto, de espessura maior, mais densa. Opaca. Como a do rosto do desenho, a que é impossível virar do outro lado. Detrás do rosto. A que não tem outro lado, aí o universo inteiro, redondo de escuridão. Caminhos infinitos do negro. Um mundo de trevas e luzes, convexo, pejado de sinais furtivos, equívocos. Sinais. E indizível.
O rosto.

4 Set 2015

Cartografia da memória

Acontece por vezes um isolamento completo e agudo no momento que passa de mansinho e quereríamos parar indefinidamente. Ou nele afinal e simplesmente voar sem escolhos. Num pequeno vôo planado. Uma alameda pontiaguda de acácias amarelas. Muitas florinhas miúdas e ainda frescas, já a atapetar o chão como uma neve fofa. Aquela luz fortíssima do meio da manhã ou do início da tarde, filtrada pela folhagem abundante, fina, alta, transparente quase. Confundindo-se as partes lá mais acima num todo rendilhado de luz e sombra. Árvores antigas, ou simplesmente maduras e pujantes. Bancos de uma pasta cimentada quase a parecer pedra orientados no sentido privilegiado do olhar. Coisa incomum. Uma frescura branda. Um chocolate quente de máquina, miserável a parecer de festa. Há uma- várias- esperas nisto, mas o momento breve contém a eternidade e o esquecimento. Como se todos os poros se dilatassem de prazer e algo nisso se apaziguasse. Como se para sempre. Encontra-se um lugar uma vez por outra se não caminharmos de olhos fechados. Ou então pelo contrário. E é possível repetir aquele chocolate de máquina, e com ele o mesmo banco de quase pedra, e ali a mesma vontade de olhar profundamente para cima e em frente no mesmo deslumbramento da rara perfeição do lugar e do tempo com ele. E ser esse o momento que a idade sentida parece ser a maior de todas alguma vez alcançadas. Por excesso, mas simultaneamente leve e redimida de todas as mágoas sentadas no outro banco lá atrás. Essa luz a lembrar os pinhais da infância naqueles intervalos de almoço. De praia. Pesados de uma sonolência boa e incontornavelmente a desembocar numa sesta quase mais ligeira do que ela própria. Algo ensurdecedor nisso. Talvez os insectos, o calor, o ardor da pele e o cheiro do sal, que deixava linhas de secagem a desenhar formas imprecisas. O cabelo empastado de mar. O sono perfeito que ficou lá atrás. Esse. Muito mais esvaziado de monstros e fantasmas. Que por vezes crescem e proliferam com a vida adulta ao invés do que se esperava.
A natureza viva e inconsciente de que nela já existe um momento futuro em que já não será.
Vivo rodeada de naturezas-mortas. Tudo o que produzo. Tudo o que me cerca como olhares devolvidos ou pistas para o deslindar de um qualquer crime existencial. Sempre dei esse valor de eleição a coisas mbuídas de capacidade invocativa. Memórias que queria deixar inscritas para sempre. Angústia de não as poder querer ver diluídas pelo excesso de outros dias. Espio-os por vezes, muitas vezes, questionando a validade dessas memórias ali presas às vezes por um fio ténue. Deixar um objecto inocente, um copo, uma chávena, uma caneca, por cem dias. A fingir-se esquecido. Num primeiro momento só por incapacidade de tocar e remover o vestígio sacro de um fragmento de tempo. De vida morta. Ou cento e sessenta. E ir medindo ao longo dos dias, numa espécie de estudo diacrónico. Uma cartografia do sentir, não esse, mas a capacidade que emana do objecto de reter com igual ênfase, a persistência da memória. Perscrutar num olhar intencional ou furtivo, o vacilar das recordações que dele se vão desprendendo. A morte indecisa delas. O falecer daquele sopro sobre um chá ou um café escaldante, ou do respirar sobre o aroma de um vinho. A falta de intensidade que se instala. Que era já, à partida uma natureza sem vida. Quando o tacto se desvaneceu. Parou o seu movimento no ar. Estacou num ponto preciso da mesa. Podia ser para sempre. Até àquele dia em que alguém por engano deslocou numa pequeníssima rotação depois de erguido o objecto. Misturou vestígios dos seus dedos talvez invisivelmente a substituir, sobrepondo-se-lhes, os outros. E tudo transtornou a experiência do fenómeno. Delicado, impermanente fora do ângulo do olhar.
Quando mesmo a semana passada parece ter sido há uma eternidade de que ainda não limpei os cinzeiros, e duas canecas, um copo ou outra coisa qualquer, jazem sobre a mesa em memória de um momento numa outra vida. Roupas revolvidas e num momento único misturadas sobre uma cadeira, no chão, e já memória. O tempo é uma coisa estranha e a vida é de uma preciosidade esquiva, complexa e arrepiante. Não acredito no destino porque não acredito em nada. Mas talvez seja por isso que acho que tudo é possível. Mesmo quando envolto numa estranha névoa de irrealidade. E o que jaz na memória é irreal. 19
Por isso e pela minha paixão por mapas, sigo com os dedos arrastando neles os olhos, essas linhas. Cartografia da memória. Percorrer-lhe mentalmente o desenho, as imprecisões os relevos, as linhas de cota negativa, ou não. As manchas de vinho ou de água, lugares esfumados nas dobras de muito tempo ou o rendilhado de bichos famintos do papel. Deixar coisas pousadas num lugar preciso, mas como o parêntesis sólido entre o já nunca acontecido e o nunca mais, e lentamente ao longo dos dias, sem data prevista para um fim, observar aquela disposição da memória, esquiva a ser transportada para detrás de uma estranha poalha de inexistência. Sentir obscurecer aquele já de si vago fulgor de apego a um momento do real. Ver, com intermitência desaparecer o poder mágico das coisas. De refazer a materialidade de um gesto no tempo. Numa rota pontualmente paralela à do sentir, mas que um dia diverge lentamente da deste. Para não mais se cruzarem facilmente. Excepto porque ocorrem curvas e bifurcações que podem fazê-los cruzar em zigzags.
A arte perdida da natureza-morta quando lidamos com demasiados registos virtuais. Coisas e pessoas. Da natureza da memória, na verdade.
Lembrei-me de Morandi e das suas naturezas-mortas depois da metafísica. Os seus objectos subterrados em esquecimento e pó. Em tempo e vestígios dessa poeira cósmica que tudo anula, tudo ataca de uma uniformização que é talvez afinal harmonia com o todo universal. Atenuadas todas as particularidades e infrutíferas tentativas de individualização numa identidade única. Uma camada que suaviza e dilui contrastes. O tempo que pára ou que percorre ao seu ritmo as formas, transportando em si e sobre elas esse desaparecimento que é morte ou familiaridade harmónica. Vindas do pó para ao pó retornar. Quando se rendeu ao puro lado físico das coisas comuns, num discurso poético da simplicidade, humildade e elegância intelectual. De uma subtiliza silenciadora e algo surreal. O uso de muito pouco, em termos de cores, formas, estrutura compositiva. E embora não os particularizando, estes objectos não perdiam o realismo. Voltar sempre, de novo e de novo aos mesmos objectos que morriam uma e outra vez arrumados ou esquecidos no atelier. Omnia mors æquat. Talvez. Envoltos em silêncio como foi a sua vida e a sua obra, e numa luminosidade angustiante. Ocorre-me Adorno quando defende uma arte radical, talvez num outro sentido completamente divergente deste, austera o bastante para não se comprazer com o seu próprio espaço de encantamento mágico. E quando afirma que as obras de arte vivem da morte. Se nutrem dela. Morte e silêncio que se transmutam em reconciliação.

Recorrendo ainda às palavras de Adorno, deslocando-as do contexto vasto e complexo da sua teoria estética, que importa até se adulterando-as – a linguagem produz como mata sentidos – relembra-se como este considerou as montagens surrealistas, colagens ou simples associações de ideias, associações livres, a essência das verdadeiras naturezas mortas. A reconstituição do real, salvando-o e recompondo-o da obsolescência original e inevitavelmente corrosiva de qualquer apropriação do natural. Cria a verdadeira natureza-morta. Assim, se do olhar de um personagem retratado emergir um teclado de piano, a salvação da realidade dá-se na introdução de um novo conteúdo, como uma longa cicatriz transversal. Também à consciência. Também marca de dor na carne, nos olhos. Rasgão irremediável. Salva-se o tempo. Então. Talvez na metafísica. Mas só assim.
Mas pensar que seria então a natureza-morta para além de coisas inanimadas ou de que a vida se desprendeu, mesmo o retrato de alguém. Obsoleto por natureza a partir do doloroso constatar de como foi paralisado abusivamente num tempo que de imediato deixou de existir. Como uma espécie de nó, no fluir do tempo. Mas esse gracioso texto: Do tirar polo natural, com as palavras de Francisco de Holanda sobre o retratar ao natural, significando de observação e não de memória, enfatiza a qualidade evocativa do mesmo. É o que faço. Tirar respeitosamente do natural. Inúmeras vezes do natural da memória, se isso existe. Ou fazer disso um espelho abusivo. Ou num acto de inveja. Para ver sempre. Nada tão real como o que naturalmente se apresenta. Esse real tão animal e tão mineral. Tão fluido e orgânico ou cristalizado, incorruptível ou inalcançável. Perdido na estrutura cristalina da imagem-morte- que encontrou em definitivo um dia. Como somatório de todos os outros. De todas as pressões, tensões, das infernais temperaturas e da movimentação das placas tectónicas a ajeitarem em si o universo por uns tempos. Tão lá atrás. Ou um referente finalmente liberto.
Nas palavras de Hegel: “A única obra, o único acto de liberdade universal é, então, a morte, uma morte que carece de dimensão e de realização interiores”. Essa morte de que sofrem os que se vêem retratados e que faz tantas vezes temer o olho vítreo de uma câmara.
Olho de novo para cima. Vem a memória de outras acácias. Mas essas rubras. Olho para estas árvores. Gosto tanto das árvores. E no entanto parecia talvez que falava de uma outra coisa.
Há qualquer coisa naquele imparável e subtil movimento das folhas, que se propaga e agita o universo até longe. Como aquelas cadeias absurdas de acontecimentos irrelevantes em si, mas que deslocaram o curso das coisas imperceptivelmente. Exponencialmente. Um segundo em que se fez ou pelo contrário se hesitou numa acção, desmultiplicado a partir daí todas as possibilidades de divergência. Ínfimas. Radicais. O que somos como produto de pequenas irrelevâncias. Também físicas e químicas. Sim acredito que há uma química que se altera por acção de determinadas lágrimas na sua específica composição que difere de outras lágrimas e que reacomoda o universo microcosmicamente falando. E uma longa expiração agita a folhagem, faz baloiçar subitamente um passarito nos ramos que talvez não pensasse levantar vôo naquele momento mas o faz. Uma reacção em cadeia. O início de uma corrente que, se estende sei lá de que maneira e até onde.
Aquela leveza com que a folhagem se agita, num marulho quase indistinto. Eu sopraria uma delas no desvelo de a adivinhar levando para longe uma espécie de beijo, como aqueles selos do cavalinho com a sua delicadeza de folhas. E estas com a possibilidade deles, de guiar cartas.
Voltar ali por razões que não são as deste sentir. Mas acontecer de novo. Como uma peça bem ensaiada. Levar-me até ali. Sentar-me no mesmo banco. Olhar para cima e fechar os olhos a ver. Uma disposição boa. Mais centrada, intensa e límpida do que a da própria alegria.
Ou olhar para baixo, para a textura ínfima deste banco, cheio de vidros ou cristais ou de minérios inidentificáveis. Cores e brilhos que aparecem e desaparecem na oscilação do olhar. Tão desprezáveis na sua escala pequeníssima que se furtam à sua vocação de espelhos e pacificam a tentativa ou a irreprimível tentação de um olhar sobre si. Liberta-me da eminência de me encontrar por reflexo. Na pequenez destas luzes. De nelas ver. De soslaio ou intensamente. Os vários infernos. E um desses dias um pequeno papel. Colado ao banco talvez por alguma humidade nocturna. Como uma mensagem desesperada e amante. Um escrito com algumas florinhas amarelas poisadas. Podia ser eu. Podia ser. Essa pretensão de nos encontrarmos nos outros quando nos excluem por ser outros. Por natureza de alteridade. Posso até ter sido eu. Eu já tive vinte anos. Por vezes.

28 Ago 2015

Do horizonte, quase nada

Eu nasci no mês de Agosto. À noite, quase num dia de semana mas ainda nos restos nocturnos de domingo. Quase em noite de lua cheia. Tudo isto deve ter moldado a minha alma melancólica mas tão precisada de luz e calor. E da liberdade que, veio a verificar-se, só me espera neste mês do ano. O mês cheio de dias que rondam o dia em que nasci, desarrumação que, embora só a mim, ainda hoje me perturba.
Esta é a semana do meu aniversário, rodeada para trás e para a frente do mês que sempre me remete para o lado tormentoso que me caracteriza. Vim à luz com um barómetro e um termómetro e vários outros instrumentos de medida exorbitantes para os quais passei todo este tempo, a ganhar aptidão para gerir os dados. Que me dão a percepção do facto de ter nascido, como um enorme turbilhão da natureza, uma tormenta de vagas alterosas da qual só eu sinto os efeitos e em particular nesta altura do ano. Abala-me, desorienta-me, derruba-me a partir do interior mas como se de forças naturais e com base nos elementos exteriores a mim, se tratasse. E ainda estivessem em rebuliço.
Quando é que isto começou, lembro-me muito bem. Quatro décadas lá atrás. Numa noite em que depois de uma festa familiar improvisada para celebrar o meu dia, deitada na cama me desfiz em lágrimas. E foi a primeira vez. E entendi. A falta de sentido que me iria assolar para sempre, como a muitos outros, e que se torna sempre presente infalível e pontualmente pela aproximação daquele dia. A angústia da vida a termo indefinido. Rilke disse que só a consciência da morte nos permite valorizar as coisas da vida, o amor. Terá razão em muitos dias do ano. Nos outros, será sempre every other day. Neste, muitas vezes ou sempre, só o atordoamento torna suportável o paradoxo por definição que é a vida. Em que existimos realmente e apenas no momento presente, não quantificável em qualquer tipo de duração. E para morrer. Vivemos no nada e partiremos para um nada mais denso que o nada. Não conhecendo então o paradoxo do niilismo universal, esforço inglório, foi o que pensei já nessa altura, em desalento.
A diferença é que, nessa altura e provavelmente sem o saber, eu me sentia o rio. Enquanto hoje, muitas vezes sou mais a margem e sento-me muitas vezes simplesmente na margem. Deste Tejo enorme que banha a cidade e desagua mais à frente. E de outras, acompanho-lhe o caminho final até à foz, e nela antevejo o que me espera. De diluição. Ou fixo-me na linha do horizonte a mais circunstancial de todas, intangível e fugidia. A fuga para a frente.
E a maior crueldade ou partida da memória, reside no facto de nunca se poder voltar ao lugar de onde nunca se partiu. Mesmo querendo desesperantemente. Não parti daquele ser que nasci, mas também não posso voltar a ele. Como se nunca tivesse existido.
Tudo tão fragmentado neste meio da vida. Meio como possibilidade teórica. Terei sempre que reconhecer que pelo menos um terço desse todo, será improvável. Um século de vida, é o limite daquilo a que na melhor das hipóteses, mas assustadoramente também por vezes na pior delas, um ser humano pode aspirar. Na verdade, as probabilidades estatísticas dizem-me que terei vivido já dois dos terços da vida.
E naqueles dias em que o maior anseio de alma é mergulhar sem retorno nas profundezas escuras do oceano, poisar no fundo e encalhar aí como um velho galeão, o único cuidado a ter é mantermo-nos cuidadosamente nas margens. De tudo. Não vá o elástico que nos catapulta e reenvia ao lugar soltar-se. A corda em que caminhamos em pontas, quebrar. E o abismo que visitamos, guardar-nos para sempre.
O abismo a simbolizar a profundidade interior do homem, a sua apetência e medo do conhecimento de si, em quem se reconhece uma necessidade de transcendência e em que se auto-representa por vezes como imenso, o que leva a uma outra consequência simbólica quase simétrica – O ser como símbolo de abismo. E a partir deste, a possível validade das formas enquanto símbolos do ser – presente na contemplação – do seu dinamismo psíquico, ou ainda do abismo como projecção ou símbolo deste. E porque o ser é redondo, redondas são por vezes as formas de lugares abismais…
O lugar sem fundo ou o não lugar.
Ou o vazio como lugar do todo em devaneios de infinito…Tantas citações de Nietzsche possíveis tantas páginas depois e vejo-me de novo à beira dele, de tão vasto e já escrito. Sinónimo de voragem, se se lhe der o poder da vertigem. Mas tirando os grandes abismos da terra, geologicamente falando, é sempre do ser que parte a inevitabilidade da formulação do abismo. Na sua irreprimível dimensão psíquica, e no seu alternado dinamismo no sentido do longínquo aparentemente exterior, reverso das profundezas íntimas de penoso acesso. Como sempre chega-se à ambiguidade inter-permutável dos opostos. O que é amplo e o que é confinado. O que é exterior e o que é profundamente interior e se vê no entanto de fora, à imagem de tantas metáforas nietzschianas. O que é o centro, a forma redonda centrada e centrífuga, e o que é a transcendência de si. E a instabilidade destas dinâmicas. Ou ambos nas duas extremidades de um elástico. O permanente desenvolvimento de um dinamismo psíquico inerente ao estado de consciência à imagem do movimento de um elástico em diferentes graus de tensão. Concentrado e identificável à forma circular. A imagem do elástico ou a vocação pendular da introspecção. O retorno como reflexo, e o retorno para detrás do olhar.
Um sentimento de que inevitavelmente o ser se confronta com uma dimensão interior de si que é abismal, em paralelo com uma visão do que é exterior a si – o universo – igualmente abismal, e como tal assustadora, a atracção para mergulhar nessas dimensões que o transcendem, e que é compulsiva, parece espelhar a absoluta consciência da sua finitude.
Mas a finitude pode ser apresentada como um sentimento incontornável enquanto contingência existencial embora não desesperado, na medida em promete o mesmo infinito que recusa. Assim, se por um lado o saber revela ao homem dados que lhe são de algum modo exteriores e anteriores, que o parecem situar como nada mais do que um “objecto da natureza” ou “um rasto que deve desvanecer-se na história”, por outro lado é no conjunto das positividades empíricas do homem e limitações concretas à existência humana – o corpo na sua espacialidade, como modo de ser da vida, o desejo enquanto “abertura” como modo de ser da produção, e a linguagem, veículo do pensamento suportada no tempo – que simultaneamente se revela a sua finitude mas também a esperança ou a superação desta mesma finitude. O corpo, porque na sua inexorável relação diária com a morte, que imperceptivelmente o consome, precisamente se apresenta como o veículo para a vida empírica, o desejo porque através dele o homem se relaciona com os outros e com sistemas de produção, mas também é através dele que as coisas se tornam desejáveis, a linguagem, porque é suportada pelo tempo, que simultaneamente a corrói e desgasta, mas também a estende para lá do dominável. Nestes fundamentos enraíza-se o sentimento de finitude, mas é também neles que o homem se transcende.
Por que terá o homem atracção pelo que é profundo, imenso ou mesmo infinito, a simbologia do abismo como estrutura de localização do eu individual, ou uma espécie de topografia do ser auto-consciente, o desconforto ontológico face às coordenadas espaço-tempo com que o ser se debate: onde habitar, como se situar, onde se refugiar, são as questões que se colocam neste trabalho.
Porque, no que é profundo dentro de si, no que é imenso dentro e fora de si, encontra os fundamentos da sua angústia fundamental, da sua finitude. E porque no que é assustador encontra também a única via de superação da angústia. Mascarada de domínio, coragem, ou somente de inevitabilidade, a apetência pelo abismo manifesta a possibilidade do homem, através dos seus mecanismos conscientes ou inconscientes, de se esquecer momentaneamente os seus limites e pela mesma lógica com que os apercebe, deles se libertar.
Tal como tem consciência da finitude, possui também uma enorme vontade de a superar ou, de se superar nessa finitude, mesmo que seja através do discurso, de qualquer discurso como alienação. Parece fazer parte da sua natureza sensível e intelectual exprimir e partilhar esses sentimentos traduzindo-os em diferentes linguagens, imbuindo-os de uma forma que os torna parcialmente comunicáveis. Onde se funda afinal a mais simples razão deste labor da escrita.
Aqui, todas as semanas a mesma coisa. Deveria escrever talvez mil palavras e começo por escrever duas mil. Repesco umas quinhentas daqui e dali. Recomeço noutro ângulo e são mais três mil. Das quais retiro mil e avanço até às quatro mil. Das quais recuo por excessivas. E apagando sucedem muitas outras. Até se definir o caminho que quero. Indecisa e insegura da pertinência de tudo. Vou percorrendo ao longo de um ou dois dias uma espécie de labirinto de fragmentos de textos, de lugares. Até ao momento em que lhe encontro a saída. Há luz do lado de fora. É luz natural, mas nem sempre sei em que país me encontro. Sei sempre, no entanto, em que casa estou.
Tantas coisas a dizer. Vivo cercada de pequenos papelinhos, cadernos bonitos e confortáveis, diários gráficos, documentos word abertos para apontar a vida. Palavras sempre a mais porque não há tempo de as completar a todas. E sempre a menos na sua imperfeição, comparando com as que me assolam a qualquer momento. Acabo por fazer proliferar cada vez mais papéis soltos, pedaços de folhas, cantos de listas da vida, envelopes de contas da casa. Contas da vida. Porque não lhes quero assumir algum carácter definitivo de importância. Essas palavras que caiem ali como lágrimas pontuais. Como suspiros. Como perguntas para pensar mais tarde. Perplexidades ou pretensões. Tudo com o mesmo valor à partida. Adiado. E há um propósito com que as desarrumo. Uma rejeição qualquer. São exponenciais como gavetas dentro de gavetas, dentro de gavetas. Ou dentro de mesas, de casas, de prédios, de cidades, de continentes. De… Outras vezes uma emergência. E essas presenças imperfeitas e condicionais, angustiam-me. A sua inutilidade. A sua fragmentação e nela a da minha vida, do meu dia. São esperas que se desmultiplicam.
Mente-se tanto. Mesmo quem tenha esta compulsão da sinceridade. Tudo o que se revela é insuficiente e carecia de um ‘mas’, a articular com a outra ou as outras faces de uma mesma lua. Quantas coisas que digo seriam igualmente rigorosas se pelo meio houvesse a palavra quase. Aquela que sendo a antecâmara de uma sala, seja qual fôr, é porventura em certos lugares capaz de mudar em tudo um sentido. Inverter mesmo. Quando se diz: esqueci, antecedido de um quase, produz-se aquela alquimia de passar a dizer que se recusa o esquecimento que está já ali. Que se tentou mas foi uma disposição fraca para tanto que a recordação evoca. Que se mudou a vontade de querer. Que não se conseguiu. E no entanto, ‘quase’ é aquele não chegar a ser. É o nada que não chegando a ser algo, reforça o seu oposto.
Nada definitivo, nada eventualmente perfeito, não conclusivo, mas tudo no estado de absoluta confusão ou arrumação possível para o momento da estreia. Quer-se o melhor, a perfeição dos meios, o apuro da expressão do sentido, mas o que está ao nosso alcance é justamente e só, o ponto a que se chegou no momento. Humildemente mas com as tripas na mão e o coração em desalinho, as roupas a maquilhagem os cabelos, todos os adereços de cena a postos para o ensaio geral. Mas a estreia sempre adiada. No último minuto.
Estes são dias em que me revolvo por dentro. Assaltada de todos os lados por recordações. Perdas. Pelo passado todo e pelo futuro tão pouco. Pela falta de sentido de tudo. Em que perco o equilíbrio. Em que o procuro apurar o segundo que passa, imparável, e divisível em três. Cada parte dessas igualmente divisível por três. E sempre cada uma das partes, passado presente e futuro. Em que o presente se vai substituindo ao futuro. Um comboio fantasma em movimento. O nada que não existe. Desfoco. E procuro no meio de tanta tralha e lastro existencial, alguma coisa. Indefinida. Sei que procuro. Sei que nunca encontrei. Mas não sei o quê…

21 Ago 2015

Ensaio sobre o lugar

Este seria o momento em que, à luz daquela estética dos salões do século dezanove, os cavalheiros se retiravam com os seus conhaques e os seus whiskies, para falar dos assuntos sérios da cousa pública, deixando as senhoras libertas, para repôr um pouco de pó de arroz no rosto, e partilhar a dimensão do comezinho da via privada. Os desconfortos dos dias difíceis do mês ou os mistérios da mudança de idade. Receitas da vida e também da dos outros. Os assuntos domésticos e os do amor. Tudo muito filtrado, muito metafórico, muito cheio de alusões e reticências, e muito púdico, a fazer medrar nas mais jovens neste ambiente de gineceu, aquela curiosa qualidade mítica para muitos, atávica, senão mesmo estruturalmente ancorada no código genético, que é a intuição. Feminina. Mas este seria um outro tópico de conversa.

Do amor, poderia dizer que é como um hotel de cinco estrelas. É preciso um bom lugar, mas também bons costumers. Como juntar matérias inflamáveis e uma boa dose de piromania. E pega fogo em combustão espontânea. Mas, diria antes: é como um hotel de charme. Actores, cenários e palco, produção atenta, uma realização sensível. Para além de uma espécie de moral estética que induziria no erro de se esperar a teatralização do sentir, há o fascínio real do estar. Gostar de estar, indissociável do gostar de se ver estar. Não, no meu ponto de vista como atitude narcísica, mas como reflexo de estar no lugar certo do mundo. No amor há o fenómeno do espelho. Há a necessidade de identificação com o caracter desenhado no olhar do outro. Com o lugar. Os actores gostam de se ver no papel, ou não. Um bom amante seria então simultaneamente um bom lugar e um bom hóspede.

Descer a rua. Uma rua das muitas que levam ao rio. Lugar, antigamente de chegadas e partidas. De marinheiros. Ao lado direito, antes de desembocar na margem, e um pouco desnivelado aquele toldo com nuvens a sombrear o pavimento em mosaicos de arabescos azuis, evocativos de um médio oriente onde a sabedoria ainda protege do calor tórrido sem recursos contra a natureza das estações. Um desvão, pequeno e sombrio relativamente à rua, tanto quanto o sol ainda a escaldar, faz desejar um abrigo. Mesas redondas num amarelado de fórmica debruada a latão, e cadeiras que arredondam nas costas, convidativas ao repouso de toda a coluna em paz. O entrançado numa matéria colorida e variados matizes, como se nelas, entretecidos nas cores, se misturassem tempos, memórias e paradigmas apetecidos. Tudo de um outro tempo, de facto. E é aí que quero estar. Mas primeiro à beira- rio, amigos esperam-me num lugar mais juvenil, impessoal, amplo. Deixei para trás aquele vislumbre de interiores voluptuosos e entorpecentes, para além das janelas de guilhotina, mistura de cores aveludadas e tactilmente apetecíveis, veludos azuis ou tintos como o vinho, sedas ocre dourado, um barroco aconchegante, em contrastes semi-exóticos. Objectos confortáveis do passado, sofás e poltronas macias, quebra-luzes époque, imagens e esculturas românticas. Pensei. Tenho um encontro para mais tarde. Marquei-o ali mesmo. Por agora, esperam-me mais abaixo.

Depois volto a subir a rua. Do outro lado da estrada, a memória de um enorme grafismo rigoroso, meses atrás, no prédio devoluto, que dizia: ± SILÊNCIO ±. Como se a cidade falasse comigo por enigmas. O céu de um azul prússia, intenso embora já a escurecer, naquele dilema entre uma luminosidade feérica e fortemente colorida, e a noite quase, quase a instalar-se de vez. Mas é, perto do rio, um momento que se prolonga num resplendor estóico, resistindo às luzes da cidade ainda, e competindo com elas. Espreito de novo aquele cenário em desvão, os mosaicos, as três mesas e as cadeiras coloridas e, surpreendentemente, uma única ocupada por um grupo. Desço, contente com o inesperado sossego em contraponto ao exterior, para o meu encontro e sento-me na mais distante. Um pouco mais tarde uma rapariga tão silenciosa como eu sentou-se na do meio. E, abalado o grupo conversador, um homem ocupou a primeira mesa. Ficou tudo certo, sereno e bem. Os três em linha, quietos, silenciosos e ensimesmados. A música, no volume certo, entre um estilo pop de fusão, aquelas coisas difíceis de situar, uns blues a ressoar talvez a Nova Orleães, e outras fusões um pouco lounge que não reconheço. Entendi contudo uma mão de mestre na articulação progressiva de sons, numa espécie de viajem nas horas…

A mesa para dois, livre. E pareceu-me perfeito. Sentei-me só, e pensei na importância daquela outra cadeira ali, precisamente para lembrar que não era uma cadeira com o vazio de alguém mas uma simples cadeira em si. Um lugar. Não o espaço preenchido de uma ausência. Uma espécie de nada por oposição ao vazio. Um lugar, é isso. E, como qualquer lugar, uma entidade suficiente em si. Sem a necessidade de ser validado como lugar de algo ou alguém. O lugar puro. E eu nunca trago para um encontro destes alguém à revelia da sua vontade ou consciência. Tento. Nem memórias nem sonhos. Sequer os meus anjos têm lugar nestes encontros. Comigo só, mas inteiramente só em mim e não, como relativamente à cadeira, só, pela ausência de alguém. Só pela natural solidão imanente da matéria. Só, naturalmente e sem a veemente ausência de outrem. Esta é uma disposição que me ajuda a situar, mesmo para me lembrar de que, tal como não sou uma daquelas pessoas que preferem os bichos às pessoas – eu que os adoro – não finjo que não gosto da sua presença. Ou prefiro, às vezes. Mas tento não transportar a sua falta. O problema das pessoas, é serem afectadas. Literalmente. Afectadas pela vida, as inseguranças, as megalomanias, as mágoas, as frustrações. E sobretudo os medos. E que se deixam envelhecer mais do que os bichos e sobretudo, que se deixam estragar mais do que eles. Transcendendo em muito os incontornáveis limites da biologia.

Nunca falho estes encontros. Já falhei outros, embora nunca pela acção voluntária da minha vontade, passe a redundância. Este é também um dos verdadeiros encontros a dois. O de uma pessoa, com a não ausência da outra. De uma certa forma, uma ausência a que se nega a imperatividade e a extensão. A que não se permite a presença. Sim. Há encontros perfeitos. Aqueles que preenchem de uma forma densa e sem margens ou folgas um pedaço, seja de que dimensão fôr, de existência. Não porque nos façam felizes, mas porque são absolutamente justos, verdadeiros e confortáveis. O que é bom. Verdadeiros mas talvez não reais. Vistos de outro ângulo.

Há outros encontros, esses realmente perfeitos. Com o outro, que não eu. Mas tão raros. Pode-se passar uma vida ao lado da possibilidade de um. Por falta de jeito, de charme, de segurança, de vista. E esperar. Que as probabilidades, no seu cálculo imperscrutável, não forjem o encontro no dia seguinte àquele em que já lá não estaríamos.

Encontros daqueles a que não se vê o fim. E o homem é raro na perfeição, por isso deve estar sempre em guarda. Circunscritos num pedaço de eternidade. Mesmo quando esta se desfaz logo a seguir. E a que não se admite a presença de terceiros. E, de entre os mais temíveis intrusos, o tempo, a distância, o esquecimento, ou o desencontro, é o medo aquele cuja manifestação se revela verdadeiramente terrível. E quando isso acontece, quase impossível de erradicar.

Suponho que é a esta hecatombe, que Alain Badiou se refere com o seu conceito de “encontro”, como uma grandiosa descoberta do outro e de si: “For it to be a genuine encounter, we must always be able to assume that it is the beginning of a possible adventure. You cannot demand an insurance contract with whomever it is that you have encountered. Since the encounter is incalculable, if you try to reduce this insecurity then you destroy the encounter itself, that is to say, accepting someone entering into your life as a complete person.”

Mergulhar nas revelações sem lei. A nudez das palavras à mistura com os beijos. Que são um extraordinário lugar físico para as palavras. O tempo anacrónico. E nunca o medo.

Mas é tão perigoso isso. Tive uma amizade durante dezassete anos, pessoa singularmente amoral, ou até imoral, com quem tinha uma média de largas horas semanais ao telefone. Em que trocámos bárbaras confidências. Um dia. Uma única palavra. E acabou subitamente. Ela ofendida com um disparate que transcendeu, ocultou ou ofuscou os milhares de outras palavras usadas durante todo aquele tempo. Sim. Falar é uma coisa perigosa. Mas gosto desse desafio. Despojar a alma de qualquer artifício – o limite é a dor, ou ir além do Bojador – sem ter que ver no outro uma flor frágil. E de ver a totalidade possível do outro. Guardar alguns segredos também, evitar alguns espinhos. Sem falsidade.

Eu tenho uma inconsolável nostalgia de ambientes do passado. Tão mais confortáveis e envolventes, quão desaparecidos ou em vias de extinção. Sem sequer serem substituídos por ambientes contemporâneos que consigam magicamente ter essa qualidade numa outra linguagem. Talvez afinal os objectos tenham uma alma que acumula referências e humanidade de momentos passados, de sentimentos que lhes transmitem algum calor, um acalento que a modernidade não consegue alcançar. Talvez precisem de amadurecer. Sempre gostei de ambientes vividos, objectos manuseados, marcas de vida. Das atmosferas pesadas de um luxo sensorial e decadente dos velhos cabarets. Os lugares dos espectáculos de burlesco, e dos episódios burlescos da vida. Nas zonas portuárias, com maior fascínio porque muitos estão de passagem. Vindos de longe e com destino incerto. Também eu encontrei um dia um marinheiro de águas profundas num cabaret decadente. Mas em outras longitudes. Curiosamente a primeira coisa que lhe vi foram os pés. Só depois dei com o rosto no topo de um corpo aprumado e uns ombros firmes. Um grande encontro face a tudo o que depois não teve sentido nenhum. Numa outra vida. Enfim.

Pensão Amor. O lugar de que falava. Não pensão, já. É um pastiche de outros tempos, mas feito com carinho. Lugar de imitação de outros imaginários que não de hoje, mas terno e generoso para acalento de nostalgias. Um nome que se não fosse absolutamente real seria poesia pura. Há um lugar. Natural, produzido ou forjado na fantasia. Poderia ter este nome, mas seria plágio. E não precisa dele. Basta a designação plena de lugar. Como na arte, um site-specific. Lugar natural de algo. Ou desencantado da miríade de todos os outros para envolver a estrutura, a forma a instalar. Mesmo pré-existente, conceptualmente escolhido e quase produzido em função de…De liberdade. Da superação do medo. Do encontro com um eu depurado, reflectido em olhar alheio. Intemporal, eterno, indelével. Mesmo que no momento seguinte todo o referencial pudesse mudar. Mas nesse lugar tão específico, as coisas formuladas e sentidas têm alguma escala. E são eternas enquanto duram. Só depois se lhes vê o fim. Mas essa é já uma outra história. Um outro lugar. Vago. Ou não. Simplesmente lugar.

14 Ago 2015

A vida em claro-escuro

OHá uma determinada sensibilidade. Às luzes coadas. Às sombras difusamente delimitadas nas paredes, às formas projectadas pela luz e às formas reflectidas. A uma exposição ténue e indirecta da realidade que não fere, não magoa os sentidos, e sendo etérea de substância, e intangível, é também subtilmente fugidia. Com a inexorável e imparável evolução da luz. Ou a fuga em que a rotação da terra interminavelmente impede a aparência de se fixar. O visível suave ou delicadamente ambíguo, as formas das manchas a confundir-se nos seus diferentes planos do concreto material, ali a desenhar outras possibilidades, mutantes e mutáveis. O desfocado que lhes dá leveza, alguma insinuação de potencialidade de movimento, e, por outro lado, ligeiros movimentos e oscilações devidas a alguma aragem que se filtra pelas portas e janelas quase fechadas. O excesso de luz e calor a produzir ambientes suavemente obscurecidos. É a tradição do sul. Um sul que gosta de alguma obscuridade interior, e em contraponto, de ser visitado através de estreitas aberturas das portadas, por uma luz intensa. Uma determinada sensibilidade à natureza espessa, fortemente colorida e diferenciada, mas matericamente anulada na planitude das paredes. (Esse conceito ilusório de Flatness, que só mesmo na lisura completa, estéril e sem representações por mais etéreas, se verifica.) Tornada suave, transformada em benignas formas fantasmagóricas, em cinzentos claros. No limiar do reconhecível. Uma reminiscência platónica. Ou às velaturas, camadas transparentes delicadas cortinas sobre a crueza do real. Atmosferas oníricas. É a impermanência da não cor. No não lugar.
As formas são de facto uma obsessão em que muitos não reparam mas do mesmo modo sofrem como excessivas. Nas palavras de Balzac: “Tudo é forma, a própria vida é uma forma”. E de facto, toda a actividade, toda a estrutura existencial e os seus padrões definidos, se deixam descodificar na medida em que tomam forma e inscrevem a sua curva desenhada no espaço e no tempo. “As formas, nos seus diversos estados, não estão suspensas numa zona abstracta, acima da terra, para além do homem. Elas misturam-se coma a vida de onde provém, traduzindo no espaço certos movimentos do espírito.” Fócillon
A tentação do desejo de vislumbrar na forma um sentido diferente daquele que lhe corresponde, de confundir a noção da forma explícita com a de imagem ou de símbolo. Uma espécie de talento para a deformação e o esquecimento. E assim determo-nos nas sombras delicadas e esfumadas, virando as costas à sua origem. É um determinado anseio do espírito. Já que aí a vida das formas não é decalcada na vida das imagens, simulacros ou recordações. Paradigma de um intelecto inconformado com o excesso de registos e leituras que uma realidade tridimensional permite. E há ainda o tempo. E no entanto, aqueles cujo olhar vai desfocando por limitação orgânica, corrigem-no com lentes, para tornar a selecionar mentalmente uma camada do real a ver. Do todo demasido complexo, ou mesmo confuso, dedicamos a nossa limitada compreensão a uma parte, reelaborada de acordo com critérios. Padrões, por vezes. Mas estes existem ou somos nós que os recolhemos de um contexto mais complexo e de algum modo os construímos…como pepitas de oiro profusamente misturadas em areias de composição variada. Que se coam. Uns existem e outros formulamo-los.
Esquecer então as cores e determo-nos numa realidade bem mais serena. Essa das luzes e das sombras. E só. A vida em chiaroscuro.
Depois pensar no sfumato de Da Vinci, essa lucidez estética que deu origem à modelação dos volumes através da variação da luz.
A vida em claro- escuro. O que não é semelhante a dizer vida a preto e branco. Embora se pudesse circunscrever os dados da percepção a esse universo das não cores. Carácteres planos ou caráteres redondos como na literatura. É disso que se trata. A vida faz-se dessa modelação subtil de tons, em gradações mais ou menos suaves, com uma escala de variações mais ou menos ampla e diversa. As diferenças ente o mais claro dos tons e o mais escuro, numa forma, podem ser ínfimas ou brutais. Disso se faz uma expressão ou uma linguagem mais ou menos violenta. Mais ou menos delicada. Por excesso ou por defeito de emotividade. E é dessa construção que se obtém a noção do volume das coisas. Nas formas lineares, o contorno no seu desvario de movimento, em torno de um vazio, pode ser suficiente para insinuar na imaginação, todo um mundo interior que lhe é implícito. Quanto maior a sensibilidade impressa na linha, quanto mais sinuosa, maiores as possibilidades de sugestão daquilo que lá não está. O mundo conceptual do desenho, mesmo que se pense nele como raciocínio e não como imagem gráfica, é o das leituras múltiplas, escoradas abismalmente no olhar do observador, no seu museu imaginário e na sua relação com o movimento, com as formas do real, com a visão. E tanto mais este olhar pode ser aprofundado, quantas as pontes que se estabelecem.
Estas coisas que têm a ver com a luz e as sombras. Com a revelação e as trevas. Revelação teatral, essa. Dramaticamente levada ao limite no tenebrismo de Caravaggio ou sobretudo na preciosa encenação da luz em Rembrandt.
Mas Leonardo da Vinci, nas suas experiências de mago, encontrou no sfumato, mais uma maneira de, atenuando os contornos na sua dureza natural e linear, e eliminando as marcas do traço e da pincelada, amenizar a expressão humana. Um trabalho à custa de tons baixos que evaporam os limites como se de fumo se tratasse. Suponho que é esse o pequeno grande responsável pela aura de mistério atribuída ao sorriso lunar da sua Gioconda. E o facto é que, vista de perto, há nela uma quase trepidação, um quase menear dos traços, que, não chegando a sugerir movimento, parece uma respiração, uma pequena desfocagem que lhe transmite uma vida subtil.
A vida é na verdade uma forma subtilmente modelada em tonalidades de claro- escuro. Difícil é situarmo-nos estavelmente e manter o equilíbrio nessa variada e imensa quantidade de cinzentos, com todas as suas inflexões e nuances. Mas como em qualquer observação ou esforço de localização, tudo é uma questão de focagem de estabilização do olhar, de respiração… E assim a tendência lógica, dado o esforço do mecanismo óptico, é para a radicalização do plano de focagem…Mais longe ou mais perto com maior ou menor profundidade de campo, no que se refere aos tons, infalivelmente se resvala para uma síntese facciosa ou maniqueísta do alto contraste. Reduzindo todos os tons por aproximação grosseira ao preto e ao branco. O eterno estado de graça de ver o mundo a preto e branco, literalmente. A saber, os bons e os maus sem meio termo e sem contemplações…É um anseio de alma. Organizar o mundo de maneira a nos situarmos por dentro ou por fora de algo sem dúvidas, dilemas, ou contradições de maior (uma das primeiras manifestações plásticas infantis, de carácter espontâneo, é estabelecer linhas de fronteira entre o objecto-eu, e o mundo exterior). Este cenário utópico e prosaico, tem uma virtude pragmática e as devidas disfunções redutoras de todos os modelos radicais. E a vocação abismal do costume… querer situar o nosso desgraçado conceito de si facilmente e sem atropelos, com a segurança de nada ser dúbio ou de duplo significado, e de nada depender de interpretações ou leituras, mas como se as coisas fossem elas próprias sem relação com o outro. O olhar, a leitura. Inequívocas e fechadas em si e na sua natureza específica. Confortável e redutora forma de estar…Abismal, como todas as outras porque, como todos os extremos, a necessidade dos opostos faz sentir o risco de erro com muito mais ênfase desta forma. E a vertigem inerente a uma escolha radical, é, por natureza apelativa e perigosa.
O erro se ocorrer é total, tal como acertar seria uma contingência do jogo de consequências absolutas…Mergulhar no negro absoluto e negar todas as tonalidades intermédias, é virar as costas a um realismo sem as inflexões do romance, ou de difícil capacidade de lirismo….A opção pelo branco absoluto por outro lado seria a alienação completa de um referencial que tarde demais haveria de se fazer sentir. Não há inocência possível na opção pelo branco absoluto…E sabe-se que a vida é em tons de cinzento, múltiplos variados enriquecidos de outras cores, reflectores, instáveis, influenciáveis e absorventes de todas as ínfimas partículas do universo em redor… Nada a fazer. Terreno variado, trabalhoso, de difícil estabilização. É a vida nos seus tons. De cinzento. Na sua obesidade ontológica. Uma camada de realidade a cheio.

7 Ago 2015