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Estar triste. Estar tão triste, que mais nada se apresenta nítido. Por momentos. Tão triste quanto a alma permite como limiar do impossível. Quase a tocar. Tanto que quase se sente inviável a ligação a um corpo que parece teimar, com uma energia própria, em não sucumbir. Alienado dessa paragem de toda a vontade que não seja ficar ali. No território de uma tristeza sossegada. Legítima. Quase confortável. Ou tão inquieta, que às vezes a alma parte por aí tumultuosa e em desespero. E eu vou atrás dela para que não se perca, como criança desassossegada e inconsciente. Numa corrida em que nem a apanho nem a perco de vista.
E depois, estes dias de um sol brilhante e de um céu azul, denso e sem mácula. Os brilhos intensos em tudo e mesmo na mais ínfima folha de uma planta. Virada para a luz. Com uma intencionalidade que não vem da consciência impossível de uma planta, mas de um outro saber. Saber da matéria orgânica. E é tão bom. E não haver melhor do que dias assim. E mesmo assim estar triste. Triste e bem disposta. Ser triste que sou. E depois, voltar aqui. Bem ao meio deste longo lamento contra os optimistas bélicos. E já ter que dizer os dias como hoje envoltos também numa película nebulosa de cinzento. E voltar de novo a este lugar do texto para dizer que já chove.
E nesse retorno, sentir que grande parte destes parágrafos é um refrão que se repete e de que é preciso recortar figuras ou formas e guardar para outros dias. Às vezes guardo pequenas frases, palavras bonitas e soltas, de que gosto como contas ou pérolas. Que não ficam bem neste colar mas quero guardar para um outro. Há detalhes fúteis em qualquer emoção existencial. Que o pudor teima em relegar para locais menos nobres. Caixinhas como de bijuteria da vida. Mas o refrão que por aqui abaixo começa por se repetir, vi-o depois excessivo. Preciso para mim como na música. E, mesmo aí, de tão insuficiente que repito por horas quando a alma mo pede, a mesma, sempre a mesma música. Sem desfitar de uma mesma emoção. Sem saturar. Até um ponto. Mas demais aqui. E recorto a custo. Figurinhas como de papel. Tristes.
Sim, às vezes o mergulho é a pique e só a música condiz com a forma da minha deriva. Instrumental às vezes. Vozes roucas quase humanas como a de violoncelo, que parecem desentranhadas da alma. Ou não. Outras vozes. A encobrir as que temo e me possam enlouquecer. Desarticular. Perder fragmentos. Ou perder-me em fragmentos, talvez. Uma harmonia que custo a encontrar na longa lista de possibilidades. De músicas. Que procuro de cabeça meio perdida e impaciente de encontrar. Depressa, para poder parar. Estacionar no lugar dos sons. Voltar à tristeza. Específica como nenhuma, na voz em que preciso de a encontrar. Do momento. Que acolham o que sinto sem oposição e sem luta. Num embalar ao que anda desvairado, sem casa e sem apaziguamento. Como um antídoto particular e, como estes, feito da mesma matéria química ou sensível, mas não para que anule o veneno. Só para não fazer demasiado mal. E, é na música, quando tão sóbria quanto preciso, que se desfazem nós de angústia. Não da angústia de estar triste mas de toda a impossibilidade dessa paragem que não pode ser. Desse desalento confuso e maior, que de tão volátil, impreciso e esquivo, se mantém intratável até ao momento de uma certa calma. Um certo silêncio de todos os desesperos e o retomar das necessidades básicas. Comer, por exemplo. Ou dormir, que é uma coisa de abandono. E às vezes começa a insinuar-se uma certa indiferença fria e distante. Outras vezes um sentimento já de quase mesmo aversão àquilo ou a quem nos faz triste. À vida de todos os dias. Ao esforço que exigir sempre cada objectivo.
Mas ser o estar triste não uma doença, e não contagioso ou contagiante. Alimenta-se de dentro. De sonhos e expectativas. De passado e de futuro. E de perdas. Passadas – como passadas foram as do caminho percorrido – e futuras. Onde me levo de novo à eterna questão de ser ou não o passado perdido. De ser ou não ser, ter sido, o ganho que se tem garantido. A alegria é-o do momento presente. Quando é. Mas a tristeza, a minha é um substrato inerente ao meu modo de não desistir do muito que gostaria que a vida fosse. Que existe na base da minha alegria de às vezes e da minha boa disposição. Mas não é que seja um pessimismo teimoso. Nem estar triste por convicção, nem feliz por religião. Às vezes, acho-a uma tristeza boa. Como um bom cão, de guarda a sonhos que não quero perder. E um bom cão, guarda o dono até na morte. Talvez também os sonhos.
Ou dizendo de outro modo, que os sonhos, mesmo os impossíveis, não podem ser como castelos de areia. Há os que se vão com a primeira onda e os que são a estrutura do que somos coerentemente. Mesmo nas impossibilidades que reconhecemos em nós. Que estruturam a partir de um ponto no infinito. Esse abismo. Para dentro ou para fora. Longe ou perto. Perto ou longe.
Dias há, de caminhar sem rumo. E dias sem sair. À procura de algo que se afastou da paisagem avistável. Noites compridas sem sono. Sem vontade. Sem vontade do sono. Sem querer um dia novo de caminhada sem norte. Procuro as brasas do fogo de sempre e perdi-as. De vista. Perdi as coordenadas que sempre me levavam ali mesmo na cegueira. E caminho para esvaziar a mágoa indistinta, imprecisa, ténue. Sem lhe saber contornos diferentes de outros dias, a mais do que um vazio que se vai instalando. De ausência palpável do que não estava lá. Talvez sonho. Talvez mesmo aquela força subterrânea que faz do sonho uma espécie de realidade paralela. Possível. Tão imaginável. É talvez isso que se desfez sei lá como. Uma intuição ou uma fraqueza de fé. Caminho pela noite à procura das luzinhas ténues de um fogo já rarefeito. Brasas quanto muito. E deparam-se-me muros. Fechados. Com gente ali. Mas eu sei que este não é meu caminho. Longe de tudo. Caminho pela noite de braços cruzados e cabeça baixa contra uma aragem fria. Ou não saio. E é o mesmo. Não sei quanto estou perdida e longe. Não sei. Não sei se posso voltar ou de onde. Não sei. Não vejo. Dias assim. Ou momentos que nem minutos têm de vida. A esperança, talvez. Essa espécie de ciência da adivinhação que nos projecta em possibilidades e de algum modo dá sentido à, aquém dela, inexistência de algo. Dizer que adivinhar não é uma ciência, afinal. Mas que dizer de Júlio Verne ou da capacidade de sonho e antecipação que estão na base do labor científico…Que inventa antes de descobrir. A diferença entre uma verdadeira pergunta com um ponto de interrogação no fim, ou um devaneio a não querer mais do que o sonho da possibilidade de perguntar sem uma resposta fechada em si.
Dias assim. Ou momentos que nem horas têm de vida. E depois, subitamente ou devagar, o desgaste. A erosão própria a estruturas complexas e de muitas texturas incertas. Nada no ser é liso em termos existenciais. Redondo sim e etéreo na sua geometria de forma abstactamente redonda. Arquétipo de tipologia esférica. Mas a existência recobre de irregularidades múltiplas e que são mais frágeis à corrosão. Estar triste e depois já não estar. Sei lá…
Mas às vezes era preciso que alguém dissesse: Não faz mal. Estar triste. A tristeza é natural e a tristeza não é má. Porque estar triste é resistir à fragmentação de um eu que, ou não sente, ou não é filho de boa gente. Como o luto. Tudo faz parte da unidade facetada do que se é, e é numa harmonia em que é proporcional a tristeza, à importância que se dá às coisas, às pessoas e aos sonhos de vida. Que se perdem que desiludem que desamparam. E a nós próprios naquilo que sabemos não ser, que não sabemos ser, mas que não perdemos de vista. E é assumir que isso teve um valor positivo mesmo que em sonho ou expectativa.
Contraste simultâneo ou o elogio da tristeza. Ou a felicidade de gostar, em contraponto com a tristeza de não ter. Não por se gostar de ser triste. O elogio da tristeza porque é fundamental viver os paradigmas. Neste mundo infernal o paradigma é a alienação possível. Daqueles que se não vitimizam. Fugir à fragmentação da alma de cada vez que se vê contrariada, frustrada e triste. À tentação de deixar descartados sentimentos e sonhos como se de nada tivessem valido, de cada vez que são frustrados e contrariados. Rejeitar a troca da coesão de um ego amante de coisas amáveis, pela constatação de que não estão maduras para si. Estão verdes. Não prestam? Porque a utopia é esse oásis da melancolia, sempre à espreita, esta, de cada insucesso. Ou a tristeza. Ou ser triste. Digo. E contradigo. O que não é diferente ou contrário a ser bem disposta. Ser as duas coisas. Como uma avaria lógica. E alegre também. Independentemente. E muitas vezes – quase sempre – as duas em simultâneo. Contrastes. Só nunca fingir.
Tenho esta maneira de estar triste, e eu estou tantas vezes triste, mas muitas vezes triste e bem disposta. É isso que é para mim uma estranha combinação. Tento que os meus lábios não curvem para baixo para sempre. Como forma de resistir à devastação da mágoa, tento encontrar a disposição que retém alguma da ternura que me constituía dantes, como antídoto à mágoa. E todos os dias há situações que magoam. Algumas mais indeléveis do que outras. A desilusão em crescendo. Mas fazer o impossível para me não afundar nela e construir o desenho do que amo e quero reter, mesmo que à custa da memória, mesmo da que dói, mesmo que à custa de um olhar distanciado. Segurar-me nas franjas de uma realidade que posso reter com os olhos. E às vezes advém daí uma inesperada sensação de euforia vital. Que não anula a tristeza subjacente mas a desfoca momentaneamente mantendo a certeza de que lá está mas um pouco recoberta de outros pensamentos e da energia necessária a vencer a inércia da mágoa. Não vou dizer o indizível da esperança sem nome e da inabalável fé no devir. Vou antes serenar no lirismo possível de tudo ser possível até prova em contrário. E que ao fundo não se avista beleza certa, mas há uma curva no caminho que desculpa a invisibilidade e deixa em aberto o que para lá se desdobra no tempo. Essa ocultação necessária, porque a vida se faz de epifanias pontuais e precárias e de ocultações misteriosas e aliciantes, e que é a pedra de toque de um sentir em aberto e triste, muitas vezes. Mas não sem redenção. Gosto da crueza do real sentido. Tal e qual mesmo a doer. Ou de, noutros momentos uma certa indefinição. De não pensar e não sentir nem desistir. Estar triste e pensar que vestido levo ao aniversário de N. Que dê com aquele batom. É a vida. Que é cíclica como as marés que não se suportariam sem a alternância de cheios e vazios. E feita de todas as cores.

Não sei porque se diz de cores, serem tristes. Tristes umas, contentes outras. Alegres. E destas: vivas saturadas ou puras. Sem quebra. Sem misturas. Do branco, do negro ou do cinzento. Porque se diz das que são suaves, estáticas, mudas… Não sei por que analogia se lhes chama tristes. Sei. Já as que se chamam alegres, vivas, dinâmicas, violentas, mesmo. Contrastantes como excessos. Mas vejo uma estranha variedade de cromatismo nas emoções tristes. Que vai desde o maior silêncio ao maior tumulto. Porque também este é um sentimento que se envolve de razões e causas de emoções que se fiam num mesmo cordão. Como se, nesse paralelo de calor e intensidade, a alegria fosse um conjunto de paralelos a partir do equador. A partir de um ponto tórrido e desvanecendo-se progressivamente de violência. E a tristeza fria e informe como as cores diluídas. Sempre de uma mansidão calma e desmaiada. Em hipóteses contrárias me perco na memória, de muitas tristezas diferente. Ao longo dos dias e das horas. Com os contrastes possíveis como os das cores. Lembrei-me dos Delaunay. Sobretudo Sónia. Os contrastes simultâneos entre cores puras. Quentes e frias. Como segredo para intensificação mútua. Mais ainda se forem complementares. A estonteante dinâmica perceptiva criada pelos grandes discos concêntricos. Uma euforia de vida. Uma agitação que se liga ou mesmo confunde com alegria. E a sua contribuição para um cubismo a que faltava lirismo, cor e luminosidade, por tão intelectual e austero. Mas não para mim. Em que tudo se faz de tudo. A sobriedade que pode haver na alegria suave e a violência do apagamento na tristeza ou a dinâmica do tumulto interior. Quando não se aliena o sentir só porque está na moda ser alegre e positivo. O que há de pessimismo em estar triste quando se está em perda, mas se gosta daquilo que se perdeu. O que será tão contrário ao optimismo, no assumir o valor da demolição de um sonho, enquanto se sente, em vez de mobilizar um alheamento alienado daquilo que nos constrói e caracteriza. Como se só a victória de um sonho o tornasse válido. Ou se do desapontamento não sobrasse o gosto de se ter esperado o melhor. Até uma suave impressão de ter sorte na tristeza porque significa que algo foi preenchimento. De novo como a imagem das marés. Sem uma a outra não faz sentido.
Gosto daquele nome que ganhou o movimento dos Delaunay. Orfismo. De Orfeu o poeta mítico. Ou cubismo órfico, ou lírico. E da sua raiz conceptual na enorme semelhança entre a música e a exaltação da cor. O mesmo lirismo. Feito de contrastes, ou harmonias suaves. Mas como se poderia exaltar a cor sem o reverso que a faz brilhar. E de novo, como as marés. A vazia a criar um arrastamento do qual só aquele momento de paragem e a imediata e inexorável subida que se lhe segue, torna suportável. E o contrário. Nas pessoas também. Em cada uma. Só.
Contraste simultâneo ou a última palavra. Entranhadamente triste. Devia ser esta. Ou voltar em síntese, ao optimismo e ao pessimismo como faces reversíveis. Ou ao quase paradoxo de haver de ambos na tristeza. E de não se querer facilmente que nos arranquem dela como de casa. Porque, diria triste, as pessoas não gostam da tristeza. Como um bicho feio. Incomodativo. Como um espelho a arrastar para baixo. E querem empurrá-lo à força para fora da sua visão e de nós. Mas não é um bicho feio nem mau. Tem de todas as tonalidades como a música. Ou as cores. E marés como o mar.
Os dias são assim. Texto tecido.
To be continued…

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