Fico sempre um dia mais tarde

Está frio, dizia já. A antecipar, no sopé, a subida em crescendo difícil e a descida da temperatura. A imaginá-la antes que se avizinhe real e a sofrê-la na memória da pele. Está frio lá em cima. Para além de todos os carreiros íngremes sempre a subir. Estará. E estará sempre que o lembrar – o frio – e sempre que apertar os braços a tentar reter os fragmentos em que o frio me deixa a alma. Aproxima-se-me da memória em cada estação em que não há. Como um temor desnecessário e de irremediável verificação. Em cada estação antes e, absurdo, em cada estação depois. A torná-la antes.

Mas ali em cima, com um pouco de sorte, as nuvens abaixo. Distância a tudo, que o silêncio compensa. Às vezes, sinto-me a entrar num momento de um outro momento mais vasto, como quem entra num salão apinhado de desconhecidos, num lugar do mundo que nem sei onde é. E como que reagindo de olhar míope ao desconhecido imenso, olho em volta e procuro uma parede com uma tira vaga de vazio a que encostar o desconforto. Um lugar em que caiba essa estranheza imensa e momentânea, mas encolhida dentro de mim e por detrás talvez mesmo de um sorriso.

Aconchego um xaile enorme de lã em torno do pescoço e do longo casaco de lã de iaque, que parece ainda reter o cheiro animal, um pouco nauseante. Um pouco camuflada nas cores das lãs, como dos pigmentos daquelas terras rochosas desfeitas em avalanchas quase como as da memória. Olho para cima a reunir forças. Para o frio e a visão dos cumes e picos para lá das nuvens.

A pensar que outras vezes demoro a chegar ao meu vazio de quatro pernas. Dir-se-ia um banco de jardim ausente de gente antes de chegar. Ou recortado na paisagem. Ali na sua concreta negação de existência material. Mas é verdade que não o habito nem eu ao chegar, tal a forma como duvido existir. Talvez recorte também saído de uma caderneta de cromos. Chegar. Estar, depois. E noutro momento, partir. Arrastando uma ausência de dimensionalidade em busca de caderneta própria. Ou então, é mesmo o animal quadrúpede que me habita sem preencher. Mas o que sou eu? Isto perguntava a minha avó de olhos vivos e pequeninos. Nada. Não sou nada e por isso me dou mal com o monstro que me ocupa sem habitar em boa vizinhança.

Há coisas na vida que se repetem e repetem de forma irreprimível – como reprimir as estações? – é quase insuportável. Que se desmultiplicam como ecos, e repetem, e repetem, como uma música de que se gostou, gosta, e que se sente uma necessidade de respirar, como se dela dependesse a possibilidade do momento seguinte. E depende. Como de uma música que espelha um ritmo qualquer da alma não definível por outro meio, e do qual fosse o silêncio possível em torno. O que produz música como oxigénio em que se desenvolve o respirar. Há coisas na vida que se repetem e repetem sazonais, rítmicas e recorrentes. Venenos. Toxinas a entrar na corrente, reconhecida e familiar como um terreno fértil. Como músicas. A ouvir até à angústia final de ter que interromper. Como se uma hibernação em fim de inverno. Ou a exaustão e a agonia do vómito, do álcool. O corpo a virar-se sobre o seu avesso. Coisas como a música. Não a música, mas uma em particular. A estender para além do razoável uma emoção sentida. Uma droga tóxica. Entra no corpo um dia e torna-se necessária. A revisitar. E as coisas que mudam. E as que nos mudam.

Fim da infância. E um dia, sem aquele aviso prévio que afinal só talvez antecipe a desilusão, o meu pai troca o nosso Taunus 12M, carro familiar, doce e afável de modos, charmoso, verde como convinha e com uma risca branca, fantasia posterior. E surge orgulhoso da mudança com um carocha azul escuro. Volkswagen carocha, até aí reconhecido pela minha alma perturbada de estereótipos como um carro de pessoas idosas. Isto porque, a quem o conhecia e só, era ao maravilhoso e gentil casal da papelaria charmosa e fina, casal sem filhos e que, talvez por isso, deixava uma criança sentar-se por horas esquecidas num canto do chão a ler bandas desenhadas, até que a outra criança a iria, em desespero, chamar para o almoço. O sr. Ferraz e a dona Tininha. Casal idoso, sempre bem arranjados um e outro, quase perfumados ao olhar, ela com aqueles brincos enormes de fantasia de pérolas, ele de risca lateral descaída e impecável. Um amor os dois. E para mim como se idosos de sempre e para sempre. Talvez hoje os veja como possivelmente mal saídos dessa estranha meia idade e não mais. (Esse olhar de criança no absoluto presente. E este meu adulto no absoluto imparável nunca). E um carocha bege claro, rebrilhante e impecável. Carro de gente idosa, portanto. E o nosso, agora, lá em baixo num primeiro olhar da varanda, azul escuro, pesado e bisonho como bicho corcovado, a aguardar a aprovação de toda a família. Tive um desgosto pela perda do doce Taunus, e uma revolta ostensiva pelo ultraje deste monstro feio e informe que lhe sucedeu. Coisas. Olhei-o com olhar furibundo que fez o meu pai rir com vontade e indiferença. Quase chorei da incompreensão de tamanho desgosto o meu. Mais tarde chorei a sério de tristeza de o ver partir, doce, pesado e orgânico, quase. E mais tarde, ainda, foi um irmão longínquo dele, o meu primeiro carro. De estimação. E cor de pérola, quase, quase como o do sr. Ferraz.

Aqui, no sopé do frio que se avizinha. Por momentos no final da infância. Olho para cima a preparar a subida. E depois para o lado a rever a paisagem de transição. E depois para um ponto qualquer. Longínquo.

Às vezes encontro-te por dentro. Eu não sei, sequer, se estás lá. Mas chego ao teu lugar, ao que imagino ser o teu lugar de abandono, e sento-me à espera. Não sei se alguma vez estiveste neste teu lugar. De picos ou subterrâneos. Mas não é assim que as coisas se passam. Contudo, sei-o lugar de encontro. Descalços de sapatos levemente sujos de vida, penso, entramos. Não sei quem és. Nada, como eu, talvez. Mas não é assim que as coisas se passam. Para além de um ruído ensurdecedor. Talvez aí.

17 Set 2017

Deste interior não sai ninguém

E, no entanto, entra-se. Pode-se entrar por ele adentro como de uma realidade que, podendo ser ilusória, nunca se perde de o ser. E cair. Por essa realidade abaixo. Por ela fora, por aí. Mesmo se inexistente. Mesmo se previamente inexistente senão em possibilidade, e mesmo se antecipadamente pressentida em toda a sua intangibilidade, para além de uma sombra um reflexo ou a pura invenção de uma camada do que não é, não foi, mas se presta a uma forma possível. De ser. De iludir.

Ali me sento todos os dias na sua frente. Não talvez já a tentar entendê-lo, mas que se me revele ele lentamente no seu silêncio. Encontrar-lhe o olhar. A cor. Pinceladas que erram ou não.

Pintar. Às vezes, como partir para um “blind date”. Sentar-me à mesa com o desconhecido. Uma coisa mútua, em que cada um tenta explicar-se ao outro.

E ficava. Quieta nas horas, em frente a ele quando veio sentar-se. Central e necessário. E eu em busca de lhe entender o olhar. Como uma linha da vida, da mão, da página, do coração, em que, como numa única e ínfima célula, se encerrasse como num cofre, todo o código genético de um pensamento, de um sentir e de um viver. Numa única célula. De um corpo. De uma frase. De um olhar. Esse seu olhar divergente, como uma curiosa antecipação genética ao que teria que ser. E a ver a chegada de cada linha, numa arquitectura de interrogações. A mim, a ele, a esse interior de que não se sai.

E antes ainda, à procura de um local mítico de encontro improvável, possível, na imensa maleabilidade do tempo que tudo admite à ilusão, à fantasia ou à memória, encontrei-me como se com esse meu mais que ilustre, distinto e invulgar colega do Liceu de Macau. O ponto etéreo de cruzamento de uma memória com uma fantasia. E eu ali, como sempre, pequena e timidamente o olho em tentativa de entender. Sabendo, sem redenção, que não se sabe o desconhecido. Sabe-se o desconhecimento.

Baixo. Surgiu baixo e fui ver. Na verdade, então, não era uma figura imponente. No corpo. Não no corpo. E ficou ali, e um dia, depois, voltou e enrodilhou-se sobre si. A olhar de dentro, soturno e calado como o outro. E quando voltou, vindo de um real para além da dor, cambaleou a ansiar o conforto de não pesar ao corpo, nem a vida, nem o pesar a consumi-lo. E os monstros. Fugido de monstros e memórias, ou talvez a mesma coisa tudo. Cambaleou para o interior vindo da dissolução progressiva e futura. Reuniram-se na curvatura de uma parábola muda de cegos – pensei: como a outra, de Brueghel – e assim também aqui esse desígnio os fez cair. Ancorados no cego da frente, o primeiro a ouvir brisas ténues da poética realidade enfeitiçada de símbolos, que tudo modelou do início para o fim. Dali, da frente, para trás, o início de tudo. Aqui, ou ali. Como se no tempo da narrativa, no tempo de se deixar varrer de olhos em muda interrogação, se pudesse distinguir duas opostas leituras vectoriais. Dois sentidos de leitura, entre o oriente e o ocidente do oriente também do quadro. Numa curiosa imagem, do fio cronológico das coisas que se sucedem. Antecedem?

Mas há uma face a que nunca terei e se tem acesso. Não vou dizer o que, assim, não é nomeável. Tacteável. Que de dentro espreitaria sempre sem se deixar ver por detrás de reflexos cristalinos de um olhar cuja cor não ficou registada. E dele sempre seria evidente, mais o reflexo do que o interior. E é um jogo imparável, este, do desconhecimento. E assim se anda sempre á procura de um entendimento do outro, confundindo-o em muito com o que reflecte de quem o olha. De um além fechado sobre a impossibilidade de saber mais. Mais para além do muito que floresce em palavras e pequenas e múltiplas peças de um puzzle labiríntico, em que se o tenta edificar. A pessoa que já não está. Por detrás das palavras e dos gestos que elaborou. E que noutro tempo, sabe-se lá onde estaria para além ou para aquém delas e desses.

Observei até quebrar a estranheza, os olhos e como quando os olhos teimam em ser baixos se lhe eleva o queixo. Em desafio. Todos os dias de riquexó e cão para o liceu. Onde fomos colegas. Que importa se num tempo que não cruzou ali caminho nem pena nem espada. Honra-me assim pensar o tempo sem direcções preferenciais, sem disjunções estanques, e porque às vezes não as tem mesmo e de todo. O tempo da memória faz-se talvez de matérias como o da imaginação e da ilusão. Sim. Ia de riquexó e de cão para lá. O homem que deu este nome a um cão. Arminho. Como as etéreas rendas de que cobria a madrugada dos poemas. Cortinas e esfumados lirismos como das gaivotas exaustas e sem ânimo. Nunca mortas, afinal. Sentava-se mais tarde quieto na camisa- de- forças do seu duplo e pensava na gaivota por morrer. Arminho. Sabe-se lá porquê. O arminho que é coisa leve e de fru-fru de festas. O arminho que é coisa inquieta a um simples suspiro, leve como leves os tules das cortinas simbólicas de que reveste os seus monstros. Dantes, Nilo ou Tejo eram nomes de cão e o do seu, leve e esvoaçante. Talvez a paixão pela música das palavras não deixasse chamar-lhe das pérolas. Deste rio. E, no entanto, pérolas são os pontos de dor da ostra. Tornados luz.

Mas o que de um poeta diz, a vida de um poeta, e o que diz um poeta no que diz, o que diz no que não diz, talvez. O que se esconde no que esconde e naquele que o procura, a ele ou esconder.

De que véus e velaturas se recobre o que se esconde, como de desvendável existência, é pergunta que me fugiu desamparada para o longínquo horizonte da resignação. Como se sólida matéria a intuir por detrás. Mas o escondido é nebulosa não matéria. Invenção de que pergunta, sem saber mais do que adivinhar o muito que preenche o território de que se revelam as sombras projectadas do poeta. As brumas amigas. As camadas de encobrimento. Aguadas como poalha em dias de chuva. Coloquei-as para não ter a pretensão de as retirar. Janelas sobre o espaço. Entreabertas e obstruídas levemente de leves cortinas. Portas que não levam ao conhecido. Cuidadosas a mais por detrás de biombos. Como filtros. Como roupas entre o corpo e a casa. Pessanha, o quadro sobre um tempo invisível que não atinjo mas tapo. Os quadros vivos atrás do quadro.

E indecisa digo também o contrário, como da vida me chegam sempre ecos. Porque há de a vida abalroar-me sempre nesta estranha convivência de contrários. Recomeçando. Como distinguir-lhe um silêncio de secreta abertura, de um silêncio de discreto encerramento. E depois, trocar os adjectivos. Porque me fugiu sempre a invejável harmonia das certezas, para este olhar polifónico que me traz num carrocel. Mas ele ali, parado, que pensaria?

Quando naqueles dias de alma difusa e sem ideias que transpareçam por detrás desta cortina, deixo que sejam os pequenos bichos devoradores a agitar-se na folha. Cada um na certeza de existir e produzir sombra. Sem cardume possível se bem que partilhando águas. Sigo-lhe as sombras. Os objectos a representar a vida e a cobrir esta de obstáculos ao vazio. Intrigante colecionismo, o de objectos inúteis e crivados de imagens. Duas camadas de máscaras sobre o interior. De um pote, um vaso, um jarrão sem flores. Vivas. Vazio. Como na poesia, que dele revela uma leve e musical arquitectura da dor. De que parte, que recobre, e onde regressa como ao grito necessário. Medido e emendado. No entanto. E recoberto de símbolos ou diluído neles. O grito da dor. Da que é início e decidida sentido e fim.

Sento-me na sua frente todos os dias. Desmultiplicou-se em tempos, fragmentou-se, diluiu-se no fundo, como era para ser. Denso de cor e etéreo de transparência. Sento-me ali a olhar como, por um túnel paradoxal de linguagem a tentar igualar a vida, se juntam e justapõem os tempos, os lugares e as fases de ser, entre uma poética guiando a vida e, em sentido contrário, o recuo a uma retaguarda que foi teoria e definiu. E não salvou.

Restos. Como células que descartamos todos os dias. Invisivelmente. Em cada passo, em cada gesto. Impressas do código genético. E partículas de água que se evolam e nos abandonam a uma secura de plantas. A ir. Naquele fio do tempo. Ou da navalha. Como restos são os mortais. Ou os restos imortais espalhados por uma eternidade de memória, nos quais, como um convite desfiado em cordas, se tenta ascender. Adivinhar caminho. Ou tão simplesmente, na música do poeta. Sem mais do que ouvir. E queria o olhar inquieto a viajar, de leste a oeste do quadro. De oriente a ocidente. Repletos de origem, confusos de final.

Tantos dias e tão poucos ali me sentei na sua frente. Ele calado e eu. A tentar adivinhar a arquitectura daquele interior. Daquele exterior invasivo. A tentar não o expor nem o fechar. Com a emoção de um encontro. E um dia, encerro a última aresta daquele interior cruzado de monstros e enigmas que ficam. Deixo uma portada entreaberta e vou. Mas olho para trás todas as vezes que posso enquanto o meu olhar alcançar o quadro. O poeta. Despeço-me com saudade. Do encontro plano com a terceira dimensão escondida e escura atrás do quadro. Está frio. O tempo congelou. O homem morreu. A poesia não.

8 Set 2017

De lugar em chamas

Estava ali interdita e afogueada. Quase as pontas do cabelo e aquele cheiro sem equivalência. Do medo. Da chama corrosiva e corredora de fundo em velocidade e em desígnio. Tudo numa só vez. Talvez invisível mas tanto não diferia do que o não era. Havia talvez uma força a subir sabe-se lá de que órgão e a tornar inevitável correr. Também. A partir dali e independente da quebra, a obrigar. As coisas obrigam e sem estrelas. E o corpo corre. Sobre as pedras duras as teclas ou a simples e forçosa respiração. Correr de uma maneira qualquer contra o que vem. Do que se anuncia no vir do desconhecido que vem. Nada se sabe do correr nem do porque correr. Só e apenas correr contra – sei á – o tempo. As duas e um quarto mortais em luta contra as três e vinte caladas ou as quatro e trinta e cinco inevitáveis. Sim, luta de morte contra esse tempo que ameaça antes de o ser, fazer-se pagar caro em respirações difíceis.

Ou é talvez o fumo.

País, lugar em chamas. Sina de estação do corpo país lugar. Ou do corpo nem país nem lugar nem sina nem sinal. Retiro metade das batidas do coração para momento de necessidade. Nunca se sabe se vêm a ser salvadoras. Mais um pouco por excesso de precaução. E fico de uma lentidão fria, olhos esgazeados, revejo todo o corpo e das palavras digo sei estarem lá para o que der e lhes der na real gana. O corpus de possíveis e impossíveis mesmo as já entornadas do caldo ígneo da hora anterior. Bichos em fuga, terras a quente e de negro árido tornadas desconhecimento de cinco e meia. Seis e dez, oito e vinte e dois e três ou quatro anos depois. O negro a entranhar-se nas camadas abaixo da pele e da terra e do futuro próximo. Tudo ardido, fodido, mesmo. Para alguns mais nada. Depois de tudo.

Salvam-se os bichos, aqui, uma casa, ali, e do todo, fica muito menos. Para alguns, nada.

Peguei fogo? Foi fogo posto. Avanço no corredor entre as sombras e as árvores que sobram em sombras. Avanço a meia respiração, a meia vida, a meia consciência, das meias tonalidades, nas meias sombras que sobram. Em árvores. Avanço em silêncio comigo própria a dizer baixinho talvez durma. A dizer surdamente espero que durma ainda. Já. Abrando os passos na porta e observo retendo o pouco que sobre de respiração não vá acordar o monstro que dorme ali. Em parte do que os passos me levam ali. A mim. Dorme. Afinal dorme ainda ou dorme já e dorme na respiração regular e calma de quem não faz mal. Dorme. Observo. Ou respiro.

Respiro forte e lenta no momento, ali estagnado, congelado e parado, da porta quase fechada a abrir sem ruído e a escancarar para abrir os pulmões. Todo o tórax em liberdade de movimento surdo, muito silencioso e suave para a vida ficar. Assim. Um pouco para lá de adormecida entretanto. A ver. Fico ali a ver a respirar pela pele. Pelo ouvido atento e a mim. Pelo tempo. No limiar, recupero o todo do coração o todo do cérebro e do corpo sobra um todo. E do todo saio finalmente do tempo. Mas fico um momento mais de eternidade. Daquelas. A espiar o sono e no sono os registos ténues de sonhos a agitar. A estremecer o corpo. Telúricos arremedos de vida secreta e densa a querer sair pelos poros. Como se fosse pelos poros. E a respiração em sobressaltos e pequenos rugidos de dor, talvez. Depois serena por um instante de tempo não medido nem definido. O aleatório percurso pelas ondas. E respiro-o. Fico mais um pouco indefinidamente indecisa. Ali, encostada a uma ombreira que não é ombro ainda. Como chamamento disfarçado na calma no silêncio e na melancolia. Enquanto o tempo não volta ventoso e a correr. Mas vem alheado e sonolento, indiferente e esquivo. Como se não viesse. Por isso vou. Entro talvez no espaço do corpo sem autoria, sem autorização, sem assinatura, sem requerimento. Sem querer. Sem resistir.

E depois vou. Um pouco mais dentro do lugar. Descalço uns sapatos cansados do fogo. Fui eu? Dispo uns trapos de sinais informes. Que teria dito nos fósforos? Nas caixas. Deito-me encostada. No abraço. Para o que vier, me encontrar assim. O que é, chama. Se para queimar que seja rápido. Indolor não pode ser.

20 Ago 2017

Alquimia da dúvida

Há uma relação qualquer entre a coragem e a insegurança, que sempre me detém longamente. A pensá-las. A possui-las. Cada uma. Ambas, na sua resolução de equação maior. Não se excluem. Não se acrescentam. Têm uma alquimia própria. Uma vida no fio da navalha em sangue. Um casamento difícil.

Porque me acontece entrever aí uma chave em bronze de tanta coisa. Aí, no cruzamento das duas, numa esquina repetidamente virada na vida. Uma relação que não é directa nem inversamente proporcional. Na vida, no humano que é uma parte da vida que nos ocupa biologicamente e nos ocupa o espaço de sentir, sentir vida, e nos ocupa o espaço de pensar, pensar-nos enquanto passageiros. Talvez. Numa linha do tempo que as estradas imitam. E porque nesta relação, parecida a uma vizinhança aleatória entre uma habitante feroz que luta pelo espaço do patamar com a vizinha, igualmente decidida, se refazem todos os dias as resoluções no épico de uma vida a medir forças com a vontade de desistir. Mas essa, é uma outra vizinha que está residente no andar de cima ou de baixo. Mais no fundo, Talvez. Num andar de fácil acesso, com perfumes de desalento e de preguiça e de teorias várias de natureza poética a justificar a astenia. Há um andar na profundidade de um edifício existencial, situado talvez nos alicerces de uns, ou nos terraços perto do céu, em outros. Tudo a depender de outros enquadramentos para a metáfora escolhida. Onde estamos mais fundo? No profundo e escuro da cave de um edifício ou na ampla abstracção búdica de um acesso ao ar e à diluição no éter para além dos degraus concretos a subir. A descer. Com os pés sentidos. Passos sentidos e acções com sentido. Ou tudo centrado no grande zoom sobre uma escrita interior. Uma electroencefalografia do sentir.

Momentos – ela toca-lhe o ventre com o peso nítido da face. Ele toca-lhe a face com a delicadeza da mão. Ela toca-lhe a mão. Com a dúvida imprecisa. Da ponta ínfima, e já quase esquecida das sensações, dos dedos. Indecisos. Esquecidos, como se uma mudança de plano cinematográfico deslocasse a câmara dali. Ele toca-lhe a alma num adejar imperceptível a olho nú, mas ela não sabe se sabe de certeza. Grande plano, agora ali. Ela está ali mas ele não sabe onde. E assim se pode diluir um momento de alguma coisa contido. Insegurança. Coragem. Indecisão. Dúvida. Um lapso de tempo, um intervalo na impressão. E o tempo acaba. Palavra fim e todos se levantam a velocidades diferentes das cadeiras da escuridão da fantasia do filme. Fica-se assim entre vida e vida.

Animé. Animação produzida em estúdio. Qualquer animação de desenhos. Figuras que por magia da teknè – estranho como do grego, que harmonizava conceitos de arte e técnica numa única palavra, derivamos para o preconceito associado a uma delas como se maculando a outra – ou por artes mágicas, ganham vida própria. Da sua essência, o movimento, toda a fantasia possível na capacidade de ilusão que esse fantástico ingrediente, e quase por si só, nos catapulta para uma realidade própria. A da ficção. O movimento. No espaço. Só. A desvincular o objecto da sua natureza própria envolvendo, uma outra da raíz do inconsciente espectador: anima ou animus. Em que cada um se deixa levar ao seu modo irreprimível.

Uma outra forma de dizer animação. Algo em que nos deixamos fluidamente levar, abstraídos, no tempo. Nesse tempo de consistência variável. À la carte. Quem somos nesse distender da vida, nesse desenrolar ininterrupto, e indefinidamente, estranhamente variável. Algas ao sabor da maré, ou almas a criar nós e circunvoluções que estratificam o tempo ao sabor de emoções apaixonadas ou brandas. Esse tempo que devora a consumível paixão mas ateia. Da profundidade incendeia sem olhar a escuridões maiores, da mesma que desdenha a mão que emenda. O que para o tempo não há.

(Porque me acalmam as paixões efusivas, paisagens paradas. Paradas e letárgicas como se nada houvesse de força motriz nenhuma. Onde nada se passa ou virá depois. Acalma no possível confronto com a terra que é onde a alma não deveria opor voos e de onde não deveria muitas vezes elevar-se insatisfeita e tormentosa). Talvez o tempo. Essa obsessão que tenho de algo que não tenho porque não posso ter. O tempo.

Talvez o tempo. Em que uns, como nas palavras, inscrevem  a simplicidade sintética de uma afirmação sim, com todo o peso e lastro existencial, contido no momento da memória da ausência da memória do mergulho profundo e perene em águas que o tempo leva mas não necessariamente lava. Toda uma síntese segura de o ser e com prazo longo e dedicatória sentida. Outros na desesperança de uma interrogação de ainda de mesmo de talvez ou de já não. A eterna interrogação sentida e dorida da insegurança. Do querer, do dizer, do nem querer sem dizer ou. Sei lá a deriva. Nunca a esses seres lhes chega a enormidade deste ser inteiro para a vida. Ser para a morte. E dizer afirmativo. Sem prazo. Uma questão de economia de pontuação.

Ou talvez a chave seja de matérias mais finas. O vento. Essa passagem do tempo que se abre e se fecha em si. O que não se perde no nunca se ter. Como o tempo. Do tempo perdido. Em busca. Essa busca melancólica que só a cafeina retinha nos limites do suportável.

Mas isso se era em Proust, perdido este na elaboração melancólica e exaustiva de uma memória de sonho, de um corpo, realidade do sonho realidade de uma memória de um sonho, um corpo sentido e sensual junto ao seu, encostado com todas as forças da memória e do sonho, e de que afinal sobrava nada. O nada do acordar com a percepção da sua própria perna tornada sensação e desejo e outrem, nos caminhos inexpugnáveis do sonho. Da desilusão e do acordar. Não existe tempo perdido. Não existe. O tempo é um bafejo impreciso como onda indómita de uma maré enchente, ou de uma onda em quebra de alento, recessiva na sua maré vazante. À hora a que chego à praia, ao dia, nunca sei que onda me espera no momento de ali estar. A tumultuosa e impetuosa onda que avança inexorável ou a que avançando recua sempre um pouco mais como uma metáfora de vida a escoar-se. E, no entanto, uma coisa é certa. Nada resta da maré anterior. Mas o mar é sempre o mar. E o tempo. Que não se perde porque nunca se possuiu. Talvez ele a nós, sim. E nos perca. Um dia.

E assim os castelos de areia. Nada tão belo como o que se constrói independente da certeza de perder. Que nunca nos desaponta. E, no entanto, dizia o poeta: tudo vale a pena. Não se retoma o tempo, não se volta ao tempo, não se retém, não se possui. Nem para depois nem o antes impalpável a que quanto, ou enquanto ou muito, como se exista, chamamos memória. Uma paragem no álbum de recordações como numa estação de montanha alheada do mundo. Remota. Não se possui o que não existe ainda nem existe já. Jamais a mais do que o momento em si. Em que, contudo, nem evoluímos como numa metáfora de espaço que erroneamente confundimos com as possibilidades imagéticas de que a mente tanto precisa, envoltos nele como numa onda de aragem quente, que nos embala como planadores, sim, em que embalados voamos numa linha leve e acima de todas as coisas matéricas que nos ancoram ao espaço, esse, real. Nunca deixar de os fazer. Só porque vão sempre com a próxima maré.

Talvez seja quando o tempo começa a envelhecer um pouco. Um pouco só. Subtilmente. Que se descobre o tempo novo e fresco de cada dia. Talvez aprender a esquecer aquilo que não se pode mas tem uma maneira particular de ser esquecido sem ser. Ficar simplesmente ali para trás. E talvez sejam os sentidos os anseios a comandar. Os sentimentos talvez. Seguramente mais do que talvez. Não é o caminho mais fácil o de enfrentar a dor em duelo de morte. Em que morre a dor para sempre e tudo o que a ela lembra. Ou há um acordo amigável a ultrapassar padrinhos e conselhos de sanidade e protecção. Só quem está de frente para o adversário pode decidir apertar a mão e seguir caminho com tudo vivo. O sentir e a dor. Cada um para seu lado em respeito mútuo. E tudo se abrir em possibilidades porque o duelo foi anulado e passou. Para sempre passou como tudo até ver. O dia novo. Mas o tempo é como o mar. Não posso mergulhar esquecendo a linguagem dos músculos aprimorada antes. Não posso esquecer nada nem deixar para trás o desejo de nadar. O perigo. Sempre. E depois, ainda, o tempo vem. Esse. Que não existe. Essa linha de nós. Onde se desliza. Adeja suavemente ao sabor da aragem. Sou um cálamo. Nada mais do que um cálamo abalado. Pelo vento, talvez. Nas infra-estruturas. Ou então embalado aí. Como se a vida. Mas todos os dias. Cada dia.

Madrugou impuro e impenetrável como só. Talvez só. Ele. Eu. Não penses, eu, ele, que algum dia será de seres mais real do que a realidade do sonho. Eu. Ele. Tu. Mas não tu, eu. Ele.

Talvez ao tempo se deva um tratamento de amor. Generosidade que não tenha connosco – mesmo.

E às vezes dou comigo assim. Só a realidade é sonho. Tudo o mais, ilusório. Sem excepção. Tudo é real. O sonho. Como o tempo. Ou então, nada. No outro dia a fotografia de uns degraus que levam a parte nenhuma. Um lugar que é um olhar de memória. O espaço ainda. Mas aquele tempo não. E a vida disparou a partir dali. Inacreditável disparo sem limites. Ainda estou sob esse signo fatídico e inacreditável na altura. Talvez por isso esta disposição um pouco escheriana. O efeito de um olhar retrospectivo sobre a enormidade intangível do porvir. A partir dali, naquele momento. Mas não há colorido repetível para o de uma alma enamorada mesmo no seio tormentosos de intempéries. Em cada dia se deita consigo todo o tumulto de anos imprevistos, caóticos e ficados para trás. E, contudo, não me deito vazia do dia que foi imediato e antes. E do dia que talvez se avizinhe. Quando assim é, esqueço para não dormir em vão. Não se pode. Tem que se adormecer no ombro de amanhã ou depois. Não há outra possibilidade. É talvez o sonho redentor. O anjo que não esquece na sua distância. O ombro etéreo de uma ambição discreta e secreta. Não quero ser estação de passagem desatenta de uma peça qualquer da vida. Somos estação de passagem. A diferença está na qualidade. Eu espero meu amigo – digo-lhe – que entres com as intempéries e deponhas as asas molhadas no cabide à direita da entrada. Que retires daí as asas domésticas que não te magoam o flanco ou a cintura cansada e te sentes ao meu lado a escutar as batidas do coração está tudo aí. Vai estar tudo aí. Os enormes e gigantescos seres do amor que vivem em nós como no fluir imperceptível do tempo, e nos quais vivemos. Que amamos em nós mais do que partes de nós e em que vivemos como casas e refúgios. Num jogo perfeito, perfeito jogo de espelhos. Fecho-me em casa na tentativa de refugio da violência monstruosa do que me acomete. Me abalroa. E me gira no rodopio veloz da vertigem do sentido de dentro.

E, como uma onda veemente, quebra na areia e mais ainda num quebra-mar. A vontade. irrompe com o poder destruidor ou construtivo, feita de toda a cor, e quebra. Quebra como se nunca tivesse vindo inteira e prestes a arrepanhar o tempo antes de perdido. Mas ainda não se respirou fundo e foi. Até à próxima maré.

De cada vez que me sento com o desconhecido. Sei que é uma vez a partir daquele exacto e imperdível momento. Sonhado talvez para trás. Sonhado para a frente. mas, de cada vez que me sento com o desconhecido, é o momento que vale a pena sonhar. Aquele exacto e preciso momento. Um eterno início. Nunca um eterno retorno. O início do sonho a sério. Do encontro. Com a ilusão a formar. Com a fantasia-porta. Com a real validade de tudo isso. Com a realidade. Com todas as sombras e reflexos que assombram tornadas matéria e visão. (Às vezes gostava de pôr vírgulas entre parêntesis, por isso não as coloco. E penso como o que está e o que não está, se pode demonstrar equivaler-se). Suponho que quase tudo o que alguma vez amei, algum dia se sentou à minha frente neste encontro com o desconhecido. Mas ainda há muito a fazer. Tudo é real. Ou sonhado. Ou a mesma coisa.

7 Ago 2017

E a natureza produz monstros

Como delírios líricos. Como poemas soturnos e assustadores. Emoções sem limite. Razão. Intenção. Só a inevitabilidade contida no seu natural ser assim. Grandiosa e terrível. Nem seria necessário que a natureza produzisse monstros. Na sua arrasadora e sublime potencialidade de beleza – de violência. Não seria necessário, mas é talvez de aí que surgem modelos que enformam outras dinâmicas para aquém da pura percepção. Por vezes penso que são os dados desta percepção, residente nos dados dos sentidos, que formam a base estrutural de todo o sentir em desabafos metafóricos, que se transmuta em realidade temida nas ígneas e intangíveis teias de realidade, em que movemos os nossos medos como peões num jogo de tabuleiro. E não o contrário. Da poética natureza, a uma realidade induzida. Mas não seria preciso a natureza produzir monstros de rugido e violência histriónica, que nos arrasam, com a facilidade com que um deus esmaga, com uma pontinha só de uma unha divina, a insignificância que somos. Que conseguimos ser. Numa contradição de escalas que por vezes subverte a natural expectativa, e devolve a possibilidade de domínio perverso, afinal – um botão certo no local certo e o dedo errado a premir –  de tudo o que transcende. Da implosão. Ao ponto de gerar entropia na ordem natural da natureza, suficiente e em excesso mesmo, para erradicar esta fantasia delirante que somos no reino natural. Fruto de um sonho mediúnico do cosmos na sua evolução e inércia em cadeias de reacções químicas, disparates da energia a brincar com átomos e etc.

A grandiosidade do delicioso, único e temível disparate cósmico, o enlevo emotivo que nos coloca face ao grandioso e sublime no que é o cenário natural, algum conhecimento científico, alguma propensão para a contemplação e para a intermitência entre o enorme em nós e o ínfimo que se insinua irremediavelmente. A grandeza em que nos afogamos e a ilusão de tudo abarcar em nós. Talvez tudo isto seja a base do romantismo histórico. Eterno reflexo expressivo da secreta dualidade que a psique nos permite e obriga a transportar. Mas não seria essencial esse confronto com a monstruosidade natural para que as próprias paredes da casa reproduzam autonomamente monstros hirsutos. E por um tris – não, não é por uma fracção de segundo no acaso e de raspão, e a inevitabilidade consistente que nos molda – estamos a falar do abismo. Assim. Por exemplo. A vocação abismal da noção de si, dos outros para fora e para dentro de nós, do amor. Por exemplo.

E a eterna pergunta da localização face ao ser desse abismo e dessa abismal existência em si. Exterior ou interior. É, qualquer abismo, exterior ou interior à ideia que dele fazemos. Debruçados na amurada que dá para um grand canyon da mente em que nadamos preguiçosa ou inadvertidamente. Ou talvez dizer, afinal, irremediavelmente. Perscrutamos a noite do universo estranho na sua complexidade. Com a mesma naturalidade com que escolhemos frutos no mercado, ou joias numa joalharia. Tudo imperscrutável na sua aparente naturalidade sem origem.

Que abismo, na topografia das grandes massas rochosas, é parte da ideia que dele fazemos, que abismo se forma do saber da grande erupção que nos antecedeu lá muito atrás quando esse gigante rochoso se levantou do fundo dos mares, que abismo se insinuava no desconhecimento de antigos, e que ameaça real a natureza nos grita ou segreda calmamente quando em repouso. E que parte é parte do temor que lhe temos como se sempre a queda fosse inevitável. A saber. Mais tarde, ou nunca. Não fosse alguma vocação vertiginosa que nos colhe de dentro.

Que metáfora mais monumental,  global e romântica nessa enorme potencia natural de universo a engolir as larvas, ínfimas formigas que somos, do que um glaciar monstruoso e atemporal, que tristemente rendido ás maquiavélicas, pontuais e repetidas investidas ínfimas, de seres ínfimos, em que cada um faz da sua pequenez força, e que, somados os dividendos de culpa, derrota a vontade natural de uma inércia com as regras próprias do universo, e se derrama como um caudal imenso e destrutivo de lágrimas, sem olhar a estragos em cadeia que seguirão pelos séculos dos séculos. Não digo amém. Até um desgosto de icebergue destrói em redor. Não somos um pouco assim?

E de seguida, já de seguida no tempo, continuamos a escrever enormes e irremediáveis páginas de memória. Inscritas na destruição subtil, imparável e sabe-se talvez, definitiva. E só apetece trancar a gaveta das coisas difíceis. Ilusão. Fantasia. O que não é perscrutável manusear no mundo real. Remetido para a eternidade leve e irresponsável do sonho. Mergulhar fundo debaixo das ondas fofas de um edredão de penas outras. Mas nada vale e de nada vale. Dentro um calor dos infernos, e fora, o frio glacial de uma realidade quase inacreditável de tão real. Inacreditável. Como só a realidade o é.

21 Jul 2017

Caligrafia do espanto

Veio de visita. Não sei se vai ficar. A máquina de escrever velhinha e amarelo banana. Esquecida e discreta estes anos todos. Uma visita curta de carinho e lembranças. Do tempo devagarinho. Veio para conversar e para o retrato de família. Às vezes penso se um dia se deixará de escrever à mão. Com o gesto trabalhoso e revelador. Com o tacto atento à caneta. Com gostos e preferências de cor e espessura. Penso nisso muitas vezes quando reparo na rapidez das teclas. Mas ela não era assim. Dura e teimosa, não tornava o gesto fácil, nem muito ágil. Por isso as folhas e os cadernos de um conforto insubstituível. As folhas de linhas finas e o gosto das folhas lisas onde a escrita voa como lhe apetece num céu limpo e livre. Talvez se tenha cada vez menos paciência para esse desenho que retarda o passo.

Quando gosto de alguém fico tempo sem conto e sem fim a contemplar-lhe a escrita. Não, não falo da escrita das ideias. A forma. Mas não falo da forma como as ideias se entrelaçam e desenvolvem, da estrutura frásica, do ritmo. É da caligrafia que falo. Essa impressão indelével do gesto. Do movimento, da passada que deixa registo. No seu hermetismo. Na sua significação enquanto tal. Gosto de a seguir. E o encantamento, como se face a um rosto. Como a face de um rosto. Que se tacteia mentalmente, acompanhando cada linha. Que se observa como numa carícia.

Há um lugar certo para cada coisa. Eu procuro isso nos dias e nas coisas. As coisas precisam de um lugar bom para estar, para dormir. As palavras. Tudo. Procuro. E desarrumar porque é preciso ou porque é a vida. E arrumar para que tudo chegue à noite e possa dormir. Em paz. Com uma manta de afago e embalo bom. Todas as coisas. Todas as palavras. Também podiam. Como cães. Levados à rua, mas retornando a casa para dormir no seu lugar. Nunca abandonar as palavras. Como bichos de estimação. Mesmo maus. Levá-los para a cama e pô-los confortáveis para dormir. Nunca ao relento do silêncio. Um gesto. Uma carícia vaga. Quanto baste. Mas em todos os gestos se pode cruzar um mundo de ideias que tolhem, que mudam, que paralisam que arrependem. O gesto e a caligrafia do gesto. Mas não a escrita. A caligrafia da escrita.

Há um lugar algures. Desconhecido todos os dias a dizer. Um lugar para cada silêncio. Como aquele onde todos os dias todas são as palavras possíveis em um tudo vale. A pena. A espada. O minuto depois e o gesto que apaga. Em tudo. Inevitáveis, mas limpas. Ásperas, ternas. Todas as que há. Todas convocadas a ver. Esse lugar ideal que há. Há um ruído que é possível lapidar. Um lugar. E pessoas firmes como âncoras. Nenhuma palavra vento as leve. E leves palavras duras como pedras a atirar em curvas e ondas e a fazer ondulação em torno de tornozelos sólidos de pés fincados no chão. Mesmo de areia. Almas ao vento no ar do céu. E pelo meio o corpo haste a ondular. É o corpo da letra. E no veio do tempo a andar deslizantes ou tensas todas as palavras. Todas são remédio ou têm antídoto colado às finas hastes. De planta para crescer. Quando é. Tudo é possível dizer. E apagar com um gesto. Denso. De sentir. Em tudo há um gesto um ápice um rasgo. A sibila adivinha mas não faz, o gesto, a criança faz mas não adivinha e às vezes ao contrário e nada. E nada vai ali, de facto. Mas era possível imaginar, ser. Um código seguro. A ler. Não nada. E há um gesto há um afago há um sentido. E nada. Nada flui e era. Mas era mesmo. Os olhos dizem a alma sente o pulmão sofre. Porque. Porque não. Mas era assim que era. Com a escrita de linhas a azul em páginas em papel em branco. A dizer em vôo visível.

Tudo o que voa me enternece. E o que voa livre sem ter necessidade de fugir porque não há perigo. E tudo o que voa sem medo e sem medo flui sem ferir. E às vezes penso que todos somos refugiados mas alguns dormem em camas de conforto em casa. Mas fugidos de algo.

Sou dada a emoções contemplativas. Coisas de lentidão parada. Melopeias dos sentidos da visão e do tacto. Como a eternidade da carícia num cabelo, num pelo de bicho. Uma página de dicionário. Essa explicação calma dos sentidos. Essa impressão boa de que todas se encerram ali, se ajudam na explicação da vida que se diz. Que se desmultiplicam em explicações uma das outras. Umas às outras. Como se uma espécie de família em que todas se relacionam com todas.

Poucas coisas produzem em mim uma contemplação extasiada tão densa como a observação da caligrafia de uma pessoa amada. Como se move. Como se movimenta subtil por ali uma parte desvendada do seu dinamismo interior. Como se revela. Mas revelando o quê exactamente é coisa bem mais difícil de adivinhar. Estando lá. Como parte de um espaço etéreo do espírito, em que firmemente e irreprimível, se desenrola uma relação entre o gesto, a decisão implícita e a forma. Sempre a mesma nas suas subtis variações. Aquilo que subterrâneo determina a forma. Sempre reconhecida como uma de muitas expressões de um rosto uno.

Espanta-me e enche de encantamento. Os laços a prender mais fortes ou com lassidão uma letra. Uma curva rápida e irreprimivelmente hesitante sempre naquele ponto e a emendar numa abrupta quase angulosidade. Que não chega quase a ser. Mas há um gesto que para sempre naquele ponto a fluidez da curva. Noutras um nó. Aqui e ali um gancho. Uma espécie de anzol em que a corda da escrita avança como se suspensa de uma falésia perigosa. Letras que se alongam e desdobram com sensualidade de quem se espreguiça. Mas sempre as mesmas mesmo se nem sempre. A curva de uma letra pequena, suspensa no ar e a descer a terra pouco firme. As que ficam suspensas, e com um braço no ar. As que se encostam sempre ao ombro da outra. E as que laçam setas rápidas em frente. Ou a subir velozes. Como se alça o braço de um d ou de um t e se enlaça em si como ao tronco de uma árvore. Um abraço em nó. Em laço. Como fica em aberto um a por pressa de escrita e como se fecha duplamente em nós um outro a ou o. Como um p se torna ponte pronta a abrir passagem a passos que se lhe sobrepusessem. Em fechamento pouco apertado. Uma duna, Quase. Como uma outra se curva para dentro quase em espiral como se a querer voltar a uma posição fetal mas já sem o abrigo primordial. Uma espiral firme e irreprimível de retorno a si no mais interior. Essa letra do abismo. Em que a saída é sempre mais atrás. Em arrependimento, em contrariedade, em necessidade de sair para a letra seguinte. Movimentos que estancam, definitivos. Ou que fecham num arabesco, como num círculo mágico de protecção. E floreados. Líricos de folhagem leve.

Há letras pontes. Letras castelo. Letras torre. Letras abraço. Ou arremesso. Há gestos tensos e imbricados e retorcidos em si.

Fiz isso tantas vezes. Olhar. Por um tempo. Intrigada. Com esta estranha caligrafia do ser. Como as pessoas se situam na inicial do seu nome. Se a usam como echarpe leve e descuidadamente poisada pronta a voar, ou quando dela saem a custo para as outras letras. As que dela lançam âncora e as de dela fazem torre fechada a sete chaves. As que atam e as que desatam as formas como deixando livres de voar em frente. E as que voltam atrás. As que recolhem uma curva que ficou antes, as que abraçam a memória da letra anterior. As que não acertam e as que seguem sempre em frente, esticadas languidas e desejosas de avançar. Espraiadas. Ou contidas. Pé ante pé, ou atabalhoadamente. As que se mascaram de outras. Lentas, mais lentas porque se perdem ao espelho a esquadrinhar o rosto maquilhado, a roupa diferente, os sapatos de salto desusado. Poucas coisas escapam a este desfile de pequenas figurinhas animadas pela paisagem desértica de uma página. E por isso mesmo. Sem sinais, sem uma chama que as guie no espaço físico, a vencer o deserto, simplesmente e sós. Preocupadas com uma ideia que as guia. Uma indecisão. Às vezes, mesmo, consigo próprias. Com o que vestem no momento. O arredondado e o anguloso. Com hora marcada sempre naquele ponto.

Há uma configuração interior que se verte nestas formas pequeninas e irreparáveis. Há uma constância que diz delas, serem como um rosto. Um olhar que de dentro se entorna sem querer. Há, talvez um sentido descritivo possível dessa caligrafia do ser desenhada nas palavras. Teorias sobre isso. Mas o que me espanta é a inevitabilidade das formas. O padrão. A unidade coesa de alguém por detrás do desenho. Todas as figurinhas dançantes ou corredoras, ou por vezes paradas nas esquinas. Encostadas às paredes. Expectantes ou precipitadas. Esse mundo ínfimo, animado e fascinante em que me posso quedar horas. Sem por elas dar.

14 Jul 2017

Português suave

Devagar. O meu tempo precisa de vagar. A minha alma anseia vagar espaço. São assim os dias desta longa arrumação e nunca chegam. Meses que são meio ano de lentidão a sentir a voragem. Desde que se apararam as raízes rente. E ela se foi e me deixou a arrumar anos. A sarar a vida. Como as mulheres iam para o campo. Para a ceifa e para a monda. São estas coisas de mulher. Ir ao cemitério. Como se a natureza humana delegasse nesse lugar estas responsabilidades que mais ninguém quer a ocupar espaço. E os dias e as horas a abalar-me como um vento maldoso. Demasiada informação. Dias complexos de atravessar em que é difícil subir ao que é aquele momento de chegar a casa. Finalmente. De sentir que se chega a casa mesmo se dela não se saiu. De descansar um cansaço de vida a pedir velocidade. Que não se tem. De descalçar os sapatos que não se calçou pela manhã e de fechar uma porta de silêncio sobre a ansiedade crescida hora a hora do dia. Que pede palavras quando em mim só peço tempo para chegar a casa devagarinho e pensar. E aí escrever. Às vezes o dia. Outras, outras coisas. Isso. Devagar. Preciso de um tempo devagar. Como devagar ando a arrumar uma casa. A esvaziar outra. E outra. A perder o pé um pouco na memória. A despedir da memória em cada objecto que vaga a casa que há que vagar. Devagar como só assim posso. E a alma a extravasar palavras e imagens a pedir forma e substância. Tudo pelos poros de dentro na direcção do invisível. E querer abrandar a alma e sentá-la à mesa com as ferramentas pequeninas e as tintas e as teclas. Todos os dias em que até a divisão celular me custa. A vertigem. E a chegar tarde a tudo. É o sinal que o universo me dá. Sem tempo para entender para respirar. E depois já é amanhã e ainda não acabei o dia. Entendo que não é fácil entender este passo. Em que tenho que parar a observar bem. Tudo. Dentro, de fora. E fora, de dentro. Em torno daquele núcleo que é o meu nome interior. E que me habita. E que é preciso arrumar bem. Com tempo e devagar. Sou lenta. No que dói.

Lembro. É uma recordação de infância e construiu uma fortaleza difícil de arrasar. O silêncio ansiosamente pedido exigido das palavras que podiam ser culpa. Um panfleto caído inadvertidamente em mãos quase juvenis. O terror dentro de portas como se as paredes. E tinham. Às vezes. ouvidos. E dos ouvidos vinham pessoas com eles colados a crânios acéfalos e levavam na maré livros pessoas e outros bens. Até ver. Os dentes cair de maduros depois de a dor ser demais. As batatas podres na cozinha assumidas pelo medo. Mesmo face aos iguais. Com bichos. As batatas dentro da panela enorme e as pessoas. Bichos. Como se. Com hematomas enormes escondidos dos filhos quando a roupa chegava para isso. Para não irem tristes. Mais tristes. Sangue pisado por ali. E excrementos. Já nada importava distinguir. Sangue ou o suor dos intestinos tudo terror e dor das mesmas vísceras em perigo de ruptura. E às vezes alguém. Que conhecia alguém, que quase dava sensação de culpa de cortar a dor em duas finalmente, antes e durante. Emendando em durante e depois. E os outros lá. Ainda. Coisa quase obsoleta de recordar hoje. Como uma ficção remota. Tenho relatos do meu avô, entranhados na memória longínqua da infância, velados, primeiro pelo cuidado, pelos ouvidos das paredes da casa. Pelos fantasmagóricos ouvidos do medo. Mas uma sobriedade a que a raiva já não contaminava. Um dia escritos um pouco assim em modo de a quem possa algum dia vir a interessar. Naquela sua letra bonita e sempre inclinada no sentido do futuro. Aquelas coisas das noites, interrompido o terror e a expectativa, pela realidade de um terror maior porque vivido e instalado. Nas casas. Ou nas celas. Os meios das noites. As noites da longa noite. Somos uns burgueses de merda hoje nas nossas queixas aqui. Num lugar de defeitos suaves. Mal comparando. agora. E de queixas corajosas de quem nunca perdeu um dente pela força. A meio de um sono pouco repousado. Para enterrar companheiros amigos ou desconhecidos. Ou de um tumor no cérebro, ou no estômago . Penso nisso quando penso nas dores da alma. Nos limites das dores. Nos lugares das dores. E nos que não quebravam e não denunciavam e não se retratavam. Até ao limite, para além do limite, e, às vezes, para além da vida. Deixada para trás. Para que outros levantassem os ossos quebrados e os devolvessem a quem os quisera. Às vezes acabava assim o medo. E o desconhecido e a justiça e a dor. Minto. A justiça não andava ali. Só uma passagem rápida a verificar quando era justo ao corpo desistir. Para ser levado como restos. Quando a alma não desistia antes e não denunciava e não implorava e não cedia.

Penso muito nisso quando penso na dor. No lugar da dor e nos limiares. Fronteiras entre possível e impossível. É isso a dor. Um território relativo. Ou de fronteira, terra de ninguém.

Fronteira. É um território de transição. O eterno presente, talvez. De passagem. Iniciação. Um lugar, á falta de melhor. Lugar de expectativa e esperança. O não definitivo e o sabor doce do desconhecido. O estranho, estrangeiro e belo desconhecido. O lugar não lugar da viagem. Porque é sempre de passagem e de provisória paragem. E por isso nunca estação. Nunca destino, só inevitabilidade. Entre antes e depois. Entre expectativa e memória, o que fica. Fronteira. O aqui e agora nem sempre reconhecido como tal antes de a perspectiva se instalar como distância. Lucidez. A dor como lugar de passagem.

Mesmo nesse músculo cardíaco que, de pessoa para pessoa varia entre a zona de conforto e a zona de risco de diferentes maneiras. O que resiste à velocidade instantânea e o que resiste ao esforço prolongado. Diferentes atletas, estes músculos. Em diferentes modalidades. E penso no que é a frequência cardíaca máxima. Que atira o músculo físico para a zona de perigo. Difere de pessoa para pessoa como o limiar de dor. De todas as dores. Em todas as partes do corpo. E da alma. Mas este é o mais difícil de quantificar à medida que nos afastamos das coordenadas objectivas espaço, tempo, função, actividade. Onde o ritmo desse músculo, físico se mede.

E neste tempo em que tudo nos atira para corridas em velocidade. Refeições rápidas e emoções rápidas. Penso.

Sim. Eu também sou uma pessoa acorrentada a esse suave ou nunca percebido como tal, jugo de uma alma dorida. De vida. De vida que nos falha. Mas não há dor que se aproxime de uma unha arrancada, um a articulação esmagada a martelo, um dente arrancado a frio. O corpo. Essa miséria que foi instrumento de muitos a uma sobrevivência que deixou por vezes espaço para a exaltação da mudança. O entusiasmo de pequenos prazeres. A liberdade da contemplação. A pequena ambição sem desapontamento. Transportamos a nossa própria gaiola. E num mundo assim, passando aos escaninhos privados e pequenos da alma que somos, cada um é livre de abandonar e alimentar a sua culpa, de ser abandonado e se rebolar na volúpia liberta de ser só sem ter. As pequenas raivas das pequenas coisas das pequenas vaidades e das pequenas ambições. A ocupar espaço. Na gaiola que levamos pela mão. Em que sítio? Em que lugar do corpo da alma, ou da vida da casa? Em que ficamos.

E depois, este território minado que é o da fantasia. E o da ilusão. E o do sonho. Para não falar, já da ficção. Mas são estados diferentes no mesmo país. Ou federação. Diferentes. Há que distinguir. O sonho…nos adultos torna-se difícil. perde-se talvez a capacidade de sonhar. Diria de outra maneira: passa a sonhar-se dentro dos limites do possível. E o possível é um país grande. Enorme mesmo. Tão grande como esta mania de situar cada fenómeno em nós numa parte distinta e mais simbólica do que real do corpo. Tudo vive nas químicas e nas interacções do cérebro. tudo se mistura numa alquimia que varia de pessoa para pessoa e que resulta ou não numa economia existencial positiva em função das alquimias que de outras pessoas convivem com estas. Situamos a alma em que zona do corpo e o coração – o outro – em que zona do cérebro. E a dor, esse alerta para os limites de resistência do corpo, da alma. E a emoção. Lugares. Em que ficamos.

Talvez esse português suave, pejorativo a qualificar-nos, seja uma característica ancestral de um certo tipo de coração. A precisar de um cigarro, como aqueles dos maços às risquinhas e com caravelas em azul e que não eram caravelas, e de parar para retomar forças para resistir. O azul calmo e reflexivo sobre o ouro e a velocidade da luz, nos antigos maços, e não o contrário como diz o dito. Somos talvez esse português suave. Quantas vezes a sentir o crescente da dor, da agonia e da raiva, a precisar de um pouco de retorno à suavidade que nos começa a faltar. A litlle tenderness, para manter a natureza de que cada um é feito. Parei na embalagem azul. Que o meu pai fumava e que ficou por ali – a embalagem do dia a seguir que não veio. Mais. Passou a amarelo vivo. Uma coisa solar. Sem torre de defesa rodeada das águas. Com embasamento atirado em frente a sul e ao mar. Como uma enorme, pesada, obsoleta barcaça. Entre o medieval e o renascido. Ancorada a terra sempre, lunar, era a sua natureza e a do rio a recuar, e para sempre. Esse maço está ali como recordação preciosa do tacto e de um gesto. Mas cada um desses cigarros, como os outros, pega fogo. Na proximidade do fogo.

10 Jul 2017

A curva e o foco

O fascínio da geometria – volto a ele – e das suas formas e superfícies regradas. Puras. Os sólidos de revolução, fantasias intelectuais perfeitas e de vida expectável. Como quereria a linguagem. Qualquer linguagem. Mas de abstracções não se tece a vida nem urde a existência. Hiperbólica, metafórica, saturada de figuras, de uma retórica que é paradigma ou pura ilusão. Da hipérbole, dois ramos, numa curvatura que resulta do corte de duas superfícies cónicas por um plano. Sabe-se-lhe a intensão do plano, sabe-se-lhe o foco. Como noutras curvas. Pontos externos e de misterioso domínio sobre a expectativa da curvatura obtida. Como essências que determinam subterraneamente uma forma existencial. Sem deixarem de ser elementares, ínfimos e fundamentais. Invisíveis geradores. E as linhas, geratrizes de revolução. Nas superfícies. Fico extática perante o poder metafórico da geometria. E o quanto de existencial, na geometria possível do ser enquanto tal, se rebela de uma estrutura que é definição e orientação a uma coerência confortável. Mas tão desnorteada. E que não é rígida só porque existe. Existe na sua perfeição utópica. Às vezes, na vida.

E depois, essa oscilação pendular entre a corrosiva e imparável teatralização do sentir, que torna cada um tão fingidor como o poeta e tão dorido como ele, e a compulsão da verdade como se ela existisse. E um dia. Um dia de chofre. Uma luz cortante. E o paradigma dissolve-se no ar como um leve bouquet de feromonas em fuga, até não restar senão memória de um perfume. Uma verdade sempre acarinhada como antro de um bem maior e que se revela perversa, inóspita. Traindo a disposição dos focos, dessas curvaturas duplas em ramos estilizados, de uma árvore que deixa de ser construção e vida para ser demolidora. A competir com o ar respirável. Morreu. A verdade morreu. De saturação e excessos existenciais. De precipitação. Dela sobrevive-se com a prescrição dos maiores cuidados de futuro. De presente. Mas como uma doença crónica, como um alcoolismo, fica latente para sempre e para sempre a requerer cuidados. À espreita, enganosa e divergente como só ela.

Emoção, o terror a evitar, o perigo abismal, a selvajaria incontrolada, como curva em crescente, gerada num foco íntimo e distante. Como uma oxidação que corrói para dentro a pureza de um metal. Uma ferrugem a lapidar até á raiz do corpo onde reside a essência mascarada de castanhos ferrosos. Verdades múltiplas e disparadas como armas mortíferas. Químicos de fórmula desadequada. O que não cura, pode matar. Um espelho. Que se segura contra um rosto, como uma lente a ferir de sol uma haste seca. Até incendiar.

Eu às vezes sinto a embriaguez enorme e arrepiante de palavras com as vísceras em fogo, de líquidos derramados em páginas como lava fresca de vulcão extinto de imediato ou mesmo antes e são bolas porosas e de cores extravagantes que rolam página abaixo e se esvaem nas margens. Ou para além delas. Tão para além que não voltam. Não adianta perscrutar os outros dias das palavras poéticas, porque em muito se furtam a um retorno a que o tempo invalida a costura. Emoções de um tempo preciso. Ou porque não eram as minhas vísceras, o meu tempo ou a minha ferida que ali se abria. Era. Era a ferida como se ressonância por simpatia. Como se telecomandada a partir de uma origem, como corpo a abrir ao primeiro raio de um poema. De sol, digo. Como flor. Como gineceu túmido na azul glória matinal. Mas são outros tempos do corpo e são outros corpos do sentido tacto. Na fantasia das manchas ensolaradas e das sombras magras e febris dessas palavras texto, tecido de uma urgência outra. Ou de outra urgência minha. Tudo a debandar das páginas folheadas como dedos naquele ponto. Naquele preciso ponto húmido. Onde mesmo os dedos podem ser ásperos. Nenhuma carícia é demais para as flores. Mas por vezes mata de peso e inércia desmedida para a espessura de uma determinada configuração que não condiz com o gesto. Mas não nos incomodemos a chorar se uma estrofe não volta a dizer o que disse. Nunca prender com âncoras marinhas o destino que é térreo. E nele o balanço ondulado das ondas, de carreiros pedregosos. Ou arar ondas de mar. Cada emoção tem um único tempo. Um compasso e uma melodia irrepetível.

E depois, numa daquelas epifanias de trazer a dias sem pretensões, ver todas aquelas frases a cair, misturadas e desarranjadas, desgrenhadas mesmo, amotinadas de fresco das suas linhas seguras, umas para andares abaixo, outras em flick flack destemido a ultrapassar o limite do texto, da folha, do mundo. O delírio mais lírico de um poema. Entornar-se no mundo e misturar-se entre as pessoas. Em bocadinhos, com de pão com manteiga, em interjeições sem destino certo, em negações do que era e do que era para ser se fosse. Tudo a invadir a capa. Partes de texto poético a andar para trás. Há pessoas assim. A confusão de sentidos intercomunicantes pode trovejar-nos na cabeça mesmo no seu lugar. A cabeça. E subitamente esqueci se era a cabeça ou o lugar dos sentidos. O lugar certo. Mas depois nem isto importa. Não devia ser permitido usar pronomes pessoais para abstracções. Como se fossem flores e concretas como tal. Chamar ela a uma hipérbole retorcida em si. Ou a angústia. Como defini-la sem dela se dizer o que a transforme em entidade. E, no entanto, há uma espécie de textura de uma densidade própria e deslizante. Lentamente a entorpecer talvez de cima para baixo. Mas a cor. Tentar entender-lhe a cor, parece fútil face ao abraço entorpecente e espesso. Que anula até a dor. Olhar para aquele lado. São enormes pedras de jazz. De sal, era o que queria dizer. Mas caiu dali outra palavra. Com luz natural de lâmpada no interior. As pedras. Enormes. De sal. E que lhes vem de dentro como é da natureza do que se acende. A partir de um ponto e em expansão. E sem voltar atrás. A luz.

Espreito sempre à porta antes de entrar por um livro adentro não vá estar em trajes menores. E surpreendo-o, àquelas horas com as palavras a sair por todos os cantos como numa sandes demasiado cheia e desleixada. A capa com nódoas de pequenas palavras que se soltaram mesmo. Uma coisa do outro mundo. O descrédito quase me faz rir. Mesmo que à custa de um livro desmanchado de poemas. Por isso penso mas porque se escreve ainda quando todas as palavras já foram usadas com todas as temperaturas a expelir fumo de todos os termómetros inaplicáveis. É que o fogo que lavra destemente a qualquer deus e a qualquer balança, é privado de braços e pernas se não atacar outras folhas. Não há descanso. Para a verdade crónica e imperfeita.

Escrever, é uma coisa triste. O desvendar da alma a quem só nós conhecemos. O desabafo tão íntimo e tão privado que só nós ouvimos. Filtrado das linhas mesmo se baralhadas como cartas de jogar. Tudo o que se tenha que definir em mais do que duas ou três palavras, a substitui por um gesto. Um sorriso. E chega.

Ando há tempo a rondar este ângulo muito específico de estarmos a enlouquecer. Dizer isso como irremediável. E talvez porque muito da vida já o é, dizer. Estamos. Muito de nós está. A enlouquecer de desespero. De sabe-se lá, sabemos nós, não o sabemos, talvez a enlouquecer. Sim. De como as roupas que vestimos dia a dia hora a hora e circunstância a circunstância. E lugar. Hiperbólicas. A esquecer o foco. Talvez se escolha o ângulo concreto da loucura diária, como uma roupa e uma deixa, que nem sempre encaixa na fala global da peça, mas não sabemos fazer melhor. É talvez um facto que se vive entre paredes, entre as circunstâncias em que queremos ser amados e vistos com um olhar benévolo, e a necessidade de que os outros nos vejam na crua realidade do que se é. E ainda assim. Ser amados. Sofrer de figuras de estilo. Sofrer de lugares geométricos que tendem, ao invés da sua natureza matemática de rigor e abstracção, a deixar-nos num limbo de curvaturas várias num universo de espaço amplo e ilimitado. À mercê de elevações e expansões para as quais o corpo não oferece limite à fuga.

Encosto-me a uma amurada, junto daquele mar imenso que é o único a entender-me, e a dizer que se nele mergulho ou nado, sem saber regras e correntes, tudo depende da força que tiver. Para resistir às vagas. O mar que não pune nem castiga, simplesmente segue a natureza desmedida que há que conhecer. Já nos humanos, a natureza é razão que se pode ponderar. Porque há o lugar geométrico do apaziguamento. Encosto-me a essa amurada com vista, só porque me sinto menos só face ao mar e é a este que devo escutar. Encosto-me mais ao olhar. Apuro o ouvido. Vejo-me de costas como quem diz que é de costas que melhor nos vemos e aos outros. Hiperbólicos, sentidos. Muito. Às vezes demais. Para uma única superfície de pele de rosto. De pelos nos braços, insuficientes na expressão de tamanho arrepio. Porque o vento vem forte. E hiperbólicas. Pessoas assim, a quem dói a temperatura do corpo. E para quem a respiração é um risco a sangrar. Quando a sacralização de cada regra pode enfermar de uma ferida que se agrava. A verdade. Não mais que um momento. Os conceitos que amamos, as definições. Outra coisa é a explicação dos anjos. Sem nome. Os anjos não têm nome.

Não subjaz à forma o sentido, mas uma realidade motora que conduz a emoção do gesto à sua origem. Ao seu destino. O que liberta e o que contém envolve numa ilusão lúcida. A da realidade feita e perfeita, mas numa camada lírica, como num corpo, uma emoção e um sentido íntimo. Onde se vive mas não se encontra. Como a curva ao foco. Pequeno pirilampo. Ou o beijo da razão. Nem na verdade, nem na emoção.

2 Jul 2017

Nocturnos e diurnos

São como marcos. Na beira da estrada.

Às vezes penso que a vida não aparenta grandes mistérios, que não possam ser reflectidos nas ínfimas manifestações inconsequentes de momentos de uma noite ou um dia, sem espectadores prováveis ou pressentidos. Por vezes, move-se como se nada ou ninguém mais existisse. Por isso a vida das vizinhanças, mesmo estas de passagem, sempre me fascinou pela presença incógnita do espectador, inadvertido e próximo, se bem que invisível, ignorado com indiferença, naquela estranha e ocasional liberdade de existir sem o olhar dos outros. Agudizada às vezes pelo silêncio da noite e pela amplitude da rua. Como uma caixa-de-ressonância inesperada. Gosto dessa emergência do real, nas suas tonalidades inconsistentes, e sem desenvolvimentos visíveis. Talvez por isso mesmo.

É a vida que passa pontualmente, em caminhos cruzados com os de outras vidas, sem se lhe conhecer o início nem a consequência. Um instante a planar nos momentos de outras existências, que por vezes agem como pequenos fragmentos de espelho sem mais questões a relatar do que a circunstância em si. E mesmo essa, por vezes plena de densidade e implicações. Mesmo quando desconhecidas. Ou as rotinas. As pequenas e redundantes obsessões. Fragmentos. Instantâneos.

Talvez um certo desgosto de histórias completas. De finais. Já basta o prédio da frente, sempre repleto de últimos capítulos. E que um dia, recentemente encerrou. E com ele ficaram por narrar esses, imaginados, inventados do seio das possibilidades e inevitabilidades de um jardim de gente no fim. Perdi o sono daquelas solitárias mulheres já quase depois da idade, no seu dormir irregular com janelas abertas sobre os últimos vestígios do mundo. Que lhes era possível. As suas telefonias minúsculas a partilhar a almofada. Os bens em saquinhos de plástico, bem enrolados sobre si próprios. A proteger em novelo a parca colecção de pequenos tesouros, um pente, um gancho…

E agora, onde andará a vida desse casarão? Que aguardará a vida desse casarão? Não quero que lhe levantem a cabeça mais um andar. O alto da cabeça. Com esta longa franja de telhas vãs um pouco acima dos olhos. Ficar sem essa fatia de céu que vinha presa à janela. Não quero trocar este excesso de luz diurna e o sono nocturno de velhinhas quase sem género nem silêncio, porque as próprias palavras as tinham abandonado e com elas a possibilidade dos intervalos, por janelas a incidir olhares turísticos em mergulho a pique sobre as minhas. Quero essa luz em demasia que me invade a casa até ao fim do corredor, quando me apanha as portadas distraídas. E fechá-las para não ferir as velhinhas antes do sono, com o espectáculo de beijos, mais do que um fugaz minuto que as faça sonhar memórias ou histórias de fantasia. As velhinhas que abalaram. Já lá não estão. No lar de idosas. Odeio esta palavra. Idosas. Como se velhinhas sofrendo da doença má da idade. Da qual alguém quis curar a casa grande. Por agora fecha serenamente esses cílios desmultiplicados, como de mosca poisada. A aguardar. Não digo que durma. Espera. Simplesmente. Mas a vida abrandou nela. Já não sou surpreendida por uma respiração mais forte. Audível como se não houvesse paredes entre nós. Em algumas noites. Já não oiço. Sim, espera. De respiração parada, suspensa, em receio do que vem. Como eu.

No outro dia alguém tentava ruidosamente abrir-lhe a porta. Sem o saber de dono e de hábito. Mas um homem bem- posto, e, de facto, com ares de dono novo. Não foi fácil. Abalei antes do fim da história a sorrir para dentro da dificuldade que o pobre casarão abandonado estava a tentar interpor entre o passado e o futuro. Na medida das suas possibilidades. Não deixando abrir a boca com a ausente sofreguidão de um futuro. Não se entregando assim, num primeiro assalto do desconhecido. Bem- posto. E com ares de dono.

Alguém grita lá em baixo na rua: Nuno – o nome é irrelevante e é outro dia, outra noite – donde vens, para onde vais e quem és…eu sei que vivo numa amálgama infantil de porquês, na ânsia de entender, e na vontade de perguntar, mas não chego a tanto nos meus assomos de coragem ou impertinência e nas perguntas que faço. Acho… Chego? Perguntar é uma arte que não tenho bem desenvolvida, que exige estratégia ou espontaneidade, e – sobretudo – silêncio. A margem de respiração onde pode nascer algo. E ali, de resposta veio nada. Que se ouvisse daqui de cima. Como as pessoas dão pouca importância às perguntas destes anseios. Está bem. Era a brincar. Por vezes quem pergunta não quer saber. Já me aconteceu. E a frustração de não responder está bem ao nível daquela de não ter respostas…é a vida…

Não sigo Nuno nem sigo o perguntador.

A esta hora, uma outra hora, um outro dia, na rua, a mesma rua, alguém toca um saxofone. E domina toda a noite vazia. Quase vazia. Ou é talvez clarinete. Um improviso melancólico e doce vindo não entendo de onde. Perto. Sem melodia. Da janela vejo pouco mais gente que aquela figura de mulher a subir a rua. Copo na mão. Avança dificilmente mas sem parar, e se não fosse o movimento de elevar a mão ao rosto não entenderia o copo. Avança aos tombos. Entre uma parede e um eixo que vai procurando assegurar. E de novo de encontro a uma parede. Só. Tem que trazer uma amargura ímpar na alma. Uma pessoa. Um amor. Uma desilusão. E agora passou. O improviso também.

Ficar à janela num dia de noite suave. Por mais que pise este palco do tempo, se é o palco não é a minha peça. Se é a peça não é o dia. Assim é estar fora de tudo. Num andar alto mas não demasiado alto para ser fora do mundo. Só na margem. Como uma ausência. E quando à noite o céu se abre em estrelas, é talvez a miopia que lhes dá vida. Em crescendo, alaradas e pulsantes. Mesmo se já não o forem, lá dos confins deste universo realmente grande, e se a notícia não tiver chegado ainda. Como tantas vezes retemos na vista, na alma algo que afinal já não é. Só não sabemos. Mas assim, dizia, é uma noite mais rica e plena. E nela, o instante é o beijo da eternidade. Um objet trouvé, um dessain trouvé uma realidade paralela a passar ao lado. Em mutação. Mas aqui, é porque estou. À varanda, nesta noite como as outras. E a pensar que a solidão é sentir que só existimos em nós. O que é muito, mesmo assim. Mas as camadas que se cruzam com outras translacções são demais e de menos. Umas vezes uma coisa. Outras, outra.

Ouvir vozes. Vindas do fim dos tempos ou do fim dos dias. A mesma terra de ninguém. Ou deste submundo parcial que se torna uma espécie de freak show em que nos desenhamos na estranheza ou se desenha a estranheza dos outros. Ou, nas margens, nos desentranhamos da estranheza dos outros. A certas horas. Uma mistura entre freak show e wonderland. Há coisas que de tantas leituras possíveis, acabam por não ter leitura nenhuma. Escreveu Kafka algures: “The right understanding of any matter and a misunderstanding of the same matter do not wholly exclude each other.”. Sobra o fascínio.

A coisa mais estúpida que alguma vez já fiz foi ter escrito o teu nome no braço com um canivete. Uma tarde que podia ser noite. Um lamento telefónico. Como uma voz off. Um rosto invisível, e o outro, invisível e sem voz. Lindo. Apetecia-me dizer bravo. Nas traseiras, num ponto qualquer da minha vida e de outras pessoas invisíveis no momento. Invisíveis sempre e para sempre irreconhecível aquela voz. Como aqueles sapatos poisados no parapeito da janela da voz. Ou de outra voz. Como vestígios únicos e visíveis de duas figuras a caminhar pé ante pé na beira do espaço vazio. Como vizinhos visivelmente invisíveis acima dos sapatos., alinhados em fila. Antes do salto. Talvez de invisíveis mãos dadas para tal.

Mas eu farto-me por vezes de vozes. Prefiro rostos. Mãos. No seu aparente alheamento mútuo. No seu silêncio. Sem raramente voltarem costas uma à outra. Que não num momento de transição, num gesto de flamenco.

É tão fácil carregar num botão, fazer um clic e iniciar uma palavra. Mas esta nem sempre é líquida. Por vezes é mesmo sólida. E rola inadvertida em função de factores como força, impulso, peso, superfície, textura. Indominável. Como um dado de jogar. Que rola e estaca no 1 ou no 6. Nada feito. É o aleatório ou os dados estão viciados. Como os fragmentos de vida. De dias. De noites que me tocam de passagem.

Mas é ao crepúsculo que a Senhora vem. E com ela muitos, circunspectos, em procissão, nas datas nomeadas. As vozes monótonas a desfiar a melopeia. E as velhinhas do lar fazem tudo bem. Faziam. Colchas bonitas à janela e cestinhos com pétalas de rosa, para atenuar a caminhada da Senhora e lhe emprestar o perfume da emoção com que lhe sentem e seguem a visita. Visita de médico. (Coisa para um curar cuidar rápido ou seguir os medicamentos). Que outra razão teria a Senhora para passar aqui…Vem por elas a Nossa Senhora delas. E a Senhora passa de olhar ausente, preso no infinito da sua alma de pedra. Em trajes de vir à rua. Um momento bom. Lento mas talvez não o suficiente para encher um pouco mais os dias. Delas. Mesmo eu, fico encostada à ombreira a fumar e a querer eternizar o momento. Só um pouco mais. Emocionam-me e invejo-as. Gosto que ela passe aqui. Fetichismo talvez. Ou, somente gosto que as velhinhas gostem. E agora que se foram, se a Senhora vem, pergunto-me.

O outro sobe a rua. De há uns tempos. A falar alto, sempre com a mesma voz de reclamação, numa espécie de lamúria mesclada de uma espécie de sacrifício que o empurra rua acima. Todos os dias o suave jugo. Sempre a descompor. Johnny! Sempre a mesma coisa, f…se. Lá está a palavra em f. sempre a pontuar-lhe as frases. Nunca mais venho contigo à rua que c. lá está a palavra em c. a ritmar-lhe cada duas frases. Alternada com a outra. Johnny! Ai, ai, ai, ai, ai! F…se, Johnny! Repete sem se cansar nem gastar o nome rua acima. A insultar, sempre naquele tom. Espreito. Da primeira vez. Uma espécie de rapaz velho. Encorpado. Johnny! É sempre a mesma coisa. F…se. E intercala regularmente dois ou três palavrões e sempre os mesmos. Também. Com o mesmo valor de Johnny. É todos os dias a mesma coisa. Diz. Digo. E continua rua acima. Todos os dias o mesmo tom lamuriento que se lhe desprende como serpentinas soltas ao longo da rua. Soltas mas seguidas e sem interrupção que não breves silêncios. E o cãozito, ordeiro e pela trela, nem água vai e segue na frente pelo passeio. Antecipa-o calmamente. Rua acima. Silencioso. Na sua vida de cão cheio de paciência para aquele dono que o adora. Lambidela aqui, lambidela ali. Na sua vida de cão. Os dois, na sua vida a dois. Todos os dias. F…se, Johnny! O raio do cão. Diz. Sempre a lamber o chão. Sempre a mesma coisa.

Sim. E por aí fora…

23 Jun 2017

Lençóis de água

Como pessoas, dormem enroladas sobre si próprias, como bichos friorentos e mergulhadas fundo na massa espessa das roupas confusas e amorfas. E outras, arrumadas numa rigorosa comissura do universo, feito de pregas lisas e dobras impecáveis. Como umas se afundam, ansiosas ou desalentadas, num buraco profundo e escuro e como se na própria noite cósmica, e outras se expõem desatentas de perigos, desconhecimentos e sonhos, em que umas e outras se sujeitam a perecer de angústia ou desalento. Sonhos que são despedidas que já foram e sonhos que são reencontros com os que já não estando, ainda doem. Os mortos que começam a voltar quando se situam com mais clareza no mapa de constelações com que cobrem o céu. Privado. Como um toldo etéreo no pátio de cada um e na sua porção de mundo. E que voltam, sem que raramente seja para mais do que anunciar que já estão. Longe. Outras vezes uma espécie de ilusão passageira e doce, como para matar saudades. Aceites no imediato do dia porque não há como vencê-los senão com o momento seguinte. Virar a página, com o gesto de afastar o lençol. Dormir. Uma pausa no sobreaquecimento das emoções. Uma desistência precisa. Uma demissão até breve. Mas às vezes um pouco à superfície da noite, do leito feito lençol de água espessa e densa, em que nenhum corpo mergulha e os braços tentam cortar em braçadas sofridas e vãs. De bruços sobre um oceano viscoso em que o corpo quereria mergulhar e avançar ao ritmo remado do esforço despendido. Recorrente sonho em secreto receio de Freud.

Essa matéria estranha e confusamente mesclada, das matérias têxteis de uma realidade visível, e das camadas subterrâneas a um cenário interior. Um paraíso de todos os dias. As noites. Perdido e reencontrado como tal. Temido por insones. Por crianças. Por sonhadores sem rédea. No sono. Talvez a consistência exacta do conforto da protecção. Uma espécie de abraço da parte física da criatura a reencontrar no segredo da noite. Nas águas de colorido e densidade variada. Como as águas em Bachelard. As límpidas, transparentes em profundidade. Mas repletas de brilhos e tão calmas e sorridentes que paradoxalmente não se deixam atravessar. Espelho narcísico que nada revela de si sem o outro, o rosto que se contempla e morre de tamanha devolução. Ou as profundas insondáveis em si, e desconhecidas nas suas escuridões que tudo escondem e que nelas sugam o olhar. O engolem em profundezas por explorar, o perdem, devolvendo em si e de si, unicamente o olhar que nelas mergulha como ao interior de si próprio. As primaveris e superficiais, alegres, frescas e repletas de brilhos, e as viscosas e obscuras, que fazem do ser o retorno a si próprio, não em forma de reflexo mas à forma da reflexão.

Como as pessoas são diferentes e diferentes de como são com os outros ou os outros outros. Como se a cada uma, uma das faces dessas criaturas aladas caprichosas e míticas que personificam com caracteres diversos os deuses dos sonhos filhos de Hipnos, o do sono irmão da morte. Quando nunca se sabe afinal se não é unicamente este que espera de braços abertos recolher o corpo abandonado. Como se fora o seu irmão. E que às vezes se distrai para ele.

No centro do eterno retorno da casa. Cama, barcaça enorme como um monumento digno do espaço ocupado, elegida a sua natureza de pódio. Muito altas ou rasas a tocar a terra. Enformada de pesados veludos e pregas acetinadas em tonalidades ricas, de fogo e de luz. Pesados brocados em festa barroca, pueris poéticas de estrelas, geométricas e vastas linhas, rectas como autoestradas recentes de sentidos únicos. Sempre, ir e voltar. Em parques ensolarados, ou, pensando na deliciosa descrição de Ovídio, nas Metamorfoses, em que é a de Morfeu, de negro ébano, entranhada numa escura caverna: “Nunca lhe pode o Sol mandar seus raios; (…) Do lugar o silêncio nunca rompem/ Os solícitos cães, os roucos patos,(…) Nele alterados sons de voz humana” . E decorada com flores. Papoilas, as “fecundas dormideiras”. As do ópio verdadeiro como o dos sonhos. Alguns.

Era Morfeu – é – diz o nome, aquele que forma ou dá forma. Moldador de sonhos. Era talvez o irmão escultor das visões dos outros três. O dos pesadelos, o das coisas, o das ilusões.

Ser objecto. Ser objecto de si e não muito sentir ser mais do que isso. Essa dependência do espelho. Do espelho como reciprocidade. Ou como comunicação. Do espelho de um olhar a mais do que o de se ser em si e não mais. E precisar de ser em mais. Esta ânsia de comunicação de eco de devolução. E a barcaça-cama a devolver em espelho o que se procura. Em linhos ou cetins. Talvez o irmão fantasia. Mas nunca se sabe qual dos irmãos nos acolhe na noite. E não chegar o ser em si porque se neutraliza na ausência do eco de si em si mesmo. O sono. Se não se distrair para Tanatos.

Sempre esta dúvida da cor que é o nada. O negro profundo ou branco superficial.

Em branco. Sempre gostei de lençóis brancos como uma página. Matérias antiquadas, finas ou rústicas, de linho e algodão. Bordados à máquina ou à mão, que importa o valor das mãos, se estão lá. Sempre, com amor ou por dever. Um lugar em branco. Em brancos vários. De restos de recordações de família e de restos de recordações de recordações contadas. Recontadas. Ou construídas. No viver. Sobre o branco, como uma página. Porque é ali que tudo se faz e desfaz. E se refaz. Que os dias começam e que os dias acabam. E, como a alvura dos lençóis agradáveis à pele, a clareza límpida e nova de todos os dias a ter que recomeçar. Talvez a alma lavada de fresco e virada para a frente. Sem lastro. Com tudo o que foi e com tudo o que fica, fresco e limpo como se novo em folha. Em folha branca. Para recomeçar no ponto preciso em que se fico na anterior. O grau zero. Com todo o sono e o apagado pelo meio. Como se de tudo sobrasse uma alma limpa e nova. O que é tão transcendente como fazer a cama todos os dias. Amorosamente. Porque não se diz disso refazer. Fazer. Como se nunca tivesse sido. De fresco. Com lençóis bordados a branco sobre branco. A lembrar climas quentes e outros tempos. A lembrar a disciplina de outros tempos e rituais. Mas nunca puxar as orelhas à cama, expressão tonta. Porque fez o seu papel sem culpa, como lhe estava destinado. A lembrar a frescura de outros tempos e de outras idades. A lembrar o que é preciso esquecer todos os dias. A lembrar o que não se quer lembrar. E a lembrar o que se quer guardar de alma de duas faces. Leve e pesada em simultâneo. Leve e pesada como os intervalos da música. Pausas. Às vezes apenas pesada. De penas. Mas fácil de pintar em tons matinais. Transparentes a resguardar um dia diferente. Sempre. E brancos de síntese cansada e nocturna. Em branco para renascer. Como das cinzas. Como do fumo em que mais um dia se esvaiu, muitas vezes sem remédio. Sempre sem retorno.

Sem poder voltar atrás, sem poder querer. Antes a vida numa página em branco. Mais fácil dizê-lo que fazê-lo. Abrir a cama fresca e depurada à noite e serenar a alma colorida de muitas cores e sombras.

Acordar como se fosse a primeira vez.

Ando há tantos dias a pensar nisto do irremediável. Que é a vida inteira e tudo. Tudo o que se faz, tudo o que se diz, tudo o que se pensa. Não há emenda possível depois de haver acontecido, sido, feito, dito, desdito. Pensar, fazer. Dizer. Tudo e em tudo, o irremediável. Nada de ilusões, emendas, desculpas, esquecimentos ou perdões. Uma construção. Em frente e em altura. Às vezes, matérias de pouca qualidade. Que fazer à pobre imagem do humano que se é… Desfazer e empregar matérias de mais valor. Isso sim. Nas construções. Mas a vida não é assim. Tudo o que foi, fica. Para sempre na aleatória construção e destruição da memória. Com defeitos, efeitos. Um impacto só visível com uma dose enorme de fantasia no depois. Nem sei se, além dessa leitura meio fantástico, meio dedução, meio por meio fé ou interpretação, se vislumbram de facto conclusões, relações de uma causa, ela própria indiscernível e de um efeito desligado de todos os possíveis, de tudo. E de parentesco por atribuir. Mas uma coisa sei: penso, ou sei, tudo é sem remédio. Mas só se não fosse a aprendizagem dos materiais. As matérias  melhores na arquitectura dos dias. A conhecer, a acolher, a escolher a preferir. O dia depois do dia que foi, é o caminho possível. O que vem a seguir. Uma página felizmente em branco, forçada, teimosamente forçada. Em branco para escrever. Sim. Só assim esta sensação aterrorizante e de aliviada, se bem que temporária, eternidade é suportável. Até amanhã. A íntima desconfiança de que não é para sempre embora o que dói pareça ser. A absoluta certeza de que a vida já mostrou que não dura. A irremediável sensação de que se fosse para sempre tudo era talvez pior porque a fé no placebo ou no remedio se estendia nos dias preguiçosa, langorosamente.

Mas quanto se impõe no inevitável respirar – na escrita- Tão dominado por emoções que o retiram, mas nunca o suficiente. Quase nunca. E como tal. A sensação de que a eternidade é em cada momento, e a certeza do momento seguinte. Na melhor das hipóteses. E mas ainda, porque sonhamos, até amanhã. Aqui. Nunca à mesma hora – diria – nunca no mesmo lugar. Nunca a mesma de hoje. Mas a mesma de amanhã. De sempre, mas tendo dormido de fresco em lençóis brancos. Quando se dorme. Perto de Tanatos mas para a vida.

Abrir a cama à noite. Como um livro branco. Fechar o livro, o dia, a noite. A última página. Sobre o corpo. Tudo. A certeza de que só há uma vez para cada coisa. Como águas da passagem de um rio. Eternas, repetidas e únicas. Desfazer a cama. Como no amor. E depois, manhã clara, abrir o livro e sair-lhe de dentro como o dia, uma história por contar. Fazer a cama de lençóis em branco. Fazer o dia como uma página a escrever.

9 Jun 2017

Uma sombra nas palavras luz

Eu queria falar do assombro. Mas entro em casa com a alma agitada por estes matizes de luz e sombra que as palavras não ajudam a acalmar. Queria falar do assombro e queria falar do deslumbre. Entro na casa. Numa determinada casa de mim, em mim. Esta. Num determinado momento – tantos iguais de ontem, tantos iguais de amanhã. E, sem dar contas ao tempo, a mim, a ninguém, do que isto é, que foi, que virá a ser, entro. E, de novo percorro os novos corredores de todos os dias. O dédalo que trago. Um projecto vascular. Conto e calo. A meada que se desenrola sem fim, a perturbação de sentidos únicos. E, sem querer nem resistir, no labirinto que me acompanha. Sem culpa, descaço os sapatos do dia percorrido. Largo a ponta do fio. E tento. Viver aí.

Essa coisa etérea, de alma que vagueia pelos circuitos do sangue, pelos canais das lágrimas e pelos alvéolos pulmonares. Antes isso do que pelos corredores escuros da casa. Sem acender luzes. Aterroriza-me a escuridão. Mas não a sombra.

Ou o que se instalou por alturas do assombro, caído de muito alto como se nada fosse nada. Ou que se imprimiu no soalho a desdizer passos seguros. Ou que desbotou de mapas antigos por efeito da humidade. Entro até aos confins de interiores não vistos. Quartos antigos, inexistentes e fechados. Entro por ela adiante – a casa – tão desconhecida da teia. Que se lhe acrescentou, que se lhe internou. No momento do deslumbre. Encandeada. Acendo uma luz baixa suave, confortável no seu desenho das sombras. E elas voltam, voltam as sombras. A luz a atenuar o excesso. A cegueira. Dominada por emoções de luz e sombra a encher palavras inadiáveis. E entro na casa do assombro que é minha. Sem domínio do mapa, nem dos passos que se estendem cuidadosos neste chão raso e plano. Direito e levemente cálido. Soalho a lembrar emoções mais soalheiras. Porque de luz e de sombra se faz todo o rol dos dias. De luz e de sombra. De sombras. O que dá a ver e demais, retira ao ver o ver. Recolho comigo o pouco ver à casa da escuridão. Acendo a luz.

Ensombrada que estou, hoje, de palavras de luz e paradoxos de sombra. Porque não são os dias como dantes lineares de luz e escuridão às horas certas, é o que sei e não sei. E nada a fazer por hoje e amanhã. E ao fundo. Ao fundo de mim o bicho. Esperado. Inesperado e abusivo, que trago. Para dentro e de dentro de onde habita. Em mim e na casa de mim em que entro. Olho o corredor e bem fundo. De um lado a pré-história dos dias e do outro o dia é hoje. Não há que escolher. Penso, vou. No assombro.

De quantos volts se precisa para iluminar o deslumbramento, o assombro? O que fascina, encandeia e encanta. O que perturba, maravilha e cega.

Mas eu queria falar do assombro sem sombras. Do deslumbre à luz. Do Latim lumen. A negação da luz. A inundação. A raiz é implacável à palavra. Uma e outra. O assombro extasiado a encobrir-se na raiz invasora do latim, “umbra”. Assombro. Na forma regressiva de assombrar. Como voltar ao avesso do que nos assombra. De nós mesmos, aí. A interpretar, espaço irreprimível do pensamento a percorrer. Já os gregos antigos. E o seu espanto e assombro pela palavra transmitida. E em busca de tradução. O maravilhoso que nos suspende o olhar e o cobre de desconhecido. De sombra para reflectir. E retomar a luz.

Talvez seja preciso um dia de sol como o de hoje, para mergulhar fundo e negro no abismo do assombro. Na entrada do labirinto. Tapete mágico que, de imediato, catapulta para o seu cerne de desorientação. Atracção do vórtice. Com sorte, para aquele braço de acaso em que luz a labareda de um fogo térreo, que aquece o monstro que o habita. Cabisbaixo, apanhado de surpresa. Pequenino como se visto de muito longe e encolhido para reter o calor da chama esquálida que na rarefacção de oxigénio, ameaça extinguir. O lado que desvanece. A um deslumbre sombrio sucede uma pertença a cuidar. Chegando lá por entre as paredes do corredor. Um a fazer-se cada vez mais difícil de amar. O outro, a amar cada vez mais. É assim o labirinto. Pontuado de luzes. Pálidas e pontuais. A escuridão é ausência. Terror. Nada.

Está sol. Da admiração, também assombro do olhar. Essa atracção fatal pela problematização pela não indiferença. O movimento irreprimível produzido pela coisa admirada. De simples a complexa. De iluminada a escura, ou vice-versa. E no fim o conhecimento do vasto desconhecimento, invisível antes. Eu queria falar do assombro e sento-me nele com a eterna disjunção estudante. E depois queria falar da eternidade que é o que sobra desse assombro que tolda a vista por excesso de luz e escuridão. Essa intermitência demasiado veloz. A esta escala, de ínfima concavidade cósmica, de pessoa num pedaço de rocha insignificante. Numa outra, astronómica pode ser um nada no todo. De tantos minutos-luz. Os que não vivo, vivi, ou vou viver. Como uma sequência demasiado rápida de fotogramas numa escura sala de cinema. Estou naqueles fotogramas extraídos de algum lugar em mim para que sejam visíveis. E vejo-me de costas para mim, assaltada do assombro daquele conjunto. Mas na matemática a qualidade de um conjunto em si é irrelevante. O que conta – conta uma história. E o que conta é a relação entre cada elemento do conjunto e outros do mesmo conjunto. Como um álbum de fotografias – uma vida.

Arrumadas por tempos, por pessoas, por viagens, por épocas, parentescos, celebrações, estáticas sensações que um dia nos assaltaram. E um dia rearranjando tudo aquilo, misturando até se quebrar qualquer fio condutor, juntar lado a lado imagens que nunca conviveram. Como discretas e tímidas solitárias a estabelecer relações inevitáveis de vizinhança induzida … e criar-se ia uma memória diferente de uma vida diferente de uma pessoa diferente. Re-cordis, de novo o Latim: recordar, voltar a passar pelo coração, fio a fio. Fiar uma outra memória. Diferente. “Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois.”. W. Benjamin em tradução livre, em usurpação livre em descontextualização livre. Poder mudar a chave. Ou então ainda ele: “A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.”. E às vezes torna-se estranho, acrescento.

Tiro os óculos de ler e de ver. Volto à memória. Volto ao assombro, uma noção de belo terrível, consubstanciado em si mesmo, sem eira nem ética nem beira. Antes uma estética de luz e sombras. De padrões difusos e permanentemente reajustados. Ao tempo. Desajustados de todo o tempo. Pares de conjuntos disjuntos aqui e ali. Com as suas intersecções de vazio. Ou ilusões de um olhar demasiado aproximado. Talvez. Ou demasiada luz. E, por coincidência do universo a querer, apesar de tudo, dar-me respostas pelos olhos adiante, olho o ficus que me acompanha o olhar há mais bem mais de uma década. E são idênticas as circunstâncias de luz e o sombreado das portadas, a tantas outras tardes. Mas, pela primeira vez, vejo uma linha sinuosa de folhas azuis. Literalmente azuis, como nunca as tinha visto. Uma linha sinuosa a fugir com a luz. Sinuosa e depois mutante. De passagem. Que tento reter. E porque são lustrosas reflectem o que a elas não pertence – não? Como muitas impressões que assaltam os dias. Construindo, destruindo. A força das palavras, sempre. Lembro-me “Da fábrica que falece…” da primeira vez que li o título. De Francisco d’Olanda. A impressão forte da palavra. Falece. Mas era construção que faltava à cidade. À vida é isso que falta. Fazê-la. Dia a dia sem estoicismo vão face ao destino que parece, esse sim, por vezes, edificado e convicto em fazer-nos falecer a vontade. Em demolir a construção do que nos falece. Dia após dia. O ruir com ajuda. Ruidosa térmita. E só apetece dizer: pára. Pára tudo. Por momentos, que seja. Ou a explicação das trevas. A luz sobre o indizível que chega ao horror e volta. Porque nos apontam armas. Devia ser proibido.

Coloco as cartas sobre a mesa. Como para ler. A sorte. Minto. São fotografias retiradas à pressa dos seus lugares fixos, para que o seja sem hesitações. Perdidas, desorientadas da cronologia unívoca. Descidas dos seus andares e trocadas de casa. Num rodopio sem reservas. Inocentes. A mergulhar noutra vida. Outras vizinhanças e amores. Parentescos, dias.

A tentar refazer a memória. Testar. Porque do deslumbre nasceu o meu monstro e o seu labirinto habitado. Nada a fazer. Como falar de luz sem sombras. Como falar do assombro desassombradamente ou como contemplar o etéreo sem contemplações. É coisa que não faz menos sentido do que atribuir carinhosamente a cada luminescência a sua dose natural de sombra difusa. A cada luz em cru a sua forma inevitável de produzir sombra. Recortada à faca. Na intempérie de emoções mais fortes.

Volto-me para olhar os bichos. Bichos sedosos, naquele evoluir de minúsculas patinhas a ondular ligeiramente o corpo de estrias a negro, na caminhada que é longa. Para eles. Fugidos da caixa dos sapatos. O chão enorme. E noutro dia, casulos nos cantos das paredes nas costas das cadeiras. Nos braços do corredor. Do labirinto. E de súbito: umas asas pequeninas, gigantescas. A ver dali. A desembaraçar-se do pequeno constructo de fios sedosos e temporários. O céu a abrir-se. Perguntei queres vir? Respondeu naquele olhar turvado e imerso. Imenso. Fiquei. Abracei-me à fera que nem sentiu. Que se visse. A inércia do peso, difícil de mover. Por isso a fera é fera e o monstro é monstro e ambos são recém- nascidos todos os dias. Mas nascem já grandes. Lanço na mesa a criança que ainda é memória. Um combate de titãs em teoria. Duas desrazões que estão bem na balança prévia ao combate. Fico ali enroscada a ele. Se deixou é com ele. A batalha. Não em mim. Talvez abraçar o monstro liberte borboletas. Como bolhas de champanhe. Sei lá. As crianças não bebem.

Volto. Não é dia, que não de assombro. E da confusa impressão dessas sombras, delineadas e sobrepostas. Nem tentativa nem erro. Olhar o assombro na sua versão acabada de nascer. Frágil monstro encolhido no seu canto. E ansiosamente aquietar e aquecer em mim esse corpo de gigante perigoso e ínfimo. A cada um a sombra do tamanho que os olhos conseguem alcançar. É isso. A existência nunca foi uma ciência exacta. Encaminho passos irresistíveis afinados por um magneto. E contemplo-o ali. No fim do corredor. É tarde. Apago a luz. E “sub umbra floreo”.

2 Jun 2017

Meio da tarde, ponto nenhum

Meio da tarde, ponto nenhum no mapa conhecido. Tempo indefinido e pessoa vaga. A luz em tudo. É o que é mais do que em outros dias. A luz por excesso como uma camada espessa de silêncio.

A querer escrever aqui, escrevendo, sem palavras. Hoje estou assim. Ou procurar as imagens possíveis em tonalidade musical, que se somem às palavras e ao silêncio das palavras como só aí é possível. Preferia ser compositora a usar estes utensílios letais. Hoje estou assim. É isso. Já tentei as cores mas nem sempre me acontecem. Cores limpas, transparentes e claras. Mas nada serve a esta luz crua e a este sentir leve. Denso. Tantas vezes. As cores nas palavras. Mas há sempre qualquer coisa fugidia. Qualquer coisa proibida que se escapa e ensaia na dança vertiginosas mentiras. Por querer ou sem ele. Como se fosse por amor ou sem ele. Como se fosse indiferente. Que loucas. Desvairadas, mesmo. Mas como dizer letal sem dizer veneno e armas…anjos carrancudos e infantis a mastigar pastilha elástica. Furiosamente e também eles fustigados no calor da tarde. Coisas cépticas.

Quando os dias me aparecem de repente como montanhas íngremes a escalar obrigatoriamente e me lembro daquela subida a pique às costas do besouro cor de pérola e com quatro olhos. E como me deixava apeada a meio, bem a meio da subida. E o monte da fortaleza ficava até novos desenvolvimentos de fortaleza inexpugnada. Pesavam-lhe o rabo, a carapaça e os costados curvos e calvos. Pesava-lhe o motor de vida atrás, que fazer? Senão deixá-lo agir no seu peso bruto a puxar para trás e curvar ligeiramente para que durma confortável na beira. Não há quem vença a inércia de um motor que se recusa se o caminho é a subir. Que mais valia termos subido separados e encontrado os dois lá em cima. Mas não, não se faz isso.

Mas hoje, ontem – bem, não interessa – procurar o bicho enorme no seu silêncio de cidade. E no meu e também ela um. Não há como contornar a dor senão neste desapego de sentidos. Como uma esquina indiferente. Numa visão microscópica do dia. E surpreendentemente passo por um enorme casarão que toca música. Sozinho na rua deserta. E era, afinal o conservatório de música. Como muito bem sabia num outro momento antes e depois daquele. Em que ali estava, casa grande e distraída de gente, e sem ninguém a dar corda à chave daquele relógio concebido para tocar horas num ritmo livre e lírico. Fantasio, que é bom.

Aquela subtil trepidação. Uma tremura tão quase invisível, mesclada do sorriso esfíngico por não se estar a lembrar um icebergue estético a atravessar tempos através dos tempos. E do silêncio aparente a um olhar desprevenido, faz-se um indistinto murmúrio que vem do mistério do tempo sem tempo de uma imagem. A imperfeição topológica da paisagem a lembrar-nos numa jangada batida de ondas, balançada. Não pelas do mar mas aquelas concêntricas e suavemente marulhantes em círculos perfeitos em torno do lugar líquido onde caiu uma pedra. O erro da linha do horizonte partida a lembrar como se é humano, precariamente humano e atingível. Como falhamos o momento do olhar e do outro olhar. Não sendo estáticos, nós e este. E tudo isso a lembrar do invisível. Do excesso dos sentidos. Da inconsolável exasperação dos dias ruidosos. Deste desejo imenso, intenso, de viajar, e de repente. E de repente, assim. Um simples recanto do mapa conhecido da cidade do costume, um simples abandono, à hora a que o encontro, como se estrangeiro no mapa e na topografia de tantos passos desfiados ali. Basta o silêncio mesmo num lugar desarranjado. Até a distracção desleixada e esquecida de uns papéis amarrotados no chão, como nós, às vezes. E o sol inclemente de quase verão. Este sol ensurdecedor a arrasar tudo o mais e a apagar como se de nódoas de tintas impertinentes, outros ruídos. Com esta possibilidade intrigante de tudo anular na crueza da temperatura. E o meio da tarde. E uma veia deste bicho-cidade, um pouco esquecida da circulação. E um banco. E um cigarro de tabaco demasiado seco como na praia. E o meu ser parado com tudo o resto a voltear suavemente embalado deste nada diferente. Bom. Três invisíveis centímetros – só três – de liberdade. Face voltada de través à gravidade da terra, à gravidade da vida feita e desfeita. Tudo fantasioso, a bem dizer. E por momentos a cidade é estrangeira em mim tanto como eu nela. E às vezes, simplesmente desenhos de fotografias de memórias de paisagens de viagens. Imaginárias. E chega. Desenhar com ou sem palavras para povoar o meu mundo de caminhos. De presenças e de ausências. E na tipografia desconhecida desta calçada, a estranheza de uma língua também desconhecida por momentos, a poupar sentidos, resumida a sons musicais. Quase. O desconhecido e o do silêncio necessário. A senti-lo chegar. Naquela reentrância abrupta de uma rua. Uma fonte parada do fluir do tempo nas águas que seriam circulares e assim, não. E um banco. De costas para tudo o resto. É assim que o tempo pára. Mas nunca retrocede.

Sim, aquela reverberação quase invisível que era preciso somar às palavras tão brutais tão cruas para atingirem os lugares certos e não ao lado, ao lado. Ficando na bruta insuficiência de dizer verdade. Incompleta incompreensível verdade mentirosa por pequena. As cores, as cores sem simbologia mas pura sensação. As suaves as embaladoras as subtis as que não doem no doer necessário mais do que isso. A cor de verdade. Ou talvez a voz. Ou melhor ainda a música. Que nunca fere nem engana. Diz sempre outra coisa. Do coração. Ouvir do coração.

O que procuro nestes dias de viagem senão o subtil que se derrama do óbvio, se retido todo o ruído lateral. O invisível, mesmo. Mesmo o invisível não visível mesmo. Mesmo o que não está. Às vezes sofro de excesso de sinais. O mundo a parecer falar por linhas tortas e travessas. Chega, o que é demais. Portanto, parto. Atravesso um quarteirão e com sorte o mundo. Conhecível. Como uma meditação zen, na azáfama desesperante das perplexidades e das perguntas infantis. Das certezas nos erros e nos erros das certezas. E intermutáveis incontáveis variantes. E querer somente um momento de hoje, aqui agora, e estou. Num recanto da cidade desconhecida. De sempre. A um quarteirão ou na pior das hipóteses, dois. Daqui. E é assim que no momento algo de impreciso, também trepida e tremeluz alguma coisa em mim e por dentro. Não, não o corpo mas uma memória impraticável e subliminar como metáfora. Talvez. Algo se conforta no silêncio desconhecido e ancorado no vazio de um qualquer fio cronológico. De um qualquer mapa de estradas interiores. De um qualquer GPS de pouca confiança.

E, como poisando a cabeça de lado ao rés da água, a contemplar os círculos calmos e sem reflexo humano mas tão somente o céu. Que está acima. Essas pequenas grandes coisas que trazem plenitude. É quando em mim o bicho enorme adormece. Ou não sei. Talvez por isso. Sentado ao lado, talvez um metro além. Descarnado do labirinto. Inundado daquela luz crua também ele, extenuado de trevas, é claro calmo e silencioso. Com os pequenos brilhos da cidade sobre o pêlo macio, suave e lustroso. E é quando o monstro sem dar por se ter aproximado, como por magia, poisou a cabeça e serenou. No colo. Com todo o peso diluído na respiração suave. Meio escondido na cegueira da luz. Pequenos rugidos de ferocidade latente mas em tonalidade onírica. Sem saber poiso a mão escondida, descansada e ávida nos intervalos. Daquela respiração ou talvez meus. Da alma em ligeiro e leve alvoroço. Talvez a bonança em mar alto. Mas não sei quando aconteceu. Se já se ainda ou se talvez não. Ou nem ainda nem já nem já não. Só uma espécie de verdade. Os tempos dão estranhas reviravoltas na crueza desta luz a cegar. De frente para trás. Ou de agora em diante. Sempre às voltas com os tempos de Borges. Difíceis de  distinguir nas cores do sonho.

26 Mai 2017

Pedra, papel, tesoura

Passos lentos os meus, pelos minutos das horas. A dar tempo e a conter a hesitação mortal. Como um inverno sem temperatura nem vento, mas tudo à espreita na escrita dos nós, nas esquinas das árvores nuas e planas. A natureza a hibernar guardada para outras certezas de rompante. O céu cinza compacta. A temer o descalabro do vento. Os passos ruinosos de insegurança lenta. Precaução. Ter que impor o avanço em caminho de nada. Depois o escuro e quase a terminar. Sem ter chegado. Mas aquela presença de respiração forte, desesperante, adiada madrugada. O desconhecido em espera na sua também hibernação agitada e convulsiva. O espaço obscurecido e ruidoso. Também. Um inferno esse de esquecimento e espera. O bosque. Como uma casa que dorme em sobressalto de vidas ocultas, fantasmas conversadores, rumores, pios, roçagares súbitos, aragens desordenadas que passam em correria para outras actividades do bosque. Da casa que dorme. Em sono agitado de muito. Coordenadas límpidas na folha quadriculada. Escrevo a paragem ruidosa no bosque de atalhos tortuosos, escuridões e sombras. Monstros. A tactear as penumbras aveludadas, a subir as paredes de camurça até à sombra mais alta. Da abóbada do astro. Planas evoluções no sentido do bosque, caverna, veludo, voltejar hirsuto nocturno e revoltado.

Espreito o mostrador partido no chão e pergunto qual é a hora certa. Quatro ponteiros como pontos cardeais. O norte sempre norte até aos pólos. O sul sempre. E depois tudo inverte. O vidro quebrado, uma pegada adivinhada e o coração de mecanismo metálico parou talvez. Aspiro o ar em torno e para cima. Em torno e para cima recortes de folhas baralhadas e revoltas. Em fundo o céu. Faço contas às horas de não dormir. Faço sempre contas às horas. É talvez a perspectiva lançada no ponto de fuga do depois. Linha de chamada de ali até ao horizonte. Recta. Até à linha do horizonte, da mágoa. Os monstros. Os olhos noivados de fresco na sombra pacata das pequenas luzes. Pequenos bichos. Pequenos rumores. Grandes intempéries à espreita por detrás das palavras que bordejam cada atalho.

Avança-se tão devagar como nada avançando por cima das nuvens. Num determinado troço do mundo, da floresta. Tão alto, tão imprecisamente rasgando a matéria invisível, tão em espaço fechado. E em baixo uma cortina lisa e esfumada e sem marcas. Pareceria o céu. O da eternidade. Sem tempo, sem avanço, sem dúvida. Pela luz. Mas era sonho de outra madrugada que não a próxima. Avança-se entretanto pela noite. A custo colocando pé ante pé sobre as palavras difíceis. No bosque.

A casa dorme. E de súbito, como um bicho enorme possante e poderoso na fúria devastadora de passos – pesados, abruptos – avança de nudez evidente e olhar ausente pelo carreiro conhecido no momento desconhecido de si. Ou não, talvez. Não há palavras em folhas como nas árvores. Sombras. Luzes baixas em fim de estação e de noite. Contemplo extasiada a capa imprevista daquela nudez. O olhar cego a guiar a fúria e o rompante dos passos. Vapores densos e mortais a emanar das ventas da fera desorientada. A pele a escavar um leito para o ouvido. O desejo, o corpo, a pele a arrepiar num caminho de beco urbano ou labirínticas paredes de vidro, o mostrador do relógio, o tempo, o corpo adiado, perdido, o desejo e o medo. De cobrir essa nudez com o corpo num longo afago de carne. Pesado sem temor à fúria nada que se compare com a espessura da pele, dos passos, guiados e cegos. Esse corpo.

Adormecido de si. Talvez. Ou cego também. Ou interrogativo lá bem no recanto mais remoto. O desejo de cobrir com o meu corpo insuficiente tamanha ansiedade. Acalmar e guiar. Atenuar o desconhecido que move esse desconhecido. Como um animal a fingir ser feroz. Indeciso, contudo. Perdido talvez na selva que se abeirava do seu lugar. Numa invasão subtil, imparável. E ao corpo. Infantil, grande, gasto, desperdiçado, maduro. Nu. Avançando à procura de algo impreciso, esperando não sabia o quê. Animal grande, semiadormecido. Nú. Sem nada. Como se perdido do seu lugar. Avanço para ele e pego-lhe na mão a querer abraçá-lo a não querer invadir a desprotecção que o vestia. Furioso. O bicho forte, pesado e violento. Doce. Mas tomo-o pela mão, guio-o pela mão inesperadamente pequena até à cama de folhas. Acompanho-lhe o silêncio. Para ser bom é preciso não lhe olhar os olhos. Imprecisos, indistintos, em fuga. Não olhar para não quebrar o silêncio a mais do que os passos pesados descompassados da fera. Fica o pequeno segredo entre as palmas das mãos. Pequena pedra.

Depois, antes, o ruido ensurdecedor da ventania, dos bichos estranhos desconhecidos e escondidos. Tapo-lhe o pêlo arrepiado talvez do susto. Da caçada infrutífera. Da procura. Da espera adiada não sabia de quê. Algo que era para ser noutro dia e não naquela noite. Tenebrosa e lenta. Ruidosa entre coisas. E ausência de coisas. Palavras. Pensamentos secretos de todos os ângulos. Abeiro-me do bicho que dorme súbita e pesadamente, denso e forte de compleição como se encerrasse todo o mundo. Ali. Tapo-lhe a nudez, a dele a minha, outra, com a manta de folhagem do seu mundo e em cada folha trilobada de coloração escura um olhar exausto, um suspiro de impaciência, uma ânsia de serenar, uma hesitação, um frio seco, um beijo adiado. Em cada nervura uma veia a latejar. Um eco da respiração. A fera. Pediu um beijo no sono temporariamente suave e dei delicadamente porque pediu. Não cantei para que dormisse. Não cantei para mim. Voltei pelo atalho reconhecido à clareira de luz entre a folhagem. A pensar a noite, a madrugada, a manhã. O ontem, o amanhã. As funções da pele, do corpo.

Posso chamar-te oxigénio, posso? Sentava-me na beira daquele leito revolto e ele escondia, soturno, a resposta por detrás de um sim ou de um não. Que tanto fazia. O sim ou o não, claro. Nunca nada, claro. Não que tanto fazia. Nunca dizia isso e seria o mais puro. Devolvo-o pela mão ao lugar. Como um urso enorme e eu coisa pequena. Disse-lhe vem. E chamo-lhe sempre o nome para não o ferir de amor. Devolvo-o ao iceberg desgarrado e tóxico nas águas a subir mas era para ser o leito. O seu provisório leito de bicho sem casa. Expectante. Mas esconde as páginas como comida para o inverno. Não li. O seu de sempre. De abandono. Nos arquivos de alvéolos, que escondem palavras fracturadas e esforço por detrás do opiáceo doce, angustiante, total e excessivo. Doce. Agoniante. No lugar escuro onde as roupas foram atiradas, quase rasgadas, para o chão, para quê. O requintado poder de nada dizer. Com as palavras vazias. O medo.

Quando avançou irrompendo da escuridão do labirinto em que se deita era uma luz de pedra. Uma folha de papel. Ou duas escuridões que se cortavam.

19 Mai 2017

Outras margens

O que me faz falta às vezes é o nada fazer. Aqueles dias em que a actividade parece um atributo acessório da existência, que em nada tem a ver com uma qualquer natureza ontológica. Que a contradiz em tudo e a força a uma outra coisa em nada semelhante. Incluir assim, nessa ânsia de existir simplesmente, uma certa indiferença a dormir ou comer, mesmo. Tarefas, decisões e horários. Estratégias, hierarquizações e planos. Uma espécie de jejum radical para a revisão de todo um mecanismo complexo de sentir. Do sentir. Sobretudo naqueles momentos particulares em que tudo nos quer ver bem. Ajudar. Sugerir. Tudo nos quer naquele lugar confortável que não inspire preocupações. Diminuir a dor. Obrigar. É nesses momentos que vem por vezes a recusa radical. Um luxo de liberdade a que nunca me dei por mais do que momentos. E depois voltar. Tão igual como qualquer rio que nos acompanhe os olhos na cidade onde vivemos. Nunca outro. Nunca as mesmas águas. O tempo.

E voar um pouco mais longe do que o fim da minha rua só para andar ao longo do rio. De um outro rio. Um outro cenário. Um outro café. Sentar-me num café que não é o do topo da minha rua. Sentar-me da mesma maneira e cruzar a perna da mesma maneira. Olhar o mesmo infinito sem consequência, sem explicação nem sentido. Mas ser um café que não é o da esquina no fim da minha rua. Sair da vida do costume como se a deixasse lavada de fresco e bem passadinha a ferro, impecável em cima da cama, para vestir num outro dia. Mas vestir uma outra. É o que é preciso, às vezes.

Convalescer de estar triste, com uma manta de lã fina e quente, quase sem peso sobre as pernas, como num sanatório de montanha e relegar tudo para um plano entretanto de irrealidade. Ou convalescer nas palavras mais eficazes do que o motor de um 787, ou um A350. Do que um Concorde. Daqueles que caíam facilmente. Como estas. Depois. A cada dor particular o seu placebo próprio. Passar por uns dias. Passar por uma cidade estrangeira, pela vida como se pela vida de alguém tal e qual como uma “Laura, on the train that is passing through”… uma vaga melancolia sem questões de maior. Há momentos de dor. Ou de dores variadas. Não ter vergonha da dor ou da ausência dela. Deixá-las seguir o seu curso e o seu tempo. Cobri-las com uma lã fina para não terem frio a mais. Do que o do seu inverno. Mas as dores devem ser tão leves aos outros, como os outros a elas.

Há ideias mistas que se colam ao corpo como uma pele fina mas forte. A mistura de sentimentos de sinal oposto. Se haverá ou não sentimentos maus de sentir é o que me intriga tantas vezes. Sentir á o último reduto de estar. De ser vivo. De viver para o que naturalmente cresceu em si e não se alterou na essência. Sentir sem o escudo protector da indiferença benigna para que não haja tempestades que façam naufragar. Coisa a proteger. Talvez. Para que não me espreite ao espelho o rosto de uma planta. Uma flor. Não há sinal maior de estar vivo do que a dor. Dói-me logo existe em mim. Existo. A excluir outros sentimentos de igual capacidade de absorção de tudo, de mim, de toda a dor de todo o insucesso. Como o amor. Sim. Porque renegar o sonho maior de tanta gente. Coisas vagamente vergonhosas. A dor, como o amor. E a rimar.

Passear numa cidade estrangeira. A dor. A perda. Tudo o que reunido é o que sou. No momento em que vou. Passear numa cidade estrangeira ao meu círculo vicioso. Um beco circular. Passear como se nada mais fosse possível fazer, e escolher o cenário que há-de preencher os olhos senão a mente. Mas a nova paisagem é como convalescer na Montanha Mágica de Mann. E tudo ser relativo ao momento em que tudo e nada pode ser possível. Em que tudo fica igual ou muda. Como sempre. Só num outro cenário e como tal a validar o momento diferente de todos como todos são de todos. Não há como uma viagem para nos catapultar para o espaço sem tempo e o tempo sem dono e não há como estar só para que tudo seja possível de não ter sentido nem metas nem sucesso nem horas nem sentido nem culpa nem nada. Mesmo.

Há cidades para sempre entranhadas no mais recôndido escaninho da dupla e retorcida hélice do nosso ADN. Cidades feitas do ouvir contar, das fotografias e dos filmes de sempre. E da história, que estrutura uma origem de que se gosta e quer sentir fazer parte. Dos álbuns e dos livros, do cinema e das memórias coladas a uma canção. A muitas. Memórias às vezes sem dono, já. Das pessoas que nunca conhecêramos não fosse a esplêndida presença que deixaram em objectos que voltamos sempre a visitar, a revisitar como num domingo se visitava a família. Que nunca conhecemos mas conhecemos melhor do que a muitos dos nossos. Com quem nos cruzamos um dia numa das estradas de um momento de sorte e acaso, e por quem nos apaixonámos de emoções fortes, de ódios e rejeições ou de amor mesmo. Pessoas com nomes que nunca esquecemos e que nunca morreram para nós, póstumos a elas, por vezes, a quem encontrámos já em dimensões diferentes da matéria e do espaço, mas que reconhecemos como nossas. As nossas pessoas do intelecto e as nossas pessoas da admiração e as nossas pessoas de quem temos tantas fotografias que quase tomámos café aqui e ai com elas. Espiadas e abstraídas de nós. Também elas. Tanto a conhecer numa cidade onde não se nasceu nem cresceu mas acrescentou mundo e o olhar perdido nos limites da sua aldeia não fosse assim. Ou talvez nem fosse assim. Como dizia o poeta. O mundo do tamanho do olhar que se lhe deita. Mas assim é mais. E cidades onde se quer sempre voltar.

Estar numa cidade estrangeira fervilhante de coisas, de fenómenos, de acontecimentos.. De objectos de cultura. De memória e de estar a acontecer. Numa arquitectura de trajectos de coleccionador. E não ver nada disso. Quase. Porque de uma cidade estrangeira de que goste, gosto sobretudo da cidade. Esse ser articulado, pujante e indiscutivelmente vivo. Dentro de lugares fechados para a cultura, ver só o suficiente para amadurecer em horas e dias. E dar as margens de silêncio precisas. Rigorosas como uma moldura a proteger e a guardar o tempo e espaço para pensar. Sem ruído. Sem sobreposição. Caminhar numa cidade civilizada. Num modelo cultural. E não esquecer de ver os sem-abrigo por fora das janelas de cada museu. Alguém que dorme às oito da noite numa manta de quadrados porque não há mais mundo por hoje. Os que pedem para comer. Tantos. Rostos morenos de famílias inteiras ao longo do rio. A vida. E aquelas figuras arrumadas e dignas como uma certa classe média. E que sobriamente também estendem a mão. A vida exposta na palma da mão limpa. A vida.

Quilómetros num sentido ou noutro a mergulhar os olhos no verde denso das águas do rio que lembrava mais largo, e no ocre claríssimo como se duma cor diluída para não ferir. Quase um cinzento de prata amarelada. Os prédios todos semelhantes nas suas inúmeras diferenças. Apaziguados numa harmonia cromática de extensão confortável sem sobressaltos. E assim ao longo dos dias. Pequena, grandes incursões para dentro das margens e voltar. À referência. Nelas, entrar em cada igreja não programada. E lá bem no fundo suponho uma súplica. Tão ténue e escondida até de mim. A sentar-me por longos momentos de respiração. Talvez que alguma coisa de mim, através de mim e sobre mim me salve. Deste momento. De mim.

E todos os dias partia desalvorada do hotel para o rio, ali mesmo ao fundo da rua, quase como se em casa. Mas outro rio. Às vezes é preciso outro rio. Como o tempo. E partia apressada com a alma desfraldada a sair dos bolsos já de si cheios de pedras e pesos. Desfraldada e não feliz. Mas expectante dessas horas como um grau zero de existência plena, a caminhar simplesmente pelas margens desse rio. Só. Para dificuldade bastava aquele longo e prolongado tempo a reunir coragem de deixar a cama para trás. Com os seus fantasmas desalinhados e em pijama até à noite. Ideias que nos colam ao corpo, como quem transporta os ossos dos antepassados, limpos de toda a existência no silêncio de um pequeno saco. E guardar silêncio sobre a dor. Mesmo de mim. Ferreamente diluída nos passos enquanto não pararem sob o efeito dos olhos.

Porque às vezes é preciso ir mais longe, onde nada exige essa felicidade que nem sempre pode ser. Pesos. Ou seria a mala a fazer peso nas costas. Cheia daquelas coisas-casa. Livros de páginas em branco, canetas pretas, duas maçãs, a máquina fotográfica. O mapa a refazer um mapa, outro, mental tão desfeito ao longo dos anos. A reler nele, saborosamente, os nomes. A imprimir numa nova memória. Coisas. Inseparáveis e pesadas como uma concha de caracol. Inevitáveis. Curiosa concha-caixa a desse molusco, concha-casa espiralada e esconderijo, quando é na realidade o esqueleto externo. Como o mistério de uma mala de senhora. Desde aquela bolsinha minúscula onde mal cabe o pó de arroz e um lencinho bordado, porque mais não é preciso para além do batom, até ao por- aí- fora das dimensões e dos mistérios esclarecedores de uma diferenciação social, cultural de uma emancipação ou de um desamparo a fazer transportar um mundo- concha. Que aquilo que se transporta é um mundo…uma gaveta escolhida do mundo como um esqueleto externo. Um arcobotante a suportar uma eminência de queda, um peso a mais. Espiralado como as curiosas camadas de ser que precisamos poder derramar numa emergência em branco de papel. Ou de um olhar que é preciso prender ao vidro de uma lente. Para ver melhor. Apurar o cenário em que se representa um intervalo de tempo depurador. Coisas. Daquela mala desenhada para se prender firmemente às costas, ao peito, como se parte delas, dele. A fazer peso mas sem tolher os passos. Numa pressa de chegar. Ao rio. E aí parar numa das margens. A respirar fundo o alívio de ter chegado ali para ali caminhar. E caminhar ao longo dele. Grande demais e como tal inesgotável para a minha pequena escala. O que é bom. Que o mundo seja grande e o tempo também.

A pequena história destes dias. Resumida à sua verdadeira extensão. Passear até à exaustão e pelas horas adiante, com aquela pequena garra fincada em mim em pano de fundo bem fundo. Para aquém das tonalidades envelhecidas em texturas suaves. De todo o cenário-cidade. Do céu. Cinzento a combinar. Respirar em grandes haustos um ar que parecia limpo do que ficou para trás e trazem até inesperados perfumes, de árvores não, que por todo o lado friorentas e nuas, mas arbustos que se cruzavam comigo, rápidos no andar. A andar como se para sempre. Para sempre acompanhada. Como por sombras num pano de fundo. Bem fundo. O que não tem remédio. Sinto, logo existo. Que maravilha única e insubstituível. Acontece uma vez. Não acredito em mais. Estar em Paris só para estar em Paris. Para andar ao longo das margens. Minhas. Do rio. Coisas diferentes. Há um peso que cola os passos ao chão. Mas a cabeça sempre mais acima do que os pés. Essa tonta. Tresloucada. A vida, digo eu. Inalcançável senão por partes. Dias.

Paris é uma daquelas cidades a que pensei só voltar só, ou com um grande amor. Aqui estou. Sem querer distinguir as ramificações de uma e outra verdade. Ambas acompanham como uma pessoa querida.

Está frio. Ponho quando posso prescindir delas, as mãos nos bolsos. Quando cabem. Saem por ali tantas coisas. E luvas, e bem lá no fundo para não o perder, como o primeiro mapa que me caiu por ali algures, um coração. Suponho-o diferente. Vi-me diferente – nesta cidade – depois de vinte anos. E noutras margens. E este é outro talvez também. O último romântico. Não o posso deixar cair por aí. Nem esquecê-lo no check-in. Vai ser revistado, talvez acusado de ter em mililitros mais do que o permitido transportar. Como o champô de que eu gosto. Suspiro. E continuo. A atravessar pontes sobre o rio. A acompanhar o rio sob pontes atrás de pontes a parar e com a alma sempre cheia de uma canção. Que durou dias.

10 Mar 2017

Mais infinito, menos infinito

Há dias em que tudo me é estranho. Para ser rigorosa, todos. Tudo me é exterior, incompatível. Como nos transplantes de órgãos. A compatibilidade do D.N.A. chega aí. Mas depois é todo o organismo a tentar reconhecer a pertença. A nova pertença, qualificada e aconselhada. E mesmo assim reage. Às vezes. É o sistema imunológico que rejeita afinal o que é corpo estranho e mesmo para salvar, estranho. Ninguém sabe de facto o que nos salva, para além de probabilidades cientificamente analisadas, ou nem mesmo assim seguras. Até um ponto. O ponto de ruptura com o que é estranho. A morte. A morte é uma criatura estranha.

Retratos de família. Amores-perfeitos. Existem? Sim, as flores. Cresce-se numa cadeia de muitos elos de estranheza, só porque é assim a família de que se parte. E só isso, sem se dar conta durante muito tempo, cria um bicho estranho também ele a crescer subterraneamente e a insinuar que por vezes somos matérias tão diferentes que não há ADN que explique o que nos liga senão uma tradição. E que daí ao amor vão léguas submarinas. Difíceis laços estruturados em rede, em que uns nos trazem outros agarrados por inerência inultrapassável. Proximidades a tornar nítido um desenho de incompatíveis formas. Desarmonias. Quando se tem a sorte de ter uma família grande, é bom. Há sempre aquela metade difícil. Dispersa por inúmeros ramos. Mas há a outra, também. E às vezes difícil. Também. E é talvez assim que se começa lentamente a delinear contornos de imperfeição, sentimentos ambivalentes e contraditórios e uma síntese progressiva entre uns e outros. Valiosa, essa. A aprendizagem da imperfeição. Dos amores imperfeitos. E entre aqueles que são mais infinitos, e aqueles que são menos infinitos, cresce a certeza de que um ou outro, são definitivamente finitos.

Ter um avô que se suicidou pouco antes de eu nascer, não me levou nunca a levar-lhe a mal a desfeita. Falava-se pouco desse avô, como se dele pouco sobrasse para além disso. Uma ou duas fotografias minúsculas com aquele detalhe fino do contacto directo com o negativo. A luz desenhada com precisão. O recorte nítido. Mais nítido do que ficou em mim que dele pouco ouvi. Pouco entendi daquelas feições. Um rosto severo e cerrado de contrariedade. Idealismo, talvez. Uma questão de honra, dizia-se. De vergonha. Sítio pequeno. Cercado da vasta planície coberta daquela luz inclemente sobre tudo. E sobre esse talvez idealismo que o fez desistir. Tantos filhos e tantos netos, uma mulher honesta e trabalhadora, e deixou-se sucumbir pelo erro da única filha mulher. Rapariga de menor virtude do que as agruras do tempo e da terra – dele – admitiam.

O meu pobre avô Custódio Augusto. Deixou-nos honestamente a culpa em herança. A sua. Não a sua vivida, mas a sua contada. Para se fazer significar. A de existir assim. E toda a outra culpa, que não a dele, sobretudo, e viva para sempre. Afinal. Honestamente e com toda a ternura que me causa esse avô desconhecido, para além do pouco contado – que pena não ter perguntado mais – e de duas únicas fotografias naquele fato preto das ocasiões, não por elegância, que no campo não fazia talvez o paradigma de um homem sóbrio e reflexivo como ele, mas da decência, seja lá o que for que isso é, valeu a pena? Eu digo, e digo com voz pequenina porque o universo é grande e eu não, que temos que olhar com a força possível aquilo de que gostamos, sem memória. Só olhar o momento talvez assoberbado por um sentimento se for maior. E chega para passar ao outro dia. Não ambicionar mais do que a profundidade honesta de um momento, como uma engenharia que não se sabe a que construção leva. Mas algo ficará construído. Na economia complexa da existência.

Mas ele não teve a serenidade de aceitar e deixar passar o tempo sobre aquilo que não podia mudar. Mudou o que estava ao seu alcance. Não se conformando com uma realidade, menos do que ideal, real. E deixou que a culpa tomasse conta da vida e depois, da morte. Até muito depois. A culpa é um sentimento inútil à falta de outras qualidades. Sentimentos. As pessoas gostam da sua culpa como de um animal doméstico. Mau conselheiro, quando só. Aborrecido, incómodo, às vezes. Mas o seu animal de estimação. É mais fácil criá-lo do que a um animal desconhecido. Mas triste. Como o medo. O pior inimigo da liberdade. E a culpa, esse animal de estimação, bem alimentado leva longe. A menos-infinito. Como ao avô quase desconhecido, ao desconhecido. E nada mudou à face do universo com a herança que nos deixou.

Não sei se é fantasia minha, ou se é a memória do meu próprio olhar ali solto em liberdade condiciona sobre as planícies, sobre o gosto árido das planícies, mas sempre me lembro de gente do Alentejo com uma espécie de olhar mais atirado para longe. Sem obstáculos. E a olhar directamente os olhos dos outros. Dantes. A perscrutar almas e vidas. Talvez a transparência entranhada entre muitas rugas de expressão ou de protecção da íris, daquela luz toda. A semicerrar pálpebras e a atirar mais fundamente o olhar para o espaço grande. No campo. Mas melancólico olhar, talvez. A gerar frio na alma torrada daqueles calores. Sem sombra para abrigo. Virada para dentro então.

/ Terra da cor dos olhos de quem olha! / A paz que se adivinha / Na tua solidão / Que nenhuma mesquinha / Condição / Pode compreender e povoar! / O mistério da tua imensidão / Onde o tempo caminha / Sem nunca chegar!…Miguel Torga, sobre o Alentejo. E porque não existe uma realidade constante. Mas, sim, estados de consciência, que definem o tom de um olhar nas coisas. Penso às vezes que é a lonjura do mar no interior. Que ali parecia não poder levar a lado nenhum. O tempo ou os passos. Sempre me intrigou o fenómeno do suicídio na planície alentejana. Deveria dizer planura, talvez. Ondulada e ampla. Arenosa, às vezes, e pontuada de sobreiros. Ou oliveiras, a intervalos, como se de propósito para deixar espaço ao desenho nítido das sombras. Nas dunas infindáveis sem mar à vista. Está mais que demonstrado que uma certa alternância nas vagas do sentir momentâneo salva de muitas prostrações, emoções variadas e megalomanias existenciais. Um momento depois, sabe-se, e o que era para ser nessa economia muito espontânea, já não é. É o que nunca era para ter sido senão como vislumbre. Maré cheia, maré vazia. E sempre alternando. Sempre me fez pensar essa melancolia atroz da planura das planícies. Uma espécie de insularidade não reconhecida, não pressentida. A moldar as disposições para a morte. País tão pequeno este e mesmo assim.

E ela, pelo contrário, tão, tão resistente. Tão de infinitos. Ainda não passou um mês. Sobre minha árvore-mãe caída. E eu dela. Uma folha. Um lamento privado. De pessoa sem árvore, sem raízes, sem frutos. Um dia destes soube que tinha chegado a outra metade diferente da vida. A menor. Soube-o como folha caída abraçada a outra folha caída da mesma árvore. Ali, ambos, sós em frente à árvore – é bom ter um irmão – ela ainda ali caída e para sempre arrancada pelas raízes. Dias depois os dias começaram a chover e foi terrível. Saber que lhe entregámos o corpo à terra como era seu destino. De árvore.

Estávamos ali, dois troncos quebrados à beira da árvore mãe e por momentos entrelaçados num abraço raro e de silêncio, e, na despedida inclemente, a sós. É bom haver um outro ramo da mesma árvore -caída, já disse – e enlaçado no outro único ramo da mesma árvore caída. Ele respondeu-me estamos todos. Cada vez mais sós. Disse como um ramo da árvore ao outro ramo menor da mesma árvore. Foi a coisa mais existencial que lhe ouvi em muito tempo. Morri para dentro um bocadinho e por ele quando disse. Com ele. É bom ter um irmão. Também ali em frente à nossa árvore caída. Já entregue a outra dimensão da cósmica destinação se a há. Ou senão, de um outro sentido qualquer no não sentido de não se querer sentir. Ser capaz. De continuar. E há qualquer coisa especial no facto de termos caído da mesma árvore. Árvore – tronco e raízes fundas, disfarçadas nos objectos que deixou. Tantas coisas que só eu sei por detrás dos sorrisos fixos nas fotografias. Que só eu vou lembrar porque espiava os seus males. Mesmo sem os querer. Saber. Há momentos em que o meu luto é de guerra. O negro é o que se faz por dentro e que nem sempre transpira nas roupas. Mesmo no riso. Estávamos ali. Ramos caídos mas num destino possível. Ou eu e uma folha do tronco ao lado. Ou do mesmo tronco. Com a mesma árvore a quem chorar, com as mesmas raízes soltas da terra. Estávamos ali. Ramos caídos da árvore. Mas estávamos ali, subtilmente entrelaçados para o resto da vida. E há vida.

Voltando aos amores-perfeitos. Amores-perfeitos adubados e frágeis mesmo assim. Lindos e frágeis. De aparência. Mas fortes e resistentes. Frágeis e resistentes, como ela. Ao frio. Ao calor. Coloridos e aveludados e manchados de escuro como asas de borboleta. Será talvez assim que as atraem. E às abelhas. Mas duram uma vida de flor. Falo tantas vezes em rosas. Sempre me lembro de as termos em casa, em vasos. Amores-perfeitos, nunca. No entanto, infinitos.

10 Fev 2017

Branco-cinza. Cor de rosa

Há uma cidade submersa por detrás de cada frase. De cada pessoa. De cada paisagem estranha de sonho. Aquela quase brancura do céu nas noites de chuva mansa e monótona e às vezes acabada. Como a pele clara mergulhada na quase escuridão, de quase não pensar. É o quê, o corpo, senão uma imensidão branca e momentânea no resto da noite como o céu no resto da chuva. Um corpo a apagar. A acender, a apagar. A mágoa a apagar o que o corpo acende. Às vezes. Desvendar como aos olhos. Como se uma impossibilidade fosse visível na possibilidade de um corpo. Uma visão completa do que é para além. Dos espasmos. De uma respiração rouca. Gritos. Mesmo. Se mesmo, algo cruzasse nos sentidos todos, a fronteira fina da pele. Mas mesmo assim não há menos do que dois ou três, num. Sentir, olhar, pensar. O outro. E são quatro, já. Ali. Na mesma cama. Na mesma noite branca acinzentada, e de restos de chuva, ainda a escorrer de tudo. Intervalados ruídos frescos. Irritantes e cavos, dependendo do que tocam. Alguns. Outros, devagarinho, a envolver. Em insólitas geometrias secretas. Daqui e dali. A ecoar na noite. Branca, cinzenta, citadina, como só as noites. Sobre paredes, canos e vidros, e tudo ao negro, ou quase. Excepto a noite do céu. Clara e impiedosa a correr sem se dar por ela. A correr lenta. Clara. Clara e lenta e surda como só a noite. Na cidade real e adormecida. Ao lado do corpo.

Cerra-se-me o silêncio como uma banda adesiva em torno de pensamentos e palavras de conclusão. Cerram-se as palavras em torno de pensamentos e penas. E como penas e penugens de asas friorentas sobre o corpo de uma lógica e uma não-lógica. E o frio. E provisório tudo.

As pessoas viram o cérebro do avesso e mobilam a casa. Ou perder-me em auto-estradas de circulação restrita. Marear sem cuidado nem destino e voltar a casa ao Cabo da frustração. Mas é uma coisa perecível sempre. Cada tom e cada lugar e cada passo. Passou. Sei lá, às vezes o que fazer de ti, de mim. Na memória. Beijos. Como a terminar uma carta mas com a polpa de um lábio inferior nítida. Nítida e doce. Depois a flor. Já na almofada. Não sei se minha se no sonho, minha. E falar. Não é que tantas vezes não pense que me desenganei no ficheiro e cliquei no poema errado. Poema, loquema, fonema, criatema, problema. Coisas que nem existem. Abraço a almofada com força.

Todos os dias até à noite, ou sobretudo aí aquela vontade teimosa de que ainda chegue algo consolador. E ao mesmo tempo que rejeitar a ideia de fechar o dia na noite da cama do sono e do fim, e nele, nela, a vontade do outro dia. Do seu desconhecido, do seu desconhecimento absoluto no que traz e no que retira. Fico entre portas na indefinição de querer e não querer ouvir. Ver. Perguntar, esperar. Acabar. Desesperar. De não ver. Sempre. E como se as palavras da escrita pudessem ter as cores de uma aguarela sóbria etérea e deslavada de qualquer colorido rico e definitivo, e dela sobrasse apenas uma memória fresca mas fantasmagórica da cor. Das cores. Das cores suaves de ainda não serem no esplendor do meio-dia. Da fantasmática misteriosa plenitude da meia-noite iluminada de lua, do desconhecido absoluto de uma noite sem luar, ou da misteriosa vida anunciada em declínio pelas cinco da tarde a reverberar como iluminadas por dentro as formas. É já uma madrugada nublosa daquelas em que a maior violência que se pode imaginar, para além de todos os pensamentos pendentes de outros dias, para aquém deles e dos dilemas, mais dúvidas do que dilemas, para além de tudo o que acorre de assalto no primeiro minuto vigilante, é ter que sair do esquecimento morno dos cobertores de lã. Em que há sempre ainda a esperança de retorno ao sono.

Mas que já não volta até outro dia. E o apelo frio incolor da madrugada, ali, como um chamamento indeciso mas persistente. Avanço no campo de vimes e hastes a amarelar sem estação convicta. Rígidos e estaladiços. Discretamente crepitantes, frágeis na forma e espessura, mas que picam. Que arranham, que ferem discretamente a pele sem impedir de avançar, sem se lhe dedicar um pensamento mais do que ténue como as cores. Momentâneo como cada passo. E passo em frente com as árvores ao fundo sem saber porquê. Porque vou. E uma haste perdida no meio de tudo, uma pernada de roseira brava por engano. A diferença entre tudo o que se assemelha. No meio, bem no meio do que se assemelha. E, como por ilusão da vontade, vira uma corola coroada de pétalas frescas de cor suave mas cor. Vira para mim imperceptíveis milímetros das pétalas abraçadas entre si e penso que não são girassóis ali. Pergunto-me porquê. Que nada em mim tem o alo ensolarado e radiante matinal de um sol da terra. Mas avanço deslumbrada. Chego-lhe perto demais. E estendo a mão no encantamento de uma rosa no meio de silvas e outras agruras. E pergunto, recolhendo a mão posso…posso tocar…pergunto sempre e nunca sei a resposta porque é assim que eu sou. Para além dos olhos nada mais sei.

Diria que me olhou ao chegar. Mas talvez não. Era talvez o meu desejo deslumbrado de a ver diferente e bonita. Ali. Talvez até nem estivesse ali ao fundo, mas por detrás dos olhos com que a desejei. Ver. Pressentir ao fundo. Alugar os meus passos até. E chegar. E perguntar posso. E vê-la ainda talvez amuada ou irritada da minha pergunta. Que faço demais. E olhar…Também. E perguntar. E olhar. E perguntar. E nunca saber ver. Sem perguntar sem saber. Quase jurava ver-lhe, se estava ali, um risinho sarcástico ou uma ironia imperscrutável do que diz claro que sim. Ou de quem diz claro que não. Estavas aí…a mesma resposta, claro que sim, a mesma resposta, claro que não. É assim que eu vejo o que vejo. Afasto com a violência desesperada de ter que ser, os lençóis brancos, os cobertores de lã branca quentes e afáveis que me não podem prender mais e por que tem que ser este arrancar brutal, este renascer diário para o mesmo que me espera. E que, brancos, me dão a calma que não tenho, como aquela rosa. E a as nuvens correm como em certos dias, as ventanias assobiam e passam, o mar revolve-se na sua eterna e igual violenta imaterialidade, as coisas nascem crescem e secam ou morrem.

E eu estou aqui, sem voar de pés na terra e sempre com a mesmas dúvidas que me levam às rosas e trazem à matérica textura áspera mas calorosa destes cobertores em que às vezes sonho. E de novo aquela aprisionante sensação desesperada de nadar na espessura viscosa e densa das roupas de cama. Sem conseguir deixar o corpo afundar nelas e avançar na água. Que não podia ser mas se ansiava que fosse. Fecho os olhos ao ver que sonha. Que sonha uma que não sei se sou. Revolve-se nos mesmos rolos viscosos e cinzentos escuros da roupa e no mesmo sonho em que me vejo. Vista ou sonhada. Ou nada. Os olhos fechados não me permitem ver. Ver-me nesse sonho que não conheço. Ver quem sonha o sonho. Quem sonho e a quem sonho o sonho. Entendo sempre os meus sonhos de outros em mim. Nunca em mim me entendo nos sonhos de outros em mim.

É isso. Os olhos fechados que não me veem e sonham. Será a mim. Ou não. Acordo e não está ali quem me sonhou no meu sonho. Ou porque não sonho. Levanto-me de dentro do sonho do sonho. Do sonho. Um acordar penoso e longo como um túnel. De reposteiros pesados e escuros a transpor com os pés fora da cama sobre o abismo. Os chinelos são a aterragem possível. Atamancada e tosca como a de uma ave pouco habituada. E o dia rende a noite em cinzentos também. Mas do céu e por ali abaixo. Que respiro mas percebo suaves. Hoje. E, por momentos não saber nada. E ser bom. E ali, longe, todos os meus anjos voam no céu. Inalcançáveis vigilantes. Tão longe, tão irredutíveis, tão abstractos. Tão dentro de mim. Só me resta olhar para cima. Seguir-lhes os olhos ausentes como um último fio que nos liga. Um grito surdo.

3 Fev 2017

Sentido único

Nada a reler. Como se sempre uma leitura nova. Quanto muito na música, eternizar na repetição obsessiva uma mesma emoção a distender-se sem querer o abandono. O caminho sempre em frente, afinal mesmo aí. Naquele momento em que a alma se nos cansa de si e segue. A fugir mesmo devagarinho mas em frente. Porque não há outra maneira de enfrentar o tempo. Senão deixá-lo correr para trás, como já visto da janela de um comboio. Sob a forma de casas, ou árvores. E de caminho Kant. Já nem me lembro porquê ao retomar este texto. Mas deixo a referência que fica sempre bem. Um filósofo. Nem sei muito bem já, se ainda aprecio filosofia. Mas não apetece um caminho morto. Um nome morto. Referencial só numa camada. De caminho Husserl. Mas nada disto é válido hoje. A filosofia morreu antes da cidade cibernética se instalar em torno. Exigente à adaptação de uma nova espécie que somos, ainda ancorada na anterior. É a era da linguagem mediatizada ao ponto da entropia total. Nunca tão grande indiferenciação entre os planos do real e da ficção. Nunca tão grande ambiguidade no encontro. No discurso. No desencontro. Nunca tão grande necessidade de rigor face à sua impossibilidade. A cibernética cidade frenética da comunicação. Da fuga. O que é gosto é vida. Em cada Kant, em cada canto, em cada cante. Caminhos são ideias boas de que me cerco com o tempo devido. Vazios como uma solidão expressa, mas a iludir um olhar exterior. Porque nem sempre. Vazio é o aberto e desconhecido. Que, em alguma medida, estrutura a viabilidade de uma existência.

Que seria de quem, lúcido de finitude, não esquecesse todos os dias. Todos os caminhos. Não se esquecesse do ser finito, falível, anódino mesmo para si, preso a determinismos vários e, por mais que adiado sem hora, irremediável. Então vazio e pleno, de imprevisto e indeterminadamente possível, faces de uma moeda consciente de vida. E de existência. Vazio em aberto. Num caminho. Para isso o silêncio. Às vezes. Liberto. A deixar ver o invisível. Seguir o invisível. Nuns dias. Noutros o visível necessário. Pequenas e grandes coisas aqui e ali. Chamar-lhe um nome ou sonho, talvez. A vida move-se, mas no erro de paralaxe. Que se compra em finitude e que se compra em eternidade. Há um erro para tudo e há um preço para tudo. Paradoxal. É o que nos anima numa, para viver como se real fosse a outra. Nos dois sentidos. No sentido alternado de ambas, inimigas inseparáveis, se descobre a hábil eficácia de cada parte. Outra vez a desesperante questão do indominável. No sentido.

Desde há dias fiquei em casa na companhia dos ácaros. São uma boa companhia porque não se veem, não se sentem, não se pressentem. Mas sabe-se que existem.

Uma parte de mim é pobre. Dedica-se a assuntos de limpeza, enquanto reflecte Deleuze, Derrida, Duras, Descartes. Por ordem alfabética e na desordem dos pensamentos atropelados por Caim de cada um, e enquanto se produz ordem na vida material. Ou é isto a vida, e nada suja as mãos na transumância de sentidos distraídos do pó de limpeza como do pó dos tempos. Dos micróbios, mesmo. Não visíveis. Esquecidos. Talvez não existam. Uma parte de mim não mora em mim. Vem e vai todos os dias incerta. Como chamar-lhe obsessão. Obsessão de morte, obsessão de amor, obsessão de me ver espalhada nas palavras que me perseguem por dentro. Não gosto de pontos traumáticos de interrogação. Reticências. E a liberdade no seu curso natural.

Sempre uma ideia fetiche. Do recomeço assinalado de cruz. A cada um o seu visível, a cada um o seu invisível. A não querer olhar para trás. Olhar para além e para longe na cegueira irredutível do vazio que se oferece a preencher. Como uma melodia mas em silenciosa aparência. Já um passo para além da dor. Uma bolha transparente e exterior. Entre mim e a dor sentida. Está ali a dor. A bolha casulo da dor. Em torno. Sangrada à força de mim. Está ali e isola-me de tudo. Fora. Eu também. Como expulsa de casa. Da bolha enorme. Da dor. E de repente vazia. A bolha. Eu. Do lado de fora de uma bolha vazia. Há um caminho depois. Como voltar a ingerir a dor. Para de dentro não obstruir o caminho. Talvez.

E perder o pé. E ficar a flutuar simplesmente num intervalo de dor. Entre a não dor, a dor, e a ausência estranha da dor. Sem saber depois. Mas é como se se me virasse o ser do avesso e não é bom. Há que voltar. Aos sentidos e ao sentir. Mas não àquele apego também estranho à dor como se nela se consolidasse a pessoa que nos falece e falece para não voltar. Excepto, parece, na dor. Por agora. O que é isto de não estar cá mais, é o que nem corpo nem alma admitem de repente. É isso. E de novo e sempre a imagem do caminho que se esconde e que é sem retorno como sempre.

Na infância, era a fuga. No sonho. Dentro do sonho, digo. E o temor dos sonhos da noite. Todas as noites a rezar, como a rezar, que o sonho fosse da morte. Não por a amar, só mesmo pelo branco ecrã vazio em vez de todas as possibilidades de sonhos maus. E na fuga, conduzia um carro. O que era do meu pai. Eu sei o que isso é. Aquela irreprimível necessidade de domínio. Do real. Que escapa tanto a uma criança. E depois. Sempre, também. Eu brincava com bonecas, mas no sonho de sempre conduzia um carro. Em fuga. Sempre de noite. Escadarias da cidade, incluídas. Sem pessoas. Só aquelas de quem fugia.

E depois, há muitos anos quando comecei a conduzir um carro andava como se a pé, com mil cuidados mas pelos caminhos de sempre na cidade. Ao fim de uns tempos não há quase o carro diferente do corpo. Mais uma roupa. Sapatos rápidos para andar e não sofrer do frio. Não era preciso pensar a cidade inscrita a direito num mapa de memória. Ali ao fundo a casa de. Virando à esquerda, o jardim. Um cotovelo de rua entre a mercearia e o terreiro de brincar. O caminho do 50. O do 46. Um dia começou tudo a desarrumar-se em estratégias e percursos indirectos, a cidade a tornar-se desconhecida na sua esquadria natural e a fragmentar-se em percursos. A esconder-se em túneis. A tornar-se misteriosa para além dos novos caminhos de andar. De carro. Saber que para virar à esquerda muito do inverso lhe deve anteceder. E no registo fragmentado de novas memórias, a cidade cada vez mais desconhecida. Em sítios novos sobra a noção de percurso a sobrepor-se a uma lógica de ruas, cruzamentos e curvas. Deixei de reconhecer a cidade inteira mas sim partes dela. Abstractas dentro dela. Como um novo mapa imaginário, desenhado numa teia de sentidos proibidos, ou obrigatórios, grandes curvaturas em hélice para chegar a um plano superior. De estrada. Não poder voltar atrás. Circulares fora do espaço. Uma cidade de estradas ladeadas de um nada superior ou inferior. Quando daqui ali era tão em linha recta. Dantes.

Depois a pensar para trás nos caminhos. Conduzir um carro entre janelas sobre estradas e caminhos. E um dia pensei reconhecer no caminho de sempre, um sinal do caminho inverso. Noutro dia, do mesmo caminho salta um outro sinal, invertido em tudo, e de novo, do caminho inverso. Na cidade alienada por percursos indirectos, e sempre os sentidos obrigatórios e sentidos proibidos, ir não é já o inverso necessário do voltar. Senão no paradigma de destino. Não no percorrer do caminho. Ir e vir na rotina dos dias. No hábito de horas a repetir sem outra semelhança. E um dia, reparar também que mesmo o mesmo caminho de ir e voltar, se apresenta desconhecido de si. O de ir, com as marcas de si e do ir. O de voltar, com as marcas de outras marcas como desconhecidas umas das outras. As marcas do voltar. Uma curva, na frente um letreiro x. Sempre. Voltar naquilo que descia, subindo. E antes, ter ido e ir, naquilo que sobe, descendo. A outra curva irreconhecida na primeira. Um outro letreiro Y na frente. Outro, sim mas que está ali sempre. E um dia, dizia, reconheço no letreiro à direita, o letreiro do lado esquerdo. Esquisito e semelhante. E o que curva à esquerda, invertido na curva à direita de outras horas. É o espanto. Nunca antes se tivera reconhecido no mesmo caminho e da mesma rua e estrada, um na inversão do outro. Talvez a velocidade que não é a dos pés e do olhar coordenado ao tempo desses. Um olhar por detrás de vidros e rápido e atento a outra fatia do real e assaltado de sinais soltos interrompidos na sua sequência geográfica e lógica. Antes. Durante. Depois. O que fica para trás, estranho enquadramento invertido no espelho retrovisor. É o espanto. Como se leva anos a reconhecer um lugar em outro. Alienados num percurso que os afasta de si enquanto lugar único. Preferir caminhar. Também. Como conduzir ou ser-se conduzido. Num carro. Caminhos diferentes sempre. Os olhos.

A pensar nas janelas do comboio, dantes, a realidade a correr para trás. E dia após dia reconhecer no caminho de ir sempre a ausência de sinais do caminho da volta. Mais tarde. Ao entardecer que também era marca de um olhar diferente. Ou porque me sentava do outro lado. Ou porque pensava em outras coisas. E mesmo os poucos sinais reconhecíveis, a parecer outros. Num caminho, No caminho de voltar. Ou, na realidade dois caminhos simétricos de ir. Sempre de ir. Mas fraca e indistinta simetria. Não há cainho de voltar. Dois destinos nas pontas de uma linha. Mas sentido único, de cada vez. E umas vezes segue-se o caminho do visível, outras o do invisível…

Como um fenómeno divertido nos dias, a não pensar. Para ir acontecendo.

Sempre tive um fraquinho pelo fenómeno. O real como se nos apresenta independentemente de tudo o que contrarie essa intuição. Sempre dividida em queda. Uma propensão para a verdade provisória da ciência. Sempre a aguardar a sua substituição por uma cortina nova de tecido fresco. E tudo o que deriva em todas as outras águas. E uma verdade baseada na não contradição. O princípio. Não se abala uma verdade que se ancora nos dados da consciência. Um lugar de conforto a ver bem. Despido dos acidentes próprios de um mundo real. Que realidade, é a questão fugidia a que não podendo fugir, se precisa de ligar a algo. A um plano definido de entre os estratos do real. De todo o real possível de pensar.

E depois pensar se aquilo dos caminhos únicos. Se aquilo dos sentidos únicos. Se é assim com os sentimentos. Os amores quando são caminhos que seguimos pelo dar ou pelo receber. Mas no amor, tudo se mistura depois e antes e não deveria haver esse traçado da geometria, essa matemática de vectores. Caminhei algumas vezes em sentidos contrários entre sentimentos entre impressões. Decisões. E também aí nada num sentido é reconhecível no outro como inverso. Sempre o espanto abrupto de um dos sentidos sem a colagem do outro. Sempre o espanto como se o caminho fosse um. Mas não será. Aí, caminhos talvez sempre outros. O de ida e o de voltar. Outras vezes sim, e a mesma admiração.

A vida exige demais e pela minha voz confusa e equivocada. Do tempo, talvez, desconfio muito e que muito. Não sei é porquê. Não fazer as contas a nada. E estou na hora do post-it amarelo. Caminhos. Dois pontos. Não confundir o papelinho da fantasia com o da ilusão. Post-it a prender no espelho. O da maresia e o da solidão – este no frigorífico. Ou vontade com vocação. Difícil, este. Talvez na janela…Que dá para a rua. Ela própria diferente no ir e no voltar, dela, em sentido contrário ao meu. A ir.

1 Fev 2017

Ora descrente

Como se acreditasse, só porque não faz mal. A inventar uma força para o feitiço. Descrente mas empenhada. À procura de algo que dizer por dentro. Ora. Talvez.

Chorei-lhe no colo pela última vez. A arrefecer, já. Ia dizer que o instante é fundamental no decurso do caminho. Hesitei. E depois pensei: falível. Não fundamental. Aleatório e de tão determinante, absurdo. E depois, de novo, fundamental. No criar de fundamentos. Fundações, alicerces. No colocar lento afinal de uma pequena pedra alinhada num sentido. Na berma. Pedra densa, pequena mas pesada contra o chão. Pesada contra o tempo. E pesada contra um simples sopro. Mas falível se tudo nesse pequeno instante que podia não ser, for apostado sem mais tempo. Quando é assim, coloca-se-nos a vida entre a espada e a parede do inevitável. Sempre dependente de maneira absoluta do instante. Irrelevante. Desprezável e ínfimo para tão grande desígnio. E os instantes não se cruzam facilmente com as intenções. São volácteis. Pequenas plumas à mercê de aragens múltiplas. Desencontradas da meteorologia. Há que ser pedra pequena, o instante. Esperar o tempo. Colocada firme e pesada no seu lugar. À beira do caminho. A desenhar. O.

No intervalo lembrei-me de “Run Lola run”, esse filme em várias versões sucessivas de uma mesma história, em que se vê como um ínfimo detalhe no seu âmago, podia de forma exponencial derivar para desfechos progressivamente mais divergentes. Esse peso do detalhe insignificante e quase sem dimensão, a determinar todo curso de uma história. A ramificação do real possível, encarnado em cada pequena partícula. E depois Oscar Wilde: os nadas. Os pequenos nadas sem relevância de sentido.

Ia dizer prisão, essa, mas não quero esta palavra. A das palavras. Enleio insolúvel de amor e raiva. Enleados nelas como em pedras que se derramam encosta abaixo e penosamente voltamos a emburrar carinhosamente, penosamente, carinhosamente, pela vertente do dia de cada dia. E da noite de cada noite. E do corpo de cada corpo que se revela no espelho de cada espelho, de cada dia. E no estanho cansado de cada noite. Como prática de vodu. Beber num copo bonito de cristal fino, tocar com as pontas dos dedos e fazê-lo tilintar de alegria melódica, e verter sem hesitação o melhor líquido. Bebê-las até que contaminem todo o corpo de torpor bom de calor ígneo e desinfectante. Deixá-las invadir sem defesa todo o espaço imaterial das sensações a recobrir fantasmas de pensamentos oportunistas. Palavras de viajar sempre mesmo que não se possa viajar nunca. Nelas, embarcar de bagagem leve ou nenhuma. De mãos livres para escolher tocar de tacto ligeiro e olhar apurado. Tocar aquelas de que se gosta a perder a razão. Não existe razão que ganhe à desarrazoada ilógica do querer.

Na verdade, penso aqui nelas como em amantes saudosos e desejados. Porque a tudo prestam o seu corpo corrompido. A tudo se vendem alegremente. Mas usar com rigor as tontas. Dar um lanche açucarado às mentirosas convictas e deixá-las para aí a entreter-se gulosamente de outras possibilidades. Já bastam as que dizem sem querer. As que pronunciam bombas num fogo de vista para encantar os olhos. Para empatar o tempo, para iludir umas da realidade que também poderiam ser outras. Eu sofro a tirania às palavras mansas e doem-me mais ainda as palavras tiranas. Sofro da angústia da palavra mas, e da palavra ébria. Mas é delas que se tecem caminhos para fora e para dentro de alguma coisa que se deixa distrair.

Estranhos lugares, os do tempo. O de hoje, por exemplo. Já não bastaria dizer a estranheza de um momento pendurado e periclitante entre outros de igual e furtuita deriva, como sobrepor-lhe o peso imponderável de uma mutação imperceptível que nos abala confunde e desorienta. Como os eixos XYZ a girar sobre si. Diria. Mas em pior. Sem rotação de rotina. O puro caos. Somos os mesmos num mundo outro de outros que nos tornámos na perda. Sem saber. Sem sentir e um dia estamos ali sentadas à mesa a sós, como estranhas que acabaram de se encontrar. A definir uma vida a dois. Uma e a perda da outra. Dela. O meu alguém-raíz. Transportamos a nossa própria gaiola e há que cuidar para que a porta não se feche connosco lá dentro. Lá fora.

Disperso bem, talvez. O da perda. O lugar da perda. Porque ninguém perde o que nunca teve de seu. O que é verdade perdi e não entendo. Às vezes, nada. Já o disse. Do que se enrola em torno dos meus passos. Volutas tresloucadas e espirais barulhentas e é isto vida que fala comigo o tempo inteiro de mim. E eu entendo cada coisa e o seu contrário e, às vezes mesmo, sinto. Como se viesse de um outro planeta e saltasse a escola primária. Uma falha estruturar para sempre na capacidade de leitura e escrita. Nas contas. Como se não pertencesse. Agora mais. Não por estar acima, abaixo. Talvez de lado. Sim aquela pedra. A ver tudo de perfil. Eu que gosto de ver tudo de frente. E não entendo o todo. E aquilo que é maior do que eu tende a sair por todos os poros desta escrita. Mas não saindo continua a intoxicar de dentro.

E depois eu danço. Hei-de dançar. Danço para embalar esta morte oferecida. Danço para a enganar. Porque não a quero mas foi-me presente de quem quero. Alimento-a como a um bicho de estimação. Não a quero mas não a posso devolver a quem ma deu. Alimento-a para não me tornar nela. E danço. Para a enganar. Não lhe procurar o colo interdito e os beijos expirados. Para sempre. A ter que escrever. Preencher o lugar do tacto puro com outras matérias. Esquecer o frio da fronte. A cor doentia e falsa. Pontual no tempo. Quando parou. Ou então só falece quem nunca existiu. Mesmo se todos os corpos voltam ao pó. À existência, não. E a existência nunca volta ao pó. Porque nunca foi.

20 Jan 2017

O coro e o ponto – Aqueles dias normais

 

Aqueles dias. Sim, aqueles que todos temos. Talvez. A cabeça a explodir de incompreensão e erro. Ou será o coração. Talvez. Ou as vísceras mais abaixo na hierarquia de valores dessa sociedade secreta de funções populares do corpo e lirismos emocionais não se sabe de onde. Que se enovelam como agoniadas de si próprias. E caem umas sobre as outras num tumulto espacial que a pele e todos os ligamentos contrariam afinal. Ou em cima aquele nó fechado de faltar o ar e vemos ao espelho e não está lá. Mas não são as sensações algo de realidade inequívoca em reacção a estímulos? Serão ou não. Talvez dependendo da realidade destes. E que realidade seja essa é inquestionável às vezes. Outras não. E dias em que verificamos que nada explode afinal. Que tudo são imagens e figuras de estilo. E que afinal ardemos simplesmente até ao pó. Passando pelas brasas incandescentes de belas mas em final de existência do fogo vital. Nada explode afinal senão ateado um engenho doméstico e mesmo assim. Sempre possível ficar-se vivo mas sem ver, ou sem pernas para andar, ou sem mãos para tactear as linhas. De uma escrita qualquer. Em que penso onde estará o desamparo maior, se na realidade, se no sonho. Se sonho é um roubo adquirido secretamente e sem documentos. Se a realidade alguma vez teria sido visível sem andares de arranha-céus por ali acima até um ponto indefinido que não é, no entanto, o dito mas a desdita de não se alcançar como limite. Sempre como limiar. E a pensar entre parêntesis que sim, que houve. Não porque sempre se terá sido mais jovem, sempre se terá tido menos vida, sempre se terá tido mais caminho para a frente. Na sua indefinida e feliz e inapropriável extensão. Que tudo permite. Sonhar. Imaginar até. Mas não é essa sobre todas as razões. A razão é uma época dividida em duas que nos calhou cruzar sem aprendizagem. Que não a de cada um em si, sem labirintos nem zonas proibidas. É o que pode restar de seguro na líquida impermanência de tudo. E no entanto, não sei. Disfarço bem, talvez, mas não faço a menor ideia do que faço aqui. Tudo o que se evola sem remédio, tudo o que passa por cada um como uma aragem demasiado etérea para, cabendo nos dedos, aí se sentir segura. Aí se saber segurar. Tudo o que é invisível. Tudo o que visível não se consegue ler. E mudamos. Vamos metamorfoseando algo impreciso de nós e olhando de revés ou de frente sem antagonismo mas cuidado. Tende-se a perder mais coisas na complexidade com que se apresentam. E fincar os pés no chão para não se ser arrastado pelo que nos tira de nós, não garante que algo de nós não se funda com o chão como um animal aterrorizado que hiberna para não pensar. Ou se enterra no conforto inóspito da terra para esconder a impotência face à dificuldade do caminho.

O caminhar pesado e sólido pela vida a dentro. Do cante alentejano. Nos momentos de não fazer. Também. Como os outros, momentos de ser. E lembrei-me desse aspecto particular do cante alentejano. Da terra onde me nascem memórias mas em fuga. Donde retirar com rigor as origens não importa. As raízes, especula-se. São múltiplas, de sagrado e profano entrecruzadas de lugares, tradições. Do canto gregoriano ou das raízes árabes. Aspectos primitivos, ainda, parecem remontar mais lá atrás. Tradição de vozes graves. Vem das entranhas do passado e um dia destes passará a coisa leve para turista ver, como uma parede cega e sem densidade para trás. Ou um prédio de janelas vazias sobre o céu e sem mais do que a fachada à espera de demolição. Não posso dizer que me emocione. Coisa culturalmente incorrecta de se dizer, mas que fazer… Talvez intelectualmente, ainda. Dizer que gosto. Mas de uma maneira muito mental. Emoções fortes mas trabalhadas num apreço de recordação. Não oiço. Nunca oiço nem apetece. De que forma gosto para além do admirar, difícil fórmula estética de emoção na ausência. Não sei. Uma emoção teórica. Ou talvez o prefira na memória. Não é a embriaguez de outra música. Mas é pujante como um murro em pleno plexo solar aquela ideia de muralha firme de gente de braço dado a avançar lentamente. As passadas conjuntas, a banda compacta de seres enlaçados pelos braços a avançar inexoráveis e lentos. A balançar ligeiramente nesse avanço gradual e pontuado de vozes. Vozes só. A balançar ligeiramente de um lado para o outro segundo a cadência dos passos. Uma coisa da terra e talvez a vencer a imensidão desértica e sedenta dessa terra. E da musicalidade sóbria das vozes tão particulares que nem os instrumentos lhes chegam, a alternar em coro, ou ponto. Em desafio. Vozes respondem a outras. Umas às outras. Com um alto preenchendo as pausas. E é assim que as lembro. As vozes e depois o que lembrei antes. As avós. E tias avós. E irmãs e primas. Amigas. Nos homens não se usava. Mas nelas sim. Sem pudor, nem receio. Como se fosse mais seguro sempre andar ancorada em alguém. Uma na outra. Como se sempre contra um vento mau. Uma maré perigosa. E namorados. E esposos. Dar a mão é bom. Há o tacto. Mas dar o braço é um laço mais próximo e firme. Um ampara o outro. É belo isso. Era belo.

E um dia destes aconteceu-me. Conheci uma mulher depois de um tempo talvez amplo de correspondência trocada. Virtual. Mas com o calor e a generosidade algo anacrónicos de um outro tempo de cartas em papel. E um dia veio. Primeiro, não vindo. O tempo a passar. Minutos, meia hora. Uma hora. E eu, ferozmente estoica a pé, a fugir às goteiras da chuva intervalada, à frente da Brasileira, no fundo, no fundo, só para ter a certeza de que não vinha e não havia desencontro possível no não vir. Uma coisa muito minha. E o tempo de pensar toda a irrealidade óbvia de um ser que seria talvez um outro completamente diferente do imaginado e expresso. E, quando já e sempre não esperava e quase nem tinha retrospectivamente esperado, surge bem de perto, sem espaço de recuo para a reconhecer, calorosa, igual e tridimensional, a voz cantada do telefone de Lisboa, e agarrou-se-me ao braço assim, à antiga, pujante, forte e alegremente, e seguimos como se combinado pela rua acima. Uma coisa que não se usa, já. Nunca me vou esquecer. Por mais Atlântico que nos separe nos dias todos da vida. Amigas para sempre se nada se desfizer noutras complexidades da distância, do tempo e da falta dele. E recuei uma geração ou duas, a um espaço estranho de conforto e quase receio. E é nesses momentos que aquele lado em mim, que tenta fazer-se ouvir a dizer “don’t look back, don’t look back”, se rebela e pensa, deixa ver se não me esqueci de nada. Essencial. De mim. A chave do lado de dentro. Neste tempo fatiado, fragmentado e líquido. De realidade mais imatérica do que qualquer fantasia. De intocáveis e impermanentes sonhos que só me dão descanso no sono. Quando vem. Se alguém vir por aí um personagem de figura bem apessoada e olhos e aparência de sono, é favor devolver, que deve ser o meu. Não consigo dormir sem ele. Enquanto isso, sonho. Não errar as estações. E nos intervalos, não sei. Nada. E quando não sei nada só queria dizer coisas bonitas a troar-me aos ouvidos, atordoar-me nelas e embalar-me na ausência de sentidos mais sólidos. Embriagar-me de palavras que existem e se existem basta pensar nelas. Dizê-las, e ganham vida própria de palavras. Reais. A meter medo. Entre todas as possíveis guardadas no dicionário surpreendente em si e mais ainda se o imaginasse feito de conjuntos de duas. E de três. Não avanço mais nem me atrevo a pensar nas possibilidades. Quantos volumes para as entender. Para as desbravar. Como floresta complexa e invencível e que afinal o simples Homem pode erradicar. Como num silêncio, árvore a árvore.

13 Jan 2017

O estranho lugar das palavras

Há dias em que de súbito acordo num momento qualquer do dia como se pela primeira vez. De novo, mas com uma sensação de estranheza desmesurada, e como se desentranhada à força e antes da hora, a um sono tumultuoso e insuficiente. Arrancada do lugar. E quando mergulho nas palavras sei. Que estas são sempre um lugar estranho. Insustentável estranheza ou lugar.

Há lugares tão estranhos. Para lá de qualquer indizível sensação de reconhecimento. Não que a estranheza seja inscrita no lugar. Os lugares são imanentes como as coisas, como a matéria. Como o corpo, até. E há corpos estranhos. Estranhos que ficam para sempre e para lá da intimidade aparente da pele. Irreconhecíveis enquanto lugares familiares, alheios. Há lugares e pessoas e nomes que nos ficam estranhos para sempre. Ou exteriores. Tive um lugar assim. Pessoas. Talvez não tanto porque não estivesse recamado de todos os objectos que me acompanham a vida, a memória, e dos quais me penduro para não soçobrar sem bússola. Perder. Mas porque foi escolhido com mais liberdade do que outros, utilidade e não paixão, por uma vez. E, de repente ali, tive o tempo de ver nos dias esse não reconhecimento. Talvez um lugar de não encontro. Uma ligeira coincidência de passagem. E só.

E, para afundar a sensação bem num âmago completo de estranheza, e a ferir de inevitabilidade, como se uma verdade qualquer acordasse sequiosa de validação, sento-me no lugar destas palavras, dias depois, sem de todo as reconhecer. Uma manta espessa e contínua, de nós e pontos apertados, que tive de desfazer. Desmanchar, em parte. Porque era hoje. A elas, ao lugar delas e ao lugar que me ocupou no tempo delas. Um lugar outro que não vejo ali. A estranheza completa e desconhecida desse lugar perdido na memória e que aqui serve. E que está bem. Assim. Certo nas palavras e estas na sua lonjura, já. Custo a reconhecê-lo e só muito a custo, abrindo parágrafos e afastando ramos estranhos numa confusão de sentidos desorientada, como num lugar entranhado de floresta sem momentaneamente ver de onde vem a luz. E desse lugar abstracto em que de repente acordo, espreito inúmeras possibilidades de significado. Várias estranhezas outras de territórios alternativos ao que, insignificante, moveu as palavras de início. Porque de significante, só deixou a recordação de deixar.

Mas, outras vezes, caio de repente até numa única simples palavra. Simples e familiar, e deparo-me também com uma equívoca e indeterminada sensação de pura estranheza. Não sei porquê. Talvez não esteja nela. E sim no lugar em que me encontro. O mesmo mas, por erro de percepção. De paralaxe, de novo. Eu lia dantes. E relia e retomava o prazer intenso de algumas palavras quase até ao desgaste da sua superfície doce. E relia-as cada vez mais suaves e niveladas dos volumes e texturas da emoção. Quase a tornar-se inócuas. Depois tinha que parar. Deixá-las regenerar todo esse perfume antes de consumi-las de novo. Depois, muito depois foi como se as palavras tivessem enlouquecido. Mutáveis, ambíguas, irónicas e fugidias na sua perversão. De querer seduzir magias e de querer recobri-las de dúvida.

Mas o lugar de que falava. Nem sequer chegado a ser desconfortável. Nem de perto. Apenas uma distância, no conforto, de não ser a minha pele. Uma pele alheia, familiar e anódina. Há lugares assim como pessoas. Esse confronto de múltiplos contornos entre familiaridade e desconhecimento, entre conforto e indiferença, fez-me um dia mudar de casa. Com toda a nitidez. Houve uma música e uma emoção forte. E, de súbito a certeza de ter que mudar e o ânimo para todo um terramoto dos objectos e de tudo. Como mudar de pele. Mais complicado do que de face ou de roupa. E há lugares que se nos colam imediatamente como uma seda fina, uma musselina etérea se quiser vê-la com essa separação do que é o corpo que se transporta, ou simplesmente e invisível ao próprio, a pele. E outras estranhezas. E outros lugares. Igualmente feridos dessa imaterialidade que lhes imprime interrogações e inúmeras sensações dentro do leque do visível aos olhos ou do visível à cegueira dos olhos. E de entre lugares estranhos, o amor. Assim, a dizer de repente.

Há lugares tão estranhos. Lembro-me de quando era pequenina, e mesmo mais tarde, um bocadinho menos de tudo, e agora tudo isso em muito mais. E encantada por uma pedra bonita, e como uma formiga, por isso pensava levá-la para casa. Naqueles gestos lentos de pontinhas dos dedos a tentar fugir aos grãos de terra, de olhos postos e só na pedra de uma cor curiosa, ou de uma textura lisa, lisa e boa de tocar. E, no preciso momento de levantá-la da terra em que repousava há tempo suficiente, uma miríade de vidas de vermes ou de insectos por debaixo. E o susto, a repugnância ante a possibilidade do tacto por engano das expectativas dos sentidos. Essa vida surpreendida escondida e em paz nos seus desígnios. Mais perturbadora, muito mais do que a pedra que por erro ou injustiça me detivera a deslocar do nicho original. A roubar à harmonia. Ainda hoje, o prazer fresco de encher as mãos de punhados de terra, neles construir camas para rebentos, mudas, sementes, ou raízes já feitas, é inquieto por essa possibilidade da vida minúscula e oculta nos seus grãos. A eminência do tacto, arrepiante. Dos vermes. Que se tratará, para além da leitura associada à morte, de uma repugnância estranha, é.  E perante os bichos queridos quando partem de si. Como se com a temperatura do corpo se esvaísse deles a alma que os distancia dos objectos e nessa ausência injustamente tornados menores do que eles. Os objectos que, mesmo frios, agarramos com prazer nas mãos. Não os bichos.

Um dia uma mulher estranha com quem trabalho, e poucas devem ser mais estranhas do que ela,  quando, no entanto, sempre que fala eu reconheço de dentro as palavras que acho bem, e porque lhe toquei no braço no decorrer de um diálogo, afastou-se com agressividade e disse horrorizada não me toques, eu odeio que me toquem…respeito tanto isso que muitas vezes não toco aquilo de que gosto. Tenho medo que mais alguém odeie que eu lhe toque. É odioso fazer isso a alguém. E no entanto faz-se de muitas maneiras cuja escala não intuímos. Coisas de esconder o afecto. De o recobrir de ironia. De agressividade. Eu tenho saudades desse tempo de álbum de fotografias e da parte em mim que pertence a esse tempo. Em que as pessoas se tocavam com o tacto.

Lugares estranhos. Viver com essa outra de mim que não domino. Toda uma vida, vendo bem. Aquela que é fabricada do lado de lá e de que não conheço contornos nítidos. Que sou. Ou pareço. Mas esse é um conflito que imagino que nos tolhe a todos. Esse fantasma instalado em nós pela percepção de quem é exterior e dessa paisagem exterior olha. Resguardado também pela invisibilidade inerente a essa película grossa de que nos recobrimos. Mesmo sem querer. Com aversão, ódio. Ou exterioridade. Só. Mas lugar certo Sem força e sem saber o gesto alógica, a regra. Há sempre o momento a surpreender. Esse olhar extrínseco. Não inerente à essência. Inventado, até. Tantos conflitos se geram nessa gestão descontrolada de representações de nós e em nós de cada um desse que somos.  E, curiosamente é na subjectividade inteira para dentro desse casulo tão inviolado, estanque e translúcido quanto muito, que melhor sinto o que sou.  Nesse conflito triste de um vulto a que falta o perfume daquele calor intenso de sentimentos puros soterrados por mil cuidados e mil cobardias. Se algo em mim quereria ter cura é esse lado externo a mim e que anda pelo mundo como se fosse eu. Um eu que não reconheço ter a competência de me representar. Todo o calor de sentimentos, toda a solidez de que se faz o etéreo, toda a alma em desvelo. Pelo que gosto. Mais ainda pelo que amo. E nada. Quase nada transpira dessa mortalha grossa de que me sinto recoberta. Pelos outros. Alguns. Algumas vezes. Esta insularidade intransposta do ser. Talvez por isso sou só. Não em mim. A solidão não é em nós, mas sempre nos outros. Sou só nos outros. Se me não veem e me não vivem. Nessa representação de nós, que muitas vezes penso como uma peça de roupa oferecida. Raramente a reconhecemos. Raramente acerta em nós com um tiro certeiro de maravilha. Ego contra ego. Com ego.

Arriscava dizer que também os outros sofrem desta distância. De embarcações frágeis enviadas para longe sem ter visto de perto. Temos um problema com intimidade. Temos um problema com confiança. Temos um problema de entrega. E temos problemas por ter problemas. Destes. E dos outros. Dos dos outros. Mundo complicado como uma nave de loucos (em) que somos. Outros lugares estranhos. Alienamos nessa zona etérea do mundo que é a fantasia, o desespero d a realidade. A revelar-se escorregadia como um verme, e impalpável como uma ideia. Ou o ruído dos passos nas pedras do caminho e o intransponível poder de um abraço.

Interrogo muitas vezes as coisas nessa lamela de laboratório científico, debaixo das lentes de microscópio. A incredulidade tem crescido em mim, comigo, a passar a outras idades. Mas não é que os sentimentos me ofereçam dúvidas em mim. Emprestam-me de forma permanente em dúvidas de mim nos outros. Cada vez mais estamos menos sós mas em lugares estranhos de nós. Nos outros. Por isso e sempre voltar ao lugar do silêncio. E não poder querer permanecer. Reduzir por momentos o ruído de dentro e de fora. É no silêncio que melhor me encontro no que de melhor deve haver em mim. Ou baixar os braços. Nesse silêncio onde não se entra nem ninguém facilmente. E de onde falo para dentro destas palavras quando posso. Sim. Quando posso sentir-me recoberta pela casa e pelas roupas sem despir menos que o necessário. Senão, é também aqui que me prendo a esse fantoche que vejo de fora como se fora eu não sendo. Eu que conheço outras camadas que os fios não gerem, os dedos não manipulam, e os olhos não tolhem.

Um dia vivi num lugar pequenino e talvez feio, que nunca foi estranho. E todo um chão em malmequeres. Podia parecer uma metáfora no mosaico da memória. Mas é rigor. Longe. Um lugar longe de tudo. E que nunca foi estranho. Com alguém que nunca foi estranho e até hoje está ali. A uma distância em quilómetros e em meses que nunca foi mais matéria do que isso. Que o tempo tem inexoravelmente diluído do quotidiano e está ainda, mesmo assim ao alcance. Deixou-me e ao lugar, num dia em que o ar e o mundo precisava de estabelecer regras de distância física mas só, um manuscrito. Folhas de uma caligrafia azul, reconhecível e tatuada do gesto, em folhas grandes e pautadas de finas linhas. Azuis. Como eram dantes. Um ensaio sobre a angústia. “A superação da angústia”. Escrito em dias a dois metros de mim porque o lugar não esticava mais de pequenino. Mas com toda a distância entre mim e o segredo das palavras a cair lentamente nas folhas, como gotas, de folhas, muito depois da chuva. Da angústia. Que era necessária verter num espaço curto. Em palavras ditas. Contadas. No espaço curto longitudinal, com o abismo pelo meio. Em si. Escritas, durante anos e anos não li. É esse o lugar estranho do amor. Um. Ou estranheza é o lugar em si. Para além da ética ou da estética. Quando visto do lado de dentro, umas vezes. Ou quando visto de fora e outro. Estranheza é um lugar. Que é um não lugar. Por isso. Não o amor. Lugar entranhado de si. O lugar estranho do amor, de tanto ser estranho não ser lugar nem estranho, mas ser em si.

6 Jan 2017

Dias de Oceania

Porque se arruma pelo som, no lugar da melancolia. No lugar escancarado – aqueles dias repentinos – como uma janela. Varrido de uma ventania. Uma pressa. Arrasadora. Que tudo desarruma. Talvez pelo Natal. Que chega sempre depressa demais. E porque ventania rima vagamente com melancolia. Com apatia. Talvez por essa veste de insularidade que se usa mesmo em dias de festa.

Talvez porque um naturalista, médico e farmacêutico naval, empolgado pela anatomia e taxonomia dos beija-flores em longa viagem pelo Pacífico – o naturalista – envolveu numa falsa ideia continental aquilo que eram, afinal e nada mais que conjuntos de ilhas, isoladas e plenas na sua inviolada insularidade. Talvez porque somos assim também. Falsamente aglomerados num conjunto de que mentalmente, e a intervalos irregulares, um se escapa como num voo ansioso pelas águas circundantes. Como um batedor da alma. Só em verificação de segurança e de haver espaço. De haver esperança de espaço. Depois. De silêncio final e vazio de excessos. De gente. De coisas que não são. Porque vendo bem a encontramos na mesma gaveta da rebeldia, discreta e surda rebeldia estoica e subliminar. Na mesma arrumação se junta por acasos insondáveis a nostalgia, o que é menos estranho, a fobia, a alegria, a utopia, a correria e a euforia. Essa sim. Remexendo distraidamente soltou-se, ligeiramente colada de tanto tempo sem uso à utopia e à melancolia, À alquimia. Retirei lentamente e descolei com cuidado umas das outras, sem evitar rasgar um pouco as pontas. Fragilizadas de humidade e seca. A alquimia a que este ano retirei as mãos. Nem um doce delas se desenrolou. Se distraiu. Talvez no receio de estragar de lágrimas ou de não lhe dar o tempo que não tinha. De cozedura. De fritura. Nem um doce fiz neste natal nem nada. Um desenho. Fiz para quem me fez o seu natal há muitos anos. E só. Para lhe levar antes do esbaforido splash no meio da Oceania.

Mas é Oceânia. Gosto tanto deste nome. Topónimo belo e antiquado. Oceano com o sufixo “ia”. Como um vasto desenrolar de vagas numa pradaria volante. Ondulante, a vogar pelo tempo da memória. Qualquer coisa que alarga o conceito inicial e o desfaz do corrente e sólido limite espacial, atirando-o ao vento como se incerto, numa deriva acima da crosta enrugada de continentes outros e terrestre. Essa sim continentalmente ancorada ao planeta como uma pele envelhecida de rugas de expressão. Da Oceânia resta um vago recorte na matéria do mar. Vago e perdido no meio de um Oceano que é de calmaria intemporal. Sons que reúnem em si o eco e o reverberar das cordas de um instrumento musical. Sons possíveis de dizer, muito acima da garganta que grita outros mais crus e cavos, mais a ecoar no céu. Da boca. E daí para cima em toda a zona do pensamento mas com vibração em todo o peito, na barriga. De um insólito corpo – búzio. Ou antes, talvez, caixa de ressonância de uma guitarra clássica. Pleno. Como um fogo a alastrar do centro da palavra. Natal. Também é palavra para se dizer um pouco acima da linha da garganta. Tem outro som de distante eco no tempo e no espaço de fantasia. Outra palavra saída da mesma gaveta do mês de dezembro. E depois, naqueles momentos de olhar em torno, nada mais do que anseio de acalmia. E de novo a rimar com melancolia.

Mas tirando ser como é, Natal é em si um tempo bom. Era para ser. E de espaço e luz de estrela caminhante uma vez de muitos em muitos anos e depois a memória da luz acompanhada pelo fervor de quem nela acreditou. Estrela que não era estrela mas o que importa se era de luz. E foi. E há-de ser de novo quando voltar do espaço para onde foi. Tempo de memória e tempo de história. Mas lembra-me sempre espaço talvez uma imagem da mitologia que encenou presépios a fingir toda uma distância caminhada até ao Menino. O que é que o Natal tem a ver com o amor? Essa outra palavra de tonalidade contrária e som aveludado e sóbrio. Essa palavra a olhar para o interior que rima com ela. E o oposto a tudo o resto. Talvez uma e outra, palavras, faces de um mesmo dinamismo psíquico que nos atira para dentro em amplitude e profundidade e para um espaço amplo como reflexo figurado deste. Invisível, imenso como o outro. Ambas palavras tão falsamente ligadas por nós doridos, frouxos ou equívocos inábeis. Misturadas como num desvario de histeria colectiva. Não existem mais em magia em lugar nenhum do tempo de um ano, do que noutro de outro tempo desse mesmo ou outro ano. Noite de Natal, ou a vida numa câmara escura. Uma família mergulhada numa tina de químicos a tornar-se visível com toda a nitidez progressiva. A revelar-se. Em tudo o que existe nos outros dias. Passou uma estrela. Incidiu no papel emulsionado. Sensibilizou na medida do tempo, da intensidade da luz e da sensibilidade do papel. O revelador reproduz contrastes ou nuances subtis. Lentamente. E há um tempo de paragem. O limite daquilo que se suporta numa noite qualquer de natal. Lava-se profusamente a folha de papel. Lava-se até desaparecer todo o vestígio de qualquer químico. Ou a fotografia continuaria a evoluir em tons cada vez mais escuros. Indiferenciados. Até à noite total. Passou a estrela. Não voltará tão cedo. Não já no imite do possível. Resta a fantasia de cada um. Divergente. O que é pena. É isso o Natal. Depois sair para as ruas as estradas entre ilhas de gente, de súbito, desaparecida. O silêncio em tudo em todos os lugares. Esse silêncio em que era preciso parar tudo antes do Natal. Antes, dois dias antes, parar. A tempo de decidir cada detalhe entre ilhas. Cada ponte. E depois. Depois quando vem afinal o silêncio, é bom e triste. Sempre. E. Parar então para pensar para onde foi o Natal depois de tudo…

30 Dez 2016

Das paisagens vagas como vagas são

Imaginar que me detenho simplesmente num intervalo do tempo a olhar um destes objectos. Sempre os objectos-cenário. E um ser encenador. Imaginar que qualquer um que seja me diz de momento tudo o que é suficiente nesta paragem. De alinhar números e letras de equações várias. Afastar essa folha da mente, obsessiva e exaustiva sem soluções visíveis. A faltar um detalhe que desenrole a revelação de uma das incógnitas, que seja. Uma só, e, na inércia seguinte, resolver alguma das equações. Que se alinham irresolutas em letras e números e números e letras. Que desenham ao todo e pelas suas partes incompletas, um padrão bonito a negro sobre o branco da folha, antes vazia, e depois com o mesmo sem sentido. Antes vazia. Talvez. Penso, de caminho. Desenvolver uma fórmula, uma chave. Qualquer coisa distinta. Evoluir do círculo perfeito e estanque. Desenhar bigodes nos vês e florzinhas nos pês.

Mas às vezes a distância abismal entre tudo e nada, está na misteriosa definição de um detalhe ínfimo. Um factor esquivo que se furta à absolvição da incógnita. A Matemática é um universo de abstracção quase de fulgor mágico. Talvez porque a vontade e as suas ramificações por inúmeros andares, lhe é desconhecida. Aqui mesmo ao lado, o candeeiro de luz baixa, a apontar rigorosa e permanente essa luz de todos os dias para baixo. Uma mesa de madeira quente e confortável para encostar um cotovelo e o outro a olhar a vida. Eu. Os cotovelos calmos e sólidos em espera de uma irresolução qualquer. Em redor uma penumbra de recorte difuso em gradação quase invisível, em que se encontram e desencontram os objectos de sempre, mas em segundo plano, como domesticados adormecidos até uma nova luz os contemplar. Animar. Um recanto do mundo que parece só por si suficiente. A terra do nunca e o território do ainda não amanhã talvez. Do talvez já não. Do ainda não ontem, do já, do nem assim, do já nem assim, ou do nem sei bem. Derivas indistintas na rota dos ventos e bolinas nas outras navegações de iguais ondas. De devir, do porvir imiscuído nas variáveis do já visto, ou de sombra diluída em liquidez. Sombras, brilhos, fosforescências nocturnas. Instrumentos de navegação obsoletos. Algo a fechar as pétalas púdicas para a noite. As pálpebras a encostar a uma córnea friorenta. Uma mão a procurar o rosto para conforto mútuo.

O candeeiro de todos os dias. A deixar uma penumbra a vogar sobre a outra metade da casa, daí para cima. A delimitar como se uma força terna dentro do seu abraço, um espaço dentro do espaço. Uma figura, uma espécie de figura, retrógrada como tantas coisas de que gosto, que ilumina da esquerda. Como deve ser. Para que a mão que mais voa não lhe distorça o percurso da luz. Não lhe encha a cabeça metálica de sombras e outras ambiguidades.

Mas, pura ilusão. Porque dele, sem culpa nem intensão, emergem factores de definição que se alternam e acrescentam nos dias, como se uma personalidade própria, definida e animada, respondesse a uma qualquer interrogação muda. Não a faço mas destilo-a talvez dos olhos sonolentos e distraídos com que muitas vezes verifico que está ali, e nele digo que estou. Também. Do que não quero falar me responde o que não pergunto. Por vezes mesmo o que não oiço. E sei que não é dele esse reflexo que dali se emite sem curva possível. Directo e devolvido. Claro. Há sempre qualquer coisa de variável ali. A dimensão. A crescer exorbitante até quase sentir a tentação de me encostar a ele na rua. A luz a variar numa temperatura entre o frio e o quente dos ossos e da pele. Nem sempre complementar. O contorno frio ou a calote como um crânio docemente recoberto de uma pele macia e sem pelo. Quase a apetecer passar-lhe uma mão como se de um bicho se tratasse. Aquela calote por momentos uma cabeça. A haver uma síntese química qualquer na evocação de um objecto de afecto, mesmo por uma forma qualquer de similitude, que apela ao tacto. O afecto precisa do tacto como percurso. De se esvair no tacto como a expiração que retorna a si e se distende sem parar. E de tacto. Muito tacto no lidar. Algum pensamento. Mas não concha. Os pensamentos- concha tendem a ser tóxicos se não evaporam por uma válvula qualquer. Ou as palavras. Que até o podem ser. O brilho metálico de uns dias a reabsorver-se num tom aveludado dos outros. E a tomar um carácter quase orgânico. E a lâmpada como uma ideia fixa mas sempre invisível. À espreita, em cada movimento inadvertido que faça. Que dizer se o óbvio é que há sempre qualquer coisa que não é deste meu candeeiro de anos, que se distrai dele dia após dia e diz algo que não lhe pertence, partindo dele e sendo ele…Sempre igual e igualmente inerte na sua imanência. E sempre um outro em resposta às perguntas que não faço.

Inocentes objectos. Mas nada há neles de inocente depois. De serem arrastados de fantasia em fantasia vindo parar a casa. Neutros nessa decisão. Moldam-se. Sem o fazer. Sem que nada na matéria se mova no sentido dessa outra matéria tremenda que é o olhar. Qualquer olhar despido de limpidez. Ou cegueira, quase podia dizer. E um rosto. Um corpo estranho. De paisagens vagas. Como vagas que são. Mas lá, o olhar.

Gostava tanto de ser de uma aldeia longe. Sem relógios para saber as horas do mundo, as minhas para além do daqui a pouco e do há pouco foi. Esta obsessão pelo tempo que me pára e me foge e me prende e me falta. O tempo uma moda e os horários a tirania. Eu queria fugir do tempo ou tê-lo a todo o tempo. Sem medida. Não esta sucessão de tiras e nós. Eu queria ser numa aldeia o acordar sem horas. De relógio. E sem fios, a que me prende uma mímica em que não me reconheço eu. Reconhece-se ele – esse candeeiro – no olhar que lhe deito, é o que quase suo perguntar.

Às vezes olho essa de mim, a perscrutá-la como se de fora, e como se fora o fosse. Mas não lhe sinto perfume, briho. Não lhe sinto calor, nem no calor que sinto, e porque é das sensações. E frio. Mas é resposta. Defesa da pele. E assim vejo essa personagem-pessoa, visível invisível, e desconfio da desconfiança  e  não reconheço nem conheço. E se ninguém entende, nem eu. E se não conheço não existo. Mas entristeço dela. Dessa que não movo. Como marioneta. De fios estragados, menos um. Um fio, e imprimir um gesto. Um fio e mover-me noutro, a estacar noutro. Impedimentos estruturais, fios a menos, ou fios a mais. Emaranhados e partidos e embaraçosos. Nos braços e nas pernas. De pano.

Passo a partir do candeeiro, que não sendo pessoa, se esgota num momento qualquer. E ali num outro sítio da casa e como sempre, aqueles olhos em vários pares, como continhas e com a mesma natureza dura e objectiva. Ou não. E que nunca dormem. Ou dormem sempre. Como se deitam nos dias, assim ficam para toda a eternidade. Olho. Cada boneca agora, de recreios vagos. Como diz o outro. Rosto hermético de porcelana. Olhos revirados de espanto ou impaciência. Sem mãos que componham o vestido. A ter que esperar que alguém se lembre. Desconfortável, hirta e descomposta em cima do psiché. Coisa ridícula. Sempre à espera. Ou então que não se acenda a luz para ninguém lhe ver os culotes empoeirados e o cabelo sintético talvez natural, um pouco descomposto. Visita-se essa descomposição, em fuga. E aquela poeira nos olhos e sem que os dedinhos lhe cheguem a aliviar as cócegas. Jesus…Que impasse, e sem poder fechar os olhos. Nunca. Destino pesado de charme. Depois falam dela e das roupas estilizadas. Mas as roupas, são ela, e por isso furibunda. Conversas e conversas e desconversas e ninguém que lhe diga na face quebrável um mimo directo. A precisar de um banho. É o que é. E pimenta na língua. Mas a boca não abre e os pensamentos não saem. Tudo certo. Então. Por terras de fantasia.

Volto. E, de repente, salta-me Buster Keaton para a página meio cheia, como de um comboio em andamento e. E sim. Tudo aquilo que aquele rosto nunca disse, nunca dizia. Dizia sempre alguém por ele. Simples projecção na plástica receptividade de um rosto neutro, complexa interpenetração de sentidos entre duas realidades que nem tangentes necessitam de ser. Basta agrupá-las. Basta imiscuir uma na outra por proximidade, justaposição. Aleatória. E como um espelho vivo, o que era rosto e inexpressivo passa a reflexo e rico em representações. De quem…Sabe-se, de quem olha. Mais do que do que é contemplado. E depois, saindo do cinema, e como um dia o disse Kafka: “The right understanding of any matter and a misunderstanding of the same matter do not wholly exclude each other”.

Mas, de permeio, o efeito Kuleshov, nessa, até às vezes abusiva atribuição de sentidos diferentes, a um mesmo rosto inexpressivo, consoante as imagens que lhe associamos. Que lhe colamos com a mesma subjectiva intuição ou aleatoriedade, com que o fazemos a um pisa-papéis e nele uma libelinha se encerra no cerne de vidro grosso, e a um livro sobre escravidão infantil contemporânea. Só para empilhar duas realidades soltas e limpar o pó da mesa nos espaços vazios. Produz sentido. Ou o reflexo do contracampo, que enriquece a linguagem cinematográfica. Que entorpece a leitura dos outros numa envolta de significados nossos, que é como uma armadilha. Para quem está no campo e quem se esconde no contracampo. Ou podia dizer o contrário. E quem esconderia o quê de quem. A inexpressividade da máscara, rosto esponja, ou o excesso do outro a submergir o rosto por detrás. O efeito da expectativa. Do desejo. Que age por defeito do objecto a inscrever, talvez. Permeável ou neutro. Inexpressivo ou vazio puro. Como resolver uma equação assim. Nada de grave no reino da fantasia. Esse revelador fotográfico – onírico.

Não é linguagem do cinema, é a expectante natureza humana. A derramar de si. Sobre a paisagem vazia. Ou a terra porosa. O rosto fechado. Em aberto. A natureza de vasos comunicantes a destilar de um lado o que é lapso ou lacuna no outro. Vasos comunicantes, de incomunicabilidade congénita, percorridos de um mesmo líquido. Mas, os sentimentos não oferecem dúvidas. A existência sim. E as pessoas, não têm que ser perfeitas. Os encontros sim. Ou então, dizer de outra maneira. Que os sentimentos não oferecem dúvidas, mas os objectos, sim. E o tempo. De uns com os outros.

16 Dez 2016

Objecto de si

Uma pessoa viaja. Viaja-se ao fim do mundo e de si dia após dia. Um desfiar de ritmos registados no relógio meticulosamente e sem parar. Sem encontrar fim. Viaja-se. Eu viajo. Dia colado a outro dia sem distinção que não a da luz. Uma alternância, no fundo, artificial a uma continuidade de busca. Um número abstrato no calendário dos dias. Uma página morta da agenda. Viajo. Viaja-se no passado. No futuro. No imediatamente agora, no ainda há pouco, e no já mesmo a seguir. Em tempos, em espaços, nomes e rostos. Em projectos e sonhos. Sem parar. À procura talvez de um sinal. Mas chega-se ao fim do dia, e a resposta, a única resposta possível e válida está ali. No espelho da casa de banho, com azulejos brancos e sem padrão, meio escondida nessa espécie de sorriso forçado pela escova e enevoado pela pasta de dentes.

Hoje está uma lua nítida, recortada e fresca, quase uma espécie de sorriso no céu limpo de nuvens. Deitada de costas. Como se com uma placidez lunar, diria, se não fosse a lua ela própria. E sorridente, como disse. Ontem não vi. Anteontem nem me lembrei. A semana passada, já não sei, e a próxima também não. Há dias de noites assim, em que tudo é recortado no assombro liso do céu como se nada duvidasse. Estranho. Se bem que as coisas não contêm em si a dúvida. A dúvida é da matéria orgânica em agitação mental. Onde se esconde este redesenho que subjaz a todo o viaduto dos dias por sobre os dias, como vidas por sobre outras vidas, ou ideias de uma coisa e outra, e volta com a ironia de dizer estava ali sempre. Mas era o refazer do desenho original. O que é modelo ancorado por detrás de um olhar que afere escolhas e fere de materialidade depois aquilo que não era palpável. E um desenho não é. Também não é. Mas a dizer que estava ali sempre. Como essa lua reclinada, plácida, e de rosto limpo e luminoso. Ou em que luminosa foice cortante se desata o escuro de um torno de outras marés. Em que agonia imprecisa se desprende o respirar solto, afinal, como bicho manso a escoicear de alegria. Infantil, afinal. Como guizos límpidos e sem intenção. Ecos de uma montanha para outra. Em que recesso da memória se transcendeu para sempre o andar. Como se já não houvesse que haver fim. Mas só caminho. Só caminho. E a lenta lentidão das pedras a avançar de lá para cá. Serenas e brancas. Lavadas de chuva.

Fascina-me o desenho curvilíneo e sobreposto de viadutos sobre viadutos. Braços múltiplos de um ser estranho percorrido de uma circulação ruidosa. Como em vias de agitar todos aqueles tentáculos. Sempre como se à beira desse movimento. Mas tudo isso visto de longe, de cima, numa imagem captada do alto, sem realidade próxima. E só. Gosto de pontes. Das outras. Coisas de imagem frágil que se aventuram em voo entre margens. Lançadas calmamente num movimento único sobre águas serenas e imparáveis. Às vezes entranhadas de um movimento quase imperceptível. E os carros. Sobre as pontes. A fluir sobre o que já é eternamente fluido nos dois sentidos. Pontes. Como uma asa delicada e solícita poisada no ar, e congelada em todo esse momento. Qualquer momento. E no entanto, serenamente prestáveis ao poder das metáforas. Na arte da engenharia como na arte da guerra. Lançadas. Explodidas.

Depois.

Entro na vida pela mão que tem que ser – a pensar que me apetecia hoje viver fora de mão, mas pelo meio de um campo qualquer – e abro uma escrita lenta e mal acordada a ver que palavras se desprendem desta preguiça de ter que escolher. Entre tantas ainda em pijama e sem vontade de competir por uma verdade qualquer. Olho pela janela que diz que vai ser de sol. Para lá de uma luz ainda pálida a escorregar na parede em frente. Ainda muito cedo para a agilidade de cair a pique. Tímida, ou também ainda na lentidão do sono deixado sem vontade. A pensar porque será ser uma palavra tão curtinha e trabalho aquela em que se tem que saltar três amplas sílabas. Um destino que nem todos os animais têm. Porque uns, ocupam a vida em tarefas cíclicas e sem fim que não daquela. E outros, não. E em nós que tanto ocupa já de si o pensamento, acresce ainda essa espécie de natureza de empréstimo, que traz ocupações delirantemente enfileiradas, dia após noite e assim sucessivamente, coisas estranhas que se alimentam a si próprias. Balcões de finanças, caixas de correio, papéis. Sacos de lixo em testemunho de uma complexidade de que sobra tanto desperdício. Abro todos os dias oitenta vezes o contentor antiquado onde se empilham os cúmulos dos restos. E dos restos dos restos, e fico a espreitar, de olhar fixo, perplexa. Penso então que tanto se explica aí. E andar de transportes públicos. Aqueles mais impessoais que são comboios. Por sítios abstratos e subterrâneos como passagens num tempo fora de órbita. Como o tempo do xadrez em Duchamp. E pensar que não me apetece tropeçar em palavras mas e no entanto e talvez.

E depois.

O problema do ruído. Por todo o lado pode até tudo estar calado e nunca está. O problema do estrondo, é que fere os tímpanos de uma dor que impede de ouvir o sussurro que sobra. A reverberar como uma membrana num orgasmo subtil.

A mim, que raiva, tudo me enternece. Tudo me embevece. Tudo me causa impressão. Chego a casa impressa de sinais que nem todas as águas diluem numa frescura de bem- estar.

Tudo me enternece no universo, quando olho para fora de mim. Tudo me embevece, tudo me intriga, tudo me aborrece. À vez. O mar. Grande e lindo porque me transcende e me transporta. Me remete para a escala ínfima que sou e tudo de caminho, implodido nesse instante de verdade entre escalas e sofrimentos. Mas, por me transcender parece reportar-se a mim como referência que não sou, excepto para mim. E na essência do transcendente está, o ultrapassar desse centralismo incontornável. Mas, transcendendo ou ultrapassando, ou sendo maior, ou submergindo, não encontro as palavras que de um modo diferente se abstraiam de um ser a partir do qual tudo se mede. Mesmo na transição para o absolutamente maior. O inalcançável. Será que ninguém se deteve por segundos que fosse a inventar nas palavras a ausência de si, do ser como aparente medida de tudo e de nada, mesmo do nada a que o remeta a transcendência de si por outrem… Tudo me causa algo de alguma sensação de algum sentimento de alguma prostração. E às vezes eu queria simplesmente alguma indiferença algum descanso e alguma superficialidade confortável de ser de sentir e de ver.

Mas tudo me faz qualquer coisa de dizível e pior, algumas vezes, alguma coisa de indizível. Mau estar. Ou bem. Tão bem, tantas vezes, que é encantamento sedimentado e enraizado em algo de mim que também é o resto.

E depois o dizer. Os dilemas do dizer. Desperto em todos os segundos nessa tremenda batalha de luzes e confetis. Todas as coisas se baralham na ânsia de encontrar caminhos de estrelas, mas se arrastam por vezes bem rente ao solo e bem amesquinhadas da dúvida. De que matéria se faz o estigma da liberdade. De que crueldade respirada e oferecida com formas de flores, às vezes, inadvertidas flores nas formas, dores de golpe seco por detrás de uma pétala, só como se fosse. E não é. Não era, ou é como se não fosse. De que rendas se tece esse paradigma de liberdade de que nunca encontramos o ponto final, nunca um parágrafo deixa por estender mais umas linhas de perplexidade – dúvida com método. Cadeias a inibir um sistema linfático de tentativa e erro na delimitação alheia da liberdade própria. Querida e sonhada. Como uma pintura em projecto. Nítida e pertinente. Cores definidas e composição. E depois, a desmultiplicação das vertentes de um caminho montanhoso de que às vezes sobra uma luz, uma intenção imprecisa e nada mais do que a decisão do passo seguinte. Em memória, um fantasma que se dilui na coragem do olhar. Um pouco isso.

Mas tudo me ajoelha a alma, de uma constatação de ser outro e que não parte, e em nenhum outro momento que não de ser assim. Objecto de uma natureza que se rebela à concepção de objecto de si, se não for a mera circunstância de ser olhar. Alvo. De. Passiva pessoa numa definição, por proximidade com outro, olhar de outro. Ou mesmo outro olhar. Simples olhar roubo de alteridade pura. Mesmo essa, remetente ao ser aquém. Farta de mim como ser. Farta de ser sujeito. Compreendo-me na contemplação do objecto. Fora de mim.

E depois.

A falar comigo, assim, diz-me em que matéria se rende a minha solidão quando há. Diz-me em que presas se prende o pequeno golpe de asa quando há. Em que vastidão afogar o olhar mentiroso. Em que grãos subjugar a pele. Castigar tudo o que a não ser. Diz-me, digo. Vamos beber mais vinho. O que ontem não foi nada em depois.

9 Dez 2016

Objecto discreto

Há dias que são o diabo. Esse cão. Um fim de tarde quase quente a disfarçar a perspectiva de declínio desse Outono de um ano qualquer esquecido de si. As folhas no chão, que, mesmo se não houve uma ventania forte e desarrumada a vencê-las, se deixaram calmamente cair da idade própria. Talvez num voluteio dançante sem pressa. Ou talvez a pique e com um ruído seco quase inaudível. Que não deixa dúvidas de estação. De cor, de dia seguinte. Mas a temperatura da tarde, sim. Não que estivesse calor, não me expliquei bem. Era só que não estava um milímetro de uma sensação de frescura, que fosse, nem um segundo de arrepio ou a vontade de compor melhor o bolero de lã fina. Tão fina como seda. Tarde a querer esquecer o tempo e a poder esquecer a temperatura, lá bem no meio da conversa, só um constatar ligeiro de como estava bom. Ali. Num final de semana de uma liberdade desusual. Horas de conversa mansa e fácil. Numa mesa no coração do jardim, da cidade. Uma estação que como quase todas tem dias que anunciam o seu fim e dias que são como uma quinta estação. Dias sem estação. Aqueles, em que a vida não dá, não tira, nem pesa. É. Simplesmente e com alívio. Mas circulares, estes.

Depois o voltar a casa lento e um pouco triste de voltar. De um esquecimento de toda uma camada do tudo. Que volta a mim, na volta a casa. Por entre as árvores no perímetro máximo do jardim, enquanto possível. O dia baixo. A luz, a já pouca réstia do dia, a esvair-se rápida. Sem frescura de maior. A mesma mansidão de toda a tarde. Foi talvez ao fim dessa linha traçada pelo caminho mais longo e antes de deixar as árvores pelas pestanas dos outdoors publicitários, que comecei a ouvir um som inquietante como uma respiração fantasmagórica a acompanhar-me os passos como um cão. O cão. Porque há dias assim. Como sempre não acredito facilmente em sensações insólitas. Há uma desconfiança atemorizada de entrar nessa porta como a não haver retrocesso possível. Uma hesitação. Uma atenção redobrada e olhar em torno. De mim, dos pés que pararam e com eles a respiração. Uma coisa de outro mundo. Mas eu não acredito. Nem no mal e nem em outro mundo. Em nada, mais. Nem em significados nem em sentidos. Mas nos órgãos dos sentidos, no momento puro de uma sensação. Nítida. Olfativa. Mesmo até presa de matérias da memória. Às vezes o cheiro nítido. Como aquele meio adocicado do alcatrão pastoso em verões de outro tempo. Porque acredito em outro tempo quando regressa em forma de sensações nítidas. Quase tão real ou mais do que o de hoje. Em que não troquei palavra com ninguém, nenhum cheiro me mobilizou a atenção e nenhuma dor a mais me prendeu a uma cadeira. Mas ali, como sempre a ensaiar o andar leve, porque quando os passos são leves, a vida flui. Pensar o contrário é um perigo. Como  nas palavras.

Parei relutante comigo própria por o fazer a partir de uma sensação tão insólita e estranha. Nada. Recomecei os passos com a mesma desenvoltura de sempre. Há que tornar os passos leves e com eles o corpo. E tudo parece perto do voo. E comigo recomeçou à altura dos passos aquela respiração desdenhosa e pesada. Inconfundível. Era. Uma respiração. Bem, uma espécie de respiração, entendi. Sentei-me no banco do final do jardim a fazer contas ao acontecido e mais ainda a toda uma história em potência que imperceptivelmente se insinuara na minha mente receosa de se ter alienado. Era mais isso que me ocupava naquele momento. Rever as sensações, as extensões a partir da perplexidade num primeiro instante, distraída. E que talvez eu tivesse, apesar de tudo a capacidade de acreditar em quase tudo, mas a sorte de pouco me acontecer, na escala do muito estranho.

Fico ali mais um pouco na preguiça de voltar a tudo. Quase noite, entretanto. As luzes a tomar lugar. As sombras no jardim. Olho finalmente com atenção, feitas contas ao sobrenatural,  os sapatos suspeitos. Eles. Afinal. A origem do mal, aquele. E recuei uma vida a partir daí. Os meus sapatos azuis de verão. Com bem mais de quinze anos e rosto sonso de novinhos em folha. De camurça escura e sola compensada. Completamente fora de moda esse ano e outros. Como costumo gostar. Mas como é meu costume, poupados anos a fio no temor de os gastar e na perspectiva de nunca voltar a encontrar uns iguais para sempre. Acontece-me isso com as coisas de que gosto muito. Ficam num museu imaginário de porvir perfeito. Bandidos. Por detrás da sua face impecável, de quem dormiu anos numa caixa, envoltos em papel de seda, escovados e com bolas do mesmo papel a resguardar-lhes os interiores não fossem esmorecer, ganhar dores incómodas, torcicolos. Ali, depois de horas de pouco esforço a ouvir-me a conversa à mesa de uma esplanada no meio de um jardim, no meio da cidade, e sem outros sinais de depressão que aqueles suspiros. Porque eram eles. Mal me levantei a voltar à vida, abateram-se-lhes os interiores da sola espessa e compensada de uma matéria invisível e desconhecida forrada a camurça escura em azul. Qualquer coisa neles, no interior daquelas solas altas, abateu discretamente um centímetro ou dois. E ao sabor dos passos aquele suspiro duplo, emitido por cada um dos sapatos de verão em camurça azul, de que tanto gostava e que ao olhar nada diziam do desastre que lhes comia as entranhas de cada vez que poisavam no chão. Ora um, ora outro. Aquela respiração pesada e desesperada como um suspiro. Alto, audível e sem dúvidas de realidade. Guardo-os, anos, pelas formas anacrónicas. Pelo puro prazer das formas, pelas épocas que evocam, pelos momentos colados a eles como um nome, um dia de um ano. Personagens. Luzes especiais. Como colecionadora que não sou. Odeio colecções mas gosto de formas e de sapatos como registo de vida. Poupo-os demais. E mesmo assim, aparentemente na sua vida própria e resguardada, envelhecem e adoecem. Deprimem. Talvez de falta de luz e existência.

Mais tarde levantei-me com pouca vontade do banco do jardim da cidade, e segui o meu curto caminho para casa, acompanhada agora de dois seres deprimidos, envergonhada daqueles suspiros a acompanhar-me como se torturasse alguém por debaixo dos meus pés. Mas antes, num olhar desprevenido para o lado, ainda a apreciar essa temperatura como ausente, ali mesmo ao meu lado no banco de jardim, como se sempre ali tivesse estado, o objecto. Pequeno, o cano curto e luzidio. A menos de um palmo da minha saia. Jurava pela minha saúde que não estivera ali desde o início. O início da minha pausa para pensar na respiração estoica ou sofrida dos sapatos velhos com ar sonso de novinhos em folha. Como disse.

Reconheci-o sem nunca o ter retirado da bolsa de seda preta, comprada num mercado de rua num outro lugar do mundo, em outro ano. Mas na realidade nunca o tinha visto para além de uma forma imprecisa a avolumar discretamente, por entre o drapeado da seda preta com flores brancas, bordadas. Da bolsa de seda, comprada num mercado de rua. Uma coisa de um contrabando tão implícito que nem o preço negociado o insinuou por instantes que fosse. Mas a bolsa jaz também ela envolta em papel de seda numa gaveta de coisas preciosas e secretas. Algumas. É uma coisa insólita. Esta. Até porque é uma estética de outros tempos também mas que em nada condiz com a dos sapatos. Nessas coisas sou rigorosa. Por isso não a levei comigo. Nem o revólver. Que nunca retirei da bolsa de seda do papel de seda e da gaveta secreta. Olho o revólver pequenino e perigoso e em volta a ver se outros olhos o reconhecem com é. Ou o veem, no mínimo. O que seria, no mínimo, tão embaraçoso como os suspiros a acompanhar-me a casa, pesados e persistentes. A hipótese do invisível, não é melhor. Colho-o nas pontas dos dedos, e no olhar de suspeita, a medo e aninho-o no interior do bolero de lã fininha, como a um pequeno bicho friorento. Sem saber o que lhe fazer. Nem ter nada a ver com ele. Nunca uma palavra o levou ao interior daquela bolsa de seda. À gaveta do roupeiro. Ao caminho. Ao banco de jardim. Caminho pela rua e sem querer algo em mim suspira inadvertidamente como se alguma coisa algures acima dos sapatos num ponto indeterminado, se tivesse abatido aí também Em mim. Para além de um centímetro ou dois de cada vez que poisava um pé no chão. E depois o outro. E sempre o mesmo centímetro ou dois. Talvez a pequena mancha distraída, de um vermelho escuro mesmo por baixo do revólver, no banco de jardim. Inocente. Silenciosa.

No caminho, algo em mim vai esquecendo tudo senão aqueles persistentes suspiros que não param. Afrouxo uma das mãos do peito e do bolero de lã fininha a esconder o insólito e vejo-a colorida de um calor vivo escuro e viscoso. Escondo-a junto ao bicho clandestino e sei de onde, dentro, se verte a cor. De que ponto preciso do meu desconhecimento anatómico desculpado pela pele. Previdência natural mas não infalível. Algo se rompeu dela ali. Não ouvi o som. Não senti a dor. Talvez distraída pela temperatura confortável e ausente. Chego a casa e a chave escapa-me da mão de cansaço. Com o ruído estridente do prédio silencioso por fundo. Percebo que não morri. Pelo ruído. Talvez. Há o som das chaves. De casa. E a casa. Lambo dois dedos para não sujar a chave e o sabor doce, o aroma inconfundível do chocolate. Desconfiava que me corria nas veias. Antes assim, qualquer coisa comestível a partir de um coração de bolacha – ou de suspiro – do que imaginar-me sempre a carregar uma quantidade repugnante de vísceras semi-desconhecidas. Antes um corpo abstrato. A verter chocolate quente. E não houve crime. Mas qualquer coisa.

Se fosse, era passional. O estrondo do estampido do impacto do tiro e o calor de um abraço. Mas a temperatura era ausente. Como disse. Portanto não houve crime. Nem história para contar. Mas houve qualquer coisa. E num dia qualquer começou a doer.

E depois, ela, ali, baixinho, a outra, ela ali baixinho, de frente, em confidência, em desespero, que a morte não pode nunca ser metáfora de nenhum abandono, abandono de si, de nenhuma indiferença, de si, de nenhum outro, de nenhum outro em si ou vice-versa. Que a vida tem um preço maior. Em abismos e seres da natureza deles, em mergulhos e tempos que os relógios param para observar, em perdas e ausências mútuas, ou em trocas de territórios como roupas emprestadas. Existir mental fora de si e existência sentida como habitada em si. E tudo dali, excepto a morte, tem um preço de vida sensível, visível ou invisível de aceitação tácita. Não há morte. Senão a que tem que ser. A única e não amada mas familiar a achegar-se mansa de falas porque o seu dia, ninguém lho tira.

Sentada à mesa da cozinha com aquele caderninho anacrónico das receitas, repensa quantidades e proporções. Um pouco mais de chocolate, mas experimentar com pimenta. Que quantidade arriscar, coisa a pensar muito bem. Talvez por tentativa e erro. Como chegara à receita daquele bolo cremoso, de comer morno, saído do forno. A verter chocolate ao primeiro toque.

2 Dez 2016