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Passos lentos os meus, pelos minutos das horas. A dar tempo e a conter a hesitação mortal. Como um inverno sem temperatura nem vento, mas tudo à espreita na escrita dos nós, nas esquinas das árvores nuas e planas. A natureza a hibernar guardada para outras certezas de rompante. O céu cinza compacta. A temer o descalabro do vento. Os passos ruinosos de insegurança lenta. Precaução. Ter que impor o avanço em caminho de nada. Depois o escuro e quase a terminar. Sem ter chegado. Mas aquela presença de respiração forte, desesperante, adiada madrugada. O desconhecido em espera na sua também hibernação agitada e convulsiva. O espaço obscurecido e ruidoso. Também. Um inferno esse de esquecimento e espera. O bosque. Como uma casa que dorme em sobressalto de vidas ocultas, fantasmas conversadores, rumores, pios, roçagares súbitos, aragens desordenadas que passam em correria para outras actividades do bosque. Da casa que dorme. Em sono agitado de muito. Coordenadas límpidas na folha quadriculada. Escrevo a paragem ruidosa no bosque de atalhos tortuosos, escuridões e sombras. Monstros. A tactear as penumbras aveludadas, a subir as paredes de camurça até à sombra mais alta. Da abóbada do astro. Planas evoluções no sentido do bosque, caverna, veludo, voltejar hirsuto nocturno e revoltado.

Espreito o mostrador partido no chão e pergunto qual é a hora certa. Quatro ponteiros como pontos cardeais. O norte sempre norte até aos pólos. O sul sempre. E depois tudo inverte. O vidro quebrado, uma pegada adivinhada e o coração de mecanismo metálico parou talvez. Aspiro o ar em torno e para cima. Em torno e para cima recortes de folhas baralhadas e revoltas. Em fundo o céu. Faço contas às horas de não dormir. Faço sempre contas às horas. É talvez a perspectiva lançada no ponto de fuga do depois. Linha de chamada de ali até ao horizonte. Recta. Até à linha do horizonte, da mágoa. Os monstros. Os olhos noivados de fresco na sombra pacata das pequenas luzes. Pequenos bichos. Pequenos rumores. Grandes intempéries à espreita por detrás das palavras que bordejam cada atalho.

Avança-se tão devagar como nada avançando por cima das nuvens. Num determinado troço do mundo, da floresta. Tão alto, tão imprecisamente rasgando a matéria invisível, tão em espaço fechado. E em baixo uma cortina lisa e esfumada e sem marcas. Pareceria o céu. O da eternidade. Sem tempo, sem avanço, sem dúvida. Pela luz. Mas era sonho de outra madrugada que não a próxima. Avança-se entretanto pela noite. A custo colocando pé ante pé sobre as palavras difíceis. No bosque.

A casa dorme. E de súbito, como um bicho enorme possante e poderoso na fúria devastadora de passos – pesados, abruptos – avança de nudez evidente e olhar ausente pelo carreiro conhecido no momento desconhecido de si. Ou não, talvez. Não há palavras em folhas como nas árvores. Sombras. Luzes baixas em fim de estação e de noite. Contemplo extasiada a capa imprevista daquela nudez. O olhar cego a guiar a fúria e o rompante dos passos. Vapores densos e mortais a emanar das ventas da fera desorientada. A pele a escavar um leito para o ouvido. O desejo, o corpo, a pele a arrepiar num caminho de beco urbano ou labirínticas paredes de vidro, o mostrador do relógio, o tempo, o corpo adiado, perdido, o desejo e o medo. De cobrir essa nudez com o corpo num longo afago de carne. Pesado sem temor à fúria nada que se compare com a espessura da pele, dos passos, guiados e cegos. Esse corpo.

Adormecido de si. Talvez. Ou cego também. Ou interrogativo lá bem no recanto mais remoto. O desejo de cobrir com o meu corpo insuficiente tamanha ansiedade. Acalmar e guiar. Atenuar o desconhecido que move esse desconhecido. Como um animal a fingir ser feroz. Indeciso, contudo. Perdido talvez na selva que se abeirava do seu lugar. Numa invasão subtil, imparável. E ao corpo. Infantil, grande, gasto, desperdiçado, maduro. Nu. Avançando à procura de algo impreciso, esperando não sabia o quê. Animal grande, semiadormecido. Nú. Sem nada. Como se perdido do seu lugar. Avanço para ele e pego-lhe na mão a querer abraçá-lo a não querer invadir a desprotecção que o vestia. Furioso. O bicho forte, pesado e violento. Doce. Mas tomo-o pela mão, guio-o pela mão inesperadamente pequena até à cama de folhas. Acompanho-lhe o silêncio. Para ser bom é preciso não lhe olhar os olhos. Imprecisos, indistintos, em fuga. Não olhar para não quebrar o silêncio a mais do que os passos pesados descompassados da fera. Fica o pequeno segredo entre as palmas das mãos. Pequena pedra.

Depois, antes, o ruido ensurdecedor da ventania, dos bichos estranhos desconhecidos e escondidos. Tapo-lhe o pêlo arrepiado talvez do susto. Da caçada infrutífera. Da procura. Da espera adiada não sabia de quê. Algo que era para ser noutro dia e não naquela noite. Tenebrosa e lenta. Ruidosa entre coisas. E ausência de coisas. Palavras. Pensamentos secretos de todos os ângulos. Abeiro-me do bicho que dorme súbita e pesadamente, denso e forte de compleição como se encerrasse todo o mundo. Ali. Tapo-lhe a nudez, a dele a minha, outra, com a manta de folhagem do seu mundo e em cada folha trilobada de coloração escura um olhar exausto, um suspiro de impaciência, uma ânsia de serenar, uma hesitação, um frio seco, um beijo adiado. Em cada nervura uma veia a latejar. Um eco da respiração. A fera. Pediu um beijo no sono temporariamente suave e dei delicadamente porque pediu. Não cantei para que dormisse. Não cantei para mim. Voltei pelo atalho reconhecido à clareira de luz entre a folhagem. A pensar a noite, a madrugada, a manhã. O ontem, o amanhã. As funções da pele, do corpo.

Posso chamar-te oxigénio, posso? Sentava-me na beira daquele leito revolto e ele escondia, soturno, a resposta por detrás de um sim ou de um não. Que tanto fazia. O sim ou o não, claro. Nunca nada, claro. Não que tanto fazia. Nunca dizia isso e seria o mais puro. Devolvo-o pela mão ao lugar. Como um urso enorme e eu coisa pequena. Disse-lhe vem. E chamo-lhe sempre o nome para não o ferir de amor. Devolvo-o ao iceberg desgarrado e tóxico nas águas a subir mas era para ser o leito. O seu provisório leito de bicho sem casa. Expectante. Mas esconde as páginas como comida para o inverno. Não li. O seu de sempre. De abandono. Nos arquivos de alvéolos, que escondem palavras fracturadas e esforço por detrás do opiáceo doce, angustiante, total e excessivo. Doce. Agoniante. No lugar escuro onde as roupas foram atiradas, quase rasgadas, para o chão, para quê. O requintado poder de nada dizer. Com as palavras vazias. O medo.

Quando avançou irrompendo da escuridão do labirinto em que se deita era uma luz de pedra. Uma folha de papel. Ou duas escuridões que se cortavam.

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