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Imagem: Anabela Canas

Como pessoas, dormem enroladas sobre si próprias, como bichos friorentos e mergulhadas fundo na massa espessa das roupas confusas e amorfas. E outras, arrumadas numa rigorosa comissura do universo, feito de pregas lisas e dobras impecáveis. Como umas se afundam, ansiosas ou desalentadas, num buraco profundo e escuro e como se na própria noite cósmica, e outras se expõem desatentas de perigos, desconhecimentos e sonhos, em que umas e outras se sujeitam a perecer de angústia ou desalento. Sonhos que são despedidas que já foram e sonhos que são reencontros com os que já não estando, ainda doem. Os mortos que começam a voltar quando se situam com mais clareza no mapa de constelações com que cobrem o céu. Privado. Como um toldo etéreo no pátio de cada um e na sua porção de mundo. E que voltam, sem que raramente seja para mais do que anunciar que já estão. Longe. Outras vezes uma espécie de ilusão passageira e doce, como para matar saudades. Aceites no imediato do dia porque não há como vencê-los senão com o momento seguinte. Virar a página, com o gesto de afastar o lençol. Dormir. Uma pausa no sobreaquecimento das emoções. Uma desistência precisa. Uma demissão até breve. Mas às vezes um pouco à superfície da noite, do leito feito lençol de água espessa e densa, em que nenhum corpo mergulha e os braços tentam cortar em braçadas sofridas e vãs. De bruços sobre um oceano viscoso em que o corpo quereria mergulhar e avançar ao ritmo remado do esforço despendido. Recorrente sonho em secreto receio de Freud.

Essa matéria estranha e confusamente mesclada, das matérias têxteis de uma realidade visível, e das camadas subterrâneas a um cenário interior. Um paraíso de todos os dias. As noites. Perdido e reencontrado como tal. Temido por insones. Por crianças. Por sonhadores sem rédea. No sono. Talvez a consistência exacta do conforto da protecção. Uma espécie de abraço da parte física da criatura a reencontrar no segredo da noite. Nas águas de colorido e densidade variada. Como as águas em Bachelard. As límpidas, transparentes em profundidade. Mas repletas de brilhos e tão calmas e sorridentes que paradoxalmente não se deixam atravessar. Espelho narcísico que nada revela de si sem o outro, o rosto que se contempla e morre de tamanha devolução. Ou as profundas insondáveis em si, e desconhecidas nas suas escuridões que tudo escondem e que nelas sugam o olhar. O engolem em profundezas por explorar, o perdem, devolvendo em si e de si, unicamente o olhar que nelas mergulha como ao interior de si próprio. As primaveris e superficiais, alegres, frescas e repletas de brilhos, e as viscosas e obscuras, que fazem do ser o retorno a si próprio, não em forma de reflexo mas à forma da reflexão.

Como as pessoas são diferentes e diferentes de como são com os outros ou os outros outros. Como se a cada uma, uma das faces dessas criaturas aladas caprichosas e míticas que personificam com caracteres diversos os deuses dos sonhos filhos de Hipnos, o do sono irmão da morte. Quando nunca se sabe afinal se não é unicamente este que espera de braços abertos recolher o corpo abandonado. Como se fora o seu irmão. E que às vezes se distrai para ele.

No centro do eterno retorno da casa. Cama, barcaça enorme como um monumento digno do espaço ocupado, elegida a sua natureza de pódio. Muito altas ou rasas a tocar a terra. Enformada de pesados veludos e pregas acetinadas em tonalidades ricas, de fogo e de luz. Pesados brocados em festa barroca, pueris poéticas de estrelas, geométricas e vastas linhas, rectas como autoestradas recentes de sentidos únicos. Sempre, ir e voltar. Em parques ensolarados, ou, pensando na deliciosa descrição de Ovídio, nas Metamorfoses, em que é a de Morfeu, de negro ébano, entranhada numa escura caverna: “Nunca lhe pode o Sol mandar seus raios; (…) Do lugar o silêncio nunca rompem/ Os solícitos cães, os roucos patos,(…) Nele alterados sons de voz humana” . E decorada com flores. Papoilas, as “fecundas dormideiras”. As do ópio verdadeiro como o dos sonhos. Alguns.

Era Morfeu – é – diz o nome, aquele que forma ou dá forma. Moldador de sonhos. Era talvez o irmão escultor das visões dos outros três. O dos pesadelos, o das coisas, o das ilusões.

Ser objecto. Ser objecto de si e não muito sentir ser mais do que isso. Essa dependência do espelho. Do espelho como reciprocidade. Ou como comunicação. Do espelho de um olhar a mais do que o de se ser em si e não mais. E precisar de ser em mais. Esta ânsia de comunicação de eco de devolução. E a barcaça-cama a devolver em espelho o que se procura. Em linhos ou cetins. Talvez o irmão fantasia. Mas nunca se sabe qual dos irmãos nos acolhe na noite. E não chegar o ser em si porque se neutraliza na ausência do eco de si em si mesmo. O sono. Se não se distrair para Tanatos.

Sempre esta dúvida da cor que é o nada. O negro profundo ou branco superficial.

Em branco. Sempre gostei de lençóis brancos como uma página. Matérias antiquadas, finas ou rústicas, de linho e algodão. Bordados à máquina ou à mão, que importa o valor das mãos, se estão lá. Sempre, com amor ou por dever. Um lugar em branco. Em brancos vários. De restos de recordações de família e de restos de recordações de recordações contadas. Recontadas. Ou construídas. No viver. Sobre o branco, como uma página. Porque é ali que tudo se faz e desfaz. E se refaz. Que os dias começam e que os dias acabam. E, como a alvura dos lençóis agradáveis à pele, a clareza límpida e nova de todos os dias a ter que recomeçar. Talvez a alma lavada de fresco e virada para a frente. Sem lastro. Com tudo o que foi e com tudo o que fica, fresco e limpo como se novo em folha. Em folha branca. Para recomeçar no ponto preciso em que se fico na anterior. O grau zero. Com todo o sono e o apagado pelo meio. Como se de tudo sobrasse uma alma limpa e nova. O que é tão transcendente como fazer a cama todos os dias. Amorosamente. Porque não se diz disso refazer. Fazer. Como se nunca tivesse sido. De fresco. Com lençóis bordados a branco sobre branco. A lembrar climas quentes e outros tempos. A lembrar a disciplina de outros tempos e rituais. Mas nunca puxar as orelhas à cama, expressão tonta. Porque fez o seu papel sem culpa, como lhe estava destinado. A lembrar a frescura de outros tempos e de outras idades. A lembrar o que é preciso esquecer todos os dias. A lembrar o que não se quer lembrar. E a lembrar o que se quer guardar de alma de duas faces. Leve e pesada em simultâneo. Leve e pesada como os intervalos da música. Pausas. Às vezes apenas pesada. De penas. Mas fácil de pintar em tons matinais. Transparentes a resguardar um dia diferente. Sempre. E brancos de síntese cansada e nocturna. Em branco para renascer. Como das cinzas. Como do fumo em que mais um dia se esvaiu, muitas vezes sem remédio. Sempre sem retorno.

Sem poder voltar atrás, sem poder querer. Antes a vida numa página em branco. Mais fácil dizê-lo que fazê-lo. Abrir a cama fresca e depurada à noite e serenar a alma colorida de muitas cores e sombras.

Acordar como se fosse a primeira vez.

Ando há tantos dias a pensar nisto do irremediável. Que é a vida inteira e tudo. Tudo o que se faz, tudo o que se diz, tudo o que se pensa. Não há emenda possível depois de haver acontecido, sido, feito, dito, desdito. Pensar, fazer. Dizer. Tudo e em tudo, o irremediável. Nada de ilusões, emendas, desculpas, esquecimentos ou perdões. Uma construção. Em frente e em altura. Às vezes, matérias de pouca qualidade. Que fazer à pobre imagem do humano que se é… Desfazer e empregar matérias de mais valor. Isso sim. Nas construções. Mas a vida não é assim. Tudo o que foi, fica. Para sempre na aleatória construção e destruição da memória. Com defeitos, efeitos. Um impacto só visível com uma dose enorme de fantasia no depois. Nem sei se, além dessa leitura meio fantástico, meio dedução, meio por meio fé ou interpretação, se vislumbram de facto conclusões, relações de uma causa, ela própria indiscernível e de um efeito desligado de todos os possíveis, de tudo. E de parentesco por atribuir. Mas uma coisa sei: penso, ou sei, tudo é sem remédio. Mas só se não fosse a aprendizagem dos materiais. As matérias  melhores na arquitectura dos dias. A conhecer, a acolher, a escolher a preferir. O dia depois do dia que foi, é o caminho possível. O que vem a seguir. Uma página felizmente em branco, forçada, teimosamente forçada. Em branco para escrever. Sim. Só assim esta sensação aterrorizante e de aliviada, se bem que temporária, eternidade é suportável. Até amanhã. A íntima desconfiança de que não é para sempre embora o que dói pareça ser. A absoluta certeza de que a vida já mostrou que não dura. A irremediável sensação de que se fosse para sempre tudo era talvez pior porque a fé no placebo ou no remedio se estendia nos dias preguiçosa, langorosamente.

Mas quanto se impõe no inevitável respirar – na escrita- Tão dominado por emoções que o retiram, mas nunca o suficiente. Quase nunca. E como tal. A sensação de que a eternidade é em cada momento, e a certeza do momento seguinte. Na melhor das hipóteses. E mas ainda, porque sonhamos, até amanhã. Aqui. Nunca à mesma hora – diria – nunca no mesmo lugar. Nunca a mesma de hoje. Mas a mesma de amanhã. De sempre, mas tendo dormido de fresco em lençóis brancos. Quando se dorme. Perto de Tanatos mas para a vida.

Abrir a cama à noite. Como um livro branco. Fechar o livro, o dia, a noite. A última página. Sobre o corpo. Tudo. A certeza de que só há uma vez para cada coisa. Como águas da passagem de um rio. Eternas, repetidas e únicas. Desfazer a cama. Como no amor. E depois, manhã clara, abrir o livro e sair-lhe de dentro como o dia, uma história por contar. Fazer a cama de lençóis em branco. Fazer o dia como uma página a escrever.

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