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Anabela Canas

Adeus é uma palavra tão em desuso.

Fico aqui a pensar, agora que me sento finalmente aqui, junto às palavras. Elas a brincar em redor, umas, a seduzir-me, outras, a fugir, uma boa parte delas. E submersas, aquelas outras. Como a parte maior, mergulhada fundo e a desconhecer. Dos icebergues. A não deixar, como estes, começar a perder a sua natureza e mudar toda a outra. Degelar por toda a terra e mar a subir. E que estas palavras eram para ser um pouco outras, logo no início. Tantas vezes acontece. Como as cerejas que sempre trazem outras alegremente agarradas. A fazer força para acompanhar as que partem levadas por mão amante, ou para ficar como se todas ou nenhuma. Fossem sempre as palavras tão belas e saborosas como cerejas. Quando são boas. E quando são boas, são – santo deus – tão boas. Sentei-me aqui a pensar em deus. Em Deus, talvez. A pensar como e quando penso em deus, porque será que penso. Andei a pensar nisto ao longo do dia. Como penso ao longo de outros dias. Aos pedaços, entremeando tantos outros pensamentos e tantas outras coisas que coladas fizeram o dia. E sempre a pensar e sem conseguir distingui-lo com a maiúscula inicial. E sempre sem ter a certeza de que o pensava em minúsculas.

E, repentinamente, salta como uma suave intrusa esta outra palavra cuja ligação à ideia que trazia – eu – me distrai – ela – no pensar que talvez dizer adeus seja, por defeito, dizer até sempre. Ligando essa ilusão de eternidade com que a ideia de deus anda a par – e com que se beija à despedida aqueles de quem gostamos muito e para os quais queremos existir sempre e para sempre – a um instante de ausência eminente. Porque dizer adeus parece uma expressão carregada de inexistência a vir, maculada de uma tonalidade definitiva e talvez mesmo por isso tão menos usada hoje. Em que mundo se corre como se não houvesse distância, em que o éter do espaço cibernético nos traz vozes longínquas a qualquer momento como se no quarto ao lado e em que tudo parece tão transitório que nada se sabe sobre o devir de uma palavra de despedida.

E depois penso, que todas as palavras em momentos importantes, deveriam ser como as roupas de ver a deus. As melhores as mais límpidas e reservadas para nos apresentarmos sem mácula, no nosso melhor. Como antigamente se guardava o melhor fato para ir à missa. Ou, numa acepção mais ampla, para os domingos. Talvez os dias, então, das coisas maiores da vida. E aí, sem fingimentos, sem teatralização de nenhum sentir, as pessoas apresentavam-se, por vezes, como nunca nos outros dias. Algumas com os únicos sapatos menos castigados pelo tempo e o trabalho, e, mesmo velhos de anos, engraxados a brilhar como estrelas. A camisa branca de casamentos e funerais, imaculada. Mesmo se puída nos punhos e colarinhos. E uma alma, capaz de confessar todos os pecados e começar de novo. A semana. Ver a deus. Essa possibilidade de transcendência da insignificância que se sente ser. Talvez. De esperança.  Que não tenho.

Às vezes tenho pena. Uma pena enorme de não o sentir. Mas é uma imagem pejada de monstruosidades egocêntricas. Formulada pela natureza humana à sua imagem e semelhança. Ameaçadora de uma natureza vigilante e castigadora. Num sistema de trocas. Tudo o que me faz detestar uma ideia que faz jus á escala humana. O humano na tentativa de formular o transcendente. De o enquadrar numa moldura reconhecível em que a pintura não é bela. Mas há outras ideias soltas e possíveis. Para quem tenha uma fé, não reduzida a essa imagem. Ideias possíveis, que talvez um dia envolvam um espectador desprevenido num conforto etéreo e acalentador. Parece-me uma paisagem possível de vir à mente e se instalar como tantas outras igualmente fugidias ao tacto. Não penso que me venha a acontecer. Não espero. Não desejo. Mas é possível.

Não posso dizer que quando penso nele, ou Nele, procure um sentido qualquer que me falte. Ou mesmo que esse me falte, ou quando me falta, para além da profunda certeza de que a vida em si basta para se justificar a si própria em continuidade. É, na verdade um pensamento de que se me entretém a alma, sobretudo em momentos de alguma serenidade. O que explica que não me observo num interesse por um fenómeno que, se em si me intriga, o seja por razões de procura nesse lugar conceptual, que algo me acuda. À angústia, ao medo, ao desassossego ou ao desespero. A minha perplexidade é por pensar nele. E pensar se, só em si, esse não é um dos fundamentos de uma existência, que ao ser negada, se baseia numa outra expectativa, fórmula, imagem ou fantasia, em que – nessa – se diz e digo não se acreditar.

Não sei porque penso nele.

Sei que não acredito que acredite nele. Mas não me atormenta o assunto. Só não sei porque penso nele. E é isso que me faz reflectir. Que entre a comunidade científica muitos há que deixam em aberto a hipótese da existência, e que alguns, mesmo, fundamentem a inevitabilidade dessa, é um facto. Muitos filósofos encontram também argumentos e fundamentos para tal. Mas o que sempre me atormenta, é reconhecer em todos aqueles que mais reflectem neste assunto e muito mais sabem do que eu, a mesma e limitada contingência que me tolhe. Uma estrutura de pensamento que não pode transcender as fronteiras da razão culturalmente baseada na linguagem. Formuladas nas suas bases fundadoras por nós e para nós. Num circuito fechado de humanidade. Na impossibilidade de encontrar termos novos para o que é tão difícil de explicar senão à imagem do que se conhece. E ele, a ele, não se conhece. Ou a matemática. Esse outro mistério de abstracção cuja ligação ao real é tão difícil de absorver. Padrões, leis, equações complicadas como uma língua estranha a demonstrar modelos do universo. Uma noção do tempo e do espaço, que a nossa ínfima dimensão e experiência torna limítrofe. Como nos subúrbios de uma cidade maior. Haverá qualquer coisa de inexplicável com os curtos artefactos com que lidamos. Mais além. Para lá do abismo. À beira do qual ficamos a tentar alcançar com os sentidos, a explicar com as palavras que servem os rios mas não o sentido dos rios e o tempo antes dos rios. E bastaria pensar no tempo. Ficamos à beira. Talvez de deus. Sem alcançar.

No fundo, não me importa por hoje, avaliar a consistência do que não é demonstrável, mas possível, para além da capacidade conceptual com que tentamos entender todo este enorme fenómeno que é o universo. Essa enormidade basta para preencher a minha perplexidade, de abismais perguntas que não tenho dimensão para entender. A própria vida, exige respostas sem claramente formular as perguntas. Todos os dias. Deus, é só um ponto eventual e longínquo, mais atrás no antes do tempo. E que, a ser assim, ficará para muito depois, no depois do tempo. E que me intriga. Mas tão longe.

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