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Alex Cross (Morgan Freeman): Tu fazes o que és, Jezzie.

Jezzie Flannigan (Monica Potter): Queres dizer tu és o que fazes.

Alex Cross: Não. Eu quero dizer que tu fazes o que tu és, se nasceste com um dom. De outro modo, tornaste boa em qualquer coisa ao longo da vida. E aquilo em que tu fores boa, não podes tomar como garantido. Não o trais.

Jezzie Flannigan: E se tu traíres o teu dom?

Alex Cross: Então, trais-te a ti própria. É triste.

In A Conspiração da Aranha (Along Came a Spider, 2001)

Somos o que fazemos. É inexorável. “Fazer” tem múltiplos sentidos. “Fazer” pode ser exercer uma profissão, executar tarefas, desempenhar funções. Tem um sentido eminentemente pragmático. “Fazer” pode querer dizer “agir”. “Agir” é “pôr em prática”, mas também “omitir”. É dizer palavras da boca para fora ou cheias de significado. Ou calar-se. “Fazer” exprime acções aparentemente incompreensíveis. É quando se pergunta o que alguém está a fazer. É o que sempre fazemos e temos feito. Fazemos também nada ou tudo e mais alguma coisa.

Há uma razão para reduzirmos “ser” a “fazer”. O que é feito tem conteúdos e diversos, tem diversas camadas. Fazer enquanto trabalhar, produzir, agir, actuar, deixar estar tem o seu próprio sujeito. Somos o que fazemos em múltiplas frentes. O registo é biográfico. O seu espectro tão amplo quanto pode ser amplo tudo o que fazemos. Os interesses que temos, os nossos gostos, preferências, inclinações. O que fazemos resulta numa expressão de nós próprios. Fazer exprime o nosso ser. A nossa biblioteca de livros lidos, a discoteca com a banda sonora da nossa vida, os amigos que temos, toda a nossa produção profissional, consoante as profissões. Fazer é ser em acção. Mas pode ser também todas as palavras que pronunciamos e as que nem percebemos como nos vieram à cabeça. O que é feito, o que se faz, tem um conteúdo específico. Pode ser altamente especializado. Pode ser banal, como o café da manhã.

Quando somos o que fazemos, num sentido mais radical, não queremos dizer que somos o conteúdo do que fazemos. Não é o trabalho feito, independentemente das mais diversas profissões. Há profissões quase que exclusivamente remetidas para os outros e percebe-se que não somos os pacientes curados, os alunos formados, os clientes satisfeitos, os cidadãos felizes. Todas as profissões e trabalhos têm o outro como pano de fundo, mas directamente podem não estar ao serviço do público. Há quem trabalhe no escritório, portanto, indirectamente com o público e quem atenda ao público.

Fazer implica sempre um conteúdo e tempo, muito ou pouco. Pode fazer-se sempre a mesma coisa e pode fazer-se uma coisa uma vez na vida. O que se faz ou tem feito depende assim da vida que se leva. O próprio conteúdo da vida, fixo em diários, agendas e biografias, com o seu ritmo e o seu tempo- é o que fazemos.

O que fazemos não é assim apenas o que produzimos, o resultado do trabalho, pensamento, palavras, actos e omissões. É também o tempo do lazer, quando não fazemos nada, desanuviamos, espraiamos, vamos apanhar ar. Há quem não faça nada a vida inteira. Há quem esteja sempre a fazer coisas. Ainda assim, oscilamos entre as horas em que fazemos o que fazemos e as horas em que não fazemos nada. Estamos sempre a fazer alguma coisa, então. A vida que temos é a vida que levamos. Todas as nossas acções resultam de escolhas. As escolhas implicam acções.

Mas se somos o que fazemos, parece que reduzimos todo o nosso ser, a vida que levamos e temos, à ponta de um Iceberg. É, sem dúvida, a nossa realidade. Não podemos negar que fazemos o que fazemos, porque é esse o conteúdo das nossas vidas. O que fazemos expressa como conteúdo a nossa vida. E, contudo, há um elemento casual, acidental, no que fazemos. Os outros que encontramos influenciam as nossas escolhas. Seguimos rumos numa direcção e não noutras. Retomamos possibilidades abandonadas no caminho. Outras rejeitamos para sempre.

Podemos fazer o que somos? Pode o fundo do nosso ser acontecer-nos primariamente e só depois pôr em prática o que quer que isso seja? Podemos ocupar-nos e todos temos de trabalhar, podemos fazer a vida inteira tudo sem termos sido nós próprios? A saudade de um talento nunca tido, a possibilidade de um dom nunca reconhecido, a oportunidade de uma abertura nunca havida.

A vida pode ser o nada que é feito por não ter havido nada para ser. E, contudo, estamos continuamente forçados a ser, a ter de ser. Mesmo sem nunca termos sido nós próprios, até quando nunca pudemos fazer nada. Somos nada, quando nada fizemos. Somos nada, tendo tudo feito?

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