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Imagem: Anabela Canas

Devagar. O meu tempo precisa de vagar. A minha alma anseia vagar espaço. São assim os dias desta longa arrumação e nunca chegam. Meses que são meio ano de lentidão a sentir a voragem. Desde que se apararam as raízes rente. E ela se foi e me deixou a arrumar anos. A sarar a vida. Como as mulheres iam para o campo. Para a ceifa e para a monda. São estas coisas de mulher. Ir ao cemitério. Como se a natureza humana delegasse nesse lugar estas responsabilidades que mais ninguém quer a ocupar espaço. E os dias e as horas a abalar-me como um vento maldoso. Demasiada informação. Dias complexos de atravessar em que é difícil subir ao que é aquele momento de chegar a casa. Finalmente. De sentir que se chega a casa mesmo se dela não se saiu. De descansar um cansaço de vida a pedir velocidade. Que não se tem. De descalçar os sapatos que não se calçou pela manhã e de fechar uma porta de silêncio sobre a ansiedade crescida hora a hora do dia. Que pede palavras quando em mim só peço tempo para chegar a casa devagarinho e pensar. E aí escrever. Às vezes o dia. Outras, outras coisas. Isso. Devagar. Preciso de um tempo devagar. Como devagar ando a arrumar uma casa. A esvaziar outra. E outra. A perder o pé um pouco na memória. A despedir da memória em cada objecto que vaga a casa que há que vagar. Devagar como só assim posso. E a alma a extravasar palavras e imagens a pedir forma e substância. Tudo pelos poros de dentro na direcção do invisível. E querer abrandar a alma e sentá-la à mesa com as ferramentas pequeninas e as tintas e as teclas. Todos os dias em que até a divisão celular me custa. A vertigem. E a chegar tarde a tudo. É o sinal que o universo me dá. Sem tempo para entender para respirar. E depois já é amanhã e ainda não acabei o dia. Entendo que não é fácil entender este passo. Em que tenho que parar a observar bem. Tudo. Dentro, de fora. E fora, de dentro. Em torno daquele núcleo que é o meu nome interior. E que me habita. E que é preciso arrumar bem. Com tempo e devagar. Sou lenta. No que dói.

Lembro. É uma recordação de infância e construiu uma fortaleza difícil de arrasar. O silêncio ansiosamente pedido exigido das palavras que podiam ser culpa. Um panfleto caído inadvertidamente em mãos quase juvenis. O terror dentro de portas como se as paredes. E tinham. Às vezes. ouvidos. E dos ouvidos vinham pessoas com eles colados a crânios acéfalos e levavam na maré livros pessoas e outros bens. Até ver. Os dentes cair de maduros depois de a dor ser demais. As batatas podres na cozinha assumidas pelo medo. Mesmo face aos iguais. Com bichos. As batatas dentro da panela enorme e as pessoas. Bichos. Como se. Com hematomas enormes escondidos dos filhos quando a roupa chegava para isso. Para não irem tristes. Mais tristes. Sangue pisado por ali. E excrementos. Já nada importava distinguir. Sangue ou o suor dos intestinos tudo terror e dor das mesmas vísceras em perigo de ruptura. E às vezes alguém. Que conhecia alguém, que quase dava sensação de culpa de cortar a dor em duas finalmente, antes e durante. Emendando em durante e depois. E os outros lá. Ainda. Coisa quase obsoleta de recordar hoje. Como uma ficção remota. Tenho relatos do meu avô, entranhados na memória longínqua da infância, velados, primeiro pelo cuidado, pelos ouvidos das paredes da casa. Pelos fantasmagóricos ouvidos do medo. Mas uma sobriedade a que a raiva já não contaminava. Um dia escritos um pouco assim em modo de a quem possa algum dia vir a interessar. Naquela sua letra bonita e sempre inclinada no sentido do futuro. Aquelas coisas das noites, interrompido o terror e a expectativa, pela realidade de um terror maior porque vivido e instalado. Nas casas. Ou nas celas. Os meios das noites. As noites da longa noite. Somos uns burgueses de merda hoje nas nossas queixas aqui. Num lugar de defeitos suaves. Mal comparando. agora. E de queixas corajosas de quem nunca perdeu um dente pela força. A meio de um sono pouco repousado. Para enterrar companheiros amigos ou desconhecidos. Ou de um tumor no cérebro, ou no estômago . Penso nisso quando penso nas dores da alma. Nos limites das dores. Nos lugares das dores. E nos que não quebravam e não denunciavam e não se retratavam. Até ao limite, para além do limite, e, às vezes, para além da vida. Deixada para trás. Para que outros levantassem os ossos quebrados e os devolvessem a quem os quisera. Às vezes acabava assim o medo. E o desconhecido e a justiça e a dor. Minto. A justiça não andava ali. Só uma passagem rápida a verificar quando era justo ao corpo desistir. Para ser levado como restos. Quando a alma não desistia antes e não denunciava e não implorava e não cedia.

Penso muito nisso quando penso na dor. No lugar da dor e nos limiares. Fronteiras entre possível e impossível. É isso a dor. Um território relativo. Ou de fronteira, terra de ninguém.

Fronteira. É um território de transição. O eterno presente, talvez. De passagem. Iniciação. Um lugar, á falta de melhor. Lugar de expectativa e esperança. O não definitivo e o sabor doce do desconhecido. O estranho, estrangeiro e belo desconhecido. O lugar não lugar da viagem. Porque é sempre de passagem e de provisória paragem. E por isso nunca estação. Nunca destino, só inevitabilidade. Entre antes e depois. Entre expectativa e memória, o que fica. Fronteira. O aqui e agora nem sempre reconhecido como tal antes de a perspectiva se instalar como distância. Lucidez. A dor como lugar de passagem.

Mesmo nesse músculo cardíaco que, de pessoa para pessoa varia entre a zona de conforto e a zona de risco de diferentes maneiras. O que resiste à velocidade instantânea e o que resiste ao esforço prolongado. Diferentes atletas, estes músculos. Em diferentes modalidades. E penso no que é a frequência cardíaca máxima. Que atira o músculo físico para a zona de perigo. Difere de pessoa para pessoa como o limiar de dor. De todas as dores. Em todas as partes do corpo. E da alma. Mas este é o mais difícil de quantificar à medida que nos afastamos das coordenadas objectivas espaço, tempo, função, actividade. Onde o ritmo desse músculo, físico se mede.

E neste tempo em que tudo nos atira para corridas em velocidade. Refeições rápidas e emoções rápidas. Penso.

Sim. Eu também sou uma pessoa acorrentada a esse suave ou nunca percebido como tal, jugo de uma alma dorida. De vida. De vida que nos falha. Mas não há dor que se aproxime de uma unha arrancada, um a articulação esmagada a martelo, um dente arrancado a frio. O corpo. Essa miséria que foi instrumento de muitos a uma sobrevivência que deixou por vezes espaço para a exaltação da mudança. O entusiasmo de pequenos prazeres. A liberdade da contemplação. A pequena ambição sem desapontamento. Transportamos a nossa própria gaiola. E num mundo assim, passando aos escaninhos privados e pequenos da alma que somos, cada um é livre de abandonar e alimentar a sua culpa, de ser abandonado e se rebolar na volúpia liberta de ser só sem ter. As pequenas raivas das pequenas coisas das pequenas vaidades e das pequenas ambições. A ocupar espaço. Na gaiola que levamos pela mão. Em que sítio? Em que lugar do corpo da alma, ou da vida da casa? Em que ficamos.

E depois, este território minado que é o da fantasia. E o da ilusão. E o do sonho. Para não falar, já da ficção. Mas são estados diferentes no mesmo país. Ou federação. Diferentes. Há que distinguir. O sonho…nos adultos torna-se difícil. perde-se talvez a capacidade de sonhar. Diria de outra maneira: passa a sonhar-se dentro dos limites do possível. E o possível é um país grande. Enorme mesmo. Tão grande como esta mania de situar cada fenómeno em nós numa parte distinta e mais simbólica do que real do corpo. Tudo vive nas químicas e nas interacções do cérebro. tudo se mistura numa alquimia que varia de pessoa para pessoa e que resulta ou não numa economia existencial positiva em função das alquimias que de outras pessoas convivem com estas. Situamos a alma em que zona do corpo e o coração – o outro – em que zona do cérebro. E a dor, esse alerta para os limites de resistência do corpo, da alma. E a emoção. Lugares. Em que ficamos.

Talvez esse português suave, pejorativo a qualificar-nos, seja uma característica ancestral de um certo tipo de coração. A precisar de um cigarro, como aqueles dos maços às risquinhas e com caravelas em azul e que não eram caravelas, e de parar para retomar forças para resistir. O azul calmo e reflexivo sobre o ouro e a velocidade da luz, nos antigos maços, e não o contrário como diz o dito. Somos talvez esse português suave. Quantas vezes a sentir o crescente da dor, da agonia e da raiva, a precisar de um pouco de retorno à suavidade que nos começa a faltar. A litlle tenderness, para manter a natureza de que cada um é feito. Parei na embalagem azul. Que o meu pai fumava e que ficou por ali – a embalagem do dia a seguir que não veio. Mais. Passou a amarelo vivo. Uma coisa solar. Sem torre de defesa rodeada das águas. Com embasamento atirado em frente a sul e ao mar. Como uma enorme, pesada, obsoleta barcaça. Entre o medieval e o renascido. Ancorada a terra sempre, lunar, era a sua natureza e a do rio a recuar, e para sempre. Esse maço está ali como recordação preciosa do tacto e de um gesto. Mas cada um desses cigarros, como os outros, pega fogo. Na proximidade do fogo.

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