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Imagem: Anabela Canas

São como marcos. Na beira da estrada.

Às vezes penso que a vida não aparenta grandes mistérios, que não possam ser reflectidos nas ínfimas manifestações inconsequentes de momentos de uma noite ou um dia, sem espectadores prováveis ou pressentidos. Por vezes, move-se como se nada ou ninguém mais existisse. Por isso a vida das vizinhanças, mesmo estas de passagem, sempre me fascinou pela presença incógnita do espectador, inadvertido e próximo, se bem que invisível, ignorado com indiferença, naquela estranha e ocasional liberdade de existir sem o olhar dos outros. Agudizada às vezes pelo silêncio da noite e pela amplitude da rua. Como uma caixa-de-ressonância inesperada. Gosto dessa emergência do real, nas suas tonalidades inconsistentes, e sem desenvolvimentos visíveis. Talvez por isso mesmo.

É a vida que passa pontualmente, em caminhos cruzados com os de outras vidas, sem se lhe conhecer o início nem a consequência. Um instante a planar nos momentos de outras existências, que por vezes agem como pequenos fragmentos de espelho sem mais questões a relatar do que a circunstância em si. E mesmo essa, por vezes plena de densidade e implicações. Mesmo quando desconhecidas. Ou as rotinas. As pequenas e redundantes obsessões. Fragmentos. Instantâneos.

Talvez um certo desgosto de histórias completas. De finais. Já basta o prédio da frente, sempre repleto de últimos capítulos. E que um dia, recentemente encerrou. E com ele ficaram por narrar esses, imaginados, inventados do seio das possibilidades e inevitabilidades de um jardim de gente no fim. Perdi o sono daquelas solitárias mulheres já quase depois da idade, no seu dormir irregular com janelas abertas sobre os últimos vestígios do mundo. Que lhes era possível. As suas telefonias minúsculas a partilhar a almofada. Os bens em saquinhos de plástico, bem enrolados sobre si próprios. A proteger em novelo a parca colecção de pequenos tesouros, um pente, um gancho…

E agora, onde andará a vida desse casarão? Que aguardará a vida desse casarão? Não quero que lhe levantem a cabeça mais um andar. O alto da cabeça. Com esta longa franja de telhas vãs um pouco acima dos olhos. Ficar sem essa fatia de céu que vinha presa à janela. Não quero trocar este excesso de luz diurna e o sono nocturno de velhinhas quase sem género nem silêncio, porque as próprias palavras as tinham abandonado e com elas a possibilidade dos intervalos, por janelas a incidir olhares turísticos em mergulho a pique sobre as minhas. Quero essa luz em demasia que me invade a casa até ao fim do corredor, quando me apanha as portadas distraídas. E fechá-las para não ferir as velhinhas antes do sono, com o espectáculo de beijos, mais do que um fugaz minuto que as faça sonhar memórias ou histórias de fantasia. As velhinhas que abalaram. Já lá não estão. No lar de idosas. Odeio esta palavra. Idosas. Como se velhinhas sofrendo da doença má da idade. Da qual alguém quis curar a casa grande. Por agora fecha serenamente esses cílios desmultiplicados, como de mosca poisada. A aguardar. Não digo que durma. Espera. Simplesmente. Mas a vida abrandou nela. Já não sou surpreendida por uma respiração mais forte. Audível como se não houvesse paredes entre nós. Em algumas noites. Já não oiço. Sim, espera. De respiração parada, suspensa, em receio do que vem. Como eu.

No outro dia alguém tentava ruidosamente abrir-lhe a porta. Sem o saber de dono e de hábito. Mas um homem bem- posto, e, de facto, com ares de dono novo. Não foi fácil. Abalei antes do fim da história a sorrir para dentro da dificuldade que o pobre casarão abandonado estava a tentar interpor entre o passado e o futuro. Na medida das suas possibilidades. Não deixando abrir a boca com a ausente sofreguidão de um futuro. Não se entregando assim, num primeiro assalto do desconhecido. Bem- posto. E com ares de dono.

Alguém grita lá em baixo na rua: Nuno – o nome é irrelevante e é outro dia, outra noite – donde vens, para onde vais e quem és…eu sei que vivo numa amálgama infantil de porquês, na ânsia de entender, e na vontade de perguntar, mas não chego a tanto nos meus assomos de coragem ou impertinência e nas perguntas que faço. Acho… Chego? Perguntar é uma arte que não tenho bem desenvolvida, que exige estratégia ou espontaneidade, e – sobretudo – silêncio. A margem de respiração onde pode nascer algo. E ali, de resposta veio nada. Que se ouvisse daqui de cima. Como as pessoas dão pouca importância às perguntas destes anseios. Está bem. Era a brincar. Por vezes quem pergunta não quer saber. Já me aconteceu. E a frustração de não responder está bem ao nível daquela de não ter respostas…é a vida…

Não sigo Nuno nem sigo o perguntador.

A esta hora, uma outra hora, um outro dia, na rua, a mesma rua, alguém toca um saxofone. E domina toda a noite vazia. Quase vazia. Ou é talvez clarinete. Um improviso melancólico e doce vindo não entendo de onde. Perto. Sem melodia. Da janela vejo pouco mais gente que aquela figura de mulher a subir a rua. Copo na mão. Avança dificilmente mas sem parar, e se não fosse o movimento de elevar a mão ao rosto não entenderia o copo. Avança aos tombos. Entre uma parede e um eixo que vai procurando assegurar. E de novo de encontro a uma parede. Só. Tem que trazer uma amargura ímpar na alma. Uma pessoa. Um amor. Uma desilusão. E agora passou. O improviso também.

Ficar à janela num dia de noite suave. Por mais que pise este palco do tempo, se é o palco não é a minha peça. Se é a peça não é o dia. Assim é estar fora de tudo. Num andar alto mas não demasiado alto para ser fora do mundo. Só na margem. Como uma ausência. E quando à noite o céu se abre em estrelas, é talvez a miopia que lhes dá vida. Em crescendo, alaradas e pulsantes. Mesmo se já não o forem, lá dos confins deste universo realmente grande, e se a notícia não tiver chegado ainda. Como tantas vezes retemos na vista, na alma algo que afinal já não é. Só não sabemos. Mas assim, dizia, é uma noite mais rica e plena. E nela, o instante é o beijo da eternidade. Um objet trouvé, um dessain trouvé uma realidade paralela a passar ao lado. Em mutação. Mas aqui, é porque estou. À varanda, nesta noite como as outras. E a pensar que a solidão é sentir que só existimos em nós. O que é muito, mesmo assim. Mas as camadas que se cruzam com outras translacções são demais e de menos. Umas vezes uma coisa. Outras, outra.

Ouvir vozes. Vindas do fim dos tempos ou do fim dos dias. A mesma terra de ninguém. Ou deste submundo parcial que se torna uma espécie de freak show em que nos desenhamos na estranheza ou se desenha a estranheza dos outros. Ou, nas margens, nos desentranhamos da estranheza dos outros. A certas horas. Uma mistura entre freak show e wonderland. Há coisas que de tantas leituras possíveis, acabam por não ter leitura nenhuma. Escreveu Kafka algures: “The right understanding of any matter and a misunderstanding of the same matter do not wholly exclude each other.”. Sobra o fascínio.

A coisa mais estúpida que alguma vez já fiz foi ter escrito o teu nome no braço com um canivete. Uma tarde que podia ser noite. Um lamento telefónico. Como uma voz off. Um rosto invisível, e o outro, invisível e sem voz. Lindo. Apetecia-me dizer bravo. Nas traseiras, num ponto qualquer da minha vida e de outras pessoas invisíveis no momento. Invisíveis sempre e para sempre irreconhecível aquela voz. Como aqueles sapatos poisados no parapeito da janela da voz. Ou de outra voz. Como vestígios únicos e visíveis de duas figuras a caminhar pé ante pé na beira do espaço vazio. Como vizinhos visivelmente invisíveis acima dos sapatos., alinhados em fila. Antes do salto. Talvez de invisíveis mãos dadas para tal.

Mas eu farto-me por vezes de vozes. Prefiro rostos. Mãos. No seu aparente alheamento mútuo. No seu silêncio. Sem raramente voltarem costas uma à outra. Que não num momento de transição, num gesto de flamenco.

É tão fácil carregar num botão, fazer um clic e iniciar uma palavra. Mas esta nem sempre é líquida. Por vezes é mesmo sólida. E rola inadvertida em função de factores como força, impulso, peso, superfície, textura. Indominável. Como um dado de jogar. Que rola e estaca no 1 ou no 6. Nada feito. É o aleatório ou os dados estão viciados. Como os fragmentos de vida. De dias. De noites que me tocam de passagem.

Mas é ao crepúsculo que a Senhora vem. E com ela muitos, circunspectos, em procissão, nas datas nomeadas. As vozes monótonas a desfiar a melopeia. E as velhinhas do lar fazem tudo bem. Faziam. Colchas bonitas à janela e cestinhos com pétalas de rosa, para atenuar a caminhada da Senhora e lhe emprestar o perfume da emoção com que lhe sentem e seguem a visita. Visita de médico. (Coisa para um curar cuidar rápido ou seguir os medicamentos). Que outra razão teria a Senhora para passar aqui…Vem por elas a Nossa Senhora delas. E a Senhora passa de olhar ausente, preso no infinito da sua alma de pedra. Em trajes de vir à rua. Um momento bom. Lento mas talvez não o suficiente para encher um pouco mais os dias. Delas. Mesmo eu, fico encostada à ombreira a fumar e a querer eternizar o momento. Só um pouco mais. Emocionam-me e invejo-as. Gosto que ela passe aqui. Fetichismo talvez. Ou, somente gosto que as velhinhas gostem. E agora que se foram, se a Senhora vem, pergunto-me.

O outro sobe a rua. De há uns tempos. A falar alto, sempre com a mesma voz de reclamação, numa espécie de lamúria mesclada de uma espécie de sacrifício que o empurra rua acima. Todos os dias o suave jugo. Sempre a descompor. Johnny! Sempre a mesma coisa, f…se. Lá está a palavra em f. sempre a pontuar-lhe as frases. Nunca mais venho contigo à rua que c. lá está a palavra em c. a ritmar-lhe cada duas frases. Alternada com a outra. Johnny! Ai, ai, ai, ai, ai! F…se, Johnny! Repete sem se cansar nem gastar o nome rua acima. A insultar, sempre naquele tom. Espreito. Da primeira vez. Uma espécie de rapaz velho. Encorpado. Johnny! É sempre a mesma coisa. F…se. E intercala regularmente dois ou três palavrões e sempre os mesmos. Também. Com o mesmo valor de Johnny. É todos os dias a mesma coisa. Diz. Digo. E continua rua acima. Todos os dias o mesmo tom lamuriento que se lhe desprende como serpentinas soltas ao longo da rua. Soltas mas seguidas e sem interrupção que não breves silêncios. E o cãozito, ordeiro e pela trela, nem água vai e segue na frente pelo passeio. Antecipa-o calmamente. Rua acima. Silencioso. Na sua vida de cão cheio de paciência para aquele dono que o adora. Lambidela aqui, lambidela ali. Na sua vida de cão. Os dois, na sua vida a dois. Todos os dias. F…se, Johnny! O raio do cão. Diz. Sempre a lamber o chão. Sempre a mesma coisa.

Sim. E por aí fora…

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