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Imagem: Anabela Canas

Está frio, dizia já. A antecipar, no sopé, a subida em crescendo difícil e a descida da temperatura. A imaginá-la antes que se avizinhe real e a sofrê-la na memória da pele. Está frio lá em cima. Para além de todos os carreiros íngremes sempre a subir. Estará. E estará sempre que o lembrar – o frio – e sempre que apertar os braços a tentar reter os fragmentos em que o frio me deixa a alma. Aproxima-se-me da memória em cada estação em que não há. Como um temor desnecessário e de irremediável verificação. Em cada estação antes e, absurdo, em cada estação depois. A torná-la antes.

Mas ali em cima, com um pouco de sorte, as nuvens abaixo. Distância a tudo, que o silêncio compensa. Às vezes, sinto-me a entrar num momento de um outro momento mais vasto, como quem entra num salão apinhado de desconhecidos, num lugar do mundo que nem sei onde é. E como que reagindo de olhar míope ao desconhecido imenso, olho em volta e procuro uma parede com uma tira vaga de vazio a que encostar o desconforto. Um lugar em que caiba essa estranheza imensa e momentânea, mas encolhida dentro de mim e por detrás talvez mesmo de um sorriso.

Aconchego um xaile enorme de lã em torno do pescoço e do longo casaco de lã de iaque, que parece ainda reter o cheiro animal, um pouco nauseante. Um pouco camuflada nas cores das lãs, como dos pigmentos daquelas terras rochosas desfeitas em avalanchas quase como as da memória. Olho para cima a reunir forças. Para o frio e a visão dos cumes e picos para lá das nuvens.

A pensar que outras vezes demoro a chegar ao meu vazio de quatro pernas. Dir-se-ia um banco de jardim ausente de gente antes de chegar. Ou recortado na paisagem. Ali na sua concreta negação de existência material. Mas é verdade que não o habito nem eu ao chegar, tal a forma como duvido existir. Talvez recorte também saído de uma caderneta de cromos. Chegar. Estar, depois. E noutro momento, partir. Arrastando uma ausência de dimensionalidade em busca de caderneta própria. Ou então, é mesmo o animal quadrúpede que me habita sem preencher. Mas o que sou eu? Isto perguntava a minha avó de olhos vivos e pequeninos. Nada. Não sou nada e por isso me dou mal com o monstro que me ocupa sem habitar em boa vizinhança.

Há coisas na vida que se repetem e repetem de forma irreprimível – como reprimir as estações? – é quase insuportável. Que se desmultiplicam como ecos, e repetem, e repetem, como uma música de que se gostou, gosta, e que se sente uma necessidade de respirar, como se dela dependesse a possibilidade do momento seguinte. E depende. Como de uma música que espelha um ritmo qualquer da alma não definível por outro meio, e do qual fosse o silêncio possível em torno. O que produz música como oxigénio em que se desenvolve o respirar. Há coisas na vida que se repetem e repetem sazonais, rítmicas e recorrentes. Venenos. Toxinas a entrar na corrente, reconhecida e familiar como um terreno fértil. Como músicas. A ouvir até à angústia final de ter que interromper. Como se uma hibernação em fim de inverno. Ou a exaustão e a agonia do vómito, do álcool. O corpo a virar-se sobre o seu avesso. Coisas como a música. Não a música, mas uma em particular. A estender para além do razoável uma emoção sentida. Uma droga tóxica. Entra no corpo um dia e torna-se necessária. A revisitar. E as coisas que mudam. E as que nos mudam.

Fim da infância. E um dia, sem aquele aviso prévio que afinal só talvez antecipe a desilusão, o meu pai troca o nosso Taunus 12M, carro familiar, doce e afável de modos, charmoso, verde como convinha e com uma risca branca, fantasia posterior. E surge orgulhoso da mudança com um carocha azul escuro. Volkswagen carocha, até aí reconhecido pela minha alma perturbada de estereótipos como um carro de pessoas idosas. Isto porque, a quem o conhecia e só, era ao maravilhoso e gentil casal da papelaria charmosa e fina, casal sem filhos e que, talvez por isso, deixava uma criança sentar-se por horas esquecidas num canto do chão a ler bandas desenhadas, até que a outra criança a iria, em desespero, chamar para o almoço. O sr. Ferraz e a dona Tininha. Casal idoso, sempre bem arranjados um e outro, quase perfumados ao olhar, ela com aqueles brincos enormes de fantasia de pérolas, ele de risca lateral descaída e impecável. Um amor os dois. E para mim como se idosos de sempre e para sempre. Talvez hoje os veja como possivelmente mal saídos dessa estranha meia idade e não mais. (Esse olhar de criança no absoluto presente. E este meu adulto no absoluto imparável nunca). E um carocha bege claro, rebrilhante e impecável. Carro de gente idosa, portanto. E o nosso, agora, lá em baixo num primeiro olhar da varanda, azul escuro, pesado e bisonho como bicho corcovado, a aguardar a aprovação de toda a família. Tive um desgosto pela perda do doce Taunus, e uma revolta ostensiva pelo ultraje deste monstro feio e informe que lhe sucedeu. Coisas. Olhei-o com olhar furibundo que fez o meu pai rir com vontade e indiferença. Quase chorei da incompreensão de tamanho desgosto o meu. Mais tarde chorei a sério de tristeza de o ver partir, doce, pesado e orgânico, quase. E mais tarde, ainda, foi um irmão longínquo dele, o meu primeiro carro. De estimação. E cor de pérola, quase, quase como o do sr. Ferraz.

Aqui, no sopé do frio que se avizinha. Por momentos no final da infância. Olho para cima a preparar a subida. E depois para o lado a rever a paisagem de transição. E depois para um ponto qualquer. Longínquo.

Às vezes encontro-te por dentro. Eu não sei, sequer, se estás lá. Mas chego ao teu lugar, ao que imagino ser o teu lugar de abandono, e sento-me à espera. Não sei se alguma vez estiveste neste teu lugar. De picos ou subterrâneos. Mas não é assim que as coisas se passam. Contudo, sei-o lugar de encontro. Descalços de sapatos levemente sujos de vida, penso, entramos. Não sei quem és. Nada, como eu, talvez. Mas não é assim que as coisas se passam. Para além de um ruído ensurdecedor. Talvez aí.

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