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Estava ali interdita e afogueada. Quase as pontas do cabelo e aquele cheiro sem equivalência. Do medo. Da chama corrosiva e corredora de fundo em velocidade e em desígnio. Tudo numa só vez. Talvez invisível mas tanto não diferia do que o não era. Havia talvez uma força a subir sabe-se lá de que órgão e a tornar inevitável correr. Também. A partir dali e independente da quebra, a obrigar. As coisas obrigam e sem estrelas. E o corpo corre. Sobre as pedras duras as teclas ou a simples e forçosa respiração. Correr de uma maneira qualquer contra o que vem. Do que se anuncia no vir do desconhecido que vem. Nada se sabe do correr nem do porque correr. Só e apenas correr contra – sei á – o tempo. As duas e um quarto mortais em luta contra as três e vinte caladas ou as quatro e trinta e cinco inevitáveis. Sim, luta de morte contra esse tempo que ameaça antes de o ser, fazer-se pagar caro em respirações difíceis.

Ou é talvez o fumo.

País, lugar em chamas. Sina de estação do corpo país lugar. Ou do corpo nem país nem lugar nem sina nem sinal. Retiro metade das batidas do coração para momento de necessidade. Nunca se sabe se vêm a ser salvadoras. Mais um pouco por excesso de precaução. E fico de uma lentidão fria, olhos esgazeados, revejo todo o corpo e das palavras digo sei estarem lá para o que der e lhes der na real gana. O corpus de possíveis e impossíveis mesmo as já entornadas do caldo ígneo da hora anterior. Bichos em fuga, terras a quente e de negro árido tornadas desconhecimento de cinco e meia. Seis e dez, oito e vinte e dois e três ou quatro anos depois. O negro a entranhar-se nas camadas abaixo da pele e da terra e do futuro próximo. Tudo ardido, fodido, mesmo. Para alguns mais nada. Depois de tudo.

Salvam-se os bichos, aqui, uma casa, ali, e do todo, fica muito menos. Para alguns, nada.

Peguei fogo? Foi fogo posto. Avanço no corredor entre as sombras e as árvores que sobram em sombras. Avanço a meia respiração, a meia vida, a meia consciência, das meias tonalidades, nas meias sombras que sobram. Em árvores. Avanço em silêncio comigo própria a dizer baixinho talvez durma. A dizer surdamente espero que durma ainda. Já. Abrando os passos na porta e observo retendo o pouco que sobre de respiração não vá acordar o monstro que dorme ali. Em parte do que os passos me levam ali. A mim. Dorme. Afinal dorme ainda ou dorme já e dorme na respiração regular e calma de quem não faz mal. Dorme. Observo. Ou respiro.

Respiro forte e lenta no momento, ali estagnado, congelado e parado, da porta quase fechada a abrir sem ruído e a escancarar para abrir os pulmões. Todo o tórax em liberdade de movimento surdo, muito silencioso e suave para a vida ficar. Assim. Um pouco para lá de adormecida entretanto. A ver. Fico ali a ver a respirar pela pele. Pelo ouvido atento e a mim. Pelo tempo. No limiar, recupero o todo do coração o todo do cérebro e do corpo sobra um todo. E do todo saio finalmente do tempo. Mas fico um momento mais de eternidade. Daquelas. A espiar o sono e no sono os registos ténues de sonhos a agitar. A estremecer o corpo. Telúricos arremedos de vida secreta e densa a querer sair pelos poros. Como se fosse pelos poros. E a respiração em sobressaltos e pequenos rugidos de dor, talvez. Depois serena por um instante de tempo não medido nem definido. O aleatório percurso pelas ondas. E respiro-o. Fico mais um pouco indefinidamente indecisa. Ali, encostada a uma ombreira que não é ombro ainda. Como chamamento disfarçado na calma no silêncio e na melancolia. Enquanto o tempo não volta ventoso e a correr. Mas vem alheado e sonolento, indiferente e esquivo. Como se não viesse. Por isso vou. Entro talvez no espaço do corpo sem autoria, sem autorização, sem assinatura, sem requerimento. Sem querer. Sem resistir.

E depois vou. Um pouco mais dentro do lugar. Descalço uns sapatos cansados do fogo. Fui eu? Dispo uns trapos de sinais informes. Que teria dito nos fósforos? Nas caixas. Deito-me encostada. No abraço. Para o que vier, me encontrar assim. O que é, chama. Se para queimar que seja rápido. Indolor não pode ser.

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