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Anabela Canas

Eu queria falar do assombro. Mas entro em casa com a alma agitada por estes matizes de luz e sombra que as palavras não ajudam a acalmar. Queria falar do assombro e queria falar do deslumbre. Entro na casa. Numa determinada casa de mim, em mim. Esta. Num determinado momento – tantos iguais de ontem, tantos iguais de amanhã. E, sem dar contas ao tempo, a mim, a ninguém, do que isto é, que foi, que virá a ser, entro. E, de novo percorro os novos corredores de todos os dias. O dédalo que trago. Um projecto vascular. Conto e calo. A meada que se desenrola sem fim, a perturbação de sentidos únicos. E, sem querer nem resistir, no labirinto que me acompanha. Sem culpa, descaço os sapatos do dia percorrido. Largo a ponta do fio. E tento. Viver aí.

Essa coisa etérea, de alma que vagueia pelos circuitos do sangue, pelos canais das lágrimas e pelos alvéolos pulmonares. Antes isso do que pelos corredores escuros da casa. Sem acender luzes. Aterroriza-me a escuridão. Mas não a sombra.

Ou o que se instalou por alturas do assombro, caído de muito alto como se nada fosse nada. Ou que se imprimiu no soalho a desdizer passos seguros. Ou que desbotou de mapas antigos por efeito da humidade. Entro até aos confins de interiores não vistos. Quartos antigos, inexistentes e fechados. Entro por ela adiante – a casa – tão desconhecida da teia. Que se lhe acrescentou, que se lhe internou. No momento do deslumbre. Encandeada. Acendo uma luz baixa suave, confortável no seu desenho das sombras. E elas voltam, voltam as sombras. A luz a atenuar o excesso. A cegueira. Dominada por emoções de luz e sombra a encher palavras inadiáveis. E entro na casa do assombro que é minha. Sem domínio do mapa, nem dos passos que se estendem cuidadosos neste chão raso e plano. Direito e levemente cálido. Soalho a lembrar emoções mais soalheiras. Porque de luz e de sombra se faz todo o rol dos dias. De luz e de sombra. De sombras. O que dá a ver e demais, retira ao ver o ver. Recolho comigo o pouco ver à casa da escuridão. Acendo a luz.

Ensombrada que estou, hoje, de palavras de luz e paradoxos de sombra. Porque não são os dias como dantes lineares de luz e escuridão às horas certas, é o que sei e não sei. E nada a fazer por hoje e amanhã. E ao fundo. Ao fundo de mim o bicho. Esperado. Inesperado e abusivo, que trago. Para dentro e de dentro de onde habita. Em mim e na casa de mim em que entro. Olho o corredor e bem fundo. De um lado a pré-história dos dias e do outro o dia é hoje. Não há que escolher. Penso, vou. No assombro.

De quantos volts se precisa para iluminar o deslumbramento, o assombro? O que fascina, encandeia e encanta. O que perturba, maravilha e cega.

Mas eu queria falar do assombro sem sombras. Do deslumbre à luz. Do Latim lumen. A negação da luz. A inundação. A raiz é implacável à palavra. Uma e outra. O assombro extasiado a encobrir-se na raiz invasora do latim, “umbra”. Assombro. Na forma regressiva de assombrar. Como voltar ao avesso do que nos assombra. De nós mesmos, aí. A interpretar, espaço irreprimível do pensamento a percorrer. Já os gregos antigos. E o seu espanto e assombro pela palavra transmitida. E em busca de tradução. O maravilhoso que nos suspende o olhar e o cobre de desconhecido. De sombra para reflectir. E retomar a luz.

Talvez seja preciso um dia de sol como o de hoje, para mergulhar fundo e negro no abismo do assombro. Na entrada do labirinto. Tapete mágico que, de imediato, catapulta para o seu cerne de desorientação. Atracção do vórtice. Com sorte, para aquele braço de acaso em que luz a labareda de um fogo térreo, que aquece o monstro que o habita. Cabisbaixo, apanhado de surpresa. Pequenino como se visto de muito longe e encolhido para reter o calor da chama esquálida que na rarefacção de oxigénio, ameaça extinguir. O lado que desvanece. A um deslumbre sombrio sucede uma pertença a cuidar. Chegando lá por entre as paredes do corredor. Um a fazer-se cada vez mais difícil de amar. O outro, a amar cada vez mais. É assim o labirinto. Pontuado de luzes. Pálidas e pontuais. A escuridão é ausência. Terror. Nada.

Está sol. Da admiração, também assombro do olhar. Essa atracção fatal pela problematização pela não indiferença. O movimento irreprimível produzido pela coisa admirada. De simples a complexa. De iluminada a escura, ou vice-versa. E no fim o conhecimento do vasto desconhecimento, invisível antes. Eu queria falar do assombro e sento-me nele com a eterna disjunção estudante. E depois queria falar da eternidade que é o que sobra desse assombro que tolda a vista por excesso de luz e escuridão. Essa intermitência demasiado veloz. A esta escala, de ínfima concavidade cósmica, de pessoa num pedaço de rocha insignificante. Numa outra, astronómica pode ser um nada no todo. De tantos minutos-luz. Os que não vivo, vivi, ou vou viver. Como uma sequência demasiado rápida de fotogramas numa escura sala de cinema. Estou naqueles fotogramas extraídos de algum lugar em mim para que sejam visíveis. E vejo-me de costas para mim, assaltada do assombro daquele conjunto. Mas na matemática a qualidade de um conjunto em si é irrelevante. O que conta – conta uma história. E o que conta é a relação entre cada elemento do conjunto e outros do mesmo conjunto. Como um álbum de fotografias – uma vida.

Arrumadas por tempos, por pessoas, por viagens, por épocas, parentescos, celebrações, estáticas sensações que um dia nos assaltaram. E um dia rearranjando tudo aquilo, misturando até se quebrar qualquer fio condutor, juntar lado a lado imagens que nunca conviveram. Como discretas e tímidas solitárias a estabelecer relações inevitáveis de vizinhança induzida … e criar-se ia uma memória diferente de uma vida diferente de uma pessoa diferente. Re-cordis, de novo o Latim: recordar, voltar a passar pelo coração, fio a fio. Fiar uma outra memória. Diferente. “Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois.”. W. Benjamin em tradução livre, em usurpação livre em descontextualização livre. Poder mudar a chave. Ou então ainda ele: “A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.”. E às vezes torna-se estranho, acrescento.

Tiro os óculos de ler e de ver. Volto à memória. Volto ao assombro, uma noção de belo terrível, consubstanciado em si mesmo, sem eira nem ética nem beira. Antes uma estética de luz e sombras. De padrões difusos e permanentemente reajustados. Ao tempo. Desajustados de todo o tempo. Pares de conjuntos disjuntos aqui e ali. Com as suas intersecções de vazio. Ou ilusões de um olhar demasiado aproximado. Talvez. Ou demasiada luz. E, por coincidência do universo a querer, apesar de tudo, dar-me respostas pelos olhos adiante, olho o ficus que me acompanha o olhar há mais bem mais de uma década. E são idênticas as circunstâncias de luz e o sombreado das portadas, a tantas outras tardes. Mas, pela primeira vez, vejo uma linha sinuosa de folhas azuis. Literalmente azuis, como nunca as tinha visto. Uma linha sinuosa a fugir com a luz. Sinuosa e depois mutante. De passagem. Que tento reter. E porque são lustrosas reflectem o que a elas não pertence – não? Como muitas impressões que assaltam os dias. Construindo, destruindo. A força das palavras, sempre. Lembro-me “Da fábrica que falece…” da primeira vez que li o título. De Francisco d’Olanda. A impressão forte da palavra. Falece. Mas era construção que faltava à cidade. À vida é isso que falta. Fazê-la. Dia a dia sem estoicismo vão face ao destino que parece, esse sim, por vezes, edificado e convicto em fazer-nos falecer a vontade. Em demolir a construção do que nos falece. Dia após dia. O ruir com ajuda. Ruidosa térmita. E só apetece dizer: pára. Pára tudo. Por momentos, que seja. Ou a explicação das trevas. A luz sobre o indizível que chega ao horror e volta. Porque nos apontam armas. Devia ser proibido.

Coloco as cartas sobre a mesa. Como para ler. A sorte. Minto. São fotografias retiradas à pressa dos seus lugares fixos, para que o seja sem hesitações. Perdidas, desorientadas da cronologia unívoca. Descidas dos seus andares e trocadas de casa. Num rodopio sem reservas. Inocentes. A mergulhar noutra vida. Outras vizinhanças e amores. Parentescos, dias.

A tentar refazer a memória. Testar. Porque do deslumbre nasceu o meu monstro e o seu labirinto habitado. Nada a fazer. Como falar de luz sem sombras. Como falar do assombro desassombradamente ou como contemplar o etéreo sem contemplações. É coisa que não faz menos sentido do que atribuir carinhosamente a cada luminescência a sua dose natural de sombra difusa. A cada luz em cru a sua forma inevitável de produzir sombra. Recortada à faca. Na intempérie de emoções mais fortes.

Volto-me para olhar os bichos. Bichos sedosos, naquele evoluir de minúsculas patinhas a ondular ligeiramente o corpo de estrias a negro, na caminhada que é longa. Para eles. Fugidos da caixa dos sapatos. O chão enorme. E noutro dia, casulos nos cantos das paredes nas costas das cadeiras. Nos braços do corredor. Do labirinto. E de súbito: umas asas pequeninas, gigantescas. A ver dali. A desembaraçar-se do pequeno constructo de fios sedosos e temporários. O céu a abrir-se. Perguntei queres vir? Respondeu naquele olhar turvado e imerso. Imenso. Fiquei. Abracei-me à fera que nem sentiu. Que se visse. A inércia do peso, difícil de mover. Por isso a fera é fera e o monstro é monstro e ambos são recém- nascidos todos os dias. Mas nascem já grandes. Lanço na mesa a criança que ainda é memória. Um combate de titãs em teoria. Duas desrazões que estão bem na balança prévia ao combate. Fico ali enroscada a ele. Se deixou é com ele. A batalha. Não em mim. Talvez abraçar o monstro liberte borboletas. Como bolhas de champanhe. Sei lá. As crianças não bebem.

Volto. Não é dia, que não de assombro. E da confusa impressão dessas sombras, delineadas e sobrepostas. Nem tentativa nem erro. Olhar o assombro na sua versão acabada de nascer. Frágil monstro encolhido no seu canto. E ansiosamente aquietar e aquecer em mim esse corpo de gigante perigoso e ínfimo. A cada um a sombra do tamanho que os olhos conseguem alcançar. É isso. A existência nunca foi uma ciência exacta. Encaminho passos irresistíveis afinados por um magneto. E contemplo-o ali. No fim do corredor. É tarde. Apago a luz. E “sub umbra floreo”.

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