PARTILHAR

Deixamos o final da história da Madame Paiva para, envolvendo o período de tempo da vida de Pedro Alexandrino da Cunha, rematar os acontecimentos ocorridos no século XIX na Europa.

A estadia em Paris de Thérèse Esther Blanche Lachmann (1819-1884) ocorreu durante a governação da França por Louis-Philippe I (Luís Filipe de Orleães, 1830-1848) e Napoleão III (1852-1870), que em 1840 ao tentar depor Luís Filipe foi preso. Terceiro filho de Luís Bonaparte e sobrinho de Napoleão Bonaparte, fugindo da prisão regressou a França após a Revolução de 1848, restabelecendo o Império em 1852. Com a chegada ao poder, Napoleão III nomeou em 1852 Georges Eugène Haussmann, o Barão Haussmann, como Perfeito do Seine para modernizar Paris. Ano em que Thérèse vivia com o suposto marquês, Albino Paiva de Araújo o seu segundo marido, a quem dera dinheiro em troca do seu grau nobiliário, quando numa noite de ópera foi apresentada, pelo cônsul alemão Félix Bamberg, ao conde Henckel von Donnersmark. “Herdeiro duma antiga família, com valiosas minas de zinco, ferro e carvão na Silésia [subúrbios de Munique], este belo e jovem de 22 anos, onze anos mais novo do que ela, logo caiu de amores pela deslumbrante marquesa”, assim refere o Padre Manuel Teixeira. Esta, a princípio com ele jogou, divertindo-se com a sua enfatuação. Guildo, desesperado, fugiu para Berlim e ela, reconhecendo o ambiente de segurança financeira que este lhe poderia oferecer, foi ter com ele. Daí “foram para Neudeck, regressando a Paris, onde, em 2 de Dezembro (1852), o príncipe Luís Napoleão recebeu o título de Imperador Napoleão III”, segundo Flectwood-Hesketh, que refere, em 1853 estar já o Paiva fora da vida de Thérèse, “Ela partilhava com Henckel o entusiasmo pela música, sobretudo de Richard Wagner, assíduo visitante”, da sua casa em Paris no lugar de S. Jorge.

Em 11 de Julho de 1855, a Madame Paiva “comprou por 406 640 francos a área 25 da Avenida des Champs Elysées. Este distrito estava, sob Haussnann, a suplantar o Faubourg St. Germain como centro da moda”. Então “contratou Pierre Maugin como arquitecto com uma hoste de pintores – Ernest Hébert, Gérome, Eugène Thirion e Paul Baudry; escultores – Barrias, Dalou, Carrier-Belleuse; e decoradores – para adornar” o interior do que ela pretendia que fosse a casa mais sumptuosa de Paris, segundo Flectwood-Hesketh, que refere ter-se mudado para lá só em 1866, “inaugurando-a com uma calorosa recepção que incluía toda a vida literária, artística, política e diplomática de Paris”. Em 1867, ou no ano seguinte, ainda o casal comprou uma casa de campo em Pontchartrain.

Após a guerra franco-prussiana

“Sabe-se que aquela aventureira – tão famosa no bosque de Bolonha como na fria Avenida de Lichtenthal – pôs em jogo os mais hábeis artifícios da táctica feminina e representou um papel de primeira ordem na obra tenebrosa de investigação clandestina e permanente que os alemães praticaram em França durante a época em que governava Badinguet (…). E sabe-se mais, que no seu faustoso palacete dos Campos Elísios se centralizou o serviço de espionagem alemã”, segundo refere Pinto de Carvalho, em Lisboa d’ Outros Tempos.

“Como era alemão e amigo de Bismarck, Guido teve de ir para a sua terra durante a guerra [franco-prussiana] de 1870, e Teresa, envolvida em intrigas políticas, foi com ele”, segundo Flectwood-Hesketh, que adita, “A sua hostilidade à França durante a guerra havia tornado Guido e Blanche antipáticos em Paris; por isso, retiraram-se para a Alemanha, para o seu castelo de Neudeck, que eles haviam feito reconstruir à maneira francesa por Hector Lefuel, arquitecto de Louvre”. Jorge Forjaz refere “Ainda viveram algum tempo retirados na Silésia, mas assinada a paz franco-prussiano, ele foi nomeado governador da Alsácia-Lorena. Regressando à vida social, impôs a amante nos salões de Estrasburgo e Paris, e provocou um escândalo tal, que ia levando a um conflito diplomático. Em 1875 resolviam o problema, casando na Prússia”. Ano que não se ajusta, pois então não seria já necessário a anulação pelo Vaticano do seu segundo casamento, devido a ser ela desde 1872 pela segunda vez viúva. Nas palavras do Padre Manuel Teixeira, “Tendo obtido do Santo Ofício a anulação do seu casamento com o <Marquês> de Paiva (segundo Flectwood-Hesketh a 16 de Agosto de 1871) a aventureira consorciou-se pela terceira vez com o Conde Henckel de Donnesmark” em 28 de Outubro.

Guido Georg Friedrich Erdmann Heinrich Adalbert Graf Henckel von Donnesmark, nascera a 10 de Agosto de 1830 em Breslau e morreu em Berlim a 19 de Dezembro de 1916. Foi um nobre alemão, magnata industrial e um dos homens mais ricos do seu tempo.

Esther Blanche Lachmann casada em terceiras núpcias com o conde Donnesmark, em 1875 saiu de Paris para o seu castelo de Neudeck, perto de Tarnovitz, na Silésia. Entre 1878 e 1883 Blanche fez grandes investimentos em jóias, gastando uma imensa fortuna na Casa Boucheron, tendo uma dessas peças, com quinze diamantes e outras tantas esmeraldas, em 2007 sido leiloada por um milhão e novecentos mil euros, o que veio reavivar o interesse sobre esta obscura personagem.

Com 72 anos, dizem uns, e com 58, diz o marido, “morreu em 1885, no seu Castelo de Newdeck – rica e condessa, mas os jornais parisienses ao noticiarem o acontecimento lembraram que, por de trás daquele título nobiliárquico, estava a famosa Madame de Paiva, que enchera as colunas sociais de Paris com o seu nome do casamento com um macaense rico e infeliz”, segundo Jorge Forjaz. Já Flectwood-Hesketh refere, “Blanche morreu lá em 21 de Janeiro de 1884 duma doença de coração e de cérebro, ‘rica e respeitada’ por alguns, mas considerada por outros como aventureira baixa e sem princípios (possivelmente até uma espia), que só adorava o dinheiro; e ainda que consciente do seu sex appeal para os homens, não possuía humor e era fria. No entanto, guardou até à morte o sentimento de adoração pelo seu terceiro marido.

Pontchartrain foi vendida logo após a Guerra Franco-Prussiana, mas não a casa de Paris, que Guildo tencionava remover, pedra por pedra, para Berlim, por razões sentimentais, projecto que não se materializou. Após a morte da sua amada, Guildo casou com Catarina de Slepsow, 32 anos mais nova do que ele, de quem teve dois filhos. Vendeu em 1893 o Palácio Paiva nos Champs Elysées a Soloschin, banqueiro de Berlim” e “em 1900, Cubat, cozinheiro-chefe do Kaiser, montou lá um restaurante, mas não deu resultado”. A proposta para aí se instalar a Câmara do 8.º Arrondissement não se materializou e em 1901, ano em que Guido ficou príncipe, foi vendido” e acabou por fim nas mãos do Travellers’ Club de Paris, fundado por um grupo de ingleses ali residentes, que em 1904 tornaram o Palácio Paiva na sua sede.

Esta história termina no Castelo de Newdeck com Guido, então de novo casado, a permanecer durante longas horas num dos quartos, que ele mantinha sempre fechado. Certa vez, esquecendo-se da chave na fechadura, a sua esposa curiosa, ao entrar, deu um salto ao deparar-se com o corpo da Madame Paiva, a famosa judia, bastarda, espia, três vezes casada, muitas outras amancebada e esbanjadora de fortunas, ali guardado em formol.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here