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Há uma relação qualquer entre a coragem e a insegurança, que sempre me detém longamente. A pensá-las. A possui-las. Cada uma. Ambas, na sua resolução de equação maior. Não se excluem. Não se acrescentam. Têm uma alquimia própria. Uma vida no fio da navalha em sangue. Um casamento difícil.

Porque me acontece entrever aí uma chave em bronze de tanta coisa. Aí, no cruzamento das duas, numa esquina repetidamente virada na vida. Uma relação que não é directa nem inversamente proporcional. Na vida, no humano que é uma parte da vida que nos ocupa biologicamente e nos ocupa o espaço de sentir, sentir vida, e nos ocupa o espaço de pensar, pensar-nos enquanto passageiros. Talvez. Numa linha do tempo que as estradas imitam. E porque nesta relação, parecida a uma vizinhança aleatória entre uma habitante feroz que luta pelo espaço do patamar com a vizinha, igualmente decidida, se refazem todos os dias as resoluções no épico de uma vida a medir forças com a vontade de desistir. Mas essa, é uma outra vizinha que está residente no andar de cima ou de baixo. Mais no fundo, Talvez. Num andar de fácil acesso, com perfumes de desalento e de preguiça e de teorias várias de natureza poética a justificar a astenia. Há um andar na profundidade de um edifício existencial, situado talvez nos alicerces de uns, ou nos terraços perto do céu, em outros. Tudo a depender de outros enquadramentos para a metáfora escolhida. Onde estamos mais fundo? No profundo e escuro da cave de um edifício ou na ampla abstracção búdica de um acesso ao ar e à diluição no éter para além dos degraus concretos a subir. A descer. Com os pés sentidos. Passos sentidos e acções com sentido. Ou tudo centrado no grande zoom sobre uma escrita interior. Uma electroencefalografia do sentir.

Momentos – ela toca-lhe o ventre com o peso nítido da face. Ele toca-lhe a face com a delicadeza da mão. Ela toca-lhe a mão. Com a dúvida imprecisa. Da ponta ínfima, e já quase esquecida das sensações, dos dedos. Indecisos. Esquecidos, como se uma mudança de plano cinematográfico deslocasse a câmara dali. Ele toca-lhe a alma num adejar imperceptível a olho nú, mas ela não sabe se sabe de certeza. Grande plano, agora ali. Ela está ali mas ele não sabe onde. E assim se pode diluir um momento de alguma coisa contido. Insegurança. Coragem. Indecisão. Dúvida. Um lapso de tempo, um intervalo na impressão. E o tempo acaba. Palavra fim e todos se levantam a velocidades diferentes das cadeiras da escuridão da fantasia do filme. Fica-se assim entre vida e vida.

Animé. Animação produzida em estúdio. Qualquer animação de desenhos. Figuras que por magia da teknè – estranho como do grego, que harmonizava conceitos de arte e técnica numa única palavra, derivamos para o preconceito associado a uma delas como se maculando a outra – ou por artes mágicas, ganham vida própria. Da sua essência, o movimento, toda a fantasia possível na capacidade de ilusão que esse fantástico ingrediente, e quase por si só, nos catapulta para uma realidade própria. A da ficção. O movimento. No espaço. Só. A desvincular o objecto da sua natureza própria envolvendo, uma outra da raíz do inconsciente espectador: anima ou animus. Em que cada um se deixa levar ao seu modo irreprimível.

Uma outra forma de dizer animação. Algo em que nos deixamos fluidamente levar, abstraídos, no tempo. Nesse tempo de consistência variável. À la carte. Quem somos nesse distender da vida, nesse desenrolar ininterrupto, e indefinidamente, estranhamente variável. Algas ao sabor da maré, ou almas a criar nós e circunvoluções que estratificam o tempo ao sabor de emoções apaixonadas ou brandas. Esse tempo que devora a consumível paixão mas ateia. Da profundidade incendeia sem olhar a escuridões maiores, da mesma que desdenha a mão que emenda. O que para o tempo não há.

(Porque me acalmam as paixões efusivas, paisagens paradas. Paradas e letárgicas como se nada houvesse de força motriz nenhuma. Onde nada se passa ou virá depois. Acalma no possível confronto com a terra que é onde a alma não deveria opor voos e de onde não deveria muitas vezes elevar-se insatisfeita e tormentosa). Talvez o tempo. Essa obsessão que tenho de algo que não tenho porque não posso ter. O tempo.

Talvez o tempo. Em que uns, como nas palavras, inscrevem  a simplicidade sintética de uma afirmação sim, com todo o peso e lastro existencial, contido no momento da memória da ausência da memória do mergulho profundo e perene em águas que o tempo leva mas não necessariamente lava. Toda uma síntese segura de o ser e com prazo longo e dedicatória sentida. Outros na desesperança de uma interrogação de ainda de mesmo de talvez ou de já não. A eterna interrogação sentida e dorida da insegurança. Do querer, do dizer, do nem querer sem dizer ou. Sei lá a deriva. Nunca a esses seres lhes chega a enormidade deste ser inteiro para a vida. Ser para a morte. E dizer afirmativo. Sem prazo. Uma questão de economia de pontuação.

Ou talvez a chave seja de matérias mais finas. O vento. Essa passagem do tempo que se abre e se fecha em si. O que não se perde no nunca se ter. Como o tempo. Do tempo perdido. Em busca. Essa busca melancólica que só a cafeina retinha nos limites do suportável.

Mas isso se era em Proust, perdido este na elaboração melancólica e exaustiva de uma memória de sonho, de um corpo, realidade do sonho realidade de uma memória de um sonho, um corpo sentido e sensual junto ao seu, encostado com todas as forças da memória e do sonho, e de que afinal sobrava nada. O nada do acordar com a percepção da sua própria perna tornada sensação e desejo e outrem, nos caminhos inexpugnáveis do sonho. Da desilusão e do acordar. Não existe tempo perdido. Não existe. O tempo é um bafejo impreciso como onda indómita de uma maré enchente, ou de uma onda em quebra de alento, recessiva na sua maré vazante. À hora a que chego à praia, ao dia, nunca sei que onda me espera no momento de ali estar. A tumultuosa e impetuosa onda que avança inexorável ou a que avançando recua sempre um pouco mais como uma metáfora de vida a escoar-se. E, no entanto, uma coisa é certa. Nada resta da maré anterior. Mas o mar é sempre o mar. E o tempo. Que não se perde porque nunca se possuiu. Talvez ele a nós, sim. E nos perca. Um dia.

E assim os castelos de areia. Nada tão belo como o que se constrói independente da certeza de perder. Que nunca nos desaponta. E, no entanto, dizia o poeta: tudo vale a pena. Não se retoma o tempo, não se volta ao tempo, não se retém, não se possui. Nem para depois nem o antes impalpável a que quanto, ou enquanto ou muito, como se exista, chamamos memória. Uma paragem no álbum de recordações como numa estação de montanha alheada do mundo. Remota. Não se possui o que não existe ainda nem existe já. Jamais a mais do que o momento em si. Em que, contudo, nem evoluímos como numa metáfora de espaço que erroneamente confundimos com as possibilidades imagéticas de que a mente tanto precisa, envoltos nele como numa onda de aragem quente, que nos embala como planadores, sim, em que embalados voamos numa linha leve e acima de todas as coisas matéricas que nos ancoram ao espaço, esse, real. Nunca deixar de os fazer. Só porque vão sempre com a próxima maré.

Talvez seja quando o tempo começa a envelhecer um pouco. Um pouco só. Subtilmente. Que se descobre o tempo novo e fresco de cada dia. Talvez aprender a esquecer aquilo que não se pode mas tem uma maneira particular de ser esquecido sem ser. Ficar simplesmente ali para trás. E talvez sejam os sentidos os anseios a comandar. Os sentimentos talvez. Seguramente mais do que talvez. Não é o caminho mais fácil o de enfrentar a dor em duelo de morte. Em que morre a dor para sempre e tudo o que a ela lembra. Ou há um acordo amigável a ultrapassar padrinhos e conselhos de sanidade e protecção. Só quem está de frente para o adversário pode decidir apertar a mão e seguir caminho com tudo vivo. O sentir e a dor. Cada um para seu lado em respeito mútuo. E tudo se abrir em possibilidades porque o duelo foi anulado e passou. Para sempre passou como tudo até ver. O dia novo. Mas o tempo é como o mar. Não posso mergulhar esquecendo a linguagem dos músculos aprimorada antes. Não posso esquecer nada nem deixar para trás o desejo de nadar. O perigo. Sempre. E depois, ainda, o tempo vem. Esse. Que não existe. Essa linha de nós. Onde se desliza. Adeja suavemente ao sabor da aragem. Sou um cálamo. Nada mais do que um cálamo abalado. Pelo vento, talvez. Nas infra-estruturas. Ou então embalado aí. Como se a vida. Mas todos os dias. Cada dia.

Madrugou impuro e impenetrável como só. Talvez só. Ele. Eu. Não penses, eu, ele, que algum dia será de seres mais real do que a realidade do sonho. Eu. Ele. Tu. Mas não tu, eu. Ele.

Talvez ao tempo se deva um tratamento de amor. Generosidade que não tenha connosco – mesmo.

E às vezes dou comigo assim. Só a realidade é sonho. Tudo o mais, ilusório. Sem excepção. Tudo é real. O sonho. Como o tempo. Ou então, nada. No outro dia a fotografia de uns degraus que levam a parte nenhuma. Um lugar que é um olhar de memória. O espaço ainda. Mas aquele tempo não. E a vida disparou a partir dali. Inacreditável disparo sem limites. Ainda estou sob esse signo fatídico e inacreditável na altura. Talvez por isso esta disposição um pouco escheriana. O efeito de um olhar retrospectivo sobre a enormidade intangível do porvir. A partir dali, naquele momento. Mas não há colorido repetível para o de uma alma enamorada mesmo no seio tormentosos de intempéries. Em cada dia se deita consigo todo o tumulto de anos imprevistos, caóticos e ficados para trás. E, contudo, não me deito vazia do dia que foi imediato e antes. E do dia que talvez se avizinhe. Quando assim é, esqueço para não dormir em vão. Não se pode. Tem que se adormecer no ombro de amanhã ou depois. Não há outra possibilidade. É talvez o sonho redentor. O anjo que não esquece na sua distância. O ombro etéreo de uma ambição discreta e secreta. Não quero ser estação de passagem desatenta de uma peça qualquer da vida. Somos estação de passagem. A diferença está na qualidade. Eu espero meu amigo – digo-lhe – que entres com as intempéries e deponhas as asas molhadas no cabide à direita da entrada. Que retires daí as asas domésticas que não te magoam o flanco ou a cintura cansada e te sentes ao meu lado a escutar as batidas do coração está tudo aí. Vai estar tudo aí. Os enormes e gigantescos seres do amor que vivem em nós como no fluir imperceptível do tempo, e nos quais vivemos. Que amamos em nós mais do que partes de nós e em que vivemos como casas e refúgios. Num jogo perfeito, perfeito jogo de espelhos. Fecho-me em casa na tentativa de refugio da violência monstruosa do que me acomete. Me abalroa. E me gira no rodopio veloz da vertigem do sentido de dentro.

E, como uma onda veemente, quebra na areia e mais ainda num quebra-mar. A vontade. irrompe com o poder destruidor ou construtivo, feita de toda a cor, e quebra. Quebra como se nunca tivesse vindo inteira e prestes a arrepanhar o tempo antes de perdido. Mas ainda não se respirou fundo e foi. Até à próxima maré.

De cada vez que me sento com o desconhecido. Sei que é uma vez a partir daquele exacto e imperdível momento. Sonhado talvez para trás. Sonhado para a frente. mas, de cada vez que me sento com o desconhecido, é o momento que vale a pena sonhar. Aquele exacto e preciso momento. Um eterno início. Nunca um eterno retorno. O início do sonho a sério. Do encontro. Com a ilusão a formar. Com a fantasia-porta. Com a real validade de tudo isso. Com a realidade. Com todas as sombras e reflexos que assombram tornadas matéria e visão. (Às vezes gostava de pôr vírgulas entre parêntesis, por isso não as coloco. E penso como o que está e o que não está, se pode demonstrar equivaler-se). Suponho que quase tudo o que alguma vez amei, algum dia se sentou à minha frente neste encontro com o desconhecido. Mas ainda há muito a fazer. Tudo é real. Ou sonhado. Ou a mesma coisa.

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