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Aesta hora, em que tento pôr ordem nas palavras, noite já feita, inúmeras traças esvoaçam por aqui. Olho-as com o olhar desumanizado ou simplesmente alheado – e uma palmada rápida e seca seria suficiente – de quem encontra ali a pequena metáfora caseira, vinda ao encontro de outras perplexidades. Porque elas têm que se alimentar, as traças, não as preocupações. Mas eu não gosto. Mais esse olhar, do que o de qualquer respeito pela sua essência, até mesmo em termos cromossomáticos, tão próxima da minha.
E tudo o que a natureza produz é natural. Já a razão é a coisa mais artificial que há. A ética, a moral, a estética, a filosofia, a religião, a costura, a geometria, a arte, a linguagem, o estado, a comunicação. Construções. É aí que se situa toda a monstruosidade e não ali. A natureza, à luz de muitas elaborações normativas, também produz monstros, aberrações, raridades ou anomalias. Mas também estas, fruto dos mesmos mecanismos, os do crescimento, da oxidação, da morte celular, da recombinação de genes, de sinapses que dão o impulso químico ou elétrico certo. Ou errado. Nem sempre se sabe qual seria o impulso certo. Em que se fazem ou desfazem pensamentos, registos da memória, funções, sensações. Do descontrole sei lá de que momento da pré-disposição genética. São fugas à norma, e essas expressões com que as designam, limitadas a critérios nada rigorosos, pouco além, por vezes, de uma dimensão estatística. Ou uma motivação vinda da clausura em padrões de segurança e normalidade, de que muitos necessitam na sua definição de si por oposição aos outros. Uma oposição bélica.
Todas as fugas provocam instabilidade no outro porque abalam as suas frágeis seguranças. O que é diferente parece contestar aquilo de que é diferente. E aquilo de que é diferente, reage com agressividade fulminante da auto-preservação de normalidade, como se esta fosse minada. E é. Mas de dentro e não de fora. O espelho que muitas vezes não sabe que é. No corpo do que é natural, nascem disparates da natureza, ou lirismos ou violências em vários graus. Mesmo aí, onde, para lá de determinados limites se define o território da doença, há fronteiras por definir. Entra-se no domínio da construção, do que é normal e do que é tratável, do que a sociedade, o estado reconhece, e do que não. Mas, se também de corpo se trata, mais ainda do domínio equívoco das ideias, emoções, pulsões, da construção de si enquanto ser no mundo e ser para a morte. E para a vida. Entretanto. E aí, então se situa o pântano maior em que se afundam ou batalham as grandes dúvidas sobre as fronteiras. As da doença e da sanidade. As da diferença e da normalidade. Da legitimidade ou da criminalidade. Em que se debatem uns e outros, curiosamente. Onde a criminalidade se define a partir do mal causado ao outro. Tal como a doença é por definição o território do sofrimento em si. Em última análise sofre-se da existência total e sem tréguas, nas suas agressões e vazios. E a cura é radical para alguns. A desistência desesperada ou lúcida, sem o céu como limite para o espírito. Mas as profundezas da terra, com os seus vermes a concluir a obra no corpo.
E a identidade. O corpo como lugar da identidade, também. O ser como construção e os seus contornos de inevitabilidade. E os direitos do Homem. Voltando ao que é natural e ao que é desenhado. A questão maior, com redutos intransponíveis. Os do sentir. Mesmo esses pontualmente redesenháveis, mas não sempre. Os de ser. Para além de toda a vontade construída, de todas as estruturas tradicionais e sociais. O território do pensar, quantas vezes fora dos padrões e diabolizado mesmo que inócuo. O delito de pensar ou de acreditar, como crime a punir. O da liberdade de ter direitos. O delito de ser, só porque diferente. O corpo-delito. A alma a olhar o corpo.
Poderia estar a pensar nas grandes questões dos direitos humanos, naqueles aspectos políticos que geram grandes tragédias. A guerra. Todas as guerras, todos os tipos de guerra, as violações de direitos, as grandes questões políticas. Bens e territórios. Mas é do espaço do privado que quero falar, o pequeno grande drama que é o desrespeito pela identidade. O monstruoso e arrogante violentar o direito básico à individualidade, à especificidade do ser. Sem crime. Sem ofensa ao outro.
Usar critérios de gosto para qualificar a identidade. Usar a moral, a tradição. Arquitecturas com paredes de vidro. Por detrás está visível aquele que faz o juízo. A qualificar-se em cada valor que proclama. A maior das enormidades de mau gosto do universo é a sua própria natureza de fenómeno com princípio e a inevitabilidade de um fim. Assim, ainda maior o dramatismo de haver sido criada uma espécie cuja razão a confronta com a noção do seu próprio fim. Fim do indivíduo e eventualmente da própria espécie. E com a noção de que contribui ela própria para a possibilidade de extinção. Para a mente humana, talvez a maior fonte de consternação, essa. Muitas horas de existência dedicadas, embora com a marca de inevitabilidade, à tentativa de encontrar sentido ou fórmula de conforto. Ou então é essa paisagem que Rilke lhe viu. Em que, só assim, podemos apreciar no seu esplendor máximo a vida, e nela o amor.
Ainda da noção de naturalidade, ou não. Tão natural um bicho-da-seda, macio, branco, com ou sem riscas desenhadas a negro, que laboriosamente constrói o casulo em que se esconde para um dia dele fugir, já com asas para voar, como um ser humano cuja identidade não se reconhece no corpo sexuado com que nasceu. E a transforma. E ao corpo.
O exemplo da pérola. Um dos mais belos tumores da natureza, um acto de pânico de um ser vivo. Destituído de intenção estética. Age por medo. Dor. A sua produção de nácar é doméstica, é para tornar a sua casa confortável. Quando invadido na sua intimidade por organismos parasitas ou dejectos nocivos, isola o invasor agressivo com camadas desse nácar, a madrepérola. Quando produz uma esfera perfeita vêm os critérios humanos dizer da perfeição geométrica, da beleza e do valor comercial. Hoje também os órgãos humanos, mesmo de humanos vivos, têm valor comercial e são objecto de venda, de oferta, de roubo. No último caso dizemos ser crime. E é. Hediondo como outros. À luz da ética que nós próprios criámos. Mas mesmo os moluscos têm sistema nervoso, e, mesmo sendo este muito simples, acontece terem estruturas sensoriais, visuais, tácteis, de equilíbrio. Outras.
Na dor, também o ser humano, como a ostra, produz coisas belas. Ou não produz. Ou não são belas. Nada é belo simplesmente por inerência de um estatuto, de uma espécie, de uma raça, de um género. Ou pela naturalidade com que o é. Só por si. Podemos usar critérios que nos levam a achar que um tigre é um animal lindo, enquanto um crocodilo ou um pterodáctilo, não o é. Mas serão de outra natureza do gosto, ou do afecto. Pintainhos e filhotes de mamífero inspiram uma ternura intensa a muitos. Tantos outros bichos causam repugnâncias várias, culturais ou traumáticas. E o patinho feio, que afinal era um cisne. Estava fora do contexto naquele rancho de outros filhotes. Conchita Wurst, com os seus cabelos estonteantes, barba e vestido de lamé. Um modelo estético estranho. A pensar. Mas só isso. Estranho porque invulgar. Menos belo cada detalhe só porque num conjunto inesperado, ou não, é a questão que se me coloca. Mas por cima dessa, a de que não prejudica ninguém. E mais acima ainda, um valor que ligado ao anterior eu venero. A coragem. Eventualmente da solidão. Será menos bela, belo, do que Cronos comendo os seus filhos, o de Goya? Também me pergunto se este é um belo quadro. Ou terrífico. O que, para lá do sentido, não importa afinal.
Como se uns fossem mais naturais do que outros. Os bichos. Os cânones. Como a natureza humana, a homossexualidade humana, a transexualidade humana. A partir de que grau de idoneidade ou legitimidade é que se está protegido pela ética – já que a moral é essa parente pobre, conceito adulterado da tradução do grego de ethos – da agressão do outro, é uma coisa que me faz pensar. Para muitos, do humano para cima. O humano como início da escala de valores a proteger, mas acima dele ainda Deus, que a muitos confunde ligeiramente na sua fórmula egocêntrica. Para outros a escala começa um pouco mais abaixo incluindo os animais domésticos, domesticados. Os animais amigos do homem. Para outros os mamíferos em geral, porque detêm um olhar quase humano. Alguns, e alguns mais do que alguns humanos. Para outros, o reino animal em geral, desprezando o mundo vegetal. Para outros ainda, os seres vivos em geral. Para estes é um dilema de vida, conviver no respeito absoluto e coerente com esse princípio, o mais respeitável de todos. É o que eu sinto. Não é o que pratico e mesmo assim o meu inferno é vasto. Culpada pela minha natureza de elemento privilegiado nesta cadeia alimentar. A cidadania, como valor de responsabilidade dá trabalho. E cadeias alimentares entre elementos da mesma espécie, a nossa. Quem engole quem. Quem mata, quem anula, quem destrói quem. Quem se defende de fantasmas, ferindo pessoas. Quem cataloga pessoas. Quem, pela sobrevivência do seu ego e da sua identidade gera a ilusão de moinhos de vento e activamente lança as suas flechas mortíferas. Deixámos historicamente para trás tanto preconceito, tanta caça às bruxas, tanta ignorância, tanta descriminação, se pensamos no sítio do mundo onde temos a sorte de viver como novos- ricos. Deixámos?
Tenho pensado tanto na questão da monstruosidade. Sobretudo aquela que se gera a partir da diabolização deslocada do verdadeiro foco. Porque ela existe. Que tantos dias me entra pelos olhos adentro. Mas quanto às grandes expressões desta, a minha impotência é enorme e sobra dela uma agonia indefinida de asco e revolta. Mas é também, e aí mais ao nível do meu pequeno mundo, a questão das pequeninas, ínfimas monstruosidades, que me perturba, porque estão, cotovelo com cotovelo, mesmo ali.
E por vezes as pessoas mentem. É assim muitas vezes. Tem que ser. As pessoas encerram-se em quartos escuros em cantos remotos fora da féerie das luzes. Sobem ao sótão de si mesmas e escondem-se. Escondem-se, mas por vezes querem ser encontradas e deixam pistas laboriosas. Labirínticas. Pistas a dizer, não quero que me vejam, vem daí se tens verdadeiro interesse, mas que estão ali com um sinal. Talvez esteja certo assim.
E ele, esse aluno menor ainda, pouco mais que criança, como tive outros, que se prepara para que ao longo da vida, muitos pensem e digam, e lhe digam de maneiras indirectas ou por lapso e desadequação de linguagem que a monstruosidade está do lado dele. Falo sobre isto porque não é secreto. É meio secreto. Ele já começou a luta. Mas ele, que mentiu no primeiro momento, apesar da coragem imensa que constitui dizer voluntariamente a uma desconhecida que não se identifica com nenhum género, e que intuí recobrir uma coragem maior que ainda não teve, anseia por ser entendido. Sobretudo aceite. Porque talvez pense por defeito, que nunca se há- de entender a sua questão. Já vi tantas vezes isto. Naquele cadinho em que mergulho todos os dias. E com um mau fim, tantas vezes. Injusto. Porque há um silêncio, uma reserva do lado de lá e do lado do outro. Uma ausência de caminhos que não envoltos em clandestinidade, sofrimento, marginalidade, sofrimento, ignorância. Dor. Dor de ser. E dor dos outros. Porque são esses que doem mais. E depois há as questões legais. Moral e direito são controlados socialmente e entregues a muito atraso inexplicável. Insensibilidade, ignorância.
E dói-me ver-me envolvida nesse complexo vórtice, sério, importante, que é demasiado confuso da forma em que ele, ela o vê. De ética, moral, direito, direitos, e colocada num ponto muito definido que é o da discriminação. Porque uso um pronome e não outro e o olho nos olhos no acaso do meu olhar pela turma a quem me dirijo. Porque acho ridículo o nome que ele quer que use para lhe falar. Logo um nome de deus….Um deus que simboliza transformação, é certo…E porque me rebelo de o ver incluir-me por defeito nos seus alvos de luta, quando o que lhe quero ensinar, é, para começar, que nenhum género é melhor ou pior. Que a identidade dele, em curso é íntima e deve ter um reflexo consistente legalmente. E é por isso que deve lutar. Não pela rejeição de uma fórmula para que não me dá alternativas por agora. Um discurso difícil.
As pessoas têm o direito de se transformar, física e psiquicamente. Por efeito da vontade de verdade de identificação. De mudar. De mudar de nome. A inoculação de vírus na forma benéfica de vacinas, a reconstrução de uma perna esfacelada num acidente, a colocação de seios de silicone, um transplante, ou a mudança dos órgãos genitais não são vistos com a mesma forma de legitimidade. E nas causas, nas razões de ser está sempre a saúde. Queremos morrer saudáveis, belos, jovens para lá do possível. E da mente. Como tentativa de anulação do sofrimento. Implantar uns seios que são aquele paradigma de feminilidade que sempre se sonhou quando o corpo se definiu noutra direcção, recortar as pálpebras que descaem com a idade. Artificial…O que é que em nós não o é, para além dos sentimentos ou dos sentidos que compulsivamente nos transmitem sensações tão definidas por vezes? Quando mesmo esses enganam. Perseguir paradigmas quando a noção de liberdade se instala. Paradigmas de identificação. Somos únicos, por mais que irrelevantes, na única possibilidade de existência que uma vida sem fervor metafísico, ou religioso, nos reserva. Porque não reelaborar o género nas suas especificidades estéticas, sexuais e existenciais. Mas nestas questões que têm também a ver com o amor ou com o desejo puro e simples, puro e duro, não se sabe sempre se a resolução do corpo é o ponto de partida ou o ponto de chegada. É quem se é, ou aquilo que se sente por alguém que é o outro, e ponto de chegada de um valor. Eu tenho uma noção estranhamente imprecisa da minha identidade de género. Sempre tive. Tenho a sorte de me sentir confortável na minha pele, no meu corpo específico e feminino e na tradição em que cresci. Mas sei que me sentiria muito parecida com o que sou, num corpo de homem. Parece-me. Talvez porque nunca se sobrepõe a tudo o resto que me define, essa, para mim pequena questão do género. Mas, noutro corpo eu seria gay. Disso não tenho dúvida. Mas só atendendo a tudo o que senti até hoje. Serei portanto, eventualmente um homem, gay, que nasceu num corpo de mulher mas não se importa com isso. Ou uma mulher, heterossexual, que poderia ter caído por acaso do destino, num corpo de homem. E se quisesse afinal ser vista pelo olhar de um homem, como mulher, sujeitar-me- ia àquelas duras terapias hormonais e psicológicas, e a complexas cirurgias para surgir, como um cisne do patinho feio, mulher plena. Com um bilhete de identidade a dizer-me do sexo masculino. Há no entanto complicações maiores, outras recombinações e outras possibilidades de identidade entre um corpo e um intelecto. Onde toda esta realidade emperra é nos preceitos legais. Lentos, amórficos, alheados do muito que se sabe da natureza humana. Cruéis e ignorantes. Apoiados pela opinião pública, cada vez mais visível e opiniosa, a dedicar fel e vinagre a estes assuntos à falta de maiores preocupações humanas. Mas as questões de orientação sexual, que para mim são da natureza privada e um direito inalienável ao respeito, são também aquelas em que as pessoas tendem a defender, começando por se resguardar definindo-se de acordo com a norma. Tenho sorte, portanto.
As questões que a ética deveria proteger da moral e das insuficiências do direito, camadas sucessivas de elaboração. São as questões da identidade. E do direito à identidade. Todos nós as temos. E das monstruosidades. Aí também posso dizer que todos nós as temos. Sei de que falo quando falo de mim. Também. E aprender os pequenos troços a percorrer de cada vez para conquistar a liberdade.
Uma escola é um cadinho. Tantos e tão diferentes, por serem muitos ao longo dos anos é possível vê-los em perspectiva. Senão uns, outros. Não é assim tão diferente. Há um padrão. Gosto de lhes ensinar a solidão. A solidão mas não a clandestinidade, a fuga. O silêncio e a solidão. A terem a coragem de não se esconder. A falar de si a reflectir em si. Nos outros, mas não como elemento repressivo. A transportar a sua própria gaiola. E a sair dela sempre que for preciso. Diz Schopenhauer que quem não sabe apreciar a solidão, também não sabe apreciar a liberdade. Qualquer coisa como isto. E é aí que quero chegar. À alma desse meu aluno, aluna, ou o que quer que se encontre válido na língua portuguesa para me dirigir a ele. Estar só, se necessário. Contra o olhar dos outros. Contra os outros, só se necessário. Com a mesma falta de preconceitos de sempre, excepto o de que legalmente ele tem um nome e um género, e este último é uma referência de reconhecimento discutível e que o não obrigaria a vestir-se de acordo com este, o que tornaria inútil como elemento constante no documento de identificação. E que olhando para ele por agora, reconheço os paradigmas estéticos comuns ao género que ele repudia.
Esta é uma história no seu início. Para mim – ainda temos muito a conversar. Para ele vem seguramente dos confins da infância em dor e sofrimento solitário. Com os seus monstros por companhia. Mas mais ainda com os monstros dos outros. A preparar-se estes para, nas suas, lhe apontar monstruosidades e outros mimos.

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