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Entranhado no cerne do texto como sob camadas e camadas. Ilegível. Podia ser crónica da cidade de K. Mas não uma referência à Trilogia da cidade de K. De A. Kristof. Simplesmente um paralelismo de título. Na Verdade a cidade de B – K, a cidade de B. Há um título. No interior do texto. No interior da cidade. Dessa cidade. No interior da casa, dessa casa. No interior. Um título difícil de dizer porque submerso. Ficou assim. Finalmente e bem, porque se trata do interior. Um título surge às vezes no início, vai mudando ao longo do texto e apresenta-se muitas vezes com a nitidez irremediável, no final. E com a naturalidade de núcleo em que quase podia resumir-se ali uma crónica. Não esta. Tanta dificuldade em definir um, não pela falta mas pelo excesso. Podia ser crónica da cidade de B. A cidade de K. Poderia ser uma trilogia das cidades de B., mas era uma outra crónica que não esta. Do muito antes, e esse seria um título possível, do muito depois, e seria outro. E de aí. E aqui vai. Do ver…
Lembro muitas vezes aquela imagem. Agora que me interrogo, tantas vezes perplexa, sobre as múltiplas camadas do ser. O ser ínfimo, pequenino bem lá no âmago da parte mais recôndida de nós. Disse-ma, desenhada no discurso, com aquela nitidez preciosa de uma pequena fotografia antiga a sépia, uma mulher que vi uma única vez há muitos anos, de quem não lembro o nome, amiga de B. na cidade de K. “That little inner self” ou “that little inner me”. O inglês, meu e dela, não eram de grande sofisticação e nenhuma de nós falava a língua da outra. Casa nova. Uma festa com tango. Inaugural também dessa paixão para sempre. O tecto longínquo, uma lareira enorme e os quadros cheios de seres, minúsculos também eles, nas paredes. Enormes os quadros, povoados de enormes pinceladas cheias de inquietação a negro, ínfimos, quase invisíveis, os seres. Numa contradição de escalas absurda. Veemente. Que só mais tarde vim a entender. E a imagem ficou para sempre. Uma e outra. Ela, essa mulher doce, séria, intensa. De voz baixa quase inaudível. E a imagem que me fez ver. É esse ser pequenino que colhe e que fere. De uma ternura que, maior que tudo, dói mais que tudo.
Naquele dia, acordei na sala grande, rodeada daqueles quadros enormes e incríveis e com Milena – o nome não foi um acaso – miúda, sete, oito anos talvez, já não sei, com aquele ar feliz, aquela voz, já então curiosamente rouca e grossa, aquelas covinhas no rosto liso e branco, de um brilho quase de porcelana. E uns sapatos indizíveis de camurça preta, enormes e de salto alto, calçados e acabados de apanhar do lixo. Para me mostrar. Pareceu-me. Talvez em troca das ervilhas e arroz que lhe cozinhei aqui, e a única coisa que comia num país estranho. Quando queria ficar a dormir na minha cama e achou tanta graça, no seu modo aparentemente distante, quando lhe apresentei as minhas bonecas, e ao facto de terem nome. Claro que as minhas bonecas têm nome. Mesmo Sissi, mais recentemente. A minha primeira boneca menina, oferecida por uma prima imigrante em França. De cabelos crespos aloirados e olhos azuis. E crioula – a boneca – realidade que só se impôs com toda a sua estrondosa evidência, como uma epifania há meia dúzia de anos. Como aquele meu tio-avô adorável e com nome de flor, alto, moreno, de olhos salientes e lábios enormes, cabelo frisadinho e músico de trompete…Tocava aos toiros nas horas vagas. E de resto contabilista como Pessoa. Mas como pessoa, um amor de energia, ternura e humor. Daquele se diz que a contabilidade traz o poeta à realidade. Deste, meu tio, talvez a música. O fizesse voar dali.
Aquele rés-do-chão alto em K., a lembrar uma imagem onírica, remota, bela. Montparnasse, uma janela, um quadro vivo, uma sala grande, um piano, livros, uma mesa enorme para dois, calmos, sós de aparência silenciosa, com todos os segredos e raivas possíveis para além daquele momento mudo entrevisto de baixo, de longe. À distância da utopia. Com B. ali também, os nossos seres pequeninos e grandes, de mão dada a olhar. Mas em K. agora, muito tempo depois, já não de mãos dadas, mas visíveis como sempre, uma cidade realmente triste e com um número contadinho sovinamente de horas de sol. Não semanais ou mensais. Anuais. Onde, mesmo assim aas pessoas conseguem ser felizes. Ou por um outro lado, talvez o contrário, talvez o oposto, a Islândia. Como se pode viver sem o lado escuro dos dias, sem o lado noctuno da alma, ou sem lhe encontrar o lugar de apaziguamento, de fechar as portas a recolher-se depois de toda a violência, de todo o conteúdo a extravasar dos dias. Altos e baixos como as vagas e mudar a folha do calendário. Como se consegue viver sem esse lado nocturno de nós e sem a empatia da noite, o ocultar progressivo do ruído, o sinal de que é bom apagar e reacender para outro dia mesmo se igual. Apagar em sintonia com o astro. Como cílio enorme que se fecha connosco no seu seio.
Mais tarde no dia, os miúdos todos do prédio sentados na cozinha a comer batatas. Cozidas e com azeite. Só. A maravilha das coisas pequenas. Mas não como aqueles comedores de batatas de Van Gogh, o chilreio era de alegria, e porque não havia tempo para mais nos preparativos da festa.
Ela, essa mulher nesse dia e de quem não lembro o nome, sensível, secreta e densa. Esqueci-lhe o nome e perdi-a de vista porque tem que ser assim com muitas pessoas que vão passando. Havia um papelinho fino, arrancado ao canto de uma página de qualquer coisa, um envelope, talvez, com uma morada ou talvez um endereço de email, já não sei. Mas a propósito de deixar de fumar, naquela sua voz baixa de uma enorme suavidade, seriedade e ponderação no peso com que dizia. Dizia ela, que isso acontece no dia em que conseguirmos ver com clareza esse ser pequenino, verdadeiro elementar e íntimo que transportamos em nós, e o virmos como um ser que se carateriza ou não por fumar. Penso muito nisso e agora, que vejo melhor esse ser pequeno, insignificante e escondido a boiar na imensidão de tudo o resto que sou no coração, vejo-o, a esse ser pequenino como uma criança que fuma. Sempre. É isso. Pequena, carente, indefesa, desesperada e dependente. Uma criança de três anos, que fuma. Nada é possível fazer. Dizendo o que ficou dito, ficou tudo o mais por dizer. Porque isso sou eu a dizê-lo. Eu que sou outra. E se eu fosse mais eu, dizia de maneira diferente. Noutro tempo noutras palavras. A forma, o recorte exacto, a cor, o aroma do medo, tudo. Tudo o que não sou porque não quero ser. Não posso e não quero ser. Mas sou lá no fundo. Bem lá no fundo. Um fundo longínquo mas como a crista da onda, sempre ciclicamente a alternar com a calmaria lisa suavemente curva e mansa chã. O chão da onda. Aquele movimento curvilíneo e largo de vai – vem. E dizendo, sou eu que o digo e não esse outro ser pequenino de mim. Essa é a voz que não se ouve. Talvez eu nunca me tenha afastado dessa figura pequenina mas vejo-a melhor agora. A propósito de uma outra imagem recorrente. Um núcleo central e centrado, ínfimo e irredutível, por detrás de todas as pessoas e personas que somos em camadas sucessivas, envolvendo de forma centrada ou dispersa esse centro essencial e original. De que partimos. Que abandonamos, esquecemos, odiamos, tememos, escondemos de tudo e todos e de nós. Também. Às vezes. Às vezes como uma pedra. Um seixo minúsculo e redondo por igual. Pesado como chumbo e ínfimo. E irredutível. E para dentro do qual não há mais nada do que a mesma matéria visível à superfície.
Não me afastei nunca demasiado. Os terrores nocturnos que me acompanham até hoje podem dizê-lo. Que me perseguem. Uma destas noites, um estrondo enorme e de seguida um outro estrondo enorme. Nunca é preciso tanto para aquela paralisia de que sempre me custo a libertar, até conseguir mover o braço e acender a luz do candeeiro amigo. Percorrer a casa como um cão a farejar todas as possibilidades fantasmagóricas e a garantir que nada se passou. Ninguém. Nenhum monstro indizível. Nenhuma presença intangível. Só a casa. Acordada pelas luzes que vou acendendo precipitadamente ao longo dos corredores. Espreitando atrás de cada porta e olhando para cima do ombro para prever todas as possibilidades. E desta vez os estrondos impuseram-se no momento exacto do acordar e retrospectivamente com uma enorme carga de realidade. Realidade de som mas não de causa. A causa, como sempre, apresentava-se atemorizante, desconhecida, com uma qualidade etérea de fantasmagoria, acentuada pavorosamente pela aparente e veemente realidade do som.
E os terrores nocturnos, sempre nocturnos. Mas não sempre, afinal. Com espaços, intervalos de não sei o quê. Basta um ruído desconhecido que me acorde, naquele pequeno desfasamento entre o acontecer, o acordar, e o perscrutar retrospectivo, e a angústia instala-se paralisante. Esta noite um estrondo forte. Ali por detrás da porta, irreconhecível, dramático fazedor de imagens. Possibilidades. E lá estava o terror. E, pela primeira vez, deixei-o ir passando quase com indiferença. Uma indiferença estranha. Como se houvesse algo maior a temer. Como se não fizesse mal o que quer que fosse. Nada importasse, nada valesse a pena.
E ao contrário de sempre fiquei ali, meio distraída, ao contrário das outras vezes, por pensamentos sobre a estranha indiferença que me assaltou e pensei, estou a crescer. Depois pensei, estou talvez a morrer. Isto não me pareceu um bom sinal. Não ter quase mais medo. Não me importar o medo. Essa analogia quase como um presságio nunca se daria não fossem os pensamentos que avançaram na noite depois dos estrondos. A estranha indiferença pelas causas e pelos efeitos imperscrutáveis. A possibilidade de dormir depois. E dormir, depois. De manhã constatar serenamente que não foram pedaços de tecto que caíram como de outras vezes, mas um quadro que caiu, como de outras vezes e arrastando uma pesada moldura de latão. O quadro, um sorriso gigante de adolescência. Impresso em tela. Para uma exposição. O retrato, de mim com metade da idade. Significados, significantes. Ligados aos pensamentos da noite. Tenho vários retratos meus espalhados por aí. Mais para me lembrar que existi do que por narcisismo. Acho. Que existo. Como espelhos.
Ela deixava-se ficar para trás. Lembra-se de si a olhar para o chão que ia percorrendo, a orla do vestido clarinho e os passos calçados de verniz preto. Mais abaixo no final das pernas pequeninas. E a pensar, que ela, a pessoa grande não se virava para esperar por si. Um pequeno pensamento velhaco de criança a precisar de um mimo. Um pequeno pensamento desonesto a explorar a diferença entre o caminhar de pernas grandes e pequeninas. De um teste à possibilidade da prova do amor. E hoje sabe que quando se deixa ficar para trás as pessoas não se voltam. E por isso fica simplesmente. Sabe que não se vão voltar, não é por isso. Como ela, a pessoa grande, embrenhada nos assuntos sérios, e na pressa da vida. Mas de noite aconchegava-lhe a roupa e chamava-lhe carocha. Com beijinhos no pescoço. Ou carochinha. Nome que ainda hoje está dissociado do bicho em si. E que fica para reler e de todas as vezes que tem dúvidas. Porque não o diz mais. E sabe-lhe bem. Nunca perguntou porquê nem adiantaria. Ela não se preocupava em pensar os porquês das coisas. Tinha mais que fazer e não era assim que era. Tomaram-lhe de assalto o quarto, quando a outra pessoa grande estava em África. No exacto dia em que partiu. Ela directamente para a sua cama e a outra pessoa pequena arrastando um divã para a nesga entalada entre a parede e a cama grande. E ali ficavam sozinhos uns com os outros. Não sei, não sabiam, se tinham medo das mesmas coisas. Ela, a pessoa grande, adormecia exausta e morta de um cansaço de nela e nos dias caberem coisas para cinquenta horas. E ela ficava ali sossegadinha a olhar de lado o monstro negro atrás da porta, desenhado pela pouquíssima luz da rua, coada pelos buraquinhos da persiana. E sempre sem se lembrar que de dia eram os roupões pendurados. Sabe-se lá se também de noite. Eram e não eram.
O ser ínfimo e pequeno, sem realidade e sem peso, denso como uma bolinha de chumbo. Daquelas, das espingardas de pressão de ar. Que um dia dispara sobre nós e atinge o coração. Em cheio e sem sangrar. E se aloja ali. Pequena, ínfima. Dor. E um dia acontece. Vê-se sem querer aquele ser pequenino de outra pessoa. No centro de tudo. Para além do gostar e do não gostar. Muito para lá atrás, por debaixo, detrás de todas as camadas contraditórias e dolorosas. Todas as feridas e todas as contradições. Um olhar mais que próximo por algo que querendo ou não, e por vezes abusivamente temos dentro de nós. Ver. Com toda a nitidez que se procurou intrincada no meio de todas as camadas. Debaixo de todas as sedimentações aleatórias. Sem esoterismo, só uma intuição com um desenho próprio. Ver. Então. Um ser pequenino e essencial. Nuclear. Ou porque conhecemos de criança, como Milena, ou porque nos aparece num primeiro olhar para além de uma estatura enorme como B. Outras vezes pode levar anos, décadas. A ver. E a partir daí, habita-nos, sem ruído e sem ferir como em roupas de flanela macia. Que queremos acarinhar e cujas dores doem nas nossas mesmo que nada tenham a ver com a possibilidade de as amenizarmos. É o amor. O encontro com o ser pequenino de alguém. Outras vezes é o encontro mas não o amor. E outras, ainda, é o amor mas não esse encontro. Que, quando é, habita, mesmo sem saber. Que fica ali escondido quando está e escondido quando não está. Que vem de mansinho por entre todos os retratos. Dolorosamente acarinhado pelos dedos da alma. Se existem. Uns e a outra. Não saber como se insinuou assim, aquele, quando. Quem o vê, ama ou detém o poder imenso de manipular. Ou ambas as coisas. Algumas pessoas são estranhas mesmo na natureza do seu modo de amar. O resto é por vezes ilusão de óptica. Aconteceu-me. Uma e outra das coisas. E outras coisas de outras coisas.
Ver. Mesmo que poucas pessoas, nessa qualidade-ser ínfima, despida e essencial, é privilégio e é imenso. Quem vi e vejo, caminha mesmo se à distância da saudade, “descalço e em pijama no meu coração”.

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