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Gosto desta expressão. Tão ao jeito das noites no Alentejo, pejadas de cigarras ruidosas mas feitos ruídos estes, da matéria daqueles campos e quase parte do silêncio. Uma estridência ininterrupta a que o ouvido de vez em quando se acostumava. Aquela terra grande, sem vestígios de grandes sobressaltos geológicos, topográficos.
O Alentejo que é a minha terra, embora não a terra em que nasci. Que foi a minha terra, uma, naquele sentido em que, na cidade, muitos têm uma terra remota donde vieram e onde voltam sempre na melancolia de ser divididos. Da família. E de um tempo perdido lá atrás à medida que uma geração mais próxima foi desaparecendo no destino incontornável em que desemboca cada vida. E que é já quase só memória, inalcançável senão como tal. Perdida. Amada mas perdida. O sol inteiro possível em 360 graus de horizonte. Tórrido naqueles meses de agosto. Lá muito atrás as tardes em que se atravessavam ruas brancas da cidade, de uma luz quase insuportável. Um vazio de gente e o silêncio inconfundível do calor abrasador. Ou, nos fins de tarde, as terras amareladas e secas do campo direito. Onde as sombras se projectavam para a frente ou para trás a partir dos pés e até tão longe, que pareciam querer destacar-se desta amarra. O Alentejo sempre me deu aquela impressão benfazeja de que o mundo é grande e nele as dores, ínfimos pormenores.
A cidade de pais e avós e de uma família enorme com uma margem imensa de ramificações, já só conhecida dos relatos e histórias retiradas dos álbuns da memória e daquelas fotografias muito pequeninas, focadíssimas como uma filigrana. Memória enraizada ali, entre a cidade e o campo. Em redor de Évora. E porque as raízes não se podem arrancar da terra, éramos nós que sempre voltávamos para as visitar. Eu decidi que era de lá que eu era, há muitos anos. Quando entendi que mesmo essas coisas se podem escolher. Só não se pode escolher, às vezes, reter para sempre uma memória que já se liga à vida por laços demasiado ténues. E aí é o momento de deixá-la partir. Com a partida dos pais. Um para os espaços etéreos do céu, outra para os confins longínquos, alheios à memória. Já não há a quem perguntar.
Mas deixá-la partir para o seu canto, e habitar para sempre o álbum, custa. Revira-se de todos os ângulos a estranheza de ser assim. Que tem que ser. Sem naturalidade. Ou entendendo a inacreditável naturalidade inerente. Afinal. Como se todos os actos de simples respiração, em determinados momentos, fossem difíceis de vencer sem deixar de pensar no movimento que a produz, como se assim o corpo se esquecesse de respirar pela inércia de sempre. Como se todos os passos não dados fossem o amor às margens mais do que ao rio. Diferentes olhares. O do lado da margem, um estar mais pessoano, em Reis, por exemplo. A desistência prévia e a contemplação estoica do não ser, não querer, não fazer, não sentir. Ou a ausência de tudo numa síntese de plenitude muito mais perto do cerne do ser. Um pouco cósmico e alheado das amarras circunstanciais de uma existência enredada em mecanismos. Porque diremos margens de sonho, se é o rio que é mais livre e na sua fluidez imparável, eternamente renovado e o mesmo em si apesar de tudo. Como entidade. Independentemente de as águas serem indistintamente outras. Que tem este rio que contemplo em comum com o de anteontem ou de há um ano. Tudo e nada. E no entanto também os rios envelhecem. E os sonhos. Porquê nas margens, excepto naqueles momentos de violenta rebelião dos elementos, em que extravasa por elas adiante tumultuoso e sem percurso ou caminho que não caos e acaso.
Os meus tios José e Maria. De nomes simples e bíblicos, e pele de rugas marcadas como à faca, castigada pelo sol imenso. Ele de olhos pequenos e fundos de um azul inesperado e ela muito pequenina, muito gordinha, e que nos dava uns beijos rijos, repenicados e húmidos, como ninguém. Maria Rosa. E, encostada à empena cega do monte, a maior roseira, de rosas salmão, que me lembre de ver. Carregada de cima abaixo daquelas rosas, perfumadas de uma doçura ligeiramente ácida, e que o meu tio José, talvez a disfarçar o secreto orgulho, dizia ter de podar para fortalecer. Coisa estranha para mim, imaginá-lo a cortar aquele fenómeno lindo e pujante…
A vida destes meus tios, dava um romance. Mesmo depois da morte daquele sonho de cooperativismo e da reforma agrária em que embarcaram, quando desembarcaram vindos de África. Para onde fugiram da pobreza e de onde o 25 de abril os fez regressar. Dava um romance, sobretudo a dele. Até ao fim, recentemente. Ele que teve durante anos um enorme Mercedes em segunda mão, dos anos setenta, encostado à horta no meio do nada. Que conduziu muito tempo sem carta porque não sabia ler. E que, quando a minha tia se foi para o céu – porque foi – guiava por aqueles montes e bairros limítrofes, imagino eu, para seduzir com intensões sérias, viúvas de negro. Todas elas idosas, estranhas e deprimidas, uma de cada vez, e com quem vivia até ao limite do suportável daquelas depressões alentejanas. Que não eram para ele.
Os meus tios em cujo monte, muito mais lá atrás, em pequena, dormia sob enormes cachos de uvas e réstias de cebolas, pendurados nas traves dos tectos de telha vã dos quartos. E que tinham com eles aquele enorme cão preto que era nosso mas vivia ali, o Nilo, que lembro como um pequeno oásis, como desértico era aquele pedaço de Alentejo. Aqueles meus tios, que viviam sempre num estranho limiar a rondar a pobreza, porque o Alentejo era duro. Uma terra ampla, mansa e parada. E que um dia, bem mais tarde, num outro monte, mandaram abrir um poço na ânsia de vencer aquela aridez. Explodiram a terra quase arenosa deixando uma enorme cratera, larga e funda como a cicatriz de um meteorito gigante, e lá bem no meio e no fundo um pequeno espelho de água. Como um olho um pouco encovado numa órbita enorme de recorte incerto e tosco. Pequeno para a sede incurável da terra e para aquele céu imenso.
E um dia desistiram dessa luta para saciar um enorme pomar de frutos pequeninos que custavam a vingar, e investiram, do que tinham e do que não tinham, as poucas economias, em vacas que davam um leite espumoso como nunca bebi igual. E uma vacaria segundo as normas, bem na extremidade oposta à casa. Sabe-se lá porquê com tanta terra. Talvez uma espécie de ampliação das margens do sonho que logo de madrugada os levava a subir, embalados nele mas também no frio cortante dos invernos interiores, o enorme atalho de terra entre a casa deles e a das vaquinhas. E numa noite, seguramente de cães a ladrar como sempre – ou não – dispersos na amplidão da noite, como num quase passe de magia, desapareceram todas de uma vez para sempre e para nunca mais. Noites curtas de sono, para eles, que se levantavam ainda com estrelas. Como desaparecem dezoito vaquinhas enormes e doces, com aqueles guizos de uma sonoridade linda, no curtíssimo intervalo da noite…
Pela calada da noite. E calada foi a noite em que aquele sonho emudeceu para sempre. Calada a noite, as vaquinhas, os cães, os ladrões, as pereiras esquálidas, as estrelas do céu, os pneus da camioneta. Que levaram em cumplicidade única, e no segredo daquela noite, não sei já se de verão remoto, dezoito vaquinhas de olhos agigantados e doces. Assustadas ou ingenuamente confiantes. Como se rapidamente escondidas num enorme saco de gigante. Numa noite em que não ladraram cães. Ou, mesmo que ladrassem, diz o ditado que às más horas não ladram cães. Ou ninguém lhes ligou mais do que nas outras. Ninguém ouviu, só a terra, que tudo presencia, e aquele olho de água, que, resguardado e virado para o céu sem desfitar, seguramente as viu voar e esfumar-se. Histórias de um Alentejo solitário. Pela calada da noite. Como tantas outras noites. Caladas, lisas e sem sobressaltos.
Foi um golpe duro e que nos entristeceu a todos. E no entanto, nesse tempo como agora, um lado de mim sempre viu ali um certo ângulo profundamente cómico. Não sei porquê. Porque sei que a pena enorme pelo que lhes aconteceu era verdadeira. Mas é talvez o insólito das vaquinhas – dezoito – enormes, lentas e bojudas, cheias de chocalhos, a desaparecer assim. No ar. Evolando-se como um sonho que eram. Como os sonhos. E tornando-se realmente da matéria dos sonhos.
A propósito da enormidade do fosso que separa o ter do não ter. O saber acreditar e o esvaziar de um sonho. Que num curtíssimo intervalo de tempo desapareceu sem aviso. Sem ninguém o saber, já não estava ali. Mas as noites no campo são curtas de sono. E a madrugada chegou já com a nova paisagem instalada para sempre. Mas não os lembro desalentados por muito tempo. Antes com um estoicismo feroz de continuar em frente. Sem ilusões de que haveria outras horas como aquelas. Más horas. Em que não ladram cães.

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