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Pequenina, quando me sentia triste, cortava em fragmentos ínfimos, um monte de papelinhos e tecidos e lançava-os da janela só para ficar a ver a sua evolução aleatória, o rodopio em subidas e descidas, volutas leves, feitas e desfeitas, descritas no ar mas sempre e inexoravelmente a descer. E queria prolongar essa visão mais do que o possível. Por aqui fora, talvez todas estas palavras, frases ou fragmentos de umas e outras, possam ser de uma forma qualquer, o mesmo mecanismo de lançar pequenas células com um percurso descontrolado e aleatório, com inúmeras recombinações possíveis. Assim o texto pudesse fragmentar-se e reajustar-se sucessivamente aos olhos de quem vê. Formado de todas as possibilidades.
O mundo. Esse conceito estranho que logo resvala para a divergente bivalência interior- exterior e para dela não se emancipar facilmente. Que leitura tem este estranho vocábulo que não implique a existência do olhar, dos muitos e por vezes múltiplos olhares. Que não os invalide que não os inviabilize como perspectivas fechadas em si, e que não os acolha como possibilidades dispersoras de uma necessidade atávica de um ponto de vista uno. Que mundo é este de fronteiras difusas, que nem o corpo, quase mais como matéria simbólica, torna estanques, mas que ao invés, perversamente se diverte em contínuas permeabilidades entre a razão, árdua elaboração orientadora de pendor, para alguns, profundamente lógico, as inevitáveis dores de um plasma emotivo que não conhece razões mas outras armas bélicas que ferem, e como armas que são, irracionais mas certeiras, e outras variadas instâncias de voto contraditório como a vontade, a cegueira parcial que a circunscreve, o desejo, este um sintoma mais absoluto de pendor vectorial, a validade da memória como alimento. Ou resíduo.
A experiencia do mundo que se faz muitas vezes da viagem. No espaço e no tempo exterior ou interior. Levamos mais ou menos bagagem connosco. Dessa, cada vez para mim fazem menos parte, as certezas. Mas uma mala é em si o mundo também. Levamo-lo sempre pequeno ou grande. Há a permanência de um dispositivo ético ou há a fuga. Em frente. Sempre. De si ou de tudo ou de âncoras virtuais, utópicas ou odiadas. Um olhar rotativo. Visão lateral…120 graus de ângulo. Ou tubular.
Desde sempre me lembro de fazer a mala para partir. Em viagens imaginárias. Em criança, este exercício lúdico entretinha-me as noites antes de adormecer. Repetido infinitamente. Até hoje. O que levar numa mala pequenina. Um desafio de síntese repetido ao longo dos anos. Sempre valorizando mais os objectos de afecto, a memória afectiva ligada às coisas, do que as razões práticas. Uma espécie de balanço de essências. Talvez sem pensar, nesse tempo, me reorganizasse interiormente a partir das escolhas. Ainda o faço.
Pensar o que levaria. Mas há momentos, há mesmo momentos em que nada. Nada mesmo. Hoje. Talvez não conseguindo, ou tendo vindo a progressivamente não conseguir e cada vez mais, encontrar âncoras de conforto nos registos que consubstanciam a memória das coisas da vida e das pessoas. Desvalorizando mais do que nunca os objectos. De que me rodeio, de que gosto. Que espelham continuamente tanto do que foi a vida. Algo deste sentir é ainda de forma imprecisa, toldado pela recente emergência substitutiva dos suportes digitais. Tudo quase cabe num disco externo de uns quantos gigabytes de memória. Mas sendo memória, nem por isso acrescenta nada à que se detém no suporto orgânico e com as lacunas imprevistas que ocorrem. Perdi muitas coisas inadvertidamente no espaço digital. Ou virtual. Mas não sei se a memória que se perde faz falta… Perdi a memória duas vezes. Parte da memória. Restaurada depois. Duas vezes no intervalo de dez anos e em virtude de grandes quedas e traumatismos do crânio. Corridas loucas no início da adolescência, primeiro, demasiada susceptibilidade a uma visão chocante, depois. Fatias, níveis ou camadas de memória que deixaram temporariamente outros dados residentes sem contexto alcançável. Uma sensação lúcida e estranha da falta quase palpável. E das memórias, há aqueles dias em que lhes custo a encontrar o perfume.
Mundo. Ou cambiantes tonais. Não. Não o mundo. Ou também. Mudo em cambiantes tonais ao longo dos dias. Das horas. Não como uma folha levada por diferentes aragens, mas pela permanente atenção ao que se desfia ante os olhos, sem estrutura prévia nessa circunstância simples e algo aleatória do olhar. O meu, no momento na circunstância do espaço. Conjugações desmultiplicáveis em variantes, sem sequer se alterar racionalmente a escolha. Pequenos acasos da atenção e da percepção, das rotinas e de acontecimento não controláveis. Um mundo do sensível em constante mutação de cambiantes tonais, pleno de contradições, assim, inapropriável na sua forma invertebrada. Sinal dos tempos. Também. Tão cansativo. Ou seria preciso explicar o inexplicável da amplitude do tempo. Em mim mais lento. Ou pelo contrário sentido demasiado voraz. Sinto-me resvalar para uma abordagem de certo modo desalentada e fragmentária da consciência de mim. Dos outros. Assim me afogo nesta desmultiplicação de escritos em lugares dispares. Assuntos que saltam de tudo para tudo e para nada. O nada. Mas também para nada mais do que este diálogo com uma outra de mim que é o ouvido estoico. De outro modo seria monólogo. Mas anda-se a configurar cada vez mais o ser fragmentário. Em camadas que já não se mantêm sobrepostas para uma leitura em profundidade, mas sim desacertada de um eixo único. Com não uma, mas múltiplas rotações próprias e translacções variáveis em torno de demasiada visões. Preocupações. Fracturantes. Esta minha enorme obsessão pela estrutura, pela organização e pela lógica, anda em ruptura e sofrimento. Estarei a – para além ou deixando mesmo para muito atrás a racionalidade toda que sempre me ocupou – tornar-me pré-socrática por facilidade. O mundo sensível em mutação, a ciência em mutação, as pessoas. Júlio Ver inventou um certo futuro. Mas que teria sido futuro sem ele e o mesmo talvez. À ciência também antecede a imaginação, algum sentido visionário da vida e das questões por resolver. E também no ser, não lhe entender uma estrutura ou intencionalidade e simplesmente a resignação ao registo das sensações, determinantes de emoções. Bem, mal. Bom, mau. Mas a apreensão de um mundo sensível, do sensível, como a abordagem da razão não têm as características nítidas de um interruptor que liga e desliga, acende e apaga em função de causas, consequências.
De ontem para hoje, de súbito, o dia anoiteceu mais tarde. Com a sensação de uma enorme lacuna entre a última vez que terei reparado e o momento de agora. Esta estranha e conhecida propriedade do tempo de se expandir e dilatar ou ser uma porta abrupta de esquecimento de um algo impreciso para outro, figurado nesta simples sensação de estação a mudar todos os dias.
Há uma beleza nas formas naturais, e em algumas em particular a minha alma desvanece-se de espanto. Nas flores. Na estrutura única de cada folha com os seus caminhos para a seiva. Mas a beleza vai até às partes mais recôndidas da sua estrutura celular, das implicações biológicas da organização das partes, dos múltiplos olhares por camadas de aproximação até à máxima transparência das paredes celulares, dos habitáculos das células, por aí fora, ao nível já dos átomos e de todas as partículas recém descobertas. Há no desenho das estruturas uma beleza própria que me fascina e não se fica só pelo visível. Não é só uma emoção estética no plano mais exterior e feérico da exaltação da cor das texturas ou das formas. Encanta-me a estrutura reticular das células. E saber da actividade ininterrupta nelas.
Os filósofos da antiguidade, com a sua preocupação metafísica com um mundo sensível, em constante mutação, inapropriável, cambiante. Num constante nascer e morrer. Ser e não ser. E fora dos limites essenciais platónicos, o que não muda, não é circunstancial e é comum a todos. Aqueles que se perguntavam neste território de contradições haveria um ponto médio do caminho a que se pudesse chamar permanente ou estável. Neste olhar sobre as cambiantes do mundo natural, qual seria o verdadeiro ser das coisas. Abordável através do logos ou da razão e nunca por via dos sentidos que registam um mundo de contradições e meras aparências. Ou que todas as coisas estão cheias de deuses, não como concepção mítica, mas o reconhecimento de que o universo é dotado de animação e de que a matéria é viva. Mesmo a matéria das palavras. Cheia de deuses, também. Escondidos. Que geram reacções insondáveis como se pela sua própria vontade e não por atributos lógicos das mesmas. Mas as cambiantes neutras da alma, as paragens também estão cheias de vida, uma vida mais lenta, ou mais esforçada, ou menos forçada, numa lucidez própria com um movimento que necessariamente também desemboca em algum lugar do ser. Por vezes mais adiante. Mas não demais. A água como o princípio de todas as coisas. E o fluir das partículas ou do caudal, metáfora de intangibilidade dos sentidos. A corrente como oposto à solidez do objecto que ostenta o nome. Anaximandro considerava que o nosso mundo era só um de entre uma infinidade de outros mundos, e que evoluiriam e se dissolveriam em algo de ilimitado ou infinito. Não se referia a uma substância desconhecida para ele mas a algo de anterior às coisas criadas, limitadas, estas. Substituir mundo por sentido.
Há uma imagem.
Aconteceu esta, hoje, mas não perfeita. O caroço de um fruto. No centro de uma camada circunstancial e degradável pelo tempo. Ou ingerida. O que sobra. Onde se reúne em síntese todo o ADN. No fundo toda a informação genética, neste caso. Que detém a possibilidade do recomeço. É talvez o cerne de tudo. Há um núcleo com uma vida potencial própria em que se encontra o essencial. Há que saber extrapolar desta imagem. Talvez assemelhando-se à noção de punctum como a entende Roland Barthes na sua “Câmara Clara”. Relativo à fotografia. O cerne do sentido. Mas sentido nunca desligado do olhar de quem é abalroado por algo que dispara da fotografia que não é inerte, e rompe aquele afecto genérico inicial. Como uma flecha incisiva. Que trespassa o observador. “ O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica e apunhala)”. Nas palavras de Barthes. A importância decisiva do acaso que o faz desvalorizar as fotos encenadas. Remete-me para a encenação, mesmo que involuntária do sentimento de si. Do ser. De novo a imagem onírica da mala de viagem. Que leva e o valor relativo. O que se leva na mala. De todos os dias com algum desleixo. Mas a escolha das grandes viagens. Mas parece que a vida se faz do anódino das escolhas do dia. Sem rigor.
E esse núcleo essencial, acredito, por vezes, para além de todas as camadas expressivas, para aquém de toda a comunicação possível – impossível – de todos os padrões existenciais e de todas as circunstâncias, tem o secreto anseio de ser reconhecido em todos os detalhes do seu recorte. Aprofundadamente. E aceite.

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