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Azul se diz o céu. De todos os azuis, se engana a razão.
Falar da cor – de qualquer cor – é sempre falar da maior das ilusões da percepção. Do que não existe em si, mas sim pela acção permanentemente produzida, renovada e afinada dos sentidos. Da visão, neste caso, e sinestesicamente talvez também de todos os outros. O que não está lá, intrinsecamente à matéria, mas como elaboração. Da luz reflectida de diferentes maneiras de acordo com a estrutura atómica dos elementos físicos. E em permanente mutação. Ao longo do dia, quando cada imperceptível mudança da luz, cada subtil contracção da pupila, ou alteração do humor, dá a ver não só aquilo que a matéria física tem em si como potencialidade ou inevitabilidade, mas também algo, acrescido de um contributo psíquico, que está por detrás de cada olhar particular. E mesmo este, modelado por características fisiológicas que restringem ou alargam as possibilidades da percepção. O dia e a noite, só em si e na sua eterna alternância, trazem e levam de forma gradual a cor. Impermanente. Tão delicadamente a cor se retira, que somos iludidos ao ponto de a imaginar a envolver-se em trevas, quando na realidade ela se vai com a luz. Vai, do lugar onde nunca esteve. Senão como ilusão. E volta para o lugar de onde veio. Lugar nenhum.
Se quiser falar da cor mais próxima do nada, vem sempre à ideia o branco como o negro, até culturalmente envoltos em sentidos de leitura muito semelhantes. Mas aí estaria a falar de não-cores. O que seria batota. E de entre as cores, se há uma que nos domina é o azul. Vivemos envoltos no azul da atmosfera. Nada mais presente do que esse azul. E nenhuma cor mais ausente, também. Longínqua, esquiva, distanciada do nosso alcance. Sempre ali, e sempre em recuo, numa fuga perceptiva que faz dela, se por um lado a mais repousante e calma de entre todas, também a que implicitamente está sempre em movimento de nós para o além de nós, uma distância infinita de tão grande. Que sugere todo o espaço real ou psicológico, do aqui até ao limite do universo. Para sempre, para longe e para fora. Ela, que nem no mar encontrou espelho à sua altura. E por isso a mais solitária das cores. A mais triste e a mais melancólica. Aquela está sempre lá e sempre em fuga. Intangível e impermanente, mais ainda do que qualquer outra. E mais bela, por isso.
E é por isso que nas representações pictóricas, esta é a cor mais poderosa na ilusória representação do espaço em profundidade. Se as cores quentes são as que mais turbulência provocam, as que mais dinamismo sugerem, e as que mais emoções sensitivas têm como aptidão provocar, até porque avançam para nós com voluptuosidade, intensidade e quase desafio ou agressão, é curiosamente a mais fria delas todas, a mais etérea, que, não só não opõe resistência ao olhar, como o deixa vogar por ela adentro, ou por ela fora, sem limite. A cor do abismo. E se nela o olhar teimoso se queda sem mergulhar, é ela própria que recua, como prefigurando um canto de sereia, que atrai, arrasta, e atrás do qual insensivelmente nos deixamos ir e perder. Não fosse o nosso dinamismo psíquico, uma espécie de elástico que, abrupta ou suavemente, nos traz de volta àquilo ou ao lugar que nos centra.
O universo de azul é abismal de facto. E nesse abismo se espelha a nossa dimensão também ilusória de grandeza de espírito. Não delimitável. Mas também a nossa insignificância, e com ela, a insignificância de muitas das formatações, molduras, preconceitos e ideias prévias. Nesse imensurável abismo que é o retorcido dinamismo psíquico, uma hélice de dois sentidos, nos perdemos em dilemas e labirínticos esquemas de configuração, ou entendimento, ou modelos de existência. Ou nos perdemos saborosamente na amplidão espacial, porque ao espírito ocorrem sempre metáforas do conhecido, esvoaçando ao sabor de correntes de ar quente, que nos elevam do corpo leve, porque de espírito se trata. Para isso, muito mais é preciso do que um simples brevet. E muitas horas de vôo se requerem para o podermos fazer sem a alienação total.
Tanta simbologia criada a partir do carácter puro e espiritual desta cor. Tanto poeta, tanto estudioso dedicou palavras à menos material de todas, que seria redundante e exaustivo rever. Encontro num pequeno trecho em contexto científico, sobretudo talvez na ausência de intencionalidade poética, quase uma fina ironia dadaísta. O concreto objecto da ciência, enunciado, é só por si poesia:
“O colorido exuberante do fogo de artifício tem, no laboratório químico, uma aplicação interessante: a identificação de substâncias pela espectroscopia de emissão atómica. Cruzam-se testes de chama com química quântica, crimes desvendados, auroras boreais, operações cirúrgicas com laser e lâmpadas economizadoras.”
De onde nos vem o azul, não sendo dos átomos incolores que constituem a matéria, senão das maiores extensões aéreas, oceânicas ou dos azulados gelos dos polos…Frio. Frio. Frio. E, no entanto, azul é a mais aveludada das palavras que designam as cores. Sem érres nem vogais abertas e cruas. No português. No inglês ainda mais. Será talvez por isso que somos sóbrios e melancólicos ao ponto de ter o fado como a canção que nos define…que somos, em parte, um povo in blue. E de onde vêm os blues como género musical senão das raízes sofridas, e como melopeias de trabalho, lamento e ânsia melancólica de liberdade, dos escravos negros nas plantações do delta do Mississipi. Se as cores dissessem o que sentimos em toda a sua plenitude, se com as palavras quiséssemos dizer tudo o que queremos, sobre tudo o que sentimos, e dizer tudo o que sentimos sobre as cores, ou o que elas dizem do que sentimos, teríamos que usar uma mistura, uma fórmula constituída de todos os idiomas, muitos ou poucos, que conhecemos. Porque o sentido de uma palavra numa língua tem a doçura própria, procurada e irrepetível na outra. E ao sentido acrescenta-se imprecisamente a tonalidade sonora, criando ramificações específicas. Para além da forma como diferentes idiomas reflectem diferentes necessidades de nomeação das cores, de maior ou menor diferenciação e desmultiplicação de termos para uma mesma cor.
Mas eu queria descrever o que vejo, para não o pensar a mais do que o é. Do azul e da distância evocada, invocada e que simboliza. A percepção do recuo a definir uma área de coisas etéreas, tanto como o espírito, ligadas à cor. Mas dizer azul tem uma estranha proximidade pouco fonética mas mais sensorial com o dizer veludo, sendo esta redundantemente mais aveludada ao paladar. Ao tacto. Ao imaginar ou recolher na memória. E o azul enaltece-se dessa qualidade e dessa temperatura por semelhança. Mais liso, mais fina a cor e as matérias que invoca mas igualmente confortável. E no entanto a mais abismal das cores. Porque a mais transparente.
Curiosas expressões em torno do azul, se encontram na língua inglesa. Sinestésicas como o feeling blue, ou, aquela que prefiro: out of the blue. Aquilo que veio do nada. E daquela outra figura de estilo: ouro sobre azul, onde o amarelo, prefigura a luz, razão de todas as cores, e símbolo de toda a razão como saber, parece concluir-se ser o tudo e o nada que se complementam. Tanto a dizer sobre as cores – quaisquer cores – que não cabe no espaço desta página. E sobre o azul, a maior de todas, a mais distante, misteriosa e intocável que, tem tanto de hermética como, paradoxalmente, de transparente e límpida, muito mais ainda. Ou dizer nada e reservá-la à contemplação. O que seria a mesma coisa. Da química dos pigmentos e do olhar animal, se faz o azul. De tudo e de nada. O azul que é a cor da alma. No nada, que é o seu lugar.

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