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António. Acorda, homem. Acordo. Mas nem sei se dormia de facto. Olho estremunhado e honestamente sem entender. Logo num primeiro plano, onde estou. Num segundo instante, quem é, e quem sou. E numa terceira tentativa de manter o pé, porque haveria de acordar. E para quê. O que há aqui, num primeiro instante, sem saber onde estou e que lugar da consciência do mundo seria este, por exemplo. Num segundo momento, para cumprir que excentricidade do universo e de pessoas que me acordam aos gritos – as pessoas aos gritos, e são muitas, perturbam-me sempre para além da perplexidade – a quem faço falta no estado lastimoso em que sou. Essa uma questão de sempre. Num terceiro degrau do acordar abrupto, mais abaixo, e como tal a tocar de perto uma aproximação de um eu em alvoroço, vindo de dentro de um sono profundo, àquilo que começo a sentir nos ossos, nas pálpebras e no estômago, que de súbito se revoltou, como que dos gritos selváticos, num ronco borbulhante, talvez de fome, afinal. E, de repente, estou completamente acordado. De pé, de um salto e reposto nesta normalidade de mundo, que é o meu café dos dias ímpares. Dos dias pares. E dos outros, porque a limpeza no lar de velhinhos falhou. Faz-me ainda impressão chamar “lar” a um sítio estranho, em que se vive com gente estranha. Penso no meu velhote e penso que não lhe vou fazer isso. Enquanto puder. E lá, não hão-de ser os desgraçados a fazê-la. Mas sem dinheiro, salta o António e fica a gestão da despensa, que apesar de tudo é a prioridade. E vão continuar a acumular-se esparsos cabelos brancos no chão. Mais um botão ou outro que ninguém iria coser. Mais um brinco partido de tão gasto. Mais um lencinho de pano muito enroladinho e assoado, atrás duma cadeira. Mais metade de uma bolacha surripiada ao lanche para as horas mortas. Um rebuçado peganhento do calor de vários verões, que alguém ofereceu como a um cavalinho…
Não fosse a exaustão já anterior e continuava a varrer-lhes os cabelos do chão e a apanhar-lhes os óculos remendados com fita-cola, que não funciona mas os faz continuar a ter a ilusão de que têm óculos. E a fingir que não vejo como escondem nos cantos das cadeiras desconfortáveis aqueles saquinhos de plástico já muito enrugados e baços, onde parece resumir-se o historial de uma vida, simbolicamente ajuntada em meia dúzia de objectos que às vezes não passam de um botão caído não sabem de onde, uma moeda de dois euros deixada pela filha, um pente sujo, um postal daquela excursão à Ericeira, muito comido nos cantos e que era para mandar a alguém, mas que sabendo ou não, depois se esqueceu, e três papéis irrelevantes, dobrados e rasgados nas dobras, que ainda sonham dizer respeito a uma vida, de cujas burocracias ainda depende uma falsa noção de domínio, de pertença e de continuidade. De existência. Segredos, que talvez já nem saibam como e quanto insignificantes e ilusórios são. Símbolos de segredos, que já não têm uma carteira ou uma bolsa decente em que se façam valer.
Mas por agora, não há mais limpezas no lar dos velhinhos. Azar. O meu também, porque era um reforço ao orçamento.
Aprumo as costas não vá o patrão avançar a mão no meu pescoço, num ímpeto que ele até pode fingir achar de paternalismo e com a ternura possível à sua alma rude e violenta, mas que me sabe mal. E sempre. Cai-me como sempre todo o resíduo recente da memória em cima, atulhando-me a consciência que volta, de um laivo amargo de desilusão porque aqueles imprecisos temores de que a verdade é só uma, aquela e insinuada desde a raiz da vigília, lá bem do fundo, de forma a, no primeiro momento de confusão de acordar, ainda poder parecer fantasia, mas logo cai tudo de chofre e é mesmo a verdade que ela se foi. Há muito. Depois lembro-me que há qualquer coisa. Outra coisa que custa a voltar dos fundos do ânimo. Sim. Ela. Mas outra que não a que foi. Esta, ainda não é. Só aquele sonho que nem o de ser de algum modo a realidade possível, mas tão só de o ser, e me acompanha. Mas não tão enraizado como a memória de ela. Da outra que se foi para melhor. Pensou ela. E eu também, na minha insignificância, que sempre vê o mundo maior do que ele é. E nele, todos os outros, mais do que eu sou. Mas que raio. Ainda não vai ser hoje que digo ao patrão com todas as letras porque é que não me pergunta o nome. O meu nome. Que raio. Que António é que nunca foi nem sei de onde veio esta ideia. Apre. E recaio de novo naquela calma apática, a poupar energias para o resto do dia, que parece sempre ser demasiado. E grande. Se ela aparecesse agora, mas não é a hora dela, não era a melhor altura. Nunca é. Fica sempre aquém do que espero quando estou longe de isso acontecer. Pequena, modesta, impenetrável. Como a quereria. Não fosse este vacilo que sempre me dita um alheamento, uma inexistência em que a adivinho ver-me. E assim não há olhar possível. Quem não existe não olha.
Agora vem a parte melhor, que isto do acordar tem camadas. Como um fogo que se me propaga à alma, se espalha no rosto que sinto corar, e no pescoço que transpira abundantemente, bovinamente, digo, não fosse eu uma fraca figura de um metro e cinquenta e dois, já a contar com os saltos dos sapatos do casamento, enfim, quê…três centímetros a retirar ao registo legal, e lembro-me que hoje trouxe a carta. Porque dizer-lhe – entendi há muito – nunca vou dizer. Nem olhar, sequer. Mas a carta queima-me o bolso das calças ao ponto de olhar para baixo a ver se se vê. Sei lá. O fumo. Ou um buraco fumegante a alastrar. E nem seria bom de imaginar, porque são as que trago a uso para poupar as cinzentas escuras que são para o que der e vier. Festas, funerais e o mais que acontece a um homem. Mais os segundos dos que as primeiras. Mas já nem estes, que começam a escassear. Estranho. A questão é esta. Desatei a transpirar de nervos só de me lembrar a carta corrosiva dentro do bolso. Essa é que é essa. Já em casa, para me resolver a trazê-la, quase se diria que estava a entrega-la. O coração num alvoroço de enjoo. Não sei que fazer de mim que sempre fui assim. Entregá-la vai ser uma coisa linda de se assistir. Que é como quem diz. Porque o que queria era meter-me num buraco do chão, com uma mãozinha de fora quando ela passasse o tapete carcomido da entrada e estender-lha sem mais. Depois, estou sempre despenteado quando ela vem e é sempre sem esperar. A roupa, também não ajuda. Mas o pior sou eu. Só de me lembrar do que vejo ao espelho todas as manhãs. Nada a fazer. Não é que ela seja nada de especial. Já a outra que se foi, não era. É que é amor. Antes também era. Eu sou assim. Mas ficou bem escrita. Saiu-me bem. Para falar não me desembaraço mas a sós com a esferográfica, a cabeça fica limpa por um instante. Só vale por isso. Sempre gostei de cartas de amor. Saem-me das entranhas e com o melhor que tenho e não tenho. E elas. Mas o amor é assim.
Levo de novo a mão ao bolso das calças e retiro-a bem dobrada em oito partes, para lha poder por na mão discretamente e como coisa sem importância. Que é. Reparo então que de tanto a tirar para lhe sentir a existência real, para me interrogar de novo se seria capaz de lha entregar como uma flor, sempre a coloco muito ao alcance da mão. Fico em pânico de imaginar deixá-la cair, perdê-la ali pelo chão. E empurro-a bem para o fundo do bolso, como quem aconchega um animal pequeno para não ter frio na noite longa do sono. Mas é nos cuidados que por vezes nos perdemos. Aguentei uma hora, bem medida no relógio, até consentir a mim próprio voltar a senti-la na mão. Vitorioso, exigi de mim mais uma hora, e depois, já como uma enorme sensação de alívio, dei ao meu ego a arrogância de a fazer esperar mais meia. E depois, bem, depois já não estava lá. Levando a mão bem até ao fundo do bolso, só um enorme rasgão no forro. Ou talvez afinal uma queimadura irremediável. Nem sei descrever o que senti. Primeiro, pensar – curioso, escrevi penar, primeiro – que se afinal ela viesse, mais uma vez eu teria que me corroer por dentro sem maneira de chegar até ali. Sem pretexto. Sem existência. Por quanto tempo mais, só ela poderia dizer. Em parte. Depois, como poderia recomeçar aquela carta que já não poderia repetir, e que sendo sempre já outra, me levaria a alma, o suor e o sangue de muitos dias até encontrar as palavras. Fugidias. Os ângulos particulares. A emoção. O sentimento o mesmo, mas dias diferentes. E depois o terror de que alguém a encontrasse antes de mim se a encontrasse. E a ela. Também. Dia após dia. Dizer-lhe as palavras que não digo.
O pior de tudo, no lar, era quando me pediam, com aqueles olhinhos, por vezes um pouco ramelosos, muitas vezes cronicamente lacrimejantes, imersos em cataratas, como uma fronteira da memória com o presente, para ler de novo aquela carta. Quase desfeita, mas para eles nunca o sentido. Suja, ilegível em alguns pontos. Saída daquele saquinho de plástico repetidamente arrumado nos seus parcos conteúdos. O pior ou o melhor. Talvez. Para eles. Em mim sobra a sensação de pânico, pela importância abismal que é a existência de cada palavra. Ou a não existência. E a estatística probabilidade de quase aleatoriamente ela ter ou não sido desenhada, por uma decisão impensada, ou demasiado remoída. E o peso que uma ou outra opção exerce no devir. O que fica. Para além de sempre.
Foi aí que encarei o patrão, entretanto recorrente na modorra do costume, a ver se…e encontrei-o desperto. A fitar-me de lado com um olhar escarninho. Um sorriso escarninho e pensamentos sem dúvidas igualmente escarninhos. Mau. Péssimo. O pior. Não queria acreditar. E dispus-me a morrer – afinal, de vez em quando tem que ser. E ele, na mão um papel dobrado, pequeno, insignificante. Como uma bomba.

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