Teatro anatómico

Subo a cidade, a rua, as escadas, e ao cimo o meu canto.
(Sala de anatomia. As vísceras por ali em pose de revelação. Em cadernos por abrir por debaixo da pele e segredos por guardar. Ou fechados, temporariamente sós. Há segredos mais sós do que outros. E cadernos mais distantes e livros menos tacteados e abertos mas tudo é uma questão de tempo.).

Na página anterior é uma sala de espera com todos aqueles livros de capas dura para resistir à corrosão do tempo e do esquecimento. E flores secas e animais empalhados.

Bem-vindos ao teatro anatómico. Dizia, à porta, a quem entrava, uma voz nasalada de burlesco. Sentei-me e era uma roda de cadeiras ocupadas mas depois era já a mesa, o teatro e cortinas vermelhas. Como o último acto. Viro-me de lado a esconder os órgãos se ainda é possível. Penso uma pausa. Um corte para café e redefinir a máscara, agora inútil. Na mesa. Chamo-me A. Por hoje passo. Pelas palavras, penso. E um coro monocórdico mas afável, vindo da linha semicircular de cadeiras ali, como em torno de um oráculo, responde a pronto, bom dia A.

Deitada de costas. Um lençol azulado sobre o corpo e até acima dos olhos. E as vozes a soar como uma realidade alheia. Pensava as fronteiras do tempo, finas como as da pele. A ilegibilidade dos órgãos. As coisas escuras e misteriosas por debaixo da pele, da escrita. O caminho mais fácil. Temo as colorações e texturas diferentes, coisas com uma explicação, volumes alterados. Coisas assim. Mas sei que não vão ver o essencial. Perceber para além dos sintomas. De identidade, de sentir, de ser. Um corpo coberto de autocolantes para não haver esquecimento. Observado como num sono descomposto, nas roupas impúdicas e abstraídas, no corpo indiscreto e ausente. Impúdico porque só. Mas sob os olhares expectantes e interrogativos ali em volta.

Amanheceu e um pouco cedo, ainda, para tanta luz. Puxo o lençol como uma névoa de adiamento. Mas oiço passos. Não me preocupam as batas e este lençol com uma janela, que logo retiram por inútil, as luzes fortes, dirigidas e cruas. Perturba-me não entender o que vai dar-se. Desaparecida a janela e o lençol, entendo que é por todo o lado. Pensava ser talvez uma fractura algures no corpo uma daquelas quedas e a memória um pouco ausente. Penso. Será uma daquelas perdas de memória. E penso que me lembro disso, mas da outra vez.

Os instrumentos, no tabuleiro metálico, prenunciam alguma reparação. Ou pior. Doei tudo. Será agora…talvez. E começam sem dor. Vejo que é agora e não dói mas intriga-me. O coração. Não, não, não…deixem estar. Tenho uma lista. Começam pelo coração e sigo-o com os olhos, com um desvelo que não imaginei.

Assim em mãos alheias. E se o deixam cair? Numa das tijelas afadigadas em inox. Descansei. Bordos altos, não há como atirar-se dali abaixo. Fico a ver. Há comentários e subentendidos e o afã de uma curiosidade que julgam prestes a alimentar. Mas desistem. Sorri para o lado. Nem chegaram àquele ponto onde não se alcança Para lá das fibras. Viram tudo e não viram nada. Ainda temi o bisturi, a indecisão e a incisão. O coração – ao contrário dos bolbos que se podem seccionar e voltam a crescer e a refazer-se, ou do fígado – não cresce depois de laminado. Posso descansar. Quando olhei para o lado e o vi partir pensei a parte melhor de mim. Mas depois o cérebro e pensei o mesmo. Não podem ser duas as partes. Melhores. Como se lá atrás na última fila de cadeiras, espero que digam, chegado ao cérebro o bisturi, parece que viveu bem. Se isso se vê.

Depois o fígado. Noto-os indecisos numa suspeita e num aparte irónico. Enfim. Desconfio que houve crime. Eles, em torno de uma coloração específica, de que houve desespero ou álcool. Nunca vão entender a subtileza com que este fígado lidou com o dia após dia, a sós com o coração. O cérebro a amolecer a vontade e o tempo a passar melhor. Entretido. O que é preciso é distrair o tempo. Os pulmões, mais fáceis para todos, ali em torno apertado, sentados e absortos. Pensei que sonho aquele sonho de sempre. Sonho-me a dormir e rodeada de olhares que velam expectantes e desconfortáveis e esperam que acorde. Penso o que interessa a alguém o que mora nestes órgãos. Espero que deixem os olhos para o final para poder ir fazendo as despedidas. Sempre me preocupei com a qualidade das despedidas.

Não vão entender nada, os olhos estranhos. Para trás dos sintomas, o essencial que é invisível aos olhos. A presença discreta de tudo, interior à flor da pele onde cicatrizes nem sempre são maiores. E importante para cobrir, como uma poalha de pudor ou um véu de nivelamento, os órgãos ilegíveis, os músculos desconhecidos, a circulação que não gosta de ser surpreendida numa agitação. Daquelas que arrepiam os pelos indiscretos dos braços. De colorir o rosto, sem remédio, do que se passa fora do alcance da vista.

Melhor assim, que dissecar. Já bastam os pensamentos. E foi nesse momento que me lembrei daqueles grossos volumes cheios de escrita e de sintomas diários. Os diários dos dias. Que devia ter deitado fora. Antes.

Amar é um arrepio, um calafrio enorme, um súbito cair do coração costelas abaixo como se abismo vácuo. Um tremor de susto só de ler sílabas que somadas dão o nome. Como se um espelho do sentir. O simples nome. Um tiro certeiro. Amar assim, ou por se amar, o sintoma ou a causa. Experimentem escrever o nome.

Colocar sensores e terminais de rastreio no cérebro e no coração, e medir a tenção do choque e tirar conclusões. Tento dizer, mas não oiço a voz que não sai. E a toda a volta não vejo máquinas. Somente os instrumentos reluzentes alinhados no tabuleiro. Não leram a marca do ferro a quente ou a tatuagem no flanco. Orlando. Detalhes importantes. Talvez tenham pressa.

E depois umas palmas esparsas, discretas como para não acordar o sono desigual de cada parte. Pouco público. Ainda bem.

Levanto-me intimidada e a querer, apesar de tudo, fazer o meu papel e agradecer. Há que agradecer. Faz parte do trabalho. Levanto-me e levo a mão ao pescoço a segurar o lençol. Chega de nudez. Em desesperante crescendo, a urgência de que caia o pano.

Uma tristeza repentina alojou-se na garganta à falta de lugar próprio. Sobe sem que o possa conter, um grito. Mãe.
Abro a portada e lá está aquele sol brilhante em cada superfície. Hoje amanheceu assim. Lindo. Mas há qualquer coisa neste sol. Qualquer coisa no céu e neste tom de azul. O ar quente. Não sei. Qualquer coisa de hoje. Ou talvez seja de mim. Talvez de um outro lugar de mim. O mesmo de ontem, mas hoje. O mesmo de hoje mas sempre. Ou de sonhar. Ainda bem que nunca me lembro do que sonho. Quase nunca. Olho num último relance o lençol da cama desconfiando surpreender um azulado residual, um par de luvas cirúrgicas caído por ali. Mas não.

15 Jun 2020

Nove pessoas e um cão

Nove, talvez. Mas são curiosas as coisas da memória, onde sem se poder demonstrar já se foi verdade ou não, aparece uma colagem de talvez outros momentos naquele. E assim também os avós – e seríamos onze, afinal – que tantas vezes iam connosco, me aparecem naquele fotograma solto. Invasivo. A caminho de nada e vindos do nada. Porque nada mais ficou para lembrar, do imediatamente antes e depois. E é assim que as coisas ficam isoladas no tempo da memória.

Os velhotes não queriam acreditar quando viram abrir as portas do carro, o cão como uma seta a desaparecer de susto nos confins da planície, e no lusco-fusco que já envolvia tudo a dar para a escuridão rápida e completa, emergirem da frente dois adultos e duas criança, de trás, por camadas caoticamente desfeitas, dois adultos ou mesmo quatro e três crianças em escadinha… Tudo ileso, assustado, entorpecido e meio amolgado do aperto, furibundo e preocupado com o cãozito, e que voltasse do horizonte. Com aquela perplexidade que mais tarde voltei a sentir no momento exactamente a seguir ao choque que, inesperado, vem do nada. Processado pelos sentidos e pela razão em momentos diferentes. E, como mais tarde entendi muitas vezes, quando acontecimentos vários e preocupantes se cruzam inesperadamente, se elege um único que pode de um outro ponto de vista ser o mais pequenino ou não tão significante. E nesse se concentra toda a preocupação, remetendo outras para o estranho território da culpa. Auto-infligida. A culpa de pensar mais numa coisa do que noutra, à luz de critérios muito privados. Secretos, mesmo. É-se assim sem remédio.

E ali, no meu caso, era que ele voltasse lá do fundo da planície já escura entretanto, a perder formas e definição, na noite a cobrir o crepúsculo inexoravelmente. E depois voltou, claro. E a pergunta, de mente infantil, primeiro se voltará o canito de lá longe e só depois, se vai explodir, como se apanha um carro a cair da estrada abaixo e onde vamos dormir esta noite.

E ali ficámos a ouvir cigarras e os velhotes desfeitos em desculpas. O automóvel de ladeira abaixo e quase a virar de costas na ribanceira. Como uma carocha. Pequenina, a ribanceira, mais uma valeta grande. Jesus. E o Taunus 12 M verdinho com risca branca, a parecer uma caixa de fósforos vazia e amachucada para deitar no lixo. E este era o carro bom. Porque os outros daí para baixo só nos davam desgostos. Empanavam. No meio da Serra do Caldeirão, ou em qualquer outro sítio desabitado e sem cerimónia. Problemas de radiadores, baterias, motores de arranque. Daquele género que quando para vai abaixo é preciso empurrar mesmo em trajes de casamento para lhe elevar o ânimo a continuar caminho. As mãos um tanto mascarradas e sem água para as lavar. E porque a água ia toda para o radiador donde fugia incontinente ao longo do caminho. Também é um facto que o meu pai, que não tinha nada de distraído, deixava acabar a gasolina muitas vezes. Nunca percebi. Acho que era um jogo teimoso e íntimo de apostas. Até onde esticava a gasolina. E no meio de nenhures as bombas não abundavam. E ele furioso sabe-se lá com quem. Com ele. E de caminho, connosco. Talvez só de ter espectadores na perda da aposta consigo próprio. Mas daquela vez a culpa foi dos velhotes que vinham devagarinho, devagarinho cada vez mais, à luz dos faróis e a aquecer-se na nossa companhia numa estrada sem movimento. No Alentejo profundo e escuro. Muito pertinho, cada vez mais pertinho à medida que anoitecia. Era pela companhia mas uma distracção quando abrandámos para virar e a pancada inevitável. Coitadinhos, estavam de coração nas mãos. É no que dá quando nos aproximamos demais. O choque com estrondo. A ver-nos sair dali de dentro, amarfanhados, inteiros e com posições estranhas pelo entorpecimento do aperto e da viagem e pela posição esquisita das portas a abrir para baixo. Quase. E com pressa, antes que caísse e rebolasse, o insecto gigante sobrecarregado e desasado. E nunca mais acabávamos de sair. À frente nós os quatro, atrás eles os cinco. O tio Feliciano e a tia Angélica, Ele alto moreno e seco para lá dos olhos brilhantes e transparentes, ela sibila pequenina e doce que falava com os bichos quase corpo de criança, bem antes de África onde o deixou por não poder mais. E mais os primos. E esta colagem dos avós, que se calhar é de outro filme.

E a tradicional e estoica expressão do meu pai, furioso no fundo mas condoído dos velhotes, foi só chapa.
Coitadinhos dos velhotes. Destas nove ou onze pessoas, um dos adultos ainda vive – à época em que escrevo o texto, agora já não, nem uma das crianças de então que já partiu. Sobram quatro adultos que não o eram. Contas estranhas. Do cãozito, nada se sabe hoje. O que pode significar que ainda anda por aí, já que nada se sabe. Volta em sonhos e mesmo nos sonhos com uma aura de impossibilidade. É estranho. Que as pessoas existam num tempo dos outros e deixem um vazio nesse tempo. Um mistério. Como se convive com tantas zonas de ninguém em nós. Porque todas são insubstituíveis embora algumas ocupem um lugar maior de vazio.

8 Jun 2020

Do fundo do tempo

Estamos, humanos, a assistir de fora e de dentro. A uma imutável mutação constante, que nos vem dos confins do tempo. Imersos no paradoxo. A teoria do devir, em que se encontram, nessa guerra de opostos, o princípio e o fim desenhados num círculo perfeito. Heráclito de Éfeso, na Jónia, no pensamento expresso pelo aforisma: “Tudo flui como um rio”, encontrou a imagem que deu forma ao que já os filósofos de Mileto intuíam sem problematizar: o dinamismo das mudanças na physis. E assim tudo passou a se nos apresentar. Pelos seus olhos, ao nosso lado, à beira do mesmo rio. O mesmo, mas outro. Em mudança. Como alternância de contrários, em que cada coisa tende para a outra numa inércia perfeita. Como um devir. Em que tudo é movimento, tudo se move, excepto o próprio movimento.

E foi a Jónia que nomeou uma das ordens da arquitectura clássica. De colunas-árvores mais elegantes, enervadas de canelulas a desenhar um olhar em altura, para a ilusória perfeição do entabelamento.

Construía-se uma geometria imperfeita para, na correcção da perspectiva, se fazer perfeita ao olhar. Eram mais altas e leves, de capitel em volutas, talvez a ilustrar a espiral do tempo. Mas também demonstram, se assim o quisermos olhar, como perfeição ou o seu contrário, não são ideias estanques e podem conviver numa mesma ordem, tendendo uma para a outra numa pequena e simples oscilação do foco. O olhar, ou a realidade mensurável.

Voltamos ao tempo antigo e a Heráclito, como voltamos sempre ao rio, em contemplação. Esse mesmo rio que não se pode percorrer duas vezes sendo o mesmo. Nem ele, nem nós, substâncias mortais. Nem contemplar as suas águas, as mesmas, porque nunca o são. E também porque o tempo de hoje nos traz pelo pensamento de Z. Bauman, em torno de uma “modernidade líquida”, o retomar da mesma ideia e da mesma realidade intangível, que vemos passar inexorável. E nos faz recuar no tempo, quando tememos o futuro.

Porque o tempo haveria de voltar a avivar, válidas senão desesperantes, as mesmas imagens dos mesmos olhares. De quem vê da margem, como quem a vê, navegante. E como quem se vê como tal. O que nos distingue afinal dos gregos antigos, diz-nos Bauman agora: nada, afinal. O filósofo de desconhecida modernidade, vindo dos confins da antiguidade sem imaginar quanto da sua percepção se haveria de agudizar tantos séculos de ideias e mentes depois. Há um olhar primeiro na primeira ideia imortal. Que nunca mais morre mesmo se adormecida por séculos. A ideia de que tudo flui, retomada hoje por Bauman. Mas que tudo flui demais para a alma humana, tendente a raízes. E de que tudo tende a despojá-la delas. Sempre as quase eternas, de tão longevas, árvores, como contraponto a esta sinfonia que custamos a acompanhar.
O que temos, de árvore ou de rio?

A desgastante impermanência que não nos dá um tempo de sentir o contrário, a exaustiva imutabilidade. A saturação tóxica do que é e sempre é e como foi e sempre será. Que não existe naquela simples constatação de que nada, nunca, será jamais o que foi imediatamente antes. Uma paradoxal nostalgia do que sempre foi mas também a apetência para o que nunca existiu antes. Ambas conviventes num mesmo olhar.
Corredor solitário. Há sempre uma geografia possível a quem não sai do seu lugar. E corre. Uma cartografia que se cumpre, se renova e se palmilha em cada renovar dos dias. Mesmo que a mesma, mesmo nas mesmas indefinições dúvidas ou paradoxos, um caminhar que é desporto, descoberta ou destino. Ou desconhecido sem mais. Sem adversário mais, do que a própria vida nos seus jogos, dificuldades e estratégias e instruções extraviadas. Um corredor solitário é um corredor sem mais gente a atravessar. Ou o corredor que corre, sem mais gente a ladear. Sendo assim, mudo de ruídos estranhos, ou surdo aos ruídos que não há. Respira, livre. Chora, sem testemunhas. Corre por si e para si – ao longe – ao longe. Corredor implica caminho a correr e margem a ladear. Corredor é caminho ou caminhante em corrida. Não é fugitivo, nem o caminho fuga. (O que me leva sempre a Bach, a fuga. Essa estrutura complexa e talvez inacabada, a repetição de um padrão em crescendo. O conceito de contraponto. A imaginar se uma vida se pode escrever numa partitura como essa).

Apurar a passada, ouvir o coração, respirar com disciplina. Ir em frente. Temporariamente, como uma linha tangente ao círculo perfeito. Em passo de caminhada ou de corrida, por entre as margens da visão distraída do que passa, ficando passa, parece passar, ficando para trás mas prolongando-se em frente. O corredor, se é solitário, não mede e não compete. É como o rio. É só e consigo. Nunca o rio se fez pasto de fúria. Nunca corre adiante e nunca corre atrás. As margens não lhe determinam a corrida nem o ritmo nem a pressa nem a venda. Mesmo dos olhos, que não se sabem fechados ou esbugalhados em frente atrás de nada. Corre como deve e como pode. Tende. Ignorando a foz, irresistível para lá flui. Animal manso, rebelde e solitário. Mudança em movimento estático. Nasce e nasce e nunca morre e morre. Como não sabemos que morremos.

Ou então: a esgrima. Um fascínio de precisão. Escolher as armas: sabre, espada ou florete, como flores. Mas na esgrima são precisos dois. É como no amor. Às vezes.

1 Jun 2020

Rasto de canela

Só me lembro daquele dia. Chegar a casa e não chegar à fechadura da porta. Com dificuldade conseguir passar por debaixo desta e entrar afogueada a pensar como de repente se pode ser pequena demais para uma coisa e quase grande demais para outra. A casa estranha, então, na desproporção desmesurada e nova, entre tudo o que era confortável e a minha diminuta estatura secreta. A pouca espessura recente. Se os objectos me viam deste tamanho, era a pergunta silenciosa que se insinuava no fundo do meu olhar desconfiado. Pareciam indiferentes, mas é difícil guardar este segredo. Ao fundo, do corredor e depois do cotovelo, a cama exorbitada pareceu-me de repente um lugar de afogamento possível.

E do outro ado da casa, a mesa, com tempo, daria se tudo se mantivesse, uma boa cabana de refúgio com amplo jardim, nesta floresta de coisas inúteis subitamente agigantadas. De coisas que já não serviam. Ou então, penso depois, estou-lhes eu curta demais. Olho para o sofá grande e penso para que o quereria eu tão grande. E naquele momento parece-me tão desadequado na casa como um daqueles navios de cruzeiro ridiculamente grandes num porto da cidade.

Livros fora das estantes, pesadíssimos e subitamente monumentais. A arrastar pelo chão, a içar uns para cima dos outros e a pensar que se se construíram pirâmides sem guindastes, também alcançaria a poltrona preferida do gato. Uma fibra gigante branca e fina esquecida do tempo em que ali se enroscava a dormir.

Uma autêntica obra de engenharia esta escadaria de mansão, feita de livros empilhados. Entendi que tempo era coisa que não me faltava. Só mais um, arrastado a custo na subida, um fininho de poesia – sem força para mais – para o topo das escadas em construção. Até alcançar a almofada de veludo com o enorme pêlo do gato. Era suficiente, mas havia que resolver o jantar antes de desmoronar de cansaço.

Percorri o longo caminho para a cozinha e cheguei já passava bem da hora de comer. Na desarrumação providencial e desusada, uma bolacha em cima da mesa, a última de um pacote antigo, esquecido. Lembro-me, porque ficou ali na pressa em que saí, sem assim a deitar fora. Mole e com um ligeiro cheiro envelhecido.

Ia dar para cinco dias. A fome a perturbar o sono que rondava. Mas como subir? Quanto tempo levaria a fazer uma outra escadaria de livros e bem maior? Avalio em desespero a distância do chão ao pano da loiça. Do chão ao puxador do armário e deste à ponta do pano. Foi o cesto das cebolas que me salvou. Virado a custo ao contrário, escalado pelas reentrâncias do vime e a partir dali o pano A custo. Não tenho prática. Sento-me finalmente na bancada de pedra e preciso retomar o fôlego. Dali para a mesa um largo abismo a resolver talvez a salto e com risco de uma queda feia e dolorosa. Mas ali mesmo a tábua do pão, repleta de enormes migalhas. Quase chorei. Cortei várias delas ao meio e molhei na colher suja de azeite, retirada com estrondo, como uma alavanca, da saladeira do jantar da véspera. E, já com o alívio na alma, um capricho luxuoso fez-me abrir o contentor pesado do açúcar amarelo e acrescentar uns grãozinhos a cada pedaço de pão. Memória da infância naquela casinha da escola da primeira classe. Coisas do recreio no jardim das traseiras e de meninos mais crescidos a brincar com meninos mais pequenos e todos com um pão para o lanche. O daquele, sempre com açúcar e azeite. Lembro-me tão bem do cheiro, mas eu nunca tinha experimentado e até este momento. Depois, ainda havia que descer, dali. Mas por agora, jantar. Ainda dou umas dentadas numa sultana que achei debaixo do micro-ondas, mas estou cheia e deixo o resto para amanhã. A pensar em Gulliver. Um dia, acontece a todos, talvez. Pano da loiça abaixo, volto a percorrer o caminho da sala.

Está frio para dormir destapada. Talvez alguma meia caída no chão lá ao fundo, mas isso nunca acontece. E por milagre ali estava ela, lavada e fresca, caída antes de chegar à gaveta. Enrolei-me nela numa onda de calor e conforto e voltei a percorrer o caminho de volta até à sala. Vencida de cansaço e a pensar como as coisas e a sua pertinência mudam em função de novas circunstâncias. Ainda hesitei entre o esforço de subir a escadaria de livros ou dormir no tapete. Mas depois pensei que mesmo infinitésima merecia uma almofada macia. Por fim cheguei lá acima e enrolei-me sobre mim própria e na meia, quase aniquilada de sono. E então, como tantas vezes, este diluiu-se por artes mágicas, perante o pensamento de que aquela bota enorme poderia voltar. Sonora e cega.

Tento encontrar posição, revolvo-me, ajeito a meia em torno do pescoço, mas num gesto mais brusco caiu-me um pedaço de uma perna. Deixando um rasto de migalhas na almofada e esfarelando-se, ante os meus olhos aterrorizados, no chão. A chamar formigas. Nada a fazer. Ficou um cheiro nítido a canela e um toque de gengibre. Levo uma mão assustada à perna, outra ao peito. E percebo que tal como a que está esquecida na mesa da cozinha, também começo a amolecer.

25 Mai 2020

Imperturbável finitude

Chegam como um ímpeto irreprimível de afirmação. Mal a luz se anima imperceptivelmente e os dias se acrescentam. Chegam como uma família grande à beira do verão e que vai avisando. Ou alguns, nem sempre os mesmos, alguns anos, não chegam. Não podem. Mas quando abrem, como se a abrir a porta de casa quando toca a campainha, mas tudo ao contrário, enchem os olhos da casa.

Chegam e irrompem elas a abrir. Invadem de um deslumbramento, que de existencial tem a qualidade de se saber finito e que vai desembocar no desapontamento. Chegam, de passagem, e vão. Mas naqueles dias em que se instalam no máximo da cor, a invadir espaço e a virar-se intencionais para a luz, são. É preciso aproveitar a curta estadia. Então, junto as flores que me habitam a casa e faço jantares de família – retratos, digo – com janela para o rio.

Ou ponho a mesa para jantar a dois, o que sempre se justifica. Hoje, para a flor gigante e túrgida, silenciosa e possante. Que mais interrogar a tamanha afirmação de estar? Seria ingratidão, até. E antecipar a queda, também. Às vezes tombam pelo pescoço alto, outras enrugam e tornam-se de uma pele fina e delicada, com a cor mais saturada, em canto de últimos dias de cisne colorido de rosa. E ficam os braços ainda firmes e dramáticos para o alto, mas sem já possibilidade de retorno. A última prece. Ponho a mesa de vidros delicados da avó. Guardanapos de pétalas bordadas. Das mulheres já extintas, da família. Saudosas, em suaves respirações inaudíveis nos objectos que guardavam em gavetas, envoltos em panos de branco puro.

Toalha bordada porque é a família. Talheres de desenho antigo e intemporal. Colheres de curva mais côncava e facas de cabo mais pesado. O tempo tem que encontrar lastro para se segurar em terra, em cima da mesa.

A luz baixa para não perturbar e numa vela o precário sopro como a magia do tempo. Apenas dois lugares se enfrentam lentamente. Como gostaria que fosse para sempre quando fosse. Olhar-te o rosto a encher o olhar e sem mais, digo sem dizer. Palavras. Só assim porque as plantas não se expressam e as flores preenchem ao olhar o silêncio. E eu fico ali por horas a tentar que esquecidas. Das perguntas de quem sou. Bebendo nas taças cristalinas, por mim, por elas e pelo rosto aberto na minha frente. Bebo até ao fim da garrafa. E depois, encosto o rosto à mesa e fico ali sob o olhar fixo e sereno. Quieta. Inalterável permanência que me conforta.

O meu sobrinho entra com a chave e pouco ruído. Vem todos os anos deixar-me comida inútil e ver se está tudo em ordem, as contas, a roupa. Acho-lhe umas entradas que não tinha em pequeno, da última vez. Diz-me na sua maneira suave e meio sorridente não podes deixar o gás do forno aberto é para matar as baratas digo. Mas és tu que podes morrer. Penso que é uma criança que não entende que não sou eu uma barata e que gosto de ter a casa limpa e baratas são nojentas. Mas tens visto alguma, não, tem dado resultado.

Sorrio-lhe também gosto de o ver no ano passado não veio. Volto para a semana, não voltes a abrir o gás, promete, diz de saída. Claro. Mas como julga ele que me tenho visto livre delas? Vou com ele à porta e vejo-me de passagem no espelho do corredor. A minha tia M. As pálpebras amolecidas a entristecer, o contorno mais sinuoso do queixo. Mas não sou ela. Sento-me. Ninguém. Foi uma breve visita do passado, do futuro.

Querida tia-avó M. com o olhar leitoso das cataratas, antes da operação e antes do depois. Volto a encostar o rosto ao braço à mesa. E, de novo, a imperturbável finitude.

19 Mai 2020

E depois das árvores

Ou o orangotango e o escaravelho. Em subtítulo e como uma fábula encarnada por esse estranho par da floresta. Um, nos píncaros das árvores, o outro a rolar bolas de estrume, muito abaixo. Essenciais.

Horas passadas em frente a um ecrã a trabalhar, fechada em casa nesta consciência de que tem que ser e de que sei a razão. Ao contrário dos bichos. Isolados pela desflorestação. E passando, num curto passo conceptual, de habitantes a invasores. Ou tornados órfãos pela captura das mães. Desligo o computador e acendo a televisão. Outra janela no habitat da casa. E aterro no Bornéu. Esplendorosa visão sem tocar, da floresta tropical. E tão bonito o termo inglês: “rain forest”, a que brota da chuva, esse dialético alternar entre o que cai e o que ascende, numa medição de forças em que a vida impera. Ali. Vestígio de um milhão de anos de vida em renovação desde o mais inacessível rebento, a centenas de metros do chão, ao mais ínfimo verme escondido no segredo desse cadinho de desperdícios no solo. Árvores milenares, tanto de altura em busca dos abismos etéreos do espaço livre, como no oculto da profundidade, quase uma metáfora do dinamismo psíquico, que nos caracteriza e acrescenta ou transtorna. Enquanto no resto da natureza, as funções e as coordenadas se dividem. O elevado e o rasteiro. Uma imensa fábrica útil, maravilhosa e exuberante de diversidade e equilíbrio.

Grandes orangotangos, de enternecedora semelhança connosco no olhar, e nos noventa e tal por cento de ADN comum, em que foi seguramente incluída uma certa apetência à contemplação. Parecem tão serenos e sem outra actividade, que viver. Essa serenidade que nos falta. Mergulhados em ambição. Mas eles, ao contrário de nós, mesmo no gesto mais elementar de comer um fruto, retribuem à natureza, disseminando as sementes, em vez de lenços de papel. Têm mais utilidade do que nós, seres humanos. E garantem a biodiversidade que lhes assegura a existência. Também poluem com as suas fezes inevitáveis que exalam um metano nocivo para a atmosfera. Mas os pequenos escaravelhos, de poucos centímetros, que rolam bolas de estrume mil vezes mais pesadas do que eles próprios e as enterram, úteis aos seus hábitos de reprodução, neutralizam a poluição que delas se evolaria. Isto deveria dar-nos que pensar. A poesia das pequenas profissões da natureza. A utilidade de tudo. Comove.

O que é esta resina, que sela as dores de árvores feridas, e usamos em colares – como somos fúteis e a única espécie que se enfeita com a natureza alheia e que em quarentena, só reza para que reabram os cabeleireiros – penso, rolando uma pequena conta de cor ambarina entre os dedos, num gesto mecânico.

Mas sobretudo os que, no topo da cadeia alimentar, nada dão em troca. Nós que tanto falamos de reciprocidade. Que combatemos os da nossa espécie por ideais. Por ideias e ambições. E destruímos sem dó a nossa casa-mundo.

Toda esta beleza feita de um intricado e misterioso conjunto de cores e sons e vida escondida, de tirar a respiração. Mas nos permite respirar melhor. E, mesmo de longe, viver melhor. Porque é ali que se prende como a profundas garras, uma quantidade imensa de carbono, que subindo à atmosfera contribui para uma abóbada-estufa em que tudo definha.

E já se pode ver para crer, numa floresta digitalizada em camadas de cor, a quantidade de carbono retido nela e não deixado fugir livre para a atmosfera. Mas reduzida em um terço pela mão do homem. E, por comparação, as cores dessa ausência, em florestas rígidas de palmeiras novas, repetitivas, que vão substituindo hectare a hectare, cruéis, a maravilhosa diversidade da outra. Limpas do carbono fugido delas para a atmosfera, em liberdade de fazer mal. Os bichos em fuga, também. A vida em desequilíbrio. E depois de tudo isto, das árvores, fico a pensar que resta o depois de nós. E que se perde também uma espécie fascinante. Mas que ao contrário das outras, com toda a sua razão e imaginação, tanto produziu, que destruiu. Um tiro no pé.

Pesquiso no mundo Google: “como ir”. E corrijo: “como não ir”. Deveríamos poder ver de perto a fórmula feliz da natureza, mas tudo aquilo em que tocamos estragamos. E há muitos lugares no mundo que deviam ter sido ignorados pela espécie humana. Excepto agora, por aqueles que, dedicados à ciência, ali têm como missão de vida estudar, ler os limites, fazer contas ao mundo e proteger. Que tentam reconquistar a sustentável leveza do ser-mundo, à ganância de povos e políticas. Ali, onde cada ser estava no seu lugar e sem ambições para mais. No equilíbrio mútuo de vidas como um todo. Mas não é por altruísmo que são assim os seres vivos. É como se fosse uma forma superior de inteligência genética, que nos falta, a que os tem em harmonia no puzzle complicado de dependência e importância. Ao largo do Bornéu mergulhando a pique nas águas, outra forma de equilíbrio no arame. E qualquer sopro estrondoso de uma explosão para pesca apressada, faz ruir florestas subaquáticas e maravilhosas de corais, e com eles a fauna dependente. Não só não retribuímos, como somos predadores com meios desproporcionados que pescam mais para enriquecer que para comer.

E, em fuga para a frente. Marte. Talvez um dia tenhamos que nos mudar.

Depois o crepúsculo. Um burburinho ensurdecedor de aves e insectos que desafiam a noite. Ali, num mundo isolado e já quase inacreditável, no meio do vórtice de insanidade, as pequenas coisas belas e estruturadas persistem inexoráveis como uma camada do mundo que é intransponível, mas não é verdade. Enormes tensões que facilmente o abalam e põem em causa este perfeito mas delicado equilíbrio. Entre orangotango e escaravelho.

Por aqui também cai o dia. Sento-me em frente, com um copo de vinho. Transformado do natural. E o copo é bonito porque é vidro. Uma diáfana invenção. Talvez devêssemos ter ficado por aí. Para uma bebida, o entardecer. Uma emoção calma. Sim a cidade silenciosa também. Este céu branco enevoado antes do negro.

E não há grito possível. Nem medo. Medo é em tudo o resto.
Mas o ruído ensurdecedor da floresta fica a habitar-me e a casa.

Deixo respirar o vinho, como a terra precisa, enquanto o movo ligeiramente a sentir o aroma. Olho uma imagem de que gosto. Na parede. Outra coisa que nos distingue dos bichos. Produzir imagens. Ou a razão ou a memória. Ou imaginar o que não existe e esquecer o que há. A natureza em agonia. E depois, simplesmente, pergunto o porquê. Daquilo que nos distingue e de que nos orgulhamos, ser também o que destrói sem retribuição.

A vida é elaborar, ir. Mas também, com razões maiores que nós, o contrário. Ou o futuro é já ali, depois das árvores, depois do mar e depois de nós.
Marte é tão vazio e sem árvores.

11 Mai 2020

Existe um rio

Existe um rio. De que me apetece falar. É uma questão que, sempre prévia, me acontece quando inicio estes textos. De que é que me apetece falar, e desse rio, sempre. Como somente das coisas de que gosto. Ou dos fantasmas que me assombram. É, nas palavras, o prolongamento e a homenagem do real.

Nestes dias de Abril e depois de Abril, acontece-me rever palavras desse tempo, pela voz dos poetas. Porque é um tempo tão familiar à memória, que me apetece visitar. E trago este título do interior de uma canção que me está entranhada na alma, como este rio, e ao ponto de sempre me lembrar da canção com este título que não é o seu. “No teu poema”. E no rio, como em qualquer poema, mergulho com o olhar que é o meu de amor. E revejo outros poemas musicados e cantados, de J. L. Tinoco, um poeta demais esquecido na voragem de outras máquinas que engolem o tempo. E como, nele, o rio é metáfora recorrente como o sangue que espera a vez. E como “madrugada” se torna o espaço e o tempo em que se espera renascer. Coisas para além da insónia. Palavras fortes de sangue madrugadas e rio. Em que mergulho. E depois, mesmo já pela minha mão ou pelos meus olhos, existe um rio, na minha cidade. Em mim.

Neste tempo de clausura forçada, em que já nem reparo, continuo a pensar nestas coisas e fechada nelas. No silêncio da casa. A mesma casa e o mesmo silêncio povoado de fantasmas e vozes. Como o rio. Eu penso que não poderia viver numa cidade sem o silêncio do rio. Mesmo se não o vejo há tempo. Da janela pequena, sim. Mas é um outro rio. Emoldurado e distante. Como se o rio daquela janela. Um toque de irrealidade. Mas gosto desse meu rio, também. Existe um rio. Mas na verdade existem vários rios em um. Aquele que vejo ao fundo da outra rua, quando desço. E que é sempre o mesmo e um rio particular ladeado pela igreja e pelos prédios. Encerrado e delimitado como qualquer imagem. E, mesmo se à espreita, a natureza inteira.

Não poderia ser uma cidade sem rio. Parada sobre si, fechada. Ou fechada sobre mim. Mas ali está o corpo denso, manso, a correr para o mar discretamente, como se em pensamento. E todos os dias. Para sempre no sempre possível. Uma janela para o ontem sobre o amanhã. Talvez se chame esperança. O rio. Que todos os dias vem, passa e está. Tantas identidades, tantas possibilidades, como gotas nele e dele correm. Sangue nas veias da cidade, esse veio de água que banha. Como uma longa lambidela terna. Que alonga e entorpece o olhar deitado nele. Este rio que corre sem poder voltar atrás e desgasta as margens como o tempo, mas que a esta pequena escala do olhar, permanece o mesmo nunca o sendo. O conforto precioso num mundo em mudança.

Às vezes eu detenho-me na simples perplexidade que é esta preocupação em pensar a vida. Esta, que é de uma infalível inexorabilidade na forma como flui. Como imparável se estende no tempo do passado imediato, ou do passado arrumado nos cantos da memória – uma estética específica e inesperada, em que o terrífico pode ganhar tonalidades de sublime e o prosaico de lírico pitoresco, talvez pelo convívio em arrumações distraídas, com luzes de árvore de natal de há uns anos, restos de velas por arder, candeeiros antigos, ou a simples bioquímica, em insubordinada independência, sempre novas páginas a ler nesse olhar para trás – vida imparável a da memória em elaboração. Essa maliciosa e diletante sobrevivência que se alimenta de pensar a vida, e que – e é aí o lugar da perplexidade – perde parte do seu tempo a teorizar o que funda aquilo que à partida está fundado em si. A vida justifica-se a si própria sem que a memória o ajude a fazer. E a existência, uma espécie de obra de delicados contornos a querer crescer em paralelo com a que é a sua origem. Que absurdo perfeccionismo, o de querer entender aquilo que já de si se define por si. Quando nem se sabe que se queira uma luz a ver de fora ou tão só uma luz a acalentar de dentro. Esta estranha e utópica sensação de que ao saber, acresce habilidade de viver.

Causa-me dúvidas, claras e irresolutas dúvidas, pensar. E que, se um dia, se por um momento, sequer, eu não fosse eu, seria um pouco mais eu. Este é o género de pensamento em que nos situamos em camadas, mesmo ao escrutínio íntimo e sem espectadores. E que me leva a pensar que haverá um eu mais natural do que todos os outros que o recobrem. De éticas e estéticas e olhares.

Eu tenho tantas vezes este desejo cheio de exclamações e reticências. De entender tudo. Que limites que amarras que camadas parecem imiscuir-se no que sou e sou sem dúvida interior, mas transformam o que sou, naquilo que vivo. Talvez os outros.

Canso-me e quero esquecer os dilemas da razão. Silenciar a profusão de perguntas. E a prepotência da razão, que é uma falsidade. Um mundo cheio de doces, iguarias várias e à escolha. A razão é uma escolha de consumo. Por outros caminhos, há dias em que qualquer cor no céu me serve para sonhar. Talvez quando não há uma realidade observável mas estados de consciência a refazer a noção de realidade. Tão volátil. O imponderável domínio das ideias.

Tudo a propósito de “O teu poema”. Em que entro e me instalo devagarinho sem tocar. E dos olhos que cada um lança a dar a voz. A um rio que é só seu.

4 Mai 2020

Trilogia

Pensa, quem leu as narrativas anteriores, que sentido terá, uma quarta parte numa trilogia. E com razão não fosse a quarta dimensão de todas as coisas, subjectividade humana, inerente e secreta, tão difícil de ignorar. O tempo, “a substância de que sou feito”, como disse Borges. Aquilo que é implícito, sempre presente e sempre ausente de cada formulação a ansiar solidez, à espreita como malha invisível em que tudo se pode sonhar ou lembrar. A começar a quarta parte desta trilogia e a pensar que não há contas certas para a vida. Que fazer…

Uma pessoa recorda. In illo tempore. Diz-se tanto: naquele tempo. Mas é o tempo que não existe como outro. Se o presente foi sempre esquivo como hoje, posto no passado que é algo imediatamente antes ou remotamente longínquo, mas não acessível a uma medição palpável, então um como outro, feitos de memória e da imaginação. Que não nos transportam a um outro tempo porque não existe, esse. Mas existe, aquele que é um só e muitos no presente. Um presente em fuga e mesclado de todos os tempos verbais a pelejar por uma elaboração linear que os ordene numa ordem impossível.

Não somos do tempo mas no tempo e através dele. Como um mapa imaginário que navegamos ao sabor do caos e da vontade, invadidos de abalos e ventanias. Vem. devagar ou em turbilhão. Com calma ou em solavancos. Nesta insubmissão do pensar que nos transporta para trás e para a frente, sem regras. Entrando e saindo. Com o tempo de través nas velas. A sacudir intempéries.

Sento-me de noite na varanda das traseiras e nesse lado um pouco secreto daquele espaço invisível na cidade e cego para ela, é como se tudo fosse mais nítido. Uma oscilação para uma pequena estranheza, como se transportasse para fora de mim. Para longe de tudo e num esvaziamento que é o mais parecido com o tempo presente. Se não pensar em nada. Os segundos passam sem parar. Mas reduzem a velocidade em muito. Tudo se resume ao silencioso labor das células. A casa nas minhas costas e o que sonho para lá dela.

A imagem que tenho em frente e a memória que me assalta de tudo. O que é antes e o que é depois. Existindo um fio cronológico e ordenado para as coisas não palpáveis, será o sonho em frente e a memória para trás, ou o pensamento súbito que nos assalta com aquele rosto que já não está se situa em frente como se dos olhos, e o que ansiamos como sonho e expectativa é um desenho eternamente e repetidamente formulado, reconhecido e num protfólio que existe também na memória arquivado e ultrapassado, ali por detrás das costas a cobrir-nos de possibilidades para amanhã. E é assim que estou sempre a voltar ao tempo de que nunca saí. Volto a olhar os astros. De facto parece-me uma forma maravilhosa de ter a precária ilusão de parar o tempo num pedaço de eternidade. Na verdade o tempo dos astros ultrapassa-nos em tanto de passado e em tanto de futuro que a ínfima partícula que somos, a essa escala, torna-se como um ponto sem dimensão e como tal o ínfimo fragmento de segundo na pantalha universal, que pode parecer, mesmo por horas um simulacro de presente. Se mesmo das estrelas que já pereceram, sabe-se lá quando teremos notícia.

Fico assim tantas vezes, quieta, a olhar o tempo. Como se nesse olhar se revelasse tudo o que é ou há-de trazer. Mas, indiferente ao metabolismo e para além da sua imanência matéria, inquieta, muitas vezes. De como nele se desespera e espera. E nos alcança. Assim o tempo. Persegue, ultrapassa, esquece. O tempo.

De chegar ou trazer. Mas fabricado onde, aquilo que o tempo traz, em que alma, em que negação, em que distracção, essa a verdadeira pergunta. Em aberto, mas que também se fecha todos os dias sobre o que foi e partiu. Engolido pela sua voracidade, sem intenção mas sem remédio. O tempo é o que temos sempre. O medo que temos sempre. E é sempre para ele que volto o meu olhar, mesmo quando em sonhos me visitam os que já não estão. Na esperança de focar o dia e o dia próximo sem pavor nem desespero. E como é seu hábito, o tempo devolveu-me subitamente à viagem interrompida por momentos.

E naquele momento é para ele que volto o meu olhar. O desconhecido que se sentou. Na mesa do vagão-restaurante e no meu tempo partido em dois. Ficámos ali. E eu olhava de relance o livro. Um pequeno camaleão poisado entre nós. E sabia que num momento de distracção tudo podia acontecer.

E depois, foi uma visão estranha de fragmentos de segundo. O livro apagou-se. E acendeu-se. O livro das ideias esquecidas o livro de ainda. O livro sem título, de B. Um livro feito de ainda e sem as páginas numeradas. É assim o tempo.

O que é transversal e desenha em perspectiva. Esse efeito de profundidade que faz variar ilusoriamente o tamanho das coisas, as grandes, em primeiro plano e as pequenas, longínquas. Ou que, invertida nos coloca por detrás dos olhos a memória viva e exorbitante do que está distante ou ínfimo o que está próximo. Ou ainda, como desconhecido sentado em frente. Na sua estranha mistura de estranheza e familiaridade, indefinidamente próximo e distante. Como o desconhecido que sonhei e me pareceu reencontrar de tão nítido, distante e imaterial ou consubstanciado e presente. Como um vinho sem nome. Um, em particular, mas que não deixa de ser simplesmente vinho. Abstracto como o sangue que corre nas veias secretas do corpo. Excepto aquele, agora nos copos sobre a mesa à janela. A tornar mais presente o presente e a prolongá-lo um pouco mais. Olho-o e apetece-me dizer como Borges parafraseando Goethe: «Detém-te! És tão belo…!». Mas o tempo não se detém no presente. Há sempre uma partícula de todos os tempos.

E eu, tento reconhecer o tempo como o sinto. O que é tudo. Esse cimento fluido que constrói, destrói e em que nos movemos. O tempo é o rosto que emociona. Não por ser belo, quando o é, mas por ser. O que num momento nos atira para todos os tempos e nos congela num único e eterno presente recorrente e repetido.

Que nos consome e que queremos ingerir até à última gota. Fluido, como aquele vinho que se deixa beber e nos entra no sangue.

O tempo é o medo. A esperança irracional, uma apetência à possibilidade e um desafio à probabilidade. O sangue a circular. Quartos que nos habitam. O tempo é o que tratamos por tu. Como a casa que habitamos.

Uma carruagem de comboio em movimento que nos leva. Mas dentro, olhamos pelas janelas ou caminhamos em busca da carruagem-restaurante e do desconhecido que vai aparecer. De novo. E aí está. O tempo. Olho aquele rosto e penso pareces o tempo.

27 Abr 2020

Trilogia

De alma cheia, no caminho de regresso. A sonhar paisagens, embalada pelo ronronar mecânico e muito mais pelas palavras que ficaram a ecoar.

Há entre o Antártico e o Atlântico sul uma rota conhecida dos icebergs. Daqueles que, descomunais, se desprendem e encetam uma deriva como enormes jangadas de gelo. Brancos, vazios e silenciosos. Sem nada. Simplesmente uma rota de suicídio neste aquecimento global. Desertos em busca de fragmentação e diluição nos mares mais temperados. Um perigo para a navegação, estas derivas gigantes.

Penso no amor. E em toda a intensidade com que se torna avassalador, como uma obra de arte total, em que tudo se investe de sentido. Como o tentamos entender, definir, explicar e aperfeiçoar. E é como se aterrasse de súbito em Bayreuth, para a temporada de Wagner. Espectadores em fato de cerimónia para a gala total. Esse excesso de tudo, que Wagner teorizou no conceito de obra de arte total, Gesamtkunstwerk. O ideal plurissensorial da unidade absoluta entre drama e música, com todas as expressões interligadas em torno de uma única ideia dramática, ultrapassando as fronteiras da individualidade de cada arte. Dança, teatro, canto, cenografia, figurinos, artes plásticas e a luz, ao serviço da ideia. Na sua luta contra o frívolo e efémero, produziu um novo conceito de ópera, esmagador e completo. A totalidade pelo excesso. Um perfeccionismo de cortar a respiração.

O que me lembra os gelos cortantes de outro romântico, Caspar David Friedrich. E aquele quadro em particular, que se chama “A Morte da esperança” ou “Mar de gelo”, tão premonitório. Ninguém como ele traduziu essa visão romântica do dramatismo da natureza e do homem face à natureza. Onde estamos, no momento, sem parecer ver.

Noutros quadros, sempre as figuras de costas, que escondendo o olhar, de algum modo dão a ver. Uma luz melancólica. E a luz é o que torna visível com uma tonalidade e uma expressão própria.

Mesmo aquela luz mais a norte. A impiedosa luz total a recusar o apaziguamento das trevas nocturnas como cama para o sono. Que não vem. Faltam as trevas. E o desejo, nelas, do dia-luz seguinte. A luz demais do dia polar com noites brancas e os dias demasiado escuros da noite polar. Em ciclos longos demais para o que estamos habituados. A natureza e a crueldade da luz. Por isso penso depois nessa serena, majestosa, branca e antagónica natureza muito a norte, em suicídio progressivo e imparável. Há que resolver essa equação de opostos. O melhor que o homem produz, talvez a arte, e o perigo de morte no pior que o homem faz e deixa acontecer, como se nada fosse. O melhor e o pior. Esse monstruoso peregrinar dos gigantes do Ártico, que vêm como baleias suicidar-se à vista da Terra Nova, para entretenimento de turistas que lhes fazem o último retrato, antes que acabem por submergir nas águas salgadas a sua essência visível. E mergulhar no nada. Esse perigoso nada. Como se deus a dizer és água e à água tens de voltar. Naquele frio intenso a que pouco resiste, algo faz derreter mesmo o gelo mais antigo.

Mostram o rosto mas não mostram o coração. Os icebergs. Há contudo uma beleza escondida mesmo na imensa parte invisível. Um dia destes, um deles deu uma reviravolta sobre si, talvez em agonia, dando a ver uma cristalização diferente e inesperada entre azuis e verdes. E ficamos a saber que um mundo colorido pode existir abaixo da superfície das águas e para lá daquele deserto de brancos. Às vezes eu digo, vida, que não precisas de esperar ir ao fundo, tão fundo, para algo te tocar. E o amor não tem que ser a obra de arte total, razão e estética, mas a natureza. Dos sentimentos. Ou mesmo dos sentidos.

As lâminas cortantes de gelo de Friedrich lembram-me a luz. A luz que é razão e foco. A utopia, essa, corre. A luz é o contrário, capta e incide. E no entanto, em inglês, luz é sinónimo de “leve”. A luz intensa não é macia e doce. É cortante. Uma luz macia atenua as formas, esmorece as sensações. Às vezes queremos uma realidade coada. Que não fere. Mas é no balanço entre a suavidade de um meio e a pujança de uma forma saturada em cor, que se emociona a alma. Ou mesmo o contrário, a veemência do meio em contraste com a delicadeza das formas em cores diluídas. Contrastes.

O que será a luz senão um ponto de encontro entre o inexistente para os olhos e a alquimia do que é revelado – a cor – daquilo que afinal existe. Potencial. Tão importante como o visível, é o que existe. Tão importante, quanto lhe demos importância para além do olhar. Mas saber o volume e a textura que sobra para além do olhar é diferente de saber a cor, as sombras inerentes e produzidas. A luz revela. O que existe incolor num quarto escuro e não o colorido invisível, o que não existe. Mas não tudo. Ao produzir existência visível do que é possível tornar visível e no recobrir o inacessível aos olhos. O que, do que não se vê, existe? As cores, ao contrário da zona submersa dos icebergs, das pessoas, não.

Da luz que incide, reflecte-se apenas uma parte, uma cor, resguardando outras. Como uma máscara do visível, a luz. Como um olhar. Penso como tudo afinal se centra no olhar mergulhado noutro olhar, a tornar visível o outro, como existência. E não na utopia de ver as mesmas miragens nas mesmas dunas dos mesmos desertos. Que somos todos. Essa é talvez a única luz e a luz possível do olhar. A profundidade subjacente que se lhe intui de desconhecido para lá da superfície da córnea. Ver o outro e ser visto, é o momento do encontro. Ao mesmo tempo e no mesmo lugar mas frente a frente. Paisagem da paisagem. O olhar que habita o olhar outro. Tudo o resto, a ponta submersa do iceberg. Mesmo se desconhecida, sinal de que este vive nas suas águas e não enceta o caminho para a diluição no todo. Reduzido então a nada. O que importa não é o dar a ver mais do que o outro ser visto, ver no outro um espaço. Dizer-se habitar e habitado. Uma interioridade para além do visível.

Lugares. Marco um pontinho no mapa. Qualquer lugar. E deixo-o entalado no livro sobre a mesa do vagão-restaurante, esperando que o desconhecido volte para uma bebida quente e o retome do mesmo lugar onde o deixou. E de repente ali está ele a olhar-me, como se tivesse adivinhado tudo até ao pontinho preto no mapa. Como se me visse em perspectiva desde que nasci, tão persistente o seu olhar. De pudor, poiso os olhos em fuga daqueles, no livro e vejo perplexa que o título mudou: A biblioteca de Icebergs de B. Arrepio-me a pensar que é para essa morada póstuma que tendem. Com um nome, uma letra e um número de referência como livros mortos numa biblioteca. Para memória. Como em B. a ausência do olhar não significa não ver. O desconhecido pegou lentamente no livro dizendo baixo preciso dele. Com um sorriso quase imperceptível, como se emergindo do mais invisível e, quase juraria, até à parte submersa de mim. Icebergs, disse. E o poder cortante da luz, quando o meu mundo parou ali, partido em dois. Ou o tempo. E já não desviei os olhos curiosamente presos sem remédio. Como se na linha e caminho de um raio de luz. A luz são os olhos a tornar visível.

Pensando ainda em Wagner e na tetralogia, pensei que afinal faltava a estas narrativas a quarta dimensão.

20 Abr 2020

Trilogia

Balanço como em alto mar, a caminho do vagão-restaurante, ao sabor do ruido embalador do comboio e em busca de uma bebida quente. Segue o coração. Foi como uma voz que ficasse a ecoar depois, desse papel. Um desconhecido, um encontrão brusco de ombros num estremeção da carruagem – agulhas, disse – e seguimos nos nossos sentidos opostos. Mas aquele livro gasto, ficou como se caído, esquecido ou intencional sobre a mesa. A floresta submersa, de B. que abri e folheei aleatoriamente e a surpresa foi bem menor do que o espanto. O fio que ligava Borges a Giacometti. E dentro, o papel dobrado em oito com força, como um marcador nas páginas nuas. Desdobrado como um mapa tantas vezes noutras carruagens, mostra-me uma mão estendida, impressa em tinta esverdeada, fina, a revelar texturas delicadas da pele. Plasmada, como mão de criança. E como se as linhas da mão se tornassem as de um coração-mapa. Ostentando o deslocamento mas não a mudança. Aqui um rio ali uma curva de vida, uma bifurcação. E agulhas, não de pinheiro mas das linhas do comboio. A mudar de direcção. O lugar estranho encontrado no mapa. Abetos. E sigo as linhas até esse ponto no meio da Ásia central.

Enclausurado a dois mil metros de altitude, onde a montanha tomou a floresta no côncavo da mão, como aquela mão. Numa reviravolta em que a terra tremeu e afundou as árvores em águas cristalinas. Que belo. O silêncio das árvores. Elas fingem. Quando se remetem ao mistério do silêncio. Que não é dramática a sua voz reprimida. Elas não viram costas. Esperam. Caminho de mãos nuas e alma limpa para o lugar estranho. A render homenagem ao que é exterior e ícone e verdade e transcendência, porque algo maior tem que haver para que o olhar tenha campo, sem devassar e sem trazer. Fazer parte como prémio de ver. Dar. O que não pertence. Somente pelo pensar. Gostar.

Às vezes eu queria simplesmente que tudo fosse delicado leve e intenso. A aprofundar sem ferir e a demonstrar sem imposição. Sentar-me na margem e mergulhar os olhos. As árvores estão tristes.

Mas a natureza revira-se sobre si própria e desencanta gritos de poesia. Cadinho montanhoso e terno, ferido de realidade sem livro, sem voz, sem ouvido e sem vontade. Em que as coisas são e são mesmo se na sua forma insólita e inesperada de ser. São simplesmente e pasto ao discurso do poder das palavras, que tudo reviram, mesmo o que revolvido em si. Que agonia podia ser esta imagem. Mas é de uma serena e obstinada permanência.

Que bonito, que leve, que intenso. Que estranho. Penso. Os troncos lívidos a despontar das águas e branqueados como ossos descarnados no sol impiedoso do deserto. Nus, de braços decepados e em contrição, direitos, em busca do alto e como se crescendo. Mas nunca o tempo vai vislumbrar novidade acima das águas. Somente o que cresce debaixo delas em segredo. Uma simbiose vegetal a aprisionar de parasitas felizes, algas, os braços generosos mantidos para sempre debaixo dessa água límpida que vista de perto nada guarda para si. Do olhar. De resto, tudo guarda e reserva. Num outro olhar, podiam ser mastros de navios afundados. Ou braços em oração. A floresta submersa, com a floresta de G. aquelas figuras de caminhantes em bronze, corroídas pelo meio e sempre sinónimo de resistência. Tudo o que se pode trazer em palavras sem que elas, as árvores, desmintam.

As árvores são tão dramáticas e intensas se ouvidas de perto. Um pouco do que se silencia perene e em pausa. As montanhas enrugaram numa expressão de sentir e nelas, como uma bolsa lacrimal, este Kaindy Lake, onde se afundou a pequena floresta de abetos, que se desnudou e que no segredo de muitos anos desenvolveu plantas aquáticas, escondidas na profundidade. Vistas no todo, dão essa impressão de estar invertidas, numa mansidão dramática de avestruz que esconde o vasto pescoço nas águas e longe do olhar. Penso onde estaremos, face a este espectáculo do mundo Se nos troncos estéreis em espera e imutáveis, ou abaixo da linha do visível nesse misterioso e pressentido efervescer de vida e ruídos coados. Uma vida que fervilha, como em torno dos ossos dos mortos varejam bichos, enquanto há de que se alimentarem. Percorro com ansiedade as páginas de silêncio à espera do encontro com as melhores palavras. Aquelas em que melhor se lê aquilo que alguém queira nelas colocar como um enfeite festivo. Mas não há rigor no silêncio nem há nas palavras, porque, neste como nelas, há o que lê e o que a si se lê.

Sabemos que interpretamos e como dificilmente há fuga à mutação do real. Como o sentimos. O que nos faz sentir. Num espelho de palavras com que o vemos, definimos e pensamos. Mais perigosamente se fizermos como um fotógrafo que persegue apaixonadamente uma fotografia que sempre quis fazer, até que um dia lhe apareça. E baste carregar no botão da máquina. Seguimos por vezes o mapa como linhas da mão. Seguimos onde leva o coração e é a paisagem que escolhemos que se impõe.

A pensar na propriedade das palavras e em como este silêncio – aqui e lá – pode ser a paragem entre duas estações para repensar o caminho.

Como é estranho esse mundo de árvore que esconde a cabeça. Escuto murmúrios na volta da luz que se faz suave e na água que transparece até ao fundo. Que não esconde, afinal. Como se para que elas possam ver, mesmo de ouvidos tapados e olhos fechados, até ao céu. Que passa até lá abaixo, e vai ao seu encontro como de amigo amuado e triste. Que doçura do céu e da água cristalina. Em redor, somente o presente estático e imutável.

Naquelas aparentes copas, mergulhadas nas águas, imagino a ânsia do silêncio do mundo. As árvores estão tristes. Ou estamos tristes nelas como numa ética estética ou poética que nelas queremos ler. Mas estão em silêncio e isso é certo.

E como é belo este silêncio.

Depois, sinto que chega, talvez por terra, mesmo. Ou sacudindo penas arrepiadas do frio que está. Sei, aí mesmo nas minhas costas onde vai pousar a mão. E quaisquer palavras ditas passarão a ser a voz deste lugar.

15 Abr 2020

Trilogia

Aqua

Custei a encontrar aquele desenho antigo, recuar quatro décadas de pastas e memórias. Sou a figura sentada. Não essa, a outra mais atrás e que não se vê.
Como agora, enquanto caminho ao seu encontro.

Não há nada tão profundo e misterioso como uma figura densamente de costas. Quieta numa impressão de imutabilidade. Absolutamente desconhecida, mesmo se no recorte em desenho sobre a tela limpa do céu, é única e ímpar. De quem se vai ao encontro e que chega sempre antes e está ali. De mãos nos bolsos a um metro da vedação à beira do perigo da arriba e, inevitavelmente com o olhar na lonjura. E de frente para o todo. Seria sempre diferente se eu viesse ao longo do carreiro que debrua a falésia e o apanhasse de perfil.

Não há nada mais distante do que um perfil. Não se revela a quem vê, nem revela o que vê. E, no entanto, contém como se inevitável, a possibilidade do movimento. De o rosto se voltar num olhar que nos vê chegar.

Uma coisa estranhamente desconfortável, penso.

Eu tinha aquela paixão antiga. Uma pintura de Magritte. O homem em grande plano, de olhar invisível e costas estanques para o observador e aquela rosa enorme e evidente. Onde só ela se expõe num olhar luxuriante de exorbitância e desafio. Um recorte nítido frio e cortante de rigor. Ali, naqueles ombros que escondem o olhar invisível do homem, o observador vê-se a olhar-se a si próprio. Ultrapassa-os numa paradoxal dificuldade em simultaneamente se ver e ser visto. Tudo numa única figura. E a imagem, de um absoluto congelamento, torna-se inquietante lugar dessa substituição que se sucede sem parar.

E a rosa, quase esboça um sorriso enigmático. Às vezes – muito raramente – surpreende-se numa pessoa esse rigor frio num olhar furtivo e nu, apressado e real, que de outras vezes se protege. Momentos fugazes de uma nitidez aleatória no meio de outras fugas. Mas naquela rosa, a abertura de todos os mistérios. A crua incisão do que pode ser um olhar de dentro para fora, ou a dura perspectiva que da paisagem se intromete olhos a dentro. O perigo que reside escondido no olhar de cada um, ela denuncia e repõe. O enigma que é o olhar do outro, o risco sem erro. Quanto muito coberto de desconhecimento mas sempre num desenho que é uma forma alternativa de realidade. O olhar do outro sobre o nosso olhar de nós. Esse o mais lancinante de hermetismo à beira da desconstrução. Como na falésia ali, a subtil erosão.

Avanço lentamente em silêncio, a prolongar a eternidade contida nos sinais que fazem o momento. Nestas costas voltadas para mim, a oferecer a vista ampla do lugar. E do olhar como se tornado o meu. Eu via o que me era dado ver naquele reverso de outro olhar. E nada pode ser mais completo e entendido do que ver o que o outro vê. Caminho devagar e nunca amei tanto. Tamanho desconhecido à minha frente e tamanha paisagem em frente a nós.

Tive medo de que ao aproximar-me acontecesse tornar-me numa daquelas personagens de Borges numa noite à beira rio – num conto que já não sei – talvez o rio da prata. Que se encontram no mistério da sua deambulação solitária. E um deles desencanta perante a perplexidade do olhar do outro o misterioso e irreprimível livro de areia. Numa imagem poética a lembrar similitudes de Foucault. O abismo incomensurável presente em cada microcosmos, o abismo de eternidade num segundo. O de profundidade numa ínfima paragem de tempo. Enquanto avanço tudo isto me vem à memória e tenho medo de ver mais do que me é mostrado neste olhar que não vejo mas aponta ao horizonte.

O que é grande torna-nos ínfimos e calmos e faz sentido. Chega aqui, longínquo o estampido espumoso das ondas em baixo. Mas ao longe e olhando adiante, o mar é calmo, uniforme, enorme. Protege inúmeros e infinitos segredos subaquáticos. Como se nada mais do que uma manta turquesa ou esmeralda consoante a luz. E isso dá-lhe uma espessura quase quente, mesmo nesta manhã fria de primavera.

É tudo uma questão de escala e acuidade do olhar na textura complexa que se nos apresenta. O que é grande permanece imutável. Só as circunstâncias se movem. O imponderável persiste.
Da próxima vez, o meu lugar. Aquele lugar estranho que ando para te mostrar. Mas tenho que tentar entendê-lo. E chegar antes, para que o vejas.

30 Mar 2020

Pan

O todo e o tudo, na palavra grega. Ou Pan, o deus dos bosques, temido por todos aqueles que atravessam as florestas à noite. As trevas e a solidão da travessia predispõem a pavores súbitos sem causa aparente. Ele atemoriza com as suas aparições, provocando o pânico.

E esta pandemia de estar só. Que de solidão nos atravessa a todos. Em diferentes sentidos e maneiras, por diferentes razões e como em certos e outros momentos. E trabalhamos nela ou desesperamos nisso.

Amanhece na casa. Como todos os dias amanhece e da noite ainda esta serenidade urbana e residual a acordar lentamente. Mas hoje será pelo dia fora. Mesmo os pássaros vêm mais seguros à varanda ver coisas de seu interesse. Os pardais do costume e este melro que atravessou do telhado em frente. Este silêncio.
É como um intervalo no tempo.

Como uma pessoa está só quando as vozes da rua se reservam para mais longe e rarefeitas. Mas se estamos sós, não estávamos antes? É a estridente evidência que ressoa da falta do que nos obriga a estar com os outros.

As janelas, abertas para uma dimensão da cidade. A que a mente permite. Como sempre, lembro-me do poeta e sinto-me como aquele que disse. “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…/Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,/ Porque eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura…”

Mas a cidade é agora das janelas de casa este vazio perfeito de ruídos ausentes e o ar limpo de correrias e compras. Como uma enorme clareira na floresta amazónica. Penso como não nos sentimos árvores, quando estas são decepadas por interesses maiores e fechamos os olhos ao que está ali, tão perto de nós que nos toca. E quanto se empobrece e arruína por cada árvore morre e não de pé. Sabe-se lá porque é que as árvores morrem. Umas de idade, outras de muita idade, outras por pragas e outras por ínfimas e secretas razões encerradas nas longínquas raízes. Que são razão secreta a alimentar ou a destruir. Há as que levam tempo a tornar evidente que se ausentaram. Ficando ali em silêncio e de pálpebras baixas. Mas há as que morrem abatidas. Algumas espécies morrem longe do olhar. Não é o caso das árvores, que não podem fugir.

Os elefantes, sim. Mas tudo se vê na televisão, tudo é próximo da vista, longe do coração. Os humanos, precisam de companhia para morrer, porque até ao último suspiro se ligam ao que muito os ligou ao mundo. Os que amaram. Se não estão à despedida, de que valeu, de que valemos nas contas de fim de mês, de fim de vida. A verdade talvez repouse em Sevilha. Os restos mortais do navegador, ossos que navegaram por tantas paragens. Talvez ali, agora. E nós, aqui. Tanto navegámos, que aqui chegámos. A casa, mas não fechados. Olho pela janela a dar para a Catedral.

Estar só é quando não se imagina o lugar do outro. E o outro fica mais só. Olhamos neste momento mais para longe como um todo de nós. E pela primeira vez parece-me que este mundo é um só. Eu não queria chamar pandemia mas sim pangeia que nos une – de novo a recuar à Pangeia original. A esta doença global, a esta preocupação global, a este egoísmo global. A esta estranha impressão de que há uma razão mesquinha na emergência com que se apresenta, a todos, tudo isto, finalmente como assunto nosso. De todos. Até os conflitos na Síria fazem talvez um intervalo por causa maior, agora. Amarga ironia. Como as guerras do Solnado, mas sem graça.

E sonhamos com a normalidade que virá depois. Vamos voltar iguais. A povoar lojas de roupa, smartphones e coisas inúteis. E cegos de novo, vamos continuar a comprar coisas demais, com embalagens demais, a depender demais, a produzir demais a poluir demais a comer demais a fazer lixo demais e a ambicionar demais. E a ignorar demais tudo o que não nos toca, de novo, directamente. A curto prazo. Tudo o que possa ser adiado, etéreo e indefinível futuro, e batata quente nas mãos, só a que é doce, assada e perfumada de anis-verde. Temos demais.

Mas, como se Cristo na última ceia ao repartir o pão, e sem querer, distraído da natureza humana que o levaria de volta ao Pai, o tivesse partido em partes desiguais. Pela côdea macia nuns pontos e estaladiça noutros a configurar nacos e como se continentes a escapar à unidade inicial. A crosta da terra em tensão a desunir-se e a separar continentes. Egoísmos. Uns em crescendo de ambição, outros em sofrimento. O que é desenvolvimento quando o impacto do que não era imaginado mas imaginável, nos confronta com o pouco valor dado e investido na saúde. Quando na primeira crise, falta tudo aquilo para onde todos apontamos os olhos nesta aldeia global. Mas que já faltava antes. Médicos a menos, meios e vagas a menos, quando cada doente era somente um doente em si, pai ou filho de alguém e não parte deste grande puzzle internacional.

Agora, cada cama que falta para socorrer um doente, é uma cama que sofremos como se para família nossa. Nisto se uniu em parte esta terra de todos. Como uma cadeia. Mesmo se na transmissão de uma doença. Mas depois vamos voltar ao mesmo. A economia pior. E por uns tempos vamos estar pior, mas da mesma forma o que é pouco para muitos, em alguns lugares é perto de nada.

Lavo a casa, lavo a roupa, lavo a alma. Desfaço-me finalmente de algum lixo existencial a que me amarro, sem tempo nos outros dias de alcançar o estado de desnecessidade. Tão necessário. Repetitivos objectos, mesmo de afecto, que são espelho de memória. Mas demais. Não há como estar triste para conseguir largar lastro. Ir largando a solidão do passado nas coisas, para ganhar espaço para viver. Ir deitar o lixo fora e voltar sobre as próprias pegadas porque não há outras. É sempre assim. Mas solidão maior é não amar. E não há maior.

Agora, este nada, ínfimo invisível percorre a distância entre nós e os outros. No pior dos sentidos nos sentimos excessivamente próximos. Quando ainda ontem não o sentimos e nos achámos invulneráveis ao invisível dos outros. Cada um no seu quintal.

Tão gasta a verdade e a poesia do poeta. Mas a voz de um poeta não chega ao ouvido da economia. Quando tudo voltar, que não volte igual. Rever prioridades. Da humanidade e dessa mãe terra a que nos une todos iguais, um cordão umbilical. E pensar como o poeta, ser do tamanho da Terra ou do tamanho do umbigo.

23 Mar 2020

O fio da navalha

Ou o fio de Ariane. É tempo de voltar á minha rua. Ficar em casa. Aquele fio que me ficou para pensar. Desenrolar e contar. Em metros. Ou, daquele momento antes, mais de quatro mil quilómetros em linha recta. Longitude para oeste de Alagoas. Desenrolo o novelo deste fio em que se poderia voltar atrás.

Mas do Perú as lindas açucenas que manipuladas por emigrantes holandeses e levadas para o Brasil, deram estes híbridos a provar que o homem inventa a natureza e o espanto. Estes bolbos vivem comigo há anos. Não há erro para rever e refazer invertendo os passos.

Esta tentação melancólica sempre à espreita em cada pequeno salto na geografia desenhada sobre a mesa. O que fica para pensar e tem que ser. Irreprimível.

A sorte foi lançada. Alea jacta est. Diz-se quando aquilo que determinará um resultado já foi definido e só resta esperar que se revele. Os dados estão lançados. Uma sorte ou um destino. Ou recuando no fio, uma predestinação. É o que podemos dizer todos os dias, feitas as contas ao feito e não feito. E que o destino é mais forte do que o livre arbítrio. Que concluir em alívio ou desesperança? Porque é assim que fica o mundo todas as noites em que nos deitamos para dormir. E depois, logo se vê. Fio a fio, cores, pontos e padrões nessa tapeçaria em que se misturam os tempos, que se tece sem saber, mas depois num todo. Para onde foram os dados.

Não há abismos sem deles ou de onde o desenho. Para isso nos demoramos a pensar na complexidade de tudo. Pomos um pé de um lado, outro do outro, colocamo-nos de um lado ou do outro, ou voamos em círculos alargados a perscrutar o horizonte em amplitude e profundidade, de uma distância segura mas com a liberdade infantil de correr o risco se isso nos tomar a alma.

O fio em volta. Ou o fio da navalha. Aquilo que corta a realidade em duas, a todo o momento. Aquilo que poderia ter-se tornado e sido, e aquilo que afinal foi, é. E como saber se a primeira hipótese, mera hipótese, alguma vez teve alguma possibilidade de ser? Aí nos perdemos em conjectura inglória presa ao que era sonho, mais do que ao que de facto algum dia podia ter sido desenhado, ou temos um instante de lucidez mediúnica, prevendo o potencial futuro de um passado que se arrumou noutro rumo. Ao ponto de se dizer: foi sem querer. O mundo a que chegámos. E mais do que isso, sem ter sabido o contrário no fazer.

A pensar no fio de Ariane, mas é sempre o fio da navalha o que surge e o corta sem remédio. Caminho de risco de ferida grave. A verdade cortante e não emendável. Aqueles que não acreditam num destino. Como eu. Mas mesmo se não existir, é um fado subterrâneo o que fia a linha da vida. Que nos faz ser estoicos ou desistentes, adiar e entregar a deus, como se deus existisse também. Aqueles que não acreditam em Deus.

Como eu. Mas se chegam a sentir num abandono, que só pode ser uma distracção deste, uma ignorância, um desviar os olhos para outros desígnios. Todas as vezes que acreditamos na inevitabilidade, todas as vezes que esperamos ou desistimos de esperar, mas nos sentamos para ver o que vier. Como se algo trouxesse, consistente como um plano, aquilo que não se avista mas podemos pensar algures e por chegar.

Todas as vezes que se baixa os braços como se nada em nada contribuísse para nada. E aquelas em que pressentimos ou intuímos procurando ver mais longe. O futuro não existe a menos que o inventemos, ou em cada peça de uma construção, que colocamos sobre outra. Em cada traço, em cada palavra e em cada escolha numa montra infindável. Uma potencialidade a desenhar um palimpsesto. Um fio condutor. Como um destino. Ou fado.

Lanço os dedos à terra. Essa matéria real onde ficam pegadas. Disponho os bolbos já inquietos na terra. Em alguns, o verde já a despontar como uma esperança ou uma pressa no inevitável. E penso se é a altura, se será tarde e estarão zangados, alguns. Na memória das flores luxuriantes do ano passado, vejo as deste ano.

Como se escondidas à espera de voltar e as mesmas. Que não existem, que podem muito bem não chegar a nascer de todos eles. Ou de nenhum. Rego. A possibilidade daquele estonteante vermelho futuro. Sedoso e cheio. Aquela quase incandescente qualidade de cor quando abrem enormes, mas menos do que o repetido espanto quando os contemplo incrédula. Quando abrem e se abrem. Mas algo me faz hesitar. Se alguma coisa está certa neste gesto é o absurdo rigor inevitável naquilo que vai acontecer. Uma coisa ou o seu contrário. E ambas se chamam com o mesmo nome. Amarílis inevitável. No nascer, ou ficar por nascer. Onde se pode ler esse destino, por agora secreto como todos?

Nunca no fio de Ariane – a vida, fora do labirinto. Fibra de uma fiação sempre a tempo. De fazer e desfazer. Desenrolar e depois voltar atrás por outro caminho. Até acertar. Um destino meticuloso de tentativa e erro. Apagados até a obra final. É, apenas o fio da navalha. Este, sem a possibilidade de voltar atrás, ao início de tudo pelo mesmo caminho, e aí, escolher por tentativa e erro outra possibilidade. Até ao destino querido e escolhido. Um fio, esse, afiado com o tempo. Ou rombo e inócuo. Inútil. Cada escolha a cortar o destino em dois em cada momento. O que se torna possível e o que se torna impossível. E a vida, sempre em frente. Qualquer que se demonstre vir a ser.

A vida tem uma forma encriptada de produzir perguntas. Por isso tantas vezes falhamos nas respostas. E não é o que somos, o que desejamos, sequer, mas cruzamentos de linhas que se tocam por momentos, indecifráveis e continuam o seu caminho muitas vezes divergente. Uma oportunidade desconhecida. E perdida sem culpa nem perdão. Fossemos tão dependentes das falhas, da beleza, da luz, e quantas mortes não teríamos em crédito para morrer.

Olho para as mãos (o que fazer?). Acamo cuidadosamente mais um punhado de terra fofa em torno dos bolbos. E depois, olho para longe.

16 Mar 2020

Odor a mar

E, ainda no momento em que distraidamente sinto o copo de chá a escaldar nas mãos, pela oscilação estranha de uma memória que me ultrapassa e afunda na enormidade do tempo, um abalo de terra sabe-se lá sob que impacto, lembro-me de como estou próxima das dunas do outro lado do agora mar. Recuo milhões de anos antes da deriva continental, penso em todas as derivas, e logo ali obliquamente a escassos graus de latitude sul nesta Pangeia ancestral, mergulho os pés nus nessas outras areias. Transpondo a distância, naquilo que é afinal um pequeno salto sobre o fio da navalha. Tenho que pensar neste fio. Mas isso será uma outra história para depois. Por agora são 21 graus a sul e a longitude, essa variável em milhões de anos. De ínfima a relevante.

Desço lentamente com o dedo no mapa deste planeta solitário e lanço-o á esquerda sobre o mar como os olhos. Estendo ainda o olhar pelo deserto nesta ânsia de contemplação e mais para oeste saio pelo deserto de azul do oceano. Não estátua de sal, ou me desfaço e perco nesse olhar. Recuo uns graus a sul e não é o deserto, deserto, mas um olhar em plenitude. Talvez em busca de palavras ou de uma luz. E descendo mais um pouco começa a desenhar-se. É talvez um farol em Alagoas. Apontado ao mar. Há tantos. E de súbito coloco-me do outro lado. Seguindo essa imensidão como se ao longo do braço de luz. Caminho pela orla costeira da Ponta Verde, como em qualquer outra franja à beira-mar. Encontro Aurélio. Sim, aquele do dicionário das palavras difíceis. Ou fáceis. Sentado em bronze, com o seu amor à Língua portuguesa. E, noutro ponto, Graciliano Ramos. Um outro ser em bronze, que caminha de cigarro contemplativo e olhar baixo, como quem conta palavras nos passos. Como o realismo pode ser belo ao evocar a passada do caminhante. Eternizados ambos no seu olhar contemplativo para o mesmo longe, mesmo que de dentro. Em busca das palavras também eles e ambos. Porque pensariam achá-las perdidas na imensidão sem ruído.

Como a do mar de palavras. Ou no fim dos raios de luz destino das noite do farol. Com um me apetece sentar e com o outro caminhar. No seu silêncio. E com o outro, chegar.

Porque é um outro dos faróis de Alagoas – o mais bonito de todos – estranho fantasma de outro tempo e uma bela e envelhecida construção em bronze, também, o que me paralisou de espanto. Terá sido belo no seu tempo. E é diferente e belo neste tempo que parece pedir dramaticamente que pare. Deixando a sua luz apagada para que não demasiados olhos por aqui cheguem a mudar este paraíso de areia branca e águas finas de azuis e verdes. É a praia Foz Rio de São Francisco, um rio que barrado mais atrás, esmoreceu no encontro com o mar e o deixou subir mais acima. Uma foz é sempre um pouco revoltosa. Como certos encontros. A adaptação de águas diferentes. Como a espantar visitantes. E se muito o mar cobriu, o resto o fizeram as dunas ao sabor do vento. Também estas escondem segredos de quem viu submarinos pela calada da noite em busca de água doce. Armas debaixo de água e olhar de crocodilos em busca de farol que os guiasse.

Este, inclinado como um velho campanário de Pisa, primos na música que lhes descrevia a alma. A um e a outro. Neste, em forma de luz. Distantes, mas hoje mais. Do que na longínqua Pangeia sem monumentos.

O mar avançou deixando-o fantasmático, ensimesmado e inclinado, e mais que centenário guardião deste mistério de vidas antigas. É o farol discreto, crivado de ferrugens e oxidações várias. Feito de texturas de cores insólitas na pele de bronze com odor a mar, como rugas crestadas de cento e tal anos. Viu submarinos alemães na segunda guerra, abusarem da sua luz inocente. Mas a luz, quando toca, toca a todos. Pescadores como contrabandistas. Talvez por isso se apagou. Se inclinou cabisbaixo. E se corrói por dentro e por fora de mistérios que se teceram ante a sua luz. Como um anjo prestes a afundar, ou a levantar voo.

Quantos graus de inclinação tem aquele olhar baixo, como de cílios introspectivos a furtar o olhar ao horizonte, para sempre? Narciso? Não. Não chega a inclinação a tanto, ficando-se antes pelas águas um pouco além como quem luta contra a ventania do tempo de través. Aspirar. Como uma exclamação de odor a mar. Oh…perfume a mar distante. Com uns graus de inclinação. Jubilado pelos astros. Ou não fossem eles, e porque se fez noite, seria bem escura a vasta abóbada.

Invisível e belo fantasma, agora. Breu em redor. Acendo um cigarro. Mas preciso de um pouco mais de luz para lhe apreciar o fumo. Habituada a esta omnipresente luz artificial que de repente se apagou no bairro.

Nestes quarteirões em volta. Acendo uma vela e penso vai voltar. Há sempre que ter velas em casa. Mesmo que seja preciso percorrer com um rápido pânico os corredores na mais completa escuridão. E, acesa, parece uma qualidade imensa de luz, necessária e no contraste com tudo o resto. Misterioso poder suave de iluminar. Chama. Como um farol as águas ao longe e saber onde se desenha terra. E depois, há sempre os astros.

9 Mar 2020

Caminho de Sahel

Longa estrada. Quantos anos têm estas palavras novas, já irisadas de dunas? Forma-se uma bolha, no tempo. Como uma erupção dermatológica que vai passar ou deixar marca. Na pele. Do deserto. Uma ruga nas areias assestadas ao vento. Como ombro defensivo. O dia mais pleno e a paisagem mais longa. A ociosidade que evolui nas dunas como as rugas do tempo a lavrar o rosto e com a lentidão inexorável que só ele sabe.

Lembrar tantas coisas não vistas e não vividas. Tantas, que nelas nos encontramos. Que liberdade imensa só assim. Bem vês, estamos ali, mais longe do que o imaginado simplesmente nos dias iguais. Vou. E sei que nos encontramos lá. Para um chá perfumado de menta e um sol tórrido. A fugir. Lento. O toldo em franjas. Mas nada importa porque se coa a luz e o tempo pára. Em coisa escuras “para ser amadas entre a sombra e a alma”, como dizia Neruda.

Ou lugares possíveis que dizias, estendendo a mão mapa. Tiravas da carteira esses catões de visita que sigo, a vir dar aqui. Onde haveria que voltar e sempre. É talvez por isso ou porque que não há dia maior do que o do deserto. Nem lugar que menos sombras ocultem. À luz, sem que tudo se faça visível, sem cantos sombrios e estátuas a encobrir a face que conta. Em segredo nas luzes da cidade. Olho para dentro deste copo de chá, que tenho entre as mãos. É preciso que na transparência do líquido não veja um chá deserto.

Não me apanhes pela noite, viajante. Enquanto o chá me arrefece sem emenda nas mãos. E, pontual, chegou, como outras vezes, em sua vez a ausência.

Há desertos de viagem, como objectos portáteis que trazemos connosco. E há os desertos grandes que se estendem ao olhar e, na comparação, os reduzem a ínfimas partículas de um punhado de areia, no enorme continente. Espraiamos os olhos como quem os atira ao mar. Refrescam a alma sedenta de correr como só o faz um chá quente. E quantas vezes – outras – à beira do deserto. Deserto do tórrido esplendor a sós. O ar do deserto. Move-se. Cedo ao perfume e à linguagem do chá no copo de vidro, a escaldar e a espalhar um aroma de menta. Das folhas sóbrias a acabar vida na beira do desvão do copo e um oásis. Abismar as pupilas mínimas e os lábios nessa fronteira do líquido transparente. E doce, sempre demasiado doce. Para lá, não há esquinas nem ângulos abruptos. Só esse mar. Em drapeados que não parecem temer nem acabar. O Sahel.

Esta faixa quase árida de savana seca, com um verão chuvoso mas pouco. Lacrimal. Sahel é quase nome de anjo. Uma longa asa estendida à cintura de África, como quem dissesse, daqui para cima o deserto. Porque quando atraca a um território, revira-se a terra em alguns graus no eixo de rotação diário e cria desertos de longitude indeterminável. Mas agora as penas um muro. Uma barreira de árvores contra a vastidão crescente.

Onde mais te poderia encontrar? Neste terraço ressequido sobre o mar de luz. Nem precisava de me virar porque pressenti sem equívoco a enormidade que quase alteraria o eixo de rotação da terra de novo em mais uns graus. Não fora assim antes e seria bem outra a paisagem. Que a mudar, seria como a minha num minuto determinante. E mesmo se mais um grau apenas, da rotação, a mudar, muitos quilómetros de deserto novo sobre as terras limítrofes. Que deserto é tudo o resto. O que se instala. Sentes o poder?

Veio, chegou antes de se anunciar. À beira do nada, a orla do estéril. Em contrição pelo aperto inclemente e do sol. Se alguns reconhecem a linguagem do deserto. Se ouvem as vagas como senão sentido, ouvido e amado. Secreto rumorejar de areias sob os pés, porque o restolhar é indiscreto, o sentir. Sair daquele ponto apontado no mapa. Nas entrelinhas de um mapa, encontramos por vezes quem voou sem destino e amarou em dunas.

Uma trepidação lânguida do ar, como se toda a realidade a rescender do deserto da terra logo ali aos pés, num fumegar a respirar o calor intenso. Como se acabada de sair das trevas frias e ainda fumegante. Sahel, como outra franja de deserto qualquer. Percorrida de caravanas, de alforges repletos de coisas essenciais. Segredos. Armas. Coisas que o comum mortal não coloca na lista do necessário. Mas cada um sabe de si e do que transporta.

Descalço-me. Os pés, a alma exaustos de caminhar. Os oásis existem, afinal. E depois, mais além não interessa mais do que o teu olhar indizível. Então estás aqui finalmente no meio deste nada. Nada mais carece de sentido nenhum. Porque cheguei, porque me sentei, descalcei as botas doridas e simplesmente rejeitei a possibilidade dessa dor menor entre o meu olhar e tu. Ali. Na minha frente e longe de tudo. Uma camada de tempo e abstracção. Mais que não seja desta dor insistente.

No deserto, onde acampar senão na voz de uma voz amiga. No semáforo inclemente desse sol sem-abrigo nem destino. São vozes, as do deserto que nos toma. E quentes. Sobejantes ao sol que ilumina. A importância ou o esquecimento. Olho mais além. Ali está ele, parado, extático em espera. Ao apelo na atmosfera densa e tórrida, a inundar pulmões e alma de caminho, volta-se de frente e reconheço-o inconfundível. Cruzamentos nas linhas do mapa, da mão estendida. O relógio parado sem prazo a extinguir, fecho as folhas amareladas do sol a esta escrita.

As palavras não crescem no deserto. A plenitude. Talvez. Longe da selva, urbana. Demasiado urbana. Onde cada pessoa é demasiado humana. E só ele, anjo. Mas as árvores crescem. Lentamente. A grande muralha verde contra o avanço do deserto.

A verdade é chegar. Ninguém vem tão longe senão para se encontrar, ou um amor. O chá aromático, de folhas, no copo que rolo nos dedos e ainda a escaldar, o dirá. Senão o tempo.

2 Mar 2020

Um semáforo na Etiópia

Luzes coloridas. Vermelho, verde. As acções doseadas no fluir do tráfego por cores. Sempre para uns uma e para os outros a de sinal contrário. Quem conduz adora as ondas verdes de semáforos a mudar à sua passagem sem interrupção. Chegar cedo. Mas para cada onda verde, existe transversalmente uma enorme onda vermelha a barrar a pressa de outras vidas. Num avanço interrompido e sincopado como a subida ao castelo. A atenção aos sinais nos pequenos capítulos do dia. E haver sempre um sinal escondido. Amarelo intermitente. Um peão que pode passar com sinal vermelho se não vem carro, um automóvel a virar a curva quando não vê peão.

Os dias de episódios anódinos que perfazem o quotidiano. Em tudo insignificantes e idênticos aos de outros dias. Mas que ficam a macerar lentamente, desesperantemente, muito depois. Como a ânsia de resolução de uma equação simples e determinante que invade a consciência sem aviso. Nesta construção invisível em que se manipulam irreversíveis conjuntos concorrentes e aleatórios de circunstâncias, de que se é alvo e de cujos efeitos se fica pendente, na ignorância do que poderia ter sido. Se de outro modo.

Virar num cruzamento e à curva parar o carro para deixar passar um homem, por acaso idoso, por acaso de uma cor qualquer, que começa a atravessar, com o semáforo vermelho dos peões a dizer-lhe para não o fazer e eu a fazê-lo hesitar. Deixar passar. Porque era uma pessoa. Porque era um idoso. Porque tinha uma cor qualquer, e por uma razão qualquer. Porque ele não tinha razão e eu não tinha pressa. Por nada de especial que simplesmente me parou. Ele. Como poderia não ter sido assim, ele não estava em risco, eu nunca tenho tempo. Coisas sem importância. E não batalhas para ganhar uma guerra qualquer.

Perder quinze segundos na corrida da manhã e logo um pouco mais à frente parar num sinal vermelho. Uma sequência com uma moderada dose de consequência. Nada de especial. Mas foi aí que sem o pensar, sei agora, algo se imiscuiu no anódino do episódio como se dissesse para comigo que ali é que a porca torce o rabo. Não que eu tenha olhado para o sinal a mudar como quem olha para a arrogância de que quem exerce um daqueles pequenos poderes que dão satisfação a alguns egos. Mas dei comigo a revirar as possibilidades de todos os ângulos como se daí adviesse como resposta, o sentido da vida. Que mente a minha. A precisar de respostas.

Mas não, o sinal vermelho não foi claro na arrogância apressada de cair naquele momento, para parecer determinante o ínfimo pedaço de tempo que tinha despendido a parar e deixar passar, a meter uma nova mudança e avançar. Estava simplesmente lá porque mudou ao seu ritmo. Podia pensar que os céus não recompensaram a escolha feita, com um sinal verde. Mas também que confirmam que mais minuto menos minuto perdido a deixar passar o homem, não alterara relevantemente o curso do dia. O sinal vermelho fez parar de uma maneira ou de outra. Perder trinta segundos. E depois pensar que, se não tivesse deixado passar o homem, poderia ler o inevitável sinal vermelho como a condenação do gesto mesquinho. Ou como a confirmação de que deixá-lo passar em nada teria atrasado o meu caminho. E se caísse o sinal verde?

Pensaria que tinha valido a pena o gesto egoísta, caso não tivesse passado o homem, ou que era a recompensa por tê-lo deixado passar se assim fosse? Duas hipóteses: deixar ou não deixar passar. Para cada uma, duas luzes de semáforo de colorido diferente e ambas possíveis a seguir. Para cada cor da luz, duas leituras possíveis. Recompensa ou penalização. Não há uma ética no acaso. E no final do pequeno episódio, de novo o sinal íntimo e intermitente. Não imaginar. O que poderia ter-se cruzado num dia qualquer, como destino, em resposta a um minuto que se perdeu ou se ganhou. Como se alguém mexesse fios de marionetas e como se o fôssemos. A aproximar ou afastar de sonhos.

As luzes são sinais. De trânsito. De curta validade. A respeitar, de qualquer modo e para além deles. Sinais da importância de um sinal. A cumprir ou a não cumprir. E só. Sem mais respostas, sem validação sem orientação para além do momento curto e logo obsoleto. Outros sinais são como um semáforo na Etiópia.

Uma agulha num palheiro. Lembro-me daquela praça em Adis Abeba onde nunca estive. Um cruzamento de loucos e sem semáforos. Onde o único sentido que prevalece, é o de cada um. E chegar onde se quer.
Não. A vida não se apresenta clara nem dá respostas unívocas. Esconde a causalidade das pequenas coisas, como quem se reserva para o melhor ou não pretende assustar. Como o platonismo de Kafka. Uma realidade sempre a caminho de ser e nunca sendo. Não uma direcção e não um fim, somente um sentido. Mas algumas respostas são prévias, como mantimentos para o caminho.

E a única resposta vem de dentro. Como num teste de escolha múltipla. Avaliamos, escolhemos e voltamos a avaliar. Mas o caminho é às cegas, tirando pequenos sinais. Onde está o sorriso da cor e o nosso, a cor dos segredos – isso – diálogos a sós.

24 Fev 2020

Dicionário das palavras difíceis

Pensar como as palavras são difíceis e no mesmo mecanismo reflexo ocultar as difíceis, de dizer. Simples e límpido.

Na infância, palavras difíceis, eram as desconhecidas a ver no dicionário. Mas não por serem duras ou por magoarem. Mudou quando crescemos. Agora, difíceis são as que custamos a dizer para fora desse limbo em que nos assolam de dentro. A construir ou a corroer. Ou as que abrem caminho na carne, sem anestesia, vindas de terra estranha.

O que procuro nas palavras que se acercam quando escrevo, senão pacificar o desconhecido, o conhecido, é talvez difícil de decifrar. Um mapa. Surpreender um novo ângulo que o simples pensar não teria abarcado. As palavras são exigentes. Não se resignam com imprecisões. Perguntam na sua afirmação se estão no lugar certo do sentir do pensar. Mas num grau de exigência tocado de humildade. Elas pedem licença para ficar e dispõem-se a deixar lugar vago a outras, se vieram inconvenientemente. Se nos entenderam mal. São educadas. De bom feitio. E no entanto capazes de cortar a respiração de tão incisivas quando tocam a pele.

A alma. Pergunto sempre, nesse caso, de que lado sem piedade saíram de mim. Quando as deixo aflorar o ecrã luminoso. Não posso deixar que me façam mal. As minhas, pelo menos. Hoje as palavras difíceis são as difíceis de escrever. As difíceis de pensar a dimensionar um julgamento sumário em si, e sobre quem, simplesmente pensadas, nos tornam.

Às vezes correr no dia e nas coisas feitas e a fazer somente para chegar à noite. Entrar, descansar nela, essa interna terra de ninguém. Intervalo na voragem até mesmo quando demasiado lenta, amadurecida e penosa, dos dias. Penso que desperdício correr. Penso que desperdício tanto do que faço e tanto do que haveria a fazer. Penso. Que desperdício tão grande viver a pensar em vez de pensar a viver. E outras contas coloridas.

Que faço aqui? Que caminho é este? Quando se sabe de antemão onde se vai terminar mas não como, e quando. Em pleno ou com a consciência pela metade. Serenamente ou em agonia. Comigo, com quem? A sós. Quase de certeza. Palavras a apagar. Coisas que não se devem dizer. Aprender a escrever silêncios. A viver palavras melhores – como? Mudá-las de lugar na casa do dicionário. Significados a dois, sinónimos a dois. Sentidos em grupo. Famílias de palavras com quem jantar à semana. Umas, que acariciem as outras.

Há coisas difíceis de fazer. Mas há coisas ainda mais difíceis. Não há maneira mais infalível de fazer as primeiras, do que temer as segundas, adiar, fugir até ao limite do possível e nesse momento fazer uma série infinita de coisas fáceis e, para adiar mais um pouco as mais difíceis de todas, fazer as simplesmente difíceis.

Tornadas, por magia da comparação, fáceis, afinal. Com a secreta satisfação de ver o que foi feito afinal. Mesmo por razões transversais. Mergulhar no covil de um monstro que se torna vizinho e cúmplice. Nunca se enfrenta serenamente um medo, senão em fuga de outra esquina atemorizante. Com as palavras, o mesmo.

A escrita não é uma actividade voluntária. Não acontece quando quero, pelo contrário acontece quando não quero, quando não posso. Percorrer estes ténues limites da vontade é como equacionar a fila da confissão. Fujo do que me persegue mergulhando nisso. Não quero escrever isto que me assola. Na verdade é um soluço ou um vómito súbito. Uma certa e secreta escrita. Depois, num miradouro sobre este espaço nu. E vamos a ver, e já somos nós. De lápis na mão, emprestado, azul.

Aquele Atlas, de países fora de moda. Sempre gostei de mapas de percorrer e sonhar. E tenho o oráculo. De Borges. Aquele livrinho de folhas finas e azuis em que nunca leio mais do que uma palavra, apontada cegamente. E quando aponto uma página vazia, penso: o presente não fala comigo, de momento e o futuro indisponível. Sempre fez sentido assim. Como em qualquer leitura profética, projctamos o que desejamos ler.

Assim, uma única palavra, sem os labirintos que a atiram para bifurcações naturais a qualquer linguagem. Explicando, confundindo. Mas entre os livros de mapas, gosto particularmente do dicionário. Essencial à leitura daqueles. De que servem os mapas sem palavras de ir, vir, gostar, sonhar, querer. De um nunca. Um de novo. Em cada entrada o mergulho a pique. As dicotiledóneas ou as diatomáceas, tão perto da dicotomia da disposição. A secura lisa da apresentação. A poética revelação das palavras bonitas, das comuns, surpreendentemente versáteis. As estranhas paisagens de desconhecido de umas e do reconhecido noutras.

E pensar que todos os livros e todas as conversas, de uma miríade de vidas cabem ali. Desarrumadas como quem acabou de se levantar de uma noite. Dissimuladas, na sua ordem alfabética.

Duas páginas em frente. Virar esquinas do grosso volume. Pejado de vida, mistério, sons abafados pela estridência de outros. Um mundo. Que sempre espreito com fascínio e terror. Quantas palavras por estrear…Um parque florestal pejado de seres vivos até à mais recôndita camada. Um dia de arrumações, reorganizar o dicionário. Arrancar as páginas cuidadosamente sem estragar a encadernação. Como cartas de Tarot dispostas sobre a mesa. Consultar o insólito e novo agrupar de impressões em soluções para a vida.

Respostas em jeito de amigas que não nos conhecem e quase acertam de tão longe. E com tanto ou tão pouco sentido, quanto a coerência se revelou incapaz de definir. Como uma outra poética, sem espartilho. Recortar e colar tudo de outro modo. Reorganizar sentidos. Palavras gastas com outras mais jovens. Talvez. Umas que não se conheçam, para ver. Deitar fora as que têm demasiado uso e me cansam. Já. Tempo, matéria, mental, ilusão. Que aluada sou neste perscrutar escuridão. Quando a hora é de quem dorme cedo ou tem compromissos para a noite e aqui, do lado de fora se gera a quietude que teima em não entrar. Olho sempre pela janela porque dela vem a noite e em mim ainda oscila este fundo interior. A querer sair e acalmar.

Há que sair deste fundo de mim. Unir com uma linha fina de lápis F, delicado, nas folhas do pesado livro, a palavra estranha da entrada x da página da esquerda, à palavra comum da entrada y da página da direita, num casamento desigual e ir daí por diante no universo que se esboça.

A pensar, exultante na perplexidade, que tudo está em tudo, escrito ali. Somente a precisar de arrumação. Como um destino. Que se quer ler nas estrelas. Mas é de escrever. Ou um Atlas. De que nos servem tantas terras desconhecidas, a que ambição desmesurada abrem território, penso. Há um mapa pessoal a desenhar. Uma soma de caminhos, um sistema vascular. Como um corpo e o único amado.

17 Fev 2020

Batom para sair

Quem sou eu, era o que ela talvez perguntasse. Mas mais tarde já não estava tão certa de que não fosse: o que sou eu. É tarde demais para lhe perguntar no seu já longínquo sono eterno. A minha avó Maria Antónia, de olhos vivos e por momentos perdidos nesse abismo profundo de uma dúvida que poucas vezes a terá feito hesitar. Porque me disse um dia às vezes eu pergunto-me assim quem sou eu. E na ênfase das reticências de quem não espera uma resposta e de quem não tem uma a oferecer, nos remetíamos ao silêncio. Ela na poltrona dela, eu no canto da minha. A medir a dimensão de tamanha questão, por momentos fora de qualquer registo parcial por papéis desempenhados, coisas vividas e feitas, nada por acabar. Excepto isto. Ou nem mesmo isto. Esta permanência até que se foi mas questionada entretanto.

Talvez a pensar no nada que poderia advir. E como o futuro pode transtornar retrospectivamente a partir do ainda nem foi. Mas era talvez como se colocasse um espelho em frente do rosto para colorir discretamente a boca de rosa com aqueles batons que lhe duravam anos e só para sair. Talvez reflectisse a imprecisão do espelho. Talvez tomasse o seu lugar. Vendo-se de fora, redonda estanque plena e estranha. Irreconhecível por momentos. Desconhecida. Por momentos. Que ordem de grandeza tem uma questão como essa que tanto afunda e tão discretamente se esvai? O que fica de uma destas questões quando se apresentam ao consciente sem convite a entrar, a ficar por momentos.

Não sei mesmo que simplicidade ou precisão teria esta sua pergunta. Na verdade, ao ouvi-la, muitas possibilidades se abriram. Hipóteses em alternativa como cenários enevoados, que se colocariam por detrás daqueles olhos vagos por momentos. Que parâmetros do fazer ou por fazer e de se encontrar ou se perder, a delimitar a pergunta, se terão alinhado. O ser para si, o ser para o olhar dos outros, o ser para quê ou o ser porquê. E em que lugar a vida, simplesmente evidente, se destronou como tal, a pedir mais do isso como explicação como sentido. Em que momento e porquê isso foi questão sem resposta. Porque ela não a teve ou tê-la-ia dito no decorrer daquele longo olhar para longe em que me convidou a olhar. Também.
Fiquei até hoje abismada perante a recorrente enormidade, em frase tão curta, de se enumerarem três palavras de distinto eco de um ser. Como imaginar em que diferiam. Esse quem e esse sou eu em distintas tonalidades para aquele simples ser em si que se interrogava e em como essa afirmação dupla e confirmada de ser ela, era quase cancelada pela exterioridade de um impreciso quem. Consola-me em parte, pensar que ela sabia ser e sabia ser ela. Só não sabia quem. Esse quem que saiu dela numa interrogação de fora. Fora de casa. Como um batom de sair à rua.

Mas entendi, investigando as funções redundantes ou falsamente o sendo de um eu um quem e um sou, numa única e curta frase, que nem quem sabe a fundo de gramática e da Língua pode responder à função desta estranha palavra quem, naquela frase naquele olhar. Como um ser estranho também ele a apresentar-se ao espelho e desconhecido dela.

Quem sou, eu, que ridícula ambição de ser? Quem sou eu para além do que acho em mim? Quem sou eu de nada me revestindo? Quem sou eu, nada? Que nada me acho, e em nada me acho. Quem, afinal. Um mundo de afirmações nesta remota questão sem resposta. E, vendo bem, sem interrogação. Porque lhe faltava o ponto. Que diálogo suspenso. A sua questão sem interrogação, o meu silêncio cheio de coisas. Em espera.

Um nada que passou. A encher-me a memória. Coisas. Querida avó, como somos diferentes. No batom. Eu não tenho tantas dúvidas longe do espelho. Somente espelhos.

E aquela questão, tão pequena quanto a conseguirmos ouvir, tão irrelevante quanto quisermos, é como a entrada numa sala pejada de espelhos. Ficamos confundidos perante as múltiplas possibilidades e rimos. Identificamos o excesso e a aberração. Mas lá bem no meio há o espelho certo e razoável, e nele temos que nos reconhecer. Mas primeiro, reconhecê-lo. Depois, reconhecer quem o segura.

Olho para ela. Vidrada de transparência por aquele olhar que me ultrapassa sem tocar. E também agora dos confins da memória. Não sei se a vi mais inteira naquele preciso momento em que me abrangeu, sem querer, nesse seu não saber que incluía o que de mim houvesse nela. E assim me excluía e deixava serenamente pendente de futura resolução. Ou que ela voltasse. E abismada no momento em que a interrogação fez tábua rasa de tudo. De quê, afinal? Talvez o diálogo sobre meandros da mente seja um território de isolamento a duas naquele momento. Uma pedra sobre o abismo que ficamos a contemplar. A tentar alcançar. Um enorme silêncio sem ponte. Sem a pequena ponta por onde desfiar o intrincado novelo, que seria o ponto de interrogação inexistente. Fiquei calada nela. Com os olhos nela. E ela sabe-se lá onde. Mas onde nem os seus nem os meus alcançaram. E mais ainda, agora. Que há tantos anos se foi. Com o seu batom rosa. De sair.

10 Fev 2020

O quarto

Crescente, minguante, ou simplesmente o quarto. Escuro. Que se teme como se tem em casa. O pavor do desconhecido que nos invade e está para além daquela porta. Que se abre sozinha num chamamento. Do lado de lá, ou do lado de cá. Quarto crescente, dizia-se, era o tempo de cortar o cabelo para que crescesse melhor. O que significa melhor? Mais rápido ou mais forte. Mas nunca as duas coisas. De acordo com as fases da lua. Mas é sempre a renovação. Tempo de mudança em catadupa ou em profundidade. A pedir paciência e distância para ler em longitude. Não tenho cortado. Há qualquer coisa impensada e ancestral, que me apetece, nisto. Talvez estranho. Se não será estranho tudo o que somos nos outros.

Um bom jogador calculava a mão do adversário. Novas cartas de jogar, de marear. Mesmo as de avião chegavam com cheiro a maresia. Rasto de nuvens ou aroma de terra. Vindas sobre o mar a olhar para baixo e a contar milhas. Dias, até chegar a continente. Cheias. Mesmo se de pequenos faits divers. Palavras trazia-as o vento. Mas aquelas ficavam para sempre coladas amorosamente, com a discreta cola que une os pigmentos à folha, num para sempre que para sempre se podia revisitar. Saborear.

Escrever é bom. Que pena perder-se o prazer das cartas. Não as de jogar, talvez mais sedutoras, mas de escrever. Ao outro, mesmo o outro de nós. Numa confissão de coexistência pacífica. As cartas são sempre uma emoção ao ponto de subir aquele nó. São tempo, tão tempo. Ultrapassado com tempo e com o tempo necessário. Dantes muito, hoje menos. O necessário para a ponte. O tempo parado, refeito remodelado. Um registo físico que se apertava nas mãos e prometia. E a caligrafia laboriosa, estilizada de quem se vestiu bem pela manhã para chegar ao outro.

Tive um amigo. R. De há muitos anos e há muito retirado. Era apelido. Que parecia nome e era. Nunca tive tempo de passar a tratá-lo pelo primeiro nome. Pareceria uma outra pessoa. Vivia antes num quarto apertado, meticuloso e escuro, em que o visitámos – lembro – perto do antigo aquário. Um mundo recolhido.

Como se a sofrer de tonturas e enjoo da trepidação do mundo. Mais tarde numa casa com luz.
Tinha uma colecção de copos antigos. Delicados e lapidados, que guardava num móvel retro que abria com aqueles gestos lentos a orquestrar poesia. A voz, os olhos transparentes e as palavras repletas. Ao ponto de ser parte de um teatro e no medo de dizer coisas rudes e sem a deixa certa. Uma performance de zelo e o desafio da capa poética do tempo a passar, nessa escultura aprimorada para a memória. E um pé de rosas pequeninas e claras num vaso, que se dispôs a deixar partir porque deveria podar as raízes como os delicados ramos. São difíceis as rosas. Ou talvez não fosse isso, mais do que o que me ficou na memória ficcionada. Talvez naquele dia ela estivesse, a roseira mínima, por ela própria, simplesmente de partida. E ele, por um desses mecanismos de negação do inevitável, a iludir o destino da roseira cruzando-o com o seu. Bebeu demais naqueles copos, uma certa desistência do mundo como a dor da desistência da rosa. Da sua.

Abalou, na soberba convicção da sua estranheza máxima. E da sua inviabilidade face ao mundo. Tornar-se ilegível e invisível. Para não ver a sua invisibilidade descontrolada. Uma ilusão de poder. Esta gestão do invisível poético. Retirou-se pelo caminho mais curto. Da face visível, vista daqui. Da sua face ao mundo e deste, na sua impraticável relação com a estranheza. Mas cada um a sua. E desapareceu de qualquer mapa. Espero que esteja por aí.

Eu tinha aquele amigo. R. Escrevia cartas como ninguém. Adivinhava-as poéticas no seu hermetismo meticuloso. Que ele sabia. Porque as sabia para lá dos limites do legível. Há duas formas de abstractizar, mesmo na caligrafia. Uma, esse estender vogais e consoantes num gesto langoroso e largo que as dissolve numa linha que é quase um espreguiçar felino e sensual. Outra, esse retorno tenso e imbricado sobre si, em nós de brusquidão. Em cada haste um nó, em cada perna um cilício. Ou esse revirar a letra sobre si própria com um braço que se protege. Na caligrafia dele, tudo isto e a escala à beira do invisível. Do abismo. Que para ele seriam as palavras que só ele sabia como se despenhavam. Num pedido a serem lidas. Talvez, como se quisesse. E não nos seus limites. Angustia-me ainda, quando o lembro.

Aquelas cartas – poucas, quando eu vivia longe – encriptadas numa escrita minúscula, indecifrável também por outros requintes que não a escala, também na forma. Já não bastasse o conteúdo. Pior do que o Edge Rank com mais de cem mil variáveis. Há tantas formas de ilegibilidade. Quase só o desfiar de linha plena de nós apertados e finos. Tão finos que não havia unhas que os desenleassem. Era para ser assim. Uma teia de sedução muito aquém do visível. A ilegibilidade assumida do ser face ao outro. A fuga desesperada à leitura. Conseguida. Desesperante. Protegida.

Como um temor prévio de não ser entendido. Mas talvez maior, ainda, o pavor de ser entendido. Demais. E, não confiando no mundo, por defeito protegia as suas ínfimas flores nocturnas e exauridas. Ao ponto de as deixar ir. Quanto custa este envergonhamento de ser, de sentir, de ser sabido, sentido…

Ele retirou-se em quarto minguante. Mas colecionava copos com alma. Vindos de outras casas e de outras vidas. Poeta solitário, virou-se para a poesia e esqueceu as pessoas para que não o esquecessem a ele. Uma espécie de abrupto – afinal – mergulho de novo num talvez outro quarto escuro. Aliviado de todo o peso extra, terá talvez pousado a caneta de vez. Sem ninguém de quem se esconder. Ou não. Não sei, até hoje, que lua nova lhe veio depois. Que crescente surgiu dali. Mas entendo, agora.

20 Jan 2020

Secreta via das árvores

Folheio em paragens de acaso os cadernos destas escritas de O. Não lhe prendo as raízes.
Tenho os olhos cheios de planície de sempre. Virasse-os do avesso e assim era o que lá encontro. Espaço. Sentido por detrás destas cores variáveis de vegetação e terra.
Leio estas linhas nos diários de Olive e sei que são escritos de amor. Não estão datados por tonalidade de cicatriz. Talvez pela contorção dos torços. Folheio a eito páginas daquela escrita. As cores são serenas como bordado num vestido melancólico. Cores de janeiro.

Voltando às árvores. Hoje deixo as que, serenas e verticais, parecem arrogantes de serenidade, saber, imutabilidade e razão. Seres de tonalidades soturnas discretamente emplumadas. Anjos nocturnos.

Silenciosos ou embalados naquele marulhar conjunto da folhagem longínqua. Mas numa pujança que ao olhar se oferece terrível e esquiva matéria, densa e pesada ao sentir. Que partículas que não são matéria de quantificação nos sufocam o ar parado nos prendem os passos ao pé de uma cadeira e que de amarras não parecem ser fundamento. Que coisa estranha seria o gostar, prendido a critérios mas nada que se pareça à estranha a tudo isso e mesmo estrangeira emergência do amar. Amamos tantas coisas, se amamos e quando amamos. Amamos aquilo que nos enternece, nos causa desvelo nos transcende para lá do estrito lugar próprio, na vocação boa de amar. E amamos o sublime terrífico real de que nem sempre podemos gostar mas sabe-se lá porquê e o que nele se prendeu. Viro uma página e retomo o olhar que divagou para longe.

Prendo-me às emocionais. Que as há na linguagem das formas. Aquelas que construíram campos de viagem e paisagens ilimitadas no terreno que não domino. Que nem sei como cabem em casa, e mais ainda nesta pequena caixa-de-ressonância. Mas é anseio que ficou a dar espaço. Amplificado para dentro. Feliz de ter visto tantas vezes, quando bastava só uma, que se estruturou como janela para o mundo. Elas em perfil sinuoso e lírico, sempre naquela espécie de agitação prévia à fuga, ao movimento, à dança. Como os sentimentos sempre prestes a extravasar porque não se fizeram para ser contidos. Apertados. Ou se o fossem, sempre entumescidos de coisas estranhas e tumultuosas. Espremidos destilariam algumas gotas de lágrima, ou apurando o silencioso olfato, talvez essências, perfumes claros e confusos simultaneamente.

Olhando as pequenas árvores à beira da secura. No espaço de passagem. Os corpos em variações irrepetíveis, tensas, expressivas e as pequenas folhas de colorido exausto, despenteadas em vagas, preparadas de sempre para poupar a água. Formas dramáticas e penosas de se ajeitarem à imobilidade. Quem diria a riqueza que das suas dores se exala em estado líquido. Árvore pinga-amor. Tão longe as oliveiras dispersas pela planície seca e pálida, da macia e líquida, perfumada luz que virá dos frutos amenizar o pão. Tão longe do ouro essa cor preciosa. Quem diria.

Tão diferentes da vertical e parada – sóbria, como se se pudesse dizer serena, se susceptível de sentir – natureza das outras árvores. Uma beleza sólida para outros dias. Hirtas afirmativas. Pontos próprios de uma exclamação como se universal. Gosto delas. Doem-me no fogo que as consome por todo o lado. Doem-me derrubadas em vida na centenária vocação ignorada. Ou em pé contra tudo mesmo sem vida para que os bicho se seguram da tragédia. Os bichos de rosto triste que se abraçam a elas ou uns aos outros ou a si próprios em desespero. Como os bichos são enternecedores e as árvores e tudo.

Depois lembro de novo as oliveiras. Elas mesmas num arremedo ou ímpeto de fuga do incêndio. Da vida. Das mais maduras a perpassar uma espécie de encantatória semelhança com seres móveis que não são. Dramaticamente retorcidas como a necessitar arregaçar raízes e correr desarvoradas planície terra adiante.

Com uma alma de duendes, de Elfos, de alquimistas com o mundo ao lume. Coisas insólitas a passar-me mente adiante, nas longas e antigas viagens por estradas nacionais. A passar dentro dos campos. Que semelhança poderia haver entre uma destas figuras de tragédia em contornos infantis e um amor sentido de adolescência. Em fuga, também, como uma vergonha de sentir. Aprisionadas à terra, mas aos olhos não. A dinâmica ilusão de fuga presa ao movimento eternamente potencial. Mas nunca praticado nem concluído.

Talvez isso. E os emaranhados de cabelos a rarefazer e os pequenos frutos como pequenos seios albergam o saber do tempo e da solidão e da seca. Daquelas em tão ampla e longínqua planície que não há animal que lhe chegue por acaso a alçar a perna e a marcar território. O profundo acaso que não acontece. Árvores solitárias com vida própria e enormidades de céu como testemunha da sua infantil pequenez. Sem sexo nem género que as aprisione nem que as revele. Necessárias ou suficientes. Seres de perna curta mas as mais ágeis do reino a que pertencem se isso existisse de pertencer.

Coisas estranhas de árvore. Mais secretas do que estranhas, essas coisas da vida das árvores. Encantatórias vestes de tule verde. De tudo. Essa folhagem leve e de cor ressequida de guardar e resistir. Vinda das profundezas da história natural, dos factos, mitos e lendas sempre se desprende a sua memória. E a sua presença a atravessar séculos, milénios. Fortaleza de amor à vida que o amor é sempre. Como uma coroa, expandiu-se em torno deste mar colorido e mediterrânico. Do sul do Cáucaso, das planícies do Irão, da Síria, da Palestina aos lugares da civilização Minóica e depois por todo o lado do litoral ao interior. A produzir, contorcidas e tenazes, um óleo que alivia feridas e dores, que alimenta e ameniza o pão. Longevidade milenária de muitas. A acompanhar a história ainda com vida. Como mães de civilização que não deixam de acompanhar o caminho. Folheio de novo para diante páginas e continuo na encantatória impressão de que são de um amor. Talvez às árvores. Talvez.

Esvoaço rapidamente pela bacia da Mesopotâmia. Diz. De novo um salto à Palestina, à Síria, Creta – breve paragem na lembrança da época Minóica, estão por todo o lado – em torno das águas pacatas, transparentes do Mar Mediterrâneo com os murmúrios cheios de afogamentos. Talvez as medusas. De cabelo emaranhado e a produzir dor lancinante onde toca na pele. E o norte de África. Tudo desenhado nas cores delicadas do mapa já frágil e de vincos puídos sobre a mesa. Gosto de desfiar os nomes, como um crédito de milhas para navegar. Visita rápida às árvores milenares. Quando não há tempo para mais, fico-me pelas centenárias. Que circulam pelas planícies. As mais velhas, tantas vezes de corpos dissociados em dois, mas num abraço para a eternidade. Coisas estranhas de árvore.

Poiso o caderno. Dobro o mapa. Mas não sei. Talvez O.

13 Jan 2020

O ofício da memória

Esse curioso e imparável tecer subliminar. Que não se resume a arrumar colecções em gavetas distintas. No contínuo ofício da memória, se transcende o objecto da vontade, que na sua resignação própria, se sabe dever ser humilde e aceitar o que que dali nasce. E o que morre e o que se transforma no laborioso elaborar. Um fio subterrâneo de água invisível aos olhos, mas que nunca deixa o seu correr no sentido da nascente. Aquele momento em que se lembra, em que se esquece, ou em que se lembra que se esqueceu. Ou se lembra de uma outra forma. Ou se vê como uma desvanecida poalha de realidade o que foi forte e nítido e se lembra a curiosa dor de uma dor sem sentir. Ou se sente com toda a violência um baque como o de outro momento somente de lembrar.

Com erro de paralaxe. Que o retorno da memória não pode deixar de ter. Viajamos todos os dias para pontos diferentes de nós. Mesmo que subtilmente. Somos o observador observado. Mas, espectadores, ao mudar de posição retemos do observado uma localização diferente. Sempre em erro, porque não há uma medida universal para o ponto certo do que somos e onde nos situamos ao revisitar a memória. Estamos em trânsito. Amanhã, logo se vê. Os anos vão passando por nós, nós neles, não se sabe de quando, para quando ou onde. Que rio, este.

A Física explica tanto e no entanto não oferece o sentido. Porque é a paralaxe impossível à alma como ângulo rigoroso, mesmo momentâneo e pontual, e porque não é a memória matéria de rigor? E nem toda a matéria é diáfana ao ponto de o que vemos ser, ser exactamente o que é. E os raios dessa luz que nos chega da memória, refractados, a elaborar as imagens fílmicas do que vivemos, e sempre quebradas de uma alteração da forma. Como através de um líquido. Talvez não seja, a memória, um tecido sólido e subaquático. Mas em si, um filtro líquido.

Ser uma espécie de multidão, com aquela característica de uma multidão em que ninguém conhece nenhum dos outros, até onde a vista alcança. E onde, mesmo se lá bem no meio houver gente conhecida, não se sabe que ali está. Ou uma multidão de conhecidos não íntimos, sem vidas cruzadas, sem síntese e sem compromissos. O que seríamos sem essa rede da memória a estruturar cada um que fomos no dia anterior ou no que o antecedeu. E assim até ao fim dos tempos que vivermos. Como uma manta tecida de todas as matérias que fomos sendo. Os dias em que estivemos e as noites que esquecemos, todos os lugares que fomos e os minutos que falhamos, todas as portas fechadas e todas as feridas abertas. Ou então, o contrário.

Obra. Memória é tempo. É o tempo moldado como por arte de um ofício, com toques de genialidade ou profundos defeitos. Ambas as coisas, talvez. O tempo reelaborado, vivido e organizado. Ou desarrumado. Se a perdêssemos, o alívio que seria. A leveza do eterno presente. A vulnerabilidade. E cada informação, cada notícia que nos tomasse de súbito, que dano voltaria a fazer, sem essa rede de construção que vai progressivamente amenizando mesmo as dores que perduram, e amortece cada retorno. Toda a dor, uma pujança intacta acabada de nascer. De novo cada amor e cada luto, o primeiro impacto de uma grande emoção, a mesma desilusão de uma desilusão, o mesmo golpe de uma palavra cortante. O mesmo susto. A mesma pessoa que fomos. Dessa multidão, de que na memória se faz síntese. Às vezes, as palavras saem-me deixando um golpe doloroso desde lá do fundo e por onde me passam. (E são feitas de quê?). E deixam-me sem fôlego para outras por mais que doces. Produzem rasgos no tecido. Um xaile de lã macia delicada e protectora. Às vezes frágil. Às vezes uma rede do cabelo, às vezes uma de circo. A aparar o erro do trapezista nas acrobacias do sentir. E a queda, mesmo rápida e semelhante, pára naquele ponto suportada pela rede. Que não deixa cair até ao fim. Como um efeito lateral da memória, a quantificar e a comparar nesse confronto da queda, dados, como duas equipas num jogo. Solteiros contra casados, aquele clássico de domingos, no terreiro da vila. Quem ganha? O passado ou o presente? Estabilidade ou expectativa, maturidade ou juventude. Fica-se para saber ou por saber.

Que bom, afinal, sermos tocados de mortalidade desde que nos lembramos. E mesmo antes. Já os genes a zelar por esse saber-nos mortais e pela sobrevivência.

Se não fôssemos mortais. Seríamos mais insuportáveis. E mais sós. Assim, não há tempo para tudo. Lá vamos deitando fora algum lastro. Não se pode ter melhor amigo do que o tempo que tudo leva. Ou maior inimigo, porque o tempo tudo demonstra ter traído. Claro e transparente no seu lugar próprio – contudo – nem antes nem depois.

Tenho visita assídua da memória. Talvez porque gosto de tecidos, de malhas, de estruturas celulares. Mas às vezes o que me apetece é dormir e esquecer. Quero tanto esquecer e tanto. Todas as noites eu custo a ir para a cama como quem não quer morrer. Talvez seja o temor de me esquecer – sei lá – a mim.
Somos tão dados ao vazio.

Mas não é a memória repleta de ausência e passado, o que melhor o preenche. Somente uma rede de suporte. De baloiço melancólico. Ou de apanhar borboletas. Só o labor do momento. O sim. O agora. Que esse, se não preenche uma parte densa de vazio, é como se não se existisse.

6 Jan 2020

Mais lugares que marinheiros

Dias antes e já a pantalha luminosa se acendia intermitente a deixar ver. As luzes no máximo como para não nos perdermos no caminho. Um prévio cometa Halley a guiar. As pessoas são tão contidas. Em si próprias, muito embora por vezes a exorbitar numa espécie de sudação subliminar. Em que se pressente uma enormidade de inferências, de subentendidos e de consequências que temos que saber aparar no regaço. Estendo a mão. Mas não toco no que não se quer tocado. Nós não somos tristes, somos fundos e por isso não somos simples.

Conto. Volto a contar. São as contas do Natal. Porque exorbitaram as continhas vermelhas do azevinho, tão raro, em grandes bolas de árvore de natal? Porque de tão raro, o que era espontâneo quase se extingue. Agora as poinsétias. Grandes e extravagantes estrelas de outro continente.

Ceia de Natal. Não há lugares vazios. O tilintar de copos e as conversas inconsequentes, coisas práticas e insignificantes. Também já contamos histórias. Shhhh…é só um pequeno movimento para dentro e oiço-os chegar devagarinho. Como um nó na garganta. Sentar-se sossegados, com as expressões inesperadas que o inconsciente laborioso lhes coloca nas faces antigas. Antigas, mas por vezes tão jovens, afinal. Não se sabe, antes, com que rosto vão surgir. E ficam ali quase luminescentes, a ocupar solidamente um espaço para o qual foram convidados. E ficam. Até que o nó se desfaça e alguém diga um disparate divergente. E eles não suportam o esquecimento. E assim se vão. Mas não muito longe.

Vamos olhar uns para os outros, felizes mas secretamente a fazer contas aos que faltam. Ainda não habituados. A ter que contar quantos somos agora, várias vezes porque é um número novo. Um dado novo para este jogo. Mas felizes de ainda nos termos uns aos outros. Os mais velhos foram-se retirando definitivamente da mesa. Ao seu tempo. Deixam-nos como sozinhos em casa para continuar. Mas na verdade, começamos outros de nós, então, a ser os mais velhos e a olhar em volta com desconfiança como quem diz vamos lá a ver se ninguém sai daqui sem autorização. Vamos estendendo a toalha agora comprida demais, pondo a mesa caoticamente e retocando cozinhados e compondo pratos com uma enorme seriedade e como se uma epopeia que não se destinasse somente a nós.

Mas sabemos secretamente que ainda há vários lugares vazios, por mais que se não coloquem visíveis à mesa. Que ainda não foram absorvidos pelas ausências que os ocupam. Fingimos que não é nada connosco. Sabe-se lá se cada um reza aos seus santinhos. Que chegam e ficam ali como parceiros discretos a aconselhar sobre o ombro qual a carta a jogar. Depois sentamo-nos. Só nós e quem naquele exacto momento se abeira de cada um à vez e sopra um invisível murmúrio. A saudade é seguramente nossa. Como um altar íntimo e doméstico. Do culto aos que passaram e nos deixaram. Só não temos coragem de deixar laranjas e papéis de queimar visíveis, para não nos entristecermos uns aos outros. Somos tão púdicos.

Ninguém vai dizer nada. Já se disse, outras vezes. Mas lá para o final da primeira garrafa, algo um pouco desajeitado há-de surgir. Mal planeado, e irreprimido. Só nós agora. Qualquer coisa assim. Como miúdos à solta. Ainda um pouco desajeitados desta ausência dos mais velhos. Que somos agora nós. A fazer este papel no seu melhor, porque é mais difícil fora da marcação. E precisamos dele. Que nos ligue e continue a ligar.

Depois nunca se deixam as velas arder até ao fim. Um pouco de luz possível para o dia a seguir. Reacender. E sobra sempre tanta cera mesmo depois. Aprendi que a única coisa que se esgota demasiado depressa é o pavio, de algodão. Mas substituindo por um novo, há muita cera para arder ainda. Derreter sem arder, moldar a nova forma, pavio novo e nova vela. Sem as cores nítidas da antiga, mas a luz é sempre luz.
Família, quando temos, é o que temos. E depois da consoada, ficamos de novo a sós. Meto a chave à porta. Abro a porta de casa e descalço os sapatos para não fazer barulho. Estás aí. Que não gostas do natal. E fazes bem, à falta de melhor. Dispo a roupa simbólica de estar especial e fico para ali, sem nada. E aí sim, essencial.

Se estás. Deito-me ao lado exausta. Voltada para ti. Suspiro fundo. Agora só daqui a um ano. Sorri por favor. Vejo-te mesmo no escuro. Tocamo-nos ao de leve e não há nada melhor. Do que a enormidade da distância que se vence, percorre e anula nesse gesto invisível e definitivo em si. Em que se nasce ao espelho táctil do outro ali. Reinado enorme e eu pequena. No simples espaço curto da cama. Não é preciso ser maior. Já basta a amplitude dos temores, das noites, do abandono de deuses. E chega. Chegando de mansinho.

Não estou só porque tive a sorte de não nascer só. Solitária, sempre. Uma coisa da espécie. Monticola solitarius. E digo, agora nós. Não digo finalmente sós, o que seria ingratidão. Mas digo. Agora nós. Só. E fico. E porque todos os anos mesmo os temores se renovam como recém-desembrulhados no meio das outras prendas de natal, pergunto como sempre: estás aí? E tudo está certo como sempre, a postos para recomeçar como se do início de tudo. Depois, fim do ano, ano novo e vida nova. Até ver. Naquele escasso momento em que troam e florescem as últimas luzes do fogo-de-artifício. Vistas da janela pequenina.

Acordo no dia já bem claro. Encolho as pernas, puxo a roupa e viro-me para o lado a pensar que o dia vem longo. Percorrer o mercado de doces à procura de algo que se aproxime dos sonhos da infância. Leves e cremosos e pastéis de massa estaladiça. Em caixas de cartão para logo. Há que guardar tempo para me arranjar. É preciso que cada um esteja no seu melhor. Um pouco de maquilhagem para a consoada. A família merece. Ou eles, saber que estamos bem. Ou eu.

30 Dez 2019

Cidade material

Macau. Cidade mental. Penso. Perguntar se um dragão voa. E a pergunta certa para setenta milhões de patacas ou de pessoas, inesperadamente não ser se existem, os dragões, mas qual. Ou se Luís de Camões visitou. Ou o dragão amarelo. E se algum dia um deles voltará.

A pensar em Calvino e as suas Cidades invisíveis. Interiores ao viajante. Como se não o fossem todas. Imaginárias ou inventadas. Há sempre uma distância. Entre nós e uma cidade qualquer. Há uma cidade mental. Há uma cidade material. E há uma cidade brutal. Mas os dados estão lançados. Há muito. Com o esmagador peso do futuro atroador, em passadas de gigante.

A China, o país, uma ideia de si e não se conforma sem que todas as reunificações se fechem numa identidade nacional, possessiva, invasiva, num projecto político, económico e funcional. A palavra cultura aparece, porque é bonito, a enfeitar. Mas desta se moldou de forma tão única a Macau de macaenses, portugueses e chineses e tantos outros viajantes. Tão pequena que era, e tão murada. Cidade em camadas difíceis, como velaturas de segredos. Culturas de gueto, num cadinho fervilhante. De sabores. E nas sombras que nos seguem pelo chão, uma memória de aventura ancestral. Com que pouca profundidade se desenvolveu o interesse destas culturas, umas pelas outras. Comparando com o que se poderia ter sonhado, podia ter sido paradigmático, o cruzamento de tolerâncias e paixões e Histórias. E séculos a perder de vista. Macau foi um pequeno ponto longínquo de encontro. De essências, modos de vida e culturas. O momento maior na definição do humano. Mas que tende a diluir-se na solidez dos valores económicos que mais altos se levantam.

É o que é. Mas não o que poderia ter sido. Uma mistura coerente de tradição, cultura e modernidade em que tudo poderia ser guardado e acrescentado. Mas Portugal não teve jeito e a China não tem vocação.
Macaense, um povo e cultura como se produzidos pelos deuses numa noite de jogo, para um futuro impreciso de dias contados nas políticas de grandiloquência, em afastamento, como placas tectónicas de um eixo identitário. Chame-se-lhe pátria, chame-se-lhe terra, identidade, ou declaração conjunta, mas no horizonte: diluição. Muita nostalgia fica para homenagear o que foi.

Cultura não é o investido nesta cidade. É o que se compra, o que se joga. O destino. O querer fazer-se da aparência adquirida, ou numa mão de cartas, traiçoeira ou prometedora. Depois há que continuar a ir a jogo ou reduzir a ambição ao resultado obtido. Há quem arrisque e há quem desista. Os que desistem podem ganhar. Os que arriscam, perder tudo. Ou não. Tudo o resto, é rame rame no caminho inevitável.

A pensar para que crescem as cidades e em que parte do corpo. É uma pergunta que neste final da segunda década, me assola. Neste meu descontentamento da mudança. Mas do sentido. Para que cresce o corpo da cidade, senão para se travestir de uma outra vida, de outros habitantes, mais do que nunca, de passagem por uns dias. A quem agradar. É por eles que o coração das cidades mal amadas se vai adulterando e vendendo. E desabitando, sobrepovoadas. Como parque de diversões fora de horas. A montanha russa em descanso, finalmente. E as galerias as livrarias os cafés as lojas bonitas de design os cinemas e tudo o mais que não há, tudo fechado e invisível.

Há um recorte poético na naturalidade com que um território irrompe das águas circundantes e que lhe deu uma vida de passeio marginal que tantos habitaram e de tantas maneiras, um remate digno e bucólico a abraçar a cidade e um rosto ao longo da Praia Grande. E um outro escondido, no Porto Interior.

Quando se lhe muda a face, numa geometria que em nada imita a realidade espontânea da terra, se recolhe o lugar que era marginal a uma interioridade forçada, desfasada, em que sufoca sem a respiração do rio, mudam os passeios, mudam os passeantes e passam de carro sem passear. Simplesmente a caminho. Carro grande, caminho pequeno. Para que se quer um carro grande numa cidade tão curta… Pela mesma razão se compra um fato de marca e não o de um bom alfaiate. A peso de oiro, tudo pesa demais nesta cidade em que se veem lingotes nas montras de ourives. Os poucos edifícios com uma personalidade de época, sobreviventes, perdem a escala. Já tão poucos e sufocados. Uma cidade encerra em si todos os tempos que a construíram, e assim os deveria manter. É desse convívio que se faz a memória. Não é de geração espontânea.

Os aterros deveriam ser desenhados com amor. E não cortados à faca ao desenho das águas, em qualquer lugar. Orgânicos e naturalistas, com margens amplas para passear. Bancos de jardim, esplanadas para estar. Árvores em quantidade. Falta espaço e natureza. Mas num jardim não se gasta dinheiro. Por isso não se gasta dinheiro num jardim. A margem é o que permite aos olhos um horizonte, beber a luz do rio, fugir à vertigem e visão atravancada de uma cidade em altura. O que é o ordenamento sem a poesia lenta e amadurecida dos anos a moldar passos, hábitos. E à sua dimensão. O que é senão isso. E, não sendo, há que inventar com brilho e poesia. Espaço. Edifícios belos. E bons de habitar. Arte pública. Ou que tóxica se torna uma cidade. Tudo em trânsito. O trânsito ditatorial.

Se pensar na explosão do corpo do território como um disparate das células em forma como que cancerígena em que se perde a natural harmonia inicial que se cristalizou em hábitos e rituais, é triste. Sem o lirismo de uma bela valquíria a arredondar em formas barrocas de encanto e a crescer em luminosidade. A nova sedução a despertar emoções. Mas foi a loucura das células ou da ganância ou do dinheiro. Sei lá. Mas que se pode amar mesmo assim, se bem que de forma estranha. Ou é a memória. A amar a cidade mental e tentar revisita-la na cidade material. Tudo se cruza.

Mas tão mal amada. Sinto. Usada. De passagem. Mas eu estou tão longe. Que sei eu? Tão longe e tão perto. É a mente, que se na fantasia não mente, alimenta. Cidade interior. Como tudo e todos em nós. Cada vez mais, para percorrer no isolamento de veículos, para abstrair do passo, para se viver entre vidros que coam a realidade do ar e ares condicionados que agridem as estações, tudo meio invisível ao tacto e aos sentidos todos. A tornar-se cada vez mais exterior. Fora dos vidros, do ar condicionado e do conforto. Lá fora.

E lá fora, como num flashback revejo a porta de casa, à rua de S. António, e avanço para o jardim do poeta. Algo lírico paira por ali. No largo, os mesmos velhos do meu tempo, com os seus pássaros de sempre, levados a apanhar ar, a passeio. A mesma calma, o mesmo silêncio, a folhagem a produzir sombras nos muros. No meio do bulício magicamente camuflado. Logo ali. Tão perto e tão longe do centro. Uma certa forma de vida ainda mora ali. Mas outras já não. As casas de chá, antigas e imutáveis, as velharias de valor discutível, empilhadas e atravancadas mas autênticas testemunhas, as tascas de rua, abundantes, sujas e deliciosas, o barulho das pedras do mah jong noite adentro a circular entre as janelas abertas de toda a cidade, para entrar calor e humidade. Omnipresentes a ocupar, noite fora. O sapateiro inventor da rua do campo. E outros ofícios. Outras vidas. Tenho saudades em qualquer sítio.

Sento-mo no muro da praia grande, esse resto obsoleto de um conceito de marginal que deixou de o ser – não se passeia muito por aqui – enquanto penso em tudo o que prende uma pessoa a um lugar sem as raízes de si. Antes. Do encontro. E em como algo fica depois indivisível e secreto, enraizado num lugar invisível, que só cada um sabe. E como depois se fica a pertencer. O teimoso feitio da linguagem, a fermentar fantasia e proximidade e distância. A distância necessária num lugar apertado. E tanta gente que passa. Desaguei da rua da palha, em fuga. Aquele derramar vertiginoso em que os pés tropeçam nos calcanhares da frente, sem a fluidez do passo porque não há ar. Entre nós e os outros. A cidade não tem pulmão. Mas ali descem noivas, também, com os seus vestidos açucarados e a corte engalanada, vindos da fotografia em frente ao estranho sintoma de cultura. Em ruínas e reduzido a uma fachada. Mas com janelas para o céu. Às vezes azul.

Como o grande dragão que paira sobre a cidade. Símbolo da transformação pela destruição, para que nasça o que é novo. Assim é a intempestiva forma que a China já praticou, em contraste com a enorme paciência com que planeia a longo prazo a inexorabilidade do futuro. E a cidade, região e diluída nela, como é feitio habitual. Diluir para reinar. Etnias, culturas, vidas, famílias, laços. A aniquilação do indivíduo desde dentro. É o que não perdoo à revolução cultural.

Assim esta progressiva e diária espécie de lavagem da cidade, por enxurradas de pessoas – paradigma em expansão por toda a região e que será a Grande Baía – do que tenha sido a alma ímpar da cidade. A memória, por exemplo. Cidade, território, lugar. Uma célula única. A pulsar do seu núcleo, identidade. Real, afectiva ou ficcional. Nunca pedaço de um país, aquilo que de tão longe de tudo, não tinha dono. Não a vi assim. Ao fim de umas quantas gerações, o erro de retomar a posse é equiparável ao da apropriação. Mais grave numa cidade adulta. Feita de pessoas com vida e história. O grande dragão soube esperar. Mas a identidade cultural entra na roda gigante e não pode apear-se. No parque.

E é neste conceito que se funda a Grande Baía. Do futuro. Um vórtice maior. Mais tudo, transportes e circulação, negócios, dinheiro e pessoas e tão pouco sentido de estar e habitar. Uma grande ponte que liga três cidades é a metáfora deste tempo. Cada vez mais rápido e de passagem. Um dia, a cidade diluída numa grande baía, que não será a Baía da Praia Grande. Simplesmente a Grande Baía. Grande de mais para passear à noite.

16 Dez 2019

Intervalos de paisagem

De novo esta cartografia que se filtra como uma rede invisível na articulação das palavras.
E das sombras.

Camadas de realidade. Como velaturas, no crescendo da complexidade, em que coincidem em sobreposição virtual, pequenos corpos de sentido, formas humildes e individualizadas de um todo. Mas não caídas. Folhas.

Adoro estes caminhos de sombras. Recortadas em manchas, já nada dizem do que lhes deu origem. Esta filigrana bidimensional que só o é por ilusão do que vemos. Sem intenção, o resultado de uma cadeia de níveis face à luz, das folhas que habitam as árvores, entretendo-se sem sair do seu lugar, com um teatro a dominar o caminho.

Fios invisíveis e verticais a cair paralelos, dos raios solares. Teatro de sombras. Bem observado, nele se encontra tudo. Histórias de encantar e filmes de terror. Os desenhos recombinados tudo permitem. Ao olhar. E, bem junto aos pés, camadas de sombras sobre a própria sombra de quem caminha. Pela ordem lógica das coisas, do espaço e das prioridades da luz.

Afirmações. Cada árvore, pontuada na verticalidade, sem temor à luz, Outra de incrível intensidade, esta. Um meio-dia sobre as árvores e chovem todas as folhas a brincar com o chão sem se dignarem mexer um cabelo sequer. Em camadas, empilhadas como folhas de livro acabado. Provisórias, contudo. As sombras mutantes.

Mapa curioso de linhas novas sem revelar que segredos e sobreposições por debaixo do foco solar, ocultaram formas unindo-as a outras. Cada exclamação natural a exclamar sombras como palavras virtuais.

Uma outra realidade. Recuando ao estúdio. Coloco uma folha branca no ecrã luminoso. Quem diria que 13 kilobytes é o tamanho de uma página vazia. O que pesa no espaço etéreo ocupado. Como 21 gramas, o peso de uma alma que se foi. Nem é muito, pensando em tanto que leva. Mas da página, atendendo a que mil palavras depois, não foi proporcional o aumento de peso, penso que é como se dela resultasse, em vazio prévio, o peso intenso de todas as possibilidades que nos abalroam a alma quando olha. Do que ali não está mas é subliminar.

O medo de todas as frases devastadoras que se podem vir a instalar ali. De todos os segredos que, sem querer, podem fugir por entre a cartografia de linhas das mãos e vir a ocupar espaço entrelinhas. Das que se recusam a ser usadas. Aquilo que de nós pesa em tudo o que está, com aquilo que não está, nem mesmo visível, ou perceptível. Ou tudo o que se elabora no nada, imaculado e por dizer, da página. Como uma camada mais sobre as camadas de impossibilidade e pesar. No cadinho de invisíveis, que já parecem pesar tanto. Quanto pesará em gramas ou kilobytes a sombra de uma folha de árvore? E, na verdade, quanto pesa uma palavra não dita. Ou não pensada. Qual a diferença de peso-massa entre ambas?

Na sombra das árvores, um mapa. Desenhado pela íntima colaboração de todas as palavras ditas, em cada folha de cada uma. A mestria da luz a orquestrar a complexa sinfonia, de desenhos tremeluzentes, com a orgânica mudança de contornos que a aragem agita. E que a luz não pára de reescrever. Amena estabilidade – ilusória – do caminho. Essa pantalha luminosa em que os pés progridem sem ferir. Não se fere a luz e não se magoam as sombras por debaixo dos pés. Não nos magoam acima.

Quando M. Foucault, no encadeado das suas “similitudes” referia essa tentação enorme de o mundo se dobrar sobre si próprio, duplicando-se ou reflectindo-se, “a terra repetindo o céu”, poderia estar a caminhar sobre estas sombras e a levantar os olhos para o que as representou no traçado do caminho.

A afastar os olhos encandeados do fogo vectorial da luz, para os projectar no fogo implícito interior à terra. E pelo meio estas camadas de sombras entre as quais um registo de superfície acontece, mas entre camadas de irrealidade.

As palavras e os seus silêncios que não são mais que os intervalos de paisagem. Não são mais e contudo são, neles, tudo. O não dito que se insinua, às vezes discreto, suave e claro. A luz branca dos silêncios. Que têm palavras pelo meio. A habitar. Melódicas, suficientes e inacabadas.

Assim, ainda lembrando as similitudes que nos permitem rever no mais ínfimo da escala do visível ou do perceptível um reflexo do que é enorme, reflito neste espaço impreciso e intocável, que se dimensiona entre as camadas de sombras que se sobrepõem nesta teia leve em cinzentos abaixo de mim e acima de mim e como isso me torna intangível camada, também, entre outras. A meio caminho entre uma visão macro, ou uma visão micro.

Na insignificância que em qualquer delas me define, sobra o descanso de tudo ser relativo e elástico como o olhar psíquico que sobre tudo se pode estender ou puxar para nós. E, com disse F. “Por imensa que seja a distância do microcosmo ao macrocosmo, ela não é infinita.“. Encerra os limites impossíveis num olhar de devaneio.

Caminho então no meio de sombras. A camada do meio. É bonito. O recorte. Essa impressão, como uma existência. Entre as que me assentam e as que assento. Entre o céu, longínquo e etéreo e a mais funda pulsação da terra, este, o caminho do meio, de dentro. O do meio das árvores, que não vão a lado nenhum mas nós nele.

E nele, como dançam, estáticas, sóbrias e sólidas.
Do indizível se faz uma cartografia de questões e esperas. As árvores exclamações, mas as sombras, entrelinhas. Camadas entre silêncios. E silêncios entre paisagens. Como intervalos de respiração em que cabe o universo.

10 Dez 2019