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Todos os dias a produzir passado. Actividade que nos indiferencia todos, e a todos remete para a mesma reflexão, se formos dados a ela. Uma espécie de economia existencial em forma de dilema. Deixar correr, morrer, ou cultivar. Deixar acumular, desarrumar, ocupar exponencialmente espaço de vida a viver, ou emparedar, guardar em caixas. Arrumadas com atenção e rigor. Datas, locais, pessoas. Passamos os dias a produzir passado, nessa lucidez infeliz que contamina o momento. Pensar é um acto barroco. Mesmo praticado à exaustão na sua forma mais quieta, repetitiva e atemporal. Poderia passar uma vida nisso. Uma delas. Ou, quando à beira do afogamento nas palavras, devolver o mais possível em dissolução e inexistência o imenso dano que fazem. Fragmentar, dividir, atenuar. A infelicidade é inimiga do tédio. E lucidez, por vezes, é assumir a decadência e fazer dela uma obra em grande. Ou o desespero. Matérias- primas preciosas.
E ser-se o mesmo e ser outro. Em cada dia. A eterna roda da vida. Imparável. Uma inércia a que há quem chame destino, karma, sorte, inevitabilidade, ou construção subliminar. A levar-nos na sua engrenagem, sem que possamos reverter-lhe o mecanismo. Alterá-la em velocidade ou em sentido. Feita de sínteses intuitivas, balanços subterrâneos. Porque mecanismo com fôlego para nos levar de arrastão como um fardo pesado que apenas nós sentimos. Expostos à abrasão dos elementos rudes, ou pelo contrário, a incrustação de outros. Com brilho e colorido, ou a sóbria e estranha simplicidade dos grãos de terra, ou areia, ou sal. E de dia para dia, o olhar sobre o mundo em mutação. O olhar e o mundo. Porque do ponto de vista a que estamos amarrados, se prefiguraram, diferentes como cenários, ângulos de visão que se referem ao lugar para o qual a roda, rolando nos arrastou. As possibilidades são tantas, de abordagem ao mundo. Em que é necessária uma chave. E é difícil acertar na escolha, de entre as muitas que se acumulam no molho que carregamos na vida. Do qual muitas se perdem e outras são experimentadas no desconhecimento, e por tentativa e erro. Sem sucesso na maioria das vezes. Tão difícil encontrar o caminho para o destino impreciso que vislumbramos precário mas que seria uma mais valia abordar nem que fosse como estação de passagem. Mesmo que só para refazer forças e beber um copo de água. Vital, frugal e sem grandes custos. É assim a vida, feita de ínfimas necessidades. Mas que mesmo como tal, muitas vezes estão fora do alcance. Caminhar contra a corrente.
E quando a distância se impõe em todo o seu esplendor, se não há caminhos, não há percursos. Se falarmos da memória. De novo a opção de perder ou colecionar. Recordações. Ou a inevitabilidade de uma coisa e outra sem critério. Ou ainda e só a perda. Da memória. “A memória é a consciência inserida no tempo”, diz Pessoa, mas que tempo? O de âncora a barrar a corrente imparável, o de poço iniciático ou o de linha de pesca lançada na corrida do rio para o mar? Construir memória é complicar a questão da saudade. Às vezes, anseio por uma vida com a possibilidade de log in. Com a possibilidade de log out. Intermitentemente. Porque a violência está no limiar da emoção.
Sempre na minha vida, dia após dia, há uma mão que arruma e uma mão que desarruma. Que insiste em produzir passado a uma velocidade maior do que o tempo permita arrumar. Passado em escrita. Passado em imagens do momento que se torna passado. Pertinências ou impertinências para sempre. Digitais e voláteis como o espaço cibernético onde moram. Ou em papel. Ou tecido. Ou barro. Pedra. Make up. Sei lá. Um computar deveria ser mais facilmente um ordinateur, como na língua francesa. E facilita essa possibilidade. Mas também a de produzir demais. Desarrumação demais. Divergência. Que seria moroso colocar em ordem mas fica sempre para um dia. Sempre ontem ou amanhã. Ontem na emergência. Amanhã, na frustração. Ou o contrário. Que coisa é esta do tempo. Que não pára para receber passageiros. Que temos que apanhar em andamento, com movimentos sincronizados, afinados e precisos, como um automóvel. Ou um cavalo em corrida.
Mas passar os dias a construir futuro é uma actividade visionária, ou, pelo contrário de grande segurança e lucidez. Passar os dias a construir presente é o que requer uma dose maior de clarividência porque a ilusão de infalibilidade que deveria subjazer a cada palavra, acto, ou condição, é demolidora na maioria das vezes.
Mas os tempos são o presente efectivo de uns nos outros, como um vórtice perpétuo. Sem deixar poeiras de fora que não as irrelevâncias parasitas que se vão imiscuindo nos tempos sem filtros capazes de as limpar. Essas sim, exclusivas do universo sem tempo e sem qualidade. A depurar em cada momento fictício de paragem. A deixar em cada estação. No espaço próprio às inutilidades da memória não reciclável. Coisas que não servem para nada não tendo sequer a qualidade da simplicidade, da elementaridade ou, muito menos, da síntese. Ruídos ou poeiras que emperram a engrenagem de súbito. Com risco. Reconhecê-las não é trabalho fácil. São de uma enorme ambiguidade por vezes, parecendo oferecer contextos e explicações para a vida material. Haveria uma capa espessa e impenetrável possível. Mas o risco de ser impermeável é enorme naquilo que se perde. De valor, e sem valor. Eu quero sentir e sinto tantas vezes que o tempo é hoje. Não em depósito de economias para o futuro, mas como o único possível de anteceder tudo o resto. Há uma arquitectura, projecto e concretização no tempo próprio. E há o acampamento de qualidade. Acampamos no dia de hoje. Provisoriamente e com os recursos de que necessitamos para o imediato de uns dias. Ou simplesmente de hoje. O presente é o único tempo.
Aquela expressão peculiar, sete partidas. Antiga de séculos. Partes, regiões. Mundo do mundo do viajar, no desconhecido que foi e se foi desvendando e desenhando em mapas, de início visionários. E o número que não sendo o maior dos algarismos solitários, é de tantas formas, imagem e símbolo do muito. A violência das sete pedras na mão. O desconforto das pedras no sapato. A incredulidade das partidas da memória.
Sete partidas da memória. Ou muitas mais, as possíveis. Partidas do mundo. Interior. A partida da memória, e da de ser em si. O sentido de ser. O lugar que se esqueceu. O retorno inesperado. A do retorno indesejado. A do que se julgou morto. A do que volta do lugar errado, porque transitou em viagem autónoma. Do que volta sem ter partido. Sei lá que outras partidas. Ou chegadas.
Porque se desejaria de cada vez invocar uma emoção em forma de memória, mas, talvez como o facto ou a possibilidade de a alma não existir para além do fio ténue que a liga ao matérico carácter do corpo em que se transporta, o suporte de linguagem, mesmo visual, mesmo táctil, de que se faz a memória que se quereria presa aos objectos, às imagens. Querer exercer através do olhar a magia da reinvenção da memória como suporte de existência havida, é falível. Memória ou natureza morta pelo tempo.
Dizer que uma natureza morta é algo de doentio. Esquecer a intensidade de uma qualquer evocação, até porque na inércia dos dias, a habituação do olhar a torna quase invisível, ou quando o olhar foca com atenção sobrevém a estranheza do sentido e mesmo a distanciação do testemunho de meses passados ou anos ou décadas. Mesmo as cartas, os retratos antigos são naturezas mortas. Carregamos na memória afectiva uma mala cheia dessas naturezas mortas. E a alma não é território de conquista. Essa, não se arruma no sótão.
Toda a gente deveria ter um sótão. Umas águas furtadas – saboroso nome – roubadas ao espaço do real ou da casa, talvez, para manter circunscritos os vestígios sólidos da memória de vida e de vidas passadas. Pedaços de infelicidade soltos. Pequenos fragmentos felizes mas quebrados e desmaiados de cor. Fantasias. De carnaval e outras. Incongruências sólidas. Para reciclar, uma caixa. Para esquecer, uma outra. A de saber e não saber, uma única de difícil arrumação. A confusão instalada até um dia de maior paciência, de tempo, ou dominado por um ímpeto impulsivo, em que se deita tudo fora. Ou não.
Um sótão para desarrumar progressivamente sem que isso se estenda à casa. Definitivamente, mesmo. Se necessário. Nada mais intrigante do que o tempo dedicado à arrumação do passado. Objectos, memórias, recordações. De cada um e de outros. As cartas. Os diários. Provas de viagens. Notas em desuso de países distantes. Projectos e sonhos no papel. Aqueles desenhos eróticos sem destino recuperável. Fotografias de amigos mortos de parentes mortos. E tantas recordações mudas, excepto para nós. E mesmo aquelas que não o sendo antes, com o tempo se esvaziam e tornam, também aí, mudas, seráficas e insondáveis, mesmo para nós. Para sempre. Mesmo quando perscrutamos a memória, revolvendo detalhes, à procura de uma emoção, de um momento, de um nome. Mas que nome? Às vezes é assim. O nome já lá não está. Durante anos escrevia diários com aquela enorme preponderância do amor. De amores hoje insondáveis. Sem lhes referir o nome, na convicção de que sempre seriam óbvios. E não foram. Nem sempre. O que sobra são sentimentos que se repetem porque eu serei a mesma mesmo que eles o não forem já. E, indiscriminados tornam-se um nada que se reduz ao que senti. Muitas vezes sem mais. Outras vezes, não. Diários difíceis de reler. Cartas impossíveis de reler. Fotografias dolorosas de revisitar. Porque se guardam numa enorme necessidade de garantir a demonstração de que houve existência prévia. Mas no reino da nostalgia. E esse é o reino encantado que devia viver no sótão de cada um. Trancado a sete chaves. E visitá-lo, um dos sete pecados mortais.
E ali, no sótão da alma há também vestígios das sete partidas. Que a vida pregou, que o momento presente pregou ao futuro, torcendo e distorcendo. Sete mares de tormentas a descobrir ou a esquecer. Aquelas coisas tristes que nos perseguem inutilmente porque as sobrevivemos, porque as tornámos irrelevantes – tornámos? – mas encastradas num ponto qualquer da pele. Invisíveis aos olhos, numa actividade secreta, e que só a doença apaga. Quando o lugar morre. Ou se recolhe intransitável. O lugar da memória. E contudo, este é desarrumado por natureza e mistura ligações com dados puros. Parece. Cria acessos alternativos. Cópias. Coisas assim.
A plasticidade cerebral. Essa extraordinária capacidade de adaptação criativa e autónoma relativamente à razão, à vontade ou à expectativa. Habilidade para mudar se necessário a sua organização estrutural em adaptação a condições mutantes. A cada nova experiência e sobretudo a da morte de áreas, caixas de arrumação específicas, novas redes de neurónios, as ligações sinápticas a rearranjar-se ou reforçar-se de forma imprevista para dar resposta à novidade ou ausência. A recuperar funções perdidas ou a redefinir ligações. Partidas estranhas da memória. No fundo, estratégias motoras. Como usar as mãos para organizar caixas de memórias e vivências no sótão. Mas aí, pela magia da vontade. Na casa imaterial, não há domínio. O que fez bem ou mal no mesmo compartimento. A importância das coisas a reter ou a esquecer, sem possibilidade de escolha. O que volta ou o que fica para sempre como morto. O que morre de facto ou o que parece mas não é. E volta inteiro dos confins do sótão da memória ou da construção da vontade. Não há espaço na casa para tudo. Não há tempo nos dias para tudo polir. Por isso um sótão era o direito que todos teríamos a uma cafua caótica. A uma porta, um alçapão que se fecha até um dia. Se chegar. Quando se diz que se faz o luto de um morto querido, há o esquecimento progressivo. E quando a memória volta, num dia qualquer, tudo inteiro se apresenta. Quando se esquece um grande amor, esquece-se um grande amor. Até ao momento de distinguir se morreu ou não. E uma coisa não é a outra. Nem sempre.
Mas nem todos os dias, são dias de subir ao sótão. Uma cerimónia que se deveria querer rara, com todo o ritual e nostalgia. E raro o tempo de mergulhar na melancolia de um olhar em tudo é sempre perda ou sempre a taça cheia. A memória da própria memória persegue, contudo. Toda a gente sabe que tem um sótão, no fundo. E falta de tempo. Para trocar o estar aqui. E assim. Hoje. O único tempo. Mas entrançado nos outros, e voltar ao início. E lembrar que cada momento é tempo de produzir passado. E este desarrumar continuo.
No entanto, porque é noite, agora vou. Pousar a cabeça na pequenina almofada da avó. Que veio até mim já depois dela. Estranha recordação que mais ninguém a quis. E por pouco o desencontro também comigo. Ou então foi um daqueles actos de magia branca inadvertida. Não sei. E que tem um anjo bordado. Basta tão pouco das recordações para poisar a cabeça. E só um cantinho. Ao lado do anjo. Um pouco silenciosa. Magoada do meu próprio silêncio. E da memória. Por tê-los ocupado mal. Por vezes.

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