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Filho do Rei D. João I e da inglesa Dona Filipa de Lencastre, o Infante D. Henrique nasceu no Porto a 4 de Março de 1394, Quarta-Feira de Cinzas e logo no Domingo seguinte foi baptizado na catedral do Porto, tendo como padrinho D. João Homem, Bispo de Viseu. Segundo Artur Teodoro de Matos, “A sua ama-de-leite foi Mécia de Lemos, casada com um cavaleiro da Ordem de Cristo, Vasco Gonçalves. Aliás, um bom começo para uma profunda ligação à Ordem de que viria a ser governador e que tinha então por mestre D. Diogo de Sousa, companheiro de armas de D. João I.” Conjuntamente com os seus irmãos, filhos do casamento entre D. João I e Filipa de Lencastre, foram cantados por Camões como a Ínclita Geração. Marcante descendência, atenta ao que se passava pelo mundo e com novos horizontes, deu início ao Renascimento português e à expansão marítima.
Ao Infante D. Henrique (1394-1460) está atribuído o início dos Descobrimentos Portugueses e apesar de as suas façanhas marítimas se limitarem, como refere Rui Manuel Loureiro, “a algumas, poucas, viagens à costa marroquina, no decorrer de expedições militares lançadas pela jovem dinastia de Aviz contra o Norte de África”, o Infante D. Henrique ficou depois para a História conhecido pelo cognome O Navegador, pois deu um novo impulso às viagens pelo Atlântico, levando os seus homens a dobrar o Cabo Bojador, fazendo com isso terminar o antiquíssimo mito de ali ser onde o mundo terminava. E voltando a Rui Loureiro, “de facto, desempenhou um papel de primeiro plano na primeira fase da expansão portuguesa para além-mar.” Através dele abriu-se um novo rumo que levou a Europa ao Renascimento, apesar de, segundo o professor Veiga Simões, “enquanto o Infante D. Henrique representava o espírito medieval em consonância com os interesses da nobreza, o seu irmão D. Pedro era o representante do ‘regalismo nacional’ apostado na existência de um estado forte e centralizado.”
“D. Henrique, após ter tentado em vão fazer de medianeiro ou mesmo fiel de balança, como fizera bastas vezes no passado, acabou por se inclinar decididamente para o campo do sobrinho (D. Afonso V), deixando o irmão (D. Pedro) entregue à triste sorte que escolhera ou não soubera evitar. Não é inverosímil que, ao encomendar a seu cronista (Gomes Eanes de Zurara) a tarefa de ajuntar em crónica os feitos do seu tio (em 1452 encontrava-se ainda vivo D. Henrique), D. Afonso V tenha tido exactamente em mira recompensá-lo pelo exemplo de fidelidade, sem falar já no apoio militar que lhe dispensara na transe de Alfarrobeira. Assim se teria iniciado a utilização pelo poder político da figura histórica de D. Henrique como exemplar”, palavras de Luís Filipe Thomaz.
Segundo Maria Isabel João: “O Infante D. Henrique é um dos vultos do panteão da história nacional mais mitificado e celebrado ao longo dos tempos, mas não deixa de ser também dos mais controversos. A chamada lenda infantista e a utilização da sua figura pelo poder político começa logo quando D. Afonso V ordena a Gomes Eanes de Zurara (1410/20-1473/74) que escreva a crónica dos seus feitos e virtudes, certamente como prova de gratidão pela fidelidade e o apoio militar que lhe tinha prestado no transe de Alfarrobeira. A Crónica de Guiné, iniciada possivelmente poucos anos após a batalha que custaria a vida ao regente D. Pedro, onde se insere um grandiloquente panegírico do Infante D. Henrique, o príncipe pouco menos que divinal nas palavras do cronista…” contrasta com o que “o cronista oficial de D. João II, Rui Pina (1440?-1522), transmite(;) uma visão bem menos lisonjeira da actuação de D. Henrique, em particular na expedição de Tânger, que redundou num fracasso de penosas consequências para o país, e do desenlace fatal de Alfarrobeira. Zurara e Rui Pina são cronistas coevos do Infante D. Henrique…” Já Vitorino Magalhães Godinho desenlaça: “Afigura-se-nos que a autêntica grandeza do Infante dispensa bem que se insista em mantê-lo envolto nos ouropéis de uma mitologia. É apoucá-lo, afinal, recear vê-lo na realidade da sua vida entre seu pai e irmãos, entre ministros, os cavaleiros, os mercadores, os marujos, preso nas contradições de seu tempo mas velejando para novos tempos. E persistimos em crer que a mais grata e duradoura homenagem será a nossa contribuição de hoje rumo ao porvir, se soubermos ser de novo pioneiros da aventura humana como ele o foi nessa era também de ocaso e alvorada.”

A figura de D. Henrique

Quando o Infante D. Henrique nasceu, faz hoje 622 anos, “À crise geral que assolava o Ocidente (na Europa vivia-se a Guerra dos Cem Anos) juntavam-se as debilidades próprias do reino, parco em recursos naturais e agrícolas, devastado por sucessivas guerras com Castela desde o governo fernandino, com tudo o que isso implicava de empenho militar directo, mas também de esforço financeiro, de destruição de culturas, de perda de vidas. Quando a paz com o reino vizinho foi definitivamente estabelecida, em 1411, abriu-se a possibilidade de novos rumos para Portugal.” E continuando com Bernardo Vasconcelos e Sousa: “Confinado ao extremo ocidental da Península, como que acantonado nessa finisterra onde não havia mais território para conquistar, o reino vivia no seu impasse hispânico. A relação contraditória de atracção e de rivalidade face a Castela não iria por certo, sofrer modificações num futuro próximo. A haver alguma alteração no relativo equilíbrio então estabelecido, ela só poderia ser favorável ao lado castelhano.” Joaquim Veríssimo Serrão adita: “A afirmação política da dinastia de Avis, junta o ideal da Cruzada, foi determinante no objectivo da empresa. Mas outras causas, sociais, económicas e marítimas, têm sido apontadas na génese da Expansão: a posse de Ceuta como zona cerealífera, para ocorrer aos défices frumentários da Metrópole; a conquista de uma base naval para impedir os ataques da pirataria mourisca ao Algarve; a aproximação, por meio de Ceuta, Argel e Tunes, das fontes auríferas do Sudão; e a necessidade de obter um campo de luta em Marrocos, para ocupar a nobreza ociosa desde a paz com Castela.”
Segundo Artur Teodoro de Matos: “São escassas as informações sobre a juventude de D. Henrique. Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, traça um quadro da harmonia familiar na corte, onde os filhos foram educados dentro dos princípios do respeito aos pais, do temor a Deus, evitando , mas também o e onde eram exemplos de virtude o rei e a .”
Já sobre a educação refere Vitorino Nemésio, “A par com o estilo litúrgico inglês (observância na Corte do rito Salisbury), outras modas trazidas por D. Filipa influiriam no ambiente cortesão.” E continuando: “Como seus irmãos, o Infante D. Henrique se iria criando à moda castiça, então já muito influída pelos usos de fora parte, sobretudo em matéria de práticas cavaleirescas, num país cuja nobreza não conhecera o grande estilo feudal”.
“A concórdia entre os irmãos é não só referida por Fernão Lopes na Crónica de D. João I, mas dela dá testemunho o rei D. Duarte no seu Leal Conselheiro: , acrescentando ainda que “, segundo Artur Teodoro de Matos. E com ele seguindo: “o seu biógrafo, Gomes Eanes de Zurara na Crónica dos Feitos da Guiné dele fez um esboço de retrato físico: com e , tendo a ; da mãe herdara certamente a tez branca e corada, mas que o . Mais pormenorizado é o retrato psicológico onde o cronista é pródigo na exaltação das virtudes do seu : , que nunca acolheu , passando toda a sua vida em recebendo-o a terra .
Da sua casa, e segundo o biógrafo, fez lugar de acolhimento dos e sobretudo dos . É que às qualidades de inteligência e acresciam as de e de prudência, , além de enorme tolerância, pois que nunca lhe haviam . Zurara apresenta-o assim como protótipo da sabedoria e da virtude e, para que não restassem dúvidas sobre algum prazer do seu herói, mesmo que da mesa, adverte que apenas bebeu vinho, dele depois privado .
Este perfil de homem de excepção ou de autêntico herói e de primeiro e principal autor dos descobrimentos seria estimulado na era de quinhentos, sobretudo por D. Manuel (seu neto adoptivo) e materializado no Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira e, mais tarde, por João de Barros nas Décadas da Ásia”, este longo retrato é-nos dado por Artur Teodoro de Matos.

Conquista do divino

Nas palavras de Luís Filipe Thomaz: “Não admira, portanto, que um dos homens lígios de D. Manuel e teórico da sua ideia imperial, Duarte Pacheco Pereira, atribua no seu Esmeraldo de Situ Orbis a iniciativa dos descobrimentos henriquinos não já a considerandos de ordem ideológica, económica e política, como meio século atrás fazia Azurara, mas pura e simplesmente, a inspiração divina.”
O primeiro rei da segunda dinastia, D. João I, numa afirmação de prestígio dinástico da sua casa real, a de Avis, em 1410 pretendeu, numa grande festa, armar cavaleiros três dos seus filhos, D. Duarte com 19 anos, o Infante D. Pedro de 18 e D. Henrique com 16 anos, onde a realeza da Europa vinha participar nos torneios medievais. Mas estes recusaram pois, como Joaquim Veríssimo Serrão refere: “não queriam aceitar o grau da cavalaria numa cerimónia festiva, mas em luta contra os Mouros em África.” E assim se fez.
Com a conquista de Ceuta em 1415, o Infante D. Henrique, já armado cavaleiro, dava início à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos no Norte de África, em território marroquino, ficando “desde 1416 encarregue da defesa e provimentos de Ceuta, o que implicava o controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito. Sabe-se que tanto ele como D. Pedro tinham ao seu serviço navios corsários, visto D. Duarte ao subir ao trono (1433) os isentou do pagamento do quinto das presas devido à Coroa (numa adaptação do princípio do direito muçulmano que reserva ao califa o quinto de todo o saque).” E continuando com Luís Filipe Thomaz: “De 1415 a 1422 D. Henrique interessa-se já pelo mar” … “a armada tem por base Ceuta e actua (provavelmente com galés) na zona nevrálgica do Estreito, fazendo guerra do corso à navegação muçulmana e provavelmente periódicos ataques às costas de Granada e da Barbaria.”
“A situação de Ceuta, isolada no território do Magrebe, impunha a conquista de novas praças para a realização daquele projecto” Veríssimo Serrão. Em 1418 ocorre o grande cerco a Ceuta, “que obriga o infante a ir em seu socorro e lhe dá, provavelmente, a noção da dificuldade do ataque frontal a Marrocos” como refere Luís Filipe Thomaz.
Abria-se a necessidade de procurar o além e dar um novo impulso na arte de navegar. O Infante D. Henrique tomou essa tarefa a peito e procurou que os seus barcos navegassem por águas desconhecidas. Gonçalves Zarco em 1418 chegou a Porto Santo e Tristão Vaz, no ano seguinte à Ilha da Madeira. Os Açores foram hipoteticamente descobertos em 1427 por Diogo de Silves, pois segundo consta já por lá tinham passado outros navegadores. Com a colonização destas duas ilhas introduziram-se-lhes cereais, açúcar e plantas tintureiras. Segundo João Silva de Sousa: Em 1420, quando se dava início ao povoamento da Ilha da Madeira, “D. Henrique foi nomeado, por Martinho V, através da bula In apostolice dignitatis specula, Administrador-Geral da Milícia de Jesus Cristo nos Reinos de Portugal e Algarve, ou seu Grão-Mestre.”
D. Henrique também incentivou os marinheiros a seguir pela costa africana para Sul, mas essas empresas “falham devido a certos medos e lendas, mas também por razão económica: à aventura na costa ao sul do Bojador que sabem deserta, os homens preferem a actividade tradicional do corso e teimam em ir fazer presas na costa do reino de Granada”, Luís Filipe Thomaz.
Em 1429 ocorreu um novo ataque dos marroquinos a Ceuta e perante a sua frequência, a coroa portuguesa debate em 1433 sobre a “viabilidade de prosseguir a política expansionista em Marrocos” Veríssimo Serrão.
O Rei D. João I faleceu em 1433, ano em que na Índia o Almirante chinês Zheng He morreu no seu barco, o baochuan, em frente a Calecute. Em 1434, Gil Eanes dobrava o Cabo Bojador e dois anos depois dava-se o aparecimento da caravela, um barquinho comparado com o baochuan, de cento e vinte metros de comprimento e cinquenta de largura.

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