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No artigo escrito em 4 de Março para comemorar os 622 anos do nascimento do Infante D. Henrique, deixámos o relato da sua vida quando em 1418, “logo após o regresso da expedição de socorro a Ceuta dois escudeiros de D. Henrique – João Gonçalves Zarco, (sobrinho do vedor da fazenda, João Afonso) e Tristão Vaz Teixeira – pediram autorização para praticar o corso. Os ventos conduziram-nos à ilha de Porto Santo, onde decidiram fixar-se, porventura decepcionados com uma guerra que não trazia honra nem proveito”, segundo Luís Filipe Thomaz. Desde 1416 D. Henrique estava encarregue da defesa e provimento de Ceuta, conquistada no ano anterior, mas tal praça mostrava-se um sorvedouro de gente e dinheiro. As necessidades financeiras, que precisava, obteve-as sobretudo pelo controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito, onde, tal como o seu irmão D. Pedro, tinha ao serviço barcos corsários.
Segundo Artur Teodoro de Matos, “o Infante D. Henrique vai construindo economicamente a sua casa com direitos, monopólios, , isenções, honras e privilégios. Depois de lhe ser concedida a alcaidaria-mor da cidade de Viseu, em 1416, recebe, em 1420, a administração da ordem de Cristo cedida pelo papa a rogo do rei, o que lhe permitirá investir os proventos desta na guerra contra os sarracenos e na , objectivos tão caros ao Infante e que se coadunavam com os seus interesses económicos. Depois, é autorizado a realizar feira franca anual em Tomar (1420). Recebe o monopólio da estacada no Ródão para reter o peixe (1421); do relego de Viseu (1421); o direito de conceder terras suas e da Ordem de Cristo em regime de sesmaria (1422); de doação de casas para saboaria em Santarém (1424); facilidades para a sua indústria de sabão em Lisboa (1428), etc.” Desta forma e pelo corso, D. Henrique tinha os fundos que precisava para enviar os seus barcos para o Atlântico Sul, onde cria poder encontrar apoio do tão afamado reino cristão do Preste João, assim como perceber a extensão do território muçulmano.
Em 1422 “começou a mandar navios da sua frota corsária para o Sul, dando-lhes ordens para que tentassem dobrar o cabo Bojador” segundo Luís Filipe Thomaz, no entanto, “os planos henriquinos de exploração da costa ocidental africana não parecem constituir, na origem, um projecto expansionista distinto da conquista de Marrocos; muito pelo contrário, integram-se, com toda a verosimilhança, na mesma estratégia, visando simplesmente envolver o reino de Fez pelo Sul.” E prosseguindo, “Durante doze anos todas as tentativas fracassaram, sendo apenas em 1434 que Gil Eanes, finalmente, penetrou nas águas desconhecidas do Atlântico Sul. Tal sucessão de malogros explica-se por dois factores; por um lado, o temor dos baixios fronteiros ao cabo, o medo do desconhecido, porventura também a influência das velhas lendas sobre o que se estenderia para lá do Bojador; por outro lado, o atractivo económico do corso, que levava as tripulações a preferirem as costas de Marrocos e de Granada, onde podiam capturar presas, ao litoral arenoso e despovoado do Sara.”

O desastre de Tânger

Enquanto o príncipe D. Duarte se preparava para ser Rei, os seus irmãos na segunda metade dos anos vinte do século XV viajavam pela Europa. O Infante D. Pedro, entre 1425 a 1428 e no ano seguinte, foi a vez do Infante D. Fernando, o irmão mais novo, acompanhar a irmã, Isabel, à Flandres, onde se casou com Filipe, o Bom, tendo este aliciado o Infante D. Henrique para aí ir viver. Tal ocorreu após a malograda expedição de 1424/25, “sob o comando de D. Fernando de Castro para se apoderar da Grã Canária”, organizada pelo Infante D. Henrique, sem querer saber de Castela que, “desde 1403, tinha sob a sua suserania as ilhas de Lançarote, Forteventura e Ferro” e em 1421 “o Rei de Castela D. João II concedeu o que faltava conquistar das Canárias ao andaluz Alfonso de las Casas, tendo o Papa confirmado tal concessão”, como refere Luís Filipe Thomaz. A salientar ter já o Rei D. Afonso IV, da primeira dinastia portuguesa, enviado uma esquadra que encontrou as Ilhas Canárias em 1336. E continuando, “A intervenção do Rei (D. João I) no processo tinha visado desviar das Canárias D. Henrique e seus apaniguados, para evitar as tensões com Castela” e consciente de ter os filhos a ajudá-lo, D. João I começou a ponderar encontrar maneira de cativá-los.
O estabelecimento português nos Açores, ilhas encontradas em 1427 por Diogo de Silves, foi segundo Filipe Thomaz, “provavelmente uma consequência do povoamento da Madeira e do desenvolvimento da navegação entre a ilha e o continente”.
Em 1429 ocorreu um novo ataque dos marroquinos a Ceuta e perante a sua frequência, a coroa portuguesa debate em 1433 sobre a “viabilidade de prosseguir a política expansionista em Marrocos”, Veríssimo Serrão. E seguindo, “A situação de Ceuta, isolada no território do Magrebe, impunha a conquista de novas praças para a realização daquele projecto”.
D. João I preparava uma empresa a Marrocos, que pensava comandar pessoalmente, quando em 1433 finou. D. Duarte sucedeu a seu pai, reinando de 1433 a 1438. “Na corte de D. Duarte fizeram-se, entretanto sentir as correntes favoráveis à conquista de Tânger”, segundo Veríssimo Serrão, “porto cobiçado pela sua posição estratégica face ao estreito de Gibraltar.”
Em 1437, “graves carências no comando da expedição e uma táctica militar votada ao insucesso levaram o cerco do exército português que, a 12 de Outubro daquele ano, teve de se render na totalidade à pressão dos defensores de Tânger”, segundo Veríssimo Serrão e continuando, a 13 começaram as negociações, “a 17 assinou-se a paz”. “Por este tratado, D. Henrique obrigava-se a devolver Ceuta a Salah ben Salah, que a perdera em 1415 e que em 1437 governava Tânger. Como refém, os Muçulmanos retinham o infante D. Fernando. Os Portugueses embarcariam, sem armas e vitualhas, ficando como refém desse embarque um filho de Salah ben Salah e como refém deste quatro cavaleiros fidalgos portugueses.” O Infante D. Fernando, como mártir, aí ficou prisioneiro e só seria libertado em troca de Ceuta. Assim em Fez o deixaram sacrificado como Infante Santo, apodrecendo até a morte o levar em 1443, pois as Cortes não quiseram permitir que essa praça fosse restituída.
Com a morte do Rei D. Duarte em 1439 e porque D. Afonso, o futuro Rei Afonso V, tinha apenas seis anos e o povo não aceitava D. Leonor para regente por esta estar nas mãos da nobreza, D. Pedro, irmão do falecido rei (D. Duarte), governou o país até 1449. Este, em 1443 concedeu ao Infante D. Henrique o monopólio da navegação, guerra e comércio nas terras além Bojador. “Com os dez anos de regência de D. Pedro II, regressava o entusiasmo pela navegação e atingiu-se o Cabo Branco e o Golfo de Arguim, região rica em ouro e escravos traficados pelos habitantes que iam ao interior fornecer-se de pessoas da sua raça e os capturavam, para depois trocar por panos, prata, tapetes e trigo com os portugueses, que aí tinham uma feitoria. Assim, ao explorar vastas zonas do Atlântico Central, um novo espaço geoeconómico se abre, levando a uma expansão da economia e em que o elemento monetário é cada vez mais importante”, Celina Veiga de Oliveira.
Vitorino Magalhães Godinho sobre o carácter do Infante diz: “A atestar que não possuía excepcionais qualidades de organização prática, aí estão o desastre de Tânger, cuja responsabilidade lhe cabe inteira, e as dívidas que legou (e que não podem ter resultado das despesas com os descobrimentos, mas sim dos gastos da sua casa senhorial). Todavia, pensava também no acrescentamento material da ordem de Cristo, e o seu panegirista indica que esta adquiriu novas casas e herdades e pôde construir capelas. Nunca descurou o engrandecimento da sua casa e património, teve uma empresa de corso e vigiou atentamente para não ser defraudado do seu quinto de escravos. Sacrificou o seu irmão mais novo ao seu imperialismo marroquino, sacrificou o irmão mais velho em Alfarrobeira porque divergiam politicamente.”
Já Luís de Albuquerque refere sobre a cultura do Infante: “D. Henrique personifica o tipo de homem de acção e não de reflexão erudita; no seu espólio há livros (mas pouquíssimos livros!) de cultura geral (assim escreveu Cortesão) e livros de devoção; estes sim, devia o infante estimá-los, como católico fiel que era, à maneira do seu tempo. Quanto ao resto, é quase certo que passou muito bem sem roteiros, cartas, planisférios e outras coisas que, a partir de determinado momento, terão interessado vivamente navegadores e pilotos.”

Sagres, a vila do Infante

D. Henrique fez de Lagos a sua cidade e mais tarde, Sagres o seu refúgio, talvez para expiar os remorsos sentidos por ter convencido o seu irmão D. Fernando a tomar o seu lugar como refém, após a malograda expedição de 1437 a Tânger, enquanto ele vinha a Portugal tratar da entrega de Ceuta ao rei de Marrocos. Mal foi libertado de Tânger, D. Henrique logo fez saber que tal entrega estava fora de questão e assim D. Fernando ficou cativo em Marrocos, onde veio a morrer em Fez após anos de tortuosa prisão.
Sagres situada no extremo Sudoeste da Europa era um promontório Sacro desde tempos muito antigos, sendo uma zona sagrada e interdita ao comum dos mortais e onde S. Vicente estivera sepultado desde 760, até D. Afonso Henriques mandar transladar os ossos, ficando então a chamar-se Cabo de S. Vicente. Era na enseada onde as embarcações que navegavam entre o Mediterrâneo e o Atlântico Norte tinham por vezes de aguardar a chegada de ventos propícios. O promontório Sacro era uma zona árida e despovoada quando em 1443 o regente D. Pedro doou a região de Sagres ao seu irmão D. Henrique. Este aí mandou erguer a sua vila, usando para isso o trabalho de prisioneiros degradados. A construção foi realizada muito lentamente e assim o núcleo populacional ali feito, apenas em 1457 serviu como regular residência a D. Henrique. Já a existência aí de uma Escola de Navegação, conhecida por Escola de Sagres, é um mito.
“Aos nove anos depois de Tânger, cinco passados sobre a queda de Bizâncio, D. Henrique levava o sobrinho (D. Afonso V) a Alcácer-Ceguer”, (segundo Oliveira Martins) e “no Outono de 1485, a 3 de Outubro, de manhãzinha, surgiu em frente a Sagres a armada em que o rei saíra de Lisboa três dias antes; e D. Henrique, hirto sobre sessenta e cinco anos de um pensamento fixo, embarcou, tomando a direcção da empresa, e conquistando Alcácer”.
“Em 1460, à data da morte de D. Henrique, a navegação portuguesa percorria já, de uma forma rotineira, os caminhos marítimos da Madeira e dos Açores, de Arguim e da Guiné, do Cabo Verde e da Serra Leoa, e executava sem problemas a grande volta do largo, que, aproveitando o regime de ventos dominantes, trazia as nossas embarcações de regresso dos mares tropicais ao litoral português, longe da vista de terra” como refere Rui Loureiro. Após a morte do Infante D. Henrique, D. Afonso V em 1469 arrendou a Fernão Gomes, por um período de cinco anos a exploração da costa africana.
Com 67 anos, o Infante D. Henrique faleceu a 13 de Novembro de 1460 na sua vila de Sagres. Nessa noite de quinta-feira levaram-no para a igreja de Santa Maria em Lagos, onde foi sepultado com todas as honras e em frente à qual os sacerdotes se ocupavam em contínuas vigílias. Por ordem do Rei D. Afonso V, foram no ano seguinte os ossos trasladar para o mosteiro de Santa Maria da Batalha.
Duas semanas antes de finar, o Infante D. Henrique estando já doente ditou a 28 de Outubro o seu testamento que começa: “Eu, o Infante Dom Henrique, governador da ordem da cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, duque de Viseu e senhor da Covilhã”. Nesse testamento percebe-se a sua forte devoção a Deus a que encomenda a alma e o corpo e lhe dê a salvação na ressurreição, pedindo para tal a ajuda misericordiosa de Maria e de São Luís, a quem desde a sua nascença fora encomendado, que ele e todos os santos e santas e anjos da corte celestial intercedam a Deus pela sua salvação. Pede para ser sepultado no Mosteiro da Batalha e aí se realizem missas e orações por ele, para as quais deixa alguma da sua imensa fortuna, assim como no Convento de Tomar. Das suas rendas do seu assentamento e das saboarias, das ilhas da Madeira e Porto Santo e da Deserta e Guiné com suas ilhas e toda sua renda e o quinto das enxávegas e das corvinas e Lagos e Alvor, por três anos após a sua morte deviam servir para as seguintes despesas: para a sua sepultura, pagar as suas dívidas…” e continua numa extensa lista.
Rui Loureiro refere: “O Navegador, talvez sem o querer, certamente sem o saber, lançara Portugal numa aventura marítima de consequências imprevisíveis, que, muito em breve, haveria de conduzir os nossos navios e os nossos homens à Índia, ao Brasil, à China, e a tantas outras terras e mares desconhecidos”. E terminamos com as palavras de Luís Filipe Thomaz: “Não houvessem os grandes descobrimentos marítimos tido lugar e Portugal teria, quiçá sido, como Aragão, absorvido por Castela.” Por isso a nossa homenagem ao Infante D. Henrique, o Navegador do Céu de Portugal.

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