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Seguindo o Grande Canal, numa viagem que desde Hangzhou nos levará para Norte até Beijing, tentamos acompanhar o curso desta longa estrada de água, hoje com uma parte dos seus mil e setecentos quilómetros desactivada. Encontramo-nos já no Oeste da província de Shandong (Montanhas Leste) e somos levados à cidade antiga de Liaocheng, que se revela uma agradável surpresa pois, sem nunca a ver registada nos Guias de Viagem, apresentou-se como um lugar turístico escolhido por muitos chineses. Trazemos a curiosidade em perceber como a dinastia Yuan conseguiu resolver o atravessar por água as montanhas, para ligar os celeiros do país, maioritariamente em Zhejiang, até à capital dos mongóis na China, Dadu, a actual Beijing. É a secção mais alta do Grande Canal e por isso, viemos saber como foi resolvido um dos maiores trabalhos chineses de engenharia hidráulica, o conseguir elevar os barcos a atravessar montanhas. A tarefa era difícil pois o terreno levantava uma série de questões, resolvidas com a ajuda de reservatórios e comportas. A construção dessa secção terminou em 1327, sendo realizada por elevadores de água a diferentes níveis, encontrando-se o mais elevado a quarenta e dois metros de altitude.
Outro problema mais tarde resolvido foi a turbulência criada nas águas do Grande Canal quando o Rio Amarelo (Huang He), com um nível mais alto, nele caía. Partindo de Jining, em direcção a Liaocheng, a trinta e quatro quilómetros de Dongping o autocarro sai da estrada principal e entra por um desvio de terra batida onde os agitados solavancos molestam os passageiros e a poeira envolve todo o cenário. Os montes estão a ser esgravatados por enormes máquinas, muitos ficando no cume com o espaço reduzido a uma casa, que ali insiste em permanecer. O autocarro parado, na fila de veículos para atravessar o Rio Amarelo, permite-nos vislumbrar aquela paisagem lunar de obras, fazendo os seus estaleiros lembrar o que terá sido a construção de muitas comportas e diques realizada na primeira metade do século XV, para que os sedimentos das águas do rio não atulhassem o Grande Canal, junto ao lago Dongping Hu.
A solução foi dada por um cidadão, Bai Ying, durante o reinado do Imperador Chengzu (Yongle) da dinastia Ming, que propôs a escolha de um lugar onde o leito do canal fosse mais elevado. Nesse ponto, onde desaguava o Wen He, a água entrava no Grande Canal e dividia-se para o Sul e para o Norte. Ao longo do canal foram construídos alguns reservatórios, onde a topografia permitia assegurar um suplemento de água, sendo o seu fluxo equilibrado por trinta comportas. Os construtores fizeram o Grande Canal alimentar com as suas águas o Rio Amarelo, resolvendo assim o problema da turbulência e dos sedimentos que o rio transporta. Desde sempre o Rio Amarelo foi uma fonte de problemas e em 1855, no distrito de Lankao, província de Henan, de novo mudou a sua trajectória para Norte, o que levou o Grande Canal a deixar de ser navegável daí até à capital.
Chegados ao Rio Amarelo, percebemos porque é que o autocarro percorre aquele desvio. Para o atravessar, uma ponte provisória feita de ferro, tipo ponte das barcas devido às quilhas dos flutuadores, contava com pilares de cimento para aguentar os inúmeros camiões que por ali transitavam. Meses depois aí voltamos a passar e já uma nova ponte está construída. A paisagem mudara completamente desde essa primeira passagem e a quantidade de montes que, apesar de muito surripiados de pedra ali se encontravam, agora desapareceram.
Entrando de novo numa impecável estrada de asfalto, vamos passando por campos onde muitos fornos ainda servem para cozer tijolos. Em Donlong voltamos ao contacto com o Grande Canal; a princípio encontramo-lo seco e como vazadouro de lixo, mas, à medida que nos aproximamos de Liaocheng, aos poucos ganha largura e vai-se consolidando.

A antiguidade da zona

Chegamos a Liaocheng já a noite começa a tomar conta da cidade e por isso, escolhemos o hotel junto ao terminal de autocarros. Apenas necessitando de atravessar a rua, somos abordados por algumas pessoas que nos oferecem quartos por um baixo preço, angariando assim muitos clientes. Ficamos no oitavo andar do hotel e pela janela do quarto, a visão nocturna mostra não haver muitas luzes indicativas da extensão e altura da cidade.
Há dois mil e quinhentos anos, no Período Primavera e Outono, para o local onde Liaocheng se encontra o Duque Huan do Estado de Qi marcou uma reunião com todos os duques dos estados afectos à dinastia Zhou do Leste. Aí, na Primavera de 679 a.n.E., o Duque Huan (685-643 a.n.E.) foi escolhido como chefe da Aliança Beixing, nome da localidade onde se realizou o encontro, hoje Juancheng, na municipalidade de Liaocheng e que deu a supremacia ao Estado Qi. Após a reunião, tropas Qi foram enviadas para aí erguerem uma guarnição militar, rodeando-a por árvores Jiao Liao, árvores cheias de espinhos. O local tornou-se estratégico e importante para os Qi, sendo esse bosque em Beixing mais tarde fortificado com muralhas e no seu interior um povoado começou a crescer. No século XIII passou a ser a cidade de Liao, aquando da construção de uma nova via para o Grande Canal.
Acordamos e o nevoeiro acinzenta o dia. Desconhecendo a real dimensão de Liaocheng, apanhamos um táxi para nos levar a percorrer a secção Huitong do Grande Canal, que a atravessa. Transportados por uma larga avenida para Oeste, passamos depois por quarteirões, quais degraus numa escada horizontal, onde o VW-Santana vai circulando e sobre uma ponte, o taxista aponta para o lado direito. Vemos o curso de água interrompido por um monte de terra; mas sorridente, coloca-nos a olhar para o outro lado, onde uma marginal bem arranjada leva os nossos olhos até à ponte feita de vários arcos. Daí reparamos na circunvalação em quadrado, que concentricamente envolve por água o pólo originário da cidade.
Encontramo-nos perante o Museu do Grande Canal e após visitado, seguimos pelo passeio junto à água, de ponte em ponte. Ornamentadas por estátuas de leões, umas grandes à entrada, outras mais pequenas no vão das pontes e a que nos parece a mais antiga, tem nos pilares junto à água representações do dragão Baxia.

O Pagode de Ferro

A secção Huitong do Grande Canal alimenta este lago, cujo centro é uma grande ilha, onde se encontra a parte antiga de Liaocheng e para lá chegarmos, atravessamos pontes que ligam pequenas ilhas. Na margem Oeste do Grande Canal, a Guilda Shanshan, conhecida também pelo Templo ao Sábio Guan, levou sessenta e cinco anos a ser construída. Começada em 1743, no tempo do Imperador Qian Long, só terminou em 1809, após muitas extensões para lhe dar os mais de três mil metros quadrados da área que ocupa. Ao longo do canal, pelo jardim onde habitualmente os mais idosos se juntam para jogar cartas, xadrez chinês e go, estão gaiolas com pássaros colocadas nos ramos das árvores para estes, quais filhos únicos, passarem a tarde em convívio.
Acompanhando a água, atravessamos uma rua, onde ao fundo vemos a Torre do Tambor, edifício que normalmente marca o centro das cidades. Continuamos para um outro extremo da ilha e aí, as antigas casas foram deitadas abaixo e reconstrói-se a continuação do parque, que se pretende a envolver a zona Norte. Os lagos de água parada estão cheios de pescadores pelas suas margens, enquanto vão sendo rasgados canais para dar continuidade ao que se vai fazendo no centro da cidade, embelezando e criando espaços verdes para lazer. Por fim, após passar por uma ponte de pedra a ser construída com o suporte de terra a servir de apoio ao arco, chegamos junto ao Pagode de Ferro, que com dez metros de altura, é um dos quatro ainda existentes na China. Situa o local do antigo Templo de Long Xin, já inexistente, e na área todos os edifícios estão por terra, sobrando entulho.
Nesta viagem temporal, mediada por cinco anos, voltamos ao núcleo da cidade antiga de Liaocheng. Na primeira estadia, a paisagem urbana da ilha central mostrava-se com um forte contraste em relação à cidade nova que a circunda. O quotidiano desenrolava-se sem grande trânsito e as pessoas viviam como em aldeia, sendo as casas térreas e antigas, muitas muralhadas e com pátio, onde o tempo parecia ter parado e muito se diferenciava da outra parte da cidade. Agora, dentro já de um urbanismo cuidado, os novos prédios avançam a cidade e entre eles, o canal Huitong, construído no século XIII, vai sendo dragado aos poucos. Por fim o lago, onde a cidade ganha espelho. Toda ela mostra aos nossos olhos o que estes não se tinham apercebido aquando da visita ao antiquíssimo local de Yang Cheng em Changzhou, província de Jiangsu. Aí faltava o balão para subir e ver de cima o que seria um povoado há três milénios. Essa visão foi-nos oferecida no Museu do Grande Canal, onde varandas em cada um dos três andares permitem ver por cima a planta de Liaocheng.

A actualidade do antigo

Sem perceber como, encontramo-nos na parte antiga da cidade, onde as ruas e passeios, que eram em terra, vão sendo revestidos com pedra e quanto mais nos aproximamos do centro, mais intenso o trabalho das obras. Entramos por estreitas ruas, cujos altos muros escondem os pátios das casas, sendo a nossa curiosidade satisfeita por portões abertos a mostrar de frente um mural de azulejos a receber quem entra.
Já no centro da ilha, a Torre Guangyue foi construída por Chen Yong em 1374 e usou os materiais que sobraram da reconstrução da cidade, feita dois anos antes. Esta, transformada de terra para pedra, passou nessa altura a chamar-se Feng Huang Cheng, cidade Fénix.
Da Torre Guangyue, partem quatro ruas e em torno dessa praça, alguns Bancos perceberam há muito, que aí virá a ser o lugar mais turístico da cidade e por isso colocaram agências nos edifícios para ela virados. Também uma casa com jardim bem arranjado parece ser um museu de alguém famoso, mas está fechado. Depois um outro edifício, este de madeira e de grandes dimensões, chama a atenção e ao tentar entrar, dizem-nos que o museu de pintura fica no outro lado do mesmo complexo.
Continuando a explorar a cidade antiga dentro da ilha percebemos que esta não terá mais de três quilómetros de diâmetro. Ao passear por um dos seus cantos, encontramos um idoso vestindo roupas que já desapareceram do quotidiano chinês, o que nos chama a atenção e pedindo para o fotografar, aceita. Já nas despedidas diz-nos algo e pelo gesto parece pedir para lhe enviarmos a fotografia. Retiramos o bloco do bolso e passando-o para as suas mãos, começa a escrever, o que pensamos ser o endereço, mas este não pára e ocupa a folha toda. Tentamos saber em todos aqueles caracteres onde a se encontra a morada e então, com poucas palavras, convida-nos a ir a sua casa. Den Jin Lu nascera em 1925 em Liaocheng e aos dez anos servira como ajudante voluntário no exército. Já em 1936 juntou-se a Zhou Enlai durante dois meses e desde Julho desse ano passou a seguir Fan Zhu Xian, entrando em 1940 para o Exército e tornou-se membro do partido Comunista passado três anos. Estudou na universidade e combateu os japoneses, tendo o senhor Den em 2004 escrito sobre essa época e o seu superior Fan Zhu Xian. Ainda nessas deambulações damos com um artista que, pelas dimensões da folha de papel de arroz onde desenvolve a reprodução de uma pintura a tinta de água, necessita da rua para atelier.
Olhando ao fundo os altos edifícios, saímos da cidade antiga pela longa e bonita ponte de mármore branco. Com vinte e um arcos, tem as pedras gravadas em relevo com imagens retiradas da novela do século XIV, Margem da Água (ShuihuZhuan), a representar histórias como a de Wu Song bateu num tigre até este morrer, ou Sun Er-Niang tornou-se dono de um restaurante, matando e comendo os seus comensais.
Na segunda visita, em 2012, estranhamos o que os nossos olhos vêem. A cidade antiga está a ser muralhada, contando já com uma grande frente e uma porta. Chegados à parte nova da cidade, seguimos para apanhar o autocarro em direcção a Linqing e continuar a perseguir o Grande Canal.
Liaocheng é uma cidade com vasto potencial para surpreender pela positiva os visitantes. Se para um estrangeiro, o que esta cidade tem para mostrar não parece significativo, comparado com os muitos locais de grande qualidade e antiguidade que existem pela China, já para o turismo interno mostra-se com grandes potencialidades, tanto culturais, como históricas e de lazer. Esconde ainda por baixo da terra muitos episódios do livro da História antiga da Civilização chinesa, que ficarão para outra história.

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